terça-feira, 30 de junho de 2020

WC Pato

Suponho que certas coisas não sucedem por mero acaso: em cerca de um mês, já servi de depósito para dejectos de aves em pelo menos três ocasiões. Estou, ainda assim, a tentar evitar as conclusões que naturalmente decorrem destes factos. Já tenho aborrecimentos suficientes. Entre ontem e hoje, por exemplo, perdi sete horas da minha vida na acção de formação profissional a que anteriormente aludi, literalmente de braços cruzados à espera de que acontecesse qualquer coisa. Nem tudo é mau, porém: aqui dentro os pássaros têm mais dificuldade em acertar-me.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Chafurdar na fonte

Tive sorte. Aprendi o pouco que sei de jornalismo com um grupo incrível de grandes profissionais que sonharam criar um jornal diário único. Lembro-me, por exemplo, de um seminário com um dos directores do El País, durante o qual ele nos explicou porque se recusavam a noticiar eventos de boxe e, confrontado com as nossas perguntas, procurou justificar a flagrante contradição com a regular divulgação de touradas (continua a fazê-lo). Tratava-se de estabelecer uma fronteira de bom senso e de bom gosto, como bem a definiu, à época, o Vicente Jorge Silva, apesar de sempre se poder argumentar que a recusa da tourada ou do boxe pode representar também uma forma de censura.

Quase trinta e um ano depois, o jornalismo tornou-se praticamente irrelevante. Perdeu leitores, perdeu profissionais e perdeu órgãos de informação, substituídos por uma coisa acrítica e facilmente manipulável como são as redes sociais. É relativamente fácil banir espectáculos sanguinários como a tourada e o boxe, mas creio que ninguém questiona se é aceitável fazer eco das declarações ilegais, celeradas e até criminosas de líderes políticos (e não só) cuja existência depende precisamente da veiculação acrítica de todos os disparates e de todas as mentiras, a coberto da ficção da imparcialidade.

Percebem-se muito bem os motivos pelos quais cada vez menos gente "consome informação jornalística". Se é para ter acesso a uma réplica do lodo que circula nas redes sociais, mais vale chafurdar directamente na fonte.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Palomar revisitado

Inspirado pelos indivíduos que defendem a castração química dos condenados por crimes sexuais, o senhor Palomar pondera que os fascistas e racistas deviam, por analogia, ser condenados à lobotomia integral. Mas, pensando bem, o senhor Palomar receia que, neste caso, não se notasse muito a diferença.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

A melhor coisa que me aconteceu este ano

A pandemia covídica, e o estado de emergência que se seguiu, foi, em pelo menos uma dimensão da realidade, a melhor coisa que me aconteceu este ano. Graças ao recolhimento obrigatório vi interrompida, durante quase três meses, uma inútil formação do IEFP que constitui um imenso desperdício do meu tempo e que, agora que foi retomada, conta apenas com os únicos cinco formandos que não encontraram ainda forma de a abandonar.

Mentiria se ocultasse que me cabe uma parte da responsabilidade desta idiotia: acreditei inicialmente na possibilidade de uma formação profissional qualquer poder vir a ser de alguma utilidade no caso de necessitar de procurar uma nova carreira. O que não pude imaginar é que tentariam formar-me numa determinada área profissional sem a ajuda de uma única pessoa com experiência de trabalho real nessa área, como se, de algum modo, procurassem fazer de mim canalizador sem jamais ter tido contacto com um canalizador de verdade; ou pasteleiro sem que me ensinassem a fazer pastéis.

Acresce que a referida formação assenta num conjunto de módulos cujo conteúdo (puramente teórico) se repete e repete sem qualquer propósito distinguível. Àqueles módulos correspondem, por outro lado, pacotes horários claramente excessivos para o teor das aulas e para as respectivas necessidades. Daqui resulta que passo a maior parte do tempo de braços cruzados à espera da hora do intervalo para o café ou da hora de saída, o que constituiria uma forma soberba de perder tempo se o tivesse em excesso.

Não é o caso. Sei que um dia destes morrerei e que cada uma das horas passadas dentro daquela sala infernal foi apenas um desperdício tremendo, ao qual terei de me sujeitar durante meses e meses, talvez por mais um ano, sem que exista qualquer perspectiva real de a dita formação me servir para alguma coisa, numa actividade profissional em que milhares de trabalhadores se tornaram excessivos por força das consequências da pandemia. Não posso, porém, abandonar o curso sem abdicar também dos 650 euros que constituem o meu subsídio de desemprego e todo o meu rendimento disponível actual, o que limita bastante a minha existência enquanto cidadão livre e capaz de dispor da própria vida.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Natureza viva

Ah!, as delícias do interior, do campo, da natureza. As aves gorjeiam quando o dia amanhece. As papoilas florescem, rubras e luminosas. Os borregos balem e ruminam. As vacas mugem e sacodem as grande cabeças. Os carvalhos agitam as folhas tenras. A ribeira limpa passa e sussurra sob a ponte da linha férrea desactivada. Os campanários dobram. As oliveiras libertam o pólen amarelo. O mato medra. As andorinhas riscam o céu azul em vôos rápidos, nervosos. Uma acaba de defecar amorosamente em mim.

domingo, 24 de maio de 2020

Sítios que fazem mal à saúde

De acordo com as autoridades nacionais de saúde, o surto da Covid 19 surgido numa unidade da Sonae na Azambuja tem como explicação as "condições sociais" em que vivem os trabalhadores daquela empresa e o facto de serem migrantes (o discurso oficial chama-lhes "trabalhadores deslocados"). Ora, e ainda de acordo com as notícias, os indivíduos doentes que ali trabalham são, no essencial, indianos e paquistaneses.

Os responsáveis da Sonae MC, e por motivos bastante óbvios, garantem que foram feitas análises e que as instalações não têm um único ponto de contaminação (sossegai, consumidores).

A ser verdade, resta, ainda assim, um elemento que transforma aquela unidade industrial num local muitíssimo perigoso: os ordenados pagos hão-de ser tão espectaculares que mesmo aqueles trabalhadores essenciais (que continuaram a laborar durante o Estado de Emergência e todo o alarme pandémico) não têm condições para desfrutar de uma vida minimamente saudável, isenta das "condições sociais" que, pelos vistos, favorecem ou justificam a transmissão desta e de outras doenças.

Se, tendo em conta os elementos conhecidos, me fosse pedida opinião (o que, pelos motivos óbvios, nunca acontece), eu não teria qualquer dúvida em considerar que a Sonae MC da Azambuja, e os ordenados que ali pagam, fazem mal à saúde dos seus trabalhadores e são, por isso, um perigo para a saúde pública. Mas eu tenho muito mau feitio e hei-de, por isso, ficar desempregado durante muito tempo.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Desconfinamento

Palavra de honra: prometo solenemente não escrever nenhum livro de ficção remotamente relacionado com o tema da pandemia vigente, evitando, desse modo, contribuir para a avalancha de livros dedicados ao confinamento que, segundo tenho lido, promete agitar o mercado editorial no decurso dos próximos meses. Os que me lêem, sendo pouquíssimos e contados, conhecem-me e saberão sobejamente que sou avesso a multidões, avalanchas, ajuntamento, romarias e tendências dominantes. Estou perfeitamente bem no meu canto, no meu reduto, na margem que me calhou guardar, e temo inclusivamente ter amofinado os ocasionais leitores do Teatro Anatómico com a sucessão despropositada de textos vagamente relacionados com a trepidação pandémica. Já bem me chegou ter de viver esta época tão peculiar da nossa vida em sociedade, ou do nosso súbito, desmedido e exagerado apartamento social, para que ainda fosse agora escrever alguma coisa mais avantajada em torno de um episódio tão aborrecido e acabrunhante. Tirando isto, o meu desconfinamento vai de vento em popa. Já marquei hora no barbeiro e venho de fazer a radiografia aos pulmões e o electrocardiograma com prova de esforço que o súbito esvaziamento de tudo haviam adiado. Em ambos os casos os técnicos encarregues de manipular as máquinas me perguntaram pelo motivo do exame. Disse-lhes que não sei. Suponho que se trate apenas de mais um dos inconvenientes da idade, a par da misantropia, das pastilhas para o colesterol (que não vou tomar) e do mau feitio.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Quando vierem por mim (recordando Martin Niemöller)

Quando eles vieram pelos muçulmanos, eu, não sendo muçulmano, procurei explicar de diferentes formas que se tratava de uma estupidez sem tamanho.

Depois eles perseguiram os migrantes e até livros escrevi sobre o assunto. Há-de sair outro daqui a pouco tempo. Não fará grande diferença, mas sinto-me, ao fazê-lo, um ser humano um pouco mais decente.

Depois voltaram-se contra os chineses e também sobre este assunto disse o que tinha a dizer.

Agora os energúmenos voltam a vir pelos ciganos. Recordo, a propósito, que somos todos um pouco ciganos (onde foi que já li isto?) e saliento, já agora, que tenho visto muitos caucasianos brancos e, no geral, pessoas de todas as cores a violar as regras do confinamento, alguns indo em magotes apanhar sol para a praia. Eu mesmo contorno todos os dias aquelas regras.

Espero, pois, que, no dia em que vierem por mim, haja ainda alguém que possa protestar. Nem que seja o Ricardo Quaresma.


P.S.: é impressão minha ou nenhum dos conas que compõem a seleção nacional de futebol teve tomates para se mostrar solidário com o colega atacado pelo mais reles fascista nacional? Aliás, creio que só o Sporting e o Sindicato dos Jogadores o fizeram. É muito pouco.

terça-feira, 5 de maio de 2020

A conspiração que mais nos convém

No estabelecimento aonde todos os dias tenho ido comprar pão e café, ouvi hoje uma mulherzinha comentar que, não fechando bem a mala, o imbecil da Casa Branca lá terá alguma razão quando diz que a culpa disto tudo é dos chineses. A criaturinha, que há-de ser semelhante a milhões e milhões de outros homúnculos que habitam a superfície terrestre e não justificam o ar que respiram, não se dá ao trabalho de usar o único neurónio com que nasceu. Ouve e repete — ainda que só escute a parte que lhe enfiam pela goela abaixo e ignore que ninguém com dois dedos de testa corrobora a teoria da conspiração do celerado de cabelo amarelo; ou ignore que os chineses têm uma teoria semelhante, segundo a qual foram os norte-americanos a atacá-los com um vírus (o que, em termos práticos, até faz algum sentido, já que a China foi o primeiro país afectado pela doença).

Num mundo minimamente são, havia de ser garantido aos cidadãos que nele habitassem o direito a escolherem, pelo menos, a teoria da conspiração que melhor lhes calhasse. Todavia, da paranóia pandémica aliada às maravilhas dos algoritmos internéticos parece resultar que às pessoas seja negado o mais básico acesso ao catálogo completo das conspirações. Os bichos humanos comem apenas a conspiração que as redes sociais lhes enfiam pela goela abaixo, repetindo mil vezes a mentira do momento até que estejamos todos capazes de odiar o estrangeiro chinês (do mesmo modo que, noutro tempo, se preparou a consciência alemã para que os campos de concentração e morte parecessem uma coisa normal; do mesmo modo que não há muitos anos se criou a mentira do arsenal nuclear iraquiano para que outro anormal republicano pudesse ganhar uma eleição presidencial; do mesmo modo que, antes do vírus, o perigo chinês vinha da espionagem informática; do mesmo modo que...).

Para que o trabalho de xenofobização seja ainda mais eficaz, os media tradicionais ocidentais — e os supostos "jornalistas" que neles trabalham — mostram-se absolutamente cooperantes com a tragédia em curso e disponíveis para serem meras caixas de ressonância do doido de Washington e dos respectivos delírios. Na verdade, os meios de comunicação social parecem muitíssimo empenhado em imitar as redes sociais e em difundir os soundbytes de qualquer fascista ou qualquer alarvidade que esteja "a dar" no twiter ou no facebook, aparentemente incapazes de perceber que, para ter acesso à mesma bosta que gratuitamente circula "na rede", ninguém no seu perfeito juízo vai estar a gastar um cêntimo que seja para sustentar um jornal.


P.S: a quem possa ter achado que o teor do texto acima peca por algum exagero, veja-se esta pequena demonstração do doce mundo de maravilhas que havia de emergir da crise pandémica.

terça-feira, 21 de abril de 2020

O doce paraíso das crianças cândidas

Sossegai. Não vou dedicar esta página do meu confinamento aos novos alvores da tele-escola, que o ministério agora modernizou com um hashtag à maneira, a fim de procurar encantar os petizes. Move-me, isso sim, o mais recente discurso do nosso professor Pangloss, de acordo com o qual não apenas vivemos na melhor das pátrias possíveis como também num país que é ele próprio um milagre com quase nove século, aleluia. Embora tenda a desenvolver maior apego pelos milagres com pernas e pelas lições de física experimental que se lhes pode ministrar, não deixo de me comover alguma coisa e de escutar as harpas celestiais de cada vez que o nosso bom Pangloss nos coloca a par da sua filosofia tão optimista. Tudo vai, pois, pelo melhor. Veja-se o caso das máscaras. Não terá transcorrido mais de um mês desde o momento em que — de acordo com as autoridades nacionais e mundiais de saúde — as máscaras não deviam ser usadas. Agora dizem-nos que passarão, mais cedo ou mais tarde, a ser de uso obrigatório e, suponho, punível com multa ou admoestação administrativa o respectivo incumprimento. Independente das mui válidas razões que terão estado na origem das flutuações dos discursos técnicos e políticos oficiais (evitar o desporto nacional do açambarcamento e garantir que os profissionais de saúde dispunham de um recurso para eles essencial), não deixa de parecer estranha tão radical mudança de ordens e, por isso, passível de dar razão aos neofascistas que engodam à custa de afirmar a falsidade e a impostura dos outros políticos, todos iguais e tão igualmente pouco confiáveis. Não devemos, porém, levar demasiado a peito que os políticos de um e do outro lado tratem o cidadão comum como se tratam as crianças tontas que têm de ser enganadas para comer a sopa toda. Ao fim e ao cabo, é exactamente como crianças tontas, dóceis e fáceis de ludibriar que os supostos cidadãos se comportam durante a maior parte do tempo, acreditando candidamente na cantiga de qualquer Pangloss.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Requiem por Rubem Fonseca

Foda-se, José. Estava a mexer o frango na panela quando me disseram, porra, que tu morreste. Que merda é essa, Zé Rubem? Que merda de enfarte mais filho da puta é esse, cara? Em que caralho de livro essa gente leu que tu morreste, velho? Não sabem, esses cretinos, que os imortais não morrem? O que aconteceu, agora eu sei, é que há um cadáver novo, fresquinho, lá no necrotério, e dizem que é o teu cadáver, os imbecis. Mas o Rubem Fonseca que eu conheço, o fescenino, o Mandrake, ainda vai comer muita mulher magra, muita mulher com os peitos pequenos, vai beber muito vinho tinto português ruim pra caralho e, do meio deste mundo prostituto, levar todos os amores e o melhor charuto. Sentir todas as vastas emoções e pensar todos os pensamentos imperfeitos. Os idiotas do telejornal também disseram que morreu um dos mais importantes escritores brasileiros. Filhos de uma mãe mal afamada, que não sabem que és um dos maiores escritores da puta da Língua Portuguesa (hoje vai mesmo em maiúsculas que é para cabrão nenhum botar defeito) e que, se é para morrer, tem de ser com veneno de bufo, que é o único capaz de derrubar um velho duro como tu. Contei agorinha mesmo 29 livros teus na minha biblioteca, 29 livros que hei-de ler e reler todas as vezes que eu quiser, divertindo-me como da primeira, às vezes lembrando-me desse ano em que nos cruzámos na Póvoa de Varzim, tu carregando uma bengala e fingindo mancar, grande cara, mais fresco que uma alface quando subias ao palco e ficavas a declamar Camões caminhando de um lado para o outro e brincando de peripatético. Já não sei, Zé Rubem, em que livro teu foi que eu li e reli que viajar é uma maneira de conhecer imbecis que falam línguas diferentes. Lembrei-me disso agora porque imbecis de todas as línguas estão presos em suas casas, cagados de medo de uma doencinha qualquer, ignorantes de que um cara que é cara morre de uma coisa decente e já mortos de vontade de voltar a ir conversar com idiotas de outras línguas e contaminar-se com doenças de outras latitudes, que depois hão-de espalhar pelo mundo achando tudo muito bem e muito legal, oba-oba. A puta que os pariu, Zé Ruben. Onde é que tu está agora? O caralho é que tu morreste. Nem fodendo eu acredito nisso.

domingo, 12 de abril de 2020

O tamanho também conta

Espero que vos estejais preparando, gentis leitoras, cordiais leitores, para amesendar convenientemente e enfardar todas as delícias que a quadra festiva aconselha, acompanhando-as com os melhores vinhos e licores. Se existe coisa há muito óbvia, e que não mudou por termos de estar fechados em casa, é que a vida é demasiado curta para beber maus vinhos e que comer bem é a melhor vingança de todas. Ergo, pois, os meus brindes mais copiosos a quem possa ainda estar desse lado acompanhando esta espécie de diário destemperado do confinamento, a todos sem excepção, mesmo àqueles que também tenham partilhado imagens anatomicamente impossíveis do caminho das zaragatoas ou aos que consideraram de alguma utilidade divulgar uma desenhoca em que apareciam vírus encarnados do tamanho de autocarros de dois andares pairando numa avenida e que, tão cândidos, ainda nos perguntavam se sairíamos à rua se fôssemos capazes de ver o bicho. Confesso que, se o vírus fosse daquele tamanho, teria pelo menos o cuidado de não ser atropelado por um, do mesmo modo que não sairia de casa se pudesse ver as partículas tóxicas libertadas pelos automóveis ampliadas na mesma escala absurda, nem mergulharia no mar se fosse para nadar com baleias de mercúrio e coliformes fecais do tamanho de atuns. O pior de tudo é que vi gente com alguma responsabilidade social, por exemplo jornalistas, partilhando esta espécie de esterco virtual, que a mim me parece de uma estupidez pelo menos da altura do Empire State Building, sem cuidar de que apenas estão a contribuir para fazer medrar a confusão e o medo, esse medo subterrâneo e daninho de que alguns se hão-de aproveitar não tarda nada para cousas tão lindas como um estado de emergência permanente. Se me não equivoco demasiado, até me parece que alguns autarcas (todos do mesmo partido, não é giro?) já estão a aproveitá-lo para iniciar a campanha eleitoral que se avizinha. Aparecem todos os dias na televisão e exigem coisas tão essenciais como poder gritar os números de contaminados da paróquia ainda antes de os terem comunicado às autoridades competentes. Até parece que querem todos ter no meio da sala um vírus gordo e vermelho maior do que o do vizinho, que seja pelo menos, vá lá, do tamanho de um pão-de-ló.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Aquilo que é realmente importante

Este é o tempo, segundo o marketing de alguns grandes conglomerados financeiros, de dar atenção àquilo que realmente importa: a família e aqueles que nos são mais próximos, o denodo de quem continua a trabalhar para que os outros madracem, os belos sentimentos, o altruísmo, os valores da solidariedade, a poesia no final dos telejornais e a protecção da saúde de todos. Este é o tempo, escuta-se a toda a hora, de reinventar o nosso modo de vida, tão depredador e consumista. Há-de ter sido esta fundamental consciência do verdadeiro cimento da vida em sociedade que levou os vigaristas encartados e outros operadores económicos, particularmente os grossistas de material sanitário, a criar burlas totalmente novas e a inflacionar os preços das máscaras cirúrgicas, dos desinfectantes e de outros produtos especialmente procurados neste período pandémico, cujos preços subiram 400, 500 e até dois mil por cento. Trata-se, bem vistas as coisas, de instituições geridas por pessoas que também têm família e que, findo o estado de emergência, carecerão de um chalé novo no Algarve ou, vá lá, da tranquilidade absoluta e do descanso livre de impostos que proporcionam as instituições financeiras dos Barbados ou do Belize. Fique em casa e não atrapalhe quem está a trabalhar para o próximo — para o próximo Maserati, por exemplo.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O baile das drosófilas

Encerrado em rigorosíssimo isolamento social, disponho agora de todo o tempo do mundo para observar as moscas — silenciosa companhia e distracção do meu confinamento. Entram-me em casa a cada manhã, assim que franqueio as janelas para arejar os espaços domésticos, e retiram-se impreterivelmente ao final da tarde, guiadas pela luz ou pelo ar fresco (hipóteses de trabalho que carecem ainda de estudo mais aturado e posterior validação científica). Enquanto beneficiam da minha companhia, e eu da delas, produzem uma espécie de bailado irregular, ora lento, ora frenético, o qual parece misteriosamente obedecer às mais insignificantes reverberações atmosféricas. Enleiam-se umas nas outras e depois afastam-se sem nenhum motivo aparente, embora, creio, a sua agitação dependa substancialmente dos ruídos do ambiente e das mais subtis modulações sonoras. Por exemplo, pairam amenamente durante grande parte dos discursos presidenciais explicativos da emergência pandémica, mas sobressaltam-se quando o presidente sublinha certas palavras da alocução, como desafio, doença, pátria ou morte. Fico, pois, a vigiar atentamente estes mínimos movimentos das moscas, as alterações do seu humor, umas vezes atento como um mocho, outras vezes entorpecido, como hipnotizado pelo lento baile das drosófilas, perguntando-me se os insectos que me visitam se revezam apesar do observador ser sempre igual.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Mês europeu sem carros

Quando, em 2000, a União Europeia adoptou o Dia Europeu Sem Carros, nascido três anos antes em França, Greta Thunberg ainda nem sequer havia nascido. Pretendia ser uma iniciativa de consciencialização ambiental, uma forma de começar a salvar o mundo em que vivemos, já então severamente ameaçado, mas o efeito da campanha jamais alcançou resultados sequer comparáveis com o panorama limpo de que agora, por força do alarme pandémico, se desfruta em tantas e tantas cidades da Europa e do mundo, nas quais quase não há carros, gente ou qualquer tipo de actividade que justifique as fileiras de grandes edifícios cercando as avenidas e auto-estradas demasiado anchas para tão pouco trânsito. É, de algum modo, como se a Humanidade considerasse absolutamente urgente salvar-se a si própria, continuar a viver e triunfar mais uma vez sobre a finitude e sobre cada nova ameaça de morte que se lhe depara, sem ponderar no paradoxo que será continuar a existir sem que haja também um planeta em que lhe seja possível habitar. Nestes dias, e de uma forma sem paralelo, o Homem trava, assim, um combate indómito pela sobrevivência, uma inédita batalha contra a morte e o fim. E, todavia, vamos provavelmente continuar a viver e a perder tempo em coisas inúteis como se, de algum modo, nos fosse permitido viver para sempre.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Cerco do Porto

A cidade quase vazia não vai, afinal, ficar rodeada por uma cerca sanitária semelhante à exigida pelo sempre excitado Malheiro, provavelmente convencido da futura utilidade eleitoral de tanta efervescência. Segundo me contam, aliás, uma rádio local ovarense não encontrou nada melhor para ocupar o domingo do que entrevistar em directo para as redes sociais a irmã do jovem atleta de Ovar que faleceu de meningite, contribuindo deste modo para aumentar o pânico e o medo relativamente à doença pandémica de que o rapaz acessoriamente padecia. Demonstrando que nem sempre é muito útil contar os tombados em combate enquanto ainda dura a refrega, nem reagir com histeria e precipitação a cada sopro do ar, comprovou-se também que os número que justificariam o novo cerco do Porto estavam, afinal, errados — o que só escassamente nos sossega. Acossados por um muro de ruído que tão depressa produz  uma informação como o seu exacto contrário, os cidadãos dificilmente são capazes de saber ao certo no que podem e devem acreditar ou levar a sério, encerrando-se e enclausurando-se em grutas sombrias governadas ora pela frenética ilusão das sombras mediáticas, ora pela dúvida, ora pelo medo. Nada, pois, como sair para apanhar algum ar fresco e caminhar socialmente isolado, meditabundo e um pouco louco. Aqui como na Alta Bretanha, lá longe, o ar continua cortado pelo vôo belo das pegas-azuis e pelo trânsito das nuvens que não conhecem a insanidade das barreiras, dos muros e dos cercos.


terça-feira, 31 de março de 2020

Lavar as mãos

Há na cidade um enorme silêncio, creio que já o escrevi, e também alguma coisa que faz pensar nas paisagens desoladas, de ruína, que W.G. Sebald descreve em alguns dos seus livros. Sobretudo agora que o céu se pôs cinzento como nas paisagens e nas charnecas do Suffolk, e, conforme escreveu Marguerite Poradowska, a tia de Konrad, a vida se assemelha a uma tragicomédia em que cada qual tem de desempenhar o seu papel. "Beaucoup de revés, un rare éclair de bonheur, un peu de colère, puis la désillusion, des années de souffrance et la fin".

Confinado bufão, releio Sebald e, conforme os melancólicos pescadores de solha que acampam a sul de Lowesoft, desejo também assentar num sítio onde tivesse o mundo atrás das costas e na frente apenas o vazio: um rincão onde não chegasse o silêncio da cidade esvaziada pelo alarme pandémico, a histeria ruidosa e incompreensível dos alarmados de serviço, as torpezas de sempre e certas histórias tristes, como a notícia de que a filha de um homem decente acima de todos os outros ganha a vida a fazer limpezas no Luxemburgo e apenas se tornou visível à custa das consequências do surto covídico, as quais, bem se vê, nunca são iguais para todos.

Também, como Sebald, não sei muitas vezes por que continuo a escrever, "se por mero hábito ou por procurar prestígio, ou porque não aprendi a fazer outra coisa, ou por a vida me deslumbrar, por amor à verdade, por desespero ou por indignação, tal como não sei se escrever me torna mais sensato ou mais tolo". Esta manhã, caminhando insensata e transgressivamente numa avenida vazia, parei para ver uma mula a comer as florzinhas brancas e primaveris que nasceram na erva da beira do passeio. Algo deslumbrado com a tranquilidade do animal e completamente tolo, isto é quase certo, lembro-me do que diz a filha de Salgueiro Maia, do orgulho que tem no trabalho limpo que faz, e penso nos ofícios porcos de certa gente que passa a vida remexendo em lixo e lodo e apenas metaforicamente suja as mãos ou os brancos punhos das camisas.

Outra vez cogito que as pessoas com orgulho no seu trabalho, briosas da tarefa bem feita, não necessitam de que as aplaudam da varanda ou de serem protagonistas das campanhas de relações públicas dos respectivos patrões. Hão-de, suponho, preferir que as tratem dignamente e que dignamente lhes paguem o essencial trabalho que asseadamente executam. Vivêssemos todos assim e não seria preciso lavar as mãos tantas vezes.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Acabar com a tosse

Não tenho hoje vontade nenhuma de escrever uma nova entrada nesta espécie de diário pandémico, desde logo por ter despertado com a chuva percutindo nas janelas e não ter assim tanta graça ficar em casa por força deste vento daninho. Nem à varanda se está a gosto, pois nenhum sol vem aquecer a meditativa fruição da cigarrilha. As ruas, de resto, estão ainda mais vazias do que tem sido costume, varridas pela ventania e mais tristes, se é possível imaginar ainda alguma coisa mais inóspita do que uma cidade sem gente. Escasseiam mesmo os indivíduos passeando os seus animais domésticos e as inevitáveis neuras do confinamento, o que há-de regozijar bastante os rigorosíssimos fiscais da pandemia. Impossibilitados de cumprirem a sanitária função de controladores e bufos dos cidadãos que passam demasiado tempo a passear a trela e daqueloutros que, pasme-se, descobriram repentinamente os benefícios do exercício físico apenas com o fito de ludibriarem as autoridades, a brigada SS da pandemia há-de agora estar a aborrecer-se muitíssimo. Estou certo, porém, de que encontrarão rumores e notícias falsas suficientes para manter acesa a chama da partilha de imbecilidades nas redes sociais, o que provavelmente os distrairá do mundo real e, desde logo, do caso daquele horroroso viajante a quem foi tirada a tosse no aeroporto de Lisboa ainda antes de que algum sintoma covídico nele se manifestasse. Talvez os fiscais do isolamento social não tenham também reparado que, nas últimas 24 horas, o aumento do número de novos casos da doença em Portugal corresponde a um crescimento de apenas 7,5%, muito abaixo, creio, das expectativas mais optimistas. Embora os jornais, noticiários e programas de entretenimento se comprazam em dar voz a gente para a qual tudo estará sempre à beira da catástrofe e da ruptura, do caos e do apocalipse, tenho a sensação de que, bem vistas as coisas, as autoridades sanitárias competentes e o tão denegrido Sistema Nacional de Saúde não estarão, afinal, a dar assim tão má conta deste recado. Mas isto, se calhar, é uma coisa só minha. Já sabem que sou um bocado maluco.

domingo, 29 de março de 2020

Pega rabuda

Calmai-vos, cafajestes. O título desta humilde prosa pretende apenas prestar tributo a uma bonita ave que tem vindo visitar o deserto da praceta, depenicando aqui e ali antes de alçar vôo num assombro de penas negras, brancas e azuis. Pode parecer assunto de pouca monta, mas a pega-rabuda faz muitíssima companhia aos confinados com fracos pretextos para andar na rua a tentar romper os cercos policiais e que, por isso, se deixam ficar na varanda a tragar o fumo das últimas cigarrilhas e a tomar o sol que aqui chega enquanto as árvores se vão cobrindo de folhas novas. A despeito da pandemia e do alarme instalado, a Primavera mantém intactos os seus naturais encantos e os melros continuam a acamaradar nos galhos indiferente ao susto pandémico.

Por falar em galhos, lembro-me daqueles em que, tão coloridos, costumam medrar os limões. Os dois espécimes que alguém gentilmente me deixou à porta de casa estão, como creio que importa ao rigoroso cumprimentos das normas sanitárias, a cumprir o período obrigatório de quarentena compulsiva, na medida em que não estou em condições de garantir que se tratem de frutos nacionais, nados e criados em solo pátrio e, por isso, isentos de vírus estrangeiros. A própria garrafa, alegadamente de origem escocesa, manter-se-á proscrita e sujeita a um férreo regime de isolamento social, não suceda, conforme me foi já sugerido, ser parte constituinte de uma pérfida bomba de covid, uma granada pandémica destinada a deflagrar entre as minhas mãos, tão ingénuas e incapazes de se precaverem contra os inimigos invisíveis que se amoitam sordidamente, à espreita, a cada passo, a cada instante, da ocasião propícia para envenenar o sangue deste trágico escriba sem remuneração.

Não deixo, bem entendido, de estar grato e reconhecido ao autor ou autores da mui generosa oferenda, quais reis magos da caverna onde me refugio. Mas é como diz um vizinho meu que até deixou de correr nos montes, equipado a rigor, e que agora só abandona o pulcro esconderijo do lar para trazer um detalhe canídeo a obrar na rua: é preferível não correr riscos desnecessários. O seguro, já se sabe, morreu de velho e não consta que tenha contraído o bicho ruim que agora por aí transita.


P.S.: o atentíssimo Jornal de Notícias anuncia hoje, ao menos na sua versão online, que, em França, o Covid-19 fez a primeira vítima entre a realeza. Talvez valha a pena que alguém informe o matutino de que a França é uma república há já algum tempo. E por falar em monarquias: como estará a saúde do rei dos frangos?

sábado, 28 de março de 2020

Desinfecção e gratidão

Respiro agora um ar puríssimo quando corro pelas ruas da cidade. Encho os pulmões em grandes sorvos e também os olhos com as vistas quase completamente desimpedidas dos turistas e dos indígenas que costumavam atravancar-me os caminhos mais apertados. Posso usar o asfalto sem carros para correr, dono do espaço e do tempo, do vento e dos reflexos na água do rio. Atravesso as pontes sobre o Douro, de uma margem para a outra, e desfruto como nunca de uma vista de pássaro, limpa. Devo, de algum modo, agradecê-lo ao vírus que aí anda, pois de outro modo não beneficiaria desta plenitude, desta cidade ancha e bela, nem provavelmente dos leitores que tenho, estejam eles onde estiverem. São poucos, é certo, mas são os melhores leitores do mundo. E tenho provas. Hoje, ao regressar a casa, alguém que havia lido o meu lamento gemebundo de constipado, o queixume pela má qualidade do whisky que comprei e pelo esquecimento dos limões para a suadouro, teve a extrema simpatia de me deixar à porta uma garrafa de J&B e dois citrinos de aspecto impecável. Da minha caverna de pessimista recalcitrante acendo, pois, um círio de ilusão e envio um abraço simbólico — distante e isolado como convém, mas profundamente grato ao portador daqueles dois produtos capazes de garantir, agora sim, a eficiente desinfecção, interior e exterior, deste alquebrado animal pandémico. Prometo, naturalmente, não abusar de tamanha generosidade nem passar a publicar no Teatro Anatómica a lista completa das minhas compras de sibarita pelintra.