sexta-feira, 12 de julho de 2019

A esdruxulização da língua

Nunca sei se me indigne ou se me divirta com os locutores e pivots de rádios e televisão que insistem em esdruxulizar palavras que se limitam à simplicidade de serem graves. Escuto vácina, escuto méstrado, escuto grévista, e às vezes, para além de pasmar, cogito se a nova ortografia de pendor fonético já terá produzido alterações tão vanguardistas na carne da língua. A praga, porém, avança de dia para dia e quase já não me espanto de ouvir palavras esdruxulizadas à força, o idioma avacalhado por línguas de trapo. Mas ontem, palavra de honra, ouvi uma locutora de rádio proferir o nome da localidade de "Álvaiázérê, no distrito de Leiria". E não era brasileira.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

O Tripeiro

Uma pequeníssima nota de pé-de-página na Visão de hoje informa-me que o restaurante Tripeiro fechou as portas. É apenas uma verdade parcial. O Tripeiro acabou quando, há coisa de dois anos, o estabelecimento foi adquirido por um dos vampiros ditos empresários e que enriquecem à custa do turismo. O velho e saudoso Tripeiro - mal iluminado, com velhas relíquias de bricabraque penduradas nas paredes e funcionários que pareciam ali estar desde sempre - passou nessa altura a ser um banalíssimo lugar de comidas com uma decoração modernaça, candeeiros amplos como ovnis, pratos de autor e uma moça louríssima à porta, a fazer de relações públicas e de dissuasora de gente remediada, embora, uma vez acomodados, os clientes se confrontassem com Tripas à Moda do Porto que nem sequer eram servidas quentes. Neo-abandalhado como estava, o Tripeiro não faz falta nenhuma.

Devia ser obrigatório

Devia ser obrigatório afixar a crónica de hoje do Ricardo Araújo Pereira, na Visão, em todos os locais públicos de todos os países, e publicá-la nos manuais escolares, e servi-la com a sopa às criancinhas; e enfiá-la depois pelo bucho dos adultos que ainda encontrassem motivos para continuarem a ser idiotas racistas e intolerantes.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Uma pequena morte

Recordo o sonho de modo vago e confuso: numa sala que não sei localizar, o chão estava pontilhado de aves mortas. Os pássaros, muito coloridos e predominantemente vermelhos, e disto lembro-me com clareza, lançavam-se em vôos rápidos de encontro a uma vidraça, um de cada vez, o que fazia cogitar que se suicidavam de modo deliberado e não por um qualquer acidente ou equívoco. De manhã, quando acordámos, havia um pequeno pardal cinzento tombado no chão do terraço, evidentemente morto como um sonho que não voltará a alçar vôo.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Tempo Contado

O José Rentes de Carvalho, a quem tenho o gosto de ter abraçado, como amigo, uma mancheia de vezes, começou a escrever um blogue em 2007, quando a maior febre da blogosfera, e a mais inocente, havia já passado. Pelas minhas contas, o José Rentes está quase a fazer 90 anos e constato que continua a escrever quase todos os dias, e de modo admirável, lá no seu Tempo Contado, provavelmente indiferente a uma série de coisas que a mim me amofinam ainda bastante, mas sobretudo isso, vivendo e escrevendo com a tranquilidade que suponho só estar acessível a quem ignora a pressa e o fascínio das vaidades transitórias. É um exemplo, o José Rentes; um herói de carne e osso a quem posso admirar sem cuidado ou moderação. Ainda havemos de voltar a abraçar-nos muitas vezes.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Autopsicografia (por interposta pessoa)

O autor imagina que aos quarenta e oito anos um homem deve chegar àquele encontro consigo mesmo no presente, porque não há futuro. Vendo aproximar-se o fundo do funil, percebe que a vida não é ilimitada e então é preciso se dar ao máximo a cada coisa, dentro dos limites de cada um. Criar no limite mesmo o ilimitado.
— Só canto as músicas que gosto — declara João.

Do conto "O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro", de Sérgio Sant'Anna

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Ministério das mulheres públicas


Os magistrados do Ministério Público estão hoje em greve. Protestam contra a forma como o Estatuto do MP está a ser revisto, questionando a alegada introdução de normas que fragilizem a sua sacrossanta autonomia. No mesmo dia foi conhecida a decisão de uma procuradora da Amadora que, chamada a pronunciar-se sobre a agressão e o insulto a um agente da PSP - protagonizados por dois energúmenos alcoolizados, um dos quais chamou "filho da puta" ao polícia -, considerou que a expressão chula não tinha a intenção de ofender, "funcionando antes como um grito de revolta". Talvez fosse interessante saber o que consideraria a magistrada se o insulto lhe fosse dirigido a ela. E o que acha o piquete da greve sobre o entendimento, a autonomia e o juízo da colega magistrada da Amadora.

quinta-feira, 21 de março de 2019

A maldição de Marcos Sacatepecuez

Marcos Sacatepecuez, o escritor belizenho, é apenas uma personagem obscura do romance "Uma Mentira Mil Vezes Repetida". A seu respeito se diz, a dado passo do enredo, que estava amaldiçoado, desde logo porque, "enquanto viveu, os seus livros foram publicados por várias editoras europeias, as quais, por coincidência ou má sorte, acabavam invariavelmente por declarar falência".

Tratava-se, bem entendido, de uma ironia sem pretensões, a qual aludia ao facto de algumas das editoras que outrora publicaram livros da minha autoria terem acabado insolventes e encerradas, naufragando num mar de papel e tinta que não se vendeu por não interessar a quase ninguém.

Não sendo supersticioso, não posso deixar, contudo, de notar como o livro continua vivo e, mais do que isso, a contaminar a realidade. Soube recentemente, durante o festival Correntes d'Escritas, que a alemã A1, única editora europeia que publicou "Uma Mentira Mil Vezes Repetida", declarou falência no ano passado. Soçobrou e não há nada a fazer, excepto, talvez, tentar não voltar a desassossegar o suave remanso de capas coloridas e textos de auto-ajuda em que o mercado editorial parece navegar com maior desafogo.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia da Mulher e da hipocrisia de género

O costume. A cada 8 de Março se repetem os mesmos discursos de sempre e as frases feitas sobre, entre outras coisas, «a igualdade das mulheres». Como sou do contra, defendo todos os dias, e de um modo amplo, a igualdade dos seres humanos, independentemente dos pormenores epidérmicos e morfológicos que nos distinguem. Tudo o resto é conversa para manter o pagode entretido a olhar para a árvore (enquanto a floresta arde).

sexta-feira, 1 de março de 2019

É Carnaval, o forrobodó pode continuar

Há três semanas, talvez nem tanto, o Jornal de Notícias deu grande destaque a uma notícia que revelava o preço (excessivo) do automóvel ao serviço do presidente da Câmara Municipal de Ovar. Esse indício de despesismo levou até o jornal a dedicar um trabalho especial aos automóveis que os políticos conduzem. Curiosamente, o mesmo jornal não dedicará qualquer notícia ao custo das páginas especiais sobre o Carnaval de Ovar que tem publicado esta semana, e que serão pagas, imagine-se, pelos cidadãos de Ovar (os mesmos que pagam o automóvel do presidente). É normal. Nenhum canal de televisão noticia quanto custam os looongos programas de sábado e domingo à tarde, pagos a peso de ouro pelas autarquias de todo o país. O despesismo só é notícia quando a despesa pública não constitui receita dos órgãos de comunicação social.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A ingratidão dos médicos portugueses

O bastonário dos Médicos, que é também o líder informal da oposição em Portugal, reagiu de modo previsível à notícia da contratação de jovens médicos portugueses pelo governo galego. Criticou o Estado (que pagou a formação daqueles médicos) em vez de criticar a usura e a ingratidão de quem, tendo sido formado à custa dos contribuintes portugueses, vive para escarrar no prato onde comeu. O bastonário também podia ter aproveitado para anunciar medidas corporativas que prevenissem o desperdício do dinheiro público com a (longa e cara) formação de médicos que não estão disponíveis para cuidar da saúde dos portugueses. Mas dizer mal do Estado e do Governo é sempre muito mais fácil e garante automaticamente uma floresta de microfones sempre disponíveis para gravar acriticamente tudo aquilo que Miguel Guimarães arrota.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Breakdance, modalidade olímpica

Visto que é cada vez mais difícil distinguir as notícias falsas das verdadeiras, reagi com moderação ao anúncio, algures, de que o breakdance passará a ser modalidade olímpica no ano de 2024, a par do surf, do skate e da escalada. Hoje, todavia, voltei a encontrar a notícia em jornais em papel, supostamente sérios. E fiquei (um pouco mais) parvo.

Nada me move contra o breakdance (cheguei, aos 14/15 anos, a ser capaz de executar algumas habilidades) nem contra a introdução de novos desportos no programa olímpico. Mas, francamente, não percebo os critérios. E por que não o ballet clássico? Ou as danças latinas?

Minto, porém. Percebo muito bem o critério do Comité Olímpico, que se esforça apenas para parecer moderninho e práfrentex (como se dizia no calão do meu tempo). Acolhe o breakdance, mas exclui o hóquei em patins, a pelota basca ou a petanca. E também o squash, por exemplo.

Suponho, pois, que, no mundo autista e semi-virtual em que se movem as pessoas moderninhas, a promoção do breakdance há-de ser uma excelente notícia. Com um pouco de sorte, é possível que Conan Osíris ganhe o Festival da Canção e o seu bailarino consiga, no mesmo concurso, os mínimos olímpicos para estar presente nos Jogos de Paris.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Nem sei o que diga, Zé

Acabo de saber que morreu o José Queirós. Foi com ele a minha primeira entrevista de emprego, vai fazer 30 anos, da qual viria a resultar a minha entrada precoce no mundo do trabalho, na redação de um jornal que o Zé se atreveu a sonhar. O Público que ele ajudou a criar era um projecto condenado ao fracasso, desde logo porque era muito melhor do que o país em que nasceu. Mas o Zé acreditava que o país podia mudar e que o jornalismo de qualidade podia ajudar a mudar o país. Acreditava no trabalho, na honestidade, nos valores éticos e nas pessoas. Enganou-se e creio que, de algum modo, sofria com isso. Agora acabou, Zé. Mas nem sei o que te diga. Eu não te esqueço e vou continuar a sentir a tua falta, a sentir saudades do jornal, do país e do mundo que não vão ser como sonhaste.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O mercado imobiliário

As regras que regem o mercado imobiliário são passíveis de promover grandes injustiças (para já não falar do risco latente da nova bolha que por aí vai inchando). Veja-se o modo como a proximidade dos grandes eixos viários, aquilo a que se designa pela expressão "bons acessos", é objecto de uma insensata valorização. Conheço gente bastante decente que, por causa disto, esta semana passou a viver nas traseiras de cartazes do Nuno Melo, do Rui Rio, do Santana Lopes e do André Ventura em tamanho gigante. Ninguém merece. A despeito dos bons acessos, das vistas desafogadas e da proximidade dos transportes públicos, este é um daqueles pormenores que deviam dar direito a desconto no IMI.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Como num conto de Cortázar

Creio recordar-me de um conto de Cortázar, talvez Manuscrito hallado en un bolsillo, que fala das pessoas que desaparecem misteriosamente no metropolitano de Paris, cujo "esqueleto mondrianesco" parece especialmente calhado para que uma pessoa se perca nele, para que, após penetrar na penumbra dos seus túneis, depois já não se volte a sair, tragado por um mistério qualquer, ou por um abismo. Li hoje que algo semelhante tem sucedido no metro da Cidade do México, onde, nos últimos quatro anos, pelo menos 153 pessoas foram dadas como desaparecidas, ali vistas em carne e osso pela última vez no momento em que algum familiar mais próximo deu conta da ocorrências às autoridades. Uma parte dos processos abertos pela polícia foram encerrados após a reaparição dos desaparecidos, que talvez nunca relatem de que modo foram tragados pelos túneis entre, digamos, Tezozomoc e Santa Anita, ou entre Cuatro Caminos e Chipancingo. Uma parte, porém, nunca reemergiu do labirinto. Alguém os viu entrando na estação Zócalo, saindo de uma carruagem na estação de Lagunilla ou lendo um livro entre Balbuena e Moctezuma, mas depois evaporaram-se, não voltaram a sair das galerias e talvez ainda estejam sentados no banco de uma estação, encostados a uma coluna de azulejos, esperando em San Cosme pelo metro para Lindavista, indo e vindo sem parar entre El Rosario e Barranca del Muerto, alheados da vida e hipnotizados pela luz branca e fria da carruagem, pelo negrume dos túneis, pelo néon dos anúncios ou, é o mais certo, pela possibilidade de existir sem ser visto, imateriais como fantasmas de carne e osso transitando para a eternidade no metro da Cidade do México.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

McJesus e o ar dos tempos


Os dicionários definem a intolerância como a "recusa da liberdade de opinião ou crença". Ser intolerante é, todavia, um pouco mais do que isso. É negar ao outro a liberdade de ser diferente.

A defesa da liberdade e da tolerância constitui hoje algo que vai contra o ar do tempo, em que tudo parece convergir para a criação de um clima de ódio, engano e manipulação que abra caminho a sabe-se lá que monstros. Mas, se há alguma coisa pela qual valha a pena lutar e perder algum tempo, esta é a mais importante de todas.

caso da exposição no Museu de Haifa, em Israel, da escultura McJesus, do finlandês Jani Leinonen, é, neste aspecto, particularmente significativa. Após seis meses sem provocar qualquer celeuma, a obra foi descoberta no início do ano pela tropa imbecil das redes sociais, a qual criou um movimento radical fundamentalista cristão contra a sua exposição. A obra acabou por ser retirada do museu, não por força da intervenção dos proto-terroristas católicos, mas porque o autor de McJesus faz parte de um movimento de boicote a Israel, relacionado com intolerância do estado judeu para com os muçulmanos.

Da liberdade de um museu expor uma obra que considera artisticamente relevante ao direito de um artista a criar livremente, passando pelo direito dos imbecis das redes sociais para se escandalizarem ou pela liberdade de não expor num país que se arroga ao direito de excluir e maltratar uma parte dos seus habitantes por motivos étnicos, o caso McJesus pode bem ser uma espécie de parábola da morte da liberdade de expressão, tragicamente caída aos pés da libertinagem intelectual e da intolerância autorizadas pelas ferramentas tecnológicas que paradoxalmente haviam de ter aberto caminho a uma liberdade de expressão sem precedentes na história da humanidade.


Se McJesus não me incomoda absolutamente nada e, por isso, não me custa nada defendê-lo, não devo concluir esta breve reflexão sem esclarecer que, não apreciando os métodos e o autismo do estado israelita, não defendo a sua extinção. Do mesmo modo, defendo que os imbecis possam continuar a refocilar livremente nas redes sociais. Reservo-me, outrossim, o direito de não frequentar Israel ou o Facebook, e ficaria grato se uns e outros se limitassem a seguir o meu sábio exemplo.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

«A maioria pensou que os seguidores daquele excêntrico chamado Hitler jamais alcançariam o poder»

Li a história de Solomon Perel, o judeu nazi, no El País de ontem. É um desses textos que já vai sendo raro encontrar nos jornais portugueses, mas que sobretudo me interessou enquanto testemunho de alguém que viveu uma situação insólita ou dramática, não sei ao certo como defini-la, tão estranha é a condição de um homem que decide sobreviver à perseguição do monstro vestindo-lhe a pele e encarnando a nova persona com absoluta perfeição, mimetizando perfeitamente o monstro e adquirindo as suas ideias monstruosas.

A história é poderosa de um outro ponto de vista: o caso de Solomon Perel fala da força da propaganda e da doutrinação dos regimes totalitários, provavelmente capaz, ao menos em certos casos, de convencer um cordeiro a julgar-se um lobo e a uivar à lua cheia. No momento histórico que vivemos, esta é um reflexão bastante necessária, desde logo porque, conforme diz Perel, também no tempo da sua juventude «a maioria pensou que os seguidores daquele excêntrico chamado Hitler jamais alcançariam o poder». «Viam-no como agora vemos muitos dos líderes da extrema-direita do mundo, como um louco». E deu no que deu.

(a propósito: convém ir lendo o que escreve o Rui Tavares no pasquim cujo nome evito repetir).

Li a história de Solomon Perel, dizia, no El País de ontem. Só hoje, porém, me ocorreu que Solomon Perel se parece muitíssimo com um personagem que inventei para o romance "Uma Mentira Mil Vezes Repetida", Baruck Averbuch, o judeu que se tornou o mais fanático dos nazis. É apenas uma coincidência e também a demonstração (desnecessária) de que mesmo a mais delirante ficção se limita a imitar a realidade.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Uma história de Natal (apenas um pouco atrasada)

Uma mulher que estava em coma há dez anos, internada numa clínica de Phoenix, no Arizona, deu à luz uma criança no dia 29 de Dezembro de 2018. O bebé nasceu saudável. O pessoal médico só se apercebeu de que a mulher estava grávida e a parturejar porque as enfermeiras a ouviram gemer.

A polícia está a investigar o caso e serão feitas análises de ADN para descobrir quem engravidou a mulher em coma, assim consumando uma relação sexual não consentida. O responsável pelo hospital, Bill Timmons, demitiu-se e descreveu o caso como "uma situação absolutamente horripilante", que devastou todos os envolvidos.

Apesar da quadra festiva que vigorava à data do parto, ainda não ocorreu a ninguém com dois dedos de testa que a gravidez da mulher em coma possa ter resultado de um episódio de imaculada concepção. Os reis magos também ainda não foram avistados nas areias do vasto deserto do Arizona.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Coletes amarelos

As manifestações convocadas para hoje pelo movimento Coletes Amarelos Portugal constituiu um enorme sucesso. Bem sei que eram, ao todo, meia-dúzia de gatos pingados sem qualquer plataforma reivindicativa minimamente coerente, mas não houve televisão, rádio ou jornaleco online que não tenha dedicado ao fenómeno vários e elucidativo directos a partir dos mais diversos pontos do país. Impressiona como uma mão cheia de animadores de claque e outros tantos ressabiados das ditas redes sociais conseguem incomodar tão significativamente a vida dos cidadãos e contribuintes comuns, polícias e jornalistas incluídos (os quais, aliás, estavam presentes nas manifestações em muito maior número que o dos manifestantes propriamente ditos).

Não menos impressionantes eram as palavras dos manifestantes que se escutavam nas já referidas reportagens, nas quais se misturavam a ignorância pura e simples, a falta de informação, o desequilíbrio psiquiátrico mais básico, os lugares-comuns contra os políticos, a desconfiança relativamente à banca, os insultos banais, mero aproveitamento por parte de outros movimentos de contestação social e um ou outro descontentamento justo, ali transformados, porém, em desabafos um pouco desfasados do cenário paranormal instalado. O que querem, afinal, os coletes amarelos? Ninguém parece ter a mais pálida ideia. Tudo e mais um par de botas? Nada ao certo?

O único traço comum aos vários manifestantes que escutei consistia, aliás, no uso do colete amarelo que serve para mudar pneus furados na estrada. Graças ao avassalador impulso da mais chã imitação, um punhado de portugueses pôde assim desfrutar do poder de incomodar o pagode e de falar para os microfones da televisão, trazendo o mais sórdido das redes sociais para a luz do dia. Equacionei, de resto, juntar-me ao protesto, reivindicando um dia de manifestação mais soalheiro ou no qual, ao menos, não chovesse. Tenho a certeza de que a culpa é do governo.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Imaginar demais

O título na primeira página do jornal, em letras brancas sobre um fundo rubro, prometia: "Casal de reformados usa cruzeiros de luxo para traficar cocaína". Imaginei os dois velhotes de camisas havainas e óculos de sol, com chapéus de palha, vendendo amistosas doses de droga ao balcão das esplanadas do navio, os outros velhos fazendo fila para comprar o pó que depois cheiravam sem grandes cautelas.

A vida, eles sabem, já não vai durar muito e o melhor a fazer é aproveitar o cruzeiro até à última gota. As piscinas do cruzeiro enchiam-se de corpos enrugados e festivos que dançavam ao som de música tecno e se roçavam sem decoro nenhum. Pela noite, após uma sesta antes do jantar, o ambiente orgíaco repetia-se no salão de baile, de onde alguns velhotes saíam para copular nos corredores dos camarotes, nas piscinas, na casa das máquinas, experimentando uma liberdade definitiva e, de calhar, final. Talvez alguns morressem a bordo, vítimas de excesso de felicidade - e, por isso, os cadáveres eram desembarcados com embaraço, devido aos sorrisos libidinosos que os velhos mortos levavam nos lábios.

Não devia, por tudo isto, ter lido a notícia nas páginas interiores, a qual só serviu para demonstrar o quanto havia imaginado demais. Os dois velhos detidos, septuagenários mesquinhos e demasiado ambiciosos, limitaram-se, afinal, a receptar numa paragem das Caraíbas cocaína no valor de 63 milhões de euros, a qual se destinava a ser traficada na Europa, após o desembarque. Foram detidos em Lisboa. Agora, na catacumba onde vão esperar pelos trâmites judiciais, talvez lamentem não ter cheirado a coca toda em alto mar, ao sol, bebendo daiquiris na borda da piscina.