Havia já começado a escrever o texto que assinalaria a aprovação pelo parlamento do pacote patronal do governo. Vai agora para o lixo, face ao chumbo do papelucho . E poucas vezes me agradou tanto não ter, afinal, razão antes do tempo.
Sustentava, no texto agora rebarbativo, que quando, há quase um ano, o governo apresentou a proposta destinada a alterar a legislação laboral, tornando-a ainda mais amiga dos patrões - impulso normalmente disfarçado pelo uso insistente dos chavões das "reformas" e do "aumento da produtividade", pau para quase toda a manobra -, parecia evidente que tinha já algum tipo de acordo firmado com o CH. De outro modo, um governo sem maioria no parlamento não se atreveria a tentar fazer aprovar uma lei tão daninha para a esmagadora maioria dos portugueses, ainda constituída por aqueles que têm de trabalhar para viver. Parecia-me, e ainda me parece, que tudo o que aconteceu nos últimos meses (suposta negociação, piruetas do CH, putativas cedências) não passara de uma longa encenação cujo enredo fatalmente conduziria ao desenlace que ontem parecia inevitável: com os OCS a acompanhar a novela com o mesmo desvelo que dedicam a qualquer outro fait-divers, tudo se conjugava para que Ventura aparecesse investido da qualidade de herói da classe operária, reivindicando a conquista de duas ou três migalhas e adoptado uma postura muitíssimo socialista (ainda que o seu único interesse pelos trabalhadores seja o mesmo que lhe dedicava o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, Partido Nazi para os amigos).
Certo é que, para todos os efeitos, o Mussolini da Musgueira fez ontem o número que dele se esperava; e todos deram como inevitável a aprovação do pacote. Mas Ventura recuou e hoje deu o dito por não dito (tudo normal, portanto). O que aconteceu entretanto? Foi reler o Mein Kampf ? O governo recuou em alguma das promessas que fizera? Os cheganos que são também trabalhadores (também havia nazis trabalhadores, como é óbvio) tiveram força suficiente para fazer recuar Ventura? As sondagens que apontam para o triunfo do CH sobre o PSD foram suficientes para fazer Ventura salivar de expectativa? Provavelmente nunca o saberemos.
Falta, por outro lado, saber até que ponto o resultado da votação de há pouco na Assembleia da República porá em causa outros conchavos e os correspondentes ataques da pandilha ao Estado de Direito Democrático, da revisão da Constituição ao fim da liberdade de opinião. Nada nos garante, à partida, que, com esta gente, não estará para vir algo ainda pior. Mas é como diz o povo: enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.
Fiquemos atentos.
