segunda-feira, 16 de maio de 2022

Cuidar do chão


Durante os poucos dias que passei no Douro, deparei-me, a cada manhã, ao abrir as cortinas do quarto, com uma mulher curvada que trabalhava no campo, derreada a abrir regos, a semear, a regar os rebentos que um dia hão-de frutificar. Os automóveis passavam na auto-estrada, ao longe, os campanários soavam, os cães do vizinho corriam no prado a reunir as ovelhas, mas a mulher permanecia imperturbável no seu labor, nos gestos ancestrais que fazem brotar vida do chão.

Regressado a casa, à tranquilidade possível de uma sala onde permanentemente se escuta o rumor do trânsito e dos aviões, dedico agora esmeros cada vez maiores às pequenas porções de terra que, em vasos, acolhem cactos, suculentas e um antúrio que não dá flores. Vigio as folhas mortas, a humidade da terra, a inclinação do sol, mas quase exaspero de não perceber se crescem, se estão firmes nas suas raízes, se a luz da casa lhes é suficiente.

Receio, por exemplo, que morra o pequeno cacto que trouxe de um jardim sendo apenas rebento. Não sei se necessita de mais água, de mais pedras aonde afinque as raízes, se o sol da manhã lhe será benéfico. Mudo-o de lugar à procura de um sítio onde me pareça que se sente bem. Mas só posso concluir que não entendo nada dos lavores da terra e que, entre Mateus e Arroios, talvez, com todo o vagar, a mulher derreada, talvez alheia ao saber de todos os livros, se esteja já preparando para colher o milagre de um tomate.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

O complexo de Onoda










Surgiram quase em simultâneo um filme (de Arthur Harari) e um livro (de Werner Herzog) que contam a história do tenente japonês Hiroo Onoda: um militar que, após o fim da segunda guerra mundial, continuou firme no seu posto, na ilha filipina de Lubang, por quase trinta anos, indiferente a tudo e rendendo-se apenas em Março de 1974, quando, enfim, conseguiram convencê-lo de que a guerra havia terminado. Penso no tenente Onoda e creio, às vezes, que os dirigentes do PCP sofrem de um alheamento semelhante e que insensatamente insistem em ignorar o óbvio: que a Rússia já não é (e se calhar nunca foi realmente) um país comunista. Talvez um dia alguém os liberte do fardo de defender a sua Lubang imaginária.

terça-feira, 3 de maio de 2022

Perder países


Era quase inevitável que me lembrasse de Fernando Pessoa e da dupla exclamação de Viajar! Perder Países! enquanto lia Grand Hotel Europa, do holandês Ilja Leonard Pfeijffer, que a Livros do Brasil publicou no ano passado, na colecção Contemporânea — não, todavia, pelas razões mais óbvias, mas por haver neste romance alguma coisa que remete subtilmente para o existencialismo pessimista daquele poema. Em quase seiscentas páginas, Pfeijffer traça um retrato irónico do continente europeu vergado ao peso do turismo de massas que invade e descaracteriza cidades e países inteiros, assim transformados numa espécie de Disneylândia para adultos, a qual simultaneamente beneficia e destrói a rica herança histórica, cultural e patrimonial de um continente com demasiado passado.

Fechado num quarto do hotel que dá nome ao romance, o narrador não se limita, porém, à oportuna reflexão sobre a situação do continente europeu e da indústria turística enquanto forma de evasão e infantilização. Grand Hotel Europa consegue também ser culto, meta-literário e auto-ficcional, uma declaração de amor à tradição cultural europeia, ter um enredo amoroso e ser um livro de aventuras, com Ilja e Clio em busca do último e extraviado quadro de Caravaggio, uma Maria Madalena fazendo penitência no deserto, que teria sido pintada pouco antes da morte do artista, em 1610.

Ora cómico, ora sentencioso, o romance não esquece outras questões relacionadas com a temática da viagem — como os fluxos migratórios de refugiados ou a florescente e inconciliável indústria das experiências supostamente únicas e autênticas impulsionada pelas redes sociais — ou com o peso que a tradição artística europeia coloca sobre os ombros dos criadores actuais. “O passado pesa-lhes, como uma carga de chumbo, nos ombros. Todos esses artistas (demasiado conscientes da tradição) começam a executar as suas obras com o pensamento paralisante de que tudo já foi anteriormente feito, executado e dito”, lê-se a dado passo.


Trata-se, pois, de um livro altamente recomendável, já considerado um dos grande romances europeus contemporâneos, cujo único senão reside numa tradução talvez demasiado literal do original neerlandês, a qual, sem uma revisão atenta, deu origem a uma quantidade excessiva de frases capazes de arranhar ouvidos mais sensíveis. Mas nem assim o livro se perde.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

terça-feira, 19 de abril de 2022

Vai por onde os chocalhos te levarem










Tinha planos claros (e insensatos) para a noite do sábado de aleluia: juntar-me-ia à multidão que participasse na bestial chocalhada da vila e procuraria, desta vez, fotografar a festa a preceito. Mas não o fiz. Assim que a Banda União Artística passou — e, com ela, os primeiros foliões —, juntei-me ao cortejo e logo desisti da máquina fotográfica, pois a festa ia rija como há muito não se via, depois de dois anos de proibições pandémicas.

A chocalhada de Castelo de Vide é uma ancestral manifestação pagã associada aos festejo da Páscoa, na qual as pessoas se juntam e percorrem algumas ruas da vila fazendo soar os badalos do gado. Este ano juntaram-se milhares de pessoas e, quando o cortejo terminava a primeira volta ao percurso habitual, ainda havia gente a meio da primeira passagem, formando um gigantesco coro de badalos de vários tamanhos, que se prolongou muito para além do que é comum.

A imagem que ilustra este post foi, por isso, captada há três anos, antes de a festa me ter feito desistir de fotografar. Desta vez, nem uma chapa fiz. Badalei até os músculos dos braços me doerem e a chocalhada se extinguir quando os elementos da banda entraram, um a um, pela porta da sede da associação. Não sei que maus espíritos devia a chocalhada espantar, mas creio que os enxotei a quase todos. Aos demais ainda tenho de continuar a telefonar para ver se pagam o que me devem.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Abelharucos

A borrasca estiou e o céu da vila voltou a encher-se de centenas de andorinhas nos seus desencontrados vôos. Primavereja apesar do ar matinal ainda tão fresco, sadio. Volto, por isso, a pensar no par de abelharucos que no domingo cruzou os ares sobre o olival, espiralando como enleados por invisíveis fios que os estivessem unindo. O gato dos vizinhos mia um cio plangente que se assemelha às frases de um idioma incompreensível e os moços da vila juntam-se como moscas em torno do balcão da cervejaria. Regressa-me o pensamento, porém, à dança nupcial dos abelharucos atravessando o ar como assombrosas pinceladas de cor. A própria palavra abelharuco é um espanto que revoa, chilreia e zune. Penso, pois, em todos os pássaros que as crianças da cidade não podem conhecer senão das fotografias da internet ou, como eu, dos rótulos de alguma garrafa de vinho tinto — bidimensionais, imóveis e mudos. Vivos mas sem vida.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Um menir com defeito de fabrico









Estive ontem, tesoura da poda em punho, adestrando-me na arte milenar da limpeza dos galhos secos das oliveiras que um primo possui num terreno semeado de belos calhaus de granito que a natureza ali espalhou sem critério algum. Os borregos vieram, a dado passo, para ver-nos trabalhar e mordiscar as folhas sobrantes, largadas no chão de erva fresca para que mais tarde se queimem, e a tarde aprazível concluiu-se com uma amistosa fiada de minis e cigarrilhas.

Ignoro até que ponto a bucólica visão dos calhaus rudes no prado viçoso  influiu na minha decisão de dedicar um post à espantosa história do menirzinho feio que há algures nos arrabaldes da vila, ou se o impulso está de algum modo relacionado com a leitura de Grand Hotel Europa, o romance em que Ilja Leonard Pfeijffer reflecte sobre o destino turístico do continente europeu e as perversões económicas, sociais, éticas e culturais que esta vocação impõe. Seja como for, o caso conta-se em poucas palavras.

Cravado na paisagem por homens da pré-história, alguns mui brutos e pouco afeitos às subtilezas do julgamento do futuro, o dito menir padece de uma espécie de defeito de fabrico, não sendo suficientemente cilíndrico ou, sequer, ovóide. Pode, por isso, ser facilmente confundido com outras pedras que a natureza largou na paisagem. Consequentemente, decidiu-se, com a benção do Ministério da Cultura, "requalificar" o dito menir, desbastando-se o respectivo triângulo granítico com o objectivo de o tornar mais adequado ao formato comum dos menires alentejanos — e, portanto, mais atrativo para a visitação turística (a notícia respectiva desapareceu misteriosamente e dela apenas ficou rasto no twiter, conforme a imagem que ilustra este post).

Ignoro, obviamente, se a obra se fará e o tosco menir passará algum dia a luzir, erecto e orgulhoso, nas selfies dos estrangeiros maravilhados com o megalitismo alentejano. Mas a simples ideia, confesso, me diverte bestialmente neste dia de borrasca alentejana, tão pouco propício a passeios, turismos e afins.

terça-feira, 5 de abril de 2022

"As personagens dos meus livros são mais loucas do que eu" — uma entrevista a Lygia Fagundes Telles em 2005













A escritora brasileira Lygia Fagundes Telles morreu este domingo, aos 98 anos. Soube da notícia por uma jornalista da TSF, que me acordou da sesta pós-prandial para me pedir um comentário. Não soube o que dizer. Depois, aos poucos, lembrei-me de que entrevistei Lygia Fagundes Telles em Maio de 2005, quando veio ao Porto para receber o Prémio Camões. Foi num hotel que já fechou as portas, junto à Avenida da Boavista, e ela fumava cigarros Cartier. Aqui fica a recordação dessa conversa estranhamente actual, que pude recuperar graças ao arquivo de um USB disk com muito melhor memória do que eu.


Não se entrevista Lygia Fagundes Telles; conversa-se com ela. Diante de um bule de chá e de um maço de cigarros, já agora. Com 82 anos, a “grande dama das Letras do Brasil”, que na semana passada recebeu, no Porto, o Prémio Camões, continua a fazer planos para os livros que ainda há-de escrever e a fumar abundantemente. “Uma senhora me perguntou há pouco tempo porque é que eu fumo, se me faz mal, e eu respondi: ‘Eu não presto’”, conta. É, pois, uma mulher com virtudes e defeitos. Como as mulheres dos quatro romances que a Presença agora reedita em Portugal. 

 É verdade que o anterior vencedor do Prémio Camões, Rubem Fonseca, lhe propôs casamento quando soube que agora é uma mulher rica? 

Ah!, não. Isso foi uma brincadeira que acabou por sair num jornal. Como ele ganhou o mesmo prémio, eu perguntei para ele: Rubem, como é o prémio? Quando ele disse quanto era, eu disse: Isso é um dote. E então ele disse: Eu me caso com você. Brincadeira! Imagina! Nós somos muito amigos há muito tempo, eu era amicíssima da mulher dele, que já faleceu. Adoro o Rubem Fonseca, um grande escritor brasileiro, uma pessoa de tanto carácter, extraordinariamente digna. Um irmão! 

 Que importância tem para si este prémio? 

Muita importância. Eu já plantei algumas sementes... Comecei a escrever precipitadamente na minha juventude, com 20 anos, quando entrei na faculdade, mas eu me arrependi dos primeiros livros. Depois é que eu fui amadurecendo. Mas nada de chorar sobre o leite derramado. Prefiro contar a história do meu trabalho – obra fica um pouco imponente... – a partir de 1954, quando escrevi “Ciranda de Pedra”. 

Crê que o prémio pode, de algum modo, estimular um melhor conhecimento das várias expressões da lusofonia? 

Muito, muito. Vocês podem gostar de nós, porque nós amamos vocês, apesar das brincadeiras. Brasileiro é muito zombeteiro, mas eu já estive sabendo que vocês também são e que contam aqui as mesmas graças. Isso é amor, nós somos irmãos. Temos a mesma língua, o mesmo idioma. Só que o idioma com a vida, a moda e o estilo brasileiro. E isso é uma riqueza também, é uma multiplicação do idioma de Camões, Eça de Queirós, Fernando Pessoa. E o idioma lá do Brasil, de Gonçalves Dias, Machado de Assis, Guimarães Rosa. Temos o nosso modo, mas é uma forma de enriquecer a língua e isso é lindo. 

Normalmente esquecemos as metades africanas da língua... 

Também! É um somatório tão grande. A verdade é que esse ofício de escritor é tão sacrificado, mas parece que o mundo está esquecendo da palavra escrita. 

O prémio pretende homenagear uma carreira e a da Lygia Fagundes Telles já é longa. Os leitores de hoje são muito diferentes dos da década de 1940? O que mudou? 

O motorista que tem andado com a gente me mostrou, em Gaia, as casinhas dos pescadores e contou que eles passam dificuldades, porque estão sem peixe. O peixe está sendo monopolizado pelas grandes empresas de pesca. Do mesmo modo, nós, os escritores, estamos ficando sem leitores, sem peixe, que fica monopolizado pela televisão, pelos electrodomésticos. O que é que nós vamos fazer sem leitores? Continuar. Se eu estou sentindo que os leitores estão diminuindo, ao mesmo tempo encontro um jovem na rua que me abraça e diz “eu leio”. É isto, é esta colheita que interessa, não são as glórias; é aquele que vem, lê o seu texto e conversa com você sobre a personagem. O leitor é seu cúmplice, ele vem e te faz perguntas e, de repente, você percebe coisas que não percebeu quando escreveu o seu texto. E, às vezes, ele cobra. Tem leitores que cobram. Mas é tão bonita, essa coisa... Eu li nalgum lugar que a arte é a forma de restaurar a vida. 

Restaurar a vida? 

Essa vida que está tão complicada no mundo, essa vida de guerra, de ódio, de violência, de desentendimento. 

O que fazem os artistas num mundo como esse? 

Assim... Olhamos um para o outro, damos a mão e isso é o sonho. Cioran, que era terrível, mas eu gosto muito dele, disse essa coisa tão linda: “Eu não quero a sabedoria da desilusão, eu quero a sabedoria da ilusão, que é o sonho”. O que nos resta é sonhar. Fazer o quê? Cortar os pulsos com uma gilete azul? (risos) Gilete azul era uma máquina de barbear que o meu pai usava e ele dizia que era boa para cortar os pulsos. Nunca mais me esqueci. Levar adiante como uma bandeira, é isso. Como canta o Chico Buarque, “com toda a cama, com toda a trama, com toda a lama, a gente vai levar nossa chama”. 

Ouve-se às vezes dizer que alguns escritores, ou todos, escrevem sempre o mesmo livro. Lendo estes quatro que agora vão ser publicado em Portugal... 

Eu queria que publicassem mais contos, eu gosto de contos. Muitas personagens dos meus romances saem dos meus contos. Vocês não percebem, mas eu sei.  

Mas sente que está sempre a escrever o mesmo livro? 

Não… Não é o mesmo livro, não. Há uma metamorfose. Mas, de um certo modo, as personagens voltam, batem na porta (bate na mesa de madeira). É uma forma bonita de renovação. As personagens são como nós mesmos, seres humanos. Nós queremos continuar. A morte, a finitude... não é bom. Com as personagens acontece o mesmo, elas querem continuar. 

Nos seus livros são, normalmente, mulheres; mulheres perturbadas, à procura de si mesmas, angustiadas... 

O escritor não pode ter nenhum preconceito em relação a sexo. Eu tenho personagens masculinos muito bons nos contos. É engraçado... Nos romances, há mais personagens femininas; nos contos, masculinas. Quem são estas mulheres angustiadas que continuamente aparecem nos seus romances? Às vezes... Eu tenho um conto que tem uma mocinha pobre, ela não tem um dente, ri de lado para esconder isso, e vive uma paixão sem chances. Mas ela vai atrás. É um conto ao mesmo tempo desesperado e cheio de esperança. Há algumas mulheres felizes, como essa, cheias de esperança. (pausa) A caça. Ela caçando o homem. 

Os motivos dos tormentos da Virgínia de “Ciranda de Pedra” (1954) são muito diferentes dos da Raíza de “Verão no Aquário” (1963) ou dos da Rosa Ambrósio de “Horas Nuas” (1989)? 

É o desespero mesmo. É justamente a vontade... O ser humano é complicado, é tão enleado nos fios, é tão impossível de ser aberto, de ser decifrado. É um mistério intransponível. Então, as minhas personagens guardam esse mistério. Estes livros correspondem, digamos assim, a épocas históricas diferentes, mas os problemas delas parecem ser muito semelhantes. 

Sentiu alguma diferença nas mulheres ao longo deste tempo? Mudaram muito? 

O problema é eterno. A solidão, a vontade de amor, a vontade da realização, a busca. O ser humano buscando outro ser. Aconteceu com uma conhecida minha, há alguns anos, casada, apaixonadíssima pelo marido. Um dia ele disse: “Querida, eu estou fazendo a mala, vou embora porque eu estou apaixonado por outra” (risos). É bonito isto, essa volubilidade do ser humano em relação ao amor, ao sonho. É isto. É uma busca, uma esperança, um desespero, a vontade de estender a mão para o próximo e o próximo nega a mão. Onde é que está o próximo? Esse problema é eterno: o ser humano buscando o seu outro. A arte aparece algumas vezes, nos seus romances, como um escape para o desespero. 

No “As Horas Nuas” escreve mesmo que “O louco de verdade come merda mas no teatro pode ficar sublime”? Também sucede na literatura? A loucura redime-se nos livros? 

Eu tenho amigos que fazem terapia, eu jamais faria. Uma vez eu fui fazer, fiquei a fazer cerimónia com o terapeuta e não adiantou nada (risos). A minha terapia é escrever, a forma de realizar o meu sonho. Encontrei agora o Urbano (Tavares Rodrigues) em Lisboa com cara de menino. Ele vai ser pai outra vez e está com cara de menino. É isso o sonho! 

Escreve ainda no “As Horas Nuas”: “Mulher pirou nessa luta pelo poder, ficou mais insuportável do que o mais insuportável dos machões”, E, depois: “A fase inicial da agressividade já passou, as mulheres agora estão evoluindo para um entendimento mais profundo no trabalho. No amor(...)”. Esta evolução já lhe permite perceber algumas diferenças? 

Não. Pois é... O ser humano é assim mesmo (risos). Tem as promessas, os sonhos, os projectos, mas, de repente, vem um furacão na sua vida, que você não sabe de onde vem, e desarruma tudo. 

Isso tem alguma coisa a ver, conforme escreveu no “As Meninas”, com o facto de as mulheres não perceberem que o assombro de uns olhos nus supera a beleza superficial de um par de cílios postiços? 

É verdade, é verdade... É tão lindo quando você olha para o espelho e coincide a cara que tem no espelho e a própria cara. É um milagre. No momento em que você aceitar a sua face, sem cílios postiços, você está feliz, aceita a morte. 

A estrutura dos seus livros costuma seguir um método psicanalítico. É a única forma de penetrar nos tormentos destas mulheres, nos tais mistérios da espécie humana? 

Talvez seja uma vontade de resolver os meus problemas através das minhas personagens, que são mais loucas do que eu (risos). Nós queremos nos iludir, apesar das loucuras deste mundo. 

Esse é outro elemento recorrente nos seus livros, a descrição do mundo como algo “completamente apodrecido”. 

Não gosto nem de ler as notícias. Eu não posso fazer nada! Os índios estão desaparecendo, a Amazónia está a ser destruída... Esse seu pessimismo já vem, pelo menos, desde o “Ciranda de Pedra”... É preciso metamorfosear, está certo, mas tem um momento que você tem que aceitar a realidade, a loucura... a loucura do ser humano. Veja D. Quixote. Quem é? Um louco! Um sonhador. E o sonhador é um demente. 

Essa loucura é a origem do mal ou é a salvação? 

A salvação. Ao menos isso. É a salvação. Aquele escritor, o Sebastião da Gama, ele diz que, apesar das velas em farrapos, do casco do navio rebentado, das lutas, o importante é ter dobrado o cabo da Boa Esperança e ter chegado. “Basta dizer que eu cheguei/e que é de lá que vos falo”. 

A Letícia de “Ciranda de Pedra” diz, a dada altura, que “o mal está no próprio género humano”, que “ninguém presta”. O género humano é o vilão ou a vítima? 

É o vilão, a vítima e o herói. É possível você juntar a vilania na heroicidade. “Allez infants de la patrie!” e, de repente, se esborracham todos na lama, na bosta. O esforço que você faz para dobrar aquele cabo, esta força, esta vontade de sonho, é que te conduz. 

O Brasil aparece mais do que uma vez retratado nos seus livros como uma pátria permanentemente em perigo. É uma visão pessimista ou uma forma de contrariar o pessimismo? 

O meu pai já dizia que a situação está tensa. Não acaba mais essa tensão! Estou com essa idade e continua tensa. Mas esse é o mundo que nós herdamos. Temos que ser testemunhas deste tempo e desta sociedade. O meu trabalho é engajado. Eu sou bastante lúcida diante da realidade brasileira, dos desequilíbrios sociais, da miséria, a educação, a saúde. Eu não posso fazer nada. Só sei escrever esses livros que não serão lidos pelos analfabetos, nem pelos doentes. No entanto, eu continuo a escrever. O que é isto? Vou parar? Não. É o sonho. Mas vai ser difícil, o Brasil... 

Tem mais esperança no Brasil ou no tal mundo desvairado e louco? 

É tão ligada uma coisa à outra. Essa esperança... Se eu tivesse uma bandeira, ela seria vermelha e verde. Verde da esperança e vermelho da paixão e da cólera, que ela também é precisa. 

Essas são as cores da bandeira de Portugal... 

Pois é. Fazer o quê? 

Apesar de tudo isto, define-se a si mesma como uma brasileira tranquila. O que é que a faz diferente das mulheres dos seus livros? 

Nenhuma moda, nenhuma vulgaridade em relação à moda me atrai. Eu sou tranquila nesse ponto. Está na moda andar com um pé para a frente e outro para trás, eu continuo andando com os meus pés para a frente, como aprendi a andar. Tenho horror a modismos. Horror! Mas as pobres mulheres põem o piercing na língua. Prefiro aceitar a dúvida, que é muito mais digna do que esses modismos. 

Essa recusa da superficialidade... 

Vulgaridade! Superficialidade chama-se vulgaridade. Essa vontade de mostrar é uma moda. 

Mas essa recusa da superficialidade é parte do segredo para evitar as angústias? 

Serve para evitar as bobagens da espécie humana, pelo menos. O ser humano faz a sua escolha, não quero isso, quero aquilo. E isso é tão bonito no ser humano. Eu odeio Bush, não gosto nem de ler nos jornais. Aquela imbecilidade é, na verdade, uma escolha que não é sequer muito heróica. Os heróis também são frágeis. E loucos. Há muitos loucos nos meus livros, não? 

A tranquilidade face aos modismos é o segredo da aparentemente tão equilibrada escritora Patrícia, de “Verão no Aquário”? 

Eu não sei se ela é tranquila... Tem aquele padre. Ela é amante dele? Eu não sei... Aquele padre é muito bom, viu? Um dia pego esse padre outra vez. 

No livro ele corta os pulsos e morre. Ressuscita-o?

É uma forma bonita que o escritor tem de recorrer aos heróis e anti-heróis e trabalhar com eles outra vez. Isso é uma alegria! Um poder! Toma conta de você. 

Não há, então, personagens tranquilas nos seus livros? Nem os gatos? 

A tranquilidade, às vezes, é uma máscara. O Malraux disse uma coisa muito bonita: o mais importante no homem não é o que ele mostra, mas o que ele traz escondido. É isso que os escritores procuram, então, desvendar. Como? Consigo? Não sei. Mas foi uma tentativa. Uma bela tentativa para desvendar essa natureza humana que é indefinível, inacessível e incontrolável. Vocês mexem aqui com arma de fogo? 

Nada que se compare com o que acontece no Brasil. 

No Brasil agora não se fala noutra coisa. Eu conheço o ser humano, não pode botar uma arma na mão dele. Os garotos encontram essa arma, levam para escola, mostram, vão brincar e, pá!, matam o colega, matam o professor que reprovou eles. Os violentos, os bandidos, os assassinos, os gangs, os traficantes, essa raça toda, já chega! Agora o homem comum também se armar? Vai se defender? Não vai não... 

A Lygia Fagundes Telles revê-se mais na escritora Patrícia, de “Verão no Aquário”, ou na actriz Rosa Ambrósio, de “As Horas Nuas”? 

Eu entrei em todas as personagens, mesmo nos contos, em que há mais vibração e mais homens. Tenho homem à beça, nos meus contos. 

Gosta mais dos contos ou dos romances? 

(longo silêncio) Um professor meu antigo, de Literatura, dizia que o romance é um croquete de camarão que se vende na rua, com muita massa, muita palavrada, só o rabo e a cabeça do camarão, e que no conto está o camarão inteiro, como nos croquetes que são feitos em casa. É uma definição frágil, errada, mas engraçada. No romance também tem que ter o corpo do camarão inteiro. Eu sei que é maior, mas tem que ter tudo, senão não presta. 

Qual é que gosta mais de escrever? 

Quando eu estou escrevendo um conto eu fico tão feliz! Depois acho uma droga, quando termino, mas na hora em que eu estou caçando a palavra, lutando no ringue da palavra, abrindo a porta da personagem, eu estou apaixonada pelo conto. Se eu estou fazendo romance, ah!, que paixão! Há nisso uma volubilidade? Não. É que na hora em que eu faço romance eu também estou pondo o camarão inteiro.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

A batata é uma arma?










De todas as tenebrosas imagens que nos últimos dias têm chegado da Ucrânia, ficou-me na retina aquela que hoje o Jornal de Notícias traz na capa, captada pelo fotógrafo Sergei Supinsky, da AFP. Mostra um homem assassinado no passeio, junto de cujo corpo se vê ainda o saco de supermercado no qual transportava algumas batatas. Em segundo plano vêem-se outros cadáveres e um grupo de homens ucranianos que procuram recolher os corpos dos civis que a invasão russa vai deixando para trás.

A despeito daquilo que ontem aqui escrevi, sair alguém de sua casa para comprar maçãs, pêras ou morangos não é sempre um acto tão trivial  como aquele texto dava a entender. O homem da fotografia, pode imaginar-se, arriscou sair à rua após vários dias escondido numa cave — escutando o fragor das explosões, o horror dos gritos dos outros e da morte deles — à procura de algo que lhe matasse a fome. Há-de ter ficado satisfeito e quase assombrado por ter encontrado algumas batatas e um saco para transportá-las, e talvez corresse de regresso ao esconderijo para espantar os filhos com a novidade. Mataram-no, porém, apesar de os russos não atacarem alvos civis, conforme cinicamente têm afirmado os responsáveis do Kremlin.

Milhares de homens, mulheres e crianças depois, assassinados em suas casas, em hospitais ou em teatros, os russos insistem na fantasiosa narrativa da "operação especial" destinada a libertar a Ucrânia. A fazer fé nos argumentos daquela fantasia, a que a diplomacia internacional continua a conceder tempo de antena, é portanto provável que as batatas espalhadas no chão sejam uma arma perigosa e letal, destinada a atacar as tropas russas. Ou que o cidadão morto no passeio seja tão perverso que resolveu suicidar-se com o único fito de embaraçar o palhaço nazi do Kremlin. Tão lógico quanto um saco cheio de batatas.

domingo, 3 de abril de 2022

Pêras, maçãs, laranjas e livros


Levo quatro horas deste domingo acordado e já li meia dúzia de artigos interessantes na língua de Cervantes. Também saí à rua para comprar fruta, morangos, limas e maracujás, e talvez por isso me tenha detido na entrevista do El País ao escritor José Manuel Franco, ou talvez seja mais correcto dizer que comecei a ler a entrevista ao fruteiro José Manuel Franco — um tipo cuja existência ignorava, mas que me interessou muitíssimo, por ser simultaneamente vendedor de pêras e maças no mercado de Eco de la Cruz, em Madrid, e escritor especializado nas guerras romanas. Diz o jornal que é possível comprar, na banca deste Franco, pêras, maçãs do Bierzo e a história de Marco Licínio Crasso, cônsul romano, governador da Síria e especulador imobiliário responsável pelo esmagamento da revolta dos escravos liderada por Espártaco. Fantasio agora, pelos motivos óbvios, em poder sair à rua para comprar morangos, limas e maracujás e voltar a casa com o livro de José Manuel Franco, embora a melhor fantasia de todas consista, isso sim, em imaginar-me a vender fruta na banca de um mercado, se ainda existir por aí algum mercado que o seja de facto, e aviar ao mesmo tempo tangerinas e exemplares do Tropel, cerejas e A Última Curva do Caminho. Enquanto o cogito, leio que o jornalista do El País pergunta a Franco se se considera fruteiro, escritor, escritor-fruteiro ou fruteiro-escritor, e que o inquirido responde que é sobretudo um leitor aficionado da História e dedicado à fruta. "Levanto-me às quatro e meia da manhã para ir ao mercado abastecedor e termino o dia de trabalho às nove da noite. O estudo da documentação e a escrita, faço-os depois, depois de trabalhar, de tomar banho e de jantar". E depois volta à banca da fruta, um dia após o outro, para vender maçãs do Bierzo e exemplares de La Sangre de Roma

sexta-feira, 18 de março de 2022

Auto da barca da endemia



Já a barca, lenta, se afasta do cais e as mães chorosas suspiram ais, quando o mofino patrão da barca enxerga vir ao longe um passageiro que parece correr com pressa de embarcar ainda.

DIABO: Alto e pára a barca, que isto não é autocarro. Aquele que vem com a parca, e que agora deita escarro, parece doente tremendo e não caso de catarro. Ponham-lhe a zaragotoa e façam todos os testes. Tudo sem ser à toa, mas que dê para largar prestes.

RETARDATÁRIO DA COVID: Alto lá, chifrudo amigo, que não chego p'ra embarcar. Não contes co'meu umbigo, nem que seja para remar. Vim sem essas intenções e tão-só para avisar qu'isto de ter o vírus não é sinal de espichar.

DIABO (ironizando): Quereis lá ver, ó marujos, que temos aqui novidade? Alguém com os vidros sujos a querer ficar na cidade? Dize o que vens contar, entra lá em negação, que me fazes perder tempo sem trazer a solução. Se vieste para mofar daqueles que aqui padecem, mais te valia ficar onde não me aborrecessem.

RETARDATÁRIO DA COVID: Demo, te peço, sossega, que a pressa costuma ser cega e embarca em toda a viagem. Presto-te a minha homenagem por já teres a barca cheia, mas afasta lá a ideia de me levares na contagem. Também me caçou a doença, foi agora e como não?, mas o meu pior sintoma não excede a constipação. Nem febres nem arrepios, tosse nenhuma, pois é. Nem as dores dos meus tios, nem o cansaço do Zé.

DIABO: Fi'deputa cabrão, que me estragas o negócio. Fala baixinho e embarca, que faço de ti o meu sócio.

RETARDATÁRIO DA COVID: Agradeço o teu cuidado, diabo caça murcões, mas nessa barca não entro nem que fosse por milhões. Tomei todas as vacinas e estou rijo como um pêro. Fico para ver as meninas, formosas como eu as quero.

DIABO: E então o cão sou eu? Trai-se assim o chifrudo? Não sei que doença te deu, se tens as vacinas e tudo. Mas toma cuidado e não queiras toda as moças para ti. Há basofos em todas as feiras e todos mais novos que tu. Se achas que te safaste, ó cidadão pensa bem, hás-de embarcar na barca e nem te vale o vintém.

RETARDATÁRIO DA COVID: Agradeço muito o cuidado, obrigado, diabo amigo. Tenho guardado o bocado e sei bem o que te digo. A morte é coisa fatal e sei que hei-de embarcar, mas não me leves a mal por ainda querer cá ficar. A vida são só dois dias e este está a acabar. Quero comer melancias, beber, dançar e folgar. São cá as minhas manias. Se vou mesmo ter de quinar...

DIABO: Fica p'raí orelhudo, que já perdi muito tempo. Se vais fazer isso tudo, não te dê nenhum tormento. Tenho a barca carregada, pior não hei-de ficar. Esteja a carga despachada e havemos de falar. Se isso que tens é maleita eu quero também apanhar. Já estou farto desta seita, do vírus e deste mar. Guarda-me uma moça direita, já virei para experimentar.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Ajax Cristal: breves considerações metafísicas sobre a realidade


Entre os múltiplos dilemas que cercam e acossam o homem contemporâneo — e, por ter mesmo de ser, também o escriptor contemporâneo —, o mais dilacerante de todos há-de ser aquele que se prende com a escolha do momento certo, do instante exacto em que abandonará o desafio maior da página em branco para dedicar os seus melhores esforços à mundana limpeza dos vidros das janelas. 

Entendam desde já, e por favor, que a lida doméstica das janelas não se limita a ser uma questão de higiene íntima, nem de higiene mental, nem, tão-pouco, de higiene pura e simples, e que os vidros encardidos, musgosos, devem ser compreendidos criativa e metaforicamente como uma possibilidade de vislumbrar o mundo através de um prisma que, por não estar particularmente limpo, distorce, modifica e (eventualmente) enriquece a perspectiva que as janelas sujam oferecem sobre a verdade múltipla e diversa do mundo exterior. A realidade e o quotidiano estão efectivamente sujas, enodoadas, ou são os agudíssimos olhos do escriptor que assim conseguem enxergá-los graças à involuntária contribuição de uma janela porca?

Estas e outras questões intrinsecamente filosóficas, e quiçá metafísicas, talvez transcendam o cidadão comum, o homem banal, mas perseguem como lobos famintos o humilde escriptor que não nasceu abastado, não ganhou a lotaria nem foi capaz do brilhantismo, da habilidade e da hipocrisia que lhe garantissem uma carreira de sucesso, permitindo-lhe o gasto espúrio de uma mulher-a-dias que garantisse a correcta e pulcra limpeza dos vidros. Não há-de, decerto, tão pelintra personagem ousar aborrecer-vos por tão pouco, que o é de facto, mas é inevitável que em algum momento se angustie e questione: terá o lodo nas janelas ultrapassado já os limites tolerados pela mais elementar urbanidade? E poderá a distorção que a sujidade proporciona auxiliá-lo a enxergar as deformações da realidade a uma nova e diferente luz?

Muitos e bem melancólicos momentos passa o ordinário escriptor contemplando o mundo, a realidade, através da lente aberrante das suas janelas sujas, ponderando se é, enfim, chegado o momento de reunir os jornais velhos e o frasco de Ajax Cristal a fim de encetar o custoso labor da lavagem dos vidros para que ao menos a vizinhança não repare nas manchas e nas nódoas, e os críticos não percebam de onde lhe vem o olhar único, original e desassombrado sobre o real. Mas quê? Sempre aparece, traiçoeiro como Judas, um dia de chuva ou uma nuvem de poeira do norte de África, alguma inconveniência que bem depressa tornará inútil qualquer esforço para manter limpas as vidraças e desimpedida a vista ancha do escriptor sobre o mundo a seus pés.

Há-de ser melhor, concluirá, esperar mais um pouco — procrastinar. Pode ser que o lodo das janelas ainda renda mais uma frase, um texto ou um livro que possam voltar a espantar o mundo.

Apresentação de "A Última Curva do Caminho" na FNAC no Norteshopping


 

quarta-feira, 16 de março de 2022

Pijama










O ar exterior, dizem os avisos da protecção civil, não deve ser respirado por velhos, crianças e doentes. Por uma vez, e espero que sem exemplo, sinto-me abrangido pelo aviso e só com velados cuidados franqueio a portada da sala para consumir uma cigarrilha ou outra, e para que alguma livre revoada circule pela casa e revolva os miasmas eventualmente acomodados junto aos rodapés, nas dobras das cortinas ou na vastidão do corredor que a luz amarela do astro sujo mal ilumina. Impedido de sair, ocorre-me que um Proust, um Pynchon ou, vá lá, um Trevisan, aproveitariam a reclusão para trabalhar incansavelmente, produzindo alguma obra-prima que os vindouros pudessem admirar sem ler. Eu, pelo contrário, aproveito para, pela primeira vez em várias décadas, passar um dia inteiro de pijama — coisa tão desprovida de graça. De muito melhor catadura me acharia agora mesmo em calções, correndo as minhas pernas esquálidas e débeis pelas ruas da cidade que a poeira africana lentamente recobre. Antes morrer com os pulmões saturados da areia de outro continente, de outras vidas, do que envergando o pijama vestido na véspera. Coisa mais triste, ché.

terça-feira, 15 de março de 2022

Outra vez









Compreendi, nos primeiros dias da invasão russa da Ucrânia, que as gerações mais novas dispensam as notícias e as reportagens da guerra, recorrendo, em vez disso, aos vídeos disponibilizados na aplicação Tiktok. Acedem, assim, a imagens directamente transmitidas a partir das diversas frentes de batalha pelos jovens soldados de ambos os lados, sem qualquer mediação ou filtro que separe a informação da propaganda. A minha filha contou-me também que os russos não se coíbem de usar a rede social de engate Tinder para procurar ucranianas que lhes possam aliviar o stress da guerra, numa prática provavelmente tão antiga como a Humanidade, mas que adquire agora, digamos assim, uma nova dimensão.

Não me debruçaria, porém, sobre as práticas recreativas dos maçaricos russos se não tivesse ontem visto na RTP2 o documentário "Wars don't end", de Dheeraj Akolkar, dedicado ao drama das crianças norueguesas nascidas durante a II Guerra Mundial, fruto de relações entre ocupantes alemães e mulheres norueguesas. Quando o invasor foi afastado, essas crianças viram-se maltratadas, violadas em grupo, discriminadas, internadas à força em manicómios e até oferecidas como mão-de-obra ao Governo da Austrália, pura e simplesmente por carregarem no sangue aquilo a que os noruegueses, supostamente civilizados, designavam pela expressão "genes nazis". O estado norueguês não só foi incapaz de proteger essas crianças, para as quais a guerra nunca acabou, como terá sido cúmplice da torpe vingança.

Em diferentes graus e matizes, sucedeu em muitas outras guerras e ocupações. Pode suceder agora outra vez e não será decerto este texto rebarbativo a evitá-lo. Mas não custa nada tentar recordar que as pessoas não são responsáveis pelas guerras dos seus países e que os filhos delas o são ainda menos ou mesmo nada.

sábado, 12 de março de 2022

O sábado e o seu metaverso











Saio à rua e chove. Tem chovido com abundância nos últimos dias, mas, visto que ainda ninguém decretou o fim oficial da seca severa, cogito que uma coisa há-de ser a realidade verdadeira e outra, completamente diferente, a realidade tal como a percebo e sinto nos ossos, a qual me molha e resfria. Não há motivo para alarme, pondero. Também não existe nenhuma razão objectiva para que a realidade verdadeira seja mais válida ou fiável do que a minha realidade, talvez um pouco autista, talvez um pouco desvairada, mesmo se a quantidade de produtos nas prateleiras do supermercado insiste em desmentir a impressão de que há uma guerra e fome ao virar da esquina, e notícias que anunciam racionamentos e inflações. Parece-me, é certo, que toda a multidão empurrando melancolicamente os seus carrinhos verdes no princípio deste sábado é também capaz, como eu, de ver os presuntos e os pernis, as pescadas e os polvos, os morangos, os queijos e os grandes pães de Rio Maior, as postas copiosas de salmão, os pródigos nacos de vitela. Mas é possível que tudo resulte da minha confusão, do meu distúrbio, não haja ninguém à espera na fila da peixaria e o PS não tenha ganho eleições com maioria absoluta. Também é possível que nem sequer esteja a chover lá fora e o moço que me serviu o café não o tenha realmente feito com a máscara cirúrgica posta no queixo, como um adereço extravagante do meu metaverso, da minha realidade paralela, desta alucinação inverosímil que insiste em desmentir a realidade verdadeira dos telejornais, os comentadores de tudo e mais alguma coisa e o anúncio do fim do mundo a cada instante.

terça-feira, 8 de março de 2022

As lágrimas amargas de um soldado ucraniano









É possível que um jornalista nunca deixe de o ser Todas as semanas dos últimos 9 anos, desde que uma parte da minha vida me foi subtraída, há sempre pelo menos uma noite em que sonho que ainda sou jornalista e estou a trabalhar na redacção em que passei 23 anos, tomando notas e procurando a melhor forma de escrever as minhas reportagens e os meus textos, empenhado em não me esquecer de nenhuma informação essencial.  É provavelmente por isso que não sou ainda capaz de me alhear das notícias do mundo, das suas grandezas e misérias, do resíduo de realidade que nelas há.

Mas sou, acima de tudo, um cidadão e um pai. Foi talvez por isso que me emocionei ao ver, hoje, as imagens de um pai ucraniano que se despedia do filho para poder continuar a lutar pelo país em que acredita, pela vida em que acredita e que deseja para si e para os seus. A criança chorava e batia no rosto do pai. Agredia-o no capacete como qualquer menino mimado que não quer apartar-se. O pai procurava acalmá-lo, fingindo uma força que provavelmente lhe faltava: aconchegava-o na farda e talvez murmurasse palavras doces e de esperança, o pai vai ali e já vem, o pai tem de ir trabalhar e já volta, vai ficar tudo bem.

Vi as imagens e senti nelas as minhas próprias angústias. Vi quando o soldado chorou; quando o soldado armado com uma bazuca a tiracolo foi simplesmente humano e frágil. Vi e tive a certeza de que aquele homem fardado, pronto para a guerra e para a morte, adquiriu, enquanto se despedia, mais uma razão para lutar e viver: poder abraçar o seu filho num país e numa realidade finalmente em paz.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Requiem pelo Partido Comunista Português











Tendo em conta a gravidade das circunstâncias actuais, a posição do PCP relativamente à invasão militar da Ucrânia pela Rússia não passa de escuma — daquela escuma tão leve que qualquer brisa levanta e dissipa. Esta é, todavia, a minha última homenagem a um moribundo, pelo que não quero deixar de a expressar de modo tão veemente e comovido quanto possível.

O PCP, entenda-se, é livre de adoptar as posições que entender mais convenientes. Beneficia, para isso, do facto de ser um partido político protegido pelas leis de um país democrático (as mesmas leis que protegem as mentiras mil vezes repetidas da IL ou do partido cujo nome não reproduzo). Nem sempre foi assim, sabemo-lo, e a história está repleta de mártires comunistas que deram a vida em defesa dos seus ideais de justiça e equidade. O argumento, porém, segundo o qual a invasão russa da Ucrânia pode ser (pasme-se) justificada pelo facto de o governo ucraniano ter alegadamente "integrado nazis nas forças armadas" é simplesmente bizarro, tão infantil que chega a ser penoso lê-lo.

Sabe-se que os fascistas europeus, racistas e xenófobos, têm vindo a integrar o governo de vários países europeus, como a Áustria, a Itália, a Holanda e a Dinamarca. Em nenhuma destas circunstâncias me lembro de ter ouvido o PCP a defender a invasão militar daquelas nações — desde logo porque seria estúpido e ridículo. A que propósito, então, o PCP decidiu alinhar com a putativa campanha russa de "desnazificação" da Ucrânia, desde logo quando se sabe que também o exército e a polícia ou o Parlamento portugueses integram elementos que alinham por ideias de extrema-direita? Deverá a Espanha invadir-nos? As Berlengas?

Os comunistas de outros tempos, defensores da liberdade e da justiça, estariam hoje nas trincheiras ao lado daqueles que procuram defender a independência de um Estado de Direito democrático na Ucrânia. Sucedeu, por exemplo, na Guerra Civil de Espanha. O PCP, todavia, acaba de renegar os seus princípios fundamentais. Depois de ter sobrevivido trinta anos, e contra o vaticínio de muitos, à queda da União Soviética e do Bloco de Leste, vai agora sucumbir por ter defendido um regime autoritário, fascista e que vive descaradamente para manter os privilégios de uma minoria de plutocratas ultra-ricos, em detrimento dos milhões e milhões de pobres e proletários russos. 

Trata-se de uma trágica ironia e de um fim que não é bonito nem digno para todos aqueles que lutaram, acreditaram e acreditam nos belos ideais do comunismo. Paz à sua heróica memória.

quarta-feira, 2 de março de 2022

O mesmo infinito horror








Tendo passado alguns dias alienado entre gente inteligente, escutando as palavras inteligentes que disseram e quase desligado do clamor do mundo, dos ecos que dele chegam pelos ecrãs da televisão, as notícias da invasão russa da Ucrânia chegaram-me esbatidas e distantes durante os primeiros dias. Da varanda do hotel, olhando o horizonte, o mar continuava enrolando-se em sucessivas e belas vagas verdes, os cães passeavam os donos na marginal, o bar do hotel enchia-se de uma gente animada e as coisas do mundo pareciam regulares e indiferentes a qualquer abalo. A guerra é lá longe, havíamos de pensar todos, ainda que nenhuma distância seja suficientemente segura para manter afastada a estupidez da morte, do poder, da destruição e da barbárie. As imagens que agora vejo evocam a memória de todas as guerras, as de África e as do Médio Oriente, as dos Balcãs e as da Ásia, as da velha Europa, com os seus refugiados e as ruas cobertas de destroços, o medo nos olhos das crianças e a bravata de alguns, que sempre hão-de trazer o mundo em tumulto, em pânico, em ebulição. Os séculos passam, as modas mudam, os comboios modernizam-se, mas a espécie parece incapaz de aprender as lições essenciais da História e repete os mesmo erros, a mesma tragédia, o mesmo infinito horror. Desta vez, ao menos, os refugiados são brancos, são eslavos, são bons trabalhadores, e não parece haver quem não queira recebê-los de braços abertos, ao menos para já. Mas nunca se sabe o que está para vir.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Banhos de cultura












Pratico às vezes, com a circunspecção possível, uma espécie de mergulho invisível nas ruas da minha cidade, misturando-me com os turistas a caminho dos seus e dos meus afazeres. Escuto distintas vozes, distintos idiomas, vejo-os fotografarem-se em poses de instagram, filmarem-se ao cruzar a ponte, e percebo muitas vezes o que dizem, ainda que, na maior parte dos casos, não digam nada — exclamam a própria excitação da viagem.

Em algumas ocasiões, cruzo-me também com outros portugueses, cuja condição turística ou passeante se depreende com relativa facilidade, por dizerem coisas divertidas e toscas como "Vamos ao Piolho que é cultural". E vão ao Piolho, pois, provavelmente para descobrirem que o Piolho é apenas um café e uma esplanada igual a tantos cafés e esplanadas deste país de cafés e esplanadas, apenas distinto por existir há muito tempo e por lá ter ficado o testemunho de sucessivas gerações de doutores cinzelado em placas de pedra que eternizam erros de sintaxe, de gramática e de pontuação que nem os mais doutos doutores conseguem, pelos vistos, evitar, nem disto se envergonham especialmente.

Outros portugueses e portuguesas passeantes, decerto mais atentos à coisa social, à essência mesma das civilizações, transitam constatando que certas pessoas "também não têm o hábito de tomar banho como nós". Ignoro a que cultura, etnia ou raça se dirigia a inteligente observação. Não tenho ideia, porém, de terem sido os portugueses pioneiros na prática de algum tipo de higiene, de banho, de lavagens ou de abluções, de alguma prática, enfim, que faça de nós um povo mais limpo do que qualquer outro. Mas para sabê-lo seria preciso um outro banho de cultura que não se limitasse à fruição da cultural esplanada do Piolho ou das longas filas para ir fotografar uma livraria sem que, alguma vez, se pretenda ler uma só linha de um livro.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Postal ilustrado


Passo, com certa frequência, pela velha ponte metálica que atravessa o rio da minha aldeia, agora convertida em canal de circulação do metropolitano e miradouro para turistas. Mas nunca me enfado. É impossível cansarmo-nos de ali transitar, como correndo rente aos telhados do casario. O Douro cintila. As janelas dos edifícios reflectem os jogos que a luz produz na corrente. As gaivotas planam e as estrangeiras esticam os beiços para os filmes em que imitam, tão tolas, as vedetas do instagram. Os rabelos baloiçam suavemente. Às vezes, a neblina torna tudo ainda mais diáfano e impreciso, para gáudio daqueles que, na ponte, disto se comprazem.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Ligamento cruzado anterior









Diz a famosa lenda que Aquiles, o filho do rei Peleu e da deusa Tétis, era invulnerável por ter sido banhado pela mãe nas águas do rio Estige. O calcanhar, que não chegou a ser molhado, era o seu único ponto fraco e aí mesmo o atingiu Páris — que o lixou.

De origens menos divinas, este vosso criado vai aprendendo a ser invulnerável a quase tudo, ou a fazer de conta, mas acaba de ser confrontado com o diagnóstico de "ruptura completa não recente do ligamento cruzado anterior" do joelho direito. Não apresenta "bursite da pata de ganso" nem "edema na gordura de Hoffa"; nenhum quisto de Baker na fossa poplítea, nada no menisco, mas o tal ligamento está morto e enterrado. Paz à sua alegre memória, farewell às danças loucas, às fintas de corpo e aos dribles endiabrados.

Aquiles tinha um calcanhar fraco e um tendão que lhe herdou o nome. Marmelo tem um joelho ruim e um LCA que equivale agora a um apêndice inútil. Espera este, ainda assim, que os invejosos e os maledicentes continuem a fazer pontaria para onde a dor lhe seja mais tolerável, permitindo-lhe, ao menos, continuar a caminhar por aí com as costas direitas (ou já nem tanto).

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Dos belos amanheceres










Certos dias iniciam-se dolorosamente, com uma dor nas costas que nos interdita o próprio caminhar. Outros, como hoje, começam com belas surpresas que nos reconciliam com as coisas do mundo e diálogos inteligentes. Como isto. Ou isto.

Aproveito, pois, a boleia do mestre Fernando Alves para anunciar que chegará às livrarias, daqui a uma semana, o meu livro mais recente, A Última Curva do Caminho, o qual, na respectiva contracapa, se apresenta assim ao mundo:

Retirado do fragor apressado da capital e das obrigações mundanas, um velho professor jubilado prepara-se para morrer. Olhando a ruína da casa dos avós a partir da última curva do caminho que ali conduz, recorda o garoto que foi e tudo o que lhe sucedeu depois: o triciclo que teve em África, a primeira bicicleta, o charco dos girinos, os livros que escreveu e as mulheres que amou. 

Partindo de uma pícara lenda familiar e do lento mergulho nas coisas do passado, o catedrático Nicolau Coelho constrói uma narrativa íntima e nostálgica, durante a qual não deixa de ponderar, com certa ironia, sobre a intolerável velocidade das coisas do presente, dos automóveis à chamada inteligência artificial. 

Mais do que um romance, A Última Curva do Caminho constitui um acto de resistência e um manifesto em defesa da lentidão, da liberdade individual e do direito à eutanásia, com um enredo marcado pelo processo de envelhecimento, pela doença, pela solidão e pela perplexidade diante da inevitabilidade da morte.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Um pouco mais claro

Estou um pouco mais aliviado, obrigado. O que não significa que os resultados eleitorais de domingo me tenham deixado satisfeito. Não gosto, muito sinceramente, de maiorias absolutas e temo as suas (inevitáveis?) consequências. Relativamente ao crescimento dos fascistas, racistas e ultraliberais, vejo-o como uma decorrência normal do desaparecimento do CDS (dos quase vinte deputados que o CDS chegou a ter e que passaram a estar divididos em duas fatias). Agora, ao menos, sabemos quais deles são os fascistas e racistas (nem sequer falta, como no velho CDS, um deputado etnicamente diverso para mostrar aos jornalistas e procurar negar o óbvio) e onde estão os amigalhaços dos ricos, dos plutocratas e da maçonaria. Ficou tudo um pouco mais claro. Daqui para a frente, a progressão aritmética dos dois partidos que herdaram as cadeiras do CDS terá de ser feita apenas à custa do PSD (dos racistas, fascistas e ultraliberais que continuam escondidos no PSD), o que não é necessariamente mau.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Em Fevereiro voltamos a conversar ( se o mundo não tiver acabado)










Num post do final de Outubro, chamei festim suicidário à estúpida crise política que conduziu à dissolução do parlamento, a eleições antecipadas e à possibilidade de passarmos a ser governados pelo energúmeno do Bom Sucesso e pelos seus aliados radicais cristãos, ultraliberais e neofascistas. Conheço-o bem: de 12 anos à frente da Câmara do Porto e de uma gestão patibular que só não matou a cidade de atraso e pasmaceira porque a Ryanair a salvou, inundando-a de turistas, e que perseguiu de modo soez todos aqueles que se atreveram a questionar as suas opções. Tê-lo à frente do governo de Portugal há-de ser um pouco como voltar aos anos 1960, às bolas de naftalina, à pobreza de mão estendida, remendada e orgulhosa do seu atraso, aos dias sombrios de silêncio e muito respeitinho. Não votarei, por isso, em nenhum dos três partidos responsáveis por esta escabrosa possibilidade, os quais agora, acossados pelas sondagens, se dizem disponíveis para futuros entendimentos. Tivessem conversado em Outubro. Se não era possível manter a geringonça, tivessem inventado a traquitana, a engenhoca, a maquineta ou a caranguejola, qualquer coisa, enfim, que nos livrasse deste refrigério, desta morte, deste frio que nos sobe ao pescoço como um réptil viscoso e gordo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

A luz que se põe na mesa


Pelo menos desde 1 de Abril de 2013 que o fotógrafo Daniel Blaufuks fotografa (e publica no instagram) uma mesa e uma janela, parte de uma série a que, na esteira de Georges Perec e Enrique Vila-Matas, chamou Tentativa de Esgotamento. Na primeira dessa imagens, assentava sobre a mesa um candeeiro, um livro, um envelope e um copo. Na mais recente há uma tigela, um guardanapo laranja, um telemóvel com o seu carregador, uma maçã e um artefacto que talvez seja um açucareiro ou um bule. No parapeito da janela com vidros martelados antigos estão dois elefantes de plástico. Ao longo deste quase nove anos já passaram pela mesa jarras de flores e folhas de negativos, algumas pessoas, copos e jornais, outras e diferentes tigelas, toalhas, livros, óculos, papéis, uma menorá, copos diversos e molas da roupa, um globo de vidro, caixas de pastéis, uma romã, embalagens de detergente, sacos de ameixas, postais ilustrados, os elefantes de plástico, pacotes de leite dos Açores, um limão, um saco de laranjas, um computador portátil, um vaso de manjericão, restos de piza, pratos de arroz e garrafas de vinho, revistas meio lidas, um cubo vermelho, uma garrafa de cerveja e cascas de laranja, um frasco de picles e um quarto de queijo brie, a noite, a manhã e a luz verde da madrugada. Por ali passou sobretudo, ou assim me parece, o tempo lento que transcorreu entre a primeira e a última das fotografias e também uma espécie de melancolia e a luz concreta que, um dia após o outro, se põe sobre a toalha da mesa — singular e inesgotável.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O ordenado é mínimo. A decência nem por isso.









A desfaçatez que para aí vai. 

O bando que se auto-denomina Iniciativa Liberal, avesso a quem trabalha para que uns poucos enriqueçam, aproveitou há dias o (demasiado generoso) tempo de antena que lhe é concedido pelos canais de televisão para defender o fim de um ordenado mínimo nacional, o qual seria substituído por um ordenado mínimo municipal, estabelecido por cada uma das 308 câmaras do país. 

Consegue imaginá-lo? 

Um presidente de câmara apostado em proporcionar algum conforto aos seus munícipes fixa, por exemplo, um ordenado mínimo de 900 euros (que para pouco dá). O concelho do lado, para atrair investimento, decide fixar o ordenado em 750 euros. O seguinte, ainda mais competitivo, estabelece-o em 600 euros. E não tardaria muito para que os trabalhadores estivessem outra vez a ganhar 400 euros por mês em unicórnios com grandes lucros e enorme cotação na bolsa, principescamente instalados no concelho que ofereça salários mais baixos. Ou até nenhum salário.

O "jornalista" que registou esta selvajaria não confrontou o selvático líder da IL com o óbvio, nem me apercebi de que os ditos líderes de opinião a tenham problematizado, provavelmente convencidos de que o Cotrim lhes convém ou de que aquilo que ele diz não é para ser levado a sério. Mas o perigo é real. Num cenário macabro em que o PSD de Rui Rio vence as eleições, o IL pode muito bem acabar no governo, impondo (sem grande esforço) aquela selvajaria indecente aos seus libérrimos aliados.

Não o escrevo de ânimo leve, porém. Ainda há dias vi o anúncio de um projecto de comunicação que requisitava jornalistas para produzir informação "independente", "rigorosa", "de excelência e qualidade", aos quais se propõe não pagar um único tostão durante, pelo menos, o primeiro ano de actividade. É o paraíso liberal em marcha. A indecência pura transformada em desfaçatez e programa político.

Já dizia a cantiga: "Batendo as asas pela noite calada/Vêm em bandos com pés veludo/Chupar o sangue fresco da manada".

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Passar a ferro, puro exercício filosófico


Entre os hábitos saudáveis que mantenho apesar de tudo, conta-se a leitura regular dos melhores cronistas do El País (jornal que ainda tem cronistas a sério e não apenas políticos, celebridades e estrelas pop que talvez possam render mais algumas centenas ou milhares de cliques para as estatísticas do marketing orgânico). Deste modo, fiquei esta manhã a saber que o Juan José Millás ocupa tardes inteiras a passar a sua própria roupa a ferro, ainda que, no seu caso, engomar não seja uma mera prenda doméstica (como se dizia antigamente). Há neste seu labor, ou assim parece, toda uma filosofia, uma praxis reflexiva que a mim, praticante irregular e muito menos obsessivo daquele exercício, me havia escapado (o que não chega a ser novidade nenhuma, pois é sempre muito mais o que me passa ao lado do que aquilo que chego a entender). 

Acompanhando o raciocínio de Millás, posso supor que, embora engomar (ou cozinhar, ou lavar a louça) também contribua para fazer de mim um tipo mais decente, jamais alcançarei certas minúcias intelectuais pelo simples facto de não me dedicar tão afincadamente, de modo tão perfeccionista, à eliminação de todos os vincos e rugas, e muito menos à (para mim) inútil engomadura da roupa interior. Aprecio andar lavado, penteado e relativamente aprumado, mas não careço de cuecas passadas a ferro, nem de peúgas passadas a ferro, se calhar porque, não tendo uma alma, me falta também o pretexto segundo o qual as roupas íntimas são aquelas que ficam mais próximas do espírito.

Estabelecidas as devidas distâncias entre um engomador e outro, e compreendidos, por consequência, os limites da minha agudeza e do meu esmero existencial, não deixo, porém, de declarar o que me parece fundamental. Enquanto passo a ferro, cozinho ou lavo a louça, disponho como de uma cápsula à qual não chegam o ruído infernal do mundo nem as solicitações mundanas. Nela isolado, protegido, sou muitas vezes capaz de pensar livremente e até de chegar a ter uma ou duas ideias decentes. Até à Kim Novak há-de ter acontecido.