quarta-feira, 1 de abril de 2026

Nada os comove

 Um autor que, nos próximos tempos, não deverá, de certeza, ser de leitura obrigatória ou facultativa nas aulas de Português do Secundário é Ferreira de Castro. O seu romance Emigrantes poderia, por exemplo, levar os infantes e as moças nacionais a descobrir que um migrante é apenas um homem que transita «de Norte para Sul, de Leste para Oeste, de país para país, em busca de pão e de um futuro melhor», «de olhos postos na luz que a sua imaginação acendeu, enquanto os mais ladinos, aproveitando todas as circunstâncias favoráveis ou criando-as até, fazem oiro com a ingenuidade dos ingénuos». 

Não querendo vossas excelências arriscar o trabalho de ler o livro completo, peguem nele onde o encontrem e leiam, pelo menos, o Pórtico que lhe serve de prefácio desde a quarta edição, ao qual subtraí as palavras precedentes. Pode ser que se comovam como eu me comovi, sendo embora certo que nada comove os imbecis xenófobos (e que também nada os demove da estupidez ou da cegueira).

Conto, já agora, uma conversa a que recentemente assisti num restaurante, envolvendo uns matarruanos bem aprumados que, pelos vistos, são empresários da construção ou algo assim. Dizia um que «os cabo-verdianos são burros, mas trabalham», ao que outro acrescentava que, se o primeiro quisesse, mandava vir amanhã cinco angolanos, fazendo crer que dispor de tal mercadoria é a coisa mais trivial do mundo. Não é difícil imaginar, pela aragem, em quem votaram e votam tais cretinos, nem adivinhar quem enche os bolsos com o trabalho árduo dos tão malquistos imigrantes.

terça-feira, 31 de março de 2026

Inteligências menos estúpidas (reloaded)

 O Teatro Anatómico superou este mês, e por larga margem, a marca das 14 mil visualizações (foram exactamente 14.929), estabelecendo um recorde absoluto desde a sua criação no tempo já longínquo em que ainda se usava ler blogues. Bem sei que as visitas registadas em Março não correspondem a uma realidade efectiva e que, diz quem sabe, este intumescimento se deve à actividade de bots digitais que por aqui passam sabe-se lá com que obscuros propósitos. Mas, por uma vez sem exemplo, sejamos optimistas: é possível que este blogue esteja a contribuir activamente para que as inteligências artificiais fiquem um bocadinho menos estúpidas - nem que seja percebendo, por fim, que não há aqui nada que minimamente lhes possa interessar.

Escritores há muitos, seus palermas

 O assunto é tão exótico que não parece ser sequer necessário tomar partido por José Saramago (ou por Mário de Carvalho, ou por Camilo Castelo Branco) a propósito de uma das mais recente trapalhadas armadas pelo ministro da Educação, Ciência e Inovação. Questionado por um pé-de-microfone, sua excelência o professor Fernando Alexandre alegou, sem que lhe caísse qualquer dente, que a proposta resulta de uma questão «técnica», desvalorizando a polémica com a redonda frase segundo a qual «Portugal tem muitos escritores». Já hão-de, aliás, os escritores (e as escritoras) ser mais numerosos do que os chapéus no tempo do Vasco Santana, dos mais diversos géneros e para quase todos os gostos. O que não há é outro que tenha ganho o Nobel da Literatura e que constantemente nos recorde que, num tempo em que tudo se privatiza a eito, talvez estes energúmenos pudessem, «já agora», privatizar «também a puta que os pariu a todos». Ora isto, bem vistas as coisas, não é afronta que um palerma possa relevar de ânimo leve.

Se Trump fizer questão

 Hesitei bastante, confesso, antes de escrever este texto, desde logo porque estou cansado de várias coisas que só lateralmente vêm ao caso: que a seleção portuguesa de futebol vá disputar um joguinho amigável numa nação que está, neste momento, a matar civis inocentes (em escolas e universidades, como já aconteceu) no âmbito de uma guerra ilegal e que viola várias disposições do direito nacional (deles) e internacional (de todos nós), executando, como quem bebe um copo de água, líderes políticos, religiosos e militares que não foram julgados em tribunal algum, ao mesmo tempo que os moluscos paneleiroides do governo português autorizam a utilização de uma base nos Açores para esse fim (ao contrário do que fizeram, por exemplo, a Espanha e a Itália). (uffff...) 

Talvez valha a pena recordar, neste ponto, que a Rússia foi excluída de todas as competições desportivas internacionais assim que invadiu um país (nazi, alegam eles), mas que nada nem ninguém impede os desportistas do Eixo israelita-norte-americano de participarem, à vontadinha, em todas as provas desportivas que lhes apeteça. Há até várias nações que se preparam para ir em romaria disputar um Mundial de Futebol num país que não garante a mínima decência às pessoas que o visitam (e muito menos, portanto, à seleção iraniana; mas sabe-se lá o que poderá acontecer aos futebolistas de Cabo Verde e aos seus adeptos, por exemplo). 

As autoridades nacionais, porém, fecham os olhos, fazem de conta que não vêem e assobiam para o ar. Se Trump fizer questão e der ordens nesse sentido, Nuno Melo, Paulo Rangel e Luís Montenegro aceitarão até varrer a base das Lages quando terminar o morticínio dos MQ-9 (e, se calhar, nem se importam de levar a vassoura atarrachada ao fundo das costas).

segunda-feira, 30 de março de 2026

Voar baixinho

 Aconteceu outra vez: sonhei que era capaz de voar. Sem adereço algum, bastava-me dar um impulso ao corpo para descolar e, depois, atravessar o ar em todas as direcções que desejasse. Desta vez, porém, só conseguia erguer-me a uns poucos de palmos acima do chão e a minha agilidade em vôo parecia algo insatisfatória. Consequentemente, até os aselhas que não voam faziam questão de tornar óbvio que voar de forma imperfeita é uma habilidade com muito pouco préstimo.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Nem a loucura

 De acordo com Erasmo de Roterdão, a loucura garante não só a insensata (e gostosa) preservação da espécie humana, mas também os folguedos da vida. Mais: a loucura governa "até naqueles que governam os outros", circunstância que, em certas épocas, como aquela que agora padecemos, fica evidentemente demonstrada. O século XXI, a avaliar pelo que já leva de vencido, há-de transcender em insensatez todos os manicómios nossos conhecidos. Os que governam, com efeito, parecem ter garantida entrada franca nos piores hospícios. E nem a Loucura de Erasmo reivindicará o desvario de tais bestas.

terça-feira, 24 de março de 2026

Ouviram?

 A última fotografia do livro Dias Felizes, do fotógrafo Egídio Santos, mostra, na contracapa, alguns vultos humanos em contraluz e, ao fundo, uma frase que parece pintada, em cursivo, na parede branca de um lavatório: «Façam o mundo melhor, ouviram?».

Trata-se, como as restantes imagens do livro, de uma fotografia captada na Festa do Avante, que o Egídio visita desde 1988.

Fazer do mundo um sítio melhor devia ser um imperativo categórico (não necessariamente kantiano) de qualquer forma de vida racional e minimamente humana. Não parece sê-lo, porém, para a maioria dos espécimes, que ou não são humanos, ou não são racionais, ou já não sabem bem que coisa possam ser, talvez hologramas instagramáveis, talvez máquinas de morte, talvez caixas registadoras, se calhar simples filhos da puta (em alguns casos sem culpa das respetivas mães).

À pergunta (ouviram?), obviamente retórica, o mundo - sacudido por bombas, entorpecido pelo zumbido assassino dos drones - responde em silêncio e faz ouvidos moucos.

Coisas da Primavera

 Os andaimes ainda não foram retirados, mas o pavão da fachada dos Armazéns Cunhas, na Praça dos Leões, já está restaurado e pintado de fresco. Lá do alto, majestoso, abre em leque a vasta cauda de hiperbólicas cores sobre as primaveris moças que se pavoneiam na calçada.

segunda-feira, 23 de março de 2026

O grande negócio

 Uma das mais perversas instituições do capitalismo são os chamados "mercados", nos quais se compram e vendem ações de empresas e se determina também a cotação de metais, minerais e combustíveis, entre outras coisas. Orquestrados pelos grandes capitalistas, os correctores são como marionetas ou baratas com esteroides, gesticulando de modo insano e reagindo a estímulos pouco claros, que apenas acautelam os brutais lucros de uma pequeníssima minoria. Agora, com um psicopata na Casa Branca, o negócio tornou-se ainda mais movediço e insano, ao sabor das coisas desencontradas que o sujeito afirma consoante a hora do dia, provavelmente a fim de engordar os próprios ganhos (que todos pagamos, dia após dias e a todas as horas).

sexta-feira, 20 de março de 2026

Fui só eu que reparei que...

 ... as pessoas do PSD passaram a ser adeptas fervorosas da regionalização desde que o partido passou a controlar a maioria das câmaras municipais do país?

É pena que não tenham acordado há mais tempo, por exemplo durante a campanha para o referendo de 1998 (o atual presidente da Câmara do Porto tinha, então, 25 anos). Podíamos perfeitamente ter poupado quase 30 anos de centralismo e atraso.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Contar as pratas

 A possibilidade, cada vez mais provável, de o partido clepto-fascista poder indicar juízes para o Tribunal Constitucional recordou-me uma anedota antiga do Woody Allen — aquela segundo a qual os funcionários da Casa Branca se viam obrigados a contar as pratas de cada vez que o presidente Nixon saía do edifício.

terça-feira, 17 de março de 2026

Core business

 Joe Kent, até agora chefe dos serviços de contra-terrorismo dos EUA, não afirmou hoje nada que já não soubéssemos (quase) todos: o Irão não representava, antes de começar a ser metodicamente destruído, qualquer perigo iminente e só um tolo alienado acredita que os misóginos norte-americanos e israelitas estão preocupados com a liberdade dos iranianos em geral e, em particular, das mulheres iranianas. Convenhamos, ainda assim, que Joe Kent é um observador particularmente qualificado e bem informado, cujas razões vale a pena ouvir. As suas alegações, porém, não produzirão qualquer efeito sobre a voragem de Trump (& sus muchachos) pelo petróleo alheio ou sobre o ímpeto israelita para destruir e matar todos aqueles que não estejam dispostos a vergar a cerviz diante do sionismo fascista. A aniquilação completa de civilizações, cidades e povos tornou-se, aliás, a principal actividade (o core business, como se diz agora) de um país que parece só ter aprendido as lições erradas da História do judaísmo.

sexta-feira, 13 de março de 2026

O que inquieta

 Não espanta, bem vistas as coisas, que o putativo salvador da pátria, sempre frenético para dizer coisas e aldrabar quem possa, não se pronuncie sobre a agressão ao Irão e as respectivas consequências para o bolso dos cidadãos. Não passa, sabemo-lo bem, de um fantoche local da internacional fascista orquestrada pelos mestres e senhores do algoritmo. O que inquieta é que os supostos jornalistas (aparentemente) não lhe façam perguntas sobre o assunto.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Contacto humano

 Há no Japão, segundo esta reportagem, uma nova tendência social, o butsukari otoko, a qual consiste em fazer-se colidir deliberadamente com outros pedestres enquanto se circula em espaços públicos. Abundam os relatos, as imagens e as estatísticas que o comprovam, e vários especialistas atribuem aquela prática a "dinâmicas de género", ao stress e até à invasão de turistas. No essencial, a tese sustenta que pessoas zangadas com a vida procuram agredir aqueles que consideram inferiores: os homens colidem com as mulheres, uns e outros abalroam turistas e crianças. Todos, se calhar, encontram no butsukari otoko um modo de obter ao menos uma migalha de contacto humano.

Tailândia

 Escreveu o heterónimo Bernardo Soares: «Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações»? Acabo, de resto, de assistir à mais prosaica demonstração destas palavras: à porta de um restaurante tailandês do Porto, aglomerava-se, à hora de almoço, uma grande quantidade de tailandeses, os quais, está claro, não se dariam ao trabalho de turistar para tão longe a fim de se rebaixarem a deglutir rojões ou tripas.

P.S.: a propósito, adoro os cidadãos que viajam para a Tailândia e para outros paraísos exóticos durante uma pandemia ou na véspera de uma guerra anunciada, e que, sendo provavelmente liberais e reformadores q.b., exigem que o Estado (que somos nós todos, mesmo os que não viajam) lhes trate da viagem de regresso.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Porcos

 Nos seus sermões de há oitocentos anos, Santo António referia-se amiúde aos «pérfidos avarentos e usurários» que se apoderaram do mundo inteiro, «engordados pelos bens temporais como se foram porcos». Talvez se devesse agora repeti-lo naquelas festarolas pirosas que todos os anos se organizam na capital, a fim de que ao menos alguns (poucos) o escutassem. O mundo não parou de crescer desde o século XIII e os porcos tornaram-se ainda mais obesos, ostensivos como grandes odres obscenos.

sexta-feira, 6 de março de 2026

A minha tanga

 Com muitíssima frequência, e de modo assaz inquietante, o espaço público vê-se atravancado de reformistas e de outros comentadores avulsos que são também adeptos convictos do reformismo, os quais exigem aquilo a que chamam "a reforma do Estado". Outros, com idênticas intenções, mas desconfiados da literacia político-económica dos portugueses, propõem apenas, e vagamente, "salvar Portugal". 

Une-os um objetivo comum: ascender à posição institucional que permite distribuir tachos e prebendas pelos amigos. Para ser rigoroso, une-os ainda o facto de raramente dizerem com clareza quais as medidas "reformistas" que pretendem adoptar, embora, no fundo, as "reformas" que querem ver concretizadas consistam, no essencial, em reduzir os direitos cívicos e laborais da generalidade dos cidadãos, destruir serviços públicos e dar ainda mais poder discricionário e mais dinheiro a quem já tem demasiado dinheiro e demasiado poder. 

Trata-se, com efeito, de um programa compreensivelmente impopular, caso fosse assumido com frontalidade e tivesse de ser sufragado pelos eleitores. A fim de o evitar, as "reformas" e a salvação de Portugal são utilizadas como as nuvens de fumo tóxico que a polícia de choque lança nas manifestações a fim de confundir e reduzir a visibilidade dos manifestantes. 

Por tudo isto, e para resumi-lo de algum modo, sempre que sou surpreendido pela intervenção pública de um reformista (ou de um salvador da pátria), corro, à cautela, a tirar a minha tanga da naftalina para a deixar a arejar na varanda. Já não deve tardar muito para que nos obriguem a usá-la outra vez.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Falta de xá

 Segundo uma pessoa cujas convictas opiniões acabei de escutar, os problemas do Irão começaram «quando os americano lá puseram os alátoias». Depois repetiu três vezes a palavra «alátoias», em diferentes frases, antes de que eu tivesse tempo de apagar a beata.

terça-feira, 3 de março de 2026

Saltos altos

 Os líderes europeus até podem tentar fazer voz grossa e usar saltos altos - ninguém levará a Europa a sério enquanto expressões como "Estado de Direito" e "legalidade" forem meros artifícios retóricos de hipocrisia política, usados apenas quando convém.

domingo, 1 de março de 2026

Ração

 De acordo com a comunicação social, há uma nova tendência social à solta nos tiktoks da vida: jovens que se identificam com outros animais (não humanos, bem entendido), os therians disfarçam-se de felídeos e canídeos fofinhos, imitando os respectivos comportamentos (e exibem-se, claro, nestes preparos). Mas continuo sem perceber se comem ração seca ou húmida.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Preventivo

 Os agressores alegam que o ataque ao Irão é "preventivo" (e os papalvos repetem-no várias vezes ao dia). Mas em nenhum momento explicam o que foi prevenido pelo ataque preventivo. O Irão nunca atacou outro país e não tem armas nucleares, ao contrário do Paquistão, que ainda esta semana começou outra guerra (para além daquela que mantém com a Índia há décadas). Jamais ocorre aos donos do mundo a possibilidade de prevenir perigos reais.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

TikTok

 Em Puerto Vallarta, no rescaldo da batalha entre a polícia mexicana e os cartéis da droga, um indivíduo entrevistado pela televisão conta que, após um momento em que imperou o medo, os turistas saíram dos hotéis para tirar selfies à frente dos veículos carbonizados. Com um pouco mais de coragem, teriam conseguido viralizar no TikTok ao lado de um cadáver ainda fresquinho.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Areia para os olhos

 O governo, conforme se sabe, foi apanhado com as calças na mão pelos estragos provocados por uma tempestade recente. Quando se tornou óbvia a impreparação, o primeiro-ministro apareceu às televisões para anunciar «um PTRR», um Plano de Recuperação e Resiliência português. Estranhei, então, que a coisa até já tivesse nome. Agora que, passadas semanas, vamos percebendo que o PTRR é essencialmente uma folha em branco - na qual nem sequer constam as promessas que Montenegro fez para acalmar os ânimos (juros e lay-off pago a 100%) -, torna-se óbvio que o putativo plano era apenas um produto de branding, esgalhado à pressa (e com pouca originalidade) na empresa que trata da comunicação do governo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O tempo do desespero

 «Estamos desesperados», diz um autarca a braços com os efeitos do mau tempo na zona Centro. «Estamos desesperados», repete uma celebridade que perdeu o cão. Igualmente «desesperados» aparecem, nas notícias recentes, o treinador de futebol do Tottenham e os retidos no maior campo de refugiados do mundo, em Chittagong, no Bagladesh. Num centro comercial do Porto, ao entardecer, dois homens conversam enquanto se refugiam da chuva. Não sei do que falam. Escuto apenas, enquanto passo a caminho das escadas rolantes, o que diz um deles: «É o desespero. As pessoas estão desesperadas». Talvez o desespero seja um sinal do tempo. E é possível que ainda não sejamos capazes de perceber completamente que consequências advirão de uma época desesperada.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

O que ela disse

 "Estendeu a mão trémula e pô-lo a sentar-se junto de si, falava muito a custo, era preciso esforçar-se para a entender, mas o que ela disse"

Termina assim, subitamente, sem um ponto final sequer, O Castelo de Franz Kafka. Inacabado, o romance parece captar a contingência da vida de um modo particularmente inquietante, tornando óbvio que tudo aquilo que fazemos pode ser deixado a meio, suspenso como uma frase que não termina.

Algumas páginas antes, Kafka escreve que "a raparigas novas e saudáveis tudo lhes fica bem". Aos escritores mortos também.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Os cordeiros que passaram a ser aves de rapina

 Numa entrevista ao Expresso, Piotr Cywiński, diretor do Museu de Auschwitz-Birkenau, declarou que «a narrativa do judeu como eterna vítima não funciona com as novas gerações». Com as velhas gerações também começa a ser complicado. Em Para a genealogia da moral, Nietzsche escreveu que o ressentimento dos judeus, aos quais chama escravos e cordeiros, impôs aos senhores, às aves de rapina, os seus valores morais, defendendo, todavia, que os fortes não podem, pela sua natureza, ser transformados em fracos. O que o filósofo não imaginou é que, apesar da sua natureza, os cordeiros se haviam de transformar em falcões sanguinários e capazes de, em vez de vítimas, serem agora os algozes.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Descontinuação

 Completam-se, no próximo domingo, trinta anos desde a apresentação do meu primeiro livro “O homem que julgou morrer de amor/O Casal Virtual”, oficiada na antiga Livraria Lello. Muita coisa mudou entretanto. Desde logo, as empresas que me publicaram depois da falência da Campo das Letras passaram a informar-me de que os meus livros não se vendem e dão prejuízo. Deficitário e devidamente descontinuado, agradeço, ainda assim, a todos aqueles que me foram acompanhando ao longo do percurso e que leram com gosto os livros que escrevi (e que foi possível publicar). Foi bom enquanto durou.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Saídos do armário

 Os votos ainda não estão todos contados, mas convém, desde já, não negligenciar alguns factos: a vitória de Seguro é muitíssimo expressiva, graças, sobretudo, aos votos de uma parte da direita, mas o candidato Ventura soma, até agora, mais 402.737 votos do que na primeira volta. Significa isto que mais de 400 mil eleitores do PSD, da IL e do CDS perderam a vergonha e não viram, desta vez, qualquer inconveniente em votar num aldrabão contumaz, xenófobo e fascista. Saíram, por assim dizer, do armário. E Montenegro teme que não regressem.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Sobre a organização ou a falta dela

 Com certa regularidade, mas sobretudo em situações de catástrofe, somos confrontados com a constatação de que Portugal é um país desorganizado. Trata-se, porém, de um sofisma. Os portugueses, e nomeadamente as elites nacionais, são muitíssimo organizados sempre que surge a oportunidade de sacar uns cobres, seja na Índia, no Brasil, em África ou em Bruxelas. Pudéssemos ser tão ambiciosos e eficazes a planear o socorro de emergência, a distribuir a riqueza ou a ocupar o território, e este país metia Spectre e Leisureland num bolso.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Muito de vez em quando foge-lhe a boca para a verdade

 Bem sei que algumas pessoas têm posto em causa a sinceridade da campanha eleitoral do energúmeno salvador da pátria junto das populações afectadas pelo mau tempo. Eu não vou tão longe. Por exemplo: quando ele diz «que se lixem as eleições», creio que está a ser absolutamente genuíno e que, uma vez no poder, não tem mesmo qualquer intenção de voltar a sujeitar-se a esta maçada.