sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

"O medo vai ter de voltar"

Num jornal da internet, de cujo nome não quero lembrar-me, leio o título de uma entrevista concedida por um cientista às voltas com a pandemia, na qual, tanto quanto consigo entender pelas poucas linhas grátis que posso ler, se defende o medo — o regresso do medo. De preferência, suponho, esse medo há-de ser medieval e ignoto, mesquinho, subterrâneo, vil e daninho. Um medo opressivo que nos maniete e paralise, e nos impeça de pôr o nariz fora da porta; que nos faça desconfiar do outro, de todos os outros, invariavelmente suspeitos de disseminarem a doença, o caos, o descontrolo ou a loucura (tudo palavras que naquele jornal frequentemente se usam para descrever a situação presente).

Há cerca de um ano que os órgãos de comunicação social não fazem mais nada: semeiam o medo às mancheias e procuram que medre e cresça viçoso. A primeira colheita foi extraordinária. Aterrorizados pelo alarme diário de notícias da pandemia, os portugueses correram a fechar-se em casa como ratos assustados. Comoviam-se com a poesia dos telejornais, aplaudiam os médicos à janela e cantavam Kumbaya. Em algum momento, depois disso, o alívio de perceberem que o mundo não havia acabado num sopro levou os portugueses (e não só) a desconfiar do logro e da manipulação de que haviam sido vítimas. Como na história do Pedro e do Lobo, no dia em que o animal chegou já ninguém acreditou nos avisos do mentiroso. Agora que morrem mais de 200 pessoas por dia à custa da nova doença, os portugueses não querem saber. Talvez, ameaçados pelo Estado, fiquem em casa. Mas fá-lo-ão contrariados.

O medo aflige-me. E revolta-me que alguém o defenda e procure instigá-lo, usando-o para controlar e amesquinhar cidadãos livres e adultos. Prefiro viver num mundo em que, em vez de limitadas pelo medo, as pessoas façam escolhas responsáveis e informadas; no qual os cientistas contribuam para uma comunicação clara e objectiva em vez de passarem os dias a acrescentar ainda mais ruído ao descomunal chinfrim que há um ano nos atordoa. 

O medo vai ter de voltar? Antes regressem o bom senso, a cautela e o respeito pelo bem-estar do outro.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Mussolinis de Carnaval

Um dos mais extraordinários insultos da vasta e rica colecção do capitão Haddock é "Mussolini de Carnaval", surgido no álbum Tintim e os Pícaros. Quase cinquenta anos depois (e quase oitenta desde o fim do pesadelo fascista italiano), a expansão da nova extrema direita (europeia e não só) tem assentado num conjunto de figuras que fazem simultaneamente lembrar a metralhadora de insultos da banda desenhada de Hergé e os seus mussolinis de Carnaval — embora esta característica não deva fazer perder de vista o perigo que representam; Hitler e o duce original não primavam também pela compostura ou pela circunspecção, mas a humanidade demorará muito a recuperar de todo o mal que engendraram.

Semiótica à parte, a estratégia dos novos fascistas — que têm a particularidade de constantemente tentarem negar o que são — tem, assim, passado pela criação de um circo mediático assente, por um lado, no pântano das redes sociais onde medram todos os miasmas sociais (e ocasionalmente uma rara flor) e, por outro, numa torrente de insultos e mentiras destinada a provocar a reacção dos visados e,  desse modo, a aumentar a visibilidade e repercussão de qualquer iniciativa ou traque político. Curiosa e lamentavelmente, as forças democráticas têm caído de forma demasiado dócil nesta armadilha, amplificando de modo estridente o habitual berreiro destes fascistas (cujos nomes me recuso a reproduzir).

O novo trogloditismo político tem ainda beneficiado em grande medida da atração do novo jornalismo (chamemos-lhe assim por facilidade terminológica) pelo chavascal, pelo ruído, pelo barulhinho inconsequente — e, já agora, pelo próprio abismo. Os ditos repórteres correm em rebanho e babam-se com as mais rasteiras manifestações dos mussolinis de carnaval, amplificando a imundice e submetendo-se, primeiro, à agenda dos fascistas e, logo a seguir, ao insultos que os fascistas lhes dirigem. No dia seguinte, não obstante, repetem tudo outra vez, com uma candura própria de alguém acabado de sair do infantário e que não tenha a noção exacta do tipo de sentimento que um fascista nutre pelo jornalismo livre, democrático e independente.

Não é fácil evitar que indivíduos boçais e ignorantes acreditem em tudo o que lhes dizem, mesmo quando lhes digam hoje o exacto oposto daquilo que ontem haviam sido convencidos a tomar por verdade absoluta. Trata-se de um problema de ordem religiosa e, como se sabe, não é possível modificar ou anular as crenças alheias recorrendo a argumentos racionais, pelo simples facto de a razão não ser aqui tida nem achada. Os jornalistas, porém, bem como os órgãos de comunicação social que representam e os líderes políticos dos partidos democráticos, podiam dar-se ao respeito e fazer das acções de campanha dos fascistas uma cobertura que se limite ao conteúdo e ignore o ruído criado com o único propósito de criar as condições para pôr em causa as liberdade e garantias em que a prática jornalística tem assentado. Ficava-lhes bem e evitavam que, um destes dias, correndo a coisa mal, possam vir a ser acusados de conivência com o próprio fim do jornalismo livre e da democracia ela mesma.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O frio é psicológico

Indivíduos provavelmente aclimatados em salas demasiado aquecidas costumam garantir que o frio é, no essencial, um estado de ânimo, dependente da disposição do corpo para percepcionar as variações da temperatura. Tendo, por princípio, a concordar com este género de falácia, movimentando-me para além do necessário a fim de manter as meninges quentes. Faço-o, pelo menos, até ao momento em que, empenhado em cozinhar o almoço, dou com o azeite congelado no fundo da sua garrafa e me vejo obrigado a derreter o dourado líquido sob um jorro de água quase a ferver, de forma a preparar o estrugido que há-de receber a chouriça, o tomate, o grão-de-bico, os coentros e o ovo do meu repasto. Depois sento-me para almoçar e a calidez da refeição descongela-me os principais receptores nervosos, ao ponto de experimentar uma sensação de relativo bem-estar, para o qual concorrem também, e muito provavelmente, os calorosos espíritos do tinto alentejano. O telefone indica a possibilidade de nevões. Depois saio à rua para tomar café e vejo uma família que fuma inopinadamente numa esplanada, indiferente à borrasca gelada, ao vento glaciar e aos efeitos do vórtice deslocado do seu eixo, dando razão aos sobreaquecidos pensadores para os quais o frio quase não passa de uma mania ou uma fraqueza do espírito. Subo à velha muralha exterior da vila e sinto o vento, vejo o céu encastelar-se de tons escuros e, acto contínuo, corro a fechar-me onde o ar condicionado me mantenha quente, pensando, como diz o outro, que o frio é psicológico mas é o caralho. O daqui é concreto e basta. Tenho uma garrafa de azeite que o demonstra cientificamente.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Três milhões de passos

De acordo com uma geringonça instalada no meu telemóvel, e cuja fiabilidade ignoro, dei nos últimos catorze meses algo como três milhões de passos, o que equivalerá a mais de dois mil e quinhentos quilómetros percorridos (a pé, bem entendido). Trata-se de uma distância espantosa, que me permitiria visitar diferentes continentes palmilhando as mais diversas estradas e caminhos do planeta. Poderia, se o tivesse feito, visto gente mais exótica e montanhas mais impressionantes do que aquela que agora me envolvem, ou experimentado temperaturas mais rigorosas, mas dificilmente me impressionariam mais esses homens e essas mulheres, essas colinas, do que me fascinam ou intrigam as vertentes e as pessoas com as quais mantenho o escasso trato comum da vila quase deserta. Se excluir as variantes da aparência, os indivíduos são, no essencial, iguais em toda a parte, generosos e soezes, loucos e sérios, serenos e furiosos, tal como, sob as feições visíveis da paisagem, tudo é apenas matéria e pedra. Já sobre os assuntos do momento não tenho grande coisa a declarar. Na vila quase não tomo conhecimento das circunvoluções do mundo e foi por mero acidente que soube da invasão dos energúmenos ao congresso dos EUA. Espanta-me tanto como a cor verde nas folhas das árvores ou o branco da geada na copa das oliveiras.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Madrugada

Não sei se é o frio que me acorda, ou o pacífico silêncio absoluto das ruelas do antigo bairro judeu. Desperto demasiado cedo e percebo a alvorada infiltrando-se pela frincha da portada, os primeiros rumores distantes da vila, a rósea luz nascente revelando os campos que a branca geada cobriu. Imagino um poema que estará esquecido quando passar a manteiga no pão de ontem. Saio para encher o corpo deste gelado ar puríssimo e observar de perto os perfeitos cristais de gelo que a noite depositou nas pedras dos muros, na terra, na erva crescida em torno das oliveiras, no pavimento da estrada municipal. Não sinto o frio enquanto persigo os badalos dos borregos, nem mesmo me incomoda o vento Leste enquanto o sol mal se firma acima do horizonte ancho de montanhas suaves.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Um ano bestial

Os vinte indivíduos mais ricos do planeta viram as suas fortunas aumentarem 24% durante o ano de 2020. Parece que também sucederam outras coisas nestes doze meses, mas, muito sinceramente, entendo que devemos iniciar 2021 de uma forma positiva e optimista, sublinhando aquilo que de bom acontece. É, afinal, muitíssimo fácil parecer tão bem-aventurado, empático e cheio de mindfulness como outro tolo qualquer.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Auto (da) comiseração

Chega ao cais o diabo, muitíssimo provocador, e pergunta aos que vão entrando na barca para 2021, todos devidamente vacinados e com selo de garantia anti-covid na testa:

DIABO - Quanta pressa, ó cristão. Para onde julgas que as barcas vão?

INOCULADO DA PFIZER - Para 2021 e o quanto antes, que este ano que finda foi coisa para se olvidar depressa. Já tomei as duas doses do remédio e pretendo agora folgar como um vero barão do império.

DIABO - Vai ligeiro, bom otário, vai avante, que talvez sejas o primeiro a apanhar a nova variante.

INOCULADO DA PFIZER - Que dizeis, mau demónio? Devo também continuar a tomar supositório?

DIABO - Isso que agora tomais, e se assim vos enganais, há-de servir-vos de um grosso. Se não morrerdes do corona, nem de qualquer outro feitiço, haveis de morrer de outra coisa que vos ataque o toutiço.

INOCULADO DA PFIZER - Mil diabos, quanta angústia. Pode um crente quinar depois de se vacinar?

DIABO - Tu lá sabes ao que vais, crédulo de vão de escada. Mas se queres ser imortal desta vida tão precária melhor nem foras nascido dessa tua mãe otária.

INOCULADO DA PFIZER - Mas se cumpri confinamentos, e foram mais de trezentos, e ainda não espichei, não há-de ser por mau olho, ou dos teus comprazimentos, que me hei de agora finar.

DIABO - E usaste a mascarilha, filho duma ruim parelha?

INOCULADO DA PFIZER - E mantive, coisa e tal, a distância social, que ao filho da minha mãe ninguém pilha por ser desleal.

DIABO - Fizeste bem, ó rapaz, que este ano que perdeste de volta já ninguém traz.

INOCULADO DA PFIZER - Dizeis a verdade, demónio, por tudo quanto aqui jaz?

DIABO - A verdade-verdadinha, que eu não brinco em serviço. Quando chegar o ano novo, e a sorte te traga um chouriço, compara-o com o porco todo e logo verás, ó nabiço, que nada te fez imortal, nem te dá vida infinita. Hás de morrer como os outros brutos desta comandita. E se, acaso, não sabes nem suspeitas do veraz, vê lá que o bicho não venha agora comer-te por trás.

INOCULADO DA PFIZER - Quanta desdita adivinhas, satanás, tendeiro infante. Belzebu antigamente não tinha tantas trapaças. Hei-de então perder-me depois de tantas devassas?

DIABO - Se pensas passar a ponte, cuida bem aonde vais. Se o ministro o proíbe e mesmo assim tu te sais, o mais certo é que já estejas nos autos policiais. Essa barca que aí está, se não a estás a ver bem, não é a de 2021, mas só a que vai pró além.

INOCULADO DA PFIZER - Droga, grande diabrete! Que o corno te arrebente e não voltes a azarar. Se nada aqui tem remédio, e o caminho é só um, mais me valia folgar.

DIABO - Cão-tinhoso és só tu, se sofres precocemente. Folga à vontade, valente, que o naco que hoje não comes há de mamá-lo outra gente. E aquilo que hoje não gozas, com medo de ficar doente, há de fruí-lo o demónio, que de todos os mortais é quem vive mais contente.

INOCULADO DA PFIZER - Então e o ano novo? Não é o princípio do fim?

DIABO - Crer em tudo é demência — e nos telejornais... ai de mim! Nem isto é o fim do corona ou do teu ano mais ruim, nem os demónios cornudos, por muito que façam chinfrim, vão arrumar as botas ou desistir outrossim. Mais vale ficar no cais a ver as barcas partir, pois o destino que levam é uma coisa de rir. Quando chegarem de noite e não se vir nova gente, vão saber que o novo tempo é o mesmo de antigamente.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

História de um palerma

Ignoro quando, e se, me ocuparei a escrever uma autobiografia. Mas é provável que o não faça, desde logo por ter em conta o escasso interesse da história que pudesse ser o objecto dessa obra. O título, todavia, já não me falha: será inevitavelmente aquele que encima este post.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Artesanato e uma cabana

Thoreau conta, em Walden ou a vida nos bosques, o caso de um índio errante que, vendo como os brancos ganhavam dinheiro com os seus negócios, se dedicou a fazer cestas para vender. Todavia, quando se apresentou às portas para comercializar o seu produto, ninguém o quis comprar, uma vez que, explica Thoreau, o indígena se esqueceu de que necessitava de tornar as cestas necessárias e valiosas. Devia, pelo menos, ser capaz de conseguir convencer alguém a comprá-las. Leio a história e penso que continuar a escrever é também uma forma de artesanato inútil. Dou voltas à cabeça para, como Thoreau, procurar "evitar a necessidade" de ter de vender os meus tão rebarbativos cestos. Mas não encontro em mim a coragem suficiente para, como ele, abandonar tudo e ir viver numa cabana.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Roupa nova

"Nenhum homem decaiu no meu conceito por ter um remendo na roupa, mas tenho a certeza de que comummente as pessoas têm maior preocupação em andar na moda, com roupas limpas e sem remendos, do que em terem a consciência tranquila".

Henry David Thoreau, em Walden ou a vida nos bosques

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Movimento Champanhe & Caviar

É bem gira a ampla cobertura mediática de que têm beneficiado os empresários que estão a promover o movimento A Pão e Água diante do parlamento e a respectiva greve de fome. Tem dado para inúmeros directos nos telejornais e inúmeras visitas solidárias de líderes políticos de todos os quadrantes, igualmente oportunistas, alguns dos quais, se estivessem no governo, já teriam chamado a força de intervenção para limpar a via pública.

Vejamos: aqueles empresários da restauração, creio que são nove, exigem ser recebidos pelo governo, o qual, se lhes fizesse a vontade, em vez de negociar com os representantes do sector, teria de conceder igual atenção a cada um dos proprietários dos 50 mil restaurantes do país, todos com dificuldades semelhantes. Talvez fosse possível terminar as reuniões lá para 2057, isto se o governo não tivesse também de conversar com os 350 mil trabalhadores do sector, e com os empresários e trabalhadores dos outros sectores, nem todos beneficiários, até agora, dos enormes lucros que permitiram a alguns patrões viver regaladamente, literalmente a champanhe e caviar.

Soube-se, entretanto, que foi exactamente assim que, até aqui, viveram alguns dos grevistas da fome do parlamento. Possuem herdades no Alentejo, aviões, barcos de recreio e alguns dos automóveis mais caros do mundo. E estão no seu direito. O que importava saber é, isso sim, quais os ordenados que, ao mesmo tempo, esses agora tão reivindicativos senhores pagavam aos respectivos trabalhadores; e quantos despediram à primeira oportunidade que a actual crise lhes proporcionou. 

Ouvi, numa televisão, um dos grevistas da fome habituados a champanhe e caviar defender-se dizendo que a manifestação pretende garantir a manutenção do estilo de vida conquistado ao longo dos anos. Mas em nenhum momento pareceu considerar, ao menos, a hipótese de restituir à própria empresa o dinheiro que dela retirou ao longo dos anos a fim de sustentar aquele nível de vida. É muito mais fácil se, como de costume, forem os contribuintes a tapar o buraco. 

Ainda mais engraçado, mas nada surpreendente, é ver os supostos arautos do liberalismo juntarem-se ao protesto e a berrar como possessos, exigindo que o governo ceda gentilmente a todas as pressões e use o dinheiro público para que esta gente ateste os depósitos dos Maseratti. Enfim: sobra-lhes em desfaçatez o que lhes falta em vergonha na cara.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O mocho

Não sei onde, ao certo, se esconde o mocho, em qual das árvores da vizinhança, mas escuto-o muito distintamente nas noites mais amenas do ano. Imagino, por isso, que alguma coisa nos une, a mim e ao mocho, pelo menos o gosto pelo bom tempo, por este Verão atrasado, este Verão de S. Martinho em dia de Santa Matilde da Saxónia e de São Abdias, o autor do livro mais curto do Antigo Testamento, aquele que anunciava a vinda do Messias — quando? Escuto o pio lúgubre do mocho quando o trânsito da cidade se suspende e imagino-o vendo passar os automóveis, perscrutando os semáforos mudando de cor, vigiando as luzes acendendo e apagando nas janelas dos apartamentos e dos chalés da nossa rua (minha e do mocho, bem entendido). Imagino-o piscando o olho vermelho cibernético, exactamente igual ao da ave de estimação de Tyrell, o génio criador dos replicantes de Blade Runner, o qual, no filme, encarna o próprio deus desses seres quase perfeitos, belos, incapaz, todavia, de satisfazer o desejo de eternidade ou sobrevida que as criaturas manifestam. Penso nisso enquanto respiro o ar puríssimo da noite do nosso confinamento, desta vida tão semelhante àquele Novembro do ano de 2019 em Los Angeles: obscura, paranóica e sombria, limitada por esse defeito de programação que talvez nos conceda apenas quatro anos de vida ou quarenta. Mas temos vistos coisas... coisas em que ninguém acreditaria. Naves em chamas no espaço exterior da cintura de Orion, brilhantes como magnésio. As ondas do mar da Foz e a madrugada num bar de marinheiros. Estrelas imensas cintilando no céu da província. Escutamos o pio do mocho da minha rua e sabemos que tudo isto desaparecerá um dia. O trovão virá. É isto a vida.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Um tal Manuel da Cunha

Há quanto tempo não invoco o ungido nome de Enrique Vila-Matas em vão? Pouco importa. Volto agora mesmo a fazê-lo, desde logo porque resgatei hoje das minhas tão empoeiradas estantes o romance Estranha Forma de Vida, no qual, e disto não me lembrava, há um autógrafo do escritor, com o esboço de uma figura de chapéu, dedicando o exemplar: "Para o Jorge, que vive, como todos, una extraña forma de vida". Estranha forma de vida, não se duvide, isto de acumular livros e leituras em vários cantos da casa, abandonando-os para que, décadas depois, se possa redescobri-los quase absolutamente novos, lidos mas esquecidos.

Tomei consciência, mal iniciei a leitura, de que hei-de ter comprado o livro e obtido o autógrafo de Vila-Matas numa sessão de apresentação que decorreu a escassos metros do sítio onde agora resido. O que recordo desse evento é muitíssimo vago, mas, isso sim, que o escritor tinha afivelado uma expressão algo desconfortável, ou que, pelo menos, me gerou algum desconforto. Julgo que já o referi algures num texto qualquer, que não sei onde pára, mas também nesta crónica antiga aludi ao gosto de Vila-Matas pela interpretação das personagens dos seus livros. Ao reler Estranha Forma de Vida, depressa me apercebi de que, naquela sessão em 1995 (creio), o escritor se limitava a passar revista ao público "com a ferocidade própria" do seu olhar, do seu olhar de espião, ou, para dizê-lo de uma forma que se entenda melhor, limitava-se a olhar-nos a todos com a ferocidade própria do olhar do narrador do romance, o escritor ao qual chamam Cyrano (por ter o nariz comprido), o qual decide não voltar a apresentar-se nas suas conferências sem estar disfarçado.

Acresce que Cyrano confessa, logo no início da narração, que costuma plagiar, nas suas conferências, o intelectual português Manuel da Cunha, a cujo suposto livro O Espião da Rua Lisboa são atribuídas as frases constantes da epígrafe do romance. Não existe, obviamente, nenhum Manuel da Cunha que seja ou tenha sido "um romancista de certo nível intelectual embora de baixa estatura, um homem diminuto". É um nome inventado ao calhas, um nome qualquer sem importância, tão anódino quanto possível. Ainda assim, se me retirarem o Marmelo, o meu primeiro e último nomes seriam precisamente Manuel da Cunha. 

Estranha forma de vida esta: ter sempre um livro de Vila-Matas intrometendo-se nas minhas coisas mais comuns.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Semear ventos, colher tempestades

Compreendo os receios e o desespero dos industriais (e sobretudo dos trabalhadores) da restauração face ao novo Estado de Emergência (como entendo também a apreensão dos trabalhadores da hotelaria, do comércio, das empresas de aluguer de automóveis e de tantos outros sectores ameaçados pela doença da época). Mas não sei contra quem ou contra o quê protestam ao certo e, por isso, não percebi que tivessem organizado uma manifestação em Lisboa à hora a que o país entrava em situação de recolher obrigatório precisamente para tentar que os restaurantes possam voltar a ter clientes. Realizada em ostensiva infracção das regras válidas para todos os outros portugueses, a manifestação contou com ampla cobertura dos órgãos de comunicação social, sempre ávidos de um barulhinho ou de uma confusão. Aliás, o canal público de televisão iniciou a reportagem em directo informando que os organizadores do protesto haviam acabado de apelar aos outros portugueses para se lhes juntarem no desrespeito pelo Estado de Emergência. Ora alguns portugueses não se fizeram esperar. Apareceram, por exemplo, os arruaceiros fascistas do costume, os quais aproveitaram para ameaçar jornalistas, incluindo os do canal público de televisão, e para incomodar os donos dos restaurantes. Nem uns nem outros apreciaram, pois, os efeitos da tempestade que voluntária e insensatamente criaram. Que lhes sirva de lição.

sábado, 14 de novembro de 2020

Azerbaijão

Nas últimas 24 horas, as estatísticas do Teatro Anatómico registaram um afluxo inusitado de visitantes do Azerbaijão, 208 no total, aos quais se somaram ainda 46 leitores atentos da vizinha Turquia. Suponho, pois, que hei-de ter escrito aqui alguma coisa que soe nos idiomas daquela parte afastada do mundo de um modo mais doce e cativante, ou mais porco, do que no Português comum em que costumo expressar-me. Permito-me hoje, por isso, saudar muito especialmente as comunidades do Kurdistão e de Nagorno-Karabakh, cujo direito à liberdade e à auto-determinação tem sido manipulado e vilipendiado pelos interesses estratégicos da Turquia e da Rússia, ao sabor da ambição dos autocráticos líderes das duas potências regionais. Tudo coisas, portanto, que não interessam ao mais pintado.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Dia Nacional da Igualdade Salarial

Adoro o carácter fofinho do politicamente correcto. Por exemplo: acabo de tomar conhecimento de que se assinala hoje o Dia Nacional da Igualdade Salarial, "uma data que nos relembra da diferença salarial existente entre homens e mulheres e que deve continuar a ser combatida". Não podia estar mais de acordo. Aguardo ansiosamente, aliás, pelo dia em que o meu salário seja — já não digo igual, mas — vagamente equiparável ao da senhora que ocupa o cargo de CEO da Sonae, a qual era presidente do Conselho de Administração da empresa Público-Comunicação Social, SA à data em que, com mais meia centena de trabalhadores, fui objecto de um despedimento colectivo. Suponho que seja uma querida.

Respirar

Estou há duas ou três horas a ver o Cleópatra de Mankiewicz, impressionado com os cenários e com a interpretação de Rex Harrison/Júlio César — para não falar de Liz Taylor, claro, da maquilhagem excessiva dos olhos violeta de Liz Taylor e do extraordinário busto, do narizinho empinado e da altivez de esfinge. Detive-me na cena em que, com Marco António de partida para Roma, Cleópatra pergunta como poderá viver longe dele. "Viverás como eu", diz o romano. "Inspirando e expirando". Trata-se, parece-me, de uma excelente lição para tudo o que está para vir. Inspirar primeiro, expirar depois. Inspirar. Expirar. Inspirar...

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Um energúmeno será sempre um energúmeno

Para ser absolutamente franco, a coligação do PSD com os racistas fascistóides nos Açores surpreende-me tanto como uma bátega no Inverno. Um energúmeno é sempre um energúmeno, por muito que procure manter a pose de estadista diante das câmaras de televisão. E espanta-me ainda menos que o líder social-democrata não afaste a possibilidade de se aliar aos xenófobos também no continente, desde logo porque o PSD é e sempre foi um partido sem princípios e para o qual vale tudo quando se trata de chegar ao poder, desde logo porque a passagem pelo Terreiro do Paço, e os bons serviços aí prestados aos donos disto tudo, costumam depois render-lhes bons empregos vitalícios. Já o argumento invocado para a aliança, não sendo particularmente original, parece saído de um manual de hipocrisia política. Diz Rui Rio que o tal partido cujo nome nunca escrevi (e não vou começar agora) se moderou nos Açores. A menos que se tratasse de um assomo de ingenuidade e candura, bastante improvável tendo em conta o animal em cogitação, só pode ser entendido como uma justificação abjecta. Num texto que escreveu em 1937, Hitler ans his choice, Churchill também notava que os discursos mais recentes do ditador alemão se caracterizavam, às vezes, "pela candura e pela moderação", concedendo-lhe, por isso, o benefício da dúvida. A chamada "política de apaziguamento" acabou, todavia, conforme se sabe. Mas Rio não deve ter estudado História.

sábado, 7 de novembro de 2020

Valham-nos os jornais extrangeiros

Apenas muito moderadamente aliviado pelo rumo da contagem dos votos no faroeste, a história norte-americana que chamou a minha atenção foi a de Mostly Harmless (ou Denim, ou Ben Bilamy), o indivíduo que saiu de Nova Iorque a caminhar em Abril de 2017 e foi encontrado morto em Julho de 2018, depois de ter percorrido dois mil quilómetros a pé. Ninguém parece capaz de descobrir quem foi, de facto, Mostly Harmless (Praticamente Inofensivo), nem sequer pelas impressões digitais ou pelo ADN. Fascinou-me, ao ler a história, o facto de o caminhante ter escolhido o seu nome a partir da personagem de um livro de ficção científica, o que reforça bastante a dimensão literária deste caso belo e misterioso. Penso em Mostly Harmless e imagino que se trata do protagonista de um romance que ninguém leu. Que era o último homem livre do mundo. Que realmente nunca existiu e atravessou a América como um sonho ou uma sombra, um traço de vento, uma nuvem de pó.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Evitar as dietas, não parar de beber

Certas novidades têm a particularidade de me caírem no goto por motivos totalmente errados (ou que a maior parte da população adulta e com algum tino consideraria completamente errados). É o caso de um estudo — científico, que diabo — realizado nos Países Baixos, segundo o qual a má nutrição e a abstinência alcoólica foram responsáveis pelos piores transtornos mentais de Vincent van Gogh, o qual morreu na sequência de uma tentativa de suicídio algo esdrúxula: disparou um revólver contra o peito, mas o tiro não atingiu nenhum órgão vital e van Gogh voltou para casa pelo próprio pé, caminhando; morreu 30 horas depois, vitimado pela infecção provocada pela bala. O pintor vivia então em França, sendo acompanhado de perto por um médico, o doutor Gachet. Antes, estivera internado num hospício, na sequência do episódio em que tentou cortar a própria orelha. Ao que tudo indica, a abstinência do álcool e a má nutrição resultantes do acompanhamento médico levaram a que o pintor sofresse de surtos psicóticos e delirium tremens, agravando substancialmente o seu estado psicológico e conduzindo-o à depressão que motivou a tentativa de suicídio. A moral da história não será óbvia para toda a gente, mas estou certo de que qualquer amante decente das exaltações dionisíacas encontrará nos resultados deste notável estudo razões mais do que suficientes para evitar as dietas a todo o custo e não parar de beber por nada deste mundo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Washington, Monróvia, Kigali, Bangui

Não sei, à hora a que escrevo este post, se já é possível saber quem vai ser o presidente dos EUA nos próximos quatro anos. Também não me interessa demasiado. Aquilo que sei, a fazer fé nas reportagens dos enviados especiais e correspondentes, é que as principais cidades norte-americanas se estão a preparar para o dia após as eleições como se estivesse para chegar um tornado, um golpe de Estado ou uma guerra civil. As montras das lojas estão entaipadas, os pontos estratégicos cercados por redes e arame farpado, as ruas atravancadas de blocos de cimento e as milícias armadas até ao dentes — como se aquele fosse um país sem lei. Aquilo que sei, pois, é que basta um celerado sem a mínima noção do que seja um Estado de Direito para que "a terra dos homens livres", conforme diz o The Star-Spangled Banner, se transforme numa espécie de faroeste ou de pré-ditadura cravada no coração do primeiro mundo; e que, com algum azar, o ambiente em Washington poderá, a esta hora, não ser muito diferente daquele que já vimos em Monróvia, Kigali ou Bangui.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Ser ou parecer

Li, já não sei onde, que Platão tinha o hábito de advertir os outros cidadãos de que não era tão louco como parecia. Talvez o dissesse também para se persuadir de que era muito capaz de dominar as próprias capacidades cognitivas, o próprio juízo, a despeito da avaliação dos demais. Seja como seja, ocorre-me igualmente, às vezes, avisar as pessoas das minhas relações que não sou tão parvo como aparento. Não o faço, porém. É muito pouco provável que a minha garantia produzisse algum efeito prático e, para além disso, é possível que haja pouca verdade na minha presunção. Não apreciar que me tomem por estúpido não significa necessariamente que não o seja de facto.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Delírio internacional

Numa entrevista, há dias, ao El País, a actriz e realizadora Maria de Medeiros dizia que o regresso do fascismo a uma Europa civilizada lhe parece um momento de "delírio internacional". Trata-se, com efeito, de um fenómeno desvairado, tão insensato que parece ser provocado por uma daquelas ventanias que nos romances enlouquecem as personagens e as obriga a executar actos alheios a toda a normalidade. Como bêbados, como animais insensatos, deixamos que um grupo de energúmenos manipulem os medos e a ansiedade dos cidadãos, aparentemente incapazes de perceber como isto vai acabar muito mal outra vez. Os nazis também só precisaram de ganhar uma eleição.

domingo, 1 de novembro de 2020

Writers write things to give readers something to read

Por uma coincidência que procurarei não qualificar, escrevi anteontem um post cujo título evocava um filme protagonizado pelo actor Sean Connery. Ontem, o actor escocês morreu. Ao jantar lembrámo-nos, por isso, de Finding Forrester, de Gus Van Sant, o filme em que Connery interpreta o papel de um vencedor do Pulitzer retirado e misantropo, pessimista. É um belo filme, marcado pela ironia amarga de William Forrester, mas também pela amizade que cria com Jamal, o jovem negro basquetebolista que é como um corpo estranho num colégio nova-iorquino para meninos ricos. Gosto especialmente de uma das tiradas do velho escritor: "Os escritores escrevem coisas para que os leitores tenham alguma coisa que ler". Por muitas voltas que se lhe dê, talvez se resuma tudo a isto, quer se procure entender os motivos que levam alguém a escrever um romance enorme ou um post tão estúpido como este. Conforme Forrester também diria, as mulheres dormirão connosco mesmo que escrevamos um blogue sem interesse nenhum.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Só se vive duas vezes

A lista dos títulos dos filmes da saga 007 oferece várias possibilidades interessantes, como "Vive e deixa morrer", "O mundo não chega", "Morre outro dia" ou "Sem tempo para morrer". Optei pela vaga ironia de "Só se vive duas vezes" por nenhuma razão em especial, ou, se calhar, por haver algo na vida e na alegada morte do milionário Sindika Dokolo que parece particularmente adequado ao enredo de uma história de espionagem internacional ao jeito daquelas que obrigam à intervenção, com licença para matar, do agente ao serviço de sua majestade em praias paradisíacas de águas cálidas. Investigado por ter lesado o estado angolano em milhões de dólares, coleccionador de arte benemérito e mercador de diamantes, entre outras actividades conhecidas e desconhecidas, o empresário terá morrido afogado a praticar mergulho no Dubai, onde vivia à grande e à francesa — onde vivem à grande e à francesa, e sem que ninguém os aborreça, traficantes, terroristas, gangsters, mafiosos, corruptos, banqueiros e outros criminosos internacionais, alheios a todas as pandemias, isentos dos efeitos das variações do produto interno bruto dos mais variados países e indiferentes à multidão de famélicos, desgraçados e mortos sobre a qual construíram as respectivas fortunas. Se é verdade que realmente morrem e as notícias do seu falecimento não constituem uma mera formalidade na transição para a sua segunda vida num sítio onde os incomodem ainda menos, os ultramilionários do Congo ou de Paris, de Bruxelas ou de Luanda, de São Paulo ou de Pequim, de Moscovo ou de Londres, de NY ou de Tóquio, não devem conseguir transportar consigo nenhum dos milhões, nenhum dos automóveis de luxo, nenhuma das mansões que copiosamente acumularam. É apenas um pouco lamentável que nem sequer exista um inferno de verdade, para onde sejam encaminhados a fim de acertarem as respectivas contas. E que tudo continue, afinal, exactamente na mesma: os pobres cada vez mais indigentes e os herdeiros dos ricos cada vez mais filhos da puta.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Um quintalzinho na Lua

É muito bem visto. À medida que a vida na Terra se torna insuportável, tantos são os perigos à solta e as restrições à livre circulação das pessoas desapossadas — os ricos sempre encontram modo de se movimentar à vontade entre os melhores resorts do mundo —, a NASA cumpre regularmente a formalidade de anunciar a existência de água na Lua (ou em qualquer um dos distantes planetas que parecem, ainda assim, ao alcance da imaginação humana ou da urgente necessidade de nos pormos a mexer daqui para fora). Bestialmente entusiasmado, ponho-me a imaginar o dia em que poderei beber um copo de água na Lua ou, vá lá, em que será possível desinfectar as mãos esfregando-as bem com sabão macaco lunar e com o raro líquido que brotará do romântico calhau branco. Sei muito bem, todavia, que não é para lavar a cara que os terráqueos mais ambiciosos investigam a eterna noite da Via Láctea ou os mais mínimos rumores aquáticos do nosso satélite natural. Tendo já tomado posse e loteado os mais distantes recantos da Terra, os donos disto tudo aspiram também a conquistar os planetas que possam ser capazes de alcançar, dividindo e distribuindo a sua propriedade em sumptuosas cimeiras e deixando a populaça a sonhar com a quimera, ao menos, de um quintalzinho bucólico num desses faroestes cósmicos. Para que tudo seja perfeito, só falta que a Nokia termine as obras da rede móvel lunar, imprescindível para que os humanos deslocados para servir os senhores da Lua e dos 79 satélites de Júpiter possam continuar a postar filminhos parvos nas redes sociais.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Uma árvore com picos na extremidade do tubo digestivo

Conforme se poderá imaginar, sou tremendamente sensível à polémica em torno da presença de uma multidão no Autódromo do Algarve a fim de assistir a uma corrida de chaços, mormente aos argumentos do habitual coro dos indignados com tudo e mais alguma coisa. O meu olímpico desprezo deve-se a dois motivos fundamentais. Primeiro, os indivíduos que quiseram ver o espectáculo motorizado eram maiores, vacinados e estavam a borrifar-se para a pandemia, a saúde pública e as vítimas mortais da Covid. Em segundo lugar, porque sujeitos que pagam trezentos euros para assistir a uma chispada de popós estão intrinsecamente a gozar com aqueles a quem trezentos euros fazem falta para coisas tão extravagantes como alimentar-se, pagar a renda ou manter as contas da electricidade em dia. Não me emocionarei, pois, caso alguns dos amantes da fórmula um venham a contrair uma doença contagiosa grave. Se lhes nascesse uma árvore com picos na extremidade do tubo digestivo também não.

sábado, 24 de outubro de 2020

O mel não se fez para a boca do asno

Segundo um adágio que só hoje conheci, não se fez o mel para a boca do asno. Há-de ser por detalhes assim preciosos que o cidadão comum não chega a ser capaz de compreender que sentido faz decretar um confinamento obrigatório da população, conforme já se fez e agora volta a ser equacionado, se logo a seguir vai ser necessário pedir às pessoas que voltem a frequentar restaurantes e a fazer férias aqui e ali, aliciando-as, inclusive, com a maravilha da devolução do IVA. Talvez pareça um pouco esquizofrénico isto de nos protegermos hoje para que amanhã, ainda vivos, como zombies regressados de além-morte, nos ordenem que nos misturemos e consumamos como nababos para salvar a economia em sítios onde os sãos e os doentes estarão, outra vez, misturados e partilhando toda a sorte de vírus e miasmas — mas, a ser esse o caso, convém desde logo ter em consideração que há doutores disto e daquilo, muito mais inteligentes do que a arraia miúda, descobrindo, agora, que os vírus se dissipam ao ar livre e, daqui a nada, que é de toda a conveniência usar máscara cirúrgica na via pública. Não haja dúvida. Conforme escreveu o velho Torrente Ballester, que já ninguém lê, "é preciso uma grande habilidade dialética e uma grande fé nos nossos raciocínios para manter o respeito por nós próprios quando saímos da casa de banho". Ou, acrescente-se por óbvia analogia, quando se anda na praça pública dos noticiários a mudar de opinião e certeza mais vezes do que um bebé troca de fralda. O contentor (e as moscas) mudarão; o conteúdo é quase o mesmo. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Combate ao aborrecimento

Uma investigação recente, realizada pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar — coisa séria, portanto —, concluiu que as caminhadas em espaços verdes urbanos reduzem os pensamentos negativos e repetitivos. Conheço bem os benefícios destes passeios no combate à neura, ao spleen e ao aborrecimento quotidiano. Vou muitas vezes, por isso, esticar as pernas nos caminhos do jardim da minha rua. Deambulo entre os cactos e as camélias, inspiro a plenos pulmões o perfume da terra molhada e surpreendo, às vezes, o cheiro do jasmim e, creio, também o do açafrão. Muitíssimo peripatético, detenho-me para ver os cogumelos irrompendo do chão e dos toros deixados à beira das veredas, que agora se cobrem dos sinais deste Outono ainda tão doce. Invejo o invisível jardineiro que ali labuta. Distraio-me com as mais subtis alterações da luz nos galhos do antiquíssimo sobreiro da parte mais remota do jardim, com a textura da madeira dos cedros ou com o modo como o louro-das-montanhas parece curvar-se para criar uma penumbra bonita. Circundo a clareira do bosque onde permanece o cadáver de uma árvore que morreu de pé, digna e bela como uma escultura ou um homem antigo e sábio. Também me entretenho com a família de galináceos que lá habita: o galo prateado e vigilante, a galinha choca liderando o passeio dos pintos recém-nascidos, pipilando de medo ou frio. Depois regresso a casa e parece-me sempre que mesmo os piores dias, ou os mais aborrecidos e tristes, se puseram um pouco mais claros, um pouco mais simples, um pouco mais sensatos. Eu também.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Um dia feliz

Certos dias tornam-se inesperadamente felizes. Hoje, por exemplo, bastaria ter o rádio ligado à hora, sempre tão auspiciosa, a que a TSF emite os Sinais do Fernando Alves.

Admiro o Fernando Alves há muitos anos — pela imensa cultura, pela beleza que encontra e revela nas palavras comuns, pelo modo de abrir as páginas das notícias como quem abre janelas e deixa entrar revoadas, pelo assombro que as suas histórias transmitem a quem as escute. As crónicas dele são, ao mesmo tempo, texto, música e poesia. É uma referência absoluta, um daqueles que dignificam e dão sentido à profissão que escolhi (e que perdi tão cedo).

Escutá-lo esta manhã, enquanto folheava o meu Tropel e o lia, foi, também por isso, uma coisa que me arrepiou muitíssimo. Muito obrigado, Fernando.