Já aqui (ou aqui, mas há mais) o escrevi: o país e a Europa que temos resultam, na prática, da malversação do poder, dos bens e dos recursos públicos por parte de um conjunto de energúmenos que usam o voto dos cidadãos para saquear o que devia ser de todos - na educação, na saúde ou na habitação, para não ir mais longe. O Público fornece hoje mais alguns dados objetivos sobre o assunto, que apenas servem para reforçar o óbvio.
Articulando o esbulho com políticas de instrução que, aliadas às redes sociais, imbecilizaram grandes contingentes da população, os políticos do poder têm podido governar-se à vontadinha, ignorando o bem comum e favorecendo liberalmente as respetivas clientelas. No ponto a que chegamos, já não se dão, sequer, ao trabalho de fingir que tomam medidas para resolver os problemas; decidem ao arrepio do mais elementar bom senso e do interesse público, ocupando-se apenas de iludir os cidadãos relativamente aos reais propósitos da legislação que aprovam. E fazem-no muito eficazmente. Basta ver que os únicos partidos que, nas últimas eleições em Portugal, apresentaram medidas para o sector da Habitação foram, não por acaso, os menos votados. O assunto passou completamente ao lado dos headlines da campanha, largamente dominada pelos surtos de aerofagia de um dos líderes partidários.
Aqui ou em França, no governo ou na sua esfera de influência, o poder age convencido de que só uma minoria está disposta a lutar por um direito que é de todos. Permite-se, pois, hostilizar o punhado de excêntricos que saem à rua e que se mobilizam solidariamente, insultando-os e agredindo-os de diversas formas. Em vez de procurar dar resposta efetiva ao que afirmam ser uma inquietação legítima e justificada da população, os políticos procuram, no máximo, convencer a maioria de que estão a fazer alguma coisa (enquanto continuam o esbulho do costume).
Sejam bem comportados, como em Portugal, ou violentos, como em França, os que protestam e reivindicam são, por outro lado, indiferentemente apresentados como extremistas e inimigos da ordem pública, seja pelo poder político, seja pelos media. Ora, se os responsáveis políticos entendem que a agressão verbal, a intransigência, a violência e a intervenção policial são a resposta adequada às reivindicações de cidadãos pacíficos e ordeiros (no Porto até apanham as beatas do chão da praça), é muito provável que os protestos do futuro já não sejam assim tão bem comportados, abrindo caminho a situações como aquelas que vemos em França ou na Albânia. Consequentemente, a desordem abrirá caminho à imposição implacável de uma ordem ainda mais musculada e fascista por parte dos salvadores da pátria de pechisbeque.
Resta saber, diante do beco sem saída, se ainda há espaço para sermos capazes imaginar um estado de coisas em que impere, ao menos, um mínimo de decência.

