sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Campanhã

Por motivos que não vêm ao caso, tive ontem de apanhar um autocarro para a parte mais remota da freguesia de Campanhã, no Porto. A despeito das sucessivas promessas de transformação deste arrabalde feitas por sucessivos presidentes de câmara (Fernando Gomes, Rui Rio, Rui Moreira), Campanhã continua essencialmente igual: os autocarros velhos circulam por quelhas onde mal conseguem fazer as curvas, rasando pequenas casas degradadas, escombreiras e um mato selvagem, plangente sob a chuva e as ventanias de novembro. Há, é verdade, avenidas novas, bairros sociais em obras de camuflagem, um parque urbano, wi-fi. Mas, trinta anos depois, Campanhã continua tão periférica, triste e abandonada como era, mais apartada da cidade e da urbanidade do que a maior parte das vilas do interior.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Já que é necessário consumir alguma coisa

Bem sei. A estéril experiência prévia devia ter-me servido de lição. Mas o Natal vem aí e eu tenho ainda disponível um caixote de livros relativamente jeitosos, os quais podem dar um presente bem catita, autografado pelo autor e tudo. Acresce que a economia nacional beneficia com o consumo e tal. Porque não?


quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Doutor cara-de-pau

Foi necessária a tragédia de uma criança nascer sem rosto para que a Ordem dos Médicos notasse que tem milhares de processos disciplinares a que não deu resposta, alguns dos quais relativos ao médico que faz ecografias em menos de cinco minutos. No fundo é tudo perfeitamente normal. O bastonário da Ordem tem estado demasiado ocupado a aparecer na televisão para denegrir o Serviço Nacional de Saúde. Agora que a campanha eleitoral terminou, pode ser que o doutor Guimarães trate daquilo que realmente lhe diz respeito.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Grande Chico

Fiquei genuinamente feliz quando soube que o Prémio Camões de 2019 havia sido atribuído a Chico Buarque, que já era, pelas incríveis letras das suas canções e pela dramaturgia, um grande autor de língua portuguesa mesmo antes de ter escrito Estorvo, o seu primeiro romance.

Soube-se ontem que o energúmeno que é presidente do Brasil se recusa a assinar o diploma de atribuição do prémio. Chico respondeu que se sente duplamente premiado. Grande Chico. Enquanto o ignaro for presidente, nenhum escritor distinguido com o Camões deve aceitar menos do que isto.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Oblomov

Iliá Ilich Oblomov, a personagem de Ivan Goncharov, não foi sempre este lendário preguiçoso, apático e indolente, que vegeta na cama do seu apartamento na Rua Gorókhovaia ou que, quando muito, se arrasta até ao sofá embrulhado no robe de seda. Houve um tempo em que Oblomov teve um emprego e chegou ao ponto de aí executar os trabalhos que dele naturalmente se esperavam, os quais se via obrigado a desempenhar "sempre com muita pressa", num afã. "Quando vou eu viver? Quando vou eu viver?", perguntava-se. Livre do trabalho e com todo o tempo à sua disposição para se dedicar a viver convenientemente, Oblomov não faz, todavia, nada que preste, incapaz de dar qualquer uso útil às horas e aos dias. Procrastina, preguiça, filosofa em vão, medita. Mas em nenhum momento se sente ignóbil e indigno por não fazer a ponta de um corno.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Mil seiscentos e cinquenta escudos

Reabro, quase trinta anos depois, um livro que li no final de 1991 ou no início de 1992. Ao contrário do que acontece com a maioria dos alfarrábios daquela época, este ainda tem um papelinho colado na primeira página, uma espécie de destacável onde, escrito a lápis, ficou assinalado o preço do livro: 1.650$00. Mil seiscentos e cinquenta escudos. Às vezes tenho a impressão que ainda ontem as coisas se vendiam e compravam em escudos. Mas já foi há muito tempo.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Memória postiça

Li, entre ontem e hoje, Rostos na Multidão, o livro da mexicana Valeria Luiselli que a Bertrand Editora publicou em 2012 em Portugal. Enquanto lia, tudo me pareceu novo, como se de uma primeira leitura se tratasse. Procurando no blogue, acabo, todavia, de confirmar que havia lido o livro em 2012, no primeiro semestre, e que o inclui entre as minhas 15 melhores leituras daquele ano (no terceiro lugar). Mas não guardei disto qualquer memória própria. Fico inquieto. Percebo que já não virá longe o dia em que aquilo que escrevi no blogue será a minha única ligação com a realidade e com o passado; e que o Teatro Anatómico será, então, apenas uma memória postiça e muitíssimo incompleta, o fumo da cigarrilha dissolvendo-se no nevoeiro.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Contar ao mundo

Nenhum dos principais meios de comunicação social portugueses escreveu uma noticiazeca que fosse  a propósito da exposição "Tell the world about us", do norueguês Rune Eraker, patente desde 13 de julho no Centro Português de Fotografia. O conjunto de imagens exibidas, assim como as histórias que revelam, são, todavia, matéria de interesse público, ao qual acresce a qualidade estética e artística das fotografias.

A escassa divulgação da exposição (creio que só o Jornal de Negócios lhe dedicou alguma atenção) pode ser atribuída a um de três motivos:

- os jornalistas estão distraídos;
- os OCS esqueceram aquela que devia ser uma das suas mais nobres funções;
- o Centro Português de Fotografia não dispõe de um serviço de assessoria de imprensa que faça os telefonemas necessários para que os senhores funcionários dos órgãos de comunicação social descubram o "interesse jornalístico" daquilo que está debaixo dos seus mui empertigados narizes.


sábado, 24 de agosto de 2019

Rua do Mestre Jorje

Certas coincidências são maravilhosamente inexplicáveis.
Quando escrevi Uma Mentira Mil Vezes Repetida, imaginei que Oscar Schidinski se havia abrigado  por três noites em Castelo de Vide, "numa casa de criptojudeus da Rua do Mestre Jorge" (ou Jorje, conforme indicam as placas toponímicas nos dois extremos do casario). Apenas conhecia a rua de passagem e estava longe de imaginar que viria a ser ali uma das minhas moradas.

 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Justino (ou a nova idade das trevas)
















O anúncio classificado do Sr. Justino, publicado numa das edições desta semana do Jornal de Notícias, não é, em si mesmo, um problema. Em todos os tempos houve, há e haverá gente ignorante e supersticiosa. A grande novidade reside no facto de estas pessoas terem perdido a vergonha de serem o que são e de até fazerem questão de alardeá-lo, mesmo recorrendo a algo tão fora de moda como um anúncio classificado na imprensa escrita, num momento histórico em que qualquer rede social garante muito maior audiência para qualquer dislate que se queira proclamar. O atrevimento não espanta, porém. No tempo em que vivemos, mesmo os energúmenos mais ignorantes podem aspirar a ser presidentes de um país grande.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Entre aspas

No conto O Imortal, que abre O Aleph (de 1949), Jorge Luis Borges escreveu que "se diz entre os etíopes que os macacos deliberadamente não falam para que não os obriguem a trabalhar". 
Gosto muito da frase e nem sequer é a primeira vez que aqui a cito.
Reparei entretanto, ao reler os Contos Argentinos que Borges organizou para a coleção A Biblioteca de Babel, que o primeiro conto dessa colectânea, Yzur, de Leopoldo Lugones, publicado em 1906, inclui a seguinte passagem: ..."os naturais de Java atribuíram a falta de linguagem dos macacos a abstenção e não a incapacidade. Não falam, diziam, para que não os façam trabalhar".
Na introdução que escreveu para os Contos Argentinos, Borges sublinha "a influência de Edgar Allan Poe e Wells" no conto de Lugones. Não me recordo, todavia, de alguma vez ter lido qualquer referência às influências de Leopoldo Lugones na obra de Borges, a quem, verdade seja dita, a mais elementar decência nunca permitiu que alardeasse uma originalidade inatacável. Numa entrevista à RTA, em 1985, quando o jornalista comenta que esteve a reler a sua literatura, Borges interrompe-o. "A minha literatura entre aspas...", diz. E mais adiante: "Eu não gosto do que escrevo".

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Devia ser obrigatório

Devia ser obrigatório afixar a crónica de hoje do Ricardo Araújo Pereira, na Visão, em todos os locais públicos de todos os países, e publicá-la nos manuais escolares, e servi-la com a sopa às criancinhas; e enfiá-la depois pelo bucho dos adultos que ainda encontrassem motivos para continuarem a ser idiotas racistas e intolerantes.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Uma pequena morte

Recordo o sonho de modo vago e confuso: numa sala que não sei localizar, o chão estava pontilhado de aves mortas. Os pássaros, muito coloridos e predominantemente vermelhos, e disto lembro-me com clareza, lançavam-se em vôos rápidos de encontro a uma vidraça, um de cada vez, o que fazia cogitar que se suicidavam de modo deliberado e não por um qualquer acidente ou equívoco. De manhã, quando acordámos, havia um pequeno pardal cinzento tombado no chão do terraço, evidentemente morto como um sonho que não voltará a alçar vôo.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Tempo Contado

O José Rentes de Carvalho, a quem tenho o gosto de ter abraçado, como amigo, uma mancheia de vezes, começou a escrever um blogue em 2007, quando a maior febre da blogosfera, e a mais inocente, havia já passado. Pelas minhas contas, o José Rentes está quase a fazer 90 anos e constato que continua a escrever quase todos os dias, e de modo admirável, lá no seu Tempo Contado, provavelmente indiferente a uma série de coisas que a mim me amofinam ainda bastante, mas sobretudo isso, vivendo e escrevendo com a tranquilidade que suponho só estar acessível a quem ignora a pressa e o fascínio das vaidades transitórias. É um exemplo, o José Rentes; um herói de carne e osso a quem posso admirar sem cuidado ou moderação. Ainda havemos de voltar a abraçar-nos muitas vezes.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Autopsicografia (por interposta pessoa)

O autor imagina que aos quarenta e oito anos um homem deve chegar àquele encontro consigo mesmo no presente, porque não há futuro. Vendo aproximar-se o fundo do funil, percebe que a vida não é ilimitada e então é preciso se dar ao máximo a cada coisa, dentro dos limites de cada um. Criar no limite mesmo o ilimitado.
— Só canto as músicas que gosto — declara João.

Do conto "O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro", de Sérgio Sant'Anna

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Ministério das mulheres públicas


Os magistrados do Ministério Público estão hoje em greve. Protestam contra a forma como o Estatuto do MP está a ser revisto, questionando a alegada introdução de normas que fragilizem a sua sacrossanta autonomia. No mesmo dia foi conhecida a decisão de uma procuradora da Amadora que, chamada a pronunciar-se sobre a agressão e o insulto a um agente da PSP - protagonizados por dois energúmenos alcoolizados, um dos quais chamou "filho da puta" ao polícia -, considerou que a expressão chula não tinha a intenção de ofender, "funcionando antes como um grito de revolta". Talvez fosse interessante saber o que consideraria a magistrada se o desabafo lhe fosse dirigido a ela. E o que acha o piquete da greve sobre o entendimento, a autonomia e o juízo da colega magistrada da Amadora.

quinta-feira, 21 de março de 2019

A maldição de Marcos Sacatepecuez

Marcos Sacatepecuez, o escritor belizenho, é apenas uma personagem obscura do romance "Uma Mentira Mil Vezes Repetida". A seu respeito se diz, a dado passo do enredo, que estava amaldiçoado, desde logo porque, "enquanto viveu, os seus livros foram publicados por várias editoras europeias, as quais, por coincidência ou má sorte, acabavam invariavelmente por declarar falência".

Tratava-se, bem entendido, de uma ironia sem pretensões, a qual aludia ao facto de algumas das editoras que outrora publicaram livros da minha autoria terem acabado insolventes e encerradas, naufragando num mar de papel e tinta que não se vendeu por não interessar a quase ninguém.

Não sendo supersticioso, não posso deixar, contudo, de notar como o livro continua vivo e, mais do que isso, a contaminar a realidade. Soube recentemente, durante o festival Correntes d'Escritas, que a alemã A1, única editora europeia que publicou "Uma Mentira Mil Vezes Repetida", declarou falência no ano passado. Soçobrou e não há nada a fazer, excepto, talvez, tentar não voltar a desassossegar o suave remanso de capas coloridas e textos de auto-ajuda em que o mercado editorial parece navegar com maior desafogo.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia da Mulher e da hipocrisia de género

O costume. A cada 8 de Março se repetem os mesmos discursos de sempre e as frases feitas sobre, entre outras coisas, «a igualdade das mulheres». Como sou do contra, defendo todos os dias, e de um modo amplo, a igualdade dos seres humanos, independentemente dos pormenores epidérmicos e morfológicos que nos distinguem. Tudo o resto é conversa para manter o pagode entretido a olhar para a árvore (enquanto a floresta arde).

sexta-feira, 1 de março de 2019

É Carnaval, o forrobodó pode continuar

Há três semanas, talvez nem tanto, o Jornal de Notícias deu grande destaque a uma notícia que revelava o preço (excessivo) do automóvel ao serviço do presidente da Câmara Municipal de Ovar. Esse indício de despesismo levou até o jornal a dedicar um trabalho especial aos automóveis que os políticos conduzem. Curiosamente, o mesmo jornal não dedicará qualquer notícia ao custo das páginas especiais sobre o Carnaval de Ovar que tem publicado esta semana, e que serão pagas, imagine-se, pelos cidadãos de Ovar (os mesmos que pagam o automóvel do presidente). É normal. Nenhum canal de televisão noticia quanto custam os looongos programas de sábado e domingo à tarde, pagos a peso de ouro pelas autarquias de todo o país. O despesismo só é notícia quando a despesa pública não constitui receita dos órgãos de comunicação social.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A ingratidão dos médicos portugueses

O bastonário dos Médicos, que é também o líder informal da oposição em Portugal, reagiu de modo previsível à notícia da contratação de jovens médicos portugueses pelo governo galego. Criticou o Estado (que pagou a formação daqueles médicos) em vez de criticar a usura e a ingratidão de quem, tendo sido formado à custa dos contribuintes portugueses, vive para escarrar no prato onde comeu. O bastonário também podia ter aproveitado para anunciar medidas corporativas que prevenissem o desperdício do dinheiro público com a (longa e cara) formação de médicos que não estão disponíveis para cuidar da saúde dos portugueses. Mas dizer mal do Estado e do Governo é sempre muito mais fácil e garante automaticamente uma floresta de microfones sempre disponíveis para gravar acriticamente tudo aquilo que Miguel Guimarães arrota.