"Se for o sublime diz que eu não estou" - Manuel António Pina // contacto: ilhanua(arroba)gmail.com

sábado, 24 de outubro de 2020

O mel não se fez para a boca do asno

Segundo um adágio que só hoje conheci, não se fez o mel para a boca do asno. Há-de ser por detalhes assim preciosos que o cidadão comum não chega a ser capaz de compreender que sentido faz decretar um confinamento obrigatório da população, conforme já se fez e agora volta a ser equacionado, se logo a seguir vai ser necessário pedir às pessoas que voltem a frequentar restaurantes e a fazer férias aqui e ali, aliciando-as, inclusive, com a maravilha da devolução do IVA. Talvez pareça um pouco esquizofrénico isto de nos protegermos hoje para que amanhã, ainda vivos, como zombies regressados de além-morte, nos ordenem que nos misturemos em consumamos como nababos para salvar a economia em sítios onde os sãos e os doentes estarão, outra vez, misturados e partilhando toda a sorte de vírus e miasmas — mas, a ser esse o caso, convém desde logo ter em consideração que há doutores disto e daquilo, muito mais inteligentes do que a arraia miúda, descobrindo, agora, que os vírus se dissipam ao ar livre e, daqui a nada, que é de toda a conveniência usar máscara cirúrgica na via pública. Não haja dúvida. Conforme escreveu o velho Torrente Ballester, que já ninguém lê, "é preciso uma grande habilidade dialética e uma grande fé nos nossos raciocínios para manter o respeito por nós próprios quando saímos da casa de banho". Ou, acrescente-se por óbvia analogia, quando se anda na praça pública dos noticiários a mudar de opinião e certeza mais vezes do que um bebé troca de fralda. O contentor (e as moscas) mudarão; o conteúdo é quase o mesmo. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Combate ao aborrecimento

Uma investigação recente, realizada pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar — coisa séria, portanto —, concluiu que as caminhadas em espaços verdes urbanos reduzem os pensamentos negativos e repetitivos. Conheço bem os benefícios destes passeios no combate à neura, ao spleen e ao aborrecimento quotidiano. Vou muitas vezes, por isso, esticar as pernas nos caminhos do jardim da minha rua. Deambulo entre os cactos e as camélias, inspiro a plenos pulmões o perfume da terra molhada e surpreendo, às vezes, o cheiro do jasmim e, creio, também o do açafrão. Muitíssimo peripatético, detenho-me para ver os cogumelos irrompendo do chão e dos toros deixados à beira das veredas, que agora se cobrem dos sinais deste Outono ainda tão doce. Invejo o invisível jardineiro que ali labuta. Distraio-me com as mais subtis alterações da luz nos galhos do antiquíssimo sobreiro da parte mais remota do jardim, com a textura da madeira dos cedros ou com o modo como o louro-das-montanhas parece curvar-se para criar uma penumbra bonita. Circundo a clareira do bosque onde permanece o cadáver de uma árvore que morreu de pé, digna e bela como uma escultura ou um homem antigo e sábio. Também me entretenho com a família de galináceos que lá habita: o galo prateado e vigilante, a galinha choca liderando o passeio dos pintos recém-nascidos, pipilando de medo ou frio. Depois regresso a casa e parece-me sempre que mesmo os piores dias, ou os mais aborrecidos e tristes, se puseram um pouco mais claros, um pouco mais simples, um pouco mais sensatos. Eu também.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Um dia feliz

Certos dias tornam-se inesperadamente felizes. Hoje, por exemplo, bastaria ter o rádio ligado à hora, sempre tão auspiciosa, a que a TSF emite os Sinais do Fernando Alves.

Admiro o Fernando Alves há muitos anos — pela imensa cultura, pela beleza que encontra e revela nas palavras comuns, pelo modo de abrir as páginas das notícias como quem abre janelas e deixa entrar revoadas, pelo assombro que as suas histórias transmitem a quem as escute. As crónicas dele são, ao mesmo tempo, texto, música e poesia. É uma referência absoluta, um daqueles que dignificam e dão sentido à profissão que escolhi (e que perdi tão cedo).

Escutá-lo esta manhã, enquanto folheava o meu Tropel e o lia, foi, também por isso, uma coisa que me arrepiou muitíssimo. Muito obrigado, Fernando.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

A ascensão dos idiotas

Li ontem, por motivos que não vêm ao caso, a crónica O óbvio ululante e a ascensão dos idiotas, que Nelson Rodrigues publicou no Outono de 1968. Aconselho vivamente a leitura atenta da passagem relativa à ascensão dos idiotas, cuja actualidade de mantém intocada. Nada do que eu pudesse redigir neste Outono de 2020 descreveria melhor aquilo em que o mundo se transformou (ou aquilo em que o mundo se tem vindo a transformar). Abstenho-me, pois, e por uma vez sem exemplo, de repetir o óbvio ululante.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O estado do tempo

Poucas coisas são tão ilustrativas do estado a que chegou a comunicação social portuguesa como o crescente espaço dedicado àquilo a que antigamente se designava pela expressão "boletim meteorológico". Nos últimos anos, os jornais, as televisões, as rádios e os sites transformaram a previsão do estado do tempo em assunto de constantes notícias, a bem dizer numa arte, anunciando ora o tempo seco e as vagas de calor, ora a banalíssima ocorrências de aguaceiros e as ventanias de Outono. Fazem-no como se, de algum modo, o mundo pudesse acabar durante a madrugada, revolvido até às entranhas pelos rigores de um tenebroso alerta laranja. Depois vai-se a ver a a borrasca não passava, afinal, de uma chuva de lineu, de um chuvisco absolutamente banal, de uma aguazinha que nem deu para regar as plantas do quintal. Mas os órgãos de comunicação social, mantidos agora sabe-se lá por quem, insistem e dizem que hoje é que vai ser, que esta manhã o tempo há-de piorar muito substancialmente, talvez ao ponto, imagino eu, tão delirante, de choverem cães e gatos. Quando, enfim, parece que a virtual tempestade dos supostos jornalistas abranda, é apenas sinal de que novas revoadas de estupidez hão-de soprar do quadrante oeste, trazidas pela ridícula superfície frontal daqueles que se entretêm a discutir o tronco nu do prsdte da repblca, essa espantosa novidade que há vários verões vemos mergulhar em toda a parte, das águas poluídas do Tejo de 1989 às praias fluviais do interior esquecido, passando pelas cálidas marolas algarvias onde os ingleses já não podem vir veranear, os grandes sacanas. Mas, se calhar, há nisto tudo algum sentido e as notícias do boletim meteorológico são apenas uma forma de ficarmos a par das possibilidades de ver o Marcelo a mostrar o cabedal em algum recanto da pátria, comentando, de passagem, a gripe do Cristiano Ronaldo ou qualquer outro assunto de estado tão relevante como, sei lá, o nível de humidade da nabiça ou os fungos no pé da dona Marizabel (que adivinha o tempo graças a uma pontada nas cruzes e não quer saber de meteorologias).

Visitantes alienígenas

Durante a última semana, grosso modo, o Teatro Anatómico registou visitas como há muito tempo se não via por aqui, chegando a ultrapassar as quatrocentas visualizações diárias. Convenci-me, por isso, e por pura jactância, de que o aumento dos leitores deste blogue sem interesse se devia ao facto de ter procurado manter uma regularidade diária das publicações, vendo deste modo premiado o denodo e a constância, que são atribuições do carácter tão decentes como quaisquer outras. Estava, todavia, equivocado. Se as estatísticas do blogue incharam, devo-o, no essencial, ao número surpreendente de visualizações provenientes dos Emirados Árabes Unidos (1.200, em números redondos), onde talvez tenha aterrado uma extravagante invasão de leitores alienígenas. A má notícias é que aqueles excursionistas já regressaram ao seu planeta e que o blogger não regista a actividade cibernética de outras galáxias, deixando-me outra vez a falar para os escassos alienados (excelentes criaturas!) que habitualmente me lêem. Está tudo bem, portanto. Isto volta a ser um segredo entre nós os trinta.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

O óbvio bom senso

É um regalo observar de que modo o/a tuga comum pratica a arte do "óbvio bom senso". Caminhando quase rente ao mar, com toneladas de ar quase puro a toda a volta, e com muita pouca gente para disputar o oxigénio desses largos e matinais sorvos, o indígena lusitano, e nisto não creio que se distinga especialmente dos autóctones de outras nações, leva a máscara cirúrgica na tromba com toda a circunspecção, mesmo se, às vezes, arrisca assomar o empertigado nariz fora do artefacto. Outros há, de feição mais mística, que usam a máscara no queixo, ou dependurada de uma das orelhas, servindo-se do apetrecho como se de um amuleto se tratasse, ou como ao sinal de uma fé qualquer que deva assarapantar o vírus,  seja ele qual for. No fundo é tudo muitíssimo normal ou previsível. Bastava ter convivido com estas peças antes.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Claque oficial do incrível João Almeida

Provavelmente já estais ao corrente de que sou quase um maluquinho do ciclismo — de o ver na televisão, sentado no sofá, bem entendido. Não posso, por isso, descrever a satisfação e o entusiasmo com que tenho acompanhado a presente edição do Giro de Itália, liderada há onze dias por João Almeida. Trata-se de um feito histórico e extraordinário para o ciclismo e para o desporto português, protagonizado por um moço de 22 anos que está a fazer a sua primeira grande volta, somando-se também o facto de outro português, Ruben Guerreiro, vestir há vários dias a camisola de líder da classificação da montanha. Nunca se viu tal coisa.

João Almeida tem feito uma corrida empolgante, lutando a cada etapa pelos primeiros lugares (hoje foi segundo pela segunda vez e já fez duas vezes terceiro). Mas não me impressionou menos escutar a sua mãe a falar em directo durante a transmissão desta tarde do Eurosport. Segundo a senhora, o agora ciclista profissional havia começado a frequentar a universidade, em Lisboa, o que lhe deixava pouco tempo para treinar. Mas tinha um sonho. E partiu dos próprios pai a iniciativa de lhe propor que abandonasse a carreira académica. Podes voltar a estudar em qualquer altura, disseram-lhe, mas para seres ciclista tem de ser agora.

Estou, portanto, no sofá, na claque do João Almeida e do Ruben Guerreiro, entusiasmado a assistir à incrível prestação do maglia rosa das Caldas da Rainha. E só não me visto a preceito porque se trata de uma cor que não me favorece especialmente.

Falsa sensação de segurança

Eu ainda sou do tempo em que a autoridade nacional de saúde instava os portugueses a não usarem máscaras para se protegerem da Covid, uma vez que o inestético adereço, segundo a DGS, induzia "uma falsa sensação de segurança". Agora, depois do crash provocado pelo confinamento obrigatório, a única coisa que interessa é que a vida continue a qualquer custo, nem que para isso a populaça tenha de ser obrigada a sentir uma segura imaginária. 

As máscaras, estava-se mesmo a ver, vão passar a ser obrigatórias também ao ar livre. E, claro, a contravenção vai dar direito ao pagamento de uma multa suficientemente persuasiva. Na apresentação da medida, o primeiro-ministro esclareceu que o uso será obrigatório "com o óbvio bom senso de só nos momentos em que há mais pessoas na rua". Ora o "óbvio bom senso", para além de estar muito mal distribuído entre a população, constitui um conceito fluído e nem sempre fácil de traduzir em termos jurídicos. Basta ver, por exemplo, que a velocidade máxima de circulação nas auto-estradas não varia de acordo com o bom senso, o número de veículos em circulação na via ou as condições meteorológicas. 

A medida é, pois, bastante discutível, desde logo por tornar necessária a reunião simultânea, à partida, de pelo menos dois tipos de bom senso: o do cidadão mascarado e o dos agentes da autoridade que terão de fiscalizar o uso do atavio.

Sobre o segundo grupo, o policial, recairá ainda, refira-se, uma dificuldade adicional. Como se lhes não bastasse já terem de fiscalizar o uso de máscaras em toda a parte (e o respectivo bom senso), zelar pela ordem pública, perseguir criminosos e controlar os paisanos que atiram beatas para o chão ou que atravessam a rua fora das passadeiras para peões, os agentes da autoridade terão também de garantir que todos os velhacos cidadãos estão a usar a aplicação Stayaway Covid, conforme prescrito. 

Pela parte que me cabe, procurarei simplificar a tarefa dos polícias sem mãos a medir para tanto trabalho: impecavelmente mascarado, sempre que vierem fiscalizar-me erguerei ambas as mãos em sinal de rendição e assegurarei, alto e bom som, que não possuo um telemóvel nem uma Colt M1911.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Partir os ovos sem fazer omeletes

O rabino do meu bairro tem um aspecto bastante extravagante, indolente, como se fosse ao mesmo tempo rabino e hippie, provavelmente porque usa as camisas brancas um pouco amarrotadas e com as fraldas por fora das calças, ou porque as longas barbas parecem um pouco encardidas, sobretudo agora que as traz parcialmente escondidas debaixo da máscara cirúrgica da praxe, doravante obrigatória até a céu aberto e nos dias mais gloriosos. Suponho, por isso, que vamos todos assemelhar-nos um pouco a loucos assustados de que o céu nos caia em cima da cabeça, exactamente como o rabino do meu bairro quando ontem regressava de comprar ovos no supermercado. Sei que o guia espiritual levava ovos no saco de papel ambientalmente responsável porque, quando nos cruzámos, o fundo da frágil bolsa se rasgou e a sua carga se esborrachou no chão, privando a criatura de deus, a sua voz e mensageiro, da omelete que, se calhar, planeara comer ao almoço. Talvez, ao menos — foi o que pensei —, o incidente lhe inspire uma exemplar parábola sobre os ovos que se partem e não chegam a ser omeletes. Trata-se, creio, de uma metáfora aplicável a diversas ocasiões da vida singular e colectiva. Assemelha-se muito, por exemplo, ao exercício levado a cabo por quase todos os governos do mundo quando decidiram arruinar economias inteiras, famílias inteiras, sem, todavia, conseguirem controlar a peste do século. Os ovos estão, pois, quebrados, mas à omelete ninguém a comeu.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Estas trevas

Parodiei há dias, talvez se lembrem, o facto de quase não haver semana em que não saiam novos livros dedicados a explorar a devoção dos leitores pelas histórias que têm por pano de fundo o campo de concentração de Auschwitz. Parece-me, todavia, que o post me saiu demasiado ligeiro e apressado, tendo nomeadamente em conta as implicações superficiais e profundas do aproveitamento e da banalização de Auschwitz enquanto cenário de ficções habitadas por mágicos e bebés, tatuadores, carteiros, irmãs, gémeas, bailarinas, farmacêuticos, bibliotecárias e anões trapezistas, todas prometendo "histórias verídicas", "reais", e "inesquecíveis" exemplos de amor, coragem e sobrevivência. 

Logo um ou dois dias depois de ter publicado aquele post, que agora apaguei, li algures os resultados de um estudo que cabalmente demonstra que a avalancha de ficções ambientadas em Auschwitz, bem como a aparente apetência do público pelo consumo destes produtos, está longe de ter como resultado uma maior consciência colectiva relativamente ao absoluto horror do campo de concentração, daquele e de inúmeros outros. Segundo um inquérito então divulgado, quase dois terços dos jovens norte-americanos ignoram que seis milhões de judeus foram exterminados pelos nazis. Um em cada dez imbecis desses consideram até que os judeus foram responsáveis pelo seu próprio extermínio. 

Não nos deve descansar o facto de aquele inquérito, amplamente divulgado pelos sites nacionais de actualidades, ter sido realizado num país capaz de eleger um presidente tão disparatado como Donald Trump (tão semelhante ao personagem louco de Kubrik, o cowboy louco sentado em cima de uma ogiva nuclear). Também na Europa, sabêmo-lo demasiado bem, há negacionistas deste e de outros holocaustos, e energúmenos capazes de repetir os mesmos erros e as mesmas atrocidades do passado. E quem, com a mesma facilidade e eficiência, esteja disposto a perseguir ciganos, negros, chineses, homossexuais, mulheres demasiado livres ou migrantes de qualquer etnia. 

Uma parte do crescimento da horda destes energúmenos deve-se, creio, à facilidade com que qualquer imbecilidade, qualquer mentira, qualquer informação manipulada, circula facilmente no charco podre das redes sociais, intoxicando e confundido de tal forma que — em dado momento que talvez alguma ciência social futura venha a estudar — apenas uma minoria passou a ser capaz de distinguir a verdade e os factos, destrinçando-os de todo o lixo imundo que a cada segundo é despejado na rede. Nada está a salvo destes celerados — nem sequer a esfericidade do planeta que habitamos ou as vantagens da vacinação para a saúde pública. Nada parece distinguir a mais torpe das crendices de uma verdade cientificamente demonstrada. 

O avanço desta nuvem negra, desta treva, beneficiou muito substancialmente da letargia e da permissividade das redes sociais, as quais, alegadamente ao abrigo da defesa da liberdade de expressão daqueles que a não toleram, se recusaram a agir a tempo e a cortar o mal pela raiz, proibindo, por exemplo, publicações que atentassem contra a mais elementar dignidade humana, propaganda fascista ou óbvias manipulações lesivas da honra de terceiros e da democracia em geral. Mas se nem as instituições mais respeitáveis, como os chamados órgãos de comunicação social, o fizeram... Assim, o lixo, esta sordidez nojenta, tem circulado impunemente e minado, minuto a minuto, os fundamentos frágeis das sociedades democráticas, dos estados de direito e da vida dos homens livres e honestos. 

A decisão, ontem anunciada pelo Facebook, de banir publicações que neguem ou distorçam o Holocausto — considerando agora alarmante o nível de ignorância dos jovens — chega, portanto, demasiado tarde. A ignorância é a pior das trevas e tem avançado por aí a pano solto. Medra por toda a parte, mas também (e sobretudo) na redes sociais que dela se alimentaram, a massa bruta disponível para todas as intoxicações, manipulações e ódios. E o pior: olhando-se em torno, quase não se enxerga a réstia de alguma luz.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Estas selvas, este horror

As páginas iniciais d’O Coração das Trevas hão-de aborrecer soberanamente o leitor comum de Conrad, decerto mortinho por ler o quanto antes as exóticas descrições do matagal africano — as lianas, os negros famélicos, os gritos selvagens vindos do arvoredo, o nevoeiro denso cegando os navegantes do rio Zaire. Não sendo menos comum do que qualquer outro indivíduo, estranhei, talvez por isto mesmo, ter notado desta vez que a primeira frase dita por Marlow — no estuário do Tamisa, ao entardecer — não se refere a nenhum dos espantos da história que estava prestes a contar, mas ao próprio rio inglês e às suas margens, ao território em derredor. 

— E tudo isto, aqui, foi um os lugares selvagens do mundo. 

Parece incrível, com efeito, que as civilizadas terras inglesas e a Europa toda tenham sido um dia tão lodosas e inóspitas como a mais densa das selvas, tudo treva; e que, no infinito cálculo do tempo do mundo, ainda anteontem eu, o estimado leitor, a tão bela e altiva leitora, caminhássemos todos em quatro patas, uivando como feras e comendo os próprios piolhos. Palavra de honra: a hora matinal talvez seja ainda imprópria para estas ponderações, mas prometo que vou meditar mais vezes nisto antes de me amofinar com as incríveis niquices em que todos perdemos o tempo e a serenidade. O horror! O horror!

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Geringonciamento

Creio que foi no Grande Sertão: Veredas que dei com o substantivo "geringonça" transformado num criativo verbo ao serviço da narração de Riobaldo Tatarana. Aludia, salvo erro, a alguma cousa que se tornara geringonciável e, se hoje me lembrei disto outra vez, há-de ter sido por força das notícias relativas à aprovação do Orçamento de Estado para 2021 pelo Conselho de Ministros. Visto que me tenho abstido, na medida do possível, de acompanhar os ecos da actualidade (procurando, assim, preservar a minha frágil saúde mental), ignoro se o dito orçamento já foi devidamente geringonciado ou se dispõe de condições para sobreviver ao grande circo parlamentar e aos malabarismos discursivos do prsdnt da rpblca. Pode ser que o documento transite para a discussão na especialidade e que aí incorpore as alterações necessárias a um Inverno tranquilo, sem mais barulhos ou gritaria do que o estritamente necessário, pois já bem basta o que para aí vai há quase um ano. O que vi, num momento em que inopinadamente passei diante do televisor à hora dos telejornais, foi que o triunfo de um ciclista português numa etapa de uma das maiores provas da modalidade a nível mundial, a qual, de forma inédita, é liderada há quase uma semana por outro rapaz português, não mereceu mais do que dez ou quinze segundos no alinhamento das notícias (ou daquilo que agora faz as vezes das notícias). Ainda assim, o noticiário teve tempo para ligações directas a Paris, onde iria decorrer uma rebarbativa partida de futebol, a qual, aliás, foi integralmente transmitida pelo mesmíssimo canal apenas alguns minutos depois. Talvez valesse a pena, pois, geringonciar um canal público de televisão menos autista, com menos esgares e menos piscadelas de olho, menos atenção às tricas espumosas dos dias e mais atenção ao que realmente importa. Os contribuintes ficariam gratos, creio, de ver mais bem gasto o dinheiro que o Orçamento de Estado dedica a estas orelhices.

domingo, 11 de outubro de 2020

Um dia haveremos todos de comunicar com bonequinhos coloridos

Com o alto patrocínio do Presidente da República e o apoio de outras instituições públicas e privadas, anda por aí há dias uma campanha publicitária com intenções muito louváveis e beneméritas. Trata-se, segundo percebi, de evitar o desperdício alimentar. O diabo, como é costume, está nos detalhes. A dita campanha, ao menos na sua versão impressa, assevera, talvez com infeliz ironia, que "o erro está no dsprdcio", constituindo, pois, um notável contributo para a construção de uma novilíngua assombrosa. Se, há bem pouco tempo, o Português se viu espoliado de quase todas as suas consoantes mudas sem qualquer critério racional, a economia na tremenda delapidação que é a utilização de vogais e acentos deixará a língua portuguesa dos belos discursos de Estado prontinha para não servir para coisa alguma. Pode, se calhar, ser vantajosamente substituída por algum tipo de linguagem universal isenta do esbanjamento de letras e do gasto inútil do tempo necessário para se aprender a escrever e a falar um idioma decente, sem negligenciar, ainda, outra vantagem substancial do facto de comunicarmos todos com bonequinhos coloridos: os discursos do senhor presidente Mcl Rbl d Ss hão-de ficar um pouco mais curtos e talvez já não lhe apeteça, assim, discorrer a cada instante sobre todo e qualquer assunto (prática que, já agora, constitui na maioria dos casos um enorme dsprdcio de temp).

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O preço da lenha

O consórcio empresarial que durante oito anos publicou as coisas que escrevi informou-me hoje, conforme a lei, que procederá à destruição de 2.154 exemplares desses livros. Alguma coisa na minha consciência se revolve e angustia um pouco, uma vez que, de algum modo, sou também responsável por essa destruição ou, ao menos, culpado do lapso da soberba. Não me opus a que aqueles livros se imprimissem e condenassem não sei quantas árvores à condição de pasta de papel. Bem pelo contrário, escrevi-os de moto próprio e, em alguns casos, foi minha a iniciativa de fazer com que se publicassem. Lembro-me inevitavelmente de Pepe Carvalho, o personagem de Montalbán que queimava os volumes da biblioteca para se aquecer no Inverno, e também, como não?, de que os livros ardem a uma temperatura de 451 graus fahrenheit (232,77777778 graus centígrados). Há-de, a queima, produzir um calorzinho agradável nos dias mais frios. A propósito, o consórcio empresarial informa-me ainda que posso adquirir os exemplares condenados ao preço unitário de dois euros, acrescido de IVA e custos de transporte. Trata-se, creio, de um valor exorbitante a pagar por tão pouca lenha.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Mão-de-obra qualificada

— Tem o livro da Isabéu Alênde?, pergunta a cliente.
— Tenho sim, responde o solícito livreiro mascarado. Dirige-se à estante e apresenta, orgulhoso, o mais recente da Elena Ferrante.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Advertência: Tropel não é um livro fácil. É duro como a realidade à nossa volta

Escrito há quase dois anos, chega agora às livrarias a minha mais recente aventura literária. Tropel, assim se chama, esteve para ficar na gaveta, condenado pela minha indisponibilidade para continuar a publicar livros que "não se vendem". Aceitei, porém, o desafio que há um ano a Porto Editora me fez e dispus-me, outra vez, a sujeitar-me ao escrutínio (e à eventual indiferença) dos leitores, esperando que, desta vez, com o entusiasmo de todas as partes envolvidas, possa ser possível fazer chegar o livro aos seus potenciais destinatários.

Para que ninguém se sinta ludibriado, advirto que Tropel não é um livro fácil nem amoroso. É duro e bicudo como a realidade que nos rodeia nesta tristíssima década, cheio de espinhos e de horrores. O aviso está feito na contra-capa: trata-se de uma ficção completamente alheia à realidade, todavia inspirada em factos absolutamente reais; uma incursão a um tempo de ódio e uma história apartada do mundo, marginal e contada a partir de um lugar ermo, espantoso e medonho que só existe na literatura — mas cada vez mais próximo da soleira da nossa porta.

Que o possam apreciar, é o que desejo. E uma vez que a paranóia pandémica não permitirá que se faça, para já, qualquer sessão pública de lançamento, permito-me erguer daqui um simbólico brinde a todos os leitores que ocasionalmente ainda tropecem neste blogue antiquado, sem influenciadores e tão carregado de más influências e ainda piores descaminhos.

domingo, 20 de setembro de 2020

Gostar de ciclismo (obrigado, Tadej Pogacar)

Tenho vários motivos para gostar de ciclismo e para perder tardes inteiras a acompanhar as transmissões em directo de todo o género de corridas, voltas e grandes prémios. Desde logo por ser possível dormir belíssimas sestas enquanto o pelotão sobe o Angliru ou o Tourmalet, nomeadamente nas etapas que fazem lembrar o filme Les Triplets de Belleville, de Sylvain Chomet, e ameaçam transformar-se num soberano aborrecimento e não sair do sítio (conforme sucede ao personagem daquele filme de animação, condenado a pedalar sempre no mesmo lugar). Mas depois há tardes de glorioso heroísmo e superação, como ontem sucedeu no contra-relógio que devia ter coroado Primoz Roglic como vencedor da Volta a França e, afinal, permitiu ver Tadej Pogacar pedalando como um pequeno deus endiabrado. Tadej tem 21 anos (faz 22 amanhã) e correu este ano o Tour pela primeira vez. No ano passado tinha ficado em segundo na sua primeira Volta a Espanha. É um ciclista inacreditável e inspirador. Obrigado.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Bom senso e bom gosto: a lição de Vicente Jorge Silva

Não fui ontem capaz de escrever algo que prestasse sobre a morte do Vicente Jorge Silva. É provável, aliás, que o texto que agora inicio não seja também capaz de lhe fazer justiça. Mas sinto que devo tentar fazê-lo, quanto mais não seja porque o Vicente me proporcionou algumas das melhores lições, e dos melhores exemplos, de que podia ter beneficiado enquanto jornalista e cidadão.

Não fui amigo do Vicente. Ele foi apenas o meu primeiro director e a força motriz — irrequieta, travessa e genial — de um projecto jornalístico ímpar, que tive a sorte de poder integrar quase desde a fundação, auxiliado apenas pelas insensatas quimeras adolescentes dos meus 18 anos. O idealismo, a ilusão e o rigor que presidiram àqueles primeiros anos do Público foram, por isso, a melhor universidade que podia ter tido e nunca me esqueci da manhã de sábado em que o Vicente resumiu o exercício do jornalismo de qualidade, de referência, à amável tirania do bom senso e do bom gosto.

É evidente que traí inúmeras vezes a melhor lição do Vicente. Continuo a traí-la frequentemente por falta de ponderação, ignorância ou excesso de entusiasmo. Mas quase sempre sou capaz, depois, de perceber e reconhecer o meu erro e de procurar emendá-lo na medida do possível, mantendo vivo o espírito do jornal que teimava em publicar uma secção permanente dedicada a assumir e corrigir os lapsos e falhas em que diariamente incorríamos.

Público com que o Vicente sonhou (com o José Queirós, o Joaquim Fidalgo, o Nuno Pacheco, o Torcato Sepúlveda e tantos outros) fracassou estrepitosamente. O falhanço do projecto deve-se menos, porém, ao advento da internet e das redes sociais do que ao facto de o jornal em que tenho o orgulho de ter trabalhado, e no qual me fiz homem, ter sido concebido para um país educado, exigente, culto, sério e cosmopolita — um país, enfim, que não existia em 1990 ou em 2000, e que apenas se tem aviltado mais e mais. Estamos hoje mais ignorantes, mais superficiais e mais parolos, mais torpes, entregues a misticismos pós-modernos e às ditaduras da aparência, da empáfia, da manipulação e do oportunismo; destituídos, enfim, do bom senso e do bom gosto, da exigência e da coerência que podiam ter sido o maior legado do Vicente Jorge Silva a Portugal (e que este país tragicamente desperdiçou).

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Os assintomáticos

Talvez por força das pessimistas prosas abaixo partilhadas, hei-de fazer ao mundo a justiça de também reconhecer que nem tudo é tão ruim como aqui se vai podendo ler. Parafraseando a anedota que um dos meus primos alentejanos me contou no início de Agosto, não há, por exemplo, motivos para duvidar de que o planeta e o país estejam povoados de pessoas inteligentes e capazes de dar bom uso ao bestunto (a despeito dos resultados de algumas eleições e sondagens). O problema reside em que, como na doença da moda, haja tanta gente assintomática e, por isso, incapaz de manifestar sinais de argúcia, razão, sagacidade, fineza, perspicácia ou juízo.