quarta-feira, 14 de abril de 2021

Não-Correios de Portugal, SA










Por ser assunto de interesse público, partilho com os veneráveis leitores a resposta que recebi da CTT-Correios de Portugal a uma reclamação relativa a um livro que enviei no dia 12 de Março e que nunca chegou ao destinatário:

Prezado Cliente

Mereceu a melhor atenção a sua comunicação, enviada aos nossos serviços, efectuada no Livro de Reclamações sobre o envio de uma correspondência.

Relativamente à situação descrita informamos que, lamentavelmente, as averiguações desencadeadas no sentido de apurar o motivo da citada anomalia, nestas circunstâncias, revelam-se infrutíferas. Tratando-se de objectos não registados, que não deixam vestígios da sua passagem nos nossos circuitos, uma vez que não dispõem de qualquer tipo de código ou identificação única que permitam o seu rastreio durante as várias etapas do circuito postal, torna-se muito difícil apurar, em caso de anomalia, em que fase do seu tratamento poderá a mesma ter ocorrido, ou mesmo, confirmar a data de aceitação ou da sua recepção, pelo destinatário.

De referir que devido às próprias características da actividade dos Correios e do volume de tráfego nem sempre é possível garantir o cumprimento dos padrões de qualidade definidos, para a totalidade dos objectos. sendo que a prestação dos serviços de correio, incluindo o registado, correio azul e o correio normal, não envolve para os CTT uma obrigação de distribuição de todo o correio em prazo certo. Os prazos mencionados existem apenas enquanto padrão de referência, cabendo ao remetente a opção pelo tipo de envio. 

Os CTT, como qualquer empresa fornecedora de serviços, comercializam uma gama diversificada, à qual correspondem atributos e tarifas diferenciadas. Cabe ao Cliente, a opção do tipo de envio consoante as suas expectativas ou exigências, e apenas o envio por Express Mail, permite garantia em prazo pré determinado e indemnização por incumprimento, em determinadas circunstâncias.

Pelo incómodo verificado apresentamos  o nosso pedido de desculpas.


Ou seja: os Correios não se responsabilizam pelo correio e muito menos pela sua entrega. É um serviço público muito sui generis na medida em que... não é serviço nenhum. Era muito mais eficiente, pois, no tempo dos senhores da fotografia anexa, os quais, em vez de desculpas, entregavam efectivamente cartas, encomendas e bilhetes postais.

Aprecio tanto do liberalismo e as respectivas privatizações.

sábado, 10 de abril de 2021

O estado a que chegamos








Tenho cada vez mais dificuldade em defender o Estado de Direito, e as vantagens de viver segundo as suas regras éticas e democráticas, por ser impossível ignorar que a Justiça, uma das instituições fundamentais desse Estado de Direito, está entregue a gente cuja actuação parece permanentemente conduzida por motivações políticas, não oferecendo aos cidadãos a mínima garantia de independência e de equidade — de justiça, portanto. 

Fico frequentemente com a sensação, aliás, de que os magistrados são os primeiros a não acreditar no funcionamento da Justiça (talvez porque conheçam os seus meandros melhor do que ninguém). Por isso recorrem aos órgãos de comunicação social para procurar condenar sem julgamento e fazer tábua rasa do princípio fundamental da presunção da inocência até prova em contrário.

Também tenho sérias dúvidas sobre o sentido que faz um "jornalismo" que, por um punhado de clicks, condena e humilha sem julgamento durante anos a fio, limitando-se a ser a histérica caixa de ressonância de uma ou outra das duas facções que perverteram a democracia em função das suas motivações políticas. Pouco informa e limita-se cada vez mais a criar ruído e confusão, seja num processo de corrupção ou numa pandemia. 

À falta de um Salgueiro Maia que nos explique outra vez o estado a que chegamos, ninguém parece realmente interessado em reflectir sobre o que realmente está em causa. Os que sempre mandam nisto tudo continuarão a cantar e rir, e a fazer belos discursos vazios e sem consequências, até que se extingam as migalhas de democracia que ainda vamos tendo. Os neandertais estão à espera.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Planeta dos neandertais







Segundo o jornal El País de hoje, os mais recentes avanços da genética têm vindo a reforçar a ideia de que os neandertais não se extinguiram para dar lugar ao homo sapiens, tendo antes sido integrados por esta nova espécie. É provável, assim, que tenham beneficiado da política inclusiva das espécies mais evoluídas para progredirem alguma coisa, misturando-se e confundindo-se.

Continuando a extrapolar a partir dos dados da genética, temos de admitir como verosímil a possibilidade de os neandertais continuarem a viver entre nós, em quase nada se distinguindo dos sapiens sapiens comuns. Esta eventualidade ajudaria a explicar, por exemplo, o carácter patibular, retrógrado e atrasado de uma parte significativa da população mundial, bem como o facto de, postos a exercer o direito de voto, os neandertais conseguirem, às vezes, eleger políticos cuja existência também só se percebe completamente à luz da permanência destes humanos de uma outra espécie entre os sapiens sapiens.

Analisando as coisas por este prisma, o enredo do filme Planeta dos Macacos adquire uma verosimilhança extraordinária. Ainda não chegamos aos chimpanzés e aos orangotangos, mas é um pouco inquietante saber que os neandertais já ocupam cargos de importância vital, da Casa Branca ao Palácio do Planalto. Têm sede de poder e é possível que já nos governem e que queiram realmente subjugar-nos e submeter-nos às suas toscas ditaduras selvagens.

terça-feira, 30 de março de 2021

Lei seca










A famosa emenda constitucional norte-americana vulgarmente conhecida como Lei Seca foi estabelecida em 1920. Visava, alegadamente, salvar o país da violência e da pobreza, inspirando-se também nas teorias do médico Benjamin Rush, que considerava o álcool prejudicial à saúde física e psicológica. O resultado é conhecido e deu origem a vários filme de Hollywood. 

Um século depois, impulsionado pela Covid, o proibicionismo sanitário e puritano regressou em força e invadiu a Europa. Não abraçarás, não beijarás, não participarás em festas, não tomarás café, não comerás fora de casa, não cortarás o cabelo, não irás à escola, não cumprimentarás, não conversarás, não integrarás ajuntamentos com mais de cinco pessoas, não viajarás, não circularás entre freguesias, não festejarás o São João, não porás o nariz na rua sem uma máscara... Independente da bondade e da necessidade das restrições, e do carácter aleatório e medieval de algumas medidas, a lista das regras dos sucessivos estados de emergência e confinamentos é infindável e tão sofisticada que faria os moralistas da Lei Seca corarem de vergonha.

Tal como há cem anos, haverá já poderosas máfias enriquecidas com o tráfico de máscaras e álcool-gel, com as vacinas vendidas em mercados paralelos, com os falsos certificados de trabalho e residência, com a venda de voos em jatos privados (os ricos nunca cumprem as proibições impostas à ralé e refocilam amenamente nas praias do Dubai) ou com a organização de festas privadas clandestinas. Não é preciso, sequer, imaginá-lo. Basta ver como o mesmo Estado que proíbe viagens na semana da Páscoa tolera que os hotéis estejam abertos e a facturar, e as companhias aéreas transitando quase à vontadinha.

Semana após semana, durante o período que durou a nossa última voz de prisão, habituei-me a passar a correr à porta de um estabelecimento que, impedido de vender cafés "ao postigo", tinha a porta fechada e uma cortina preta por trás do vidro. Cá fora, porém, havia sempre uma pequena multidão ansiosa de cafeinómanos à espera da sua vez de entrarem clandestinamente, para, suponho, tomarem copiosos cafés ilegais, eventualmente uma mini ou outra, um traçadinho ou um pecaminoso Favaíto. Acontecia a nem duzentos metros do comando metropolitano da polícia. Como durante a Lei Seca, ninguém via.

domingo, 21 de março de 2021

Os poetas

De todas as vezes que morre um poeta há 
um raio de sol a menos nas arestas da manhã. 

O mundo envelhece um pouco: os poetas 
nunca têm o tempo das suas articulações, mas 
somente a idade de quando são crianças. 
Se escrevem, é por não serem já capazes 
de correr atrás de uma bola, de um papagaio 

de papel. Depois vão embora tristes 
de não poderem, outra vez, caçar a esquiva 
borboleta das palavras.

terça-feira, 16 de março de 2021

Realmente livres













Estava escrito nas estrelas que o presidente da república — trata-se, afinal, do mesmo indivíduo que há alguns anos lançou o país num inútil referendo ao aborto — enviaria a lei que procura regulamentar a eutanásia para o Tribunal Constitucional; e que os doutos juízes encontrariam um pretexto qualquer para chumbar o documento. O problema, creio, radica na própria ideia de legislar sobre a morte assistida. O que deve ser feito, e sem mais demora,  é eliminar os preceitos existentes na legislação actual que impedem os cidadãos de exercerem o inalienável direito de decidirem com inteira liberdade o que pretendem fazer com as próprias vidas. Só então começaremos a ser realmente livres.

quinta-feira, 11 de março de 2021

A gente só se ri depois do mal feito — o regresso acidental das crónicas do autocarro











Outros adágios podiam ter sido declamados no 207 das 9h20 de hoje, mas foi este o que escutei quando, na paragem da Rua de D. Manuel II, um passageiro tropeçou ao sair da viatura e se estatelou no chão com alguma graça, não machucando, porém, mais do que um joelho: "A gente só se ri depois do mal feito", disse a senhora dos olhos azuis enquanto se ria por trás da máscara cirúrgica.

Seria possível expender toda uma reflexão ética em torno da ruindade humana a partir do retorcido humor da velha mulher, que levava o cabelo pintado de louro e bem arranjado, e unhas com manicure a preceito, distinta nos anelares do rosa vivo dos demais dedos. Mas não o farei. Também aprecio a pândega e prefiro debruçar-me sobre os benefícios sanitários do riso pós-pandémico, sobretudo porque viajávamos num autocarro quase cheio como um ovo a despeito do confinamento obrigatório. A gestão municipal da STCP reduziu drasticamente o número de viaturas em circulação e há toda uma tribo de técnicas de higiene domiciliária que precisa de se deslocar entre biscates, pois à terceira vaga do vírus já nenhuma patroa permite que as sopeiras fiquem em casa a mandriar.

"A gente só se ri depois do mal feito" há-de ser uma grande verdade, lapidar como um elogio fúnebre e utilíssima à preservação do bom humor a despeito da insensibilidade do vírus, da STCP e das patroas. A divertida mulher ria e não entrou mal nenhum no mundo por causa disto, desde logo porque, na conversa com outra utente dos transportes, a espirituosa criatura esclareceu que também se riria se fosse ela a vítima do pícaro trambolhão. "Se não me magoasse, ria-me", garantiu, demonstrando que a capacidade humana para encarar as adversidades com requinte e desportivismo se mantém incólume, alheia ao elogio do medo e aos bichos-papões da pandemia.

Tanta graça a mulher achou no tombo do outro — que por sorte não bateu com a cabeça no vidro da paragem, "senão partia-o, ah-ah-ah-ah" —, tanta pilhéria, que continuou a rir-se durante muito tempo depois do pitoresco incidente: a rir-se sozinha com tão grandes gargalhadas que os passageiros recém-entrados no autocarro, ignorantes do esbardalhanço do outro, hão-de ter pensado que a velha era chaladinha de todo ou que o confinamento não lhe está a fazer bem nenhum ao toutiço. Tanto assim é que, ao contrário de certo poema, ninguém mais no autocarro sorriu por ver a velha a rir sozinha, nem os outros  riram sem ser por nada. Creio que só eu e a senhora dos olhos azuis estávamos sinceramente divertidos a bordo do 207 — e não necessariamente pelos mesmos motivos.


sexta-feira, 5 de março de 2021

Especialista em felicidade









Um pasquim cá da terra, de cujo nome não quero lembrar-me, entrevistou esta semana um ser humano que identificou genericamente como um "especialista em felicidade". Bem-aventurada criatura! É preciso ser-se muito alienado para reivindicar (ou aceitar) uma designação tão distante da realidade de quase toda a gente, e não ter contas para pagar nem infiltrações no tecto da casa de banho, nem pó acumulando-se nos cantos da casa, nem parentes falecendo, nem filhos deprimidos, nem fungos nos pés, nem dores nas articulações, nem cólicas, nem ter de passar os dias encerrado em casa, nem estar jamais com a veneta, nem ver os velhos dormindo à porta das agências dos bancos ou os novos pobres na fila para a refeição da caridade, nem, enfim, viver no mundo real e concreto onde os outros humanos apenas se esforçam para ir, ao menos, sobrevivendo, tão distantes da felicidade como de Marte ou do asteróide B612. Também há-de ser preciso demasiada credulidade para acreditar em especialista em felicidade ou em mestres em vida eterna, só para dar outro exemplo estúpido, ou ainda em treinadores de mindfulness, mas parece que há sempre gente capaz de engolir qualquer patranha e de estar de bem com os próprios enganos, de algum modo como se a vida e o mundo se resumissem ao ínfimo perímetro dos seus umbigos sem cotão. 

quarta-feira, 3 de março de 2021

A maldição de Alberto Manguel

Lembrei-me há dias, enquanto assistia a uma das conversas da edição deste ano do festival literário Correntes d'Escritas, de uma crónica que redigi para um site brasileiro (creio que em 2015), a qual tem por principal protagonista o escritor argentino Alberto Manguel. Publico-a hoje no Teatro Anatómico, tantos anos depois de ter superado a alegórica maldição a que ali aludo, se calhar por já não fazer mais do que escrever, escrever, escrever (ou porque deixei de acreditar na possibilidade de vir a editar as crónicas que outrora escrevi). Que o Alberto Manguel possa perdoar-me, pois, o atrevimento, a indiscrição e a prodigalidade.


O acaso fez com que, há alguns meses, viajasse da ilha da Madeira para o Porto na companhia do escritor argentino Alberto Manguel (autor, entre outros, do genial Dicionário de Lugares Imaginários). Julguei, na altura, que se tratara de uma coincidência feliz. Agora, porém, já não estou muito certo disso, e temo que Manguel me tenha amaldiçoado. 

Tínhamos participado, eu e ele, no último dia do programa do Festival Literário da Madeira, onde o ouvi falar de um Sísifo-escritor, feliz apesar de infinitamente condenado a rolar até ao cimo da montanha a pedra sempre imperfeita da sua obra. Também contou episódios do tempo em que leu os livros que Jorge Luís Borges, cego, já não conseguia enxergar, e em que explicava os filmes que Borges não conseguia ver. No final, questionado sobre o destino da sua biblioteca, invocou o exemplo dos apicultores: quando eu morrer, disse, quero que alguém avise os meus livros de que eu já não volto. 

Depois Manguel, cansado de circular pelo mundo sem ir a casa durante semanas ou meses, pediu à organização do festival que antecipasse a sua viagem para Madrid. Por causa disto, Manguel viajou de madrugada para o Porto no mesmo voo que eu tomaria, ainda com tempo para que eu lhe mostrasse um pouco da minha cidade (que ele apenas conhecia dos cartões postais que uma amiga lhe enviava). A manhã de abril estava soalheira e cálida. A despeito do sono feroz que o assaltava a cada passo, Manguel passeou pelas ruas e quis tomar um cálice de vinho do porto numa esplanada da Ribeira, diante do Douro em cujas águas o sol coriscava festivamente. 

Agora, tantos meses depois de Abril, recordo sobretudo a nossa conversa, de madrugada, no ainda deserto aeroporto da Madeira, enquanto tomávamos café e esperávamos pela hora do embarque. Falámos sobre futebol, cujo fascínio ele não consegue entender, e, claro, sobre livros, aqueles que me influenciaram e aqueles que escrevi – que são talvez demasiados, expliquei, e que em alguns casos podia ter-me abstido de publicar. 

Lento como um sábio, Manguel repetiu uma frase que, creio, certa editora lhe dissera uma vez: enquanto escrevia, devia imaginar que tinha sobre o ombro um pequeno diabo perguntando-me se era mesmo necessário fazer aquilo, escrever mais um livro de que o mundo não tomaria conhecimento. Eu tinha, em Fevereiro, começado a trabalhar naquilo que julgava ser o meu próximo romance. Em Abril, a escrita avançava bem, apesar da falta de tempo, e já conseguia imaginar que o livro ficaria pronto em poucos meses. De então para cá, porém, tudo me tem afastado desse projeto e quase não voltei a escrever. 

Tenho, até agora, justificado a falta de produtividade literária com a falta de tempo e de disponibilidade mental, naturais tendo em conta as obrigações profissionais que assumi no último ano. Mas, quando me recordo daquilo que o escritor argentino me disse, pergunto-me se a minha esterilidade literária não será resultado de uma maldição – da maldição de Alberto Manguel. E se, Sísifo resignado, não terei de desistir de carregar montanha acima a pedra imperfeita de mais um livro.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Casa de Campo









Tenho há muito tempo escrito num pedaço de papel — na verdade um ficheiro word, mas os factos são tão absolutamente desinteressantes que me atribuo o direito de submetê-los à minha tolice — o título de um romance do José Donoso: El Obsceno Pájaro de la Noche. Julgo tê-lo lido numa crónica talvez de Vila-Matas ou de Javier Marías, talvez de Manuel Vilas ou de Rodríguez Ribero (gente cuja opinião considero, portanto) e de a simples formulação daquelas palavras me ter chamado a atenção, simultaneamente convocando a poesia e libertinagem. Anotei-o por ter intenção de adquirir o livro assim que me fosse possível, mas percebi, entretanto, que existe uma edição portuguesa de Casa de Campo, outro dos romances do escritor chileno (edição Cavalo de Ferro). Prático como sou, requisitei-o a essa ficção a que chamam menino jesus, o qual, na última saturnália, mo ofereceu embrulhado em papel de seda. Estou agora a lê-lo e é toda uma festa, que aconselho a quem aprecie grande literatura com um toque de humor negro, devassidão e sátira social. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Feira de livros e enchidos








Entrei esta manhã, por breves instantes, numa dessas grandes superfícies comerciais onde a venda de livros foi agora desconfinada (ou passou a ser permitida, criando uma situação de concorrência desleal com as livrarias a sério, que têm de continuar fechadas). Em lugar de destaque, reparei no top de vendas do estabelecimento, pelo qual se fica com uma ideia aproximada do tipo de literatura (chamemos-lhe assim por mera comodidade) que ali se comercializa. Não referirei nenhum dos dez títulos que constavam da lista, pois já sabeis que não tenho o hábito de fazer publicidade gratuita a produtos que me não agradam. Mas sempre me atrevo a perguntar: foi para vender enlatados daqueles que andou tanta gente séria a protestar? Mal comparando, o papel higiénico que em alguns hipermercados substituiu temporariamente os livros apresentava, creio, algumas vantagens: o material é mais suave e, portanto, mais adequado à função.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Talvez consiga comprar caramelos










A imagem acima desta linha foi captada há exactos 25 anos, durante a apresentação oficial do meu primeiro livro, "O Homem que Julgou Morrer de Amor / O Casal Virtual", na velha livraria Lello (antes de se ter transformado num vistoso caça-níqueis). Nela figuram, para além deste esmorecido indivíduo, então cheio de certezas e de sonhos insensatos, o livreiro Antero Braga, o escritor Mário Cláudio e a editora Joana Caspurro, da Campo das Letras.

Algumas pessoas, mais amáveis do que o vulgo, tendem a considerar que, em virtude do evento que a imagem documenta, se assinalam nesta data os primeiros 25 anos da minha actividade literária. A conclusão é factualmente correcta, ainda que, quando me detenho a pensar no assunto, me pareça constituir uma espécie de falácia: ao fim de um quarto de século e de quase trinta obras publicadas, cada novo livro sai da gráfica tão desamparado como o primeiro e terá ainda menos leitores do que o anterior. Para além disso, e se um tipo se detém a fazer contas à vida, terá de concluir que os meses ou anos que dedico à criação de cada novo livro terão como retribuição a côdea de umas escassas centenas de euros, as quais, hoje como então, não me permitem pagar, sequer, as contas da água, da luz e do telefone, para não falar do almoço e do jantar, do copo de vinho, do vício das cigarrilhas e dos livros. Ao contrário de há 25 anos, porém, não disponho hoje de uma profissão ou de um mero emprego cujo exercício regular me permita manter sem grandes sobressaltos o devaneio, a inconsequência e a insensatez da literatura.

Os mais atentos estarão a par de que, excepcionalmente, sou neste momento beneficiário de uma bolsa de criação literária com seis meses de duração. Embora quase ninguém no seu juízo perfeito considere que esta actividade constitui um trabalho a sério, trata-se de um privilégio raro e provavelmente irrepetível, pelo que procuro honrá-lo levantando-me cedo e escrevendo ao menos alguns parágrafos por dia. Finda a bolsa, porém, voltarei a ser um desempregado — um desempregado com 50 anos de idade, sem profissão e cujo único vago talento consiste em escrever textos que quase ninguém quererá ler, como sucede, desde logo, com estes que publico no Teatro Anatómico. Ou conforme sucederá ao livro que escreverei no âmbito da aludida tença.

A consciência de que não tenho sido capaz de rentabilizar esta actividade permite-me frequentemente pensar duas vezes antes de perder o tempo necessário para redigir um post cujas considerações produzirão um efeito tão insignificante como o de uma gota acrescentada ao oceano. É muito provável, por isso, que esta mesma noção algum dia me imponha também algum tino no que diz respeito à escrita regular de ficção, tendo em conta que os meus livros, aqueles que faço questão de escrever, constituem, no essencial, uma teimosia incapaz de granjear o interesse das escassas pessoas que ainda desperdiçam tempo a ler livros (independentemente da editora que os publique).

Não se trata, sequer, de uma lamúria. Escrever foi das melhores coisa que me sucederam. Tenho a perfeita noção de que ter sido escritor constituiu uma aventura incrível para alguém cujos avós mal sabiam escrever o nome. A literatura —como o jornalismo — permitiu-me experimentar vidas que, à partida, não estariam ao meu alcance e partilhá-las com pessoas que, de outro modo, nem sequer teriam tomado conhecimento da minha existência (sem que daí lhes adviesse, é bem verdade, algum prejuízo considerável). 

Tenho, pois, uma consciência relativamente exacta do que fiz, daquilo que alcancei — e também do que perdi por não ter sido aquilo que as convenções me aconselhavam a ser. Sei o privilegiado que fui ao ser lido, escutado e até respeitado por pessoas muito melhores do que eu, e também por ter podido dar-me ao luxo de recusar situações e compromissos que violavam princípios éticos que me habituei a respeitar. Estou, pois, grato a todos quantos me publicaram e me leram, sobretudo a estes últimos, por terem sido capazes de criar um inexplicável vínculo com obras que, no fundo, escrevi apenas para mim, para me explicar, expandir ou evadir de uma realidade que, a cada ano que passa, vai apertando o seu cerco e impondo a sua lei.

Não sei o que acontecerá a seguir. Ignorava-o há 25 anos e assim continuo. Talvez venha a publicar-se o livro que resultar da bolsa de que sou actualmente beneficiário. Talvez permaneça inédito. Tenho apenas por certo que, findo este encargo, serei um pouco mais velho e um pouco menos enquadrável no mercado de trabalho. As contas, porém, continuarão a cair todos os meses, todas as semanas e todos os dias, cabendo-me pagá-las regularmente, a tempo e horas, conforme é próprio de gente séria. Mas, ao contrário de há 25 anos, não sei agora como irei pagá-las ou de que vou viver. Sendo quase certo que não poderei contar com a minha "actividade literária" para esse fim, talvez consiga usá-la para, ao menos, comprar caramelos, como diziam que fizesse às gorjetas que me davam quando, em criança, me pediam para ir fazer recados à rua, à Prelada e ao Carvalhido, às vezes à Boavista. Caminhando sozinho e menino pelas ruas do Porto, talvez tenha começado aí a imaginar os livros que depois escrevi — ainda estou escrevendo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Um átomo encontra o corpo de um escritor de novelas e decide redigir as memórias — princípio de uma missão impossível

Eis que posso beneficiar, enfim, de algum sossego após as mil atribulações em que desde o início dos tempos me tenho visto confundido, eternamente em bolandas. 

A existência de um átomo não é coisa amena nem descontraída, bem pelo contrário, condenado, como é da nossa condição, a participar em contínuo na grande azáfama da reinvenção das matérias mais vulgares do mundo. Entre ser grão de pó e luz das estrelas, perdi já a noção de quantas substâncias incorporei no decurso do grande tropel do universo, mas não a sua recordação, pois desde o momento inicial tenho impresso no mais íntimo do núcleo a memória de tudo o que hei-de ser até ao momento em que tudo se extinga e volva a ser nada. 

O mais complexo é contá-lo e incluir nisto alguma ordem inteligível. Um átomo não conhece o tempo: existe desde sempre e para sempre — como se, numa comédia, se condensasse o curso da história num único e ínfimo instante, numa palavra mínima que resumisse tudo. Hu. 

Nesta fracção do ininterrupto em que transitoriamente estacionei, insignificante parcela absoluta no corpo de um escritor de novelas, forcejarei, em todo o caso, por dar sentido e continuidade ao que é amálgama e caos. Redigirei as minhas memórias como se, com voz grave de contador de casos, as narrasse a partir do futuro, de um lapso do espaço-tempo que não existe e é apenas amálgama e quantum, eternidade. 

Era uma vez, pois, o início do mundo ou o princípio da impossível missão de me escrever uma biografia decente de um dos seus átomos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Bem-estar animal

Uma rede de supermercados (à qual não farei publicidade grátis) assevera nuns cartazes que o seu leite é o primeiro com certificação de bem-estar animal. Estava-se mesmo a ver que, mais tarde ou mais cedo, também as grandes marcas cederiam à hipocrisia politicamente correcta e passariam a cuidar melhor das vacas do que dos funcionários da linha de caixas.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Carta a quinze jovens leitores

Instigados pelo professor Vítor Fontes, docente de Geografia, quinze alunos de duas turmas do Colégio Paulo V, de Gondomar, leram "Tropel" durante o primeiro período lectivo. Este mês recebi quinze cartas dando conta das impressões de leitura daqueles quinze jovens, as quais me comoveram e impressionaram. Esta é a minha resposta àqueles novos leitores:


Caro professor Vítor Fontes 

Caros e caras Maria Miguel, Catarina, Carolina, António, João, Rita, Beatriz, Filipa, Marta, Maria Sofia, Daniela, Diogo, Guilherme, Miguel e Teresa 

Perdoem-me, antes de mais, que não responda individualmente a cada uma das vossas cartas — que li com toda a atenção e, em alguns momentos, com alguma comoção. Quero que saibam, porém, que cada um dos vossos textos e das vossas reflexões sobre o Tropel constituiu motivo de uma enorme satisfação. Nós, os escritores, escrevemos porque alguma coisa íntima e provavelmente inexplicável nos incita a fazê-lo, mas este processo de partilha só fica completo quando alguém lê o que escrevemos e lhe acrescenta novas perspectivas e novas visões. As vossas leituras foram, por maioria de razão, uma forma de conferir sentido ao livro que escrevi, desde logo por ter podido compreender que cada um de vós percebeu muito claramente aquilo que me levou a partilhá-lo com os leitores: a necessidade de, tendo consciência de um problema do mundo em que vivemos todos, reflectir sobre esse problema, aquilo que o provoca e os efeitos que produz. 

As vossas leituras, e não vos surpreenderá que assim seja, tocam todos os aspectos fundamentais do livro que escrevi e denotam um enorme interesse e um compromisso da vossa parte. Porventura ainda mais tocante foi perceber que o meu livro foi capaz de comunicar e de dialogar mesmo com aqueles que têm a humildade de reconhecer que não eram leitores habituais e que encontraram neste livro um pouco da incrível magia que, um dia, quando eu tinha a vossa idade, me levava a ir para a cama mais cedo para poder dedicar algum tempo à leitura de livros que, de algum modo, se transformaram em parte essencial daquilo que hoje sou como indivíduo e como cidadão de um mundo cada vez mais global e onde, talvez mais do que nunca, seja necessário o nosso envolvimento empenhado, esclarecido e persistente. 

Partilhei já com o vosso professor o meu profundo reconhecimento por quantos, como ele, se dedicam à tarefa de semear livros para colher, com alguma sorte, uns poucos leitores que se dediquem a ler e que, por essa via, se transformem em pessoas mais esclarecidas e mais capazes de intervir no seu contexto social, e de fazer escolhas mais criteriosas e mais ajustadas — mais justas. Quero que saibam que é um caminho difícil e no qual, muitas vezes, se sentirão como perdidos e um pouco sós, conscientes de que a maioria dos cidadãos não sabe, não quer saber e é indiferente àqueles que procuram agitar a letargia reinante e compreender o mundo em redor. 

Enquanto leitores, cada um de vós passou, assim, a fazer parte de uma espécie de sociedade quase secreta de homens e de mulheres com acesso ao segredo mais profundo dos livros, nos quais, com algum critério, nos é possível colher os ensinamentos e as ferramentas que nos permitirão compreender melhor o mundo, viajar por locais que nenhuma companhia aérea visita, conhecer realidades únicas, desenvolver a criatividade, saber mais e viver mais plenamente. Um dia, e se isto continuar a fazer algum sentido, talvez cada um de vós seja também capaz de partilhar este segredo e de ajudar outras pessoas a descobrir o caminho que vos trouxe até ao meu humilde Tropel ou a outro livro qualquer que tenha sido capaz de conversar convosco e de vos revelar outros mundos e outros livros. 

Têm razão. Tropel é, antes de mais, sobre o medo, a insensatez e a intolerância deste mundo e de nenhum universo paralelo da ficção. Cada um de nós tem ou teve algum dia um familiar ou um antepassado remoto que, perante uma situação desesperada ou apenas por ambicionar uma vida mais tranquila, rumou a outros países e continentes, ou apenas a outra cidade, à procura de alguma coisa melhor. É um direito que nos assiste a todos: aos que, um dia, vão necessitar de ser estranhos ou estrangeiros, e aos que, não o necessitando, continuam a ser cidadãos livres e, como tal, habilitados a viver a vida conforme nos pareça melhor e desde que não prejudiquemos a vida de ninguém. 

Os verdadeiros caçadores deste mundo não são as desamparadas personagens do meu livro, mas aqueles que, com poder para isso, impõem a outros seres humanos os limites, as dificuldades e o desespero que os leva a atravessar fronteiras e mares em condições de absoluto risco, morrendo muitas vezes na travessia e sem conseguirem alcançar o sonho de uma vida mais plena, tranquila e livre. 

Escrever ou ler aquilo que outros escrevem é parte deste exercício de liberdade. Ser lido por leitores como cada um de vós é algo mais do que isso. É um absoluto privilégio. 

Entendo ainda melhor, ao ler cada uma das vossas cartas, o quanto devo estar grato a quem, um dia, me mostrou este caminho que agora também vocês começam a desbravar, aos editores que publicaram os meus livros e, acima de tudo, a cada uma das pessoas com as quais pude conversar em silêncio através daquilo que escrevi. 

Profundamente grato pela atenção que cada um de vós dedicou ao meu livro, que agora é nosso, subscrevo-me com o desejo de que nos voltemos a encontrar muito brevemente, seja pessoal e fisicamente ou graças à extraordinária invenção humana da escrita, que permite que dialoguemos, troquemos ideias e reflictamos em conjunto, e não apenas quando tenhamos a felicidade (ou a infelicidade) de viver no mesmo tempo histórico dos nossos interlocutores. Os livros e a palavra escrita permitem-nos conversar também com aqueles que viveram muitos séculos antes de nós e com quem, no futuro, ler aquilo que hoje escrevermos. 

Um abraço para todos do

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

"O medo vai ter de voltar"

Num jornal da internet, de cujo nome não quero lembrar-me, leio o título de uma entrevista concedida por um cientista às voltas com a pandemia, na qual, tanto quanto consigo entender pelas poucas linhas grátis que posso ler, se defende o medo — o regresso do medo. De preferência, suponho, esse medo há-de ser medieval e ignoto, mesquinho, subterrâneo, vil e daninho. Um medo opressivo que nos maniete e paralise, e nos impeça de pôr o nariz fora da porta; que nos faça desconfiar do outro, de todos os outros, invariavelmente suspeitos de disseminarem a doença, o caos, o descontrolo ou a loucura (tudo palavras que naquele jornal frequentemente se usam para descrever a situação presente).

Há cerca de um ano que os órgãos de comunicação social não fazem mais nada: semeiam o medo às mancheias e procuram que medre e cresça viçoso. A primeira colheita foi extraordinária. Aterrorizados pelo alarme diário de notícias da pandemia, os portugueses correram a fechar-se em casa como ratos assustados. Comoviam-se com a poesia dos telejornais, aplaudiam os médicos à janela e cantavam Kumbaya. Em algum momento, depois disso, o alívio de perceberem que o mundo não havia acabado num sopro levou os portugueses (e não só) a desconfiar do logro e da manipulação de que haviam sido vítimas. Como na história do Pedro e do Lobo, no dia em que o animal chegou já ninguém acreditou nos avisos do mentiroso. Agora que morrem mais de 200 pessoas por dia à custa da nova doença, os portugueses não querem saber. Talvez, ameaçados pelo Estado, fiquem em casa. Mas fá-lo-ão contrariados.

O medo aflige-me. E revolta-me que alguém o defenda e procure instigá-lo, usando-o para controlar e amesquinhar cidadãos livres e adultos. Prefiro viver num mundo em que, em vez de limitadas pelo medo, as pessoas façam escolhas responsáveis e informadas; no qual os cientistas contribuam para uma comunicação clara e objectiva em vez de passarem os dias a acrescentar ainda mais ruído ao descomunal chinfrim que há um ano nos atordoa. 

O medo vai ter de voltar? Antes regressem o bom senso, a cautela e o respeito pelo bem-estar do outro.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Mussolinis de Carnaval

Um dos mais extraordinários insultos da vasta e rica colecção do capitão Haddock é "Mussolini de Carnaval", surgido no álbum Tintim e os Pícaros. Quase cinquenta anos depois (e quase oitenta desde o fim do pesadelo fascista italiano), a expansão da nova extrema direita (europeia e não só) tem assentado num conjunto de figuras que fazem simultaneamente lembrar a metralhadora de insultos da banda desenhada de Hergé e os seus mussolinis de Carnaval — embora esta característica não deva fazer perder de vista o perigo que representam; Hitler e o duce original não primavam também pela compostura ou pela circunspecção, mas a humanidade demorará muito a recuperar de todo o mal que engendraram.

Semiótica à parte, a estratégia dos novos fascistas — que têm a particularidade de constantemente tentarem negar o que são — tem, assim, passado pela criação de um circo mediático assente, por um lado, no pântano das redes sociais onde medram todos os miasmas sociais (e ocasionalmente uma rara flor) e, por outro, numa torrente de insultos e mentiras destinada a provocar a reacção dos visados e,  desse modo, a aumentar a visibilidade e repercussão de qualquer iniciativa ou traque político. Curiosa e lamentavelmente, as forças democráticas têm caído de forma demasiado dócil nesta armadilha, amplificando de modo estridente o habitual berreiro destes fascistas (cujos nomes me recuso a reproduzir).

O novo trogloditismo político tem ainda beneficiado em grande medida da atração do novo jornalismo (chamemos-lhe assim por facilidade terminológica) pelo chavascal, pelo ruído, pelo barulhinho inconsequente — e, já agora, pelo próprio abismo. Os ditos repórteres correm em rebanho e babam-se com as mais rasteiras manifestações dos mussolinis de carnaval, amplificando a imundice e submetendo-se, primeiro, à agenda dos fascistas e, logo a seguir, ao insultos que os fascistas lhes dirigem. No dia seguinte, não obstante, repetem tudo outra vez, com uma candura própria de alguém acabado de sair do infantário e que não tenha a noção exacta do tipo de sentimento que um fascista nutre pelo jornalismo livre, democrático e independente.

Não é fácil evitar que indivíduos boçais e ignorantes acreditem em tudo o que lhes dizem, mesmo quando lhes digam hoje o exacto oposto daquilo que ontem haviam sido convencidos a tomar por verdade absoluta. Trata-se de um problema de ordem religiosa e, como se sabe, não é possível modificar ou anular as crenças alheias recorrendo a argumentos racionais, pelo simples facto de a razão não ser aqui tida nem achada. Os jornalistas, porém, bem como os órgãos de comunicação social que representam e os líderes políticos dos partidos democráticos, podiam dar-se ao respeito e fazer das acções de campanha dos fascistas uma cobertura que se limite ao conteúdo e ignore o ruído criado com o único propósito de criar as condições para pôr em causa as liberdade e garantias em que a prática jornalística tem assentado. Ficava-lhes bem e evitavam que, um destes dias, correndo a coisa mal, possam vir a ser acusados de conivência com o próprio fim do jornalismo livre e da democracia ela mesma.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Cem dias de reclusão

Muitos confinamentos depois, diante do posto de vacinação, Manuel Jorge Marmelo há-de recordar a tarde remota em que a prima espanhola o levou a conhecer o gelo. Tratava-se, com efeito, de neve, farrapos branquíssimos de neve caindo no espinhaço rochoso de uma colina alentejana. A prima ao volante (que não somos de discriminações) e os quatro marmanjos embasbacados a ver os flocos a cair diante das janelas do automóvel, acumulando-se nos cabeços e nas folhas dos carvalhos e das azinheiras, no caminho de pedras que depois subimos a pé até ao ponto mais alto do monte. Talvez devêssemos ter ficado fechados em casa, buuuu, mas nunca se sabe se ainda estaremos vivos e saudáveis da próxima vez que nevar em Castelo de Vide depois de um almoço como deve ser.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O frio é psicológico

Indivíduos provavelmente aclimatados em salas demasiado aquecidas costumam garantir que o frio é, no essencial, um estado de ânimo, dependente da disposição do corpo para percepcionar as variações da temperatura. Tendo, por princípio, a concordar com este género de falácia, movimentando-me para além do necessário a fim de manter as meninges quentes. Faço-o, pelo menos, até ao momento em que, empenhado em cozinhar o almoço, dou com o azeite congelado no fundo da sua garrafa e me vejo obrigado a derreter o dourado líquido sob um jorro de água quase a ferver, de forma a preparar o estrugido que há-de receber a chouriça, o tomate, o grão-de-bico, os coentros e o ovo do meu repasto. Depois sento-me para almoçar e a calidez da refeição descongela-me os principais receptores nervosos, ao ponto de experimentar uma sensação de relativo bem-estar, para o qual concorrem também, e muito provavelmente, os calorosos espíritos do tinto alentejano. O telefone indica a possibilidade de nevões. Depois saio à rua para tomar café e vejo uma família que fuma inopinadamente numa esplanada, indiferente à borrasca gelada, ao vento glaciar e aos efeitos do vórtice deslocado do seu eixo, dando razão aos sobreaquecidos pensadores para os quais o frio quase não passa de uma mania ou uma fraqueza do espírito. Subo à velha muralha exterior da vila e sinto o vento, vejo o céu encastelar-se de tons escuros e, acto contínuo, corro a fechar-me onde o ar condicionado me mantenha quente, pensando, como diz o outro, que o frio é psicológico mas é o caralho. O daqui é concreto e basta. Tenho uma garrafa de azeite que o demonstra cientificamente.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Três milhões de passos

De acordo com uma geringonça instalada no meu telemóvel, e cuja fiabilidade ignoro, dei nos últimos catorze meses algo como três milhões de passos, o que equivalerá a mais de dois mil e quinhentos quilómetros percorridos (a pé, bem entendido). Trata-se de uma distância espantosa, que me permitiria visitar diferentes continentes palmilhando as mais diversas estradas e caminhos do planeta. Poderia, se o tivesse feito, visto gente mais exótica e montanhas mais impressionantes do que aquela que agora me envolvem, ou experimentado temperaturas mais rigorosas, mas dificilmente me impressionariam mais esses homens e essas mulheres, essas colinas, do que me fascinam ou intrigam as vertentes e as pessoas com as quais mantenho o escasso trato comum da vila quase deserta. Se excluir as variantes da aparência, os indivíduos são, no essencial, iguais em toda a parte, generosos e soezes, loucos e sérios, serenos e furiosos, tal como, sob as feições visíveis da paisagem, tudo é apenas matéria e pedra. Já sobre os assuntos do momento não tenho grande coisa a declarar. Na vila quase não tomo conhecimento das circunvoluções do mundo e foi por mero acidente que soube da invasão dos energúmenos ao congresso dos EUA. Espanta-me tanto como a cor verde nas folhas das árvores ou o branco da geada na copa das oliveiras.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Madrugada

Não sei se é o frio que me acorda, ou o pacífico silêncio absoluto das ruelas do antigo bairro judeu. Desperto demasiado cedo e percebo a alvorada infiltrando-se pela frincha da portada, os primeiros rumores distantes da vila, a rósea luz nascente revelando os campos que a branca geada cobriu. Imagino um poema que estará esquecido quando passar a manteiga no pão de ontem. Saio para encher o corpo deste gelado ar puríssimo e observar de perto os perfeitos cristais de gelo que a noite depositou nas pedras dos muros, na terra, na erva crescida em torno das oliveiras, no pavimento da estrada municipal. Não sinto o frio enquanto persigo os badalos dos borregos, nem mesmo me incomoda o vento Leste enquanto o sol mal se firma acima do horizonte ancho de montanhas suaves.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Um ano bestial

Os vinte indivíduos mais ricos do planeta viram as suas fortunas aumentarem 24% durante o ano de 2020. Parece que também sucederam outras coisas nestes doze meses, mas, muito sinceramente, entendo que devemos iniciar 2021 de uma forma positiva e optimista, sublinhando aquilo que de bom acontece. É, afinal, muitíssimo fácil parecer tão bem-aventurado, empático e cheio de mindfulness como outro tolo qualquer.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Auto (da) comiseração

Chega ao cais o diabo, muitíssimo provocador, e pergunta aos que vão entrando na barca para 2021, todos devidamente vacinados e com selo de garantia anti-covid na testa:

DIABO - Quanta pressa, ó cristão. Para onde julgas que as barcas vão?

INOCULADO DA PFIZER - Para 2021 e o quanto antes, que este ano que finda foi coisa para se olvidar depressa. Já tomei as duas doses do remédio e pretendo agora folgar como um vero barão do império.

DIABO - Vai ligeiro, bom otário, vai avante, que talvez sejas o primeiro a apanhar a nova variante.

INOCULADO DA PFIZER - Que dizeis, mau demónio? Devo também continuar a tomar supositório?

DIABO - Isso que agora tomais, e se assim vos enganais, há-de servir-vos de um grosso. Se não morrerdes do corona, nem de qualquer outro feitiço, haveis de morrer de outra coisa que vos ataque o toutiço.

INOCULADO DA PFIZER - Mil diabos, quanta angústia. Pode um crente quinar depois de se vacinar?

DIABO - Tu lá sabes ao que vais, crédulo de vão de escada. Mas se queres ser imortal desta vida tão precária melhor nem foras nascido dessa tua mãe otária.

INOCULADO DA PFIZER - Mas se cumpri confinamentos, e foram mais de trezentos, e ainda não espichei, não há-de ser por mau olho, ou dos teus comprazimentos, que me hei de agora finar.

DIABO - E usaste a mascarilha, filho duma ruim parelha?

INOCULADO DA PFIZER - E mantive, coisa e tal, a distância social, que ao filho da minha mãe ninguém pilha por ser desleal.

DIABO - Fizeste bem, ó rapaz, que este ano que perdeste de volta já ninguém traz.

INOCULADO DA PFIZER - Dizeis a verdade, demónio, por tudo quanto aqui jaz?

DIABO - A verdade-verdadinha, que eu não brinco em serviço. Quando chegar o ano novo, e a sorte te traga um chouriço, compara-o com o porco todo e logo verás, ó nabiço, que nada te fez imortal, nem te dá vida infinita. Hás de morrer como os outros brutos desta comandita. E se, acaso, não sabes nem suspeitas do veraz, vê lá que o bicho não venha agora comer-te por trás.

INOCULADO DA PFIZER - Quanta desdita adivinhas, satanás, tendeiro infante. Belzebu antigamente não tinha tantas trapaças. Hei-de então perder-me depois de tantas devassas?

DIABO - Se pensas passar a ponte, cuida bem aonde vais. Se o ministro o proíbe e mesmo assim tu te sais, o mais certo é que já estejas nos autos policiais. Essa barca que aí está, se não a estás a ver bem, não é a de 2021, mas só a que vai pró além.

INOCULADO DA PFIZER - Droga, grande diabrete! Que o corno te arrebente e não voltes a azarar. Se nada aqui tem remédio, e o caminho é só um, mais me valia folgar.

DIABO - Cão-tinhoso és só tu, se sofres precocemente. Folga à vontade, valente, que o naco que hoje não comes há de mamá-lo outra gente. E aquilo que hoje não gozas, com medo de ficar doente, há de fruí-lo o demónio, que de todos os mortais é quem vive mais contente.

INOCULADO DA PFIZER - Então e o ano novo? Não é o princípio do fim?

DIABO - Crer em tudo é demência — e nos telejornais... ai de mim! Nem isto é o fim do corona ou do teu ano mais ruim, nem os demónios cornudos, por muito que façam chinfrim, vão arrumar as botas ou desistir outrossim. Mais vale ficar no cais a ver as barcas partir, pois o destino que levam é uma coisa de rir. Quando chegarem de noite e não se vir nova gente, vão saber que o novo tempo é o mesmo de antigamente.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

História de um palerma

Ignoro quando, e se, me ocuparei a escrever uma autobiografia. Mas é provável que o não faça, desde logo por ter em conta o escasso interesse da história que pudesse ser o objecto dessa obra. O título, todavia, já não me falha: será inevitavelmente aquele que encima este post.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Artesanato e uma cabana

Thoreau conta, em Walden ou a vida nos bosques, o caso de um índio errante que, vendo como os brancos ganhavam dinheiro com os seus negócios, se dedicou a fazer cestas para vender. Todavia, quando se apresentou às portas para comercializar o seu produto, ninguém o quis comprar, uma vez que, explica Thoreau, o indígena se esqueceu de que necessitava de tornar as cestas necessárias e valiosas. Devia, pelo menos, ser capaz de conseguir convencer alguém a comprá-las. Leio a história e penso que continuar a escrever é também uma forma de artesanato inútil. Dou voltas à cabeça para, como Thoreau, procurar "evitar a necessidade" de ter de vender os meus tão rebarbativos cestos. Mas não encontro em mim a coragem suficiente para, como ele, abandonar tudo e ir viver numa cabana.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Roupa nova

"Nenhum homem decaiu no meu conceito por ter um remendo na roupa, mas tenho a certeza de que comummente as pessoas têm maior preocupação em andar na moda, com roupas limpas e sem remendos, do que em terem a consciência tranquila".

Henry David Thoreau, em Walden ou a vida nos bosques

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Movimento Champanhe & Caviar

É bem gira a ampla cobertura mediática de que têm beneficiado os empresários que estão a promover o movimento A Pão e Água diante do parlamento e a respectiva greve de fome. Tem dado para inúmeros directos nos telejornais e inúmeras visitas solidárias de líderes políticos de todos os quadrantes, igualmente oportunistas, alguns dos quais, se estivessem no governo, já teriam chamado a força de intervenção para limpar a via pública.

Vejamos: aqueles empresários da restauração, creio que são nove, exigem ser recebidos pelo governo, o qual, se lhes fizesse a vontade, em vez de negociar com os representantes do sector, teria de conceder igual atenção a cada um dos proprietários dos 50 mil restaurantes do país, todos com dificuldades semelhantes. Talvez fosse possível terminar as reuniões lá para 2057, isto se o governo não tivesse também de conversar com os 350 mil trabalhadores do sector, e com os empresários e trabalhadores dos outros sectores, nem todos beneficiários, até agora, dos enormes lucros que permitiram a alguns patrões viver regaladamente, literalmente a champanhe e caviar.

Soube-se, entretanto, que foi exactamente assim que, até aqui, viveram alguns dos grevistas da fome do parlamento. Possuem herdades no Alentejo, aviões, barcos de recreio e alguns dos automóveis mais caros do mundo. E estão no seu direito. O que importava saber é, isso sim, quais os ordenados que, ao mesmo tempo, esses agora tão reivindicativos senhores pagavam aos respectivos trabalhadores; e quantos despediram à primeira oportunidade que a actual crise lhes proporcionou. 

Ouvi, numa televisão, um dos grevistas da fome habituados a champanhe e caviar defender-se dizendo que a manifestação pretende garantir a manutenção do estilo de vida conquistado ao longo dos anos. Mas em nenhum momento pareceu considerar, ao menos, a hipótese de restituir à própria empresa o dinheiro que dela retirou ao longo dos anos a fim de sustentar aquele nível de vida. É muito mais fácil se, como de costume, forem os contribuintes a tapar o buraco. 

Ainda mais engraçado, mas nada surpreendente, é ver os supostos arautos do liberalismo juntarem-se ao protesto e a berrar como possessos, exigindo que o governo ceda gentilmente a todas as pressões e use o dinheiro público para que esta gente ateste os depósitos dos Maseratti. Enfim: sobra-lhes em desfaçatez o que lhes falta em vergonha na cara.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Isto é um assalto

Coincidência ou talvez não, esta foi a última crónica que publiquei na Notícias Magazine, em Maio de 2018. A rubrica foi depois descontinuada, uma vez que o novo grafismo da revista deixava (alegadamente) de comportar a publicação de crónicas. Passados dois anos e meio, e existindo curiosidade, é uma questão de abrir a revista e ver.


No início do mundo, e durante muito tempo, a terra e todas as coisas que sobre ela havia não tinham dono nenhum. Mas depois alguns homens, os mais fortes ou os mais pérfidos, inventaram a violência como forma de tomar posse – e o registo de propriedade para oficializar o esbulho. De então para cá, aquilo que pertencia a todos passou a servir para que alguns ficassem mais ricos e mais poderosos do que os outros. 

A apropriação da terra e daquilo que nela existia – incluindo, durante muito tempo, os seres humanos que tinham o azar de lá estar –, e a cadeia de valor acrescentado que a propriedade gerou, constituíram, assim, uma espécie de génesis da civilização ocidental e do capitalismo. Não foi o melhor dos começos: filósofos como Santo Ambrósio, São Basílio Magno ou Pierre-Joseph Proudhon consideraram mesmo que a propriedade constitui um roubo, igualmente praticado por monarcas selvagens e pelo clero, que nem sequer se coibiu de lucrar alarvemente, e durante vários séculos, com a escravatura. 

Os autores do assalto não se limitaram, todavia, a prosperar com ele. Criaram também mecanismos legais e éticos capazes de impedir que outros fizessem o mesmo. O Marquês de Sade explica-o de modo cristalino: «O roubo só é punido porque viola o direito de propriedade, ainda que este direito tenha na sua origem nada mais do que o próprio roubo». 

Quase ninguém se atreve, pois, a lesar um grande proprietário, nem sequer ao abrigo do adágio segundo o qual «ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão». Não faltam, todavia, exemplos de empresas e pessoas que continuam a apropriar-se de bens, recursos e propriedades que, sendo do Estado, deviam pertencer a todos os cidadãos. Beneficiam os usurpadores, para isso, da corrupção e/ou conivência de políticos e funcionários, e de figuras jurídicas tão burlescas como a usucapião, que parece uma cínica homenagem do legislador aos primeiros selvagens que se tornaram proprietários. 

Embora a desigual distribuição da riqueza gerada ab initio pelo roubo da terra nunca tenha penalizado tantos indivíduos como hoje, o assunto quase não se discute. Entretemo-nos, em vez disso, com as férias dos famosos, os seus romances tumultuosos, as respetivas dietas, a substância dos abraços ou o último rebento da monarquia inglesa – apenas o mais recente de uma longa linhagem de larápios.


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O mocho

Não sei onde, ao certo, se esconde o mocho, em qual das árvores da vizinhança, mas escuto-o muito distintamente nas noites mais amenas do ano. Imagino, por isso, que alguma coisa nos une, a mim e ao mocho, pelo menos o gosto pelo bom tempo, por este Verão atrasado, este Verão de S. Martinho em dia de Santa Matilde da Saxónia e de São Abdias, o autor do livro mais curto do Antigo Testamento, aquele que anunciava a vinda do Messias — quando? Escuto o pio lúgubre do mocho quando o trânsito da cidade se suspende e imagino-o vendo passar os automóveis, perscrutando os semáforos mudando de cor, vigiando as luzes acendendo e apagando nas janelas dos apartamentos e dos chalés da nossa rua (minha e do mocho, bem entendido). Imagino-o piscando o olho vermelho cibernético, exactamente igual ao da ave de estimação de Tyrell, o génio criador dos replicantes de Blade Runner, o qual, no filme, encarna o próprio deus desses seres quase perfeitos, belos, incapaz, todavia, de satisfazer o desejo de eternidade ou sobrevida que as criaturas manifestam. Penso nisso enquanto respiro o ar puríssimo da noite do nosso confinamento, desta vida tão semelhante àquele Novembro do ano de 2019 em Los Angeles: obscura, paranóica e sombria, limitada por esse defeito de programação que talvez nos conceda apenas quatro anos de vida ou quarenta. Mas temos vistos coisas... coisas em que ninguém acreditaria. Naves em chamas no espaço exterior da cintura de Orion, brilhantes como magnésio. As ondas do mar da Foz e a madrugada num bar de marinheiros. Estrelas imensas cintilando no céu da província. Escutamos o pio do mocho da minha rua e sabemos que tudo isto desaparecerá um dia. O trovão virá. É isto a vida.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Um tal Manuel da Cunha

Há quanto tempo não invoco o ungido nome de Enrique Vila-Matas em vão? Pouco importa. Volto agora mesmo a fazê-lo, desde logo porque resgatei hoje das minhas tão empoeiradas estantes o romance Estranha Forma de Vida, no qual, e disto não me lembrava, há um autógrafo do escritor, com o esboço de uma figura de chapéu, dedicando o exemplar: "Para o Jorge, que vive, como todos, una extraña forma de vida". Estranha forma de vida, não se duvide, isto de acumular livros e leituras em vários cantos da casa, abandonando-os para que, décadas depois, se possa redescobri-los quase absolutamente novos, lidos mas esquecidos.

Tomei consciência, mal iniciei a leitura, de que hei-de ter comprado o livro e obtido o autógrafo de Vila-Matas numa sessão de apresentação que decorreu a escassos metros do sítio onde agora resido. O que recordo desse evento é muitíssimo vago, mas, isso sim, que o escritor tinha afivelado uma expressão algo desconfortável, ou que, pelo menos, me gerou algum desconforto. Julgo que já o referi algures num texto qualquer, que não sei onde pára, mas também nesta crónica antiga aludi ao gosto de Vila-Matas pela interpretação das personagens dos seus livros. Ao reler Estranha Forma de Vida, depressa me apercebi de que, naquela sessão em 1995 (creio), o escritor se limitava a passar revista ao público "com a ferocidade própria" do seu olhar, do seu olhar de espião, ou, para dizê-lo de uma forma que se entenda melhor, limitava-se a olhar-nos a todos com a ferocidade própria do olhar do narrador do romance, o escritor ao qual chamam Cyrano (por ter o nariz comprido), o qual decide não voltar a apresentar-se nas suas conferências sem estar disfarçado.

Acresce que Cyrano confessa, logo no início da narração, que costuma plagiar, nas suas conferências, o intelectual português Manuel da Cunha, a cujo suposto livro O Espião da Rua Lisboa são atribuídas as frases constantes da epígrafe do romance. Não existe, obviamente, nenhum Manuel da Cunha que seja ou tenha sido "um romancista de certo nível intelectual embora de baixa estatura, um homem diminuto". É um nome inventado ao calhas, um nome qualquer sem importância, tão anódino quanto possível. Ainda assim, se me retirarem o Marmelo, o meu primeiro e último nomes seriam precisamente Manuel da Cunha. 

Estranha forma de vida esta: ter sempre um livro de Vila-Matas intrometendo-se nas minhas coisas mais comuns.