sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Memória postiça

Li, entre ontem e hoje, Rostos na Multidão, o livro da mexicana Valeria Luiselli que a Bertrand Editora publicou em 2012 em Portugal. Enquanto lia, tudo me pareceu novo, como se de uma primeira leitura se tratasse. Procurando no blogue, acabo, todavia, de confirmar que havia lido o livro em 2012, no primeiro semestre, e que o inclui entre as minhas 15 melhores leituras daquele ano (no terceiro lugar). Mas não guardei disto qualquer memória própria. Fico inquieto. Percebo que já não virá longe o dia em que aquilo que escrevi no blogue será a minha única ligação com a realidade e com o passado; e que o Teatro Anatómico será, então, apenas uma memória postiça e muitíssimo incompleta, o fumo da cigarrilha dissolvendo-se no nevoeiro.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Contar ao mundo

Nenhum dos principais meios de comunicação social portugueses escreveu uma noticiazeca que fosse  a propósito da exposição "Tell the world about us", do norueguês Rune Eraker, patente desde 13 de julho no Centro Português de Fotografia. O conjunto de imagens exibidas, assim como as histórias que revelam, são, todavia, matéria de interesse público, ao qual acresce a qualidade estética e artística das fotografias.

A escassa divulgação da exposição (creio que só o Jornal de Negócios lhe dedicou alguma atenção) pode ser atribuída a um de três motivos:

- os jornalistas estão distraídos;
- os OCS esqueceram aquela que devia ser uma das suas mais nobres funções;
- o Centro Português de Fotografia não dispõe de um serviço de assessoria de imprensa que faça os telefonemas necessários para que os senhores funcionários dos órgãos de comunicação social descubram o "interesse jornalístico" daquilo que está debaixo dos seus mui empertigados narizes.


sábado, 24 de agosto de 2019

Rua do Mestre Jorje

Certas coincidências são maravilhosamente inexplicáveis.
Quando escrevi Uma Mentira Mil Vezes Repetida, imaginei que Oscar Schidinski se havia abrigado  por três noites em Castelo de Vide, "numa casa de criptojudeus da Rua do Mestre Jorge" (ou Jorje, conforme indicam as placas toponímicas nos dois extremos do casario). Apenas conhecia a rua de passagem e estava longe de imaginar que viria a ser ali uma das minhas moradas.

 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Justino (ou a nova idade das trevas)
















O anúncio classificado do Sr. Justino, publicado numa das edições desta semana do Jornal de Notícias, não é, em si mesmo, um problema. Em todos os tempos houve, há e haverá gente ignorante e supersticiosa. A grande novidade reside no facto de estas pessoas terem perdido a vergonha de serem o que são e de até fazerem questão de alardeá-lo, mesmo recorrendo a algo tão fora de moda como um anúncio classificado na imprensa escrita, num momento histórico em que qualquer rede social garante muito maior audiência para qualquer dislate que se queira proclamar. O atrevimento não espanta, porém. No tempo em que vivemos, mesmo os energúmenos mais ignorantes podem aspirar a ser presidentes de um país grande.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Entre aspas

No conto O Imortal, que abre O Aleph (de 1949), Jorge Luis Borges escreveu que "se diz entre os etíopes que os macacos deliberadamente não falam para que não os obriguem a trabalhar". 
Gosto muito da frase e nem sequer é a primeira vez que aqui a cito.
Reparei entretanto, ao reler os Contos Argentinos que Borges organizou para a coleção A Biblioteca de Babel, que o primeiro conto dessa colectânea, Yzur, de Leopoldo Lugones, publicado em 1906, inclui a seguinte passagem: ..."os naturais de Java atribuíram a falta de linguagem dos macacos a abstenção e não a incapacidade. Não falam, diziam, para que não os façam trabalhar".
Na introdução que escreveu para os Contos Argentinos, Borges sublinha "a influência de Edgar Allan Poe e Wells" no conto de Lugones. Não me recordo, todavia, de alguma vez ter lido qualquer referência às influências de Leopoldo Lugones na obra de Borges, a quem, verdade seja dita, a mais elementar decência nunca permitiu que alardeasse uma originalidade inatacável. Numa entrevista à RTA, em 1985, quando o jornalista comenta que esteve a reler a sua literatura, Borges interrompe-o. "A minha literatura entre aspas...", diz. E mais adiante: "Eu não gosto do que escrevo".

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Devia ser obrigatório

Devia ser obrigatório afixar a crónica de hoje do Ricardo Araújo Pereira, na Visão, em todos os locais públicos de todos os países, e publicá-la nos manuais escolares, e servi-la com a sopa às criancinhas; e enfiá-la depois pelo bucho dos adultos que ainda encontrassem motivos para continuarem a ser idiotas racistas e intolerantes.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Uma pequena morte

Recordo o sonho de modo vago e confuso: numa sala que não sei localizar, o chão estava pontilhado de aves mortas. Os pássaros, muito coloridos e predominantemente vermelhos, e disto lembro-me com clareza, lançavam-se em vôos rápidos de encontro a uma vidraça, um de cada vez, o que fazia cogitar que se suicidavam de modo deliberado e não por um qualquer acidente ou equívoco. De manhã, quando acordámos, havia um pequeno pardal cinzento tombado no chão do terraço, evidentemente morto como um sonho que não voltará a alçar vôo.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Tempo Contado

O José Rentes de Carvalho, a quem tenho o gosto de ter abraçado, como amigo, uma mancheia de vezes, começou a escrever um blogue em 2007, quando a maior febre da blogosfera, e a mais inocente, havia já passado. Pelas minhas contas, o José Rentes está quase a fazer 90 anos e constato que continua a escrever quase todos os dias, e de modo admirável, lá no seu Tempo Contado, provavelmente indiferente a uma série de coisas que a mim me amofinam ainda bastante, mas sobretudo isso, vivendo e escrevendo com a tranquilidade que suponho só estar acessível a quem ignora a pressa e o fascínio das vaidades transitórias. É um exemplo, o José Rentes; um herói de carne e osso a quem posso admirar sem cuidado ou moderação. Ainda havemos de voltar a abraçar-nos muitas vezes.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Autopsicografia (por interposta pessoa)

O autor imagina que aos quarenta e oito anos um homem deve chegar àquele encontro consigo mesmo no presente, porque não há futuro. Vendo aproximar-se o fundo do funil, percebe que a vida não é ilimitada e então é preciso se dar ao máximo a cada coisa, dentro dos limites de cada um. Criar no limite mesmo o ilimitado.
— Só canto as músicas que gosto — declara João.

Do conto "O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro", de Sérgio Sant'Anna

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Ministério das mulheres públicas


Os magistrados do Ministério Público estão hoje em greve. Protestam contra a forma como o Estatuto do MP está a ser revisto, questionando a alegada introdução de normas que fragilizem a sua sacrossanta autonomia. No mesmo dia foi conhecida a decisão de uma procuradora da Amadora que, chamada a pronunciar-se sobre a agressão e o insulto a um agente da PSP - protagonizados por dois energúmenos alcoolizados, um dos quais chamou "filho da puta" ao polícia -, considerou que a expressão chula não tinha a intenção de ofender, "funcionando antes como um grito de revolta". Talvez fosse interessante saber o que consideraria a magistrada se o desabafo lhe fosse dirigido a ela. E o que acha o piquete da greve sobre o entendimento, a autonomia e o juízo da colega magistrada da Amadora.

quinta-feira, 21 de março de 2019

A maldição de Marcos Sacatepecuez

Marcos Sacatepecuez, o escritor belizenho, é apenas uma personagem obscura do romance "Uma Mentira Mil Vezes Repetida". A seu respeito se diz, a dado passo do enredo, que estava amaldiçoado, desde logo porque, "enquanto viveu, os seus livros foram publicados por várias editoras europeias, as quais, por coincidência ou má sorte, acabavam invariavelmente por declarar falência".

Tratava-se, bem entendido, de uma ironia sem pretensões, a qual aludia ao facto de algumas das editoras que outrora publicaram livros da minha autoria terem acabado insolventes e encerradas, naufragando num mar de papel e tinta que não se vendeu por não interessar a quase ninguém.

Não sendo supersticioso, não posso deixar, contudo, de notar como o livro continua vivo e, mais do que isso, a contaminar a realidade. Soube recentemente, durante o festival Correntes d'Escritas, que a alemã A1, única editora europeia que publicou "Uma Mentira Mil Vezes Repetida", declarou falência no ano passado. Soçobrou e não há nada a fazer, excepto, talvez, tentar não voltar a desassossegar o suave remanso de capas coloridas e textos de auto-ajuda em que o mercado editorial parece navegar com maior desafogo.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia da Mulher e da hipocrisia de género

O costume. A cada 8 de Março se repetem os mesmos discursos de sempre e as frases feitas sobre, entre outras coisas, «a igualdade das mulheres». Como sou do contra, defendo todos os dias, e de um modo amplo, a igualdade dos seres humanos, independentemente dos pormenores epidérmicos e morfológicos que nos distinguem. Tudo o resto é conversa para manter o pagode entretido a olhar para a árvore (enquanto a floresta arde).

sexta-feira, 1 de março de 2019

É Carnaval, o forrobodó pode continuar

Há três semanas, talvez nem tanto, o Jornal de Notícias deu grande destaque a uma notícia que revelava o preço (excessivo) do automóvel ao serviço do presidente da Câmara Municipal de Ovar. Esse indício de despesismo levou até o jornal a dedicar um trabalho especial aos automóveis que os políticos conduzem. Curiosamente, o mesmo jornal não dedicará qualquer notícia ao custo das páginas especiais sobre o Carnaval de Ovar que tem publicado esta semana, e que serão pagas, imagine-se, pelos cidadãos de Ovar (os mesmos que pagam o automóvel do presidente). É normal. Nenhum canal de televisão noticia quanto custam os looongos programas de sábado e domingo à tarde, pagos a peso de ouro pelas autarquias de todo o país. O despesismo só é notícia quando a despesa pública não constitui receita dos órgãos de comunicação social.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A ingratidão dos médicos portugueses

O bastonário dos Médicos, que é também o líder informal da oposição em Portugal, reagiu de modo previsível à notícia da contratação de jovens médicos portugueses pelo governo galego. Criticou o Estado (que pagou a formação daqueles médicos) em vez de criticar a usura e a ingratidão de quem, tendo sido formado à custa dos contribuintes portugueses, vive para escarrar no prato onde comeu. O bastonário também podia ter aproveitado para anunciar medidas corporativas que prevenissem o desperdício do dinheiro público com a (longa e cara) formação de médicos que não estão disponíveis para cuidar da saúde dos portugueses. Mas dizer mal do Estado e do Governo é sempre muito mais fácil e garante automaticamente uma floresta de microfones sempre disponíveis para gravar acriticamente tudo aquilo que Miguel Guimarães arrota.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Breakdance, modalidade olímpica

Visto que é cada vez mais difícil distinguir as notícias falsas das verdadeiras, reagi com moderação ao anúncio, algures, de que o breakdance passará a ser modalidade olímpica no ano de 2024, a par do surf, do skate e da escalada. Hoje, todavia, voltei a encontrar a notícia em jornais em papel, supostamente sérios. E fiquei (um pouco mais) parvo.

Nada me move contra o breakdance (cheguei, aos 14/15 anos, a ser capaz de executar algumas habilidades) nem contra a introdução de novos desportos no programa olímpico. Mas, francamente, não percebo os critérios. E por que não o ballet clássico? Ou as danças latinas?

Minto, porém. Percebo muito bem o critério do Comité Olímpico, que se esforça apenas para parecer moderninho e práfrentex (como se dizia no calão do meu tempo). Acolhe o breakdance, mas exclui o hóquei em patins, a pelota basca ou a petanca. E também o squash, por exemplo.

Suponho, pois, que, no mundo autista e semi-virtual em que se movem as pessoas moderninhas, a promoção do breakdance há-de ser uma excelente notícia. Com um pouco de sorte, é possível que Conan Osíris ganhe o Festival da Canção e o seu bailarino consiga, no mesmo concurso, os mínimos olímpicos para estar presente nos Jogos de Paris.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Nem sei o que diga, Zé

Acabo de saber que morreu o José Queirós. Foi com ele a minha primeira entrevista de emprego, vai fazer 30 anos, da qual viria a resultar a minha entrada precoce no mundo do trabalho, na redação de um jornal que o Zé se atreveu a sonhar. O Público que ele ajudou a criar era um projecto condenado ao fracasso, desde logo porque era muito melhor do que o país em que nasceu. Mas o Zé acreditava que o país podia mudar e que o jornalismo de qualidade podia ajudar a mudar o país. Acreditava no trabalho, na honestidade, nos valores éticos e nas pessoas. Enganou-se e creio que, de algum modo, sofria com isso. Agora acabou, Zé. Mas nem sei o que te diga. Eu não te esqueço e vou continuar a sentir a tua falta, a sentir saudades do jornal, do país e do mundo que não vão ser como sonhaste.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O mercado imobiliário

As regras que regem o mercado imobiliário são passíveis de promover grandes injustiças (para já não falar do risco latente da nova bolha que por aí vai inchando). Veja-se o modo como a proximidade dos grandes eixos viários, aquilo a que se designa pela expressão "bons acessos", é objecto de uma insensata valorização. Conheço gente bastante decente que, por causa disto, esta semana passou a viver nas traseiras de cartazes do Nuno Melo, do Rui Rio, do Santana Lopes e do André Ventura em tamanho gigante. Ninguém merece. A despeito dos bons acessos, das vistas desafogadas e da proximidade dos transportes públicos, este é um daqueles pormenores que deviam dar direito a desconto no IMI.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Como num conto de Cortázar

Creio recordar-me de um conto de Cortázar, talvez Manuscrito hallado en un bolsillo, que fala das pessoas que desaparecem misteriosamente no metropolitano de Paris, cujo "esqueleto mondrianesco" parece especialmente calhado para que uma pessoa se perca nele, para que, após penetrar na penumbra dos seus túneis, depois já não se volte a sair, tragado por um mistério qualquer, ou por um abismo. Li hoje que algo semelhante tem sucedido no metro da Cidade do México, onde, nos últimos quatro anos, pelo menos 153 pessoas foram dadas como desaparecidas, ali vistas em carne e osso pela última vez no momento em que algum familiar mais próximo deu conta da ocorrências às autoridades. Uma parte dos processos abertos pela polícia foram encerrados após a reaparição dos desaparecidos, que talvez nunca relatem de que modo foram tragados pelos túneis entre, digamos, Tezozomoc e Santa Anita, ou entre Cuatro Caminos e Chipancingo. Uma parte, porém, nunca reemergiu do labirinto. Alguém os viu entrando na estação Zócalo, saindo de uma carruagem na estação de Lagunilla ou lendo um livro entre Balbuena e Moctezuma, mas depois evaporaram-se, não voltaram a sair das galerias e talvez ainda estejam sentados no banco de uma estação, encostados a uma coluna de azulejos, esperando em San Cosme pelo metro para Lindavista, indo e vindo sem parar entre El Rosario e Barranca del Muerto, alheados da vida e hipnotizados pela luz branca e fria da carruagem, pelo negrume dos túneis, pelo néon dos anúncios ou, é o mais certo, pela possibilidade de existir sem ser visto, imateriais como fantasmas de carne e osso transitando para a eternidade no metro da Cidade do México.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

McJesus e o ar dos tempos


Os dicionários definem a intolerância como a "recusa da liberdade de opinião ou crença". Ser intolerante é, todavia, um pouco mais do que isso. É negar ao outro a liberdade de ser diferente.

A defesa da liberdade e da tolerância constitui hoje algo que vai contra o ar do tempo, em que tudo parece convergir para a criação de um clima de ódio, engano e manipulação que abra caminho a sabe-se lá que monstros. Mas, se há alguma coisa pela qual valha a pena lutar e perder algum tempo, esta é a mais importante de todas.

caso da exposição no Museu de Haifa, em Israel, da escultura McJesus, do finlandês Jani Leinonen, é, neste aspecto, particularmente significativa. Após seis meses sem provocar qualquer celeuma, a obra foi descoberta no início do ano pela tropa imbecil das redes sociais, a qual criou um movimento radical fundamentalista cristão contra a sua exposição. A obra acabou por ser retirada do museu, não por força da intervenção dos proto-terroristas católicos, mas porque o autor de McJesus faz parte de um movimento de boicote a Israel, relacionado com intolerância do estado judeu para com os muçulmanos.

Da liberdade de um museu expor uma obra que considera artisticamente relevante ao direito de um artista a criar livremente, passando pelo direito dos imbecis das redes sociais para se escandalizarem ou pela liberdade de não expor num país que se arroga ao direito de excluir e maltratar uma parte dos seus habitantes por motivos étnicos, o caso McJesus pode bem ser uma espécie de parábola da morte da liberdade de expressão, tragicamente caída aos pés da libertinagem intelectual e da intolerância autorizadas pelas ferramentas tecnológicas que paradoxalmente haviam de ter aberto caminho a uma liberdade de expressão sem precedentes na história da humanidade.


Se McJesus não me incomoda absolutamente nada e, por isso, não me custa nada defendê-lo, não devo concluir esta breve reflexão sem esclarecer que, não apreciando os métodos e o autismo do estado israelita, não defendo a sua extinção. Do mesmo modo, defendo que os imbecis possam continuar a refocilar livremente nas redes sociais. Reservo-me, outrossim, o direito de não frequentar Israel ou o Facebook, e ficaria grato se uns e outros se limitassem a seguir o meu sábio exemplo.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

«A maioria pensou que os seguidores daquele excêntrico chamado Hitler jamais alcançariam o poder»

Li a história de Solomon Perel, o judeu nazi, no El País de ontem. É um desses textos que já vai sendo raro encontrar nos jornais portugueses, mas que sobretudo me interessou enquanto testemunho de alguém que viveu uma situação insólita ou dramática, não sei ao certo como defini-la, tão estranha é a condição de um homem que decide sobreviver à perseguição do monstro vestindo-lhe a pele e encarnando a nova persona com absoluta perfeição, mimetizando perfeitamente o monstro e adquirindo as suas ideias monstruosas.

A história é poderosa de um outro ponto de vista: o caso de Solomon Perel fala da força da propaganda e da doutrinação dos regimes totalitários, provavelmente capaz, ao menos em certos casos, de convencer um cordeiro a julgar-se um lobo e a uivar à lua cheia. No momento histórico que vivemos, esta é um reflexão bastante necessária, desde logo porque, conforme diz Perel, também no tempo da sua juventude «a maioria pensou que os seguidores daquele excêntrico chamado Hitler jamais alcançariam o poder». «Viam-no como agora vemos muitos dos líderes da extrema-direita do mundo, como um louco». E deu no que deu.

(a propósito: convém ir lendo o que escreve o Rui Tavares no pasquim cujo nome evito repetir).

Li a história de Solomon Perel, dizia, no El País de ontem. Só hoje, porém, me ocorreu que Solomon Perel se parece muitíssimo com um personagem que inventei para o romance "Uma Mentira Mil Vezes Repetida", Baruck Averbuch, o judeu que se tornou o mais fanático dos nazis. É apenas uma coincidência e também a demonstração (desnecessária) de que mesmo a mais delirante ficção se limita a imitar a realidade.