sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Um bom velho mirone

A pornografia é uma arte com infindáveis declinações. Os mais tradicionalistas comprazem-se, por exemplo, protagonizando ou testemunhando práticas e artefactos de índole sexual. Há igualmente quem tenha a desventura e o mau gosto de acreditar que o sujeito barbado cujo nome nunca escrevo vai, um dia, pôr ordem nesta bandalheira (embora não seja sequer capaz de controlar o único deputado do seu partido no parlamento açoriano). E depois há os mirones (aqueles que, segundo os dicionários, "sentem prazer na observação, às escondidas, de cenas íntimas ou eróticas levadas a efeito por outras pessoas").

Dada a natureza furtiva e encoberta da actividade a que se dedicam, é relativamente raro surpreender os mirones em pelo labor. Parecem, por isso, ser tão raros e esquivos como os muflões ou, vá lá, os unicórnios, embora também seja possível que a espécie esteja ameaçada de extinção e vá sendo tempo de a National Geographic arregaçar as mangas e realizar um documentário decente, que mostre como nasce, come, caça, procria e morre um mirone como deve ser.

Dito isto, e não pretendendo vangloriar-me, declaro ainda que vi há dias, com estes dois que o fogo há-de consumir, um bom velho mirone em plena acção venatória, espiando um casal que estendeu a toalha dos piqueniques no Jardim das Virtudes e não achou melhor ocupação do que amar-se ali mesmo, debaixo da frondosa copa do antiquíssimo ginkgo cujas folhas principiam a amarelecer. Da primeira vez que passei, o venerável idoso estava escondido atrás do enorme tronco da árvore, a não mais de três passos do casal, provavelmente vendo e escutando o que diziam o moço e a moça, e se calhar também o estralejar dos beijos e os seus mais íntimos suspiros. Pouco depois, a caminho da saída, percebi que o vetusto mirone decidira variar a perspectiva: mudara-se para um patamar superior do jardim e podia observar panoramicamente os dois pombinhos. Não sei quanto tempo ali esteve, mas suponho que há-de, por fim, ter sido visto pelo casal e disfarçado, talvez fingindo analisar as folhas do ginkgo com algum propósito científico. Quanto a mim, fui à minha vida, comprazendo-me intimamente por ter conseguido mirar um mirone.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

O elevador social não está avariado














Há pouco quem, nos últimos meses, não tenha aproveitado toda e qualquer aparição pública mediática para perorar sobre o chamado elevador social. Supondo que os comentadores e paineleiros políticos e económicos não pretendem aludir aos ascensores que em certos edifícios colectivos de maior pedigree se destinam ao uso da criadagem, causa-me uma certa impressão que quase todos os analistas convirjam na ideia segundo a qual o dito elevador não funciona. Ora, conforme é do conhecimento de qualquer atrasado mental, um elevador ou um banal monta-cargas são aparelhos que servem para subir e descer. E o nosso (dito) elevador social desce que é uma maravilha. Serve exactamente para o objectivo para o qual foi criado: manter, e se possível aumentar, as distâncias entre os ricos e os outros.

Virtualidades









Fui — meio por curiosidade, meio por amizade — ver uma exposição de cripto-arte. Tratava-se, no essencial, de uma fileira de televisões que transmitiam em loop seis pequenas animações coloridas. Segundo me explicaram, os ficheiros informáticos que geravam as imagens podem ser adquiridos numa plataforma electrónica por qualquer indivíduo que possua cripto-moedas numa cripto-carteira. Depois o cripto-proprietário pode desfrutar da cripto-obra exibindo o ficheiro encriptado num display ou auto-comprazendo-se com a possessão. Parece que a coisa está na moda e que há gente a ganhar dinheiro a comprar e vender esta "arte" desmaterializada. 

Ao fim de alguns segundos a fixar as hipnóticas cripto-obras, reparei que o meu cérebro principiava a adormecer, como liquefazendo-se e desmaterializando-se também, a caminho de se transformar num cripto-bestunto. Que coisa engraçada é a contemporaneidade, pensei — e pouco depois, na esplanada do Piolho, fui abordado por duas mulheres em menos de meio minuto, as quais pediam alguns cêntimos concretos que lhes permitissem, ao menos, comer qualquer coisa material, consistente e verdadeira (enquanto não inventam as cripto-sandes de fiambre).

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Quanto há num gesto


No declinar da tarde, à beira-mar da Foz, prendeu-se-me ontem a atenção numa velha e pálida senhora burguesa que tomava sol na sua cadeira de rodas — o olhar ausente, imóvel e tristíssimo, indiferente e abandonado no horizonte, próprio, se calhar, daqueles que não sabem já o motivo de continuarem vivos.  Era um semblante que entrava pelos olhos dentro e que talvez pudesse ter-me distraído do essencial. E o essencial era o gesto carinhoso da criada crioula, talvez brasileira, talvez cubana,  ampla e matriarcal. Sentada no murete, a sopeira afagava a cabeça da patroa com os dedos de uma mão, enfiando-os nos cabelos prateados e movendo-os numa carícia lenta e demorada, se calhar diligente ou apenas submissa. Pareceu-me, porém, perceber carinho no afago da criada; o inexplicável carinho que alguns escravos dedicam aos carcereiros.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A banda que tocou A Internacional na procissão da Semana Santa na Espanha fascista










Partilho a história tal como ontem me foi contada pelo professor Paulo Canário entre cervejas e tremoços.

Durante os anos 1930, a propaganda do PCP terá feito chegar às inúmeras filarmónicas portuguesas a partitura d'A Internacional, a marcha composta em 1888 por um belga, Pierre Degeyter, a partir de um poema do francês Eugéne Pottier inspirado pelo esmagamento da Comuna de Paris. Proibida pelos regimes de Salazar e de Franco, a música servia então de hino da União Soviética, mas este dado não seria revelado na pauta.

Consta, pois, que o incauto regente da Banda União Artística de Castelo de Vide, tendo apreciado a vivacidade da composição, o entusiasmo heróico dos seus acordes, decidiu ensaiá-la com os músicos e integrá-la no repertório habitual da filarmónica criada em 1881. Num aziago momento histórico, marcado pela ascensão do nazismo e pelo triunfo sangrento dos franquistas em Espanha, quis o deus das coincidências que a União Artística tivesse sido convidada para abrir a procissão da Semana Santa de Valencia de Alcantara, aqui ao lado, mas situada numa das mais reaccionárias e sanguinárias regiões de Espanha.

Não tendo sido ainda capaz de encontrar qualquer referência a este episódio (mas talvez a isso me dedique algum dia), posso apenas imaginar a impressão que terá causado aos beatíssimos fascistas espanhóis ver o cristo seguir pelas ruas ao som da proibida, da diabólica marcha dos comunistas. Há-de ter sido uma coisa bonita de se ver.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Mensagem aos alunos de língua portuguesa espalhados pelo mundo

Chegam frequentemente ao Teatro Anatómico visitantes de países mais ou menos distantes. Embora suspeite de que aqui chegam por acidente e, constatando-o, logo se vão embora, alimento, por vezes, a ilusão de que o blogue talvez seja lido por alguns desses visitantes longínquos, imaginando que sejam portugueses da diáspora ou alunos estrangeiros de Língua Portuguesa. É provável que me engane, mas, ainda assim, publico aqui esta mensagem que se lhes dirige especialmente. Caso interesse, podem encontrar mais informação no site da Porto Editora.
 

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Sabeis, cafajestes, o que são molhinhos?














Estou como um abade (não, todavia, desses que comem criancinhas). Sucede simplesmente que, quando ao final da manhã me aprestava para ir fazer uns ovos mexidos ou assim, fui acometido por uma vontade irrefreável de comer molhinhos. Trata-se de uma espécie de enroladinho de tripas de borrego, preso por um lacinho das mesmas e cozinhado num suculento molho de tomatada. Serve-se comummente com batata frita e é uma coisa digna de se ver (e de se comer). Combinando, suponho, as tradições judaicas e árabes desta parte da Lusitânia, é um acepipe que integra os hábitos culinários pascais, mas que pode ser degustado durante todo o ano em certas casas selecionadas da vila. Prova disto é que me alambazei há pouco com uma dose desse pecado em forma de almoço, em flagrante contravenção com as normas da alimentação saudável, vegetariana, vegan, macrobiótica ou capaz de prevenir o colesterol e as maleitas cardiovasculares. Mas que se dane o colesterol. Se hei-de falecer de uma coisa qualquer, que seja disso ou do doce pecado da gula. Bom apetite.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Mamar molho










Uma das mais arreigadas práticas recreativas da vila costuma ser descrita pelos indígenas com a expressão "mamar molho". Significa, grosso modo, andar pela Carreira de Cima a consumir consecutivas tacinhas de tinto ou minis, às vezes de forma combinada. 

Certos grupos mamam molho de forma gregária regular, como o notável "esquadrão da morte"; outros colectivos formam-se de modo relativamente aleatório ao fim das jornadas de trabalho, à porta dos cafés, nas esquinas, na Casa do Benfica (os atletas desta prática ancestral são maioritariamente benfiquistas). Às sextas, dia de feira na vila, é habitual que as hostilidades se iniciem mais cedo, logo durante a manhã, aproveitando a presença dos agricultores dos arredores. Não é incomum que os iniciados se demorem, entre inúmeros outros assuntos, a discorrer sobre a má qualidade geral do vinho servido nos botecos. Seja como for, bebem-no à mesma. Outros, provavelmente mais abastados, exercitam-se na cervejaria da vila, onde servem néctares de qualidade razoável e em "bons copos". 

Alguns profissionais da arte mantêm o compreensível hábito de falar alto de mais. É, deste modo, possível ouvi-los elucubrar vivamente sobre as vantagens sociais de mamar molho e, outrossim, sobre as ambições mais profundas dos membros do clã. Ontem, às primeiras horas da noite, um dos mais ruidosos praticantes da ancestral arte declarava, por exemplo, que estar ali com dois amigos a mamar molho era a maior felicidade que tinha na vida. E acrescentava: "Ó senhor Manuel, um dia destes hei-de andar consigo a beber tintos das oito da manhã à meia-noite". Não cometi a indiscrição de o confirmar visualmente, mas sou capaz de jurar que pressenti uma lágrima furtiva aflorando aos olhos deste bom homem, amigo do seu amigo.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Viva o Germano Silva








O Germano Silva faz hoje 90 anos (e quem ainda não souber quem ele é está condenado a ser um irremediável ovo podre). Custa, contudo, acreditar que a cronologia comum esteja certa ou se lhe aplique com tanto rigor. Vendo-o mover-se e sorrir, sentindo a força do seu abraço e ouvindo-o contar as histórias de que, a cada passo, se lembra, não se lhe dá mais do que, eu sei lá, 60 ou 70. Esteve na apresentação do meu Tropel, há um ano, e achei-o com a vitalidade inesgotável de um moço. Talvez por isso, creio que passou uma parte da pandemia a telefonar aos amigos para se inteirar dos respectivos estados anímicos ou de saúde — e a contar-nos mais histórias, claro. Passámos, nessa altura, perto de uma hora ao telefone. Mas sabe-me sempre a pouco. Se lhe peço para autografar um livro seu que pretendo oferecer a alguém, faz-se imediatamente presente e tomámos café na Baixa depois de passarmos pelo alfarrabista da Académica, onde mantém conta aberta. Parece-me frequentemente impossível que o Germano exista de facto e passeie pelas mesmas ruas onde os outros mortais transitam. É um milagre ser seu contemporâneo, poder ouvi-lo e aprender com ele — uma enciclopédia com dois pés que, por isso, se tornou doutor honoris causa sem ter, creio, andado numa faculdade. Estou convencido, aliás, de que encontrou um modo discreto de driblar a passagem dos anos e que, um dia destes, acabará por ir ao meu funeral contar sobre mim coisas de que nem eu me lembro. Hoje sai para as livrarias um novo livro seu, Porto, as histórias que faltavam. Era o que faltava que o não fôssemos ler imediatamente.

domingo, 10 de outubro de 2021

O amor, a morte, o júbilo, o medo









Segundo o El País, existe uma nova tendência no cinema, na televisão e nos videojogos: incluir neles personagens que se expressam em idiomas artificiais, inventados por linguistas — coisas, enfim, como o Fremen, o Dothraki ou o já velhinho Klingon. Não se trata, todavia, de promover algum tipo de diversidade cultural e linguística, uma vez que aqueles produtos são largamente dominados por um só idioma, o Inglês, cada vez mais monopolista e que, de algum modo, ameaça cerca de metade das seis mil línguas minoritárias que ainda persistem no mundo. Em 2017, a UNESCO estimava que, só a partir de 1950, mais de 200 idiomas haviam já morrido. Outros terão desaparecido entretanto, sem que a nenhum génio dos videojogos tenha ocorrido salvá-lo, nem que fosse reciclando o Cayuga, o Dalabon ou o Mirandês para fins recreativos. Em vez de preservar as palavras em que os homens e as mulheres comunicam há séculos ou milénios, com as quais expressaram o amor, a morte, o júbilo ou o medo, o mundo normaliza-se em torno de meia-dúzia de anglicismos vazios, perde diversidade e inventa idiomas destituídos de qualquer substrato cultural ou humanidade, úteis apenas, se calhar, para as máquinas que, mais cedo ou mais tarde, nos regerão sem necessidade, sequer, de se fazerem entender.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

O leitor passeando pela brisa do tempo









Quando li pela primeira vez Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, a internet ainda não existia para o uso comum que hoje lhe damos. Não sendo, por outro lado, versado na ocupação romana da Hispânia e da Lusitânia, li o livro sem cuidar de saber a que ponto aproximado do mundo corresponderia a ficção que Mário de Carvalho ali propunha. Estando, então, de férias no Alentejo, identifiquei o enredo com a paisagem que tinha ao redor — e não pensei mais no assunto. Agora, um quarto de século depois, regresso ao romance e parece-me tão fresco como então, e igualmente vívido, mas posso, com dois ou três cliques, saber que Vipasca corresponde à Aljustrel romana, que Gades é o nome antigo de Cádis, que Ossonobra corresponde ao lugar onde agora existe a cidade de Faro, que Septem talvez ficasse próximo de Campo Maior e que Emerita era a designação latina de Mérida. Já o município de Fortunata Ara Iulia Tarcisis, centro do enredo, nunca existiu, conforme adverte o autor logo no início, embora, por motivos totalmente fúteis, me agrade imaginar que Tarcisis se assemelhava a Ammaia, por cujas melancólicas ruínas às vezes vou caminhar, pisando as mesmas pedras calcorreadas por outros homens noutro tempo, e em cujos interstícios as cobras vão agora trocar de pele. Leitor diletante antes de tudo o mais, regresso a Tarcisis pela brisa do tempo, devagar, redescobrindo cada página do romance e a vitalidade intacta da ficção de Mário de Carvalho, aparentemente tão alheia à erosão do tempo como as pedras que os escravos de Roma afeitavam para delas construírem os templos, as casas, os coliseus e as estatuetas dos deuses.

domingo, 3 de outubro de 2021

Papéis de Pandora (domingo no mundo)

Confesso: estou bestialmente escandalizado com as revelações dos papers da Pandora. Quase tão surpreendido, aliás, como havia ficado com os papers do Panamá e do Paradise, ou com os leaks do Luxemburgo. Nunca me passara pela cabeça que aquela gente endinheirada usasse contas off-shore. Que pouca vergonha. É quase tão chocante como saber que houve três mil padres pedófilos em França. Mas tenha a certeza de que é desta que o mundo muda e se põe esta gente na ordem. Se não for depois de amanhã, há-de ser lá para quinta-feira. Ou sexta. De certeza.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Anexins (actualizado)


Divirto-me bestialmente com as conversas das pessoas em Castelo de Vide. Parte da diversão reside no facto de quase ninguém ser referido pelos nomes próprios, mas sim pelos anexins (uma espécie de alcunhas), cada qual mais hilariante do que o anterior. Rio-me tanto que, um dia destes, o Gato, amigo do meu primo Cobra, parou o carro na Carreira de Baixo para me entregar em mão uma lista bastante extensa dos anexins em vigor na vila, de APP a Zucrina (existe também uma recolha em livro, disponível aqui). Lá estão o meu amigo Ceroulas, os meus primos Barraquim e Pavió, o saudoso Vinte e Sete, o enganador Passarinho e o eterno Chalana, a servir às mesas da esplanada igualzinho ao que era há trinta anos. Mas também, claro, o Bailarina, o Acha Alfinetes, o Amor Dormido, o Bate Estradas, o Beatriz Costa, o Bigodes de Arame, o Cabeça de Alambique e o Caga Lume, a Camponesa Artista, o Cara de Sapo, a Chica Marmela, o Chico dos Garrafões, a Dama das Camélias e o Cu de Pêra, o Doutor Tinto e o Doutor Porco, o Espanta Cães, o Gasolina, o Fome Negra, o Mãe Santíssima, o Malagueta, o Mama na Burra, a Margarida dos Cinco Réis, a Maria do Cu Redondo, o Meia Arroba, o Mentira Fresca, a Miss Carranca, o Mosca Pranha, o Papa Gelados, o Picha Preta e o Pichorra, para não falar do Pisa Flores, do Pilha Galinhas, do Punhetas, do Quatro Orelhas, do Rei do Petróleo, da Rosa dos Palheiros, do Ventas de Patrulha, do Zé Pichinhas, do Vicentinho das Bufas, do Código Postal ou do Tira Peles. Mas a lista é imensa e não pretendo aborrecer-vos. Para isso lá está o Chato.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Dos rebanhos que aqui transumam














Ocorre-me com certa frequência, quando estou em Castelo de Vide, abeirar-me dos pedaços da antiga muralha junto dos quais costumam estar a pastar os sadios rebanhos dos arredores da vila. Procuro não tanto a visão concreta e lanuda das ovelhas e das cabras, o seu jeito alorpado de vigiar quem se aproxima, antes a toada apaziguadora, misteriosamente harmónica, dos chocalhos que os animais trazem presos ao pescoço.

Ouço agora os mesmos chocalhos, às vezes, também entre as urbanas árvores da minha rua, badalados por dois grandes cães castanhos que arrastam uma mulher pelo passeio a caminho das suas evacuações matinais e vespertinas. O escasso rebanho dos canídeos levados pela trela não interpreta, porém, senão uma muita pálida imitação, monótona e triste, das alegres badaladas que a transumância diária dos ovinos e caprinos oferece a quem se detenha para escutar e respirar o ar límpido que se eleva dos olivais que cercam Castelo de Vide. Mas o simples soar das campânulas metálicas dos dois cães é suficiente para que em mim desperte a saudade daqueles dias mais suaves, mais amenos, que a cada passo me convocam a sair à rua para caminhar sem rumo e ir ouvir a voz das pessoas, o balido do gado, o grasnar das cegonhas na torre da igreja e o som que a brisa produz nos galhos das árvores. 

Faz toda a diferença o puro silêncio que estes ruídos ajudam a compor: na cidade, ao circular na via rápida dos apressados, vislumbro às vezes, entre as nesgas do trânsito, um rebanho de ovelhas pastando no que sobra de uma vida antiga e quase invisível, mas nunca escuto os seus chocalhos, os seus balidos, sequer quando passo correndo pelos campos que marginam a auto-estrada. Apenas se ouve o basqueiro áspero que produz a transumância diária das manadas dos automobilizados a caminho do ramerrão que nos mantém amodorrados, indiferentes, como vazios ou néscios.

Van Gogh: a luz fulminante das estrelas*
















Vincent Van Gogh viveu os últimos meses num turbilhão — criativo e não só. O rasto deste profícuo período artístico é testemunhado pela sua obra e pelas centenas de cartas que escreveu a partir de Arles, Saint-Rémy-de-Provence e Auvers-sur-Oise, tendo como principal destinatário o irmão Theo. 


 Não sigo nenhum sistema conhecido. Golpeio a tela com pinceladas irregulares, que deixo como estão (...). Estou tentado a pensar que os resultados são tão perturbadores justamente para não agradar às pessoas com ideias preconcebidas sobre a técnica. 

Vincent Van Gogh começou a desenhar e a pintar desde muito cedo, estimulado pela mãe e, mais tarde, pelo irmão Theo, que o incentivou a dedicar-se profissionalmente à pintura e que também o sustentava. Mas tardou a afirmar-se artisticamente. O ponto de viragem aconteceu no início de 1888, quando o pintor se mudou para Arles, no sul de França. Van Gogh passou a trabalhar de modo frenético, de manhã à noite. Abandonou os cânones da pintura da época e dedicou-se a criar um estilo próprio, absolutamente original, propondo-se refundar a arte moderna em parceria com Paul Gauguin, de quem se tornara amigo e que o retratou enquanto pintava os famosos girassóis. Datam deste período alguns dos trabalhos mais conhecidos e disruptivos de Vincent, dos sombrios auto-retratos às luminosas e alucinantes noites estreladas, passando pelo célebre Campo de Trigo Com Corvos, a Casa Amarela, o Quarto em Arles ou Memória do Jardim de Etten. Nas centenas de cartas que escreveu a Theo, Vincent incluía esboços dos quadros em que estava a trabalhar, muitas vezes a pedido do irmão: desenhava-os de forma simples e escrevia os nomes das cores que pretendia utilizar. Também refletia sobre os mecanismos do mercado da arte, que tanto o penalizaram e terão contribuído para agravar a depressão e os problemas mentais que o afetavam. Estes distúrbios terão estado também na origem de um dos mais conhecidos aspectos da biografia de Van Gogh. 

Meu querido Theo, Para te tranquilizar completamente e de viva voz, estou a escrever-te estas poucas palavras no escritório do doutor Rey, que já conheces. Pretendo ficar aqui no hospital por mais alguns dias — depois atrevo-me a planear regressar a casa com muita calma. Peço-te apenas uma coisa, que não te inquietes, pois isso deixar-me-ia demasiado preocupado. 

Dez dias depois de ter cortado a orelha esquerda, na noite de 23 de dezembro de 1888, em Arles, Van Gogh escreveu ao irmão a partir do hospital daquela cidade. A carta faz referência a uma discussão que tivera com Paul Gauguin e que, de acordo com alguns investigadores, terá tido uma influência decisiva no agravamento do estado psíquico de Vincent e na decisão de se automutilar. O outro facto que terá precipitado aquele gesto será a carta que o pintor recebeu de Theo, na qual o irmão anunciava o seu casamento com Johanna Bonger. Nascido em 1853, Vincent revelou distúrbios de personalidade desde a juventude, associados à doença bipolar de que padecia. Estes problemas foram agudizados pelo alcoolismo (bebia grandes quantidades de absinto) e pelo fracasso da sua carreira como pintor. 

 A uma crise como aquela que agora tive seguem-se sempre três ou quatro meses de tranquilidade absoluta (...). Preciso de ar. Sinto-me mortificado pelo aborrecimento e pela mágoa. 

Após a mutilação da orelha esquerda, Vincent Van Gogh foi internado num hospício em Saint-Rémy-de-Provence, onde ficou até 13 de maio de 1890. Manteve uma intensa atividade criativa (pintou, por exemplo, o célebre De Sterrennacht, que concluiria em junho), mas foram-lhe diagnosticados ataques de epilepsia. Impossibilitado de beber e com uma dieta controlada, manifesta, numa carta a Theo datada de 4 de maio, o desejo de sair da clínica e ir a Paris. Um estudo de investigadores do Hospital Universitário de Groningen, apresentado em 2021, concluiu que as restrições impostas pelo tratamento poderão ter acelerado o fim do pintor. Vincent continuava a fumar muito e a dormir muito pouco, o que, juntamente com a abstinência do álcool e a má nutrição resultantes do acompanhamento médico, terá estado na origem de surtos psicóticos e de delirium tremens, agravando substancialmente o seu estado psicológico e conduzindo-o à depressão que motivou o trágico final da sua vida, a 29 de junho. 

Estou a aplicar-me às minhas telas com toda a minha atenção, procurando fazer como alguns pintores de que gosto e admiro profundamente. 

Seis dias antes, a 23 de julho de 1890, com 37 anos, Vincent escreveu a Theo uma carta que este considerou “incompreensível”. O pintor vivia então em Auvers-sur-Oise, em França, sendo acompanhado de perto por um médico, o doutor Gachet. Numa missiva que enviou à esposa, Theo diz que a carta do irmão incluía um par de esboços de que havia gostado. “Se ao menos ele conseguisse encontrar alguém que lhe comprasse um ou dois quadros. Mas temo que isto vá demorar muito tempo”. Hoje, os quadros de Van Gogh estão entre os mais valorizados pelo mercado da arte e Vincent é reconhecido como um dos maiores pintores de todos os tempos.


*Por não ser suficientemente "leve e divertido", este texto, previamente encomendado, não foi aceite para publicação numa revista cujo nome não referirei. A sua redacção também não foi considerada para pagamento. Publica-se aqui para que tenha ao menos algum uso e possa aproveitar ao ocasional leitor que por cá passe.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Em assuntos de mulher, não metas a colher











O texto mais lido do Teatro Anatómico dos últimos dois meses foi aqui publicado apenas por ter sido recusado por um blogue ao qual prestei serviços durante algumas semanas. O tema do artigo havia sido previamente acertado com a editora responsável, a qual, para minha total surpresa, me informou depois que o mesmo "ficava sem efeito" (e sem o respectivo pagamento), alegando que o dito sítio — cujo espírito "é leve e divertido" — é também , e volto a citar textualmente, "maioritariamente constituído por mulheres (uma maioria quase esmagadora) e que nenhuma mulher precisa que um homem lhe lembre o que passam as mulheres no Afeganistão, na Índia, na América do Sul ou (felizmente, com as devidas distâncias) no Ocidente". Conforme é meu hábito, não farei publicidade gratuita à geringonça electrónica de comércio livreiro responsável por tão clarividente posicionamento civilizacional. Tendo em conta que aquela empresa nem sequer honrou os compromissos que comigo acordou inicialmente, apenas lamento o facto de ter, por estrita necessidade, colaborado com uma instituição gerida por esta sorte de indivíduos.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Alexandre da Macedónia










Um energúmeno que inexplicavelmente ainda é juiz — depois de ter pública e reiteradamente contrariado a lei que deve fazer respeitar —, apareceu esta semana na televisão a gritar e a espetar o dedo na cara de pacientíssimos agentes da autoridade. Não satisfeito, disse-lhes que, e passo a citar, "o meu lugar é este, acima de si". E foi juntar-se a uma (felizmente) pequena multidão de lunáticos que, aparentemente, não se importam de estar abaixo de sua excelência e de serem a claque do celerado e ufano magistrado, tão soberbo como um daqueles loucos que garantem ser o próprio Napoleão Bonaparte.

Creio que o homem que esta manhã morreu, e que foi presidente da república do país do importantíssimo juiz ("o mais alto magistrado na nação", portanto), nunca terá dito que era melhor, mais alto, mais bonito ou mais importante do que qualquer outro cidadão. Cruzámo-nos de raspão por duas ou três vezes e sempre confirmei em Jorge Sampaio a generosidade, a bondade, as convicções justas e a humanidade que transpareciam da sua persona pública. Nunca me arrependi, por isso, de lhe ter confiado o meu voto por duas vezes, coisa que não posso dizer de uma parte significativa das minhas idas às urnas.

Uma vez, em 1996, coincidimos no Castelo de São Jorge, em Lisboa, na entrega dos Prémios Gazeta de Jornalismo. Jorge Sampaio entregou-me a menção honrosa que nesse ano me coube e posámos para a fotografia da praxe, sob um relampejar de flashes. Queixei-me da violência das luzes dos repórteres e ele, o meu presidente, disse-me que o não fizesse. "Não se preocupe", disse-lhe eu. "Não pretendo ser presidente da república". "Eu, com a sua idade, também não queria", respondeu ele com um sorriso.

Com a idade que tenho agora, Jorge Sampaio já era presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Seis anos depois, anunciou que seria candidato à presidência da república. Creio, por isso, que o aviso de então me há-de ter servido de emenda, pois continuo tão pouco inclinado para o exercício de cargos públicos como era aos 24 anos. Desejo apenas permanecer o mais longe possível de gente extasiada pelo poder, como certos juízes, certos polícias e certos políticos com mau carácter. E também paz e sossego, um trabalho que me permita pagar as contas, o reconhecimento do trabalho que tenho feito e o mínimo de respeito devido a qualquer ser humano. Às vezes, porém, parece-me isto mais difícil e improvável do que ser , vá lá, um Alexandre da Macedónia.

Apenas me apazigua o facto de a História, quando chega a recordar os energúmenos, o faz apenas para que saibamos de que modo puderam ser boçais e inumanos, soberbos e vazios.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Nárnia









A fim de evitar aborrecimentos desnecessários, tenho procurado não assistir aos debates entre os candidatos às câmaras municipais. Ainda assim, colido, às vezes, com os resumos apresentados nos telejornais, os quais, com algum bom humor, podem chegar a parecer divertidos. Acabo, por exemplo, de ver um tipo que é candidato a Setúbal (e que já foi deputado por Braga e por Faro) a reivindicar a criação de startups capazes de gerar unicórnios. Parece-me pouco ambicioso. No mínimo, devia propor transformar Setúbal numa filial de Nárnia.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Do sagaz convívio entre gatos e livros










Quase não temos conversado à distância, entre o Porto e Belo Horizonte. Mas creio deveras que o Paulinho Assunção tem formas secretas de visitar a minha cabeça. Adivinhou, por exemplo, que tenho andado a matutar num texto em torno do filosófico Dorival, o gato hermeneuta, que conheço de ver no instagram, quase sempre sentado, deitado ou escondido sobre ou entre amáveis pilhas de livros. Apenas este conhecimento telepático explica que esta manhã o Paulinho tenha publicado duas fotografias do Dorival, como exigindo-me que me sentasse e, enfim, escrevesse o adiado post.

Dorival é um gato amarelo e felpudo, com uma qualidade metafísica que talvez o assemelhe a um dos gatos favoritos do Manuel António Pina. Tende, a avaliar pelas fotografias, para o convívio com os livros. Às vezes protege-se atrás de um Baudelaire, outras repousa sobre um Todorov. Lembro-me, ao vê-lo, de um outro gato que passou férias cá em casa, um felino bebé e agitado que, sozinho em casa, ia esconder-se e dormir no espaço livre das estantes, por trás dos livros, sujando-se de pó e frívola erudição.

Ocorre-me, pois, que a lenta observação dos gatos pode ser uma forma tão boa como qualquer outra de participar no jogo activador de esquisitices, eliminando a distância física que separa o Douro de Belo Horizonte. Mas é só uma hipótese que devemos estudar com tranquilidade e circunspecção, enquanto declaramos quietos palíndromos mudos às moças em trânsito com felinos passos de não-te-vejo.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Caramba














Esta manhã, no metro, uma passageira lia um livro em pé. Chamou-me a atenção, primeiro, a extravagância do acto, quase um gesto de resistência num espaço e num lapso de tempo que quase toda a gente preenche manuseando os telemóveis para ver as inúteis actualizações das suas redes sociais. Depois consegui ver a capa do livro, que a passageira lia dobrando a lombada, concentrada e resistindo à tentação quotidiana da ímpar paisagem panorâmica que a carruagem oferece aos que deste modo atravessam o Douro pela ponte de ferro. Tratava-se de Tonto, morto, bastardo e invisible, do excelente Juan José Millás, numa edição que não conhecia. Chamou-me a atenção a simplicidade do grafismo da capa, que se assemelha a alguns exercícios de design em que, às vezes, desperdiço o meu tempo, mas também o facto de a passageira ter escolhido ler precisamente este livro e não um desses volumes com cores berrantes e dourados, historietas banais que se assemelham a telenovelas ou folhetins, e que as editoras publicam e vendem como iogurtes cujo prazo de validade expire precocemente. Caramba, pensei. Ainda há quem leia livros que não tenham sido escritos de propósito para maravilhar rapariguinhas tontas de idade variável, de acordo com todas as regras ensinadas nas oficinas de mindfulness e de escrita criativa. Caramba, ainda há gente normal no mundo. Caramba.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

"Cheira a outra coisa"









Reconhecendo o importante papel desempenhado pelo vice-almirante Gouveia e Melo enquanto responsável máximo pelo grupo de indivíduos que tem coordenado a vacinação contra a Covid19 — e não deixando de ter presente que falou demasiado em certas ocasiões, pronunciando-se sobre assuntos que excediam a sua esfera de competências —, gostaria de sublinhar o conteúdo de duas frases que hoje proferiu. Refiro-me ao momento em que declarou que devemos confiar na capacidade do Serviço Nacional de Saúde para doravante administrar as vacinas que ainda sejam necessárias e, ainda mais importante, à resposta que deu àqueles que têm procurado apresentá-lo como um homem providencial. Disse, e nunca é excessivo repeti-lo, que os "salvadores da pátria" são perniciosos para a democracia, a qual só se salva "em conjunto com todos os actores do sistema democrático". "Não é uma personagem que salva a democracia. Isso cheira a outra coisa", declarou. E tresanda a outra coisa, de facto. Mas não faltam idiotas dispostos a ir atrás do fedor nojento que para aí vai, farejando-o como cães cegos.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O Afeganistão escrito debaixo das burcas









Uma burca, li há dias, é como uma gaiola. É provável, por isso, que o recente regresso dos talibãs ao poder condene as mulheres do Afeganistão a regressar à prisão da roupa que o islamismo radical impõe — ainda que o confinamento mental nunca tenha chegado a desaparecer. Veja-se, por exemplo, o caso da poetisa Nadia Anjuman, assassinada em novembro de 2005, aos 25 anos, já durante a ocupação da coligação ocidental que durante duas décadas afastou do poder os novos senhores de Cabul. 

A breve vida de Nadia talvez possa ajudar a ilustrar (e a perceber) as lógicas internas de um país onde os mais bárbaros atavismos religiosos nunca deixaram de estar presentes. Nascida em 1980, em Herat, Nadia Anjuman conheceu aos 15 anos as severas restrições impostas pelos talibãs às mulheres e raparigas. Com as escolas femininas fechadas e a instrução proibida, a adolescente inscreveu-se, com outras mulheres, numa escola de costura onde, três vezes por semana, assistia clandestinamente a encontros, palestras e debates com professoras de Literatura da Universidade de Herat. Correndo o risco de prisão, tortura e até enforcamento, as mulheres deixavam as crianças à porta, para que estas as avisassem de alguma visita inesperada da polícia religiosa dos talibãs e pudessem esconder os livros a tempo de fingirem estar apenas a costurar. 

Só aos 21 anos, com a invasão dos EUA e dos seus aliados, após o ataque terrorista às Torres Gémeas de Nova Iorque, Nadia pôde estudar Literatura. Em 2005 publicou o primeiro livro de poemas, Gule Dudi, publicado no Afeganistão, no Paquistão e no Irão, mas morreria nesse mesmo ano, espancada até à morte pelo marido, um bibliotecário de Herat. A tradução inglesa de alguns dos seus poemas podem ser lidos em sites como o Asymptote, o Brooklyn Rail, o Circumference ou o Exchanges Literary Journal

Mais sorte teve Malalai Joya. Nascida em 1978 e refugiada da guerra afegã-soviética, regressou ao Afeganistão para ser deputada entre 2005 e 2007. Mas foi expulsa por denunciar a presença no parlamento de antigos criminosos de guerra. Considerada por muitos “a mulher mais corajosa do Afeganistão”, causou polémica ao considerar que as mulheres e os direitos civis do país sempre tiveram três inimigos: os talibãs, os senhores da guerra e os ocupantes estrangeiros. A sua autobiografia, Uma Joia Afegã, teve edição portuguesa, pela Quidnovi, tendo ainda dado origem a um romance, La leggenda del Burqa, do italiano Thomas Pistoia, e a cinco filmes. 

Também refugiada, desde 1991, mas em França, Spôjmaï Zaryab, foi a primeira escritora contemporânea afegã a ser traduzida do Persa para o Francês. Começou a publicar aos 17 anos e, entre 2000 e 2010, foram publicados em França os livros de contos Ces Murs Qui Nous Écoutent, La plaine de Caïn, Dessine-moi un coq e Les demeures sans nom, quase sempre inspirados na tradição cultural afegã. Considerada entre os três maiores escritores afegãos contemporâneos (juntamente com os poetas Khalîlî e Madjroûh, ambos já desaparecidos), contou, numa entrevista de 2001 ao Le Courier da Unesco, que deve ao seu pai o amor pela literatura. “Ele nunca me fez sentir diferente por ser rapariga, nunca me proibiu nada” — algo que, sob o regime talibã, voltou a ser praticamente impossível. “Nunca mais verei a minha pátria, a minha cidade, a minha casa”, conclui Spôjmaï.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Em busca do Murakami selvagem


Antes Que o Café Arrefeça
, de Toshikazu Kawaguchi, há várias semanas nos tops de vendas nacionais, é só o mais recente exemplo doméstico do concurso mundial para encontrar o próximo fenómeno de vendas nipónico — ou o próximo Murakami selvagem, para parafrasear um título do autor de best-sellers. Chegou anunciado como “livro-fenómeno japonês” e prometendo uma história “tocante e inspiradora”. 

O sucesso foi quase instantâneo e não faltará quem garanta que Kawaguchi tem tudo para ser o novo Murakami (infelizmente, e pelos motivos habituais, o mundo editorial nunca parece muito interessado em descobrir o próximo Youkio Mishima, já para não falar no próximo Kawabata Yasunari ou no próximo Kenzaburo Ōe, prémios Nobel da Literatura em 1968 e 1994, respetivamente). 

Enquanto se espera para ver se a persistência de Kawaguchi nos tops de vendas confirma (ou não) o nascimento de um novo fenómeno global de popularidade, os meios de comunicação social internacionais não descansam e continuam, com uma regularidade impressionante, a elaborar listas de novos candidatos ao título de novo Murakami (ou, pelo menos, dos “dez autores contemporâneos japoneses que é absolutamente necessário conhecer”). 

A revista Books & Bao, por exemplo, mantém uma lista atualizada dos melhores livros japoneses em tradução para a língua inglesa. Para 2021, as apostas vão para Heaven, o novo romance de Mieko Kawakami, à espera de confirmar o sucesso de Breasts & Eggs, mas também para I-Novel, de Minae Mizumura, ou para Lonely Castle In The Mirror, de Mizuki Tsujimura, que até vai ser vertido para o Inglês por Philip Gabriel, o mesmo tradutor que se costuma ocupar dos livros de Murakami. Da lista constam ainda The Woman In The Purple Skirt, de Natsuko Imamura, Terminal Boredom, as histórias de ficção científica da celebridade Izumi Suzuki, Soul Lanterns, de Shaw Kuzki, ou At The End Of The Matinee, de Keiichiro Hirano. Mas a lista também inclui, claro, o mais recente Murakami, First Person Singular, talvez para demonstrar que ainda não inventaram ninguém melhor do que Murakami para agradar aos indivíduos alérgicos à leitura de frases compostas. 

Uma lista semelhante, mas do ano de 2018, da Tokyo Weekender, constavam os nomes de Yoko Tawada, Tomoka Shibasaki, Hiromi Kawakami, Sayaka Murata, Toshiki Okada, Risa Wataya, Mieko Kawakami, Yukiko Motoya, Hideo Furukawa e Toshiyuki Horie. Sim, o único nome que se repete é o de Mieko Kawakami. 

Aqui mais perto, a Espanha, já chegou Agujero (The Hole, na versão inglesa), de Hiroki Oyamada, que venceu em 2014 o Prémio Akutagawa e que o crítico Manuel Rodríguez Rivero classificou como “um estupendo romance curto”, surreal, no qual se percebe a influência de Kafka e Lewis Carroll. 

Na crista da onda japonesa está outros dos nomes presentes na lista da Books & Bao, o Nobel de 2017 Kazuo Ishiguro, cujo Klara and The Sun está entre os treze finalistas ao Booker Prize deste ano e também já chegou a Portugal pela mão da Gradiva. Mas é pouco provável que Ishiguro ainda seja candidato ao título de novo Murakami. O mais provável é que comece, não tarda, a busca pelo próximo Ishiguro.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Já chegámos ao Brasil

 













O livro Verbetes para um dicionário afetivo acaba de ser publicado no Brasil pela Pallas Editora. Resultado da colaboração com os meus amigos Paulinho Assunção, Ana Paula Tavares e Ondjaki, é, no essencial, uma colecção de histórias a afectos. Teve, em 2016, uma edição portuguesa.

domingo, 8 de agosto de 2021

"Peço para entoarem a 'Grândola Vila Morena'"















Determino que desejo ser sepultado em Castelo de Vide, em campa rasa, e utilizar o caixão mais barato do mercado; o transporte do mesmo deve fazer-se pelo meio mais económico, de preferência em viatura militar. Durante o funeral somente a presença dos amigos a quem peço para entoarem "Grândola Vila Morena" e "Marcha do M.F.A.".

Da declaração escrita de Salgueiro Maia, em Santarém, 28 de Junho de 1989


Visitei ontem a Casa da Cidadania Salgueiro Maia, em Castelo de Vide, recentemente inaugurada no castelo da vila. As últimas disposições do homem que libertou Portugal emocionaram-me, talvez por saber que a sua filha trabalha (ou trabalhou, não sei) como empregada de limpeza no Luxemburgo, como tantas outras portuguesas comuns às quais a revolução dos cravos não enriqueceu subitamente. Maia não quis privilégios e cumpriu escrupulosamente o quinto ponto do programa do MFA, aquele que determinava o "combate eficaz contra a corrupção". Emocionou-me também a voz do Adelino Gomes narrando a revolução, sem palavras para descrever o que via, e o som dos meus passos no cascalho do caminho que leva à porta da casa, quase igual ao dos passos marciais que abrem a gravação daquela reportagem, que guardo numa velha cassete. Cantei a "Grândola" enquanto marchava, uma lágrima no canto do olho. Espantou-me também que um museu do século XXI, que agora principia a ser visitado pelos turistas que passam na vila, não tenha uma única legenda em Inglês que os ajude a compreender o gesto heróico e limpo do melhor dos meus compatriotas.

sábado, 7 de agosto de 2021

Portugueses que nos deixam inchados de orgulho









Pedro Pichardo, medalha de ouro do triplo salto nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Patrícia Mamona, medalha de prata do triplo salto nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Jorge Fonseca, medalha de bronze de judo nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Fernando Pimenta, medalha de bronze de canoagem K1 mil metros nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Auriol Dongmo, quarta classificada no lançamento do peso nos Jogos Olímpicos de Tóquio (na imagem acima).

Liliana Cá, quinta classificada no lançamento do disco nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

João Vieira, quinto classificado nos 50 kms marcha nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Maria Martins, sétima classificada no omnium nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Neemias Queta, primeiro basquetebolista português na NBA.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Groguim sab











Este é um post exclusivamente dedicado aos apreciadores de grogue e, mais concretamente, aos que gostam de grogue velho. É provável que, estando apartados de Cabo Verde, da calidez de Cabo Verde, tenhais certa dificuldade em encontrar material que satisfaça o vosso vício. Não deveis desesperar, porém. A ilha da Madeira já produz néctares de alguma qualidade e devo informar que me tenho regalado, um dedal de cada vez, com o chamado Rum da Madeira que a casa William Hinton & Sons produz no Engenho Novo do Estreito da Calheta. O nome do xarope pode parecer estranho, mas é groguim sab. Tomai e bebei todos.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Vírus português













Por incrível que pareça, ainda sou do tempo em que certos indivíduos à beira de um ataque de nervos vinham para as varandas bater palmas aos heróis da Covid a fim de apanhar, ao menos, um pouco de ar corrente na tromba. Nessa época, hoje já tão distante, também era comum ouvir algumas pessoas a garantir que a vida na Terra não ia voltar a ser igual depois da doença. Havíamos necessariamente de aprender a ser boas pessoas e a viver em harmonia. Ia ficar tudo bem (que ridículo).

Passado tanto tempo, ou o que parece ter sido muito tempo, a vida na Terra prossegue, no essencial, igual ao que era antes (se excluirmos o aborrecimento estético das máscaras de protecção individual e alguns obstáculos legais à nossa vida social). Os ricos estão mais ricos, os pobres estão mais pobres, certos negócios florescem para vantagem do habituais beneficiários e já nasceram, pasme-se!, máfias dedicadas à comercialização de certificados da vacinação e testes Covid contrafeitos. Quase caí da cadeira quando tive conhecimento de tão surpreendente notícia, pois jamais supus que o ser humano pudesse ser tão vil. Chiça!

Mais de quatro milhões de mortos depois, parece-me, pois, que o SARS-Cov-2 constitui uma oportunidade perdida. Se era realmente necessário desbaratar alguns milhões de vidas humanas, facilmente se conclui que um vírus minimamente eficiente e organizado teria actuado de forma mais selectiva, livrando o planeta de um conjunto de indivíduos que não fazem cá falta nenhuma em vez de colher vidas inocentes ou de prejudicar umas quantas boas pessoas. Com algum planeamento estratégico, até um imbecil como eu podia ter ajudado a fazer a lista, indicando uma dúzia ou duas de nomes de sujeitos cuja perda constituiria uma ganho civilizacional aos mais diversos níveis. 

Mas não. Mais uma vez, foi tudo tratado de forma diletante. Creio, por isso, que existe uma boa possibilidade de o vírus ter sido produzido num laboratório em Portugal, a funcionar num anexo de um anexo de um anexo, nas traseiras de uma churrasqueira de Canelas. A OMS que abra os olhos.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Acabar com a bandalheira













São quase três da tarde e, após a cabidela em casa da mãe, este é um assunto que me mobiliza extraordinariamente. É necessário acabar o quanto antes com a bandalheira e agradeço que, de preferência, comecem por aquilo que é mesmo importante, desde logo pelos assuntos que realmente mobilizam um desocupado em jubiloso trâmite pós-prandial. 

De acordo com o jornal El País de hoje, os energúmenos das companhias de telecomunicações espanholas ter-se-ão comprometido a passar, enfim, a cumprir a legislação que desrespeitam há décadas. Refiro-me, bem entendido, à proibição de acossar cidadãos honestos e desprevenidos durante a sagrada hora da siesta. Será possível, doravante, que um cavalheiro termine uma refeição decente, tome o seu café, fume a sua cigarrilha, se calhar um uísque ou alguma coisa que ajude o bom trânsito digestivo — e se deixe depois dormir como manda a tradição e o bom senso, dedicando as energias do corpo ao correcto processo de assimilação das proteínas e das vitaminas, sem correr o risco de ser incomodado pelo telefonema que lhe proporá novos serviços, mais não sei quantos gigas de internet e 15 canais que jamais verá, tudo em condições muitíssimo vantajosas, como de costume.

Os países desenvolvidos distinguem-se pela protecção que garantem às inalienáveis liberdades dos seus cidadãos. As empresas de comunicações são, infelizmente, soezes e maliciosas em todas as partes do mundo. É necessário, assim, que alguém as ponha na ordem. Caso contrário... zz... existe o risco nada... zzzzzz... menosprezável... zzzzzzz... de que se instale... zzzzzz... o caos social e a bandalhei... zzzzzzzzzzz......

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Morder a língua

"Numa época e num país no qual todos se pelam por proclamar opiniões ou juízos, o senhor Palomar ganhou o hábito de morder a língua três vezes antes de fazer qualquer afirmação. Se, à terceira dentada na língua, ainda está convencido daquilo que estava para dizer, di-lo; se não, fica calado. Com efeito, passa semanas e meses inteiros em silêncio".

Italo Calvino, em Palomar