quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Para não dizerem que não falei do Cristiano Ronaldo


Ontem à tarde, quase noite na Baviera, quando regressava de Munique e o S-Bahn já se esvaziara da multidão suburbana, sentou-se ao meu lado um casal de magrebinos agarrados a um telemóvel. No pequeníssimo ecrã, com relato em árabe, Marrocos começava a disputar os oitavos de final do Mundial de futebol com a Espanha. Regressando a casa, os migrantes não sabiam ainda que haviam de assistir à enorme surpresa de ver o seu país suplantar a equipa milionária de Luis Enrique. 

Li no El País, esta manhã, que a imensa comunidade marroquina que trabalha em Espanha festejou efusivamente aquele triunfo. Suponho que hão-de tê-lo feito também na Baviera, com o mesmo sentimento do escravo que triunfa sobre o capataz, afinal não muito diferente do orgulho dos migrantes portugueses que, em 2016, viram Portugal bater a França na final do Campeonato da Europa em Paris. Por tudo isto, e depois da eliminação do Japão — a equipa que no Qatar praticou um futebol mais puro e positivo —, pensei que, se tudo corresse mal à noite, Marrocos passaria a ser a minha equipa neste mundial, quando mais não fosse por representar os humilhados que se erguem para aborrecer os patrões.

Sucede que, à noite, a selecção portuguesa de futebol esteve à altura dos acontecimentos. Graças ao miúdo Gonçalo Ramos — que ainda não ganhou o suficiente para se ter esquecido de que o futebol tem como objetivo meter uma bola numa baliza, e por isso não perde tempo a saltar sobre a redondinha e a driblar toda a atmosfera ao redor, ou a admirar-se nos ecrãs gigantes do estádio —, os rapazes com nacionalidade lusa também se apuraram para os quartos-de-final.

Quem me conhece sabe que não sou de patriotismos. Mas nutro, seja como for, certas simpatias nem sempre razoáveis ou fáceis de explicar. Não posso, por isso, deixar de torcer por Diogo Costa, Diogo Dalot, Rubem Neves ou Pepe, mas também, e por motivos diferentes, por Gonçalo Ramos ou Raphael Guerreiro, por Bruno Fernandes ou Bernardo Silva. 

Sobre Pepe, hei-de recordar durante muito tempo o modo como, no intervalo da transmissão do jogo na ARD, Sebastian Schweinsteiger comentava o golo e a exibição do português. Não percebo Alemão, mas a expressão facial é, neste casos, mais importante do que as palavras. O antigo internacional da mannschaft, agora comentador de bola e um ano e meio mais novo do que Pepe, encolhia os ombros e parecia perguntar-se como é possível que o central do FCPorto continue a jogar a um nível tão elevado. Também não sei qual é o segredo. Mas tenho a certeza de que Pepe adora o futebol e adora jogá-lo mais do que qualquer outros dos milionários que se apresentam no Qatar. E isto é algo que talvez possa acabar por fazer alguma diferença.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Enfardar como um monge bávaro

 


Perdoai-me, senhores, se adormecer enquanto redigo estas linhas pós-prandiais. Pode acontecer. Não vá o lanzudo tecê-las, já providenciei um café e um Bischof, um bispo, portanto, que é como por aqui chamam ao vinho branco quente com especiarias, usado para não se morrer de frio durante os convívios natalícios a céu aberto (quase todos). À cautela, tomei providências e agasalhei-me convenientemente para a segunda parte da incursão pela província bávara, petiscando um modesto schweinshaxe. Para ser absolutamente rigoroso, garantiram-me que este é o melhor schweinshaxe que se pode degustar por estes lados, assadinho na pousada onde comiam e comem os peregrinos que demandavam o mosteiro beneditino de Andechs. A receita há-de ainda ser a dos monges, os quais, exceptuando as arrelias que têm ao lidar com os achaques do espírito que eventualmente possuam (o espírito bem-entendido, que achaques e arrelias temos todos), não se tratam nada mal e enfardam prodigamente. Os de Andechs, que aqui estão desde 1455 — mas creio que já não serão os mesmos —, deram-se inclusivamente ao labor, talvez para combater o colesterol, de produzir a sua própria cerveja. A Kloster Andechs existe atualmente (pelo menos) nas versões Hell, Wiessbier Hell, Spezial Hell, Dunkel, Doppelbock Dunkel, Export Dunkel, Vollbier Hell, Wiessbier e sem álcool. Eu também estou cansado, obrigado. Mas, juro, só bebi aquela que a fotografia documenta. Se fosse mentira, pecado, eu sei lá o que os monges me fariam. Até eram capazes de pagar mais uma rodada.

P.S.: o schweinshaxe que vedes acima é também o mais generoso de quantos degustei desde que aqui estou. Alapado numa mesa já ocupada por outros bebensais (conforme é uso local), ficaram estes olhando-me com dúvidas quanto ao meu apetite para tanto agasalho. Mas não sou de fazer feio aonde quer que vá.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Boletim meteorológico


Como na Balada de Augusto Gil, cujos primeiros versos qualquer um sabe de cor, a neve começou esta manhã a bater leve, mansamente, nos galhos do nosso jardim. É branca, branca e fria, aqui em Feldafing como na Guarda, mas não há crianças descalças como no poema, nem vejo motivo algum, excepto os habituais, para que a neve que cai lá fora caia também no meu coração.

Troco, pois, Augusto Gil por Alberto Caeiro e deixo-me tentar pela ideia de me embrulhar num cobertor e não pensar sequer em pensar. Em adormecer também sem utilidade alguma. Devaneios. O trabalho foi hoje muito e a neve uma coisa de quase nada: uma chuva lenta que derrete mal aflora as superfícies do mundo, molhando tudo e pingando dos telhados. Água, eis o que vem a ser ao fim e ao cabo. E nenhum cloreto de sódio. Mas isto já é um poema de outras águas e de outras químicas. Não vem sequer ao caso.

Há uma frase idiomática britânica, celebrizado por um filme de Mel Brooks, Young Frankenstein, segundo o qual uma coisa má pode sempre ser ainda pior, bastando que também esteja a chover. Para os alemães que ontem viram a sua seleção de futebol precocemente afastada do Campeonato do Mundo, suponho que não lhes fará muita diferença. Com chuva ou com neve, pior já não hão-de ficar. Daqui a quatro anos há mais. A neve é que pode voltar a cair já amanhã. Ou daqui a duas horas, de acordo com o algoritmo da previsão meteorológica.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Um pouco de futebol, de livros e de memória

 

"Na década de 1990", escreveu Enrique Vila-Matas no livro Morir de Fútbol, "estabeleci certa amizade com futebolista que liam", particularmente com Pardeza e Pep Guardiola. "Eles queriam que lhes falasse de literatura e eu que me contassem segredos do futebol".

Ignoro naturalmente que livros folheiam os jogadores da selecção polaca que acaba de se apurar para a fase seguinte do Campeonato do Mundo sem saber ler nem escrever. Mas fiquei a par, pelo El País de hoje, que o treinador espanhol, Luis Enrique, afirma ter sido influenciado pelos filósofos Marco Aurélio e Epicteto, e pelo psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto.

Frankl foi preso pelos nazis por se ter recusado a eutanasiar os doentes mentais ao seu cuidado, tendo passado por vários campos de concentração, entre os quais os de Theresienstadt e de Auschwitz, nos quais perdeu toda a família. Quando foi libertado, em 1946, encontrava-se em Türkheim, um dos campos que funcionavam na dependência do de Dachau. Sobreviveu ao tifo escrevendo para não adormecer e, quando o horror acabou, preferiu dedicar-se a defender a liberdade de escolha e a reconciliação.

Türkheim é relativamente perto de Feldafing, a cerca de uma hora de automóvel. Imaginar que Viktor Frankl ali esteve detido exige, todavia, uma deslocação que vai muito para além da distância quilométrica. Exige que imaginemos uma circunstância de puro horror, na qual alguns presos, torturados pela fome, optavam por roubar o pão de outros desgraçados. Mas alguns, anotou Frankl, ecolheram partilhar o pouco que tinham.

Estes homens generosos, escreveu, "devem ter sido poucos". "Mas provaram que tudo pode ser retirado ao homem, excepto a última das liberdades humanas: a de, em qualquer circunstância, escolher o seu próprio caminho". No futebol também.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Derramar alguma luz sobre a língua alemã


Estive ontem parado diante desta casa. Parece um lar comum nesta parte na Alemanha, no município de Diessen, até mais alquebrada e simples do que a maioria. Nela viveu, disseram-me, a escritora Barbara Köning, a qual em tempos foi visita desta Villa Waldberta a partir da qual escrevo tão desasados textos.

Barbara Köning — acrescentaram pessoas bondosas de mais, que me levaram pelas ruas de Diessen, pelo lago Ammer, pelo peixe dele posto à mesa — pertenceu ao Gruppe 47, um movimento que, após o final da grande guerra e do grande horror nazi, procurou renovar a vida cultural e a literatura da Alemanha, e defender a democracia. Do bando, organizado por Hans Werner Richter, fizeram parte nomes como Günter Grass ou Peter Handke. Consideravam, por exemplo, que a arte genuína constitui sempre um gesto de oposição ao nazismo, à arbitrariedade, aos diversos fascismos que se alimentam da cegueira e do silêncio.

Entre as coisas que ontem me ensinaram conta-se o facto de o Gruppe 47 ter entre os seus objectivos uma espécie de refundação do idioma alemão, que entendiam ter sido violentado e corrompido pela estupidez nazi, pela sua mensagem selvagem e homicida. Hans Werner Richter pretendia voltar a dignificar o Alemão enquanto língua de cultura, de conhecimento e de pensamento. Para tal, convidava outros escritores e reuniam-se em locais variados, sem qualquer estrutura organizativa, para ler e criticar livremente os textos que escrevessem.

Algumas dessas reuniões, disseram-me, tiverem lugar nesta mesma casa, na morada de Barbara Köning, mais precisamente nuns barracões de madeira escura que outrora haviam servido de depósito de carvão. Olhei e olhei esses anexos quase desconjuntados, quase negros, e pareceu-me belo imaginar que ali, naquele breu, se juntavam alguns dos melhores escritores alemães da sua geração, empenhados em suavizar, em dulcificar o áspero idioma do país, livrando-o da tóxica influência da ignorância e procurando que nele voltasse a haver luz.

sábado, 26 de novembro de 2022

"Marcar um golo é como ter um orgasmo"


Estou neste momento, conforme já sabereis, a poucos quilómetros de Munique, terra do clube encarnado que o FCPorto derrotou na sua primeira conquista europeia, em 1987. Gomes não pôde jogar nessa final por estar lesionado, substituído por Juary. É, seja como for, um dos campeões de Viena (também não é longe daqui), bi-bota de ouro e autor da frase, tão optimista, segundo a qual "marcar um golo é como ter um orgasmo". Como há-de ter gozado, o sacana.

Embora os doutores da bola (alguns dos quais nunca a hão-de ter visto a pinchar à frente) já devam ter dito inúmeras coisas, apetece-me partilhar que, sendo sócio do Tribunal das Antas nessa já tão longínqua década de 1980, assisti ao vivo a uma parte muito significativa dos amplexos do bi-bota. Para nós, que não nos divertíamos tanto quanto ele, cada golo do camisola 9 era, em todo o caso, um momento um bocadinho inesquecível.

Lembro-me ainda de que algumas das moças da minha turma do Clara de Resende tinham os cadernos e as capas de argolas forradas com fotografias do Gomes, que, à época, rivalizava em celebridade com o Simon Le Bon dos Duran Duran, com os Wham e com o Limahl. Uma delas era a Adelaide Cristina. É possível que, de cada vez que jogávamos a bola no intervalo e eu marcava um golo, o fizesse pensando nela, que não queria saber de fedelhos do meu tamanho e sonhava com o Gomes.

Também, uma vez, mandei estampar nas costas de uma camisola azul e branca o número 9. Se era para ter um algarismo no lombo, era melhor que fosse aquele que o Nando envergava. Sempre ficava, deste modo, um bocadinho mais perto do coração da Adelaide.

Descansa em paz, campeão.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

De como descobri Munique e encontrei Donoso

 


Os livros que trouxe para a Baviera não duraram muito tempo, o que, de certa forma, era bastante previsível. Inútil para ler no idioma que aqui se usa, encontrei no Google um pequeno estaminé em Munique onde se vendem livros espanhóis e lá fui ver o que havia. Tinha a esperança de encontrar, por exemplo, o novo Montevideo, do Enrique Vila-Matas, mas a oferta era relativamente escassa. Acabei, ainda assim, por achar uma edição de bolsillo de El Obsceno pájaro de la noche, do chileno José Donoso, o qual há algum tempo constava da minha lista de curiosidades. O mudito e as sinistras viejas do mosteiro fazem-me agora excelente companhia, confirmando a bela impressão que me tinha ficado da leitura de Casa de Campo.

Por causa desta incursão, acabei conhecendo, e sem contar com isso, uma das mais interessantes zonas de Munique. Refiro-me ao aprazível bairro que vai, grosso modo, das pinacotecas ao Leopoldpark, no qual há galerias de arte, universidades, restaurantes para todos os gostos, centenas de bicicletas atravancando os passeios, cafés, lojas de design, vinotecas, livrarias, pátios, lojas de discos de vinil, muita gente acamaradando nas ruas, queijarias, delicatessens, a aprazível esplanada do café Morso e um minúsculo restaurante indiano com excelente comida a preços relativamente módicos. Gostei tanto que já lá regressei outra vez, comprazido da coincidência que me permitiu encontrar o livro de Donoso e este recanto tão suave de Munique.

domingo, 20 de novembro de 2022

Esqueçamos por agora esses pequenos nadas


 

Não é preciso ser bruxo: o frio está aí a chegar e estão previstos nevões e temperaturas de seis graus negativos para a próxima semana. Nem seria preciso consultar as apps e os googles desta (nova) vida para sabê-lo: há pelo menos duas semanas que os previdentes alemães taparam todas as fontes, chafarizes, pias e fontanários com estruturas de madeira destinadas, creio, a evitar que a água congele e rebente com as respetivas canalizações. O vento já sibila nas árvores.

Umas das vantagens da actual circunstância atmosférica reside no facto de haver agora muito menos gente a passear nas margens do Starnberger quando vou fazer o meu jogging semanal. Apenas uns quantos encasacados vão ainda passear os respectivos canídeos à beira do lago, o que me deixa quase dono e senhor da vasta extensão que vai de Feldafing a Possenhofen (e volta), dos sólidos arvoredos e das veredas cobertas de folhas mortas.

Em Munique, em contrapartida, começaram a abrir as primeiras feiras de Natal, com muitos comes e bebes e uma incrível multidão movendo-se de um lado para o outro e bebendo glückwein como se não houvesse segundas-feiras no mundo. Ontem o Kunsthalle estava também cheio para ver a exposição dedicada a um artista urbano francês (JR de seu nome), apenas um pouco menos frequentado do que as lojas e as galerias comerciais, onde a balbúrdia é enorme e indiferente às trombetas da crise e dos apocalipses que podem estar para vir.

A cimeira climática do Egipto redundou num novo momento histórico que não dará em nada. A guerra continua. A inflação galopa. Os ricos estão cada vez mais abastados e os pobres cada vez mais miseráveis. Mas, ao menos, o Mundial de Futebol já começou para nos manter distraídos durante o próximo mês e, como diz o comentador geral da lusitana república, mais vale esquecermos por agora essas piquenas contrariedades e aproveitar a paisagem — a qual hoje, ao final da tarde, estava exactamente como se vê na fotografia anexa.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Pequena coincidência para um grande livro

 


Quem me conhece sabe o quanto me agradam as pequenas coincidências sem importância. 

Quando, há semanas, estive em Garmisch-Partenkirschen, vi na montra de uma livraria local o livro Die Erpressung, a chantagem, de Javier Cercas, que vem a ser, na edição portuguesa da Porto Editora, Independência. Um dos dois livros, portanto, que trouxe para me fazerem companhia na Villa Waldberta e ocupar os intervalos do trabalho.

Trata-se, conforme disse, de uma coisa insignificante, mas que me agrada constatar e que me fornece pretexto para mais um destes tontos cibergramas. Já, com efeito, lhes perdi a conta, nem isso agora importa. Poucos lerão também este e, portanto, todo e qualquer elogio que faça a Independência cairá inevitavelmente em saco roto. Mas aqui vão.

Segunda parte da trilogia Terra Alta, do qual já lera o primeiro tomo, Independência confirma, se preciso fosse, as melhores qualidades narrativa de Cercas, um dos ex-vencedores do Prémio Literário Casino da Póvoa/Correntes d'Escritas. É um romance de tom policial, mas é, sobretudo, um grande livro, ao qual nada embaraça o facto de tratar da investigação de um crime, a cargo de Melchor Marín. As personagens são estupendas e densas, a narração perfeita, e o autor atreve-se até a ensaiar detalhes metaliterários deliciosos (dizem várias vezes a Melchor que é protagonista de um livro de Cercas, precisamente Terra Alta).

Ignoro se muita ou pouca gente lê Cercas em Portugal ou na Alemanha, ou quantos exemplares se venderam de Independência ou de Die Erpressung. Uma coisa é certa: Cercas é, sem dúvida, um dos grandes narradores do nosso tempo. Leiam-no já seja em que idioma for.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Este nevoeiro tão denso


"Não podemos voltar a Manderley", diz Joan Fontaine no início de Rebecca, o filme de Alfred Hitchcock. Manderley assemelha-se, de resto, a uma casa mal-assombrada no princípio do filme. Imaginei, por isso, a propriedade dos De Winter habitada por algumas das personagens que esta tarde compareceram ao lançamento do livro ditado pelo ex-governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. Lá estavam Cavaco, Passos Coelho ou Montenegro, e se calhar alguns mais, tecendo na sombra o regresso do país à casa fantasma de Manderley.

Acompanhei pelo serviço público de televisão, o único a que consigo aceder a partir da Baviera, o curioso lançamento de uma obra a que o cómico jornalista da RTP chegou, em directo, a classificar como literária, decerto por força de algum acto falhado. Tudo aquilo que sobre essa literatura se conhece é, salvo erro, uma frase, suficiente, porém, para que se tenha montado uma dessas polémicas tão habituais na destrambelhada pátria, de excelente serventia para criar sobre a realidade verdadeira uma nuvem pelo menos tão densa como estes nevoeiros que pairam sobre o lago Starnberger e depois se dissipam como por magia.

Ignoro, claro, se o actual primeiro-ministro interferiu ou procurou interferir no processo de regulação do banco BIC, então propriedade de Isabel dos Santos. Se o governador tinha informação que apontasse para algum ilícito, devia tê-la comunicado aos tribunais, coisa que ainda está a tempo de fazer. Mas creio que não o fez. Nem fará. O ruído é-lhe muito mais útil.

Espero, aliás, não ter sido o único a reparar que a nuvem de fumo lançada nos últimos dias a propósito do referido livro surtiu um efeito bastante oportuno. Não escutei, por exemplo, uma única palavra sobre o processo que conduziu à falência do BES, nem qualquer referência às explicações do governador para não ter enxergado tão grande buraco. Mas, já se sabe, o BES custou só, até agora, 8,3 mil milhões de euros aos portugueses. Podemos, por isso, continuar a deixar que nos entretenham com um suposto telefonema sobre um banco que nunca faliu. Por este caminho, um dia destes até podemos regressar (cantando e rindo) à mal-assombrada Manderley de Passos Coelho e Cavaco.

domingo, 13 de novembro de 2022

Algo que não tem explicação


Algo muito especial e comovente aconteceu esta manhã na Villa Waldberta. O piso térreo da casa encheu-se de uma pequena multidão vinda de vários sítios, até da Áustria, para escutar uns quantos parágrafos de Uma Mentira Mil Vezes Repetida, publicado há dez anos pela primeira vez em Portugal e que teve uma existência efémera na Alemanha, graças à tradução do Michael Kegler e à edição da A1, que encerrou ou faliu pouco depois.

Este incrível grupo de pessoas sorriu enquanto o Michael lia passagens do livro em alemão e esgotou num ápice os exemplares disponíveis para venda, depois de terem ouvido o Gerd Holzheimer dizer que Uma Mentira Mil Vezes Repetida seria um dos livros que escolheria para salvar de um incêndio — que coisa absolutamente maravilhosa. Quiseram conversar comigo e até que eu visite as suas terras um dia destes, que talvez possa incluir mais tarde em outros livros. Cheguei a ver lágrimas nos olhos de outras pessoas.

Não há explicação para um momento assim, quando pessoas que nem sequer falam ou compreendem o nosso idioma se deixam tocar pelo que escrevemos um dia, há muito tempo, e estão dispostos a pagar para nos ouvir e ver, para levar para casa um pedaço de nós em forma de livro. Não sei ainda muito bem o que pensar de tudo aquilo que vivi esta manhã, nesta casa que é temporariamente a minha casa. Mas estou feliz, muito feliz. 

De cada vez que um leitor encontra o seu livro, como me sucede tantas vezes, existe como um momento de magia, em que todas as coincidências parecem ter-se alinhado bonançosamente. Quando o livro foi escrito por nós... Ser-me-á agora impossível, também por isto, esquecer Feldafing. Muito, muito obrigado por tudo.


*cibergrama em cooperação com a residência internacional de artistas Villa Waldberta/Artists in residence Muniche/Bayern liest e.V.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Vir a Munique ver Vhils no museu

 


Comecemos pelo museu em si, o MUCA-Museum of Urban & Contemporary Art. Fica num beco do centro de Munique, num edifício que também podia ser um armazém ou um parque de estacionamento. As paredes são em simples tijolos pintados de branco ou preto, e o espaço não é sequer grande. Sem nenhum luxo, pois, se apresenta ali uma coleção que inclui um Warhol, um Keith Haring, um tríptico de OSGÉMEOS, um Christo ou o conhecido Lightness of Being, um retrato da recém-falecida rainha inglesa, de Chris Levine.

Apreciei um delicado e irónico Yoshitomo Nara, um retrato a óleo quase orgânico de Antony Micalleff, uma escultura de KAWS e o subtil confronto de uma coleção de cartazes do Maio de 68 com as obras gráficas (e profundamente políticas) de Shepard Fairey. A estrela principal é, todavia, a cabine telefónica vandalizada (na imagem acima), de Banksy, do qual há também vários dos seus grafitti de rua passados a tela branca, uma imagem em que aparece embuçado junto de uma vaca por si pintada e Met Ball, um capacete da polícia transformado em bola de espelhos.

Entre todos estes nomes, e com considerável destaque, o MUCA expõe também duas obras do português Vhils. É uma coisa que de algum modo emociona, isto de encontrar um artista da terra numa pequena e muito exclusiva coleção de arte, num museu. Lembrei-me, aliás, do primeiro Vhils que vi, martelado na parede de uma velha fábrica abandonada perto da Baixa do Porto. Impressionou-me, mas, na época, ninguém falava de Vhils. Era só um nome e lembro-me de ter imaginado que se trataria de um estrangeiro, talvez um norte-americano. Como é nosso costume, foi preciso que o descobrissem no resto do mundo e o levassem para os museus e as galerias de arte, para junto de Warhol e Haring, para nos vergarmos à evidência. 

Mas talvez até seja melhor assim. A terrinha é pequena e paroquial. Dará sempre mais valor ao que lhe seja impingido por qualquer estrangeiro.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Um jardim entre a vida e a morte


Adepto de descobrir as cidades devagarinho e sem guias, aceitando as sugestões das esquinas, certas fulgurações da luz, julguei há dias, em Munique, estar entrando num parque. Os caminhos eram de saibro, as árvores belas e antigas, os relvados cobrindo-se de folhas secas. Havia bancos de jardim espalhados no recinto, gente passeando, outros conversando, mães apascentando as suas crias nos carrinhos da moda e até quem dormisse deitado na erva. Uma tabuleta informava sobre a fauna ali habitual, esquilos e corvos, e soavam no ar vagos solfejos provenientes de um edifício de tijolo, à entrada, onde talvez funcionasse uma escola de música. Parecia e era, com efeito, um espaço verde bastante aprazível. Tratava-se, percebi depois, do Alter Nördliecher Friedhof, o antigo cemitério do Norte da cidade, e portanto semeado de lápides e campas, jazigos e cruzes, também dos seus mortos, os Gradinger e os Müeller, várias gerações de Leis e de Dreiffus, e muitos outros, tantos, sob medalhões de bronze e placas de granito, florzinhas, frontões a imitar outros impérios. Todos deitados ao comprido, os mortos e pelos menos um que ainda respirava, com muito espaço ao redor, enquanto os outros caminham e lavam as vistas dos prédios da cidade, enchem o peito de ar limpo e têm a breve impressão de que ainda permanecem vivos.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Ninguém viu, ninguém fez perguntas


Nesta exacta noite, em 1938, a cidade de Munique e toda a Alemanha foram sobressaltadas pelo ruído de vidros quebrando-se. Em poucas horas, os nazis destruíram as lojas, as casas e as sinagogas dos judeus, a pretexto do assassinato de um diplomata alemão em França, às mãos de um jovem estudante hebreu. Chamaram a esse pogrom a noite dos vidros partidos, kristallnacht.

Conforme exigia a pichagem feita num estabelecimento de Munique naquela noite, começou na kristallnacht a perseguição sistemática dos judeus e o seu envio para Dachau, um campo de concentração inaugurado em 1933 e que chegou a ter 140 sub-campos às suas ordens, espalhados sobretudo pelo sul da Baviera. A instalação principal ainda existe, agora como memorial da violência, da escravatura, do horror e da morte perpetrados pelos nazis.

A linha S2 do S-Bahn passa por Dachau e já me ocorreu tomá-la para ir ver o campo. Mas hesito. Um local de sofrimento dificilmente me serve como ponto de peregrinação turística.

A cidade de Munique assinala também hoje essa data pérfida. Na notícia que li, o título diz quase tudo sobre o modo como foi possível que o Holocausto acontecesse diante dos olhos dos alemães e do mundo: "Ninguém viu, ninguém fez perguntas". Talvez hoje mesmo, noutro sítio e com outras gentes, continue a haver quem prefira olhar para o lado, negar a História e fingir que não há horrores tremendos acontecendo debaixo do seu nariz.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Sobre moças pouco graciosas


Se, à partida, um museu de arte antiga é um sítio tão bom como qualquer outro para marcar encontro com o sublime, a Alte Pinakothek de Munique tem a vantagem de disponibilizar todos os artistas cliché (e mais alguns) do período artístico a que se dedica. Lá estava os Tiepolo, os Canaletto, os Guardi, os Rembrandt, os Dûrer, um Cranach, uma das virgens do Da Vinci, os Raffael, os Van Dyck, os Arcimboldo, os El Greco, os Rodin, Rubens com fartura, os Degas e até um trio de Van Gogh, incluindo um ramalhete de girassóis. Apreciei especialmente dois retratos de um par de velhos pintado por Balthasar Denner, mas, a dado passo, comecei a desesperar com a falta de uma feição agradável em todas aquelas salas imensas, já que as figurinhas das pinturas não ficam a dever grande coisa à beleza — e muito menos ao sublime. Quase não há virgem, deusa clássica, pecadora, bacante ou lavadeira que tenha um rosto apresentável, com a excepção da dulcíssima Isabella Brandt, a esposa de Rubens, que com ele aparece num auto-retrato e tem certa graça, com o chapéu flamengo, os brincos de pérola e o vestido escarlate. Tem olhos suaves, um quase sorriso, boca de fruta madura. Ocorreu-me, não o nego, convidá-la para um café que colorisse um pouco o meu dia, mas foi debalde. O Rubens não a empresta a ninguém.

domingo, 6 de novembro de 2022

Excêntricos e famosos que por aqui também passaram


Desconsiderando a circunstância de aqui estar agora tão fraca gente, quase das barracas, o Starnbergersee tem sido um ponto de encontro de excêntricos e famosos. Thomas Mann, claro, a kaiserina Sissi também, convidada como a imperatriz Maria Alexandrovna da Rússia a visitar o louco rei Ludwig II na Ronseninsel, a ilha da roseiras, quase aqui diante da janela. Aqui recebeu também o rei cisne o seu protegido Wagner e, não muito longe, havia de morrer em circunstância nunca totalmente esclarecidas, oficialmente afogado no lago menos de 24 horas depois de ser considerado esquizofrénico e preso no castelo de Berg, em julho de 1886. 

Em 1972, o chancelet Willy Brandt instalou-se nesta mesma villa durante os jogos olímpicos e aqui recebeu os outros chefes de estado que visitaram Munique nessa altura. Pelo casarão também passaram o pintor Edward Harrison Compton ou a escritora Helen Keller. Pela região do lago andaram Carl Orff, T.S. Eliot e Brahms, e a lista há-de necessariamente ser mais extensa, tivesse eu tempo para dar a volta aos 75 quilómetros do lago à cata de bustos, embora os não haja ainda dos vários jogadores do Bayern de Munique que agora por aí residem. 

Um dos mais recentes excêntricos do lago é sua majestade Maha Vajiralongkorn Bodindradebayarankkun (uff), rei da Tailândia, o qual terá fugido para um hotel da Baviera em 2007, aí permanecendo fechado com um monte de serviçais e, pelos vistos, umas quantas messalinas. Gostou tanto que comprou dois palacetes em Tutzing e aí ficou a morar, governando o país à distância desde que, em 2019, herdou o trono, até que alguém se lembrou de que a constituição do país o não permite. Um problema? Nem por isso. Os reais palacetes de Tutzing foram declarados instalações consulares e, por isso, oficialmente parte do território tailandês, onde Bodindradebayarankkun consegue agora estar ao mesmo na Baviera e na Tailândia, aonde quase nunca vai. É que, mesmo não parecendo, se está muito bem no campo quando se é considerado o mais abastado monarca do mundo e não há eleição nenhuma que nos possa tirar do poleiro.


*cibergrama em cooperação com a residência internacional de artistas Villa Waldberta/Artists in residence Muniche/Bayern liest e.V.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Se cá nevasse

 


Embora a pobre fotografia lhe não faça inteira justiça, é este, grosso modo, o cenário que esta tarde se pode observar a partir da varanda da Villa e da vidraça do escritório que aqui tenho instalado. Após umas horas de vento e chuva, acompanhados de uma acentuada descida das temperaturas, os cumes dos Alpes encheram-se de neve e transformaram-se num regalo para a vista. Aqui dentro os radiadores ronronam e o trabalho avança. Florin, o caseiro, bateu cedo à porta para verificar se voltou a entrar chuva por baixo da porta, mas está tudo impecavelmente enxuto e morno. Daniela, a caseira, há-de ter-se esmerado na cozinha, pois, à hora de almoço, a casa rescendia a assado e a casa de mãe, embora lamentavelmente lhe tenha apenas sentido o perfume. Teria sido, se calhar, um bom dia para ir a Garmisch-Partenkirschen, a esse pedaço da minha invernal infância, ou para ver alguma prova de slalom gigante numa televisão a preto-e-branco, mas as coisas são como são. Como dizia uma velha canção do rock português, se do lado de cá do lago nevasse também cá se faria sky.


*cibergrama em cooperação com a residência internacional de artistas Villa Waldberta/Artists in residence Muniche/Bayern liest e.V.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Venho dar-vos o arroz


Penitencio-me, claro, por aqui invocar tais assuntos quando há tanta gente passando fome e necessidade. Mas trata-se somente de arroz, afinal, alimento que, creio, os alemães consomem com alguma parcimónia (basta consultar o Rice Observatory para se ficar com uma ideia da disparidade que existe entres eles e nós), o que não significa, muito pelo contrário, que o não tenham aqui de boa qualidade, ao menos no único supermercado da colónia de Feldafing, onde invariavelmente me abasteço.

Privado do meu estimado Carolino, salvo seja, quis o acaso que, logo à primeira, acertasse aqui com o arroz que me convém: chamam-lhe milch reis (literalmente "arroz de leite", embora possa ser traduzido por "arroz doce", já que é usado para confeccionar sobremesas) e, na sua versão rundkorn ("grão redondo"), tem-me feito excelente companhia. Liberta, ao cozinhar, goma abundante, muitíssimo cremosa, produzindo belas arrozadas caldosas, muito próximas de um risotto.

Trata-se de uma delícia, portanto. A meu pesar, porém, não poderei partilhá-la com os estimados leitores e as gentis leitoras. A inteligência artificial está muitíssimo avançada, bem sei, mas ainda não permite cozinhar, publicar e comer um arrozinho de frango na blogosfera. Tratem de imaginá-lo e sonhem com ele durante a noite. Eu vou ali lavar a louça e já volto.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

De como abandonei Planegg à sua sorte


Os leitores mais regulares destes vagos escritos, se algum houver, lembrar-se-ão decerto da hesitação que me possuiu quando percebi a que distância de Feldafing fica a localidade de Planegg, intempestivo e inexplicável cenário de duas ou três cenas do relato em que tenho trabalhado. Ainda não me decidi, seja como for, a visitar Planegg, antes de tudo por não parecer haver ali nada que recomende o lugar — falaram-me vagamente de um rio que escorre do Starnberger —, mas também, e sobretudo, porque constatei, passando no comboio a caminho de Munique, que Planegg não é o cenário que mais me convém (pelo que posso ou não visitá-lo na altura em que me aprouver, sem que a realidade se imiscua na ficção e a prejudique). Sucede que nas minhas limitadas andanças pelas província bávara tenho encontrado locais mais calhados a acolher o lugar que imaginei antes de cá ter vindo, nos quais a ficção assenta perfeitamente. Se outras vantagens não houvesse, que as há, só por esta descoberta já valeu a pena ter vindo e estar cá desterrado nesta espécie de castelo com vista para os Alpes.


*cibergrama em cooperação com a residência internacional de artistas Villa Waldberta/Artists in residence Muniche/Bayern liest e.V.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Brasil: a mesma tragédia 90 anos depois?


Quando, em 1932, Hitler perdeu as eleições presidenciais para Paul von Hidenburg, a milícia para-militar fardada do partido Nazi iniciou uma campanha de violência e acosso dirigida contra todos aqueles que se lhe opunham, nomeadamente os comunistas, tumultuando o país de uma forma sem precedentes. Nos seus apelos radiofónicos, Adolph falava dos 13 milhões de votantes no seu partido, de ordem e progresso, e invocava o nome de deus. Noventa anos depois, a ignorante milícia verde e amarela do boçal Bolsonaro vai, pelos vistos, tentar fazer a mesma coisa no Brasil, à margem das instituições democráticas e procurando desacreditá-las pela baderna, provavelmente queimando e destruindo o que ainda reste do ex-país do futuro. Mas Bolsonaro nem sequer é Hitler; é um pobre diabo, um Mussolini de Carnaval que, após dois dias escondido, não é capaz de falar mais de dois minutos e para dizer absolutamente nada. Inquieta-me sinceramente ver tantos milhões de pessoas seguindo e idolatrando um tal cretino, acreditando, acéfalas, em tudo o que ele diz — e tenho a certeza de que este sentimento não está sequer relacionado com o facto de, por estes dias, ser vizinho dos locais onde, há noventa anos, o mal principiou a lavrar à solta, produzindo todos os piores horrores da História da humanidade.

domingo, 30 de outubro de 2022

O impossível regresso ao distante país da infância

 


Não sendo essencialmente diferente de qualquer um, passei os meses de Inverno da minha infância assistindo, a preto-e-branco, às provas de desportos de neve que a televisão pública transmitia a partir de vários locais da Europa. De todas as estâncias onde se fazia slalom, saltos de esquis e combinado nórdico, fixei na memória aquela cujo nome era o mais complicado e misterioso, quase um trava línguas: Garmisch-Partenkirschen.

Tendo estabelecido residência a poucas dezenas de quilómetros de distância desse local (para mim) quase mítico, andava há três semanas namorando suavemente a possibilidade de ir ver, afinal, o que é e como é o sítio cujo nome nunca esqueci, e que, percebi agora, acolheu os Jogos Olímpicos de Inverno de 1936, para suprema glória do malfadado Reich. Quase em passo de corrida, por motivos que explicarei noutra ocasião, aproveitei a mudança de hora e madruguei para ir espreitar esse pedaço do país distante da minha infância.

Garmisch-Partenkirschen, conforme o nome de certa forma indica, é, na verdade, dois sítios, Garmisch e Partenkirschen, situados a curta distância um do outro e entre os quais se foi construindo uma cidade para acolher os amantes do esqui alpino e a vasta multidão que o turismo internacional hoje despeja em qualquer sítio da Europa minimamente pitoresco. E os centros históricos de Garmisch e de Partenkirschen são do mais requintadamente pitoresco que se possa imaginar, com as casinhas alpinas e as paredes decoradas com pinturas murais, as tabuletas das lojas e dos restaurantes trabalhadas em ferro forjado dourado — e tudo tão bem cuidado que podia ter sido construído na quarta-feira e acabado de pintar anteontem.

Fica-se, pois, com a ideia de estar visitando uma espécie de parque temático para adultos, entre turistas russos e paquistaneses, o que não há-de já surpreender nenhum dos raros leitores destes escritos. Com uma temperatura mais própria de Agosto e sem o mais ténue floco de neve à vista, não posso afirmar ter encontrado ao menos uma sombra do tal sítio da minha infância. Devia, talvez, ter procurado a aldeia da Heidi. Mas não sei se há comboio para lá chegar. Havendo, há-de estar igualmente cheio de turistas como eu.


*cibergrama em cooperação com a residência internacional de artistas Villa Waldberta/Artists in residence Muniche/Bayern liest e.V.

sábado, 29 de outubro de 2022

Um cão mimado e a sua velha de estimação

Em algumas tardes mais soalheiras do Outono, uma certa velha fica caminhando lentamente na Bahnhofstrasse, de lá para cá e vice-versa, entre a Rathaus e a filial 545 do Deutsche Post. Vai e vem, a velha, e traz ao colo uma amostra de canídeo agasalhada no forro do casaco. O cão espeta as orelhas afiadas, o focinho de furão, e há nos seus passeios alguma coisa que evoca a vida selvagem dos cangurus, excepto porque a velha não avança saltando na calçada e são tão vagarosos os seus passos que é possível supor que tem os pensamentos muito longe, ou nenhuns já, e aquele cão seja a sua única companhia, que mimará como a um bebé que perdeu há muito. Antes de regressar à casa onde viva, a velha deposita enfim o cão na erva do jardim para que proceda à higiene fisiológica necessária, mas o animal tem as pernas finas como estiletes e mal se tem em pé. Inteiro treme o pobre cão e quase não sabe já caminhar em suas patas.


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quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Uma gota de orvalho


O nosso lago não estava esta manhã no seu sítio. Não havia, contudo, sido roubado ou drenado à pressa pelas infinitas estrelas da madrugada. Sucedeu apenas que uma longa língua de nevoeiro assentou, durante a noite, sobre a suave e serena superfície do Starnberger, ocultando-o da vista, mas não do entendimento básico. Para ser mais claro: o lago não se via, mas sabia-se perfeitamente que lá estava, sob a névoa, pelo simples facto de ser assim todos os dias desde que existe quem se ponha a olhar para ele ao amanhecer.

Algo muito semelhante acontece, afinal, com estas crónicas. Nada as sustenta, em nada contribuem para o dealbar da aurora, não aparecem impressas em papel de jornal, livro ou revista (ou, sequer, nas suas digitais declinações) e quase ninguém chega a lê-las. A esta hora, se o Blogger não destrambelhou, os dois últimos textos bávaros foram lidos por 27 seres humanos ou por eles aberto nos respectivos dispositivos electrónicos. Apesar da sua evidente irrelevância e invisibilidade, estes cibergramas fazem-se tão honestos quanto possível e chegam a possuir quase um nico de existência. Assemelham-se, ao menos, às gotas de orvalho que a névoa deposita no parapeito da varanda sobre o Starnberger See — e que as primeiras cintilações do sol logo evaporam.

Assim como o lago quando o nevoeiro o esconde, também este texto existe para além de toda a evidência e da mais rebuscada lógica. Talvez se limite a permanecer oculto por um fenómeno atmosférico cuja maquinação não domino. Todavia, e ao invés daquilo que sucede com o lago, é muito provável que, quando e se, algum dia, a neblina levantar, já aqui não haja nada para ver.


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quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Este imenso céu sobre as nossas cabeças

 


Indo já longa a série, estes escritos deixarão doravante de se apresentar como Cibergramas da Baviera e passarão a ser somente aquilo a que não podem escapar: singelas crónicas inúteis que vão com as nuvens que avoejam sobre o lago Starnberger, as quais tão depressa estão aqui como ali (ou em lado nenhum). Na noite transacta, por exemplo, não havia o mais pequeno cúmulo ou nimbo no céu, motivo pelo qual o firmamento se via extraordinariamente estrelado, imenso sobre a minha cabeça. De vez em quando passava, num ápice, uma estrela cadente, às vezes as luzes pisca-pisca de um avião, e aquilo de que me lembrei foi de uma noite do passado Agosto, na qual me deitei no relvado do meu primo Pavió e dali mergulhei a fundo no céu, igualmente vasto, do nosso Alentejo. 

Tudo a ver, portanto, com o relato que também ontem à noite estava a ler, La singularidad de Schwarzchild, um dos cinco que compõem o fantástico livro Un verdor terrible, de Benjamín Labatut (existe uma edição portuguesa, da Elsinore — procurem). O astrónomo, físico e matemático judeu Karl Schwarzchild resolveu nas trincheiras da Primeira Grande Guerra, onde chegou a ser tenente do exército alemão, uma das equações da Teoria da Relatividade Geral, que Einstein publicara apenas há um mês. Demonstrou matematicamente a curvatura que o espaço adquire na vizinhança das estrelas, mas os cálculos respetivos conduziam a uma singularidade física quando aplicados a situações em que as estrelas colapsam sobre si mesmas, tornando a gravidade tão forte que o espaço se curvaria infinitamente.

Contemplando o céu obsessivamente, Schwarzchild começou por considerar que aquele resultado decorria de uma aberração matemática, mas o fantasma daquela espiral infinita do espaço e do tempo nunca mais o abandonou, sequer quando estava à beira da morte, provocada por uma doença relacionada com a exposição a um ataque químico. A singularidade por ele descrita só veio a ser confirmada em 1939, num artigo assinado por Hartland Snyder e Robert Oppenheimer, considerado o pai da bomba atómica. Enquanto o lia, lá em cima, no céu sobre Feldafing, a uma distância impossível, algumas estrelas estariam também colapsando e curvando o tempo e o espaço de tal forma que poderíamos, estando lá, viver ao mesmo tempo no presente, no passado e no futuro.


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terça-feira, 25 de outubro de 2022

Cibergramas da Baviera: à procura de Mr. Arkadin


Só hoje me dei conta de que passei há dias a poucos metros do número 16 da Sebastianplatz, o exacto local onde começa, em Munique, a contar-se a mirabolante história de Mr. Arkadin-Relatório Confidencial, o filme que Orson Welles realizou em 1955. Nada ali o recorda, porém, e só o facto de ter visto a longa-metragem numa das minhas primeiras noites na Villa Waldberta justifica que sequer me interesse pelo assunto e o relacione com a cidade de Munique.

Mr. Arkadin-Relatório Confidencial é um objecto cinematográfico bastante singular, fruto do génio de Welles (que protagoniza o próprio Arkadin) e de uma realização muito pouco comum, dramática, com detalhes verdadeiramente extraordinários. Resumindo, um fura-vidas norte-americano, Guy Van Stratten, é encarregado de descobrir o obscuro mistério que envolve o passado de um milionário patibular, acabando por se relacionar intimamente com a filha deste. A investigação começa precisamente na Sebastianplatz, onde Van Sratten encontra Jacob Zouk, um velho conhecido de Arkadin.

A praça era, em 1955, dez anos depois do fim da guerra e do intenso bombardeamento táctico dos ingleses, um local algo desfigurado e derruído. Agora é uma área pedestre aprazível e bem recuperada, com esplanadas e museus, incluindo um dedicado ao cinema, onde há uma exposição sobre o cineasta Werner Herzog, e o Mûnchen Stadtmuseum, que hoje ocupa, creio, o preciso endereço onde o filme começa. No meio da praceta há ainda um plátano de médio porte, rodeado por um círculo de bancos de jardim. Parece um sítio perfeito para passar uma tarde a ver cair as folhas, para marcar um encontro discreto, furtivo, com o desaparecido senhor Arkadin ou para acabar este vigésimo cibergrama em beleza .


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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Cibergramas da Baviera: diligentes são os esquilos


Esta é, para todos os efeitos práticos e demais contabilidades, a décima nona crónica escrita diante desta panorâmica janela com vista para o arvoredo e para o lago Starnberger. Há lá fora, do outro lado das vidraças, umas arvores altíssimas, com quarenta metros ou mais, em cujos galhos ora repousam os crocitantes corvos, ora se afadiga algum pica-pau, ora labutam os incansáveis esquilos das redondezas. A estes últimos, tão diligentes, nem a chuva os demove de subirem e descerem aos ramos mais altos, estafando-se, creio, na recolha de alimento para o Inverno que aí há-de vir. Pode parecer uma agitação exagerada ou supérflua, um labor insano, mas, segundo a resposta a um quizz que há dias passava nos monitores informativos do S-Bahn, os diligentes esquilos, sempre correndo de um lado para o outro, necessitam de armazenar, cada um, cerca de dez mil nozes (ou castanhas, ou avelãs, ou pinhões, ou o que seja), sob pena de o frio lhes ser penoso ou letal. Comparadas com a indómita tarefa a cargo dos roedores ruivos e negros que frequentam os pinheiros e as coníferas da Villa Waldberta, dezanove crónicas são um desfastio, uma frivolidade e, enfim, uma azáfama de treta que a ninguém aproveita. Nem o ocasional leitor, tão raro, se vê ilustrado em matérias práticas ou metafísicas, nem o escriba recolhe deste afã uma noz que seja, um bago de arroz, sequer a saudável corrente de ar de que desfrutaria se estivesse lá fora respirando fundo e meditando em assuntos mais fundamentais. Este cibergrama, por exemplo, só não constitui uma total perda de tempo na medida em que, enquanto o plumitivo nele esteve devaneando sem préstimo, os outros esquilos diligentes permaneceram lá fora, na lufa-lufa, enchendo de nozes os seus ninhos.


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domingo, 23 de outubro de 2022

Cibergramas da Baviera: invadindo o castelo de Sissi

 


A minha sessão semanal de jogging levou-me esta manhã aos amplos relvados que rodeiam o castelo de Possenhofen, onde chegou a residir Sissi, nome carinhoso de Elisabeth, princesa da Baviera, kaiserina da Áustria e rainha da Hungria. O vasto recinto do schloss foi, em tempos, cercado por uma muralha, da qual agora existem apenas alguns pouco troços e meia-dúzia de torreões, embora, pela altura que apresentam, não devessem servir para grande coisa, voltados que estão para um lago tranquilíssimo, onde os patos se banham amenamente. Mas convenhamos que deviam ser bastante decorativos, protegendo o imponente palácio branco enquadrado pelo vasto arvoredo.

Aberto agora o espaço verde à livre fruição do público, passou a integrar o enorme parque florestal que vai de Starnberg a Tutzing, rodeando o lago e proporcionando um extraordinário e ancho cenário para caminhadas, passeios de bicicleta, corridas e etc. Se outras vantagens não tivesse a democracia republicana, a propriedade pública permite agora circular à vontadinha num espaço outrora vedado, mesmo que em calções de ginástica e transpirando copiosamente. Não é para me gabar, mas suponho que a boa da Sissi havia de ter um chilique se pudesse ter imaginado que o parque do seu schloss viria um dia a ser usado por um cromo qualquer, um pelintra de Massarelos que nem de Massarelos pretende ser fidalgo.


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sábado, 22 de outubro de 2022

Cibergramas da Baviera: aprender a desmotivação

 


Encontrei esta tarde em Herrsching, a poucos metros da margem do lago Ammersee, a indicação do caminho para Compostela. A tarde estava gloriosa e pareceu-me um momento tão bom como qualquer outro para iniciar o percurso, excepto por ter tomado consciência, após consultar o Google Maps, que teria pela frente exactos 1986 quilómetros para palmilhar. Chiça. Ou scheisse, que para o caso tanto faz.

O passeio, não duvido, havia de ser belíssimo. Mas parece-me um exagero que alguém caminhe tanto para chegar perto de umas supostas relíquias de um putativo homem santo do catolicismo. Se fosse pelas paisagens e pelos petiscos de Santiago Compostela, estou como o outro. Mas só um fanatismo bastante destrambelhado pode levar alguém a percorrer, por motivos religiosos, um caminho tão longo (e até muito maior, dependendo de onde se começa a peregrinação) — a mesma cegueira que, durante séculos, permitiu tratar outros seres humanos não crentes como animais sem alma, matá-los invocando o santo nome de deus, torturá-los de forma selvática e queimá-los na praça pública; o mesmo sectarismo, enfim, que levou, aqui bem perto, à tragédia do holocausto e que motivou e motiva tantas guerras e limpezas étnicas.

Não permiti, todavia, que tão sombrios pensamentos arruinassem uma tarde afinal tão agradável. Passeando à beira do lago, para não ir mais longe, dei com uma barraquinha de comes e bebes que reclama ser o consulado geral da Demotivations Akademie, a academia da desmotivação, pois claro, onde se emitem vistos e se bebericam belas cervejolas e outras bebidas mais coloridas. Pareceu-me um bom sítio para aboborar um pouco, cogitando que a falta de motivação (política, religiosa, económica, criminosa) seria suficiente para evitar uma boa parte das desgraças do mundo.


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sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Cibergramas da Baviera: migrações



Há alguns dias se nota uma nova agitação nos céus da Baviera (ou daquela parte que sou capaz de vigiar a partir da varanda da Villa Waldberta). Os marrecos dos lagos cruzam-nos amiúde logo pela manhã, formados em V e voando na direção dos Alpes. Mas também há bandos numerosos de uma aves que talvez sejam estorninhos e que parecem rumar a sudoeste, formando confusas nuvens altas e distantes. Observo-os nas suas transumâncias e percebo-os livres para atravessar países e continentes, indiferentes a quaisquer fronteiras. Alguns seres humanos, porém, não têm assim tanta sorte.

Participei ontem, em Munique, num encontro com activistas polacos de organizações cívicas que se dedicam a ajudar os migrantes que há mais de um ano procuram entrar no Espaço Económico Europeu atravessando a fronteira entre a Bielorrúsia e a Polónia. Este fluxo, aparentemente promovido pelas autoridades russas (que criaram linhas aéreas a isso destinadas), chegou vagamente a ser notícia em Portugal no início do ano passado, numa altura em que estava a ser erguido um muro de arame farpado naquela fronteira e os migrantes eram escorraçados pela polícia e pelo exército polacos, usando canhões de água num ambiente de temperaturas negativas.

Com o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, em Fevereiro último, o drama humano na fronteira polaco-bielorrrusa desapareceu dos noticiários. Foi entretanto erguido um muro de cimento com cinco metros de altura e os refugiados afegãos, iraquianos, iranianos, tchechenos ou curdos continuam impedidos pelas autoridades de, sequer, apresentarem pedidos de asilo. Os poucos que conseguem atravessar, escavando túneis sob o muro ou saltando-o a despeito do arame farpado, acabam feridos e perseguidos na densa floresta polaca, ao frio, molhados até à chaga.

Considerados não-humanos e portadores de doenças pelas autoridades políticas e religiosas polacas, os  migrantes, quase todos muçulmanos, têm como único auxílio aquelas organizações de direitos humanos, que operam no terreno apesar das ameaças da polícia e do exército, estando sujeitas, além disso, a serem processadas por tráfico humano e auxílio à migração ilegal. O panorama, tal como foi descrito e mostrado na sessão de ontem, é absolutamente desumano e pode ser constatado nos sítios e nas redes sociais de organizações como a Fight Fortress Europe, a Fundacja Bezkres, o Grupa Granica e a Stowarzyszenie Egala.

Já em algumas sessões públicas, seja como for, me tenho referido à situação na fronteira polaco-bielorrusa, onde a distopia que criei para o romance Tropel está demasiado próxima da realidade. Por exemplo, os cadáveres dos migrantes que caiam em solo polaco, seja por causas "naturais" ou outras, são atirados por cima do muro para o lado bielorrusso da fronteira. Trata-te, para além disso, de um dos mais graves casos de absoluto desrespeito pelo direitos humanos na União Europeia e um exemplo da pura hipocrisia que governa as políticas migratórias da Europa.

É tão simples como isto: a mesma Polónia que recebeu de braços abertos milhões de refugiados brancos e cristãos, ucranianos que escapavam aos bombardeamentos de Putin, trata como animais, ao mesmo tempo, outros seres humanos, um pouco menos brancos, que tentam também, a poucos quilómetros de distância, entrar no país e na Europa. Acresce que, neste caso, não houve nenhuma câmara municipal portuguesa, nenhuma ONG nacional, nenhuma companhia aérea, nenhuma empresas de logística, que tenha promovido a recolha e a entrega de auxílio humanitário para aqueles nossos semelhantes, homens, mulheres e crianças que diariamente morrem em busca de uma vida melhor, sem direito sequer a serem socorridos quando estejam feridos, doentes ou em risco de vida.

Haverá aí desse lado alguém que possa e queira ajudar?


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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Cibergramas da Baviera: o que traz o carteiro

 

Nem de propósito. Ainda anteontem me babava de gula diante das montras das charcutarias e das tabacarias de Munique, e eis que hoje, pela hora do prândio, o carteiro tocou apenas uma vez e anunciou que trazia zwei pakete para mim. Tratava-se, na verdade, de uma carteira, ou de uma distribuidora de encomendas a soldo de uma empresa bem conhecida do ramo da logística, e trazia um monte de gulodices despachadas de solo pátrio por mãos (muito) amigas, incluindo as cigarrilhas que eu fumo, enchidos, conservas, queijo da ilha e chocolates iguais aos de cá. Com um sorriso tolo semelhante aos dos garotos aos quais se oferecem guloseimas, ou de um emigrante que recebe o bacalhau e o azeite para a consoada, confirmei que um dos pakete transportava também o meu cartão europeu de saúde — não vá a bem-aventurança gastronómica acarretar outras e mais dolorosas consequências, capazes de pôr em sobressalto a polícia internacional dos bons costumes e da vida saudável.


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