sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Universidade Tuiuti do Paraná

Esta história contada pelo José Rentes de Carvalho é de leitura obrigatória. Para aguçar o apetite aos literatos e aos demais cafajestes, refiro apenas que o título da dita é "A brasileira do 'Gimonde'".

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

O fundamentalismo cristão

Para além de ter sido responsável por mais vítimas do que qualquer outro, o fundamentalismo cristão constitui hoje uma realidade particularmente imbecil, no sentido em que representa a regressão civilizacional de indivíduos inseridos em sociedades onde, apesar de tudo, tinha já sido feito um caminho consistente na senda da tolerância e da separação entre a fé e a vida das pessoas. O atentado contra as instalações onde funciona a produção do programa humorístico Porta dos Fundos deve, por isso, indignar e fazer reflectir — não apenas os laicos e livres, mas sobretudo os católicos. Se não apreciam venerar um messias tecnicamente bastardo, talvez não fosse má ideia mudarem de religião. Há tantas.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

#vergonha

Confesso: tenho um pouco de vergonha de ser cidadão de um país em que o indivíduo André Ventura passou a ser assunto noticioso. Infelizmente, e pelo que se percebe levantando o nariz, os outros países não cheiram muito melhor do que este.

Lágrimas de crocodilo

A RTP deixou hoje de ter como directora de informação uma jornalista com décadas de trabalho de altíssima qualidade, publicamente cilindrada por uma polémica em que teve como antagonista alguém que se especializou na gestão da confusão entre jornalismo e um tipo degradante de espectáculo televisivo disfarçado de jornalismo. Lembro-me dessa pessoa, cujo nome não repetirei, em plena crise grega, a entrar em directo de Atenas com lágrimas nos olhos, simulando estar afectada pelas nuvens de gás lacrimogéneo que se viam a dezenas de metros de distância. Dez segundos depois, as lágrimas de crocodilo estavam secas e ela falava desenvoltamente do alto da sua varanda de hotel. É deste esterco que o povo gosta. Comam-no com fartura.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Escócia

Mais um país escolheu ontem ser governado por um celerado. O facto já não constitui grande novidade: há hoje imensas maiorias de ignorantes dispostas ao ridículo que eleger Trumps, Boris e Bolsonaros e que vêem as suas destrambelhadas escolhas facilitadas por vegetais políticos como Corbyn. Hão-de amargá-lo. Pela parte que me toca, disponho hoje de mais um país aonde não ir, do qual não quero saber e cuja existência pretendo esquecer. Essa parte do mundo limita-se agora a constituir uma triste adjacência da Escócia, o único sítio da Grã-Bretanha onde as pessoas parecem não ter ensandecido.

O que fazer amanhã? Que tal ver esta exposição fotográfica?



Talvez o nome do artista possa surpreender alguém. Trata-se apenas, porém, de uma persona fotográfica que corresponde ao autor de uma modestíssima obra que ocasionalmente se apresenta em público e que não gostaria de ser demasiado confundido com o indivíduo que escreve este blogue, com aqueloutro que redige livros e, muitos menos, com o palhaço que imaginou um mundo em que o jornalismo seria uma actividade útil e merecedora de respeito.

A exposição, conforme explica o texto que este Jorge Irasagarra escreveu para o catálogo, reúne uma selecção de imagens produzidas ao longo de trinta anos, de acordo com um conceito estético e ético, e, sobretudo, com uma certa ideia nostálgica da arte fotográfica.

A opção por um nome fotográfico diverso do comum prende-se com a vontade de que estas imagens possam ser apreciadas (ou não) apenas por aquilo que são, libertas, tanto quanto possível, dos juízos apriorísticos que o indivíduo por trás da máscara possa suscitar ou justificar. São, no fundo, somente fotografias captadas e escolhias por alguém que aprecia esta arte e que procura praticá-la de uma forma honesta, pulcra e sem grandes pretensões.

Uma nota ainda sobre o título da exposição: "Apenas um pouco tarde" foi o titulo de um dos primeiros blogues que mantive. Agora como então, a apropriação destas palavras não pretende mais do que recordar e homenagear o Manuel António Pina, cuja presença e reflexão diária continuam a fazer-nos tanta falta.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Os sacanas do chineses, pá

Um indivíduo cuja atividade consiste em ser assistente do incontinente da Casa da Branca veio a Lisboa prevenir-nos para os perigos da tecnologia chinesa. Curiosamente, as únicas tecnologias comprovadamente usadas para roubar dados pessoais e para espiar e enganar indivíduos são de origem norte-americana (sim, a Google, a Apple e o Facebook, conforme ficou demonstrado pelas revelações de Edward Snowden e pela manipulação de massas levada a cabo durante as eleições norte-americanas e brasileiras).

De passagem por Lisboa, o criado de Trump reuniu-se também com um personagem que está no governo de Israel quase ininterruptamente desde 1996 e que enfrenta acusações de corrupção desde 1997, desrespeitando regularmente várias resoluções da ONU. Lidera também uma das mais eficazes máquinas de espionagem do mundo. Um aliado estratégico.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Campanhã

Por motivos que não vêm ao caso, tive ontem de apanhar um autocarro para a parte mais remota da freguesia de Campanhã, no Porto. A despeito das sucessivas promessas de transformação deste arrabalde feitas por sucessivos presidentes de câmara (Fernando Gomes, Rui Rio, Rui Moreira), Campanhã continua essencialmente igual: os autocarros velhos circulam por quelhas onde mal conseguem fazer as curvas, rasando pequenas casas degradadas, escombreiras e um mato selvagem, plangente sob a chuva e as ventanias de novembro. Há, é verdade, avenidas novas, bairros sociais em obras de camuflagem, um parque urbano, wi-fi. Mas, trinta anos depois, Campanhã continua tão periférica, triste e abandonada como era, mais apartada da cidade e da urbanidade do que a maior parte das vilas do interior.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Doutor cara-de-pau

Foi necessária a tragédia de uma criança nascer sem rosto para que a Ordem dos Médicos notasse que tem milhares de processos disciplinares a que não deu resposta, alguns dos quais relativos ao médico que faz ecografias em menos de cinco minutos. No fundo é tudo perfeitamente normal. O bastonário da Ordem tem estado demasiado ocupado a aparecer na televisão para denegrir o Serviço Nacional de Saúde. Agora que a campanha eleitoral terminou, pode ser que o doutor Guimarães trate daquilo que realmente lhe diz respeito.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Grande Chico

Fiquei genuinamente feliz quando soube que o Prémio Camões de 2019 havia sido atribuído a Chico Buarque, que já era, pelas incríveis letras das suas canções e pela dramaturgia, um grande autor de língua portuguesa mesmo antes de ter escrito Estorvo, o seu primeiro romance.

Soube-se ontem que o energúmeno que é presidente do Brasil se recusa a assinar o diploma de atribuição do prémio. Chico respondeu que se sente duplamente premiado. Grande Chico. Enquanto o ignaro for presidente, nenhum escritor distinguido com o Camões deve aceitar menos do que isto.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Oblomov

Iliá Ilich Oblomov, a personagem de Ivan Goncharov, não foi sempre este lendário preguiçoso, apático e indolente, que vegeta na cama do seu apartamento na Rua Gorókhovaia ou que, quando muito, se arrasta até ao sofá embrulhado no robe de seda. Houve um tempo em que Oblomov teve um emprego e chegou ao ponto de aí executar os trabalhos que dele naturalmente se esperavam, os quais se via obrigado a desempenhar "sempre com muita pressa", num afã. "Quando vou eu viver? Quando vou eu viver?", perguntava-se. Livre do trabalho e com todo o tempo à sua disposição para se dedicar a viver convenientemente, Oblomov não faz, todavia, nada que preste, incapaz de dar qualquer uso útil às horas e aos dias. Procrastina, preguiça, filosofa em vão, medita. Mas em nenhum momento se sente ignóbil e indigno por não fazer a ponta de um corno.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Mil seiscentos e cinquenta escudos

Reabro, quase trinta anos depois, um livro que li no final de 1991 ou no início de 1992. Ao contrário do que acontece com a maioria dos alfarrábios daquela época, este ainda tem um papelinho colado na primeira página, uma espécie de destacável onde, escrito a lápis, ficou assinalado o preço do livro: 1.650$00. Mil seiscentos e cinquenta escudos. Às vezes tenho a impressão que ainda ontem as coisas se vendiam e compravam em escudos. Mas já foi há muito tempo.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Memória postiça

Li, entre ontem e hoje, Rostos na Multidão, o livro da mexicana Valeria Luiselli que a Bertrand Editora publicou em 2012 em Portugal. Enquanto lia, tudo me pareceu novo, como se de uma primeira leitura se tratasse. Procurando no blogue, acabo, todavia, de confirmar que havia lido o livro em 2012, no primeiro semestre, e que o inclui entre as minhas 15 melhores leituras daquele ano (no terceiro lugar). Mas não guardei disto qualquer memória própria. Fico inquieto. Percebo que já não virá longe o dia em que aquilo que escrevi no blogue será a minha única ligação com a realidade e com o passado; e que o Teatro Anatómico será, então, apenas uma memória postiça e muitíssimo incompleta, o fumo da cigarrilha dissolvendo-se no nevoeiro.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Contar ao mundo

Nenhum dos principais meios de comunicação social portugueses escreveu uma noticiazeca que fosse  a propósito da exposição "Tell the world about us", do norueguês Rune Eraker, patente desde 13 de julho no Centro Português de Fotografia. O conjunto de imagens exibidas, assim como as histórias que revelam, são, todavia, matéria de interesse público, ao qual acresce a qualidade estética e artística das fotografias.

A escassa divulgação da exposição (creio que só o Jornal de Negócios lhe dedicou alguma atenção) pode ser atribuída a um de três motivos:

- os jornalistas estão distraídos;
- os OCS esqueceram aquela que devia ser uma das suas mais nobres funções;
- o Centro Português de Fotografia não dispõe de um serviço de assessoria de imprensa que faça os telefonemas necessários para que os senhores funcionários dos órgãos de comunicação social descubram o "interesse jornalístico" daquilo que está debaixo dos seus mui empertigados narizes.


sábado, 24 de agosto de 2019

Rua do Mestre Jorje

Certas coincidências são maravilhosamente inexplicáveis.
Quando escrevi Uma Mentira Mil Vezes Repetida, imaginei que Oscar Schidinski se havia abrigado  por três noites em Castelo de Vide, "numa casa de criptojudeus da Rua do Mestre Jorge" (ou Jorje, conforme indicam as placas toponímicas nos dois extremos do casario). Apenas conhecia a rua de passagem e estava longe de imaginar que viria a ser ali uma das minhas moradas.

 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Justino (ou a nova idade das trevas)
















O anúncio classificado do Sr. Justino, publicado numa das edições desta semana do Jornal de Notícias, não é, em si mesmo, um problema. Em todos os tempos houve, há e haverá gente ignorante e supersticiosa. A grande novidade reside no facto de estas pessoas terem perdido a vergonha de serem o que são e de até fazerem questão de alardeá-lo, mesmo recorrendo a algo tão fora de moda como um anúncio classificado na imprensa escrita, num momento histórico em que qualquer rede social garante muito maior audiência para qualquer dislate que se queira proclamar. O atrevimento não espanta, porém. No tempo em que vivemos, mesmo os energúmenos mais ignorantes podem aspirar a ser presidentes de um país grande.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Entre aspas

No conto O Imortal, que abre O Aleph (de 1949), Jorge Luis Borges escreveu que "se diz entre os etíopes que os macacos deliberadamente não falam para que não os obriguem a trabalhar". 
Gosto muito da frase e nem sequer é a primeira vez que aqui a cito.
Reparei entretanto, ao reler os Contos Argentinos que Borges organizou para a coleção A Biblioteca de Babel, que o primeiro conto dessa colectânea, Yzur, de Leopoldo Lugones, publicado em 1906, inclui a seguinte passagem: ..."os naturais de Java atribuíram a falta de linguagem dos macacos a abstenção e não a incapacidade. Não falam, diziam, para que não os façam trabalhar".
Na introdução que escreveu para os Contos Argentinos, Borges sublinha "a influência de Edgar Allan Poe e Wells" no conto de Lugones. Não me recordo, todavia, de alguma vez ter lido qualquer referência às influências de Leopoldo Lugones na obra de Borges, a quem, verdade seja dita, a mais elementar decência nunca permitiu que alardeasse uma originalidade inatacável. Numa entrevista à RTA, em 1985, quando o jornalista comenta que esteve a reler a sua literatura, Borges interrompe-o. "A minha literatura entre aspas...", diz. E mais adiante: "Eu não gosto do que escrevo".

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Devia ser obrigatório

Devia ser obrigatório afixar a crónica de hoje do Ricardo Araújo Pereira, na Visão, em todos os locais públicos de todos os países, e publicá-la nos manuais escolares, e servi-la com a sopa às criancinhas; e enfiá-la depois pelo bucho dos adultos que ainda encontrassem motivos para continuarem a ser idiotas racistas e intolerantes.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Uma pequena morte

Recordo o sonho de modo vago e confuso: numa sala que não sei localizar, o chão estava pontilhado de aves mortas. Os pássaros, muito coloridos e predominantemente vermelhos, e disto lembro-me com clareza, lançavam-se em vôos rápidos de encontro a uma vidraça, um de cada vez, o que fazia cogitar que se suicidavam de modo deliberado e não por um qualquer acidente ou equívoco. De manhã, quando acordámos, havia um pequeno pardal cinzento tombado no chão do terraço, evidentemente morto como um sonho que não voltará a alçar vôo.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Tempo Contado

O José Rentes de Carvalho, a quem tenho o gosto de ter abraçado, como amigo, uma mancheia de vezes, começou a escrever um blogue em 2007, quando a maior febre da blogosfera, e a mais inocente, havia já passado. Pelas minhas contas, o José Rentes está quase a fazer 90 anos e constato que continua a escrever quase todos os dias, e de modo admirável, lá no seu Tempo Contado, provavelmente indiferente a uma série de coisas que a mim me amofinam ainda bastante, mas sobretudo isso, vivendo e escrevendo com a tranquilidade que suponho só estar acessível a quem ignora a pressa e o fascínio das vaidades transitórias. É um exemplo, o José Rentes; um herói de carne e osso a quem posso admirar sem cuidado ou moderação. Ainda havemos de voltar a abraçar-nos muitas vezes.