Um autor que, nos próximos tempos, não deverá, de certeza, ser de leitura obrigatória ou facultativa nas aulas de Português do Secundário é Ferreira de Castro. O seu romance Emigrantes poderia, por exemplo, levar os infantes e as moças nacionais a descobrir que um migrante é apenas um homem que transita «de Norte para Sul, de Leste para Oeste, de país para país, em busca de pão e de um futuro melhor», «de olhos postos na luz que a sua imaginação acendeu, enquanto os mais ladinos, aproveitando todas as circunstâncias favoráveis ou criando-as até, fazem oiro com a ingenuidade dos ingénuos».
Não querendo vossas excelências arriscar o trabalho de ler o livro completo, peguem nele onde o encontrem e leiam, pelo menos, o Pórtico que lhe serve de prefácio desde a quarta edição, ao qual subtraí as palavras precedentes. Pode ser que se comovam como eu me comovi, sendo embora certo que nada comove os imbecis xenófobos (e que também nada os demove da estupidez ou da cegueira).
Conto, já agora, uma conversa a que recentemente assisti num restaurante, envolvendo uns matarruanos bem aprumados que, pelos vistos, são empresários da construção ou algo assim. Dizia um que «os cabo-verdianos são burros, mas trabalham», ao que outro acrescentava que, se o primeiro quisesse, mandava vir amanhã cinco angolanos, fazendo crer que dispor de tal mercadoria é a coisa mais trivial do mundo. Não é difícil imaginar, pela aragem, em quem votaram e votam tais cretinos, nem adivinhar quem enche os bolsos com o trabalho árduo dos tão malquistos imigrantes.