A fazer fé nas notícias das últimas semanas, há empresários e associações empresariais a organizar manifestações e marchas lentas de camiões nas auto-estradas (com bandeirinhas da pátria e tudo, vi-os eu um destes sábados em Espinho). Trata-se de uma consequência dos preços pornográficos dos combustíveis, os quais têm como causa próxima as guerras na Ucrânia, em Gaza e no Irão, relativamente às quais nenhum empresário ou associação empresarial moveu um músculo (para não falar do silêncio cúmplice e da cumplicidade cínica do governo e dos partidos que não sejam perigosas agremiações de extremistas de esquerda).
Mas os preços elevados dos combustíveis e da energia (e, consequentemente, os preços de quase tudo) têm também uma causa estrutural. Chama-se capitalismo (facção selvagem liberal radical, a mesma que, em Madrid, expulsou Maricarmen da casa em que vivia há 71 anos) e explica porque motivo a actual conjuntura tem feito crescer brutalmente os lucros de certas empresas e associações empresariais, as quais obviamente não protestam, não lhes passa sequer pelas cabeças tal loucura.
Não obstante, nenhum dos empresários e das associações empresariais que estão a vociferar contra os preços do gasóleo se lembrou, antes ou agora, de organizar também uma manifestaçãozinha contra o capitalismo. O capitalismo é amigo dos empresários e das empresas. Excepto, claro, quando também lhes toca pagar os lucros alheios - coisa que, aliás, qualquer cidadão comum está habituado a fazer mais ou menos 24 horas por dia e durante uma vida inteira.
