segunda-feira, 6 de abril de 2020

Aquilo que é realmente importante

Este é o tempo, segundo o marketing de alguns grandes conglomerados financeiros, de dar atenção àquilo que realmente importa: a família e aqueles que nos são mais próximos, o denodo de quem continua a trabalhar para que os outros madracem, os belos sentimentos, o altruísmo, os valores da solidariedade, a poesia no final dos telejornais e a protecção da saúde de todos. Este é o tempo, escuta-se a toda a hora, de reinventar o nosso modo de vida, tão depredador e consumista. Há-de ter sido esta fundamental consciência do verdadeiro cimento da vida em sociedade que levou os vigaristas encartados e outros operadores económicos, particularmente os grossistas de material sanitário, a criar burlas totalmente novas e a inflacionar os preços das máscaras cirúrgicas, dos desinfectantes e de outros produtos especialmente procurados neste período pandémico, cujos preços subiram 400, 500 e até dois mil por cento. Trata-se, bem vistas as coisas, de instituições geridas por pessoas que também têm família e que, findo o estado de emergência, carecerão de um chalé novo no Algarve ou, vá lá, da tranquilidade absoluta e do descanso livre de impostos que proporcionam as instituições financeiras dos Barbados ou do Belize. Fique em casa e não atrapalhe quem está a trabalhar para o próximo — para o próximo Maserati, por exemplo.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O baile das drosófilas

Encerrado em rigorosíssimo isolamento social, disponho agora de todo o tempo do mundo para observar as moscas — silenciosa companhia e distracção do meu confinamento. Entram-me em casa a cada manhã, assim que franqueio as janelas para arejar os espaços domésticos, e retiram-se impreterivelmente ao final da tarde, guiadas pela luz ou pelo ar fresco (hipóteses de trabalho que carecem ainda de estudo mais aturado e posterior validação científica). Enquanto beneficiam da minha companhia, e eu da delas, produzem uma espécie de bailado irregular, ora lento, ora frenético, o qual parece misteriosamente obedecer às mais insignificantes reverberações atmosféricas. Enleiam-se umas nas outras e depois afastam-se sem nenhum motivo aparente, embora, creio, a sua agitação dependa substancialmente dos ruídos do ambiente e das mais subtis modulações sonoras. Por exemplo, pairam amenamente durante grande parte dos discursos presidenciais explicativos da emergência pandémica, mas sobressaltam-se quando o presidente sublinha certas palavras da alocução, como desafio, doença, pátria ou morte. Fico, pois, a vigiar atentamente estes mínimos movimentos das moscas, as alterações do seu humor, umas vezes atento como um mocho, outras vezes entorpecido, como hipnotizado pelo lento baile das drosófilas, perguntando-me se os insectos que me visitam se revezam apesar do observador ser sempre igual.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Mês europeu sem carros

Quando, em 2000, a União Europeia adoptou o Dia Europeu Sem Carros, nascido três anos antes em França, Greta Thunberg ainda nem sequer havia nascido. Pretendia ser uma iniciativa de consciencialização ambiental, uma forma de começar a salvar o mundo em que vivemos, já então severamente ameaçado, mas o efeito da campanha jamais alcançou resultados sequer comparáveis com o panorama limpo de que agora, por força do alarme pandémico, se desfruta em tantas e tantas cidades da Europa e do mundo, nas quais quase não há carros, gente ou qualquer tipo de actividade que justifique as fileiras de grandes edifícios cercando as avenidas e auto-estradas demasiado anchas para tão pouco trânsito. É, de algum modo, como se a Humanidade considerasse absolutamente urgente salvar-se a si própria, continuar a viver e triunfar mais uma vez sobre a finitude e sobre cada nova ameaça de morte que se lhe depara, sem ponderar no paradoxo que será continuar a existir sem que haja também um planeta em que lhe seja possível habitar. Nestes dias, e de uma forma sem paralelo, o Homem trava, assim, um combate indómito pela sobrevivência, uma inédita batalha contra a morte e o fim. E, todavia, vamos provavelmente continuar a viver e a perder tempo em coisas inúteis como se, de algum modo, nos fosse permitido viver para sempre.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Cerco do Porto

A cidade quase vazia não vai, afinal, ficar rodeada por uma cerca sanitária semelhante à exigida pelo sempre excitado Malheiro, provavelmente convencido da futura utilidade eleitoral de tanta efervescência. Segundo me contam, aliás, uma rádio local ovarense não encontrou nada melhor para ocupar o domingo do que entrevistar em directo para as redes sociais a irmã do jovem atleta de Ovar que faleceu de meningite, contribuindo deste modo para aumentar o pânico e o medo relativamente à doença pandémica de que o rapaz acessoriamente padecia. Demonstrando que nem sempre é muito útil contar os tombados em combate enquanto ainda dura a refrega, nem reagir com histeria e precipitação a cada sopro do ar, comprovou-se também que os número que justificariam o novo cerco do Porto estavam, afinal, errados — o que só escassamente nos sossega. Acossados por um muro de ruído que tão depressa produz  uma informação como o seu exacto contrário, os cidadãos dificilmente são capazes de saber ao certo no que podem e devem acreditar ou levar a sério, encerrando-se e enclausurando-se em grutas sombrias governadas ora pela frenética ilusão das sombras mediáticas, ora pela dúvida, ora pelo medo. Nada, pois, como sair para apanhar algum ar fresco e caminhar socialmente isolado, meditabundo e um pouco louco. Aqui como na Alta Bretanha, lá longe, o ar continua cortado pelo vôo belo das pegas-azuis e pelo trânsito das nuvens que não conhecem a insanidade das barreiras, dos muros e dos cercos.


terça-feira, 31 de março de 2020

Lavar as mãos

Há na cidade um enorme silêncio, creio que já o escrevi, e também alguma coisa que faz pensar nas paisagens desoladas, de ruína, que W.G. Sebald descreve em alguns dos seus livros. Sobretudo agora que o céu se pôs cinzento como nas paisagens e nas charnecas do Suffolk, e, conforme escreveu Marguerite Poradowska, a tia de Konrad, a vida se assemelha a uma tragicomédia em que cada qual tem de desempenhar o seu papel. "Beaucoup de revés, un rare éclair de bonheur, un peu de colère, puis la désillusion, des années de souffrance et la fin".

Confinado bufão, releio Sebald e, conforme os melancólicos pescadores de solha que acampam a sul de Lowesoft, desejo também assentar num sítio onde tivesse o mundo atrás das costas e na frente apenas o vazio: um rincão onde não chegasse o silêncio da cidade esvaziada pelo alarme pandémico, a histeria ruidosa e incompreensível dos alarmados de serviço, as torpezas de sempre e certas histórias tristes, como a notícia de que a filha de um homem decente acima de todos os outros ganha a vida a fazer limpezas no Luxemburgo e apenas se tornou visível à custa das consequências do surto covídico, as quais, bem se vê, nunca são iguais para todos.

Também, como Sebald, não sei muitas vezes por que continuo a escrever, "se por mero hábito ou por procurar prestígio, ou porque não aprendi a fazer outra coisa, ou por a vida me deslumbrar, por amor à verdade, por desespero ou por indignação, tal como não sei se escrever me torna mais sensato ou mais tolo". Esta manhã, caminhando insensata e transgressivamente numa avenida vazia, parei para ver uma mula a comer as florzinhas brancas e primaveris que nasceram na erva da beira do passeio. Algo deslumbrado com a tranquilidade do animal e completamente tolo, isto é quase certo, lembro-me do que diz a filha de Salgueiro Maia, do orgulho que tem no trabalho limpo que faz, e penso nos ofícios porcos de certa gente que passa a vida remexendo em lixo e lodo e apenas metaforicamente suja as mãos ou os brancos punhos das camisas.

Outra vez cogito que as pessoas com orgulho no seu trabalho, briosas da tarefa bem feita, não necessitam de que as aplaudam da varanda ou de serem protagonistas das campanhas de relações públicas dos respectivos patrões. Hão-de, suponho, preferir que as tratem dignamente e que dignamente lhes paguem o essencial trabalho que asseadamente executam. Vivêssemos todos assim e não seria preciso lavar as mãos tantas vezes.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Acabar com a tosse

Não tenho hoje vontade nenhuma de escrever uma nova entrada nesta espécie de diário pandémico, desde logo por ter despertado com a chuva percutindo nas janelas e não ter assim tanta graça ficar em casa por força deste vento daninho. Nem à varanda se está a gosto, pois nenhum sol vem aquecer a meditativa fruição da cigarrilha. As ruas, de resto, estão ainda mais vazias do que tem sido costume, varridas pela ventania e mais tristes, se é possível imaginar ainda alguma coisa mais inóspita do que uma cidade sem gente. Escasseiam mesmo os indivíduos passeando os seus animais domésticos e as inevitáveis neuras do confinamento, o que há-de regozijar bastante os rigorosíssimos fiscais da pandemia. Impossibilitados de cumprirem a sanitária função de controladores e bufos dos cidadãos que passam demasiado tempo a passear a trela e daqueloutros que, pasme-se, descobriram repentinamente os benefícios do exercício físico apenas com o fito de ludibriarem as autoridades, a brigada SS da pandemia há-de agora estar a aborrecer-se muitíssimo. Estou certo, porém, de que encontrarão rumores e notícias falsas suficientes para manter acesa a chama da partilha de imbecilidades nas redes sociais, o que provavelmente os distrairá do mundo real e, desde logo, do caso daquele horroroso viajante a quem foi tirada a tosse no aeroporto de Lisboa ainda antes de que algum sintoma covídico nele se manifestasse. Talvez os fiscais do isolamento social não tenham também reparado que, nas últimas 24 horas, o aumento do número de novos casos da doença em Portugal corresponde a um crescimento de apenas 7,5%, muito abaixo, creio, das expectativas mais optimistas. Embora os jornais, noticiários e programas de entretenimento se comprazam em dar voz a gente para a qual tudo estará sempre à beira da catástrofe e da ruptura, do caos e do apocalipse, tenho a sensação de que, bem vistas as coisas, as autoridades sanitárias competentes e o tão denegrido Sistema Nacional de Saúde não estarão, afinal, a dar assim tão má conta deste recado. Mas isto, se calhar, é uma coisa só minha. Já sabem que sou um bocado maluco.

domingo, 29 de março de 2020

Pega rabuda

Calmai-vos, cafajestes. O título desta humilde prosa pretende apenas prestar tributo a uma bonita ave que tem vindo visitar o deserto da praceta, depenicando aqui e ali antes de alçar vôo num assombro de penas negras, brancas e azuis. Pode parecer assunto de pouca monta, mas a pega-rabuda faz muitíssima companhia aos confinados com fracos pretextos para andar na rua a tentar romper os cercos policiais e que, por isso, se deixam ficar na varanda a tragar o fumo das últimas cigarrilhas e a tomar o sol que aqui chega enquanto as árvores se vão cobrindo de folhas novas. A despeito da pandemia e do alarme instalado, a Primavera mantém intactos os seus naturais encantos e os melros continuam a acamaradar nos galhos indiferente ao susto pandémico.

Por falar em galhos, lembro-me daqueles em que, tão coloridos, costumam medrar os limões. Os dois espécimes que alguém gentilmente me deixou à porta de casa estão, como creio que importa ao rigoroso cumprimentos das normas sanitárias, a cumprir o período obrigatório de quarentena compulsiva, na medida em que não estou em condições de garantir que se tratem de frutos nacionais, nados e criados em solo pátrio e, por isso, isentos de vírus estrangeiros. A própria garrafa, alegadamente de origem escocesa, manter-se-á proscrita e sujeita a um férreo regime de isolamento social, não suceda, conforme me foi já sugerido, ser parte constituinte de uma pérfida bomba de covid, uma granada pandémica destinada a deflagrar entre as minhas mãos, tão ingénuas e incapazes de se precaverem contra os inimigos invisíveis que se amoitam sordidamente, à espreita, a cada passo, a cada instante, da ocasião propícia para envenenar o sangue deste trágico escriba sem remuneração.

Não deixo, bem entendido, de estar grato e reconhecido ao autor ou autores da mui generosa oferenda, quais reis magos da caverna onde me refugio. Mas é como diz um vizinho meu que até deixou de correr nos montes, equipado a rigor, e que agora só abandona o pulcro esconderijo do lar para trazer um detalhe canídeo a obrar na rua: é preferível não correr riscos desnecessários. O seguro, já se sabe, morreu de velho e não consta que tenha contraído o bicho ruim que agora por aí transita.


P.S.: o atentíssimo Jornal de Notícias anuncia hoje, ao menos na sua versão online, que, em França, o Covid-19 fez a primeira vítima entre a realeza. Talvez valha a pena que alguém informe o matutino de que a França é uma república há já algum tempo. E por falar em monarquias: como estará a saúde do rei dos frangos?

sábado, 28 de março de 2020

Desinfecção e gratidão

Respiro agora um ar puríssimo quando corro pelas ruas da cidade. Encho os pulmões em grandes sorvos e também os olhos com as vistas quase completamente desimpedidas dos turistas e dos indígenas que costumavam atravancar-me os caminhos mais apertados. Posso usar o asfalto sem carros para correr, dono do espaço e do tempo, do vento e dos reflexos na água do rio. Atravesso as pontes sobre o Douro, de uma margem para a outra, e desfruto como nunca de uma vista de pássaro, limpa. Devo, de algum modo, agradecê-lo ao vírus que aí anda, pois de outro modo não beneficiaria desta plenitude, desta cidade ancha e bela, nem provavelmente dos leitores que tenho, estejam eles onde estiverem. São poucos, é certo, mas são os melhores leitores do mundo. E tenho provas. Hoje, ao regressar a casa, alguém que havia lido o meu lamento gemebundo de constipado, o queixume pela má qualidade do whisky que comprei e pelo esquecimento dos limões para a suadouro, teve a extrema simpatia de me deixar à porta uma garrafa de J&B e dois citrinos de aspecto impecável. Da minha caverna de pessimista recalcitrante acendo, pois, um círio de ilusão e envio um abraço simbólico — distante e isolado como convém, mas profundamente grato ao portador daqueles dois produtos capazes de garantir, agora sim, a eficiente desinfecção, interior e exterior, deste alquebrado animal pandémico. Prometo, naturalmente, não abusar de tamanha generosidade nem passar a publicar no Teatro Anatómica a lista completa das minhas compras de sibarita pelintra.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Vamos ficar todos bem?

Graças a uma tradução infeliz do original italiano (andrà tutto bene), as janelas do prédios e alguns outdoors municipais vão-se enchendo com cartazes naif assegurando que "vamos ficar todos bem", enfeitados por arco-íris pintados por crianças aborrecidas. Trata-se, bem vistas as coisas, de uma forma relativamente eficaz de ocupar alguns minutos do isolamento social com os velhos e ultrapassados trabalhos manuais e também um modo de manter o ânimo com pensamentos positivos, que bem são necessários, por muito que os cartazes não consigam garantir a vida eterna aos enfermos ou o emprego àqueles que o vão perdendo. Sendo óbvio que nem todos vamos ficar grande coisa e que até há gente morrendo por vários motivos, é possível que, no fim do alarme pandémico, a normalidade regresse e fique, afinal, tudo apenas tão bem quanto seja possível.

Para além do otimismo pandémico, outra das tendências destes dias de emergência é o reconhecimento do trabalho realizado pelos heróis que mantêm a funcionar os serviços básicos da comunidade. Há, claro, os aplausos à janela para o pessoal médico, mas também se vão produzindo belos anúncios publicitários de homenagem aos funcionários dos supermercados, aos agentes de segurança pública, aos agricultores que continuam a produzir alimentos, às operários de fábricas que se mantêm abertas e aos trabalhadores da limpeza urbana, só para referir alguns exemplos. Alguns destes tocantes momentos mediáticos são, refira-se, pagos a empresas de marketing e publicidade pelos mesmos grupos económicos que consideram razoável que um trabalhador tão essencial e heróico viva um mês inteiro com 650 euros de ordenado (ou pouco mais). Ou muito me engano ou também estes denodados trabalhadores acabarão por não ficar todos assim tão bem no momento em que a vida regressar às ruas. Vão continuar tão mal pagos como agora e, nalguns casos, a ser despedidos ou ameaçados por terem sentido a urgente necessidade de fazer xixi durante os inflexíveis horários laborais que lhes são impostos.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Ansiedade

A ansiedade, pois. Estou oficialmente constipado e temo, por isso, sair à rua e ser interceptado pelas autoridades, identificado, multado e recambiado para o local ermo onde estarão internados os suspeitos de covid, gemendo como as almas penadas do inferno nos trípticos de Bosch. Pinga-me o nariz e apenas me apazigua saber que fui ainda a tempo de adquirir num supermercado uma garrafa de péssimo whisky de marca branca, produzido não sei onde na Escócia, talvez com cereais de verdade ou aguarrás. Devia, em todo o caso, ter desconfiado quando o homenzinho que me seguia na fila para a caixa comentou, provavelmente convencido de que o não escutaria, que é muito bom desinfectar as mãos com whisky. Pode ser que chegue a experimentá-lo, de modo a poder erguer diante do rosto, em minha defesa, um par de mãos pulcríssimas e incapazes de transmitir miasmas ao comum da população. Entretanto bebo o whisky tão ruim e recordo-me das palavras de Tongoy, a personagem de Vila-Matas, quando refere a existência de uma cidade localizada numa colina a sul de Oz, a sul da estrada dos tijolos amarelos, para onde vão viver os habitantes de Oz que "manifestam sintomas de se transformarem em choramingas", preocupados com perigos imaginários e "obcecados com os desastres que poderiam acontecer se o que imaginam se chegasse a verificar". Inquieto, ansioso e desassossegado, e também um pouco pessimista, constato que me esqueci de comprar limões para o suadouro que me cura as maleitas respiratórias. Em compensação, porque alguma coisa boa hei-de ser capaz de fazer, trouxe do supermercado papel higiénico suficiente para limpar todo o muco que me escorre do nariz.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Testar, testar, testar

Que refrescante foi ver a filha da doutora Fátima Felgueiras a descer ao subsolo do jornalismo real para participar numa conferência de imprensa e mostrar aos colegas que não se sente obrigada a respeitar as mesmas regras a que os outros se submetem, que imbecis são estes jornalistazitos que vão todos os dias aos ministérios fazer perguntas de forma ordeira e educada, incapazes de conferir ao acontecimento o subtil dramatismo que insinue a iminência de uma pérfida conspiração governamental. E que agradável foi ver os outros órgãos de comunicação social a obedecerem à agenda da moça pesporrente e a darem todos a mesma notícia, a organizarem fóruns para que o cidadão comum possa dizer larachas à vontade e demonstrar que a estupidez e a ignorância são, efectivamente, as coisas mais bem distribuídas do mundo.

Desconheço, claro, se os testes feitos à Covid são suficientes, razoáveis, racionados ou racionalizados. Não sou médico nem tenho de gerir o caos decorrente da pandemia e da histeria exaltada dos jornalistas. Mas parece-me pouco produtivo que o maior entretenimento nacional destes dias consista em dar voz a qualquer bicho careta disponível para duvidar e pôr em causa as orientações das autoridades de saúde. Não entendo, e a sério que não entendo, que um médico especialista que passou anos a estudar os vírus e o seu modo de funcionamento disponha, nos telejornais, do mesmo tempo e dignidade concedidos a qualquer Zeca que queira dizer todo o contrário sem qualquer tipo de contraditório, pois ninguém no seu perfeito juízo se detém para ponderar sobre a razoabilidade desta prática ou para questionar o agente de uma boa polémica capaz de dar emoção a uma emissão televisiva ou duas.

Também não entendo, juro que não, o jornalismo pós-moderninho e sexy que se dedica, nestes dias, a dar voz a turistas (eles preferem que lhes chamem viajantes) que ficaram retidos em países muitíssimo exóticos enquanto andavam a laurear a pevide em pleno surto pandémico. Queixam-se, os pobrezinhos, de que o governo não os repatria imediatamente e, de preferência, à custa dos outros contribuintes todos, aqueles parvos que não foram passear para a Indochina ou para a Guatemala e se têm de contentar com as filas de domingo a caminho das marginais.

terça-feira, 24 de março de 2020

Isolamento social

Ainda sou do tempo em que as expressões isolamento social ou afastamento social se aplicavam a pessoas pelo menos um pouco alienadas, vítimas de psiquismo ou, vá lá, a indivíduos incapazes de jogar com o baralho completo. Temo, porém, que o alienado agora seja eu, que me atrevo a sair de casa como os caçadores recolectores de outros tempos, para farejar e caçar algum sítio aberto onde ainda possa abastecer-me de cigarrilhas (cometendo o horrível pecado do açambarcamento). Não tem sido fácil, mas ainda não me vi privado da pura nicotina sem filtros necessária para aplacar o vício e combater a ansiedade que, dizem os especialistas, atacará os confinados da pandemia.

Quem me conhece sabe que tenho o hábito de obedecer de olhos fechados aos especialistas em maleitas do foro psíquico. Nestas ocasiões, porém, costumo também ter o sistema auditivo oportunamente obstruído por um conceito um pouco ultrapassado, mas que, no meu tempo, constituía um auxílio importante para lidar com as contrariedades e a realidade em geral. Chamávamos-lhe, nessa época remota, bom senso (embora, ao contrário do que supôs Descartes, não estivesse, já então, particularmente bem distribuído). Espero, por isso, que mais tarde ou mais cedo a ansiedade me acometa, tanto mais que fui imprudente e vi-me apanhado pelas normas do isolamento social sem ter em casa, ao menos, uma garrafa de whisky que me ajude a amortecer este calvário de horas mortas, o silêncio sepulcral da cidade. Refém do vírus, dos livros que tenho em casa e também daqueles esboços ruins que me vão ocorrendo, corro, pois, sérios riscos de, escapando ao Covid, me transformar, porém, num muito celerado doente de literatura, tal como em mais de um romance sucede às personagens de Enrique Vila-Matas.

Nem os canais de desporto me podem valer. As competições estão paradas e já vi não sei quantas vezes as mesmas etapas da Paris-Nice, os mesmos saltos gélidos do torneio dos quatro trampolins e as exasperantes repetições dos jogos do execrável Flamengo. Desamparado como estou, ainda espero insensatamente que o Atlético Paranaense dê a volta ao marcador ou que o filho da puta do árbitro corrija a decisão de marcar um pénalti totalmente inexistente contra o Corinthians num jogo que aconteceu, eu sei lá, talvez há coisa de meio ano. Pelo rumo que as coisas levam, e caso a pandemia não abrande, pondero muito seriamente pedir ao meu sobrinho que retransmita para minha casa os derbies extraordinários que se hão-de estar disputando na sua playstation.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Aprender a pedalar na era do surto pandémico

Dado que a crónica pretérita me saiu mais negra do que é costume, e quase sem ironia nenhuma, pareceu-me bem regressar precipitadamente ao precário entretém do meu isolamento social, ao menos para contar algum desses episódios bonitos que é possível observar a partir da caverna da minha varanda. Conto, pois, o caso de um vizinho que aproveitou o deserto de um parque de estacionamento quase vazio para adestrar o filho mais velho na velha arte do velocipedismo. Estava a fumar e vi: o infante foi capaz de pedalar sozinho para gáudio do progenitor, o qual, ainda incapaz de suspender o gesto que permitiria amparar alguma eventual queda, me pareceu mais entusiasmado do que a criança pedalando em círculos. Lembrei-me, evidentemente, da frase de Cortázar que compara a arte do conto a andar de bicicleta. Depois que se começa o conto, é necessário manter a velocidade e o equilíbrio, e continuar a pedalar. Para viver também.

Novo mundo

Concluída a enésima revisão de uns escritos em que esbracejo há mais de oito anos, leio no El País sobre o poema que a norte-americana Kitty O'Meara compôs para lidar com a nova pandemia, o qual se tornou, também ele, pandémico e global, contaminando o sistema sanguíneo das redes sociais. Os versos descrevem um mundo de pessoas presas em casa, lendo livros, escutando e descobrindo a própria sombra, mas também, conforme vai estando na moda, uma situação capaz de levar os indivíduos a "pensar de forma diferente" e a "criar novas formas de viver", passíveis de "curar a Terra".

Mais ou menos ingénuos, vários profissionais da proclamação espectacular e do clickbait têm aproveitado o ar do tempo para anunciar o novo mundo que há-de irromper do chão calcinado da doença pandémica — uma espécie de nova ordem mundial em que os indivíduos se descobririam mais solidários e centrados no essencial. Mal comparado, parece um sonho decalcado da estética dominante dos novos anúncios das cadeias de supermercados, esses filantropos.

Não me interpretem mal. Nada me agradaria mais do que constatar que, terminado o confinamento geral, o mundo se livrara do consumismo desbragado e da mesquinhez, dos extremismos e da estupidez, do esgotamento dos recursos terrestres e da corrupção. Receio, todavia, que o amanhã que agora cantam os otimistas de serviço nos saiam tão furados como a terra sem amos da letra d' A Internacional. Quando (e se) os países forem capazes de retomar a vida normal, é provável que haja um novo contigente de desgraçados sem trabalho nem rendimentos, estados super-endividados e economias em agonia profunda, incapazes de garantir o mais básico e ainda a braços com as troikas e FMI's que exigirão reformas estruturais e ainda mais desempregados e menos protecção social.

Quando (e se) o alarme pandémico terminar, é possível que as cidades vazias se voltem a encher de gente como agora acontece nos domingos de sol, ao menos para esquecer a regurgitação das barrigas vazias. Ninguém, então, se lembrará de como todos exigiram aos governos o encerramento das escolas e das empresas. Os mesmos que agora exigem a tropa nas ruas e medidas "mais musculadas" reclamarão, depois, a demissão dos responsáveis pela miséria e pelo desemprego. Habituados a comer, dormir e viver ligados aos computadores, os teletrabalhadores de agora talvez não sejam já capazes de distinguir a verdade das ficções e se deixem embalar, acríticos, pelas promessas securitárias dos estados de emergência em vigor por tempo indeterminado, da suspensão da democracia e da governação por decreto.

Não é futurologia: já está a acontecer em Israel e na Hungria.

domingo, 22 de março de 2020

Serviços essenciais

Da caverna onde há-de estar respeitando o confinamento geral, um amigo diz-me, por e-mail, que acordou de madrugada, ainda o dia não nascera, e que se lembrou deste Teatro Anatómico de tão pouca utilidade, tendo vindo lê-lo, suponho, para ter da realidade a visão limitadíssima deste jogo de sombras que aqui se pratica, mas não muito diferente, nem melhor nem pior, do que aquele que às grutas do isolamento nos chega pela incandescência dos telejornais e dos sites noticiosos. Constatando que, ao menos para este amigo, o Teatro Anatómico se converteu num bem de primeira necessidade nos instantes após o pesadelo que há-de tê-lo despertado a uma hora tão vespertina, lembrei-me do personagem do conto A Hora dos Cansados, de Vila-Matas: um velho que talvez seja um sacristão ou um bombista, ou apenas um indagador ocioso, um contista, o qual se dedica a recolher numa pasta "averiguações sobre a vida dos outros". Recluso do estado de emergência, às vezes privado de um singelo café, do reflexo de um raio de sol em determinado ponto da cidade, da nortada e do trânsito das nuvens sobre as ondas, não posso agora averiguar nem observar quanto quero as histórias dos outros, os seus gestos e as suas palavras. Não estando a produção de textos sem préstimo abrangida pela declaração de serviços e bens essenciais do decreto que regula o estado de emergência e nos desregula a vida, confino-me, pois, à gruta atávica da minha varanda e constato que daqui me é possível perscrutar o mundo todo neste único edifício que daqui se vê e no teatro humano que naquelas cavernas quotidianamente se encena.

sábado, 21 de março de 2020

Hábitos de higiene

Acabado de chegar da frente da guerra pandémica, do próprio coração das trevas do combate, essas ruas desertas onde se decide o triunfo ou a capitulação da pátria, lamento não ser portador de boas notícias. Todos os dados científicos apontam para que aqueles que, entre nós, forem capazes de sobreviver a esta crise, acabarão mortos algum dia, mais tarde ou mais cedo, vítimas de outra coisa qualquer ou, no melhor dos casos, da simples finitude a que estão sujeitas todas as coisas vivas conhecidas, as moscas, as estrelas ou os elefantes.

Penitencio-me no caso de ter chocado alguém com esta notícia, mas sei muito bem o quanto isso é improvável, na medida em que, praticando há tantos anos esta actividade de acesso gratuito, este escrevinhar sem sentido num blogue, nunca me tinha ocorrido transformá-la num happening de marketing, conforme agora passou a ser moda por força do tenebroso surto pandémico. Todo e qualquer bicho careta que, acostumado a cobrar, e bem, cada traque que executa, está agora transformado num fenomenal filantropo, de preferência com ashtag a reboque, #fiqueemcasa ou uma bosta do género, pelo simples facto de ter feito, uma vez na vida, alguma coisa gratuita.

Há, ainda assim, gente capaz da coerência de ser profundamente incompetente de todas as vezes que se dedica a fazer alguma coisa, seja por conta de outrem, em nome próprio, a título gratuito ou mediante pagamento. Quando, um dia destes, esta ou outra doença qualquer me apanhar na curva de uma esquina, e me couber também esticar as canelas, levo comigo, ao menos, este consolo, esta certeza de ter sido sempre muitíssimo congruente em todas as coisas que fiz, sem ter tido sequer, é o mais certo, a sagacidade de falecer de uma doença mediática.

A maior parte dos indivíduos, porém, é indiferente a estas niquices éticas. Esta manhã, lá do vasto deserto em que as ruas estão transformadas, pude constatar que os hábitos de higiene da população estão efectivamente mudados: vendo-me correr em calções e sapatilhas na sua direcção, alguns passeadores de canídeos trocaram de passeio a fim de evitar qualquer possível contágio. A merda dos cães, porém, continua a ficar no meio do chão.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Vinagre

Os elevadores do meu prédio cheiram agora a vinagre. Ao contrário do que é costume, desta vez estou a par dos motivos desta ocorrência peculiar: haviam-me contado na semana passada que circula no lodaçal das redes sociais um desses artefactos digitais virais com milhões de visualizações e partilhas, no qual um suposto especialista desacredita os produtos à base de álcool e garante que o vírus pandémico da moda pode ser mais eficazmente combatido com o uso de vinagre.

Não conheço pormenores, uma vez que mantenho um rigoroso afastamento higiénico relativamente às chamadas redes sociais. Seja como for, não me lembro de ter visto em lado nenhum instruções das autoridades de saúde, a DGS, a OMS, a EMA, o Infarmed ou a FDA, aconselhando este procedimento profilático. Suponho, todavia, que ao género de pessoa capaz de votar no Ventura, no Trump, no Bolsonaro ou no Johnsson lhe sejam relativamente indiferentes a credibilidade das fontes, os critérios de verdade e o rigor científico. Os elevadores do meu prédio passaram a cheirar a vinagre e, de acordo com as mulheres-a-dias que ainda frequentam os desertos autocarros da cidade, o milagroso líquido já esgotou nas prateleiras de alguns supermercados, sendo agora um produto tão disputado como as máscaras cirúrgicas, as luvas de látex, o papel higiénico, o atum de conserva, os ovos e o gel de álcool.

Pelas mesmas utentes do autocarro em que ontem temerariamente embarquei soube também do episódio do marido de não sei quem, que cometeu a imprudência de sair do supermercado com apenas um maço de papel higiénico, alegando que não tinha necessidade de trazer mais. A esposa, evidentemente, ralhou-lhe à frente de quem estava: "Se os outros trazem papel higiénico aos montes, nós também podemos". Ao ouvir contar a história, pareceu-me que estava também a escutar a lenga-lenga do professor Marcelo sobre os quase novecentos anos de história de um país indómito, que resistiu a muitas adversidades e que ainda há-de cá estar quando os outros desaparecerem.

Demonstrando, aliás, que não há corona capaz de ameaçar um povo disposto a lutar com denodo por um rolo de papel higiénico, num dos telejornais da noite vi um idoso quase alheio à doença do medo, acamaradando num banco de jardim e garantindo que não teme o vírus por um motivo absolutamente cristalino: ele, que ainda ali está vivo e inteiro, sobreviveu à guerra do ultramar. Já não seria pouco.  Vendo, porém, o que dizia, ocorreu-me que o homenzinho também cometeu a façanha de perdurar a si mesmo, a este país e à pandemia da estupidez que há tantos anos avança por aí sem que ninguém mova um músculo.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Confinamentos

Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua cama, metamorfoseado num monstruoso insecto. Depois é o que se sabe. O personagem de Kafka, a fim de não ter de se levantar cedo para ir trabalhar, continuou a viver confinado no seu quarto,  deitado no canto mais escuro e convencido de que se transformara em algo muito diferente de um homem, recusando-se a comer, até ser encontrado morto, com o corpo exaurido e seco, pela empregada de limpeza.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Esta cidade onde se ouvem os pássaros

Agora, na cidade, o trinado dos pássaros escuta-se a qualquer hora do dia, mais poderoso e belo do que os roncos dos motores de explosão, do que o zumbido lúgubre dos ares condicionados. É possível atravessar as ruas fora dos zebrados destinados aos peões, parar na faixa de rodagem para respirar e ver o trânsito das nuvens, meditar à toa na via pública como velhos sábios gregos alheados da realidade e da ditadura das coisas práticas. As longas avenidas estão quase vazias, como vestígios de uma civilização desaparecida. Nas esquinas, alguns cidadãos ainda se cruzam caminhando velozmente, mas já não falam, nem sequer se olham, embotados nas suas máscaras faciais, receosos do vírus que talvez circule em sítios inimagináveis e esteja, invisível, pairando no ar primaveril e limpo. São como autómatos, as pessoas, desapossadas do dom da fala, do livre arbítrio, da força da palavra. Apenas as crianças parecem desfrutar deste tempo quase morto, deste desperdício de espaço onde já quase nada se circula e vive. Pela tarde, quando a prisão das paredes se torna intolerável, os petizes vêm à rua pedalar em triciclos e saem para as varandas dos prédios. De um edifício para o outro, redescobrem o rosto dos vizinhos e a emoção das velhas batalhas navais. Oito C, dispara um do prédio em frente. Água, regozija-se o que viu o tiro cair perto de um contratorpedeiro de tinta na folha de papel quadriculado (agora inútil para as coisas da matemática). Noutra varanda, sobrepondo-se ao gorjeio dos pássaros, uma mulher explica ao telefone os procedimentos correctos para a lavagem profilática das mãos. Já que temos todos de morrer depois de amanhã, ou no dia seguinte, privados de ar puro e de vitamina C, que ao menos levemos as mãos limpas lá para onde nos quiserem conduzir os donos do estado de emergência.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Cidade vazia

A cidade parece o cenário de um filme triste, de um filme em que é possível sentir o vento roçar-se pelas esquinas. Os poucos transeuntes cruzam-se com as cabeças baixas, com os rostos protegidos por lenços, apesar de o ar ser transparente e puro, quase tão silencioso como imagino que tenha sido no princípio do mundo. Atravessei-a de uma ponta a outra em carruagens quase vazias do metropolitano, em autocarros onde é proibido passar perto dos motoristas, agora solitários e melancólicos como se conduzissem vastos camiões por estepes geladas. Caminhei à vontade por estas ruas sem carros e sem gente, pela corrente sanguínea das portas fechadas, e fui fazer análises clínicas, não estranhando já as máscaras cirúrgicas diante dos rostos, as luvas de borracha nas mãos, os gestos suspensos como que à espera que outros os executem e arrisquem o fatal contacto com os invisíveis miasmas que hão-de agora estar em toda a parte, atocaiados como coiotes, malévolos como lobos, traiçoeiros como vespas. Nas notícias, os fascistas acham que tudo isto é ainda pouco. Exigem medidas "mais musculadas" e querem fechar as fronteiras, impôr a lei marcial e ver a tropa na rua, provavelmente por terem a esperança, nem sequer secreta, de que, uma vez na rua e armada, a tropa possa ter a tentação de aproveitar para algo mais, para um daqueles golpes que antigamente depunham governos e mudavam regimes pela calada da noite, talvez escolhendo um dos muitos fantoches que já fazem fila e se acotovelam, procurando parecer o mais securitário de todos e o mais patriota, o mais musculado e o mais troglodita. Com medo de uma doença que talvez não seja muito pior do que uma gripe, as pessoas baixam a cabeça, encerram-se insensatamente em casa e batem cegamente palmas à ordem de uma qualquer corrente nas redes sociais, indiferentes já à emergência climática que estava para acabar com o mundo, à roubalheira angolana, às liberdades de Hong Kong, à destruição da Amazónia, ao terrorismo islâmico ou à nova vaga de refugiados de uma das infindáveis guerras semeadas a eito em países muito desgraçados. O público não quer ouvir nem pensar, tapa as orelhas com os punhos enluvados com látex, e exige muros, exige fronteiras armadas, exige que se faça num Estado de Direito o mesmo que fazem os ditadores chineses; o público encolhe-se a um canto à espera de que o vírus (mais eficaz do que mil terroristas) desapareça. Emboscados como crianças perdida na floresta, ameaçados por todo o tremendo ruído que o mundo produz e à espera de que o dia dissipe as sombras e não traga monstros ainda maiores, ainda mais ruins, vivemos — agora sim — com medo. Aonde vai o tempo em que nos dizia que era necessário resistir-lhe a todo o custo?