sexta-feira, 29 de julho de 2022

Viver na nuvem


Elon Musk, o milionário da Tesla, terá afirmado numa rede social que já descarregou o conteúdo do seu cérebro para uma cloud. Se se exceptuar a complexidade técnica do processo, Musk ter-se-á limitado a imitar aquilo que os ricos fazem desde há séculos: vivem como cabrões e, mesmo assim, procuram garantir um lugar no céu para toda a eternidade (seja lá o que isso for), comprando-o. 

Outrora, se bem compreendi o truque, o lugarzinho garantia-se com rezas e com doações à Igreja e às suas misericórdias. Agora, pelos vistos, o processo dispensa a intermediação da fé — da fé religiosa, pelo menos —e assenta na possibilidade tecnológica de prolongar artificialmente a vida física, depositando o conteúdo do cérebro no paraíso do metaverso, onde os bem-aventurados poderão até continuar a fazer compras digitais com criptomoedas. Compra-se espaço numa nuvem informática e já está: o cérebro, ou a sua cópia digital, continuará a existir durante muito tempo ou, pelo menos, até que alguém lhes desligue a ficha da tomada.

Não deixa de ser curioso, por outro lado, constatar de que modo se assemelham as iconografias das duas religiões. A mais antiga promete o além sob a forma de uma improvável nuvem celestial, onde os que serão salvos viverão à direita do pai e aí desfrutarão de todas as delícias. Já a recente fé na tecnologia digital mantém o imaginário da nuvem e da vida eterna, embora sob a forma de bites e bytes (gigas e teras deles) e insinuando que a bem-aventurança dependerá da quantidade de dinheiro virtual que cada um seja capaz de amealhar durante a vida terrena. 

Num caso e no outro, é a minha suspeita, os maiores beneficiários do esquema são, então como agora, aqueles que amealham em vida o dinheirinho real que resulta das respectivas devoções. Que o digam os anjinhos que entregaram os depósitos ao espírito santo (ou a criptobancos já falidos) e se acharam, no fim, com duas mãos cheias de nada. Ou os que doaram (quase) tudo à Igreja e morreram tão simplesmente como outros quaisquer.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

A inflação, quando nasce, beneficia os do costume

Ainda a procissão vai no adro, mas já ficámos a saber, no espaço de poucos dias, que os lucros semestrais da Galp mais do que duplicaram, que os ganhos da EDP chegaram aos 87% e que o grupo Jerónimo Martins registou, segundo as notícias, uma aceleração de 40% nos lucros. Fica assim mais claro a quem é que aproveita a guerra, a crise e a inflação galopante. Falta ver se, como dizia um banqueiro de muito má memória, os portugueses vão continuar a aguentar (e a pagar) o enriquecimento daqueles que já são demasiado abastados.

terça-feira, 26 de julho de 2022

Andróide aspirador


Um número crescente de pessoas das minhas relações possui, ou deseja possuir, um robô-aspirador que lhes evite a amofinação de limpar o pó. Trata-se de um disco circular com poucos centímetros de altura, o qual pode ser pré-programado com a planta das casas e se move devagar pelas divisões, deglutindo poeiras, ciscos, restos de cinza e cotões. Nada que se compare, portanto, ao assombro contemporâneo do Human One, a obra de arte de Beeple que pode ser vista num museu de Turim (e que, tendo sido vendida por 28,9 milhões de dólares, não aspira coisa alguma, embora aspire, se calhar, a revolucionar a forma como vemos as artes plásticas). Chatos, lentos, eficientes e redondos, os aspiradores dos meus amigos também não se comparam com o andróide que aspira cá em casa. Não precisa de estar ligado a uma tomada para recarregar a bateria e, às vezes, interrompe o labor para fumar uma cigarrilha, pôr um CD a tocar e ir à varanda apanhar ar fresco. É tão avançado, o meu andróide aspirador, que frequentemente se recusa a executar a tarefa que lhe cabe e vem escrever posts sem interesse absolutamente nenhum.

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Aracnofilia — uma espécie de poema

 

A que cálculo procede 
a aranha quando escolhe 
o canto da casa onde armará 
a sua teia? 

Saberá de ventos e correntes de ar, 
do plano de vôo dos mosquitos 
quando transitam por aí. 
Reunirá compêndios de aerodinâmica 
e tratados sobre a subtil 
resistência dos materiais da urdidura 
à fricção das asas de uma mosca. 

Mas não sabe nada de poesia, 
embora teça, devagar, 
pacientes poemas de seda.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Era bem bom

Indiferentes à cinza dos incêndios que paira no ar, dois taxistas da postura da Avenida da Boavista conversam amenidades enquanto esperam que os turistas comecem a sair dos hotéis. Um deles rói uma maçã para matabichar. Afasta-se para deitar o caroço no caixote do lixo e lembra-se do tempo em que, à falta de fruta, os catraios pediam esse resto de maçã quando viam que alguém se dispunha a desperdiçá-lo: "Dê-me o caroço, senhor". "E era bem bom", acrescenta. Não vejo que cara põe ao dizê-lo, mas imagino que sorri, sonhador, com essa memória da meninice, do tempo em que se roíam os próprios caroços da fruta como se de uma guloseima se tratasse. Ao preço a que a fruta agora está, penso que talvez não venha longe o momento em que voltemos a saber o bom que é comer os restos da maçã dos outros.

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Incomunicações


Ocorreu na semana passa, mas só por algumas horas, uma enorme comoção político-mediática gerada por uma decisão técnico-política que, afinal, não devia ter sido tomada e que, pecado dos pecados, não havia sido previamente comunicada a sua excelência o presidente da República. O caso foi rapidamente sanado, com puxões de orelhas para inglês ver e tudo, mas ficou no ar a evidência segundo a qual o governo que temos padece de um problema de comunicação interna (e de comunicação com o homem das selfies).

Ultrapassado o engulho momentâneo, o recente congresso do maior partido da oposição não correu, todavia, de forma a que, neste aspecto particular, se possa ter esperança numa maior eficiência comunicativa quando, e se, o governo mudar.  Senão vejamos: acabado de coroar, o novo líder anunciou, para gáudio dos canais de televisão, que iria passar esta semana inteira num concelho do interior e que assim fará, doravante, todos os meses. Realmente atenta ao que realmente importa, uma estação televisiva foi perguntar à esposa do líder se estava a par das futuras ausências do marido, ao que esta respondeu, com desarmante sinceridade, que o anúncio a apanhara de surpresa.

Esposa e líder, suponho, habitam na mesma casa e vivem em comunhão de bens e esforços, mas nem assim, portanto, ocorreu ao agora oposicionista-mor comunicar à primeira-dama da oposição uma decisão crucial e de tão grande importância, prevenindo-a, por exemplo, de que não vai tomar as refeições em casa e de que careceria de roupa engomada, coturnos e trusses lavadas, algumas gravatas, para fazer a mala e seguir para Pedrógão (Grande). Terá avisado as criadas? 

O problema de fundo subsiste, pois. Se o actual governo não comunica, o próximo, se e quando o houver, parece não cuidar muito melhor do fundamental aspecto da gestão comunicacional. Inquieta-me um pouco mais, porém, a sorte da desconhecedora consorte, e cogito se, acaso, nas longas horas e dias solitários que tem por diante, não poderá fermentar nela uma espécie de Emma Bovary.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

A sarrafusca da Ucrânia


De acordo com os telejornais da nação, tem-se verificado uma situação de caos no aeroporto de Lisboa. Há também caos nas urgências de Pediatria e Obstetrícia de vários hospitais portugueses. Em alguns aeroportos europeus a situação não é melhor: greves e caos. Perante tão hiperbólicas descrições, pergunto-me que palavra poderá ser usada para descrever aquilo que se passa nas cidades ucranianas destruídas pela artilharia e pelos mísseis russos — e receio que a guerra, um destes dias, não passe já de uma sarrafusca.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Façam lá o favor de desinventar a humanidade


Também não gosto de armas e, se dependesse unicamente do meu alvedrio, o mundo havia de ser reinventado de alto a baixo e desde o início dos tempos. Mas, confesso, provoca-me uma certa perplexidade que alguns grupos de manifestantes se juntem nas principais cidades portuguesas empunhando cartazes pela paz ou contra a entrega de armas à Ucrânia. Estão obviamente no seu direito, bem entendido, o que constitui, em si, uma liberdade actualmente vedada aos cidadãos russos. Mas queriam o quê ao certo, estes anjos da paz? A repetição do 21 de Agosto de 1968 na Checoslováquia? Os russos recebidos com flores e hinos sobre os amanhãs que cantam? E de que lado estariam estes angélicos manifestantes se, vamos supor, os EUA resolvessem amanhã invadir Cuba ou a República das Bananas? Ou se o exército espanhol atravessasse depois de amanhã as fronteiras de Valença e Elvas?

Também, garanto, sou pacifista à brava e aprecio bastante o frenesim das mánifes. Prometo, de resto, estar presente quando pudermos festejar todos juntos a desinvenção da espécie humana.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Entre guerras


Por absoluta coincidência, os dois últimos livros que li foram escritos pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. À parte este facto, História de Um Homem Comum/Coming Up For Air, de George Orwell, e Eclipse do Sol/Sonnenfinsternis, de Arthur Koestler, parecem ter muito pouco em comum. 

De um lado, um agente de seguros inglês, ex-combatente da guerra de 14-18, passa em revista o seu passado em busca de ânimo para a catástrofe que se avizinha. Do outro, um comandante partizan da revolução bolchevique que se vê transformado em inimigo e bode expiatório da ditadura de Estaline. Este enfrenta a História e o seu julgamento; aquele, o azedume mesquinho de Hilda, a mulher.

Mas talvez me equivoque e História de Um Homem Comum Eclipse do Sol tenham em comum mais do que aquilo que aparentam. A chave talvez possa ser encontrada, então como agora, numa frase de Koestler segundo a qual "uma pessoa ou se comportava com esperteza, ou se comportava com decência, as duas coisas juntas não funcionavam". Não é impossível, assim, que, quase oitenta anos depois, os dois livros adquiram uma inquietante actualidade para quem agora os leia.

terça-feira, 21 de junho de 2022

Havia de vir outra vez o tinhoso


No autocarro descendente ia grande agitação, uns por irem mui indignados, os outros nem sim nem não. Avenida da Boavista abaixo, a pessoana viagem de comboio veio-me à memória assim que entrou uma utente barafustando que estivera três quartos de hora (inteirinhos!) à espera do transporte, acrescentando que aquela linha, a 201, é uma pouca-vergonha. Algumas vozes juntaram-se ao coro e o motorista, igualmente amofinado, berrou do seu posto que o problema reside no regresso das greves e no facto de a administração da STCP não querer saber dos motoristas. Redarguiu a irascível senhora que havia de "vir outra vez o tempo do Salazar" para ver se os choferes se punham com greves e plenários, e se não acabava logo a bandalheira. Novas vozes se ergueram para apoiar a puta da velha, a qual bradava que o passe lhe custa 40 euros, que precisa dele para trabalhar e que a empresa só quer saber de sacar o dinheiro aos utentes. A caminho também de uma reunião de trabalho, ocorreu-me, sei lá, que, se o tinhoso voltar, não haverá greves nem plenários, velhas fascistas a berrar nos autocarros ou blogues onde certos cromos escrevem o que bem lhes apetece sem terem de estar a olhar por cima do ombro para ver se algum pide os vigia. Pela parte que me toca, talvez não seja uma ideia assim tão ruim abster-me de continuar a entreter gratuitamente os democratas convictos que por aqui passem casualmente.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

A culpa é do mosquito


Ignoro, prezado e acidental leitor, estimada e queridíssima leitora, se alguma vez teve necessidade de caminhar entre milhões de pequenos mosquitos, tão numerosos que dão a impressão de estar a surgir do chão todos ao mesmo tempo, parecendo que se infiltram por todos os orifícios do corpo que se apresentem desprotegidos. Eu vou-me habituando, obrigado. 

Em Castelo de Vide é comum que, após um período de calor, quaisquer três gotas de chuva que caiam façam eclodir uma espécie muito particular de insecto na zona histórica da vila, os quais entram nas casas às centenas de cada vez que encontram uma porta ou janela aberta, qualquer frincha que seja, obrigando a grande dispêndio de mata-moscas e outros químicos a fim de impôr alguma ordem nos lares. É necessário mostrar aos mosquitos quem manda (ou, pelo menos, quem sabe onde se compram os insecticidas). Mas trata-se, em todo o caso, de um horror sem nome. Provoca-me suores (mas não sei se é por ser obrigado a fechar todas as janelas, impedido o normal arejamento do sobrado).

Tratando-se de um fenómeno natural regular e com causas relativamente bem conhecidas, estranho, às vezes, que não haja ninguém empenhado em encontrar uma solução para este incómodo: se fosse um turista de passagem pela vila, dificilmente aqui voltaria, julgando, talvez, que havia caído numa qualquer favela ou cloaca de África, sem qualquer saneamento ou protocolo mínimo de salubridade. Mas, por aqui, a coisa parece normalíssima. Os autóctones fecham portas e janelas, saem de casa para não abafar nem morrer de inalação de mata-moscas e esperam que os mosquitos desapareçam tão misteriosamente como eclodiram.

Considerando as mais recentes modas gastronómicas, cogito frequentemente se poderei passar a alimentar-me destes bichitos alados. Mas temo que o PAN condene tal prática e argumente que os mosquitos são, por mais irritantes e horrorosos que pareçam, criaturas tão divinas e perfeitas como um homem, uma mulher ou um borrego acabado de engordar.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Contingências aéreas


Seja porque os atacam enquanto ainda são pequenos, porque caiam dos ninhos, porque se suicidem ou porque o calor os fulmine em pleno voo, tenho visto vários pássaros mortos nas calçadas da vila. Só na minha rua encontrei já quatro, quase todos de tenríssima idade, no espaço de poucas horas — e nem os gatos lhes pegam, sequer aquele vadiola que sempre se refugia no matagal de uma ruína. Penso nesses pássaros, nas suas mortes, e comparo-os com as revoadas chilreantes das andorinhas cruzando o ar da vila em várias direcções, ou com a algazarra das cegonhas percutindo os bicos enquanto estão nos ninhos. Parecem animais de diferentes espécies, mas sei que a diversidade decorre apenas do facto de uns estarem vivos e os outros terem sido abandonados pelo sopro, pelo ânimo que a vida lhes dava. 

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Na vila


Que doçura de Junho! O ar corre tépido entre as paredes caiadas, a água brota das fontes e as moscas andam como entorpecidas, quase sem ânimo para ferroar os paisanos que se atrevem fora das alvenarias. A cerveja está fresca, obrigado. Abrigado à sombra amena das esplanadas nas horas de maior calor, corrijo vírgulas e espero que a canícula passe, quase tão alheio ao fel do Monte dos Vendavais como à circular trepidação das notícias. Na vila quase nunca sucede nada desde que o chinfrim das motas se extinguiu. Chegaram e partiram num ápice, devolvendo-nos ao apaziguamento deste sossego. Batem as cinco e meia na torre da câmara. Daqui a pouco os velhos hão-de sair de casa para apanhar a fresca sob as copas do jardim.

domingo, 5 de junho de 2022

God save the queen's hologram


Se bem compreendi, a festarola que mais "jornalistas" portugueses mobilizou na última semana aconteceu numa ilha relativamente longínqua, na qual as pessoas apreciam usar chapéus ridículos e dizer coisas extravagantes. Nessa festividade, a celebrada fez-se substituir nos festejos por um filme em que tomava chá com outra personagem de ficção — um urso de peluche, creio —e por um holograma em que acenava para a multidão. Posso estar equivocado, mas parece-me a metáfora mais perfeita do tempo que vivemos. Só faltou que a velha aparecesse a cavalgar um unicórnio em S. James's Park (coisa que, creio, há-de acontecer no próximo Jubileu).

El Lolo


Conheceis Manuel Bellido Moreno, conhecido entre os vizinhos pela alcunha de El Lolo? Não faz mal: é o tipo de ignorância que se resolve em duas penadas.

El Lolo foi detido na semana passada, em Madrid, por seu um dos criminosos mais procurados do país (e aquele que há mais tempo escapava às teias da lei). Quando a polícia o foi prender ao bairro de San Blas, os vizinhos reagiram em defesa de Manuel, atirando à polícia aquilo que tinham mais à mão, o que não impediu que a detenção se consumasse.

Tal como o conta o El País, e o resume a polícia, El Lolo tem 46 anos, é cigano, mede dois metros e era o maior falsificador de moeda de toda a Espanha (um crime que, bem vistas as coisas, não causa dano a ninguém).

Os vizinhos, porém, gostam de El Lolo. Estão provavelmente cansados de ouvir, ver e ler notícias de grandes filhos da puta que a lei nunca incomodou, ao que acresce o facto de o meliante oficial e agora detido ser uma jóia de um moço: arranjava móveis, estofava cadeiras, montava coisas, fazias bolos de aniversário para os catraios do bairro "e assim ganhava o seu dinheiro". Durante a pandemia, dedicou-se a ir comprar aquilo de que necessitavam os velhotes que não tinham família e a fazer os recados que lhe pedissem.

A lei e a polícia dizem que El Lolo é um criminoso daninho e esquivo. Eu acho que, mesmo sem o brilhantismo de um Alves dos Reis, El Lolo fez mais pelos seus do que a maior parte daqueles a quem os estados costumam oferecer comendas.

sábado, 4 de junho de 2022

Fruta fora de época

Dentro da folha da tangerineira está já, em potência, o perfume inteiro dos frutos que o Outono fará nascer. Se o frio tardar, se ainda é Junho e tempo de cerejas, da explosão da fresca carne das cerejas no oco da boca, aproxime-se da árvore; caminhe em torno da árvore e procure aspirar o ar que a brisa faz passar entre os galhos. Se não sentir ainda o perfume dos frutos, arranque uma folha da árvore e quebre-a com os dedos; esmague-a entre os dedos. As tangerinas, a sua memória ácida e doce, ficarão impregnadas nas suas mãos. Cheire as suas mãos enquanto come cerejas. 

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Para não complicar demasiado


Confessei há não muito tempo, em sessão pública, que cresci lendo os almanaques da Disney (os tio patinhas, conforme lhes chamávamos), o jornal A Bola e uns livritos de páginas dobradas em papel ruim, com histórias de cobóis do velho Oeste — nenhum clássico russo, nenhum Camilo, quando muito Os Três Mosqueteiros do Dumas, se bem me lembro. Mantenho, talvez por isso, uma espécie rebuscada de nostalgia pelos cenários em que decorre a acção — chamemos-lhe assim para facilitar as coisas — de Ao Longe, o tremendo romance de Hernán Díaz publicado há pouco na Livros do Brasil.

Ao Longe, para não complicar, é a história de um rapazinho sueco que se propõe atravesar o continente norte-americano em busca de Linus, o irmão perdido num porto inglês. A narrativa, precisa como um bisturí, acompanha a transformação desse moço num gigante frágil e temível, vestido com um manto que é uma composição da pele de diversos animais, enquanto vagueia pelas paisagens do velho oeste, com os seus índios, os seus shérifes, os seus facínoras, a sua existência sem lei. Cada frase é precisa como um clarão que nos transporta para outros tempos e outros espaços, redigida com a simplicidade que permite ver.

Mal comparando, Ao Longe é como um Walden em que Thoreau que abandonasse a imobilidade da sua cabana no bosque e fosse pela América arrostando a solidão e deparando-se com a inevitável incompreensão e com a brutalidade dos homens que construíram o país dos meus livros de cobóis, esse onde os recreios das escolas são como campos de tiro para toda a espécie de loucos e de fanáticos. Com uma diferença: Thoreau podia sempre regressar a casa, ao conforto de um lar; Falcão, como lhe chamam por confusão, estará sempre demasiado longe de toda a normalidade. 

Leiam-no já. Ou quando quiserem. Falcão nunca tem pressa: vive à margem do mundo, distante das cidades, alérgico ao convívio com o mais daninho dos animais — o homem.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Ele dorme, ela observa o trânsito das nuvens

Embora certos factos o desmintam, talvez não seja ainda suficientemente velho para compreender o que leva um casal com alguma idade a tirar o Mercedes da garagem e a enfrentar o trânsito da cidade para ir estacionar na marginal e ficar ali a pasmar diante do lento desaguar do rio. É, de resto, muito normal que ele adormeça diante do volante com a boca aberta e o gasganete reclinado. Acontece aos melhores — e aos outros também. Mas, e não sei muito bem porquê, enterneceu-me a senhora que esta tarde vi à sombra das palmeiras do Passeio Alegre, se calhar dividida entre o ameno roncar do marido, a tentação de assistir ao trânsito das nuvens e a necessidade de evitar ser vista com o abastado dorminhoco, desviando o olhar de cada vez que alguém passava e olhava, por acaso, para o tão triste Mercedes, para a lamentável tarde do casal sem nada melhor que lhe ocupasse o tempo.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

"Uma mensagem da parte de Deus para a tua sexta-feira" — uma crónica do autocarro


Sinto-me hoje bestialmente bem-aventurado — e não só por já ser quase fim-de-semana. Logo pela manhã, transportando os velhos ossos num autocarro dos transportes públicos, reparei na mulher cujo Whatsup (ou lá como aquilo se escreve) transmitia "uma mensagem da parte de Deus para a tua sexta-feira", a dela, bem entendido, embora, como são as coisas?, não tenha deixado de me sensibilizar também a mim que o todo-comunicativo se expressasse de modo tão comum e preocupado com o peso das sexta-feiras na vida de uma mulher-a-dias. Pude, de resto, ver as imagens da humana por cuja boca deus se expressava, embora não fosse capaz de ouvir a mensagem do altíssimo. A mensageira, para não fugir à verdade inteira, pareceu-me uma mulher que estava a tentar vender qualquer coisa, falando e gesticulando demasiado perto da câmara de um computador: tinha o cabelo pintado (decerto com divinas tintas) e parecia mercar algum tipo de banha da cobra. Pus-me, por isso, desconfiado, como é meu péssimo hábito, mas depois compreendi que a "mensagem da parte de Deus" havia sido distribuída pela conta "É graças a Ele", com maiúscula e tudo, o que permitiu afastar qualquer dúvida sobre a origem divina do comunicado. Que feliz há-de ser, pensei, a pessoa com quem deus fala directamente, se calhar pelo Whatsup, se calhar pelo Instagram, ordenando-lhe docemente que espalhe depois a sua mensagem e adoce a sexta-feira dos mortais comuns! O todo-bondoso até pode descansar ao sétimo dia, conforme as escrituras, mas é muitíssimo apaziguador saber que não se dedica à preguiça e à vadiagem sem antes se dirigir às suas criaturas através de uma mulher que talvez venda pacotes de telecomunicações e, por isso, domina as técnicas essenciais do marketing e da empatia. É ainda certo, pela hora matinal a que a mensagem estava a circular nos telemóveis, que deus há-de ter comunicado com a mulher da conta "É graças a Ele" pelo menos de véspera, talvez num fuso horário diferente, o que é um evidente sinal de esperança: se deus já só trabalhar de segunda a quinta-feira, não é impossível que também os humildes humanos venham, algum dia, a beneficiar de uma semana laboral de quatro dias, mesmo que, depois, isso não lhes permita pagar as contas todas até ao fim de mês ou dedicar-se a tarefas mais urgentes como acabar com a guerra, a fome, a peste, a Covid-19 ou a varíola dos macacos. Antes de sair do autocarro, vi que a mulher-a-dias partilhava a "mensagem da parte de Deus para a tua sexta-feira", via Whatsup, com o Zé Luís, cuja sexta-feira também há-de ter sido beneficiada pelas revelações e palavras nela gravadas pela pessoa (nem sequer agradável) com quem deus, ao sexto dia, havia decidido falar.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Cuidar do chão


Durante os poucos dias que passei no Douro, deparei-me, a cada manhã, ao abrir as cortinas do quarto, com uma mulher curvada que trabalhava no campo, derreada a abrir regos, a semear, a regar os rebentos que um dia hão-de frutificar. Os automóveis passavam na auto-estrada, ao longe, os campanários soavam, os cães do vizinho corriam no prado a reunir as ovelhas, mas a mulher permanecia imperturbável no seu labor, nos gestos ancestrais que fazem brotar vida do chão.

Regressado a casa, à tranquilidade possível de uma sala onde permanentemente se escuta o rumor do trânsito e dos aviões, dedico agora esmeros cada vez maiores às pequenas porções de terra que, em vasos, acolhem cactos, suculentas e um antúrio que não dá flores. Vigio as folhas mortas, a humidade da terra, a inclinação do sol, mas quase exaspero de não perceber se crescem, se estão firmes nas suas raízes, se a luz da casa lhes é suficiente.

Receio, por exemplo, que morra o pequeno cacto que trouxe de um jardim sendo apenas rebento. Não sei se necessita de mais água, de mais pedras aonde afinque as raízes, se o sol da manhã lhe será benéfico. Mudo-o de lugar à procura de um sítio onde me pareça que se sente bem. Mas só posso concluir que não entendo nada dos lavores da terra e que, entre Mateus e Arroios, talvez, com todo o vagar, a mulher derreada, talvez alheia ao saber de todos os livros, se esteja já preparando para colher o milagre de um tomate.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

O complexo de Onoda










Surgiram quase em simultâneo um filme (de Arthur Harari) e um livro (de Werner Herzog) que contam a história do tenente japonês Hiroo Onoda: um militar que, após o fim da segunda guerra mundial, continuou firme no seu posto, na ilha filipina de Lubang, por quase trinta anos, indiferente a tudo e rendendo-se apenas em Março de 1974, quando, enfim, conseguiram convencê-lo de que a guerra havia terminado. Penso no tenente Onoda e creio, às vezes, que os dirigentes do PCP sofrem de um alheamento semelhante e que insensatamente insistem em ignorar o óbvio: que a Rússia já não é (e se calhar nunca foi realmente) um país comunista. Talvez um dia alguém os liberte do fardo de defender a sua Lubang imaginária.

terça-feira, 3 de maio de 2022

Perder países


Era quase inevitável que me lembrasse de Fernando Pessoa e da dupla exclamação de Viajar! Perder Países! enquanto lia Grand Hotel Europa, do holandês Ilja Leonard Pfeijffer, que a Livros do Brasil publicou no ano passado, na colecção Contemporânea — não, todavia, pelas razões mais óbvias, mas por haver neste romance alguma coisa que remete subtilmente para o existencialismo pessimista daquele poema. Em quase seiscentas páginas, Pfeijffer traça um retrato irónico do continente europeu vergado ao peso do turismo de massas que invade e descaracteriza cidades e países inteiros, assim transformados numa espécie de Disneylândia para adultos, a qual simultaneamente beneficia e destrói a rica herança histórica, cultural e patrimonial de um continente com demasiado passado.

Fechado num quarto do hotel que dá nome ao romance, o narrador não se limita, porém, à oportuna reflexão sobre a situação do continente europeu e da indústria turística enquanto forma de evasão e infantilização. Grand Hotel Europa consegue também ser culto, meta-literário e auto-ficcional, uma declaração de amor à tradição cultural europeia, ter um enredo amoroso e ser um livro de aventuras, com Ilja e Clio em busca do último e extraviado quadro de Caravaggio, uma Maria Madalena fazendo penitência no deserto, que teria sido pintada pouco antes da morte do artista, em 1610.

Ora cómico, ora sentencioso, o romance não esquece outras questões relacionadas com a temática da viagem — como os fluxos migratórios de refugiados ou a florescente e inconciliável indústria das experiências supostamente únicas e autênticas impulsionada pelas redes sociais — ou com o peso que a tradição artística europeia coloca sobre os ombros dos criadores actuais. “O passado pesa-lhes, como uma carga de chumbo, nos ombros. Todos esses artistas (demasiado conscientes da tradição) começam a executar as suas obras com o pensamento paralisante de que tudo já foi anteriormente feito, executado e dito”, lê-se a dado passo.


Trata-se, pois, de um livro altamente recomendável, já considerado um dos grande romances europeus contemporâneos, cujo único senão reside numa tradução talvez demasiado literal do original neerlandês, a qual, sem uma revisão atenta, deu origem a uma quantidade excessiva de frases capazes de arranhar ouvidos mais sensíveis. Mas nem assim o livro se perde.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

terça-feira, 19 de abril de 2022

Vai por onde os chocalhos te levarem










Tinha planos claros (e insensatos) para a noite do sábado de aleluia: juntar-me-ia à multidão que participasse na bestial chocalhada da vila e procuraria, desta vez, fotografar a festa a preceito. Mas não o fiz. Assim que a Banda União Artística passou — e, com ela, os primeiros foliões —, juntei-me ao cortejo e logo desisti da máquina fotográfica, pois a festa ia rija como há muito não se via, depois de dois anos de proibições pandémicas.

A chocalhada de Castelo de Vide é uma ancestral manifestação pagã associada aos festejo da Páscoa, na qual as pessoas se juntam e percorrem algumas ruas da vila fazendo soar os badalos do gado. Este ano juntaram-se milhares de pessoas e, quando o cortejo terminava a primeira volta ao percurso habitual, ainda havia gente a meio da primeira passagem, formando um gigantesco coro de badalos de vários tamanhos, que se prolongou muito para além do que é comum.

A imagem que ilustra este post foi, por isso, captada há três anos, antes de a festa me ter feito desistir de fotografar. Desta vez, nem uma chapa fiz. Badalei até os músculos dos braços me doerem e a chocalhada se extinguir quando os elementos da banda entraram, um a um, pela porta da sede da associação. Não sei que maus espíritos devia a chocalhada espantar, mas creio que os enxotei a quase todos. Aos demais ainda tenho de continuar a telefonar para ver se pagam o que me devem.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Abelharucos

A borrasca estiou e o céu da vila voltou a encher-se de centenas de andorinhas nos seus desencontrados vôos. Primavereja apesar do ar matinal ainda tão fresco, sadio. Volto, por isso, a pensar no par de abelharucos que no domingo cruzou os ares sobre o olival, espiralando como enleados por invisíveis fios que os estivessem unindo. O gato dos vizinhos mia um cio plangente que se assemelha às frases de um idioma incompreensível e os moços da vila juntam-se como moscas em torno do balcão da cervejaria. Regressa-me o pensamento, porém, à dança nupcial dos abelharucos atravessando o ar como assombrosas pinceladas de cor. A própria palavra abelharuco é um espanto que revoa, chilreia e zune. Penso, pois, em todos os pássaros que as crianças da cidade não podem conhecer senão das fotografias da internet ou, como eu, dos rótulos de alguma garrafa de vinho tinto — bidimensionais, imóveis e mudos. Vivos mas sem vida.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Um menir com defeito de fabrico









Estive ontem, tesoura da poda em punho, adestrando-me na arte milenar da limpeza dos galhos secos das oliveiras que um primo possui num terreno semeado de belos calhaus de granito que a natureza ali espalhou sem critério algum. Os borregos vieram, a dado passo, para ver-nos trabalhar e mordiscar as folhas sobrantes, largadas no chão de erva fresca para que mais tarde se queimem, e a tarde aprazível concluiu-se com uma amistosa fiada de minis e cigarrilhas.

Ignoro até que ponto a bucólica visão dos calhaus rudes no prado viçoso  influiu na minha decisão de dedicar um post à espantosa história do menirzinho feio que há algures nos arrabaldes da vila, ou se o impulso está de algum modo relacionado com a leitura de Grand Hotel Europa, o romance em que Ilja Leonard Pfeijffer reflecte sobre o destino turístico do continente europeu e as perversões económicas, sociais, éticas e culturais que esta vocação impõe. Seja como for, o caso conta-se em poucas palavras.

Cravado na paisagem por homens da pré-história, alguns mui brutos e pouco afeitos às subtilezas do julgamento do futuro, o dito menir padece de uma espécie de defeito de fabrico, não sendo suficientemente cilíndrico ou, sequer, ovóide. Pode, por isso, ser facilmente confundido com outras pedras que a natureza largou na paisagem. Consequentemente, decidiu-se, com a benção do Ministério da Cultura, "requalificar" o dito menir, desbastando-se o respectivo triângulo granítico com o objectivo de o tornar mais adequado ao formato comum dos menires alentejanos — e, portanto, mais atrativo para a visitação turística (a notícia respectiva desapareceu misteriosamente e dela apenas ficou rasto no twiter, conforme a imagem que ilustra este post).

Ignoro, obviamente, se a obra se fará e o tosco menir passará algum dia a luzir, erecto e orgulhoso, nas selfies dos estrangeiros maravilhados com o megalitismo alentejano. Mas a simples ideia, confesso, me diverte bestialmente neste dia de borrasca alentejana, tão pouco propício a passeios, turismos e afins.

terça-feira, 5 de abril de 2022

"As personagens dos meus livros são mais loucas do que eu" — uma entrevista a Lygia Fagundes Telles em 2005













A escritora brasileira Lygia Fagundes Telles morreu este domingo, aos 98 anos. Soube da notícia por uma jornalista da TSF, que me acordou da sesta pós-prandial para me pedir um comentário. Não soube o que dizer. Depois, aos poucos, lembrei-me de que entrevistei Lygia Fagundes Telles em Maio de 2005, quando veio ao Porto para receber o Prémio Camões. Foi num hotel que já fechou as portas, junto à Avenida da Boavista, e ela fumava cigarros Cartier. Aqui fica a recordação dessa conversa estranhamente actual, que pude recuperar graças ao arquivo de um USB disk com muito melhor memória do que eu.


Não se entrevista Lygia Fagundes Telles; conversa-se com ela. Diante de um bule de chá e de um maço de cigarros, já agora. Com 82 anos, a “grande dama das Letras do Brasil”, que na semana passada recebeu, no Porto, o Prémio Camões, continua a fazer planos para os livros que ainda há-de escrever e a fumar abundantemente. “Uma senhora me perguntou há pouco tempo porque é que eu fumo, se me faz mal, e eu respondi: ‘Eu não presto’”, conta. É, pois, uma mulher com virtudes e defeitos. Como as mulheres dos quatro romances que a Presença agora reedita em Portugal. 

 É verdade que o anterior vencedor do Prémio Camões, Rubem Fonseca, lhe propôs casamento quando soube que agora é uma mulher rica? 

Ah!, não. Isso foi uma brincadeira que acabou por sair num jornal. Como ele ganhou o mesmo prémio, eu perguntei para ele: Rubem, como é o prémio? Quando ele disse quanto era, eu disse: Isso é um dote. E então ele disse: Eu me caso com você. Brincadeira! Imagina! Nós somos muito amigos há muito tempo, eu era amicíssima da mulher dele, que já faleceu. Adoro o Rubem Fonseca, um grande escritor brasileiro, uma pessoa de tanto carácter, extraordinariamente digna. Um irmão! 

 Que importância tem para si este prémio? 

Muita importância. Eu já plantei algumas sementes... Comecei a escrever precipitadamente na minha juventude, com 20 anos, quando entrei na faculdade, mas eu me arrependi dos primeiros livros. Depois é que eu fui amadurecendo. Mas nada de chorar sobre o leite derramado. Prefiro contar a história do meu trabalho – obra fica um pouco imponente... – a partir de 1954, quando escrevi “Ciranda de Pedra”. 

Crê que o prémio pode, de algum modo, estimular um melhor conhecimento das várias expressões da lusofonia? 

Muito, muito. Vocês podem gostar de nós, porque nós amamos vocês, apesar das brincadeiras. Brasileiro é muito zombeteiro, mas eu já estive sabendo que vocês também são e que contam aqui as mesmas graças. Isso é amor, nós somos irmãos. Temos a mesma língua, o mesmo idioma. Só que o idioma com a vida, a moda e o estilo brasileiro. E isso é uma riqueza também, é uma multiplicação do idioma de Camões, Eça de Queirós, Fernando Pessoa. E o idioma lá do Brasil, de Gonçalves Dias, Machado de Assis, Guimarães Rosa. Temos o nosso modo, mas é uma forma de enriquecer a língua e isso é lindo. 

Normalmente esquecemos as metades africanas da língua... 

Também! É um somatório tão grande. A verdade é que esse ofício de escritor é tão sacrificado, mas parece que o mundo está esquecendo da palavra escrita. 

O prémio pretende homenagear uma carreira e a da Lygia Fagundes Telles já é longa. Os leitores de hoje são muito diferentes dos da década de 1940? O que mudou? 

O motorista que tem andado com a gente me mostrou, em Gaia, as casinhas dos pescadores e contou que eles passam dificuldades, porque estão sem peixe. O peixe está sendo monopolizado pelas grandes empresas de pesca. Do mesmo modo, nós, os escritores, estamos ficando sem leitores, sem peixe, que fica monopolizado pela televisão, pelos electrodomésticos. O que é que nós vamos fazer sem leitores? Continuar. Se eu estou sentindo que os leitores estão diminuindo, ao mesmo tempo encontro um jovem na rua que me abraça e diz “eu leio”. É isto, é esta colheita que interessa, não são as glórias; é aquele que vem, lê o seu texto e conversa com você sobre a personagem. O leitor é seu cúmplice, ele vem e te faz perguntas e, de repente, você percebe coisas que não percebeu quando escreveu o seu texto. E, às vezes, ele cobra. Tem leitores que cobram. Mas é tão bonita, essa coisa... Eu li nalgum lugar que a arte é a forma de restaurar a vida. 

Restaurar a vida? 

Essa vida que está tão complicada no mundo, essa vida de guerra, de ódio, de violência, de desentendimento. 

O que fazem os artistas num mundo como esse? 

Assim... Olhamos um para o outro, damos a mão e isso é o sonho. Cioran, que era terrível, mas eu gosto muito dele, disse essa coisa tão linda: “Eu não quero a sabedoria da desilusão, eu quero a sabedoria da ilusão, que é o sonho”. O que nos resta é sonhar. Fazer o quê? Cortar os pulsos com uma gilete azul? (risos) Gilete azul era uma máquina de barbear que o meu pai usava e ele dizia que era boa para cortar os pulsos. Nunca mais me esqueci. Levar adiante como uma bandeira, é isso. Como canta o Chico Buarque, “com toda a cama, com toda a trama, com toda a lama, a gente vai levar nossa chama”. 

Ouve-se às vezes dizer que alguns escritores, ou todos, escrevem sempre o mesmo livro. Lendo estes quatro que agora vão ser publicado em Portugal... 

Eu queria que publicassem mais contos, eu gosto de contos. Muitas personagens dos meus romances saem dos meus contos. Vocês não percebem, mas eu sei.  

Mas sente que está sempre a escrever o mesmo livro? 

Não… Não é o mesmo livro, não. Há uma metamorfose. Mas, de um certo modo, as personagens voltam, batem na porta (bate na mesa de madeira). É uma forma bonita de renovação. As personagens são como nós mesmos, seres humanos. Nós queremos continuar. A morte, a finitude... não é bom. Com as personagens acontece o mesmo, elas querem continuar. 

Nos seus livros são, normalmente, mulheres; mulheres perturbadas, à procura de si mesmas, angustiadas... 

O escritor não pode ter nenhum preconceito em relação a sexo. Eu tenho personagens masculinos muito bons nos contos. É engraçado... Nos romances, há mais personagens femininas; nos contos, masculinas. Quem são estas mulheres angustiadas que continuamente aparecem nos seus romances? Às vezes... Eu tenho um conto que tem uma mocinha pobre, ela não tem um dente, ri de lado para esconder isso, e vive uma paixão sem chances. Mas ela vai atrás. É um conto ao mesmo tempo desesperado e cheio de esperança. Há algumas mulheres felizes, como essa, cheias de esperança. (pausa) A caça. Ela caçando o homem. 

Os motivos dos tormentos da Virgínia de “Ciranda de Pedra” (1954) são muito diferentes dos da Raíza de “Verão no Aquário” (1963) ou dos da Rosa Ambrósio de “Horas Nuas” (1989)? 

É o desespero mesmo. É justamente a vontade... O ser humano é complicado, é tão enleado nos fios, é tão impossível de ser aberto, de ser decifrado. É um mistério intransponível. Então, as minhas personagens guardam esse mistério. Estes livros correspondem, digamos assim, a épocas históricas diferentes, mas os problemas delas parecem ser muito semelhantes. 

Sentiu alguma diferença nas mulheres ao longo deste tempo? Mudaram muito? 

O problema é eterno. A solidão, a vontade de amor, a vontade da realização, a busca. O ser humano buscando outro ser. Aconteceu com uma conhecida minha, há alguns anos, casada, apaixonadíssima pelo marido. Um dia ele disse: “Querida, eu estou fazendo a mala, vou embora porque eu estou apaixonado por outra” (risos). É bonito isto, essa volubilidade do ser humano em relação ao amor, ao sonho. É isto. É uma busca, uma esperança, um desespero, a vontade de estender a mão para o próximo e o próximo nega a mão. Onde é que está o próximo? Esse problema é eterno: o ser humano buscando o seu outro. A arte aparece algumas vezes, nos seus romances, como um escape para o desespero. 

No “As Horas Nuas” escreve mesmo que “O louco de verdade come merda mas no teatro pode ficar sublime”? Também sucede na literatura? A loucura redime-se nos livros? 

Eu tenho amigos que fazem terapia, eu jamais faria. Uma vez eu fui fazer, fiquei a fazer cerimónia com o terapeuta e não adiantou nada (risos). A minha terapia é escrever, a forma de realizar o meu sonho. Encontrei agora o Urbano (Tavares Rodrigues) em Lisboa com cara de menino. Ele vai ser pai outra vez e está com cara de menino. É isso o sonho! 

Escreve ainda no “As Horas Nuas”: “Mulher pirou nessa luta pelo poder, ficou mais insuportável do que o mais insuportável dos machões”, E, depois: “A fase inicial da agressividade já passou, as mulheres agora estão evoluindo para um entendimento mais profundo no trabalho. No amor(...)”. Esta evolução já lhe permite perceber algumas diferenças? 

Não. Pois é... O ser humano é assim mesmo (risos). Tem as promessas, os sonhos, os projectos, mas, de repente, vem um furacão na sua vida, que você não sabe de onde vem, e desarruma tudo. 

Isso tem alguma coisa a ver, conforme escreveu no “As Meninas”, com o facto de as mulheres não perceberem que o assombro de uns olhos nus supera a beleza superficial de um par de cílios postiços? 

É verdade, é verdade... É tão lindo quando você olha para o espelho e coincide a cara que tem no espelho e a própria cara. É um milagre. No momento em que você aceitar a sua face, sem cílios postiços, você está feliz, aceita a morte. 

A estrutura dos seus livros costuma seguir um método psicanalítico. É a única forma de penetrar nos tormentos destas mulheres, nos tais mistérios da espécie humana? 

Talvez seja uma vontade de resolver os meus problemas através das minhas personagens, que são mais loucas do que eu (risos). Nós queremos nos iludir, apesar das loucuras deste mundo. 

Esse é outro elemento recorrente nos seus livros, a descrição do mundo como algo “completamente apodrecido”. 

Não gosto nem de ler as notícias. Eu não posso fazer nada! Os índios estão desaparecendo, a Amazónia está a ser destruída... Esse seu pessimismo já vem, pelo menos, desde o “Ciranda de Pedra”... É preciso metamorfosear, está certo, mas tem um momento que você tem que aceitar a realidade, a loucura... a loucura do ser humano. Veja D. Quixote. Quem é? Um louco! Um sonhador. E o sonhador é um demente. 

Essa loucura é a origem do mal ou é a salvação? 

A salvação. Ao menos isso. É a salvação. Aquele escritor, o Sebastião da Gama, ele diz que, apesar das velas em farrapos, do casco do navio rebentado, das lutas, o importante é ter dobrado o cabo da Boa Esperança e ter chegado. “Basta dizer que eu cheguei/e que é de lá que vos falo”. 

A Letícia de “Ciranda de Pedra” diz, a dada altura, que “o mal está no próprio género humano”, que “ninguém presta”. O género humano é o vilão ou a vítima? 

É o vilão, a vítima e o herói. É possível você juntar a vilania na heroicidade. “Allez infants de la patrie!” e, de repente, se esborracham todos na lama, na bosta. O esforço que você faz para dobrar aquele cabo, esta força, esta vontade de sonho, é que te conduz. 

O Brasil aparece mais do que uma vez retratado nos seus livros como uma pátria permanentemente em perigo. É uma visão pessimista ou uma forma de contrariar o pessimismo? 

O meu pai já dizia que a situação está tensa. Não acaba mais essa tensão! Estou com essa idade e continua tensa. Mas esse é o mundo que nós herdamos. Temos que ser testemunhas deste tempo e desta sociedade. O meu trabalho é engajado. Eu sou bastante lúcida diante da realidade brasileira, dos desequilíbrios sociais, da miséria, a educação, a saúde. Eu não posso fazer nada. Só sei escrever esses livros que não serão lidos pelos analfabetos, nem pelos doentes. No entanto, eu continuo a escrever. O que é isto? Vou parar? Não. É o sonho. Mas vai ser difícil, o Brasil... 

Tem mais esperança no Brasil ou no tal mundo desvairado e louco? 

É tão ligada uma coisa à outra. Essa esperança... Se eu tivesse uma bandeira, ela seria vermelha e verde. Verde da esperança e vermelho da paixão e da cólera, que ela também é precisa. 

Essas são as cores da bandeira de Portugal... 

Pois é. Fazer o quê? 

Apesar de tudo isto, define-se a si mesma como uma brasileira tranquila. O que é que a faz diferente das mulheres dos seus livros? 

Nenhuma moda, nenhuma vulgaridade em relação à moda me atrai. Eu sou tranquila nesse ponto. Está na moda andar com um pé para a frente e outro para trás, eu continuo andando com os meus pés para a frente, como aprendi a andar. Tenho horror a modismos. Horror! Mas as pobres mulheres põem o piercing na língua. Prefiro aceitar a dúvida, que é muito mais digna do que esses modismos. 

Essa recusa da superficialidade... 

Vulgaridade! Superficialidade chama-se vulgaridade. Essa vontade de mostrar é uma moda. 

Mas essa recusa da superficialidade é parte do segredo para evitar as angústias? 

Serve para evitar as bobagens da espécie humana, pelo menos. O ser humano faz a sua escolha, não quero isso, quero aquilo. E isso é tão bonito no ser humano. Eu odeio Bush, não gosto nem de ler nos jornais. Aquela imbecilidade é, na verdade, uma escolha que não é sequer muito heróica. Os heróis também são frágeis. E loucos. Há muitos loucos nos meus livros, não? 

A tranquilidade face aos modismos é o segredo da aparentemente tão equilibrada escritora Patrícia, de “Verão no Aquário”? 

Eu não sei se ela é tranquila... Tem aquele padre. Ela é amante dele? Eu não sei... Aquele padre é muito bom, viu? Um dia pego esse padre outra vez. 

No livro ele corta os pulsos e morre. Ressuscita-o?

É uma forma bonita que o escritor tem de recorrer aos heróis e anti-heróis e trabalhar com eles outra vez. Isso é uma alegria! Um poder! Toma conta de você. 

Não há, então, personagens tranquilas nos seus livros? Nem os gatos? 

A tranquilidade, às vezes, é uma máscara. O Malraux disse uma coisa muito bonita: o mais importante no homem não é o que ele mostra, mas o que ele traz escondido. É isso que os escritores procuram, então, desvendar. Como? Consigo? Não sei. Mas foi uma tentativa. Uma bela tentativa para desvendar essa natureza humana que é indefinível, inacessível e incontrolável. Vocês mexem aqui com arma de fogo? 

Nada que se compare com o que acontece no Brasil. 

No Brasil agora não se fala noutra coisa. Eu conheço o ser humano, não pode botar uma arma na mão dele. Os garotos encontram essa arma, levam para escola, mostram, vão brincar e, pá!, matam o colega, matam o professor que reprovou eles. Os violentos, os bandidos, os assassinos, os gangs, os traficantes, essa raça toda, já chega! Agora o homem comum também se armar? Vai se defender? Não vai não... 

A Lygia Fagundes Telles revê-se mais na escritora Patrícia, de “Verão no Aquário”, ou na actriz Rosa Ambrósio, de “As Horas Nuas”? 

Eu entrei em todas as personagens, mesmo nos contos, em que há mais vibração e mais homens. Tenho homem à beça, nos meus contos. 

Gosta mais dos contos ou dos romances? 

(longo silêncio) Um professor meu antigo, de Literatura, dizia que o romance é um croquete de camarão que se vende na rua, com muita massa, muita palavrada, só o rabo e a cabeça do camarão, e que no conto está o camarão inteiro, como nos croquetes que são feitos em casa. É uma definição frágil, errada, mas engraçada. No romance também tem que ter o corpo do camarão inteiro. Eu sei que é maior, mas tem que ter tudo, senão não presta. 

Qual é que gosta mais de escrever? 

Quando eu estou escrevendo um conto eu fico tão feliz! Depois acho uma droga, quando termino, mas na hora em que eu estou caçando a palavra, lutando no ringue da palavra, abrindo a porta da personagem, eu estou apaixonada pelo conto. Se eu estou fazendo romance, ah!, que paixão! Há nisso uma volubilidade? Não. É que na hora em que eu faço romance eu também estou pondo o camarão inteiro.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

A batata é uma arma?










De todas as tenebrosas imagens que nos últimos dias têm chegado da Ucrânia, ficou-me na retina aquela que hoje o Jornal de Notícias traz na capa, captada pelo fotógrafo Sergei Supinsky, da AFP. Mostra um homem assassinado no passeio, junto de cujo corpo se vê ainda o saco de supermercado no qual transportava algumas batatas. Em segundo plano vêem-se outros cadáveres e um grupo de homens ucranianos que procuram recolher os corpos dos civis que a invasão russa vai deixando para trás.

A despeito daquilo que ontem aqui escrevi, sair alguém de sua casa para comprar maçãs, pêras ou morangos não é sempre um acto tão trivial  como aquele texto dava a entender. O homem da fotografia, pode imaginar-se, arriscou sair à rua após vários dias escondido numa cave — escutando o fragor das explosões, o horror dos gritos dos outros e da morte deles — à procura de algo que lhe matasse a fome. Há-de ter ficado satisfeito e quase assombrado por ter encontrado algumas batatas e um saco para transportá-las, e talvez corresse de regresso ao esconderijo para espantar os filhos com a novidade. Mataram-no, porém, apesar de os russos não atacarem alvos civis, conforme cinicamente têm afirmado os responsáveis do Kremlin.

Milhares de homens, mulheres e crianças depois, assassinados em suas casas, em hospitais ou em teatros, os russos insistem na fantasiosa narrativa da "operação especial" destinada a libertar a Ucrânia. A fazer fé nos argumentos daquela fantasia, a que a diplomacia internacional continua a conceder tempo de antena, é portanto provável que as batatas espalhadas no chão sejam uma arma perigosa e letal, destinada a atacar as tropas russas. Ou que o cidadão morto no passeio seja tão perverso que resolveu suicidar-se com o único fito de embaraçar o palhaço nazi do Kremlin. Tão lógico quanto um saco cheio de batatas.

domingo, 3 de abril de 2022

Pêras, maçãs, laranjas e livros


Levo quatro horas deste domingo acordado e já li meia dúzia de artigos interessantes na língua de Cervantes. Também saí à rua para comprar fruta, morangos, limas e maracujás, e talvez por isso me tenha detido na entrevista do El País ao escritor José Manuel Franco, ou talvez seja mais correcto dizer que comecei a ler a entrevista ao fruteiro José Manuel Franco — um tipo cuja existência ignorava, mas que me interessou muitíssimo, por ser simultaneamente vendedor de pêras e maças no mercado de Eco de la Cruz, em Madrid, e escritor especializado nas guerras romanas. Diz o jornal que é possível comprar, na banca deste Franco, pêras, maçãs do Bierzo e a história de Marco Licínio Crasso, cônsul romano, governador da Síria e especulador imobiliário responsável pelo esmagamento da revolta dos escravos liderada por Espártaco. Fantasio agora, pelos motivos óbvios, em poder sair à rua para comprar morangos, limas e maracujás e voltar a casa com o livro de José Manuel Franco, embora a melhor fantasia de todas consista, isso sim, em imaginar-me a vender fruta na banca de um mercado, se ainda existir por aí algum mercado que o seja de facto, e aviar ao mesmo tempo tangerinas e exemplares do Tropel, cerejas e A Última Curva do Caminho. Enquanto o cogito, leio que o jornalista do El País pergunta a Franco se se considera fruteiro, escritor, escritor-fruteiro ou fruteiro-escritor, e que o inquirido responde que é sobretudo um leitor aficionado da História e dedicado à fruta. "Levanto-me às quatro e meia da manhã para ir ao mercado abastecedor e termino o dia de trabalho às nove da noite. O estudo da documentação e a escrita, faço-os depois, depois de trabalhar, de tomar banho e de jantar". E depois volta à banca da fruta, um dia após o outro, para vender maçãs do Bierzo e exemplares de La Sangre de Roma