terça-feira, 21 de setembro de 2021

Dos rebanhos que aqui transumam














Ocorre-me com certa frequência, quando estou em Castelo de Vide, abeirar-me dos pedaços da antiga muralha junto dos quais costumam estar a pastar os sadios rebanhos dos arredores da vila. Procuro não tanto a visão concreta e lanuda das ovelhas e das cabras, o seu jeito alorpado de vigiar quem se aproxima, antes a toada apaziguadora, misteriosamente harmónica, dos chocalhos que os animais trazem presos ao pescoço.

Ouço agora os mesmos chocalhos, às vezes, também entre as urbanas árvores da minha rua, badalados por dois grandes cães castanhos que arrastam uma mulher pelo passeio a caminho das suas evacuações matinais e vespertinas. O escasso rebanho dos canídeos levados pela trela não interpreta, porém, senão uma muita pálida imitação, monótona e triste, das alegres badaladas que a transumância diária dos ovinos e caprinos oferece a quem se detenha para escutar e respirar o ar límpido que se eleva dos olivais. Mas o simples soar das campânulas metálicas dos dois cães é suficiente para que em mim desperte a saudade daqueles dias mais suaves, mais amenos, que a cada passo me convocam a sair à rua para caminhar sem rumo e ir ouvir a voz das pessoas, o balido do gado, o grasnar das cegonhas na torre da igreja e o som que a brisa produz nos galhos das árvores. 

Faz toda a diferença o puro silêncio que estes ruídos ajudam a compor: na cidade, ao circular na via rápida dos apressados, vislumbro às vezes, entre as nesgas do trânsito, um rebanho de ovelhas pastando no que sobra de uma vida antiga e quase invisível, mas nunca escuto os seus chocalhos, os seus balidos, sequer quando passo correndo pelos campos que marginam a auto-estrada. Apenas se ouve o basqueiro áspero que produz a transumância diária das manadas dos automobilizados a caminho do ramerrão que nos mantém amodorrados, indiferentes, como vazios ou néscios.

Van Gogh: a luz fulminante das estrelas*
















Vincent Van Gogh viveu os últimos meses num turbilhão — criativo e não só. O rasto deste profícuo período artístico é testemunhado pela sua obra e pelas centenas de cartas que escreveu a partir de Arles, Saint-Rémy-de-Provence e Auvers-sur-Oise, tendo como principal destinatário o irmão Theo. 


 Não sigo nenhum sistema conhecido. Golpeio a tela com pinceladas irregulares, que deixo como estão (...). Estou tentado a pensar que os resultados são tão perturbadores justamente para não agradar às pessoas com ideias preconcebidas sobre a técnica. 

Vincent Van Gogh começou a desenhar e a pintar desde muito cedo, estimulado pela mãe e, mais tarde, pelo irmão Theo, que o incentivou a dedicar-se profissionalmente à pintura e que também o sustentava. Mas tardou a afirmar-se artisticamente. O ponto de viragem aconteceu no início de 1888, quando o pintor se mudou para Arles, no sul de França. Van Gogh passou a trabalhar de modo frenético, de manhã à noite. Abandonou os cânones da pintura da época e dedicou-se a criar um estilo próprio, absolutamente original, propondo-se refundar a arte moderna em parceria com Paul Gauguin, de quem se tornara amigo e que o retratou enquanto pintava os famosos girassóis. Datam deste período alguns dos trabalhos mais conhecidos e disruptivos de Vincent, dos sombrios auto-retratos às luminosas e alucinantes noites estreladas, passando pelo célebre Campo de Trigo Com Corvos, a Casa Amarela, o Quarto em Arles ou Memória do Jardim de Etten. Nas centenas de cartas que escreveu a Theo, Vincent incluía esboços dos quadros em que estava a trabalhar, muitas vezes a pedido do irmão: desenhava-os de forma simples e escrevia os nomes das cores que pretendia utilizar. Também refletia sobre os mecanismos do mercado da arte, que tanto o penalizaram e terão contribuído para agravar a depressão e os problemas mentais que o afetavam. Estes distúrbios terão estado também na origem de um dos mais conhecidos aspectos da biografia de Van Gogh. 

Meu querido Theo, Para te tranquilizar completamente e de viva voz, estou a escrever-te estas poucas palavras no escritório do doutor Rey, que já conheces. Pretendo ficar aqui no hospital por mais alguns dias — depois atrevo-me a planear regressar a casa com muita calma. Peço-te apenas uma coisa, que não te inquietes, pois isso deixar-me-ia demasiado preocupado. 

Dez dias depois de ter cortado a orelha esquerda, na noite de 23 de dezembro de 1888, em Arles, Van Gogh escreveu ao irmão a partir do hospital daquela cidade. A carta faz referência a uma discussão que tivera com Paul Gauguin e que, de acordo com alguns investigadores, terá tido uma influência decisiva no agravamento do estado psíquico de Vincent e na decisão de se automutilar. O outro facto que terá precipitado aquele gesto será a carta que o pintor recebeu de Theo, na qual o irmão anunciava o seu casamento com Johanna Bonger. Nascido em 1853, Vincent revelou distúrbios de personalidade desde a juventude, associados à doença bipolar de que padecia. Estes problemas foram agudizados pelo alcoolismo (bebia grandes quantidades de absinto) e pelo fracasso da sua carreira como pintor. 

 A uma crise como aquela que agora tive seguem-se sempre três ou quatro meses de tranquilidade absoluta (...). Preciso de ar. Sinto-me mortificado pelo aborrecimento e pela mágoa. 

Após a mutilação da orelha esquerda, Vincent Van Gogh foi internado num hospício em Saint-Rémy-de-Provence, onde ficou até 13 de maio de 1890. Manteve uma intensa atividade criativa (pintou, por exemplo, o célebre De Sterrennacht, que concluiria em junho), mas foram-lhe diagnosticados ataques de epilepsia. Impossibilitado de beber e com uma dieta controlada, manifesta, numa carta a Theo datada de 4 de maio, o desejo de sair da clínica e ir a Paris. Um estudo de investigadores do Hospital Universitário de Groningen, apresentado em 2021, concluiu que as restrições impostas pelo tratamento poderão ter acelerado o fim do pintor. Vincent continuava a fumar muito e a dormir muito pouco, o que, juntamente com a abstinência do álcool e a má nutrição resultantes do acompanhamento médico, terá estado na origem de surtos psicóticos e de delirium tremens, agravando substancialmente o seu estado psicológico e conduzindo-o à depressão que motivou o trágico final da sua vida, a 29 de junho. 

Estou a aplicar-me às minhas telas com toda a minha atenção, procurando fazer como alguns pintores de que gosto e admiro profundamente. 

Seis dias antes, a 23 de julho de 1890, com 37 anos, Vincent escreveu a Theo uma carta que este considerou “incompreensível”. O pintor vivia então em Auvers-sur-Oise, em França, sendo acompanhado de perto por um médico, o doutor Gachet. Numa missiva que enviou à esposa, Theo diz que a carta do irmão incluía um par de esboços de que havia gostado. “Se ao menos ele conseguisse encontrar alguém que lhe comprasse um ou dois quadros. Mas temo que isto vá demorar muito tempo”. Hoje, os quadros de Van Gogh estão entre os mais valorizados pelo mercado da arte e Vincent é reconhecido como um dos maiores pintores de todos os tempos.


*Por não ser suficientemente "leve e divertido", este texto, previamente encomendado, não foi publicado numa revista cujo nome não referirei. A sua redacção também não foi considerada para pagamento. Publica-se aqui para que tenha ao menos algum uso e possa aproveitar ao ocasional leitor que por cá passe.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Em assuntos de mulher, não metas a colher











O texto mais lido do Teatro Anatómico dos últimos dois meses foi aqui publicado apenas por ter sido recusado por um blogue ao qual prestei serviços durante algumas semanas. O tema do artigo havia sido previamente acertado com a editora responsável, a qual, para minha total surpresa, me informou depois que o mesmo "ficava sem efeito" (e sem o respectivo pagamento), alegando que o dito sítio — cujo espírito "é leve e divertido" — é também , e volto a citar textualmente, "maioritariamente constituído por mulheres (uma maioria quase esmagadora) e que nenhuma mulher precisa que um homem lhe lembre o que passam as mulheres no Afeganistão, na Índia, na América do Sul ou (felizmente, com as devidas distâncias) no Ocidente". Conforme é meu hábito, não farei publicidade gratuita à geringonça electrónica de comércio livreiro responsável por tão clarividente posicionamento civilizacional. Tendo em conta que aquela empresa nem sequer honrou os compromissos que comigo acordou inicialmente, apenas lamento o facto de ter, por estrita necessidade, colaborado com uma instituição gerida por esta sorte de indivíduos.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

As palavras










Fui recentemente convidado para participar num festival literário no qual deveria dedicar-me a oficiar aquilo a que chamam "consultórios literários" (nada a ver com a patranha moderninha da biblioterapia; não prometo a cura de ninguém nem a terapia de mal algum). Estranhei, mas, tratando-se de trabalho pago, que bem falta de faz, aceitei o desafio. A experiência, entretanto já repetida, revelou-se, de todo o modo, bastante gratificante.

Para além de ouvir os desabafos e as informações que os clientes entendem conveniente partilhar durante a consulta, limito-me a oferecer-lhes os meus serviços de escrita, disponibilizando-me a redigir um texto que pode ser endereçado ao próprio ou a outra pessoa à sua escolha. O meu primeiro utente foi um cachopo brasileiro que queria reclamar do penteado que a mãe lhe impunha (à "boi-lambeu", explicou ele). O mais recente, uma jovem adolescente que me falou da sua avó, das saudades que dela teve quando estiveram afastadas e dos bolos que faz. "Quero dizer-lhe que gosto muito dela", precisou.

Em todos os casos, creio, o que mais me impressionou foi o modo comovido e surpreendido como os clientes leram ou escutaram os textos que escrevi, embora me limite a fazer minhas as palavras, histórias e lamentos que eram só deles. Houve quem chorasse e quem quisesse abraçar-me. Não tendo já grandes ilusões relativas aos factos do mundo — cujos ricos, poderosos e importantes são frequentemente incapazes de escrever uma frase com sentido ou sem erros bárbaros —, não deixa de me espantar o pequeno prodígio que, em certas ocasiões, um texto escrito parece ser capaz de espoletar. 

Trata-se de um poder suave, minúsculo, que não tem nada a ver com a literatura ou com o facto de alguém ser ou pretender ser escritor. Basta saber escutar, saber observar e, como dizia o velho Machado de Assis, saber onde pôr os acentos; e as vírgulas — e o milagre acontece.

Gente feliz com lástimas

Um dos candidatos à câmara da minha terra — um indivíduo que conheci sendo vice-presidente de um edil abrutalhado, destratando toda e qualquer crítica com a grosseria própria dos tiranetes — entendeu conveniente espalhar uns cartazes de grande formato pelos cruzamentos da cidade, divulgando a sua peculiar versão da felicidade. Se calhar para não perder votos para a chamada IL, decidiu ser pelo menos tão fantasioso e hipócrita na mentira a cada esquina repetida, anunciando que "ser feliz é pagar menos impostos" (para sermos absolutamente exactos, as letras pequenas referem apenas uma ínfima fracção de dois impostos em que a sua vereação não mexeu). O dito candidato está, todavia, muito enganado quando supõe que os eleitores se deixam iludir com tão pouco. Eu, por exemplo, não me importava de pagar mais impostos. Era sinal de que tinha rendimentos para isso.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Alexandre da Macedónia










Um energúmeno que inexplicavelmente ainda é juiz — depois de ter pública e reiteradamente contrariado a lei que deve fazer respeitar —, apareceu esta semana na televisão a gritar e a espetar o dedo na cara de pacientíssimos agentes da autoridade. Não satisfeito, disse-lhes que, e passo a citar, "o meu lugar é este, acima de si". E foi juntar-se a uma (felizmente) pequena multidão de lunáticos que, aparentemente, não se importam de estar abaixo de sua excelência e de serem a claque do celerado e ufano magistrado, tão soberbo como um daqueles loucos que garantem ser o próprio Napoleão Bonaparte.

Creio que o homem que esta manhã morreu, e que foi presidente da república do país do importantíssimo juiz ("o mais alto magistrado na nação", portanto), nunca terá dito que era melhor, mais alto, mais bonito ou mais importante do que qualquer outro cidadão. Cruzámo-nos de raspão por duas ou três vezes e sempre confirmei em Jorge Sampaio a generosidade, a bondade, as convicções justas e a humanidade que transpareciam da sua persona pública. Nunca me arrependi, por isso, de lhe ter confiado o meu voto por duas vezes, coisa que não posso dizer de uma parte significativa das minhas idas às urnas.

Uma vez, em 1996, coincidimos no Castelo de São Jorge, em Lisboa, na entrega dos Prémios Gazeta de Jornalismo. Jorge Sampaio entregou-me a menção honrosa que nesse ano me coube e posámos para a fotografia da praxe, sob um relampejar de flashes. Queixei-me da violência das luzes dos repórteres e ele, o meu presidente, disse-me que o não fizesse. "Não se preocupe", disse-lhe eu. "Não pretendo ser presidente da república". "Eu, com a sua idade, também não queria", respondeu ele com um sorriso.

Com a idade que tenho agora, Jorge Sampaio já era presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Seis anos depois, anunciou que seria candidato à presidência da república. Creio, por isso, que o aviso de então me há-de ter servido de emenda, pois continuo tão pouco inclinado para o exercício de cargos públicos como era aos 24 anos. Desejo apenas permanecer o mais longe possível de gente extasiada pelo poder, como certos juízes, certos polícias e certos políticos com mau carácter. E também paz e sossego, um trabalho que me permita pagar as contas, o reconhecimento do trabalho que tenho feito e o mínimo de respeito devido a qualquer ser humano. Às vezes, porém, parece-me isto mais difícil e improvável do que ser , vá lá, um Alexandre da Macedónia.

Apenas me apazigua o facto de a História, quando chega a recordar os energúmenos, o faz apenas para que saibamos de que modo puderam ser boçais e inumanos, soberbos e vazios.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Nárnia









A fim de evitar aborrecimentos desnecessários, tenho procurado não assistir aos debates entre os candidatos às câmaras municipais. Ainda assim, colido, às vezes, com os resumos apresentados nos telejornais, os quais, com algum bom humor, podem chegar a parecer divertidos. Acabo, por exemplo, de ver um tipo que é candidato a Setúbal (e que já foi deputado por Braga e por Faro) a reivindicar a criação de startups capazes de gerar unicórnios. Parece-me pouco ambicioso. No mínimo, devia propor transformar Setúbal numa filial de Nárnia.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Do sagaz convívio entre gatos e livros










Quase não temos conversado à distância, entre o Porto e Belo Horizonte. Mas creio deveras que o Paulinho Assunção tem formas secretas de visitar a minha cabeça. Adivinhou, por exemplo, que tenho andado a matutar num texto em torno do filosófico Dorival, o gato hermeneuta, que conheço de ver no instagram, quase sempre sentado, deitado ou escondido sobre ou entre amáveis pilhas de livros. Apenas este conhecimento telepático explica que esta manhã o Paulinho tenha publicado duas fotografias do Dorival, como exigindo-me que me sentasse e, enfim, escrevesse o adiado post.

Dorival é um gato amarelo e felpudo, com uma qualidade metafísica que talvez o assemelhe a um dos gatos favoritos do Manuel António Pina. Tende, a avaliar pelas fotografias, para o convívio com os livros. Às vezes protege-se atrás de um Baudelaire, outras repousa sobre um Todorov. Lembro-me, ao vê-lo, de um outro gato que passou férias cá em casa, um felino bebé e agitado que, sozinho em casa, ia esconder-se e dormir no espaço livre das estantes, por trás dos livros, sujando-se de pó e frívola erudição.

Ocorre-me, pois, que a lenta observação dos gatos pode ser uma forma tão boa como qualquer outra de participar no jogo activador de esquisitices, eliminando a distância física que separa o Douro de Belo Horizonte. Mas é só uma hipótese que devemos estudar com tranquilidade e circunspecção, enquanto declaramos quietos palíndromos mudos às moças em trânsito com felinos passos de não-te-vejo.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Caramba














Esta manhã, no metro, uma passageira lia um livro em pé. Chamou-me a atenção, primeiro, a extravagância do acto, quase um gesto de resistência num espaço e num lapso de tempo que quase toda a gente preenche manuseando os telemóveis para ver as inúteis actualizações das suas redes sociais. Depois consegui ver a capa do livro, que a passageira lia dobrando a lombada, concentrada e resistindo à tentação quotidiana da ímpar paisagem panorâmica que a carruagem oferece aos que deste modo atravessam o Douro pela ponte de ferro. Tratava-se de Tonto, morto, bastardo e invisible, do excelente Juan José Millás, numa edição que não conhecia. Chamou-me a atenção a simplicidade do grafismo da capa, que se assemelha a alguns exercícios de design em que, às vezes, desperdiço o meu tempo, mas também o facto de a passageira ter escolhido ler precisamente este livro e não um desses volumes com cores berrantes e dourados, historietas banais que se assemelham a telenovelas ou folhetins, e que as editoras publicam e vendem como iogurtes cujo prazo de validade expire precocemente. Caramba, pensei. Ainda há quem leia livros que não tenham sido escritos de propósito para maravilhar rapariguinhas tontas de idade variável, de acordo com todas as regras ensinadas nas oficinas de mindfulness e de escrita criativa. Caramba, ainda há gente normal no mundo. Caramba.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

"Cheira a outra coisa"









Reconhecendo o importante papel desempenhado pelo vice-almirante Gouveia e Melo enquanto responsável máximo pelo grupo de indivíduos que tem coordenado a vacinação contra a Covid19 — e não deixando de ter presente que falou demasiado em certas ocasiões, pronunciando-se sobre assuntos que excediam a sua esfera de competências —, gostaria de sublinhar o conteúdo de duas frases que hoje proferiu. Refiro-me ao momento em que declarou que devemos confiar na capacidade do Serviço Nacional de Saúde para doravante administrar as vacinas que ainda sejam necessárias e, ainda mais importante, à resposta que deu àqueles que têm procurado apresentá-lo como um homem providencial. Disse, e nunca é excessivo repeti-lo, que os "salvadores da pátria" são perniciosos para a democracia, a qual só se salva "em conjunto com todos os actores do sistema democrático". "Não é uma personagem que salva a democracia. Isso cheira a outra coisa", declarou. E tresanda a outra coisa, de facto. Mas não faltam idiotas dispostos a ir atrás do fedor nojento que para aí vai, farejando-o como cães cegos.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O Afeganistão escrito debaixo das burcas









Uma burca, li há dias, é como uma gaiola. É provável, por isso, que o recente regresso dos talibãs ao poder condene as mulheres do Afeganistão a regressar à prisão da roupa que o islamismo radical impõe — ainda que o confinamento mental nunca tenha chegado a desaparecer. Veja-se, por exemplo, o caso da poetisa Nadia Anjuman, assassinada em novembro de 2005, aos 25 anos, já durante a ocupação da coligação ocidental que durante duas décadas afastou do poder os novos senhores de Cabul. 

A breve vida de Nadia talvez possa ajudar a ilustrar (e a perceber) as lógicas internas de um país onde os mais bárbaros atavismos religiosos nunca deixaram de estar presentes. Nascida em 1980, em Herat, Nadia Anjuman conheceu aos 15 anos as severas restrições impostas pelos talibãs às mulheres e raparigas. Com as escolas femininas fechadas e a instrução proibida, a adolescente inscreveu-se, com outras mulheres, numa escola de costura onde, três vezes por semana, assistia clandestinamente a encontros, palestras e debates com professoras de Literatura da Universidade de Herat. Correndo o risco de prisão, tortura e até enforcamento, as mulheres deixavam as crianças à porta, para que estas as avisassem de alguma visita inesperada da polícia religiosa dos talibãs e pudessem esconder os livros a tempo de fingirem estar apenas a costurar. 

Só aos 21 anos, com a invasão dos EUA e dos seus aliados, após o ataque terrorista às Torres Gémeas de Nova Iorque, Nadia pôde estudar Literatura. Em 2005 publicou o primeiro livro de poemas, Gule Dudi, publicado no Afeganistão, no Paquistão e no Irão, mas morreria nesse mesmo ano, espancada até à morte pelo marido, um bibliotecário de Herat. A tradução inglesa de alguns dos seus poemas podem ser lidos em sites como o Asymptote, o Brooklyn Rail, o Circumference ou o Exchanges Literary Journal

Mais sorte teve Malalai Joya. Nascida em 1978 e refugiada da guerra afegã-soviética, regressou ao Afeganistão para ser deputada entre 2005 e 2007. Mas foi expulsa por denunciar a presença no parlamento de antigos criminosos de guerra. Considerada por muitos “a mulher mais corajosa do Afeganistão”, causou polémica ao considerar que as mulheres e os direitos civis do país sempre tiveram três inimigos: os talibãs, os senhores da guerra e os ocupantes estrangeiros. A sua autobiografia, Uma Joia Afegã, teve edição portuguesa, pela Quidnovi, tendo ainda dado origem a um romance, La leggenda del Burqa, do italiano Thomas Pistoia, e a cinco filmes. 

Também refugiada, desde 1991, mas em França, Spôjmaï Zaryab, foi a primeira escritora contemporânea afegã a ser traduzida do Persa para o Francês. Começou a publicar aos 17 anos e, entre 2000 e 2010, foram publicados em França os livros de contos Ces Murs Qui Nous Écoutent, La plaine de Caïn, Dessine-moi un coq e Les demeures sans nom, quase sempre inspirados na tradição cultural afegã. Considerada entre os três maiores escritores afegãos contemporâneos (juntamente com os poetas Khalîlî e Madjroûh, ambos já desaparecidos), contou, numa entrevista de 2001 ao Le Courier da Unesco, que deve ao seu pai o amor pela literatura. “Ele nunca me fez sentir diferente por ser rapariga, nunca me proibiu nada” — algo que, sob o regime talibã, voltou a ser praticamente impossível. “Nunca mais verei a minha pátria, a minha cidade, a minha casa”, conclui Spôjmaï.

domingo, 22 de agosto de 2021

Anexins


Divirto-me bestialmente com as conversas das pessoas em Castelo de Vide. Parte da diversão reside no facto de quase ninguém ser referido pelos nomes próprios, mas sim pelas alcunhas (anexins), cada qual mais hilariante do que a anterior. Rio-me tanto que, um dia destes, o Gato, amigo do meu primo Cobra, parou o carro na Carreira de Baixo para me entregar em mão uma lista bastante extensa dos anexins em vigor na vila, de APP a Zucrina. Lá estão o meu amigo Ceroulas, os meus primos Barraquim e Pavió, o saudoso Vinte e Sete, o enganador Passarinho e o eterno Chalana, a servir às mesas da esplanada igualzinho ao que era há trinta anos. Mas também, claro, o Bailarina, o Acha Alfinetes, o Amor Dormido, o Bate Estradas, o Beatriz Costa, o Bigodes de Arame, o Cabeça de Alambique e o Caga Lume, a Camponesa Artista, o Cara de Sapo, a Chica Marmela, o Chico dos Garrafões, a Dama das Camélias e o Cu de Pêra, o Doutor Tinto e o Doutor Porco, o Espanta Cães, o Gasolina, o Fome Negra, o Mãe Santíssima, o Malagueta, o Mama na Burra, a Margarida dos Cinco Réis, a Maria do Cu Redondo, o Meia Arroba, o Mentira Fresca, a Miss Carranca, o Mosca Pranha, o Papa Gelados, o Picha Preta e o Pichorra, para não falar do Pisa Flores, do Pilha Galinhas, do Punhetas, do Quatro Orelhas, do Rei do Petróleo, da Rosa dos Palheiros, do Ventas de Patrulha, do Zé Pichinhas, do Vicentinho das Bufas, do Código Postal ou do Tira Peles. Mas a lista é imensa e não pretendo aborrecer-vos. Para isso lá está o Chato.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Em busca do Murakami selvagem


Antes Que o Café Arrefeça
, de Toshikazu Kawaguchi, há várias semanas nos tops de vendas nacionais, é só o mais recente exemplo doméstico do concurso mundial para encontrar o próximo fenómeno de vendas nipónico — ou o próximo Murakami selvagem, para parafrasear um título do autor de best-sellers. Chegou anunciado como “livro-fenómeno japonês” e prometendo uma história “tocante e inspiradora”. 

O sucesso foi quase instantâneo e não faltará quem garanta que Kawaguchi tem tudo para ser o novo Murakami (infelizmente, e pelos motivos habituais, o mundo editorial nunca parece muito interessado em descobrir o próximo Youkio Mishima, já para não falar no próximo Kawabata Yasunari ou no próximo Kenzaburo Ōe, prémios Nobel da Literatura em 1968 e 1994, respetivamente). 

Enquanto se espera para ver se a persistência de Kawaguchi nos tops de vendas confirma (ou não) o nascimento de um novo fenómeno global de popularidade, os meios de comunicação social internacionais não descansam e continuam, com uma regularidade impressionante, a elaborar listas de novos candidatos ao título de novo Murakami (ou, pelo menos, dos “dez autores contemporâneos japoneses que é absolutamente necessário conhecer”). 

A revista Books & Bao, por exemplo, mantém uma lista atualizada dos melhores livros japoneses em tradução para a língua inglesa. Para 2021, as apostas vão para Heaven, o novo romance de Mieko Kawakami, à espera de confirmar o sucesso de Breasts & Eggs, mas também para I-Novel, de Minae Mizumura, ou para Lonely Castle In The Mirror, de Mizuki Tsujimura, que até vai ser vertido para o Inglês por Philip Gabriel, o mesmo tradutor que se costuma ocupar dos livros de Murakami. Da lista constam ainda The Woman In The Purple Skirt, de Natsuko Imamura, Terminal Boredom, as histórias de ficção científica da celebridade Izumi Suzuki, Soul Lanterns, de Shaw Kuzki, ou At The End Of The Matinee, de Keiichiro Hirano. Mas a lista também inclui, claro, o mais recente Murakami, First Person Singular, talvez para demonstrar que ainda não inventaram ninguém melhor do que Murakami para agradar aos indivíduos alérgicos à leitura de frases compostas. 

Uma lista semelhante, mas do ano de 2018, da Tokyo Weekender, constavam os nomes de Yoko Tawada, Tomoka Shibasaki, Hiromi Kawakami, Sayaka Murata, Toshiki Okada, Risa Wataya, Mieko Kawakami, Yukiko Motoya, Hideo Furukawa e Toshiyuki Horie. Sim, o único nome que se repete é o de Mieko Kawakami. 

Aqui mais perto, a Espanha, já chegou Agujero (The Hole, na versão inglesa), de Hiroki Oyamada, que venceu em 2014 o Prémio Akutagawa e que o crítico Manuel Rodríguez Rivero classificou como “um estupendo romance curto”, surreal, no qual se percebe a influência de Kafka e Lewis Carroll. 

Na crista da onda japonesa está outros dos nomes presentes na lista da Books & Bao, o Nobel de 2017 Kazuo Ishiguro, cujo Klara and The Sun está entre os treze finalistas ao Booker Prize deste ano e também já chegou a Portugal pela mão da Gradiva. Mas é pouco provável que Ishiguro ainda seja candidato ao título de novo Murakami. O mais provável é que comece, não tarda, a busca pelo próximo Ishiguro.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Já chegámos ao Brasil

 













O livro Verbetes para um dicionário afetivo acaba de ser publicado no Brasil pela Pallas Editora. Resultado da colaboração com os meus amigos Paulinho Assunção, Ana Paula Tavares e Ondjaki, é, no essencial, uma colecção de histórias a afectos. Teve, em 2016, uma edição portuguesa.

domingo, 8 de agosto de 2021

"Peço para entoarem a 'Grândola Vila Morena'"















Determino que desejo ser sepultado em Castelo de Vide, em campa rasa, e utilizar o caixão mais barato do mercado; o transporte do mesmo deve fazer-se pelo meio mais económico, de preferência em viatura militar. Durante o funeral somente a presença dos amigos a quem peço para entoarem "Grândola Vila Morena" e "Marcha do M.F.A.".

Da declaração escrita de Salgueiro Maia, em Santarém, 28 de Junho de 1989


Visitei ontem a Casa da Cidadania Salgueiro Maia, em Castelo de Vide, recentemente inaugurada no castelo da vila. As últimas disposições do homem que libertou Portugal emocionaram-me, talvez por saber que a sua filha trabalha (ou trabalhou, não sei) como empregada de limpeza no Luxemburgo, como tantas outras portuguesas comuns às quais a revolução dos cravos não enriqueceu subitamente. Maia não quis privilégios e cumpriu escrupulosamente o quinto ponto do programa do MFA, aquele que determinava o "combate eficaz contra a corrupção". Emocionou-me também a voz do Adelino Gomes narrando a revolução, sem palavras para descrever o que via, e o som dos meus passos no cascalho do caminho que leva à porta da casa, quase igual ao dos passos marciais que abrem a gravação daquela reportagem, que guardo numa velha cassete. Cantei a "Grândola" enquanto marchava, uma lágrima no canto do olho. Espantou-me também que um museu do século XXI, que agora principia a ser visitado pelos turistas que passam na vila, não tenha uma única legenda em Inglês que os ajude a compreender o gesto heróico e limpo do melhor dos meus compatriotas.

sábado, 7 de agosto de 2021

Portugueses que nos deixam inchados de orgulho









Pedro Pichardo, medalha de ouro do triplo salto nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Patrícia Mamona, medalha de prata do triplo salto nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Jorge Fonseca, medalha de bronze de judo nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Fernando Pimenta, medalha de bronze de canoagem K1 mil metros nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Auriol Dongmo, quarta classificada no lançamento do peso nos Jogos Olímpicos de Tóquio (na imagem acima).

Liliana Cá, quinta classificada no lançamento do disco nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

João Vieira, quinto classificado nos 50 kms marcha nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Maria Martins, sétima classificada no omnium nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Neemias Queta, primeiro basquetebolista português na NBA.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Groguim sab











Este é um post exclusivamente dedicado aos apreciadores de grogue e, mais concretamente, aos que gostam de grogue velho. É provável que, estando apartados de Cabo Verde, da calidez de Cabo Verde, tenhais certa dificuldade em encontrar material que satisfaça o vosso vício. Não deveis desesperar, porém. A ilha da Madeira já produz néctares de alguma qualidade e devo informar que me tenho regalado, um dedal de cada vez, com o chamado Rum da Madeira que a casa William Hinton & Sons produz no Engenho Novo do Estreito da Calheta. O nome do xarope pode parecer estranho, mas é groguim sab. Tomai e bebei todos.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Vírus português













Por incrível que pareça, ainda sou do tempo em que certos indivíduos à beira de um ataque de nervos vinham para as varandas bater palmas aos heróis da Covid a fim de apanhar, ao menos, um pouco de ar corrente na tromba. Nessa época, hoje já tão distante, também era comum ouvir algumas pessoas a garantir que a vida na Terra não ia voltar a ser igual depois da doença. Havíamos necessariamente de aprender a ser boas pessoas e a viver em harmonia. Ia ficar tudo bem (que ridículo).

Passado tanto tempo, ou o que parece ter sido muito tempo, a vida na Terra prossegue, no essencial, igual ao que era antes (se excluirmos o aborrecimento estético das máscaras de protecção individual e alguns obstáculos legais à nossa vida social). Os ricos estão mais ricos, os pobres estão mais pobres, certos negócios florescem para vantagem do habituais beneficiários e já nasceram, pasme-se!, máfias dedicadas à comercialização de certificados da vacinação e testes Covid contrafeitos. Quase caí da cadeira quando tive conhecimento de tão surpreendente notícia, pois jamais supus que o ser humano pudesse ser tão vil. Chiça!

Mais de quatro milhões de mortos depois, parece-me, pois, que o SARS-Cov-2 constitui uma oportunidade perdida. Se era realmente necessário desbaratar alguns milhões de vidas humanas, facilmente se conclui que um vírus minimamente eficiente e organizado teria actuado de forma mais selectiva, livrando o planeta de um conjunto de indivíduos que não fazem cá falta nenhuma em vez de colher vidas inocentes ou de prejudicar umas quantas boas pessoas. Com algum planeamento estratégico, até um imbecil como eu podia ter ajudado a fazer a lista, indicando uma dúzia ou duas de nomes de sujeitos cuja perda constituiria uma ganho civilizacional aos mais diversos níveis. 

Mas não. Mais uma vez, foi tudo tratado de forma diletante. Creio, por isso, que existe uma boa possibilidade de o vírus ter sido produzido num laboratório em Portugal, a funcionar num anexo de um anexo de um anexo, nas traseiras de uma churrasqueira de Canelas. A OMS que abra os olhos.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Acabar com a bandalheira













São quase três da tarde e, após a cabidela em casa da mãe, este é um assunto que me mobiliza extraordinariamente. É necessário acabar o quanto antes com a bandalheira e agradeço que, de preferência, comecem por aquilo que é mesmo importante, desde logo pelos assuntos que realmente mobilizam um desocupado em jubiloso trâmite pós-prandial. 

De acordo com o jornal El País de hoje, os energúmenos das companhias de telecomunicações espanholas ter-se-ão comprometido a passar, enfim, a cumprir a legislação que desrespeitam há décadas. Refiro-me, bem entendido, à proibição de acossar cidadãos honestos e desprevenidos durante a sagrada hora da siesta. Será possível, doravante, que um cavalheiro termine uma refeição decente, tome o seu café, fume a sua cigarrilha, se calhar um uísque ou alguma coisa que ajude o bom trânsito digestivo — e se deixe depois dormir como manda a tradição e o bom senso, dedicando as energias do corpo ao correcto processo de assimilação das proteínas e das vitaminas, sem correr o risco de ser incomodado pelo telefonema que lhe proporá novos serviços, mais não sei quantos gigas de internet e 15 canais que jamais verá, tudo em condições muitíssimo vantajosas, como de costume.

Os países desenvolvidos distinguem-se pela protecção que garantem às inalienáveis liberdades dos seus cidadãos. As empresas de comunicações são, infelizmente, soezes e maliciosas em todas as partes do mundo. É necessário, assim, que alguém as ponha na ordem. Caso contrário... zz... existe o risco nada... zzzzzz... menosprezável... zzzzzzz... de que se instale... zzzzzz... o caos social e a bandalhei... zzzzzzzzzzz......

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Morder a língua

"Numa época e num país no qual todos se pelam por proclamar opiniões ou juízos, o senhor Palomar ganhou o hábito de morder a língua três vezes antes de fazer qualquer afirmação. Se, à terceira dentada na língua, ainda está convencido daquilo que estava para dizer, di-lo; se não, fica calado. Com efeito, passa semanas e meses inteiros em silêncio".

Italo Calvino, em Palomar

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Os peritos









Logo a seguir aos almirantes, cujo prestígio cresce alheio ao tamanho das filas para a vacinação, os "peritos" têm sido o grupo profissional cuja notoriedade pública mais beneficiou com a conjuntura sanitária dos últimos 18 meses. Estão a toda a hora em toda a parte e pronunciam-se abundantemente sobre um vasto leque de assuntos, da molécula de hidrogénio ao cálculo da data em que será atingido o pico de uma determinada vaga pandémica. Nos últimos dias, e sem qualquer surpresa, os peritos passaram também a pontificar sobre comunicação, "erros de comunicação", demonstrando que não existem limites para a diversidade de matérias que um perito pode dominar. Estão no seu inteiro direito (ou não existisse ainda, neste país, uma espécie de democracia), do mesmo modo que qualquer desportista de sofá (e certos comentadores desportivos) se pronuncia liberalmente sobre todos os aspectos técnico-tácticos de um jogo de futebol sem nunca ter visto uma bola a pinchar à sua frente. Não deixo de estranhar, porém, que os mesmo peritos que também dominam de modo exímio as técnicas de comunicação sejam os mesmos que frequentemente expressam verdades científicas que se contradizem entre si e que, por exemplo, erram o cálculo da data em que se atingirá o pico pandémico, mudam de opinião sobre a probabilidade de transmissão dos vírus ao ar livre ou não se entendem quanto à validade da matriz de risco (criada pelos próprios) ou relativamente ao modo e ao momento de desconfinar de forma segura. Mas isto, claro, é só uma perplexidade de alguém que não é perito em coisa alguma.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Penaltis

A primeira parte foi de encher o olho: grande dinamismo ofensivo, jogo criativo, os olhos sempre postos na baliza, à procura da vitória. Depois vieram as expulsões e os erros tácticos. Nos segundos quarenta e cinco minutos e no prolongamento, em inferioridade, o team limita-se a tentar não sofrer demasiado com as investidas do adversário. Talvez consiga triunfar nos penaltis.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

O saque da Pátria inerte









Os anos passam, os regimes sucedem-se, os políticos revezam-se, as gerações mudam, as modas evoluem, os partidos trocam de nome e até os séculos transcorrem lentamente — mas Portugal (ou o mundo, não é possível ter a certeza) mantém certos vícios que se repetem e perpetuam para lá de toda a razoabilidade. Vendo as notícias, o que nelas há de artifício e aparência, mas também a substância profunda que, às vezes, as sustenta, fica-se com a sensação de que o final da cena d'Os Maias em que João da Ega vai ao jornal A Tarde podia ter acontecido ontem ou em qualquer dos dias decorridos desde que este país se fundou. Passem os anos que passarem, parece que ecoa permanentemente aquele "toque a rebate" que convoca "todos os hábeis para o saque da Pátria inerte". Os jeitosos até podem ter mudado e refinado o método, mas a depredação continua tão daninha como quando os cruzados tomaram posse e dividiram entre si as terras e os bens alheios que encontraram pelo caminho.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

É só fazer as contas

Duas notícias ontem publicadas em diferentes jornais online permitiram-me ficar a par de que, durante a pandemia, Portugal passou a contar com mais 19.430 milionários (dados do Crédit Suisse), enquanto há agora mais 400 mil indivíduos que passaram a ter de viver com 508 euros por mês, ou menos (dados da Universidade Católica). Trata-se, pois, de fazer as contas: cada novo rico causa, grosso modo, 20,5 novos pobres (os quais, em nenhum momento, pesam na soberba consciência dos endinheirados).

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Tão pequenino

Desde as sete da manhã que há um alvoroço de pássaros no céu da vila. Agora são dez. Estão 23 graus à sombra e o dia promete ser quente. As andorinhas chilreiam e cruzam o ar azul, transparente, em direcções desencontradas. As esplanadas vão-se enchendo de gente enquanto se abrem os guarda-sóis. A cervejaria passa Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes. Os velhos descem à rua principal com as suas bengalas — vi uma estacionada a uma porta, como pronta e ansiosa à espera do dono —, as suas boinas, o passo lento e trôpego, e as máscaras obrigatórias. Numa das esquinas, um cigano velhote está a vender cabeças de alho numa cesta de vime, sentado à soleira de uma porta. Ergue o rosto para me dizer um bom dia quase radioso. O pai dos meus primos abeira-se para me cumprimentar. Olha para o laptop e pergunta se sei o que, numa sala de computadores, diz o computador maior a um mais pequeno. Digo que não. Gosto de ouvir anedotas novas. "Tão pequenino e já computas?", é o que diz o computador grande. Tão pequenino.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Uberdeath

Tenho-me cruzado quase todos os dias, a caminho do metro, com um carro funerário descaracterizado (é obviamente um veículo destinado a transportar cadáveres — escuro, largamente envidraçado, com a caixa de carga ampla, à medida certa de um caixão —, mas não está identificado como tal). Já tem sucedido que o carro esteja cheio de caixas de cartão de diferentes estabelecimentos comerciais, o que me levou a supor que o condutor, à falta de enterros, se dedica a fazer entregas ao domicílio de compras online, tão em voga graças aos confinamentos pandémicos. Mas também o acho frequentemente vazio, estacionado no meu caminho, como à espera com toda a paciência do mundo. Não me inquieto e até acho graça. O artista Ai Weiwei declarou há dias que já comprou em Portugal o jazigo em que será sepultado.  Eu, de cada vez que vejo o carro funerário descaracterizado à minha espera, imagino que alguém muito meu amigo, preocupado com o meu bem-estar, já tomou providências no sentido de me poupar a ter de descarregar a aplicação informática que me permitirá, no futuro, chamar e pagar o TVDE que me há-de levar.

sábado, 22 de maio de 2021

Pêlo de cão velho










Se não tiver acontecido alguma coisa que me contrarie (mas nunca se sabe, nunca se sabe), completarei hoje o meu primeiro meio século de existência. À cautela, redijo este texto com alguma antecedência, ainda impressionado por, enquanto cortava o cabelo um destes dias, ter constatado que a toalha do barbeiro se ia enchendo, à medida que a tosquia avançava, de tufos cinzentos que pareciam de pêlo de cão velho.

Se exceptuar estas pequenas contrariedades estéticas, ou os fracos joelhos que me calharam em sorte, tenho a sensação de que este meio século passou a voar. O tempo não me incomoda. Disse-o numa recente entrevista de emprego e repito-o: não me sinto com a idade que tenho e que, de certa forma, me desqualifica para o mercado de trabalho corrente. Como um miúdo de vinte anos, também não sei de que viverei no futuro, mas já me convenci de que a incerteza permanente, a instabilidade e a precariedade são contrariedades a que devo acostumar-me. 

Esforço-me, pois, por pensar que tudo se há-de compor de algum jeito e parece-me, às vezes, que a penúria tem ao menos a vantagem de me isentar de certas manifestações mais exóticas da chamada crise da meia idade. Não planeio criar barriga, comprar um descapotável ou converter-me a uma das múltiplas religiões da moda, ao veganismo, ao nomadismo, ao puritanismo, ao rede-socialismo, à canalhice, ao exibicionismo e ao mexerico digital, ao fascismo ou ao budismo zen, nem pretendo tornar-me mais reaccionário ou mais calhado para a bajulação e para a hipocrisia do que tenho sido. 

Hei-de, assim, continuar a viver um dia de cada vez, procurando encontrar consolo na miríade de coisas inúteis a que me tenho dedicado, no pouco que aprendi, nos filhos que vi crescer, nos pais que insensatamente se orgulham de mim, nos lugares a que pertenço, na honestidade possível, no carácter, no vinho tinto e nos escassíssimos amigos que fui capaz de manter enquanto o bebia. 

Mas não há mérito algum em chegar vivo aos 50 anos. Basta não ter morrido antes.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

A inútil educação dos pássaros









Um filho, quando nasce, tem alguma coisa de pequena ave frágil que é preciso alimentar no bico. Depois chega ao momento em que se espera que seja capaz de voar sozinho. Entre os humanos, convencionou-se, com algum mérito racional, que a educação constitui um modo relativamente eficaz de proporcionar aos pássaros do futuro as asas que mais tarde abrirão para traçar o seu próprio rasto nos céus de Maio. Mas talvez seja tudo inútil.

Esta manhã, no metro já composto pelo desconfinamento, ouvi acidentalmente um pedaço da conversa de três adolescentes a caminho da escola. Diziam que os colegas da turma de Inglês eram quase todos apoiantes do racista inominável (se não sabeis de quem estou a falar, tanto melhor: é sinal de que estais a proceder com sabedoria em pelo menos um aspecto particular dos vossos quotidianos). Ou seja: os tais colegas vão à escola, aprendem História e outras matérias mais práticas, são testados e provavelmente aprovados, mas continuam tão cegos e manipuláveis como os ignorantes da Idade Média e das trevas, dos autos de fé e do holocausto.

Na opinião das raparigas do metro, que hão-de ser a excepção de uma regra qualquer, a adesão dos colegas à hipocrisia fascista e racista, à mentira mais descarada, à manipulação, dever-se-á à influência dos respectivos progenitores. A ser verdade, significa isto que as aves adultas estão cortando as asas dos pequenos pássaros antes mesmo de lhes mostrarem como se faz para voar, tornando inútil toda e qualquer instrução que venham a receber. 

Ou talvez não: amputados e estúpidos, os petizes não deixarão de beneficiar de um sistema de ensino descerebrado, acrítico, desmemoriado e permissivo para tirarem os seus canudos e acabarem sendo os doutores e engenheiros que perpetuarão a intolerância, a exploração, o mexerico, a sacanice, o oportunismo e a hipocrisia. Lucrarão com isso, decerto. E o lucro é, afinal, a única coisa do mundo que parece ter algum valor.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Tom e Thomas








Um indivíduo pode passar a vida perdendo tempo a ler livros, a acumulá-los em todos os cantos da casa, velando-os como a objectos preciosos e íntimos, e nem assim deixar de ser profundamente ignorante. Só há pouco tempo, por causa de um filme que vi por acaso, me apercebi de que o romancista norte-americano Thomas Wolfe e o romancista norte-americano Tom Wolfe não eram a mesma pessoa — talvez porque o primeiro é quase desconhecido em Portugal (não fui capaz de encontrar qualquer tradução ou edição dos seus livros, de Look homeward, angel ou de Of time and the river, por exemplo), embora tenha lido nos últimos tempos vários textos (de Faulkner, Piglia ou Vila-Matas)  que o elogiam a ele e à radical desmesura obsessiva da obra que deixou. Mas é possível, ao fim e ao cabo, que Thomas Wolfe fosse capaz de me aborrecer tanto quanto Tom Wolfe me aborreceu, demonstrando que a ignorância patibular de certos leitores é uma ciência relativamente exacta e difícil de contrariar. Por muito que um asno se esforce por alcançar ilustração e cultura, há-de levar os anos zurrando e teimando em não sair do lugar.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Uso obrigatório de açaime na via pública e manutenção do distanciamento físico relativamente a pessoas que cumprem e fazem cumprir lei imaginárias








Lei n.º 62-A/2020, em vigor desde 28 de Outubro de 2020, e cuja vigência já foi prolongada pelo menos até Julho, diz muito claramente, no seu artigo 3º, que "é obrigatório o uso de máscara por pessoas com idade a partir dos 10 anos para o acesso, circulação ou permanência nos espaços e vias públicas sempre que o distanciamento físico recomendado pelas autoridades de saúde se mostre impraticável". O povo, não obstante, usa o preservativo respiratório em todo o lado, em ruas desertas e mesmo quando não haja vivalma a centenas de metros de distância, decerto convencido de que o vírus paira no ar como o espírito santo. Talvez para demonstrar que o fascismo nos está entranhado no sangue, há quem recrimine os que se limitam a cumprir a lei e aproveitam os intervalos para respirar como antigamente. Rosnam e ameaçam fazer como os bufos de antanho, como aqueles que incriminavam as bruxas, os judeus, as mulheres histéricas, os ateus, os comunistas e todos os que não usem a trela mais comum ou mais na moda. Espero, pois, que, de Julho em diante, estes zelosos cumpridores de leis imaginárias sejam obrigados a trocar as máscaras sociais, cirúrgicas e KN95 por açaimes de aço inoxidável, e que lhes fique pelo menos tão bem como ao Hannibal Lecter.

Nota: há dias, a caminho de um concerto do Manuel Cruz em Portalegre, o agente de serviço à porta do comando da PSP abordou-me com cara de poucos amigos para que pusesse a máscara na rua; estava com pressa, pelo que, em vez de recalcitrar e argumentar, acatei a ordem e segui caminho, evitando aborrecimentos desnecessários. A menos de 30 metros de distância, dezenas de jovens chillavam sem máscara nas várias esplanadas vizinhas da PSP. Mas aí seria a PSP a ter de aborrecer-se. Cada um faz o que pode. Eu escrevo posts de merda quando me faltam os tomates para me comportar como um cidadão como deve ser.