Publicado no final da década de 1980, quando não se podia ainda imaginar o desastre sociológico e ético em que nos transformaríamos, O Labirinto da Saudade, de Eduardo Lourenço, configura um retrato intemporal e certeiro de um país em que a mistificação e a ignorância se continuam a combinar para dar origem a sucessivas ficções que procuram exaltar um falso passado messiânico que tanto comemora "bispos anónimos de Bragas lusitanas" como "vitórias caseiras de hóquei-em-patins". Salazar, no seu tempo, escreveu Lourenço, tirou exemplarmente partido da feição tacanha, resignada e crédula de um povo para encobrir "os privilégio exorbitantes e a impunidade mandante da classe a que ele mesmo não pertencia".
Passado o entusiasmo (talvez utópico, ao menos em Portugal) da instrução pública e da democratização do ensino, Ventura (e os seus diversos émulos no PSD, no CDS e na IL) perceberam que o país está outra vez maduro para engolir o embuste, boçal, crédulo e desejoso de um messias de fancaria que volte a alimentar a ficção de um povo que desde sempre se julga maior e melhor do que aquilo que, na realidade, é. Como Salazar, Ventura vai à missa, ou diz que o faz, e exacerba mitos sem qualquer relação com a verdade factual. Sem pausa nem retoque, transitou no benfiquismo de pocilga televisiva para o fascismo taxístico das redes sociais; trocou o ascetismo monástico de Salazar pela agressão verbal mais rasca e usa-a para vergastar aquela mesma burguesia privilegiada e impune à qual pertence e à qual protege, da qual depende, convencido de que os eleitores do século XXI, talvez mais imbecilizados e crédulos do que em qualquer outro momento histórico, preferem o circo e a lama à evidência dos factos, da ciência e da História.
Os portugueses não sabem nem querem saber (e muito menos lerão Eduardo Lourenço ou alguém que saiba onde pôr as vírgulas). São, por isso, presas perfeitas para o novo ciclo de mistificação e engano — que já tresanda.
Escrevi, acima, que não podíamos, nos anos 1980, imaginar a esterqueira que aí vinha. Mas, no primeiro dos ensaios que compõe o livro supracitado, datado de 1977/78, Lourenço já parecia adivinhá-lo. Escreveu: "Foi a imagem ideológica do povo português como idílico, passivo, amorfo, humilde, e respeitador da ordem estabelecida, que o 25 de Abril impugnou, enfim, em plena luz do dia. A verdade que através dela irrompia era de molde a reajustar finalmente a nossa realidade autêntica de portugueses a si mesma, como reflexo e resposta de uma desfiguraçao tão sistemática como aquela que caracterizara o idealismo hipócrita e, sob a cor do realismo, o absurdo irrealismo da imagem salazarista de Portugal. Todavia, anos passados, não é possível asseverar que tal reajustamento se tenha produzido (...). Se a revolução de Abril sucumbir (...), isso dever-se-á unicamente ao facto de de não ter sabido ou podido operar a conversão da antiga imagem mítica" do país. "Desde o início, a revolução cometeu uma falta que, esperamo-lo, não lhe seja fatal. Hipnotizada pelo puro combate ideológico (...), descurou o excesso de sentimento nacional, deixando à futura direita, após a cómoda hibernação que lhe ofereceu, a sua exaltada e frenética exploração".