segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Muito de vez em quando foge-lhe a boca para a verdade

 Bem sei que algumas pessoas têm posto em causa a sinceridade da campanha eleitoral do energúmeno salvador da pátria junto das populações afectadas pelo mau tempo. Eu não vou tão longe. Por exemplo: quando ele diz «que se lixem as eleições», creio que está a ser absolutamente genuíno e que, uma vez no poder, não tem mesmo qualquer intenção de voltar a sujeitar-se a esta maçada.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Ideia para uma campanha coerente

 Julgo que os cavalheiros e as gentis damas que ocasionalmente (ainda) me lêem se recordarão de, no passado Verão, durante a época dos incêndios, ter visto o tragicómico salvador da pátria a apagar (com as próprias mãos!) um fogacho que não daria para acender um charuto. Agora, com o risco de cheias em vários rios, e em plena campanha eleitoral, espero, pelo menos, poder regalar-me a ver o tal indivíduo a esvaziar o Mondego com um copo de shot.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Dantescos

 Os estragos da mais recente tempestade são, é verdade, muitíssimo impressionantes. São mesmo bastante mais graves do que os atropelos à mais elementar razoabilidade. Nos telejornais, autarcas e alegados jornalistas atropelam-se para declarar que o cenário de destruição é "dantesco". Só ainda não consegui perceber a que obra ou passagem de Dante se referem para estabelecer tal metáfora. Que me lembre, nunca chove ou sopra tal vento no inferno, no purgatório ou no paraíso, nem lá há telhados arrancados, árvores quebradas e ferros retorcidos. Só se for por causa do letreiro à entrada do inferno no qual se lê: Por mim vai-se à cidade que é dolente,/ por mim se vai à eterna dor,/ por mim se vai entre a perdida gente.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Saudemos os cem mil eleitores que já acordaram

 Com seis consulados (de 190) ainda por apurar, registo que o candidato Ventura tem neste momento menos 111.237 votos do que o seu partido havia conquistado nas eleições legislativas do ano passado. Pode parecer quase nada, mas o facto de mais de cem mil eleitores terem aberto os olhos e deixado de votar num grupo neofascista constitui uma das poucas ocorrências positivas dos últimos anos da democracia portuguesa.

Constatado o óbvio, receio, também pelo motivo que já expliquei, que o candidato Ventura possa mesmo ser eleito presidente da república. Some-se àquela dinâmica a hipocrisia e a indefinição das direitas ditas democráticas, mas realmente incapazes de escolher entre um democrata e um fascista, e temos criadas as condições para que a elevada "taxa de rejeição" do chegano, tão da predilecção das empresas de sondagens e dos paineleiros das televisões, se esfume enquanto o diabo esfrega um olho.

Tinha decidido há alguns dias que só votaria na segunda volta caso se nos apresentasse a alternativa que agora se concretizou: não simpatizando especialmente com Seguro, votarei nele para tentar impedir o absurdo de ver este país regredir e amesquinhar-se de um modo que há alguns anos nos parecia inimaginável. 

Votarei, pois, pelos meus filhos, pelo meu neto e pelos filhos e pelos netos de todos aqueles que considero e respeito. Fá-lo-ei também pelos filhos e pelos netos dos cheganos, pois nem eles merecem viver num país governado por pedófilos, ladrões de malas, toureiros, polícias torturadores, agressores domésticos, vigaristas, xenófobos, fascistas e consultores especializados em evasão fiscal. Entendam-no, por favor, como um raro gesto de compaixão de alguém que nem sequer vai à missa ao domingo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O país que é uma piada infinita

 Não é particularmente surpreendente que um jornal com a qualidade do inglês The Guardian tenha centrado o artigo sobre as eleições presidenciais portuguesas na candidatura de Manuel João Vieira e nas suas semelhanças com o Mussolini de Carnaval que dá pelo nome de Ventura (ou Cotrim, na sua versão Cascais e muito melhor vestida). Portugal, com efeito, transformou-se nos últimos anos, e de forma radical, numa sátira de si próprio, rendendo-se à lógica megafónica de um partido composto pelo pior que a sociedade nutriu: pedófilos, ladrões de malas, toureiros, polícias torturadores, agressores domésticos, vigaristas, xenófobos, fascistas e consultores especializados em evasão fiscal. 

A responsabilidade pelo estado a que chegamos não é exclusiva, bem entendido, desta gente rasteira que se juntou no Chega à cata de um tacho vindouro (a maior parte desta gente estava antes no PSD e, aliás, com a mesmíssima ambição). As sucessivas governações do PS e do PSD criaram, sim, o ambiente propício para a erupção da raiva e do descontentamento, alimentando uma rede de interesses e conluios, daninha, corrupta e que acabou por minar as fundações do próprio regime democrático (o pior de todos, com a excepção de todos os outros). 

Todavia, e mesmo procurando compreender aqueles que, por despeito e desespero, admitem votar no Ventura (ou no Vieira, ou no Cotrim), continua a não ser muito aceitável, do ponto de vista cívico, que um punhado de grunhos irritados prejudique a vida de todo o colectivo, lançando-nos para os braços da selvajaria e do ódio. Estando zangados, tais cavalheiros e damas podem muito simplesmente atirar-se para debaixo de um comboio em andamento, sem prejudicar quem nunca lhes fez mal nenhum e apenas aspira a viver num país decente.

Estamos, bem entendido, cada vez mais distantes desse objetivo. Ao contrário de todos os paineleiros encartados, não me parece demasiado extravagante a ideia de ver Ventura ou o Chega ganharem eleições. Estão cada vez mais perto disso e basta-lhes, vendo bem, juntar os votos daquele PSD e daquele PS que ainda resistem à barbárie, convencendo-os da real possibilidade de, subindo ao poder, ficarem em posição de distribuir os tachos que o PSD e o PS até agora não proporcionaram ou deixaram de proporcionar por força de cómicas cisões internas.

Um país governado pelo Ventura será, sim, uma espécie de piada infinita, necessariamente trágica e cómica. Mas, conforme escreveu Karl Marx (o diabo desta gente), "a História repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa". Já lá vamos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Quando é a inteligência artificial a decidir

 Existia desde Aristóteles, pelo menos, um relativo consenso quanto ao significado das palavras escolher e decidir, ambas relacionadas, seja como for, com o exercício da vontade (e ainda que esta possa estar de algum modo condicionada por razões externas). Mas tudo isto acabou. Ontem escutei um imbecil que, tendo acabado de exercer o direito ao voto antecipado, explicou diante de uma câmara de TV que decidira em quem votar com a ajuda da inteligência artificial e das tracking pools dos sites supostamente informativos. Quando, na falta de uma inteligência própria, as escolhas humanas passaram a ser ditadas pela tômbola electrónica, o próximo presidente da república tanto pode ser um urso de peluche como um salpicão com bolor.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Três perguntas quase inocentes

Estando Trump tão empenhado em combater os traficantes de droga em outros países, não devia ter começado por atacar os cartéis que há décadas operam dentro dos EUA? E se o petróleo parece suficiente para mobilizar Trump contra um regime político sanguinário, por que não atacar a Arábia Saudita? Será porque, nestes casos, os amigalhaços de Trump ou a própria família de Trump já estão a ganhar dinheiro com o dito "narcoterrorismo" e com o autoritarismo sanguinário sustentado pelo crude?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O doutor Estranhoamor já vem a caminho

 Escrevi aqui, no dia 14 de Outubro de 2020, que Trump (& sus muchachos) se assemelham demasiado ao cowboy louco que, num filme de Kubrik (Dr. Strangelove), se dirige, fanfarrão, para o fim, cavalgando uma ogiva nuclear. Esta, creiam, é uma das situações em que preferia não ter tido razão. Cinco anos depois, parece evidente que a bomba já saiu do bojo do bombardeiro. Trump grita de emoção e, ufano, agita o chapéu, com o rosto lambuzado de creme cor de laranja. E o resto do mundo, por diferentes razões, faz de conta que não vê o que está a acontecer.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Sobre a queda de um fanfarrão

 Nenhum democrata ficará triste com a queda de Nicolas Maduro na Venezuela (o homem é, no essencial, um Trump com melhor cabelo e uma bigodaça untuosa). Posto isto, a sua queda, às mãos de uma tentativa de golpe de Estado (Trump já tinha tentado em 2021, dentro dos EUA) e de assalto petrolífero, é absoluta e flagrantemente contrária a todos os princípios que um democrata deve defender. O rapto norte-americano viola não só as regras do direito internacional, como as próprias leis dos EUA. 

Pode até ser verdade que, na nova ordem mundial, imperará, em vez do Direito e da Ética, a lei do mais forte (como no faroeste e nas cruzadas medievais). Sendo esta a norma, vamos todos sofrer consequências, da Gronelândia ao Taiwan, passando pelas mais básicas células da vida em comunidade. Mas podemos sempre fingir que isto é apenas sobre a queda de um fanfarrão.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Inteligências menos estúpidas

 O Teatro Anatómico bateu este mês o recorde absoluto de visualizações desde a sua criação, no tempo já longínquo em que ainda se usava ler blogues. Bem sei que as mais de onze mil visitas registadas em Dezembro não correspondem a uma realidade efectiva e que, diz quem sabe, este intumescimento se deve à actividade de bots digitais que por aqui passam sabe-se lá com que obscuros propósitos. Mas cumpramos os preceitos da época e, por uma vez sem exemplo, sejamos optimistas: é possível que este blogue esteja a contribuir activamente para que as inteligências artificiais fiquem um bocadinho menos estúpidas - nem que seja percebendo, por fim, que não há aqui nada que minimamente lhes possa interessar.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O teu retrato

 A generalidade dos ditos órgãos de comunicação social esteve ontem entretida com uma alegada notícia relacionada com a putativa investigação a um candidato presidencial. Os demais candidatos comentaram a preceito (mesmo quando diziam não comentar), assim contribuindo para aumentar a bolha especulativa. Hoje soube-se que o suposto investigado nem sequer é arguido. E vira o disco (para tocar mais ou menos o mesmo). Parece-me um fiel retrato do país que pariu um parlamento maioritariamente chegano (e aqui incluo, sim, boa parte dos eleitos do PSD, do CDS e da IL).

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Mais uma razão para votar

 O voto é, conforme se sabe, o exercício simultâneo de um direito constitucional (por enquanto) e de um dever cívico. Procuro, por isso, exercê-lo sempre de forma consciente e responsável (o que não me impediu de ter sido ludibriado pelo menos uma vez). Tenho, por isso, razões acrescidas para votar na primeira volta das eleições presidenciais, no dia 18 de Janeiro: a acreditar nas várias (e desencontradas) sondagens que por aí circulam, na segunda volta serei obrigado a votar em branco.

Alentejano

 Alguns dias por ano, quando a meteorologia o permite e proporciona, visto-me de um modo que leva as pessoas a considerar que pareço um alentejano. Para o efeito, e sem desprimor do meu nariz de marrano, limito-me, todavia, a combinar uma samarra de Penafiel com uma boina da Pull&Bear.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Outro exemplo (agora um pouco mais doce)

 Outro exemplo de que a história se repete pode ser lido no romance A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós. Mudando-se o corte dos vestidos, o design dos penteados e a tez branca de pó-de-arroz, aquelas cortesãs de Paris não diferem substancialmente da imensa e planetária legião de «influenciadoras», «artistas», «figuras públicas» e «criadoras de conteúdos digitais» que atravancam as redes sociais. Vem a propósito, por isso, recordar a judiciosa explicação de Jacinto sobre a criação e sustento dessas belezas artificiais: 

Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter cortesãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolência, é necessário que se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato! Somos uns sete, no Clube. Eu pago um bocado... Mas meramente por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto não chafurdo. Pobre Diana!... Dos ombros para baixo nem sei se tem a pele cor de neve ou cor de limão.

Agora globalize-se Paris, acrescente-se ao rol das ostentações as viagens às Maldivas e ao Dubai, os adereços de silicone, as sobrancelhas mil vezes repetidas, e multiplique-se por milhões o número dos pagantes do sindicato. Não é a cara chapada de uma rede social que cada um de nós conhece de ginjeira?

Um dia, mais cedo ou mais tarde (dizem que o Natal é um tempo de esperança)

 Por agora não há muito a fazer, considerando o estado tóxico a que isto chegou. Trump pode escrever o próprio nome em toda a parte, nas ruas, nos centros de convenções, nas rivieras, nas moedas, no espelho do lavatório ou nos barcos de guerra. Cedo ou tarde chegará o dia, como sempre aconteceu ao longo da História, em que mesmo aqueles que acreditam nas mentiras mais desconchavadas desconfiarão do peixe podre que lhes vendem nas redes e arrancarão as letras douradas com picaretas. Em carne viva, arrastados pelas multidões, os venturas do mundo serão surrados na lama e rojados pelos gumes das pedras, como os mussolinis e os ceausescus de antanho.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Ethiké e praxis

 Apesar da interdição bíblica, Aristóteles escreve, na Ética a Nicómaco, que "é muito fácil dormir com a mulher do vizinho". Talvez fale de barriga cheia, mas não tenho como sabê-lo ao certo. Suponho, ainda assim, que Aristóteles não mora no meu prédio. Ou assim espero.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A greve geral é sempre uma opção política; as leis laborais também

 «É uma das coisas que os patrões mais nos pediram», disse a ministra do Trabalho, há dias, quando questionada sobre uma das iníquas medidas previstas pelo pacote laboral do governo. Seja por desfaçatez ou por inépcia comunicativa, a governante tornou evidente, daquele modo, a verdadeira motivação deste e de todos os chamados pacotes laborais das últimas décadas: o objetivo passa sempre por satisfazer o patronato e nunca as necessidades daqueles que laboram.

O primeiro-ministro da Spinumviva procurou, aliás, apoucar a greve geral de amanhã, considerando que a paralisação tem «motivações políticas». A menos que Montenegro pretenda também desqualificar a atividade política (a que se dedica quase a tempo inteiro), não se compreende qual possa ser a utilidade daquele reparo. Uma greve geral é sempre um acto político e uma decisão política por parte daqueles que aderem e por parte daqueles que preferem ficar a trabalhar. Também é política a decisão de propor uma alteração à legislação laboral, sobretudo por parte de um governo minoritário que sabe de antemão que só a aprovará com o apoio dos energúmenos arruaceiros do partido fascista.

Também o trabalho é uma das actividades mais políticas a que um indivíduo de pode dedicar. Sabemo-lo, pelo menos, desde que Hegel explicou que o homem real, essencial e objetivo não é senão resultado do seu próprio trabalho. Mas Marx explicou - por muito que hoje exista um pacto de silenciamento sobre este assunto - que a concepção de Hegel peca por defeito, uma vez que só compreende o lado positivo do trabalho e não vê que ele é também uma forma de alienação e, consequentemente, de exploração e de depreciação daqueles que trabalham, aos quais nunca se paga de acordo com aquilo que efectivamente  produzem e segundo as suas necessidades básicas.

A greve geral é, pois, uma decisão política por excelência e um acto de cidadania; é um momento de exercício democrático e de reflexão sobre o país que temos e o mundo que estamos a construir para os nossos netos, tendo como único critério aquilo que os patrões pedem aos governos a fim de aumentarem os lucros. Sejamos, pois, profundamente políticos.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Vidigueira, já ganhamos

 Mesmo não tendo participado em entediantes debates, nem tendo sido entrevistado pelo servil Vítor Gonçalves, o candidato Manuel João Vieira já é, de longe, a personalidade mais influente do ano. Caso haja alguma dúvida, basta ver como as promessas de vinho canalizado em todas as casas, fontes de bagaço nas praças, patinadoras russas para todos os homens e um Ferrari para cada português obrigaram Luís Montenegro a reagir. O primeiro-ministro propõe, espantem-se à vontade, ordenados mínimos de 1.600 euros e ordenados médios, vamos lá ser mesmo malucos, de três mil euros. Sabemos que a proposta do governo de aumento do subsídio de refeição não dá para comprar um molete. Mas, se o Vieira  mantiver a candidatura até meados de Janeiro, ainda é possível que Montenegro nos prometa que vamos todos ser suecos, louros e herdeiros universais do Elon Musk.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Cantando e rindo a caminho do abismo

 A lamúria não é de hoje (nem de anteontem): os jornais estão a morrer e, com eles, o jornalismo (excepto nos casos em que certo interesses económicos mais ou menos ocultos sacrifiquem um cagagésimo dos respectivos lucros para sustentar um obscuro projecto de poder). Mas quase nunca se escuta um mea culpa a esses arautos, a esmagadora maioria dos quais é responsável, e há mais de vinte anos, pelo estado a que a comunicação social chegou.

Um dos mais tragicómicos exemplos disto é o chamado fact-checking, multiplicado por mil polígrafos e afins: depois de terem escancarado as portas e cafajestes manipuladores, transformando-os em líderes políticos eleitoralmente relevantes, os OCS lembraram-se de que talvez não fosse má ideia criar uma rubricazinha na qual se procurasse desmontar as atrocidades que aqueles energúmenos proclamam a toda a hora.

A ideia não seria completamente estulta se aqueles que acreditam nas mentiras dos mussolinis de carnaval alguma vez pudessem ser esclarecidos pela exibição da verdade. Mas não podem. Estão tão intoxicados e imbecilizados pela ditadura algorítmica que nem sequer tomam conhecimentos dos desmentidos proporcionados pela chamada verificação dos factos.

Pior do que isso: ao tratar do mesmo modo meras imprecisões e as falsidades absolutamente premeditadas, selvagens e soezes dos cheganos e dos seus imitadores, os OCS, os jornais e o que resta do jornalismo limitam-se a transmitir a sensação de que está tudo ao mesmo nível, assim contribuindo para a grande marcha do novo fascismo sobre o que resta da inteligência do mundo.

Em cheio na mosca

 "Leio no jornal que a «palavra do ano» é Apagão. Pela primeira vez, a vulgar acção publicitária da Porto Editora coincide – ainda que de forma involuntária – com o verdadeiro carácter da nossa época. Este é, de facto, o tempo do apagão. O apagão da história, dos factos, da dignidade, da empatia, da humanidade. Em breve, pouco restará que não tenha sido já apagado. Só a electricidade continuará a correr pelos fios, dentro das paredes".

Rui Manuel Amaral, no blogue Bicho Ruim

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

O fim do mundo numa cançoneta sem qualidades

A 25 de Fevereiro de 2022, um dia depois da invasão da Ucrânia, a Eurovisão decidiu banir a Rússia do Festival da Canção. Ontem, mais de dois anos após o início da chacina de milhares de civis em Gaza, à bomba e à fome, a mesma organização decidiu que Israel pode continuar a participar no evento.

 O assunto deste texto parecerá relativamente fútil. Trata, todavia, de mais uma manifestação da gritante dualidade de critérios e da total ausência de equanimidade, adoptadas nos últimos anos pelas potências ocidentais e pelos seus capachos. Esta espécie de relativismo hipócrita e fraudulento, consubstanciado em decisões como a execução de alegados criminosos sem julgamento ou as guerras iniciadas sob falsos pretextos, cria, com efeito, o ambiente propício para o completo descrédito do chamado Estado de Direito e para a supressão dos valores éticos que guiaram a humanidade nos seus melhores momentos - abrindo caminho para todos os autoritarismos e para todas as perversidades, arbitrariedades, crueldades e iniquidades a que os novos fascistas queiram submeter os demais seres humanos.

Não será ainda o fim do mundo. Mas é o começo do fim de um mundo onde valesse a pena estar vivo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Todo o livro é um palco

 Meticuloso cultor do nonsense, o Rui Manuel Amaral inventou em Zov um livro que é como um palco no qual evoluem absurdas personagens, pelo menos tão surreais e desajustadas da realidade quanto qualquer um de nós quando ninguém está a ver. Assemelha-se a uma peça de teatro avant garde, mas talvez seja apenas o reflexo lucidamente distorcido do nosso próprio rosto. O melhor exemplo disto é o tipo que está a serrar o galho da árvore alta no qual está sentado (e que é, digo eu, a cara chapada de um país a caminho do abismo suicida). No ponto a que isto  chegou, e tal como a rapariga da última cena, talvez apenas nos reste levantar o vestido e mostrar o traseiro aos que assistem narcotizados e indiferentes à grande tragicomédia do mundo.

sábado, 29 de novembro de 2025

O Alentejo ainda se pode salvar

 Os alentejanos, já se sabe, imbecilizaram bastante nos últimos anos. Mas nem tudo está perdido. Pode ser que os trabalhadores imigrantes escravizados se ergam um dia contra a opressão e a exploração — e o Alentejo volte a ser um exemplo ético para o resto do país e um sítio onde os pobres não odeiam estupidamente os outros pobres, mas sim aqueles que os escravizam e exploram.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Talvez sejam os vapores etílicos

"Quando o movimento dos vapores [durante o sono] for muito, fica ligado não só o sentido mas também a imaginação, de tal modo que nenhuma fantasia aparece, como acontece principalmente quando alguém começa a dormir depois de muita comida e bebida. Se, porém, o movimento dos vapores for um tanto mais lento, aparecem fantasias, mas distorcidas e desordenadas, como acontece nos febricitantes. Se, porém, o movimento ainda abrandar mais, aparecem fantasias ordenadas, como costuma acontecer sobretudo no fim da dormida e nas pessoas sóbrias e dotadas de forte imaginação".

In Suma de Teologia, de Tomás de Aquino

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Resíduos insólitos urbanos

 Em dias de borrasca, os turistas protegem-se da chuva usando capas plásticas das mais variadas cores. A cidade parece habitada por uma legião de grandes sacos do lixo com pernas, escapados, não se imagina como, dos contentores destinados aos resíduos domésticos.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Porque sim

 Com cerca de nove séculos a separá-los e estilos literários bastante díspares, Agostinho de Hipona (também conhecido como Santo Agostinho) e Dante Alighieri encetam, nas Confissões e n'A Divina Comédia, percursos bastante semelhantes para ascender à suposta revelação do divino. Já depois dos trinta anos de idade, começam por reconhecer o passado de pecado e abominação: «a direita via era perdida», escreve Dante logo na terceira linha; e Agostinho confessa-se dominado por toda a sorte de tentações veniais, do roubo à luxúria. Mas libertam-se da «selva selvagem» do vício de formas distintas. Agostinho dilacerado pelo pecado (e graças à teimosia da mãe em fazer dele um cristão), Dante por via de um alegoria literária em que se vê diante do poeta Virgílio e este o leva em excursão a conhecer o Inferno e o Purgatório, entregando-o depois à defunta Beatriz para que ela lhe revele as alegrias do Céu. Resistem um pouco, mais um do que o outro, mas acabam rendidos aos sofismas da crença. Deus existe, é bom, foi o criador do mundo e enviou o filho para nos salvar - porque sim.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Um belo paradoxo

 No romance Nem todas as baleias voam, Afonso Cruz aflora por duas ocasiões a ideia segundo a qual os livros não servem para explicar coisa alguma, mas, isso sim, para «ignorar mais», um pouco à maneira de Sócrates (o grego, bem entendido). «É assim que nos tornamos cada vez mais livres», acrescenta Isaac Dresdner. Trata-se, também neste caso, de um belo paradoxo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Os alienígenas que voltem para o planeta deles

 Extraordinária vitória! Os deputados do PSD, do Ch, do CDS e da IL mostraram quem manda neste país e proibiram o uso da Burqa na nossa terra. Só falta que, com igual sensatez legislativa, imponham multas aos extraterrestres que se atrevam a vir comer nos nossos restaurantes e que impeçam as girafas de utilizarem os transportes públicos.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Macacos no nariz, uma ontologia

 Sim, Sr. Hulot/Trafic, de Jacques Tati (1971), explora a dialética (as contradições) entre o velho mundo artesanal, do improviso, diletante, e a lógica massificada do capitalismo industrial: uma pequena empresa, de garagem, tenta fazer chegar ao sumptuoso e asséptico salão automóvel de Amesterdão um revolucionário protótipo de uma 4L destinada ao campismo, entre camiões-tir, auto-estradas frenéticas e voos de naves espaciais transmitidos em directo. Nesse momento de transição entre o mundo antigo e o novo, o ser humano, então como agora, persiste (inalterável) na sua essência. Demonstra-o a sequência da fila de trânsito na Bélgica, na qual os condutores se dedicam a tirar macacos do nariz. Hoje, 54 anos depois, em plena ascensão da inteligência artificial e no momento culminante em que se assiste à massificação do Chat GPT, basta passar alguns minutos numa bicha para, olhando para o carro ao lado, constatar que o Homem permanece igual na sua essência: somos animais básicos, e um pouco ordinários, que se entretêm a catar catotas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

A cambalhota à moda do Porto

 Ah!, o maravilhoso mundo novo do turismo de massas! Como se não fosse já suficiente o advento do ramen e o avanço civilizacional do tuk-tuk, acabo de ler num cartaz que "já abriu", na Rua do Breyner, o Museum of Sex. Desejando vê-lo dedicado às especialidades locais, ou pelo menos capaz de impulsionar a original imoralidade tripeira, espero muito sinceramente que adestrem a horda forasteira na prática da famosa cambalhota à moda do Porto, do coito à minhota e da cópula à Gomes de Sá. Mas o mínimo que se exige é que ensinem todos os preceitos para fazer uma francesinha sem ter de aprender o utilíssimo idioma do marquês Donatien Alphonse François de Sade.