sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Coligação infame


Ainda a propósito deste post, devo fazer alguma justiça aos deputados socialistas. Propuseram a redução do IVA das touradas (e também uma palhaçada qualquer com velcros), mas nem se dignaram a votá-la favoravelmente. A coisa, porém, vai mesmo acontecer, graças ao voto conjugado do CDS, do PSD e do PCP, a mesma coligação infame que se tinha juntado para impedir o direito a uma morte digna, planeada e de cabeça erguida. Fico a saber com quem não posso contar sempre que estiverem em causa avanços civilizacionais, respeito pela liberdade individual e o supremo direito à soberania sobre o meu corpo.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Uma questão de fé

O indivíduo desgovernado do penteado esquisito não acredita nas alterações do clima. Viktor Orban não acredita no liberalismo europeu. Os cristão não acreditam em Alá. Os muçulmanos não acreditam no menino jesus. Os extirpadores sauditas não acreditam no Estado de Direito. O terceiro Kim não acredita na liberdade. Maduro não acredita na Democracia ocidental. Xi Jinping também não. Theresa May não acredita na Europa. Assunção Cristas não acredita na liberdade individual. O crentes não acreditam na evolução das espécies. Os comunistas não acreditam no capitalismo. Os autarcas não acreditam que as estradas caiam. Os governos não acreditam na oposição. Rui Rio não acredita que os seus amigos dão ordem para validarem a presença no parlamento sem lá porem os pés.

É muito difícil entendermo-nos quando tudo pode ser confundido e transformado numa questão de fé. Sinto falta de pessoas que sejam capazes de utilizar o cérebro.

Os estrangeiros

Na pausa para uma cigarrilha, escuto uma história exemplar com apenas alguns anos, não muitos, segundo a qual alguns indivíduos que morava de um dos lados da cidade de Matosinhos estavam proibidos de atravessar a ponte sobre o rio Leça e, portanto, de usufruir das ruas de Leça da Palmeira, dos cafés, dos restaurantes, das piscinas do Siza e da Praia dos Beijinhos.

Nestas duas metades da cidade de Matosinhos as pessoas têm, no essencial, a mesma cor de pele, a mesma religião, a mesma etnia, a mesma língua e a mesma nacionalidade, o que não impede que aqueles que moram em Leça da Palmeira não gostem de ser confundidos com a gentalha de Matosinhos.

Não sendo de nenhum dos lados da ponte sobre o Leça, tenho assistido ao longos dos anos a vários exemplos desta xenofobia pequenina, paroquial e parola. Talvez não significasse nada, não passasse de um remoque, se não fosse apenas o princípio, a semente de um problema maior e mais grave, da incompreensão do ódio mesquinho.

Talvez seja só uma questão de tempo até voltarmos todos a viver num sítio que deixou de ser uma democracia.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Thin red line


Passei há coisa de dois anos na estrada que esta semana ruiu entre Vila Viçosa e Borba. Embora tenha percebido que havia pedreiras de mármore de ambos os lados da estrada, só compreendi o risco que havia corrido quando, no último Verão, a transmissão em directo da Volta a Portugal em Bicicleta mostrou imagens aéreas da inacreditável escarpa que ali estava criada, uma fina tira de estrada entre dois buracos gigantescos.

Agora que a estrada caiu, não falta quem aponte responsáveis e garanta que já tinha alertado para o perigo. Haverá sempre o autarca que não mandou fechar a estrada a tempo de evitar o desastre, os técnicos que atestaram a segurança da exploração de mármore naquelas incríveis condições, os responsáveis do organismo público que licencia as pedreiras. Talvez tenham todos as mãos proverbialmente untadas ou sejam, pelo menos, cúmplices da tragédia, mas tenho ouvido falar muito pouco dos proprietários das pedreiras, os quais, movidos pelo lucro a todo o custo, criaram a insustentável parede que agora ruiu sob a estrada, causando não se sabe ainda quantas vítimas. E foram, afinal, os únicos que realmente lucraram com estas mortes.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Proposta de alteração na especialidade

Depois dos moches nos festivais de verão e da carnificina de animais em redondel público, também o presidente da Liga de Clubes Profissionais considera "inexplicável a exclusão do futebol" da lista de atividades que pagarão IVA a uma taxa reduzida. Trata-se, com efeito, de um escândalo.

Aos perdulários deputados do PS que pretendem que os bilhetes para as touradas apenas paguem 6% de IVA (contra os 13% que pagam actualmente e os 23% a que está sujeito um bem tão essencial como a eletricidade), e que até poderão ponderar o alargamento da benesse ao futebol, permito-me, pois, recordar outros bens de primeira necessidade cuja fiscalidade talvez seja conveniente desagravar: as tochas pirotécnicas que servem para galvanizar os atletas profissionais (e, de vez em quando, também para ensiná-los quem manda na Juve Leo), o vestuário dos toureiros e forcados amadores, o pensativo tabaco que relaxa e inspira os artistas, a factura das barbearias onde os futebolistas trocam de penteado, as carabinas de caça, os zagalotes, os bilhetes para o circo, as fichas para jogar matraquilhos, a roupa dos anões acrobatas, a assinatura da TV 7 Dias, as portagens da auto-estrada para Fátima, as gravatas de seda, a contratação de anúncios de relax, o vinho verde... É uma contribuição modesta, e limitada, mas estou certo de que a proposta de alteração ao orçamento dos deputados do PS ainda pode ser muito melhorada.

Se calhar já não vão a tempo de criar um bolsonaro em condições, mas talvez ainda sejam capazes de ressuscitar um Rui Rio qualquer.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A tecnologia é bestial, o problema são as pessoas

Em 1930, década de péssima memória, os fascistas ainda tiveram de fazer algum esforço para conseguirem que os idiotas úteis votassem neles. Hoje nem precisam de se aborrecer com isso. Um qualquer algoritmo trata do assunto e o fascista de serviço nem sequer precisa de sair de casa para fazer campanha eleitoral.

De acordo com uma notícia que hoje li, não faltará muito também para que os fascistas e outros cabrões possam igualmente circular pelas estradas ou pelos ares sem qualquer preocupação com acidentes: os veículos conduzir-se-ão sozinhos e, em caso de conflito de tráfego, o algoritmo matará os mais pobres, os mais fracos, os doentes, os velhos, os pretos, os judeus, os comunistas... É apenas uma questão de tempo para que mais esta maravilha se transforme em realidade.


P.S.: hoje voltei a ler a expressão "país irmão" para designar o Brasil. Senti um nó no estômago (para não sair do beco dos lugares comuns). Eu cá não sou irmão de nenhum fascista ignorante filho da puta, incapaz de perceber a diferença entre um partido (apesar de tudo) democrático e uma praga de proporções bíblicas.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Brasil, meu amor:

Desculpa. Continuarei a ler os teus escritores, a ouvir as tuas canções, a ver o teu cinema, a mexer-me desajeitadamente ao som do teu samba, a pasmar com as curvas dos morros do Rio, com as curvas dos edifícios de Brasília, com as curvas dos teus sorrisos todos e com as curvas das tuas crioulas mais belas, mas não pretendo voltar a pôr os pés num sítio onde 50 milhões de pessoas são capazes de votar num celerado fascista. Precisamos de dar um tempo. Adeus.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Sobre a selvajaria

Leio num jornal (cujo nome também não quero recordar) que, "para as imobiliárias, a 'selvajaria' na habitação não se revolve com taxa do BE". Bruxo. Os especuladores têm a mesma opinião. Tal como os partidos que os defendem, nomeadamente a gosma liderada pela se'dona Assunção. Aqueles que enriquecem graças à selvajaria, chamem-se Robles, Botelho ou Moreira, não aceitam que a selvajaria possa ser regulada, nem que os lucros dela resultante paguem impostos justos. A carga fiscal da pátria, já o sabemos, deve ser integralmente alombada por quem vive do seu trabalho e que, graças à selvajaria, já vai sendo incapaz de pagar um tecto sob o qual possa abrigar-se da chuva.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Cristas de pernas para o ar (salvo seja)















Em tempo de fraca memória, as notícias e os soundbytes duram o tempo de um fósforo. Talvez já poucos se lembrem, por isso, deste cartaz do CDS-PP da dona Assunção. Desmentida pela realidade, Cristas arranjou outra mentira qualquer, outras frases de ocasião. Os jornalistas, mansos e obedientes, vão sempre atrás.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Línguas podres

Se o mundo houvesse de ser um sítio decente e pulcro, a natureza teria criado um mecanismo automático de punição dos energúmenos que, sem pudor nenhum de serem o que são, tomam a liberdade de continuamente proferir alarvidades monstruosas. Mas não: cada qual é livre de dizer e de insultar como bem entende e não há notícia de que alguma vez tenha apodrecido automaticamente a língua a algum destes palermas, quando dizem, por exemplo, que os mexicanos são violadores, ou traficantes de droga ou bad hombres.

Veja-se o caso de David Ribeiro, um indivíduo que é deputado municipal do Porto e que se entreteve a chamar aos romenos "energúmenos" e ladrões de supermercado . Soube-se hoje que o vil sujeito vai responder num processo instaurado pela Comissão Contra a Discriminação Racial - uma boa notícia que, todavia, está muito distante de resolver o problema de fundo. Basta ver que, no mesmo dia, os jornais dão eco de declarações do presidente das Filipinas, de cujo nome sujo não quero sequer recordar-me, o qual declarou que, "se houver muitas mulheres bonitas, haverá muitas violações".

O problema da gente que vomita coisas desta jaez é, pois, que não lhes cai um piano de cauda na cabeça de cada vez que abrem a boca (ou que chafurdam na lama dos facebooks e dos twiters). Em vez disso, chegam a deputados municipais e a presidentes de coisas que deviam ser tão sérias como uma república ou duas.