No meu tempo, miudagem, não havia 1 de Abril sem que os jornais e os noticiários se dedicassem a inventar uma mentira para tentar iludir os leitores. Agora que as criam ou publicam acriticamente todos os dias e a todas as horas, é verdade que a antiga brincadeira faz já pouco sentido - tanto como esperar pelo dia da liberdade para ser livre ou pelo dia da mulher para nos lembrarmos delas.
Sendo, porém, já um pouco antigo, ainda me dedico, a cada 1 de Abril, a tentar perceber que embuste armaram, este ano, os senhores jornalistas. Mas, convenhamos, é cada vez mais difícil distinguir a pura peta, mesmo que verosímil, das supostas notícias do costume, já que a realidade se pôs de um jeito que até custa a acreditar nela.
Voltei hoje a fazê-lo - a procurar a patranha no palheiro, quero dizer - e encontrei, por exemplo, um estranho relato segundo o qual uma coligação dirigida por uma vigarista habilidoso e bem falante lidera as sondagens para as próximas eleições legislativas. Pensei que se tratava de uma impostura muito bem apanhada e cheguei a dar uma sapatada nas coxas a fim de iniciar uma gargalhada estrepitosa, mas engoli-a a tempo de que alguém se apercebesse da minha ingenuidade. Nos tempos que correm, tudo aquilo que parece inverosímil tem muito boas hipóteses de se transformar em facto consumado.