segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Era uma vez numa livraria

Depois de uma breve e infrutífera busca entre as estantes da Librería Encontros (Rua do Vilar, 68, Santiago de Compostela), resolvi ceder à pressa e dirigir-me à moça do balcão para lhe perguntar pelo livro que procurava, “Lo que sé de los hombrecillos, de Juan José Millás”, disse eu, caprichando no portunhol. A rapariga encolheu os ombros, como se eu tivesse perguntado pela edição original do Codex Calixtinus. Uma funcionária mais velha, que também escutou a pergunta, veio em meu socorro. Solícita, trouxe-me o livro e mostrou-o à outra, que continuou na mesma, como um boi a olhar para um palácio. “Elvira Lindo tampoco te suena?”, perguntou a livreira eficiente. A mais nova, que não era feia, encolheu outra vez os ombros e sacudiu a sorridente cabeça, com ar apatetado. Eu estava servido e com pressa, paguei e saí, satisfeito e munido do livro que procurava. Estou a lê-lo e é uma delícia. Ocorreu-me, entretanto, que devia ser obrigatório que os livreiros gostassem de ler ou, pelo menos, soubessem como se faz, até porque me lembrei de, uma vez, na Bertrand do Chiado, ter ouvido uma funcionária perguntar a uma colega se, por algum acaso, já tinha ouvido falar de um tal Jorge de Sena.

Perdidos nas estantes

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 9 de Novembro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Taralhouco como sou, aconteceu-me, pelo menos uma vez, comprar um livro que já tinha adquirido antes e jazia esquecido nas estantes lá de casa, à espera de ser (re)descoberto e lido. Fiquei, assim, com dois exemplares exactamente iguais de Bartleby & Companhia, o romance de Enrique Vila-Matas. Foi uma sorte, já que pude finalmente ler o livro e passei ainda a dispor de um belo presente para oferecer em alguma celebração imprevista.

O que agora me aconteceu é ainda mais bizarro e não posso, desta vez, atribuí-lo apenas à minha distracção (chamemos-lhe assim): comprei, no café da esquina, Uma Questão Pessoal, do japonês Kenzaburo Öe, numa dessas edições baratas feitas para serem vendidas com jornais e revistas, mas ontem descobri que já tinha lido este romance, embora, na realidade, eu tivesse lido um livro diferente, com outro título e outras personagens, ou, pelo menos, com personagens que, sendo as mesmas, têm nomes diferentes.

Explico, claro.

Quando, em 1994, Kenzaburo Öe ganhou o Prémio Nobel da Literatura, a editora Civilização fez uma reedição de um livro de 1964, que, no original, se chama Kojinteki na taiken. Na edição portuguesa, de 1973, o romance chama-se Não matem o bebé. A tradução, feita a partir da edição norte-americana, é assinada por Daniel Gonçalves.

Li Não matem o bebé sugestionado por um amigo e pela atribuição do Nobel, e nunca mais me esqueci da brutal história daquele pai confrontado com o nascimento de um filho com uma hérnia cerebral – um monstro com uma enorme cabeça, condenado a morrer ao fim de pouco tempo ou a viver como um vegetal. Voltei, aliás, a passar os olhos pelo livro quando, há dois anos, tive que entrevistar o brasileiro Cristóvão Tezza a propósito do romance O Filho Eterno, o qual narra uma situação semelhante e tinha acabado de receber o Prémio Portugal Telecom de Literatura Brasileira e o Prémio Jabuti.

Tinha apreciado o estilo de Öe e, por isso, comprei Uma Questão Pessoal quando, há alguns meses, o encontrei à venda no café da esquina. Comecei a lê-lo este fim-de-semana e, ao cabo de algumas páginas, a história começou a parecer-me familiar. Fui comparar Não matem o bebé e Uma Questão Pessoal e não há, afinal, qualquer dúvida. Trata-se exactamente da mesma narrativa e do mesmo livro, embora, numa das edições, o pai da criança se chame Passarinho e, na outra, Bird. As traduções são também bastante diferentes, provavelmente porque Uma Questão Pessoal resulta de um projecto de uma empresa espanhola, a qual vendeu a colecção ao grupo Cofina, pelo que a tradução de Nuno Castro talvez tenha sido feita a partir da edição em Castelhano (que adoptou o título inglês, A Personal Matter).

Como não me estava a apetecer revisitar Não matem o bebé, mas também não tenho nenhum livro novo para ler, dei uma vista de olhos às estantes para ver se por lá havia mais alguma surpresa escondida. Encontrei imediatamente O Xangô de Baker Street, do brasileiro Jô Soares. Está ali há dez anos, mais ou menos, e ainda não o tinha lido. Já o encetei e, com a crise que para aí vai, espero não voltar a comprá-lo tão cedo.

domingo, 28 de novembro de 2010

"O homem que criou deus num laboratório" e outras histórias

Já tinha lido uma boa parte dos microcontos reunidos no livro Doutor Avalanche, mas é sempre um prazer regressar às estapafúrdias histórias, ao excelente Português e à fina ironia dos textos do Rui Manuel Amaral. Onde mais, afinal, poderiam encontrar-se repolhos tão perfeitos como os de Zacharias Zürn?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Hibernação

Ainda na sessão na Escola de Idiomas de Vigo, a Silvia Capón comentou que estava convencida de que todos os escritores são insones e, por isso, impelidos a escrever febrilmente pela noite adentro, como loucos rompendo por um incêndio. Sosseguei-a e confirmei aquilo que ela já tinha lido — que sou um indivíduo que dorme cedo e que necessita de várias horas de sono, o que muito provavelmente me desqualifica para a prática comum da literatura (mas não me espanta particularmente). Em todo o caso, são dez da noite, está um frio brutal na rua (qualquer frio me parece brutal) e tudo o que me apetece fazer é deitar-me debaixo dos edredões e dormir até que o Inverno passe.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Um rosto para Arturo Bandini



As coisas, às vezes, confundem-se-me no miolo de um modo que fica a dever muito pouco à normalidade. Por exemplo, adormeci um noite, em Vigo, a ler as últimas páginas de A Primavera há-de chegar, Bandini, o romance de John Fante, e, no dia seguinte, pela manhã, fui ver a exposição de Virxilio Vieitez. Como ainda não sabia muito bem que rosto atribuir a Arturo Bandini, o adolescente sujo e revoltado do romance, foi relativamente fácil imaginá-lo igual a um daqueles rapazes mal-ajambrados de Soutelo de Montes.

Martin Codax também se pode beber

Polvo, “chipirones”, mexilhões e uma garrafa do “albarinho” Martin Codax, a pretexto da qual pudemos recordar trovas como “Ondas domar de vigo/se uistes meu amigo” e o tempo comum das línguas galega e portuguesa. O almoço na ilha de Arousa foi uma delícia compartida com o Carlos Alhegue, numa daquelas tascas notáveis de mesas de madeira, onde os pescadores vão tomar um trago para aquecer o corpo fustigado pelas ventanias do Norte. O dia estava radioso e depois fomos caminhar pela marginal. Foi a melhor despedida possível - um até já.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Virxilio Vieitez



No bonito edifício do MARCO, Museu de Arte Contemporânea de Vigo, há uma exposição antológica do fotógrafo galego Virxilio Vieitez, mostrando imagens das décadas de 1950 a 1970. Tendo fotografado casamentos, baptizados, comunhões, funerais e excursões, Vieitez congelou uma certa imagem da Galiza, pobre e atrasada, mas profundamente cénica. Os seus retratos, olhando-me de ambos os lados das galerias, pareciam, em alguns casos, mais do que de gente de outro tempo, de gente de outro planeta, no qual as criaturas tivessem grandes orelhas, cabeças desconformes, rostos peculiares. São imagens que parecem convocar histórias, dezenas de histórias que provavelmente se perderam e das quais apenas restam os contornos a preto-e-branco dos instantâneos de Vieitez.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Quem é amigo

Na sessão de Vigo, esgotados os temas literários, paralilterários e afins, uma das senhoras no auditório declara o seu amor pelo futebol e sonda se sou portista. Satisfeita, faz a pergunta que realmente interessa: se também eu cantava "Quem é amigo? O Celta de Vigo". Claro que sim. Cantava e canto. Para ganhar aos lampiões, vale tudo, até (ou sobretudo) golos com a mão no último minuto. A humilhação tem que ser hiperbólica e esmagadora. Daí que 5-0, depois dos 7-1 dos bravos galegos, seja um resultado que sabe a pouco. Lá chegaremos.

O multibanco em Vigo

Já em Vigo, preparando-me para a terceira sessão em 24 horas com os leitores galegos, que são extraordinários e me recebem dispostos a conversar comigo sem que eu seja capaz de proferir uma "conferência" como deve ser (incrível o público de Lugo, ontem, com vinte dos presentes munidos do livro que supostamente está esgotado e que o Samuel Rêgo não conseguiu comprar nem encomendando-o com dois meses de antecedência). Em Vigo, dizia, subo a rua, entro na Casa del Libro, desta vez com tempo. Folheio os galegos, namoro Cortázar e Tomeo em edições de bolso, descubro as "Putas asesinas" do Bolaño também em edição de bolso, junto uma pequena (mas escandalosa) pilha de livros e, quando vou pagar, o terminal do multibanco recusa o pagamento. Entristeço e lamento sobretudo que não tivesse isto sucedido quando os dois cabrõezinhos armados de faca me assaltaram no Campo Alegre. Mas o multibanco, suponho, nunca falha quando deve. Ou, então, há uma conspiração para me obrigar a voltar à Galiza. Não me importo nada. Estou como em casa.

Coincidências

Ainda na sessão com o grupo de alunos da Faculdade de Filoloxía, pedem-me, no final, que leia um pedaço de As Sereias do Mindelo. Diplomático, escolho as últimas páginas, aquelas cuja acção decorre em Ferrol, na Galiza, entre a Plaza de las Angústias e o hotel El Eden. Só quando me preparo para ler a parte sobre uma brasileira "torneada como um clamoroso e mudo convite ao pecado" me recordo da paulista que se sentou ao meu lado. Interrompo a leitura para comentar que também vinha a propósito. Agora que penso nisso, veio até muito a propósito.

Manhã em Santiago

... e então saí para a manhã de Compostela, para o ar frio que se condensa sob o nariz, e fui perseguindo o som distante de uma gaita de foles. Encontrei o gaiteiro, vestido a preceito, tocando sob o Arco de Palácio, rente à parede da velha catedral, e logo adiante a Praça do Obradoiro ia-se enchendo de peregrinos, vestidos como se fossem ciclistas saídos da Volta a França, uns, e outros de longas barbas brancas e capa de pano castanho, o chapéu com a vieira adiante. Nas portas das lojas, as moças estendem travessas e oferecem trocitos, mas eu sigo adiante, não foi para isso que vim, estou com pressa, devo regressar ao hotel e ainda não passei na Rua do Vilar e devo forçosamente passar sob as arcadas de pedra e encontrar uma livraria, a livraria que há quase diante do bar Suzo, na qual entro e, enfim, compro Lo que sé de los hombrecillos. O Carlos Quiroga dir-me-á que devia ter comprado algo mais galego, e terá razão, mas eu queria muito comprar o Lo que sé de los hombrecillos e estou com pressa, prometo a mim mesmo voltar em breve, regressar e ter tempo para ler os galegos. Vou trabalhar.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Meretrício seguro

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 2 de Novembro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Algumas pequenas notícias funcionam como minúsculas faúlhas capazes de atear grandes incêndios em espíritos tão destrambelhados como o meu. Foi o que aconteceu com o apontamento que, há dias, na revista Sábado, divulgava o facto de as prostitutas de Mérida, em Espanha, estarem a adoptar o uso de coletes reflectores quando se encontram a cumprir as respectivas jornadas de trabalho na via pública.

Ao contrário do que possa supor-se, o uso dos coletes por parte das profissionais do meretrício não se destina a atrair a atenção dos automobilistas de modo angariar clientes e a tornar mais proveitosa a actividade a que se dedicam. De acordo com a notícia, as senhoras e moças foram, isso sim, mais ou menos obrigadas a usar o dispositivo reflector, de modo a cumprirem escrupulosamente o artigo do código da estrada segundo o qual, por motivos de segurança, qualquer peão que circule fora de uma localidade tem de usar o famoso colete amarelo. A alternativa, parece, seria pagar uma multa de 40 euros de cada vez que fossem detectadas em contravenção pelas autoridades rodoviárias.

Tendo-me deslocado recentemente a um centro de inspecção automóvel (onde também me foi exigido que mostrasse o colete reflector da praxe), dei por mim a imaginar uma situação delirante em que as meretrizes de Mérida estariam obrigadas, como os automóveis velhos, a uma fiscalização periódica. Teriam, então, que fazer prova de possuírem testes médicos comprovativos da sua boa situação sanitária, minissaia adequada, preservativos em bom estado de conservação e colete reflector homologado conforme a norma europeia CE EN 471.

Embora isto possa não ser óbvio à vista desarmada, a logística da prostituição é um tema bestialmente literário. O escritor peruano Mário Vargas Llosa, por exemplo, tratou-o no romance Pantaleão e as Visitadoras, de 1973. Dotado de uma imaginação extravagante, o prémio Nobel da Literatura de 2010 imaginou que o exército do Peru, a braços com a baixa moral das tropas isoladas nos campos militares da inóspita floresta amazónica, ordenava a um oficial com uma folha de serviço irrepreensível, Pantaleão Pantoja, que organizasse um destacamento de meretrizes encarregado de levar algum alívio à soldadesca desterrada.

Sendo um oficial escrupuloso e eficiente, Pantoja põe de pé um serviço que segue as regras do sigilo e da hierarquia castrense e obedece às mais eficientes disposições da logística militar. As visitadoras são, assim, seleccionadas de acordo com parâmetros bem definidos, tendo em conta os objectivos específicos da missão, a dureza das viagens de barco pelo rio Amazonas e a complexidade da tarefa a cumprir. O bravo pelotão é ainda sujeito a vacinação adequada e a rigorosos exames de despistagem médico-sanitária, para garantir que não há propagação de maleitas. Creio que à metódica personagem de Vargas Llosa não ocorreu, porém, equipar o contingente com os coletes salva-vidas que tornassem mais seguros o meretrício e a navegação fluvial. Se fosse hoje...

domingo, 21 de novembro de 2010


André Kertész, Broken Plate

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mais uma grande ideia

Depois do chip obrigatório, do cartão do cidadão e da abracadabrante invenção da portagem sem portagem (e da possibilidade de fotografar a eito o veículo de qualquer cidadão), o PS pretende agora que as concessionárias das auto-estradas passem a multar directamente os infractores e a cobrar as respectivas multas. A ideia é arrojada, mas creio que há ainda margem para introduzir algumas melhorias na legislação. As concessionárias podiam, por exemplo, passar a ter uma polícia própria e também calabouços privados onde os cidadãos infractores pudessem ser arrecadados até ao pagamento das portagens em dívida. As concessionárias podiam, inclusivamente, estabelecer um Estado autónomo, com um parlamento e um governo eleitos pelos utentes das auto-estradas (com as portagens em dia) ou pelos respectivos amigos no Facebook. Não há, bem vistas as coisas, motivo nenhum para sermos humildes e comedidos. Sejamos loucamente modernos!

A conspiração chinesa

A extraordinária Câmara Municipal do Porto tinha cinco mil amigos no Facebook e está agora inconsolável, a pobrezinha, por que o brinquedo foi “silenciado”. A bem-amada edilidade, como Quixote na inóspita imensidão de La Mancha, suspeita de que “possa estar em causa uma tentativa de boicote a um dos suportes de comunicação directa da autarquia com maior sucesso junto dos cibernautas o que, a confirmar-se, configuraria uma prática de pirataria informática, ainda pouco usual neste tipo de ferramenta”. A imprensa normal, mas traiçoeira que eu sei lá, conseguiu apurar a existência de um “bug” que terá apagado várias contas do Facebook. Ora um “bug”, como se sabe, há-de ser coisa do demo. Se a Câmara do Porto estivesse mais atenta, poderia, aliás, ter lido uma outra notícia segundo a qual a China consegue desviar o tráfego da internet para os seus servidores. Somando dois mais dois, facilmente a autarquia teria concluído o óbvio, ou seja, que foi objecto de uma conspiração maoísta e comunista, provavelmente orquestrada pelo vereador do PCP na câmara e pelo fantasma de Gengis Khan - uma grande e pérfida conspiração internacional destinada a silenciar a autarquia de Rui Rio e a roubar-lhe todos os seus amigos.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Quanto do teu sal...



Com uma regularidade impressionante, Cavaco Silva - o indivíduo que enquanto primeiro-ministro distribuía subsídios para o abate da frota de pesca portuguesa (entre outras clarividentes decisões que obviamente não têm nada a ver com o estado a que isto chegou) - aparece publicamente a incitar o país a voltar-se para o mar. "Temos de repensar a nossa relação com o mar", tem dito. E, pensando bem, faz algum sentido. O mar é o lugar dos náufragos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Respeitinho, se faz favor

Segundo uma notícia que ontem li, "um grupo de deputados do PS pretende que os bancos autoproponham um aumento da taxa efectiva de IRC no sector bancário para 'colaborarem no esforço colectivo de redução do défice'". Este aumento, acrescenta a notícia, "poderia ser temporário e seria uma espécie de agradecimento activo pelo apoio do Governo à banca nos últimos anos". A proposta, porém, "não agrada à banca".

Parece-me, de facto, um atrevimento inaudito por parte dos senhores deputados, isto de sugerir que os bancos se autoproponham a pagar impostos. Se fossem gente minimamente responsável, os deputados saberiam que a banca é muito susceptível e irritadiça e que, por isso, devem dirigir-se-lhe com modos mais cortezes e respeitosos. Devem, por exemplo, pedir desculpa por estarem a incomodar e perguntar humildemente aos senhores banqueiros, com um joelho no chão e a cabeça baixa, se não se importam, porventura, de nos beneficiar com a fineza de, por favor, terem compaixão dos outros contribuintes, de modo a que o povo veja neles os perfeitos beneméritos que deveras são. Se a banca se abespinha é um problema. O sistema financeiro até é capaz de se vingar e aumentar os juros da dívida pública ou assim.

O preço do peixe

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 26 de Outubro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)




Há livros cuja leitura podia ter sido capaz de evitar a consumação de alguns grandes transtornos. Não me refiro, todavia, aos livros óbvios, sejam os grandes tratados de economia política (ou política económica, não sei bem) ou os risíveis manuais de auto-ajuda. Estou até a pensar num romance que suponho ter sido ainda pouco lido em Portugal, na medida em que só muito recentemente foi traduzido e editado entre nós; estou a pensar em Os peixes também sabem cantar, publicado pelo islandês Halldór Laxness em 1957, dois anos depois de ter ganho o Prémio Nobel da Literatura.

De Halldór Laxness já aqui se tinha publicado o extraordinário Gente Independente, que conta a história de uma família islandesa que vive mais ou menos isolada e, por isso, fica exposta aos rigores da meteorologia e à crueldade mais desarmante. É um romance para ler na primeira oportunidade, ainda que, no complexo tempo em que vivemos, Os peixes também sabem cantar pareça encerrar lições mais valiosas.

Refiro-me, concretamente, à peculiar educação dada a Álfgrímur, narrador e neto de Björn de Brekkukot, o qual cultiva uma forma de apreciar o dinheiro “completamente diferente da dos valores bancários normais”. Se não fosse por mais nada, isto seria suficiente para simpatizar imediatamente com Björn de Brekkukot. Afinal, o défice que vamos ter que pagar nos próximos anos, bem como a bancarrota em que a Islândia se encontra mergulhada (ou a Irlanda, ou...), são uma decorrência dos tais “valores bancários” e de todo o sistema socio-político-financeiro criado à sua volta (ouvi Francisco Louçã dizer, um dia destes, que o nosso défice excessivo é equivalente ao dinheiro que o Estado português injectou no BPN para evitar a falência da instituição, mas é possível que o líder do BE estivesse a exagerar; a oposição é geralmente muito mal intencionada).

Logo no início do romance, Álfgrímur explica que Björn de Brekkukot, sendo pescador, não faz o preço do peixe variar segundo a lei da oferta e da procura. Mantém, por isso, o preço sempre estável, mesmo que lhe ofereçam o dobro ou o triplo pelo peixe que leva no carrinho de mão. Também não baixa o preço quando os outros pescadores, em época de abundância, vendem o peixe mais barato. “Ao agir desta forma, o meu avô Björn de Brekkukot rejeitou todas as regras fundamentais da economia”, nota Álfgrímur, o qual acrescenta que, ainda assim, os clientes acreditam que o peixe de Björn é melhor do que o dos outros pescadores e o compram mesmo quando ele o vende mais caro.

Não terminei ainda de ler o livro e não sei, no dia em que escrevo esta crónica, como termina a história de Björn de Brekkukot e Álfgrímur, ou qual o resultado daquela aversão às “regras fundamentais da economia”. Tal como a generalidade dos portugueses e dos islandeses, estou apenas convencido de que o convívio ameno e prolongado com a variação do preço do peixe fará com que os próximos tempos se assemelhem bastante a um sombrio dia de Inverno em Reiquejavique.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um escravo preso dentro na cabeça



Visto que a boca não me dói tanto quanto tinha sido capaz de imaginar que aconteceria no dia em que tivesse as gengivas cosidas e uma espécie de grampos cravados nelas, dediquei uma parte do serão à leitura ociosa e recreativa. Temo sempre que esta ocupação possa ser, de certo modo, uma perda de tempo, mas sou forçado a concluir que sempre se aprende alguma coisa, mesmo nos livros menos bons. Esta noite, por exemplo, li aquela história segundo a qual, em Roma, César, quando regressava das campanhas vitoriosas contra os bárbaros e era glorificado pela população que assistia aos desfiles triunfais, tinha sempre ao seu lado um escravo que repetia "És calvo, velho e barrigudo", para que o herói se lembrasse de que era humano e devia, por isso, ser humilde. Não estou absolutamente certo da utilidade desta parábola para indivíduos sem nenhuma glória. Em todo o caso, e à cautela, eu tenho o meu escravo sempre comigo — dentro da cabeça.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Post scriptum

Como o Francisco José Viegas também não esclarece a que leitores se refere, eu, sendo seu amigo, sinto-me no dever de voltar a explicar que, se ele se espalhou ao comprido, não foi por ter escrito sobre aquilo que considera ser "um absurdo": a eleição de Leite Derramado como Livro do Ano de Ficção dos prémios Jabuti. Eu acho que o Francisco se espalhou ao comprido porque, para ilustrar a sua teoria sobre o assunto (e ele tem, obviamente, direito a ter opinião e a expressá-la), optou por ignorar os factos e por ocultar que aquilo a que ontem, no Correio da Manhã, chamava "uma originalidade" não tem, afinal, nada de original (dei aqui outros exemplos). Como tenho mau feitio, este apego aos factos há-de ser apenas uma deformação minha, profissional ou de carácter, pelo que sou forçado a reconhecer que o Francisco deve estar cheio de razão. Afinal, ele tem muitos mais leitores do que eu, que, até para ter livros à venda nas livrarias, dependo, em certa medida, da boa vontade que ele tenha.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Repito: Leite Derramado é um livro do caraças; o prémio fica muito bem entregue.



Depois do Jabuti para Livro do Ano, o romance de Chico Buarque ganhou também o Prémio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. Suponho que não tenha sido só para irritar certas e determinadas pessoas. Aqui fica, a propósito, a (última) recensão que escrevi para o Ípsilon, em Junho do ano passado:


O velho gagá no seu labirinto

Conheçam Eulálio Montenegro d’Assumpção, nascido a 16 de Junho de 1907, descendente de prósperos comerciantes da cidade do Porto, herdeiro de Eulálio Penalva d’Assumpção, conselheiro do Marquês do Pombal, e até do doutor Eulálio Ximenez d’Assumpção, “alquimista e médico particular de dom Manuel I” lá nos idos de mil quatrocentos “e lá vai fumaça”. Conheçam-no agora que está numa cama de hospital, entrevado, centenário e meio louco, arruinado, entorpecido pela morfina, gagá e desfiando histórias sem nexo sobre o suposto passado ilustre da sua linhagem. Vejam-no porque é ele o personagem principal do novo romance do brasileiro Chico Buarque, “Leite Derramado”, confirmação, se precisa fosse, de um dos mais notáveis escritores contemporâneos da língua portuguesa – já o era quando apenas escrevia canções.

“Leite Derramado” é menos atrevido, em termos linguísticos e estilísticos, do que “Estorvo” e “Benjamim”, desprovido, portanto, de experimentalismos formais, e não tem a seu favor a sofisticação narrativa ou os artifícios metaliterários de “Budapeste”. A força maior da narrativa é, neste quarto romance de Chico Buarque, a simplicidade aparente. Lê-se e é como se cada um dos leitores pudesse ocupar um lugar na borda da cama do enfermo Assumpção e o estivesse escutando e segurando-lhe a mão, à espera do seu derradeiro suspiro.

Para reflectir sobre a complexidade dos mecanismos da memória (“São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora”), Chico Buarque socorre-se, pois, da coloquialidade de um velho senil. Porém, tratando-se do discurso de um homem centenário, com modos de outros tempos e uma “linguagem acurada”, o estilo, a despeito das delirantes peripécias narradas, é absolutamente fluente e límpido, mesmo torrencial, e servido por uma ironia finíssima (o acidente no banho do qual resulta o internamento do senhor Assumpção, narrado já perto do final do livro, é, por falar nisso, absolutamente antológico). O resultado é uma prosa saborosíssima.

Dirigindo-se confusamente ora à enfermeira predilecta, ora à filha, ora à mãe, ora a algum maqueiro de circunstância, e baralhando-os a todos com os fantasmas do passado (o proverbial leite derramado), o narrador vai-se revelando um homem cortês, um cavalheiro supostamente proveniente de uma aristocracia desmoronada. Mais do que a romântica ruína que sobrou dessa hipotética família ilustre (“papai foi o político mais influente da Primeira República, contei que o rei Alberto costumava vir da Bélgica se aconselhar com ele?”), Assumpção é sobretudo o que resta de um homem que amou insensatamente uma mulher mestiça moldada às suas (alegadas) necessidades de casta – e por elas aclareada e dotada de uma falsa linhagem –, a qual perdeu por vergonha ou ciúme, não se sabe bem. O que se sabe é que, como prenúncio do descalabro, essa mulher, Matilde, se recusará a alimentar a própria filha, despejando (derramando) o leite do peito no lavatório da casa de banho.

A cena é repetidamente revivida por Assumpção no leito hospitalar, transformada na causa do desaparecimento da orgulhosa civilização a que os Assumpção pertenciam, soterrada sob a explosão demográfica e urbanística do Rio de Janeiro, e de todos os desatinos do tempo: “Mesmo vivendo nas condições de um hindu sem casta, em momento algum perdi a linha”, diz o velho a dado passo, sem que jamais seja possível estabelecer com exactidão se o que ele conta é puro delírio, falsificação ou invencionice; se Matilde morreu, fugiu ou foi internada num sanatório; ou mesmo se alguma vez existiu a mansão de Botafogo e tudo o resto.

“É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar”, lê-se na página 114, pouco depois de Assumpção reconhecer que é “esquisito ter lembranças de coisas que ainda não aconteceram”. “A memória é deveras um pandemónio”, sabemo-lo perfeitamente, mas só na figura de um velho tonto às portas da morte a capacidade para reinventar confusamente o passado alcança o seu zénite. Chico Buarque sabe-o e explora com mestria o humor destrambelhado que sobra nos interstícios das dissertações do velho patarata e algo tarado.

Vezes sem conta Assumpção se enreda na memória sensual de Matilde (“ela dizia, eu vou, Eulálio, e seu corpo tremia inteiro, levando o meu a tremer junto”), reconstruindo-a sucessivamente para passar em revista velhas e pouco aristocráticas perversões (“Durante um período, para você ter uma ideia, encasquetei que precisava enrabar o Balbino”) e manifestar, ainda, sinais de uma surpreendente vitalidade fescenina: “Também acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus, para pensar no galã da novela, nas mensagens do celular, na menstruação atrasada”, diz à enfermeira.

Tetraplégico, arruinado e com “dores nos ossos e nas escaras”, Assumpção mantém sempre um pé na gloriosa fazenda do pé da serra, na mansão de Botafogo, nas conversas de família em Francês (para que os empregados não compreendessem) e nas suítes do Ritz, como se a memória de tudo isso fosse a condição para continuar a justificar o facto de permanecer vivo e, ao mesmo tempo, uma privação imensa: “Qualquer coisa que eu recorde agora, vai doer, a memória é uma vasta ferida”. A espaços, o lúbrico velhinho vai tendo consciência da real situação em que se encontra: “Seria até cômico, eu aqui, todo cagado nas fraldas, dizer a vocês que tive berço. Ninguém vai querer saber se porventura meu trisavô desembarcou no Brasil com a corte portuguesa. (...) não há passante que não afrouxe o passo para me espiar, como a um desastre à beira da estrada”, comenta.

Conheçam, pois, Eulálio Montenegro d’Assumpção e escutem as suas últimas palavras, a derradeira confissão e o delírio final de um velho cavalheiro louco. Vale absolutamente a pena.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Ainda cá estamos

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 19 de Outubro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



No estado a que chegamos, como diria o capitão Salgueiro Maia, talvez valesse a pena rabiscarmos também uma mensagem apressada num pedaço de papel velho, como fizeram os mineiros chilenos: estamos bem no refúgio os dez milhões. Assim mesmo, sem pontuação nenhuma, para que se perceba que estarmos bem significa apenas que estamos vivos, mas um pouco aflitos e sem perceber ao certo como vamos sair do buraco em que estamos enfiados.

Talvez, deste modo, alguém perceba e venha em nosso socorro. Talvez se mobilize a NASA e a comunidade internacional, e se arme uma grande operação de resgate com uma cápsula que nos leve daqui para fora, para um sítio onde se possa respirar ar puro e não seja necessário fazer contas aos preços dos iogurtes, da carne, do pão e das portagens novas, nem racionar o minguado ordenado ou dar grandes voltas à cabeça para sobreviver a todas as coisas estranhas e ruins que sucessivamente nos acontecem.

Estamos na mina, no fundo da mina, soterrados por uma inacreditável montanha de equívocos, ardis e falsidades. As regras de segurança não foram cumpridas, não se atenderam os preceitos do mais elementar bom senso e nenhum chefe de turno cuidou de repartir equitativamente os sacrifícios e os benefícios. Foram sempre os mesmos a ter acesso à melhor ração, enquanto os do costume se contentavam com as côdeas mais pequenas. A despeito das promessas e dos discursos, ninguém se assegurou de que tivéssemos todos direito às mesmas duas garfadas de atum, à golada de leite, à bolacha de água e sal e à fatia de pêssego de conserva – sem excepções nem diferenças.

Ainda estamos vivos, os dez milhões, apesar de agora ser óbvio que cada novo chefe de turno foi só mais um impostor: prometia levar-nos para fora da mina e, afinal, guiava-nos por caminhos escuros que apenas conduziam a galerias cada vez mais fundas, mais negras, das quais será ainda mais difícil sair.

É bem certo que, em vez de esperar que alguém venha por nós e abra o caminho que há-de levar-nos daqui para fora, podíamos começar a esgravatar a terra com as próprias unhas e a escavar o mais que pudéssemos (a despeito da sensação de que não há para onde fugir). Mas estamos como anestesiados e incapazes de um gesto. Mais do que presos na mina, parecemos ter ficado reféns da mão que, em vez de velar por nós, é o ladrão que nos vem ao bolso. Estamos sequestrados e sofremos de uma espécie de síndrome de Estocolmo, sempre dispostos a perdoar e a eleger aqueles que nos conduziram ao fundo do buraco.

Quando, no início de Agosto, se soube que havia trinta e três homens vivos presos no interior da mina de ouro e cobre de San José, no deserto de Atacama, a setecentos metros de profundidade, o governo chileno anunciou que precisaria de cerca de quatro meses para conseguir retirá-los do refúgio. Na semana passada, apenas 69 dias depois, os mineiros voltaram a ver a luz do dia e a respirar ar puro. Puderam, enfim, sorrir. Nós, porém, ainda cá estamos – no buraco do costume.

domingo, 7 de novembro de 2010

Teoria da conspiração (ou uma polémica perfeitamente estéril)



É sempre possível, Francisco, ver tenebrosas conspirações onde elas podem ou não existir, que para o caso isso nem sequer importa muito. Creio que conheces perfeitamente a mecânica da coisa e, portanto, fazes por ignorar deliberadamente que o Prémio Jabuti é atribuído a várias categorias (poesia, romance, infantil, etc.) por escolha de um júri e que, depois, o Livro do Ano (ficção e não ficção) resulta de uma votação do público.

A democracia é lixada. Umas vezes, o público e o júri coincidem na escolha, como sucedeu em 2006 e 2009, anos em que Cinzas do Norte, de Milton Hatoum, e Manual da Paixão Solitária, de Moacyr Scliar, venceram na categoria Romance e também na votação para o livro do ano. Mas bastará dares uma vistas de olhos pelo site da Câmara Brasileira do Livro para constatar que, em 2008, o Livro do Ano foi para O Menino que Vendia Palavras, de Ignacio Loyola de Brandão, que ficou em segundo na categoria Infantil. Em 2007, outra "vergonha", como parece que gostas de lhe chamar: Resmungos, as crónicas de Ferreira Gullar, foi o Livro do Ano de Ficção, imagine-se. Em 2002, o LIvro do Ano foi para O Fazedor de Amanhecer, de Manoel de Barros, segundo classificado na categoria Infantil e Juvenil.

E podes ir por aí fora, se quiseres, e encontrar exemplos de mais "vergonhas" e "falsificações" próprias de "cenários da ditadura" (provavelmente alguns episódios terão até ocorrido durante a ditadura propriamente dita, que no Brasil nem foi há tanto tempo como isso). Mas também, é claro, podes fazer de conta que não é nada contigo e ver só a parte da verdade que te convenha para a missão de azucrinar a Dilma, que nem deve comer de cada vez que em Portugal se escreve alguma coisa desse género (e ela bem precisa de uma dietazita).

As pessoas presentes na cerimonia gritaram pela Dilma? Se calhar foi porque gostam dela. Ou apeteceu-lhes. Se tivessem gritado pelo Corinthians ou pela Sónia Braga era melhor? Era pior? Não faço ideia. Não gosto da Dilma nem do Corinthians, pelo que, se calhar, se eu lá estivesse, teria gritado pela Sónia Braga, pela Cleo Pires ou pelo Fluminense. Ou teria ficado calado e a pensar que o Leite Derramado é, muito simplesmente, um livro do caraças e que o prémio fica muito bem entregue.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Cabo Verde é uma doença

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)

Fui à Casa da Música (a do Porto, claro) para ver e ouvir o angolano Paulo Flores e, sendo assim, preparei-me para viajar no tempo e no espaço, até aos quintais periféricos da Luanda de 1950/60, onde nasceu o semba que o Paulo evoca no disco “Raiz da Alma”. Mas, inevitavelmente, dei por mim a recordar também os quinze dias de férias que passei na capital angolana, os bairros do Marçal e do Samba tal como são no século XXI, um almoço em casa do Paulo, durante o qual ele tocou violão e falou da sua música, de vê-lo cantar uma noite na Casa 70, num dueto com a brasileira Mart’nália, e, depois, numa batucada na Associação Chá de Caxinde, na qual também cantou o Tito Paris. Quando a jam session terminou, uma banda local de covers tocou o “Porto Sentido” do Rui Veloso e eu vi-me como que reenviado a casa, às “ruelas sujas e gastas” e aos “lampiões tristes e sós” da minha cidade.

Estava, pois, a recordá-lo, embalado pela nostalgia e pelo semba, quando o Paulo chamou ao palco da Casa da Música o Tito Paris, o Tito Paris outra vez e agora no Porto, os dois cantando “Clarice” e agora na minha terra, o que me pareceu uma coisa muito mágica, uma dessas mariquices que, às vezes, me enternecem e arrepiam. Estávamos os três no Porto, desta vez, mesmo se nem o Paulo nem o Tito se recordam do indivíduo com cara de parvo que uma vez passou por Luanda e lhes disse “porra, isso é música da minha terra” enquanto no pequeno palco do Chá de Caxinde um angolano cantava o “Porto Sentido”.

No final do concerto, num momento em que o Tito me estendeu a mão por delicadeza, depois de cumprimentar um amigo comum, recordei-lhe essa noite em Luanda, da qual ele evidentemente não se lembra. Não importa nada, na verdade. Neste breve encontro com o Tito, foi sobretudo do Porto que falamos, do Porto sentido, que o Tito acha que é uma cidade incrível, e do meu/nosso/dele Futebol Clube do Porto. Contou o Tito que, mais do que portista, é doente pelo Porto. Disse-me que os filhos dele também são portistas e que já o avô dele o era, naquele tempo recuado em que ninguém em Cabo Verde era portista (e que o Tito Paris sinalizou com um movimento circular com a mão, por cima do ombro, que imediatamente me remeteu para o tempo da outra senhora, da opinião única e do clube único). Ocorreu-me dizer-lhe que, para mim, Cabo Verde também é uma doença desse género, inexplicável e profunda, mas calei-me. Sou, afinal, um crioulo de primeira geração - e isto, evidentemente, não interessa nada a ninguém.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O que não nos podem roubar

A dado passo de Os peixes também sabem cantar, o romance de Halldór Laxness, a avó de Álfgrímur comenta, a propósito já não sei de quê, que "as riquezas são as coisas que os outros não nos podem tirar". Bem sei. Li-o no mesmo dia em que... não interessa. Os meus filhos, que lêem este blogue, sabem do que é que estou a falar. No fundo, era só isto que eu queria dizer. O resto é espuma.

Para que servem as crises

Entretanto, do outro lado da barricada (supostamente), o ministro da Economia do governo (supostamente) socialista saudou, em declarações às televisões, a capacidade de resistência das empresas portuguesas à crise. Os trabalhadores portugueses, pela parte que lhes toca, sabem perfeitamente como é que as empresas resistem: ainda ontem se soube que a Citröen de Magualde recontratou os funcionários que recentemente despediu, pagando-lhes agora um pouco menos. É para isto, no fundo, que servem as crises. Há por aí tantos carros jeitosos e tantos apartamentos virados para o mar, que quase seria pecado que o dinheiro não estivesse onde faz realmente falta.

Ah!, a malvada da classe política...



Nada que não se soubesse, na verdade: o Facebook é um sítio um pouco
mal frequentado, embora, como acontece nas discotecas mal afamadas, também por lá se encontre boa gente. De qualquer modo, eu procuro, sempre que posso, evitar as más companhias, nisto incluindo os indivíduos que, fazendo parte da classe política há pelos menos 25 anos e estando onde estão graças ao apoio da classe política (e também, já agora, da classe financeira e da classe jurídica e de todas as outras classes igualmente mal frequentadas), continuam a fazer de conta que não é nada com eles e, ainda por cima, acham que não nos recordamos de onde é que saiu a filhadaputice da conspiração das escutas telefónicas e outras que tais. O único problema é que, olhando para a caderneta de cromos que se perfila para a eleição, o voto em branco é cada vez mais uma opção a considerar muito seriamente. Ou talvez isto nem seja problema nenhum, mas antes uma oportunidade para dar à classe política aquilo que ela merece: desprezo.

Os polícias são pessoas como nós



Pode-se, provavelmente, fazer intervenções bestialmente indignadas sobre o caricato negócio dos carros blindados para a cimeira da Nato que não vão chegar a tempo da cimeira da Nato, mas não é isso o que mais me preocupa. Lendo a notícia, percebe-se que os agentes da PSP, mal pagos, vão ter que enfrentar as eventuais manifestações e ameaças com equipamento inadequado, carrinhas Ford Transit que não são blindadas e nem sequer têm redes para proteger os vidros de possíveis pedradas dos manifestantes. Ocorre-me sempre, nestas ocasiões, que os agentes da PSP são trabalhadores como eu, pessoas relativamente humildes e desprotegidas, que tentam ganhar a vida como podem e que têm famílias para sustentar. Cumprem ordens como bons profissionais que são. Mas são pessoas e, ainda por cima, pessoas com fragilidades, dúvidas, medos e angústias. Durante a cimeira da Nato, é possível que tenham que enfrentar multidões enfurecidas, ou apenas zangadas – ameaçadoras, em todo o caso – apenas com carrinhas Ford Transit desprotegidas, bastões, granadas de gás lacrimogéneo, um revólver ou outro. Quando os manifestantes avançarem sobre eles com cartazes e palavras de ordem, gostava que tivessem isto na devida conta. Tratem-nos, por favor, com carinho e civilidade. No fundo, eles são tão explorados, humilhados e ofendidos como qualquer um de nós.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Ilha dos amores

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 12 de Outubro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



A ser verdade que os homens, quando podem escolher, preferem as louras, sempre gostava de ser capaz de imaginar o que escreveria o nosso maior vate, Luís Vaz de Camões, se pudesse regressar agora às águas do Índico. Aí, na mesma área geográfica onde decorre o retemperador episódio da Ilha dos Amores, vai ser criado um paraíso artificial que não ficará a dever quase nada às delícias do canto nono.

De acordo com o jornal Corriere della Sera, uma empresa lituana está a preparar a criação de um luxuoso resort turístico num atol das Maldivas, fazendo questão de que todos os funcionários do empreendimento sejam moçoilas de cabelos dourados (“Duma os cabelos de ouro o vento leva/ Correndo, e de outra as fraldas delicadas”). Se o casting for eficiente, a criadagem será também curvilínea e de “alvas carnes, súbito mostradas”, capazes de acender o desejo dos clientes que, quinhentos anos depois da heróica gesta marítima lusíada, ali aterrem para repousar das canseiras da civilização.

Como não podia deixar de ser, o projecto da “ilha das louras” está já a provocar polémica. A população das Maldivas é maioritariamente muçulmana e a súbita inundação de mulheres bonitas não pode senão invocar pecaminosas ameaças, eventualmente não muito diferentes da pouca-vergonha que Camões já tinha imaginado: “Oh, que famintos beijos na floresta,/E que mimoso choro que soava!/Que afagos tão suaves! Que ira honesta,/Que em risinhos alegres se tornava!”. Andarão também ali as ninfas caçando os varões “cos arcos de ouro”, fazendo-se “primeiro desejadas”?

A juntar à ameaça dos pecados carnais, há também acusações de racismo e de violação da legislação local, que impõe aos investidores que pelo menos metade dos empregados seja recrutada entre os naturais das ilhas. As objecções, porém, não partem apenas da população autóctone. Sanita Jamberga, uma jornalista lituana, declarou à BBC que o projecto se resumirá a ser um local de prostituição. Os responsáveis pela Olialia garantem, todavia, que a ilha das louras vai ser uma realidade em 2015, prometendo conquistar mesmo aqueles que agora se lhe opõem. “Será um paraíso na terra”, asseverou Gierde Pukiene, a directora e mentora do projecto, que também garante a acutilância intelectual das futuras funcionárias - as quais, sendo louras, serão “todas inteligentes” e muito empreendedoras (à cautela, invoquemos Camões outra vez: “Sigamos estas Deusas e vejamos/Se fantásticas são, se verdadeiras”).

As dificuldades do tempo, já se sabe, desaconselham o desperdício das boas ideias de negócio. Tendo descoberto o caminho marítimo que leva às praias de águas transparentes das Maldivas, não souberam os portugueses, porém, inspirar-se nos versos de Camões e transformá-los em realidade, recriando a Ilha dos Amores para usufruto turístico. Perdida a oportunidade, saibamos ao menos, quando os lituanos concretizarem a mais prosaica ilha das louras, vender-lhe o melhor slogan que o resort poderá ter: “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo”.