quinta-feira, 21 de maio de 2026

A indústria do esquecimento

 No romance O Impostor, dedicado a um cidadão espanhol que durante décadas se fez passar por vítima dos campos de concentração nazis, Javier Cercas atribui uma parte da responsabilidade pela impostura àquilo a que chama "a indústria da memória". Ter-se-ia dado, segundo o escritor, demasiada importância ao resgate da memória histórica em Espanha, a fim de expurgar a má consciência colectiva dos espanhóis relativamente ao modo como aceitaram a ditadura e a violência do regime franquista. 

Doze anos depois da publicação daquele livro, as observações de Cercas parecem, em grande medida, saídas de uma dimensão paralela da realidade: a memória extingue-se hoje mais depressa do que a chama de um fósforo (se é que alguém ainda se recorda do que seja um fósforo) e tem-se a impressão de que a maior parte da humanidade não se lembra sequer do que aconteceu ontem, estando, por isso, bastante disponível para acreditar em todas as patranhas que inventem os grandes manipuladores da nova indústria do esquecimento.