terça-feira, 1 de abril de 2025

A lei só se aplica aos outros bandidos

 A reacção da líder fascista francesa à condenação judicial de ontem é bastante elucidativa do estado a que chegamos. Tal como sucede por cá (e não apenas com o partido em que estais a pensar), o discurso securitário e anti-bandidagem só se aplica aos outros, de preferência aos desgraçados de outro país qualquer. 

Para que conste, Le Pen considerou que a sua condenação em tribunal - por andar a gamar (pardon for my french) fundos comunitários para pagar ordenados a amigalhaços - constitui "uma bomba atómica" e uma forma de "roubar" (cá está) a eleição presidencial aos franceses. Ou seja: não há problema nenhum em subtrair, roubar, gamar, violar menores, vigarizar, mentir, enganar, produzir falsas declarações éticas ou bater em mulheres se forem os nossos a praticar tais vilezas. Se formos apanhados, dizemos que estamos a ser perseguidos. E é muito possível que os papalvos que votam em nós engulam mais esta e continuem a caminhar alegremente para a sarjeta.

Dia das mentiras

 No meu tempo, miudagem, não havia 1 de Abril sem que os jornais e os noticiários se dedicassem a inventar uma mentira para tentar iludir os leitores. Agora que as criam ou publicam acriticamente todos os dias e a todas as horas, é verdade que a antiga brincadeira faz já pouco sentido - tanto como esperar pelo dia da liberdade para ser livre ou pelo dia da mulher para nos lembrarmos delas.

Sendo, porém, já um pouco antigo, ainda me dedico, a cada 1 de Abril, a tentar perceber que embuste armaram, este ano, os senhores jornalistas. Mas, convenhamos, é cada vez mais difícil distinguir a pura peta, mesmo que verosímil, das supostas notícias do costume, já que a realidade se pôs de um jeito que até custa a acreditar nela. 

Voltei hoje a fazê-lo - a procurar a patranha no palheiro, quero dizer - e encontrei, por exemplo, um estranho relato segundo o qual uma coligação dirigida por uma vigarista habilidoso e bem falante lidera as sondagens para as próximas eleições legislativas. Pensei que se tratava de uma impostura muito bem apanhada e cheguei a dar uma sapatada nas coxas a fim de iniciar uma gargalhada estrepitosa, mas engoli-a a tempo de que alguém se apercebesse da minha ingenuidade. Nos tempos que correm, tudo aquilo que parece inverosímil tem muito boas hipóteses de se transformar em facto consumado.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Memorizem este nome: Rumeysa Ozturk

 Rumeysa Ozturk é uma estudante turca nos EUA, com visto válido. Atreveu-se, em 2024, a assinar um texto de opinião coletivo publicado num jornal universitário, no qual se usava a expressão "genocídio palestiniano". Na terça feira, foi interceptada na rua por agentes de imigração de cara tapada, os quais se apossaram do seu telemóvel e da sua mochila, arrastando-a com os braços presos atrás das costas. O visto da estudante foi, entretanto, revogado e Rumeysa deve ser deportada. As imagens da sua detenção ("por apoiar o Hamas") são um sinal do novo tempo que estamos a viver - soez, totalitário, arbitrário, fascista, criminoso e sem lei. Rumeysa é um símbolo do fim da liberdade e da humanidade. Decorem o seu nome.

quarta-feira, 26 de março de 2025

Francisco Guedes, matéria das estrelas

 Daqui a pouco, se não estou em erro, o meu amigo Francisco Guedes regressará à essencial condição de matéria das estrelas. Aí nos reencontraremos daqui a nada.

Para quem não saiba, o Francisco inventou, entre outras coisas, o Correntes d'Escritas, da Póvoa de Varzim, e o Literatura em Viagem, de Matosinhos, o que é o mesmo que dizer que inventou os festivais literários em Portugal (antes de que se tivessem tornado negócio). Julgo que o fez pelo mero gosto de escutar palavras inteligentes. Amava os livros e respeitava quem os escreve como muito poucos.

Na condição de matéria do universo, cinza primordial, o Francisco continuará, como até aqui, a alimentar sonhos que sejam árvores, flores, frutos e carne do mundo - essa amálgama de coisas simples e belas das quais, de vez em quando, brota um verso, um livro, uma canção.

terça-feira, 25 de março de 2025

Isto não é um post sobre restaurantes de ramen

 Determinada como um penedo ao vento, a Câmara Municipal do Porto terá, há dias, recusado suspender o licenciamento de novos hotéis na cidade. Compreende-se. Quase de partida, os actuais autarcas estão perfeitamente cómodos enquanto gestores, não de uma cidade, mas de uma sucessão de imobiliárias, tuck-tucks, unidades de alojamento temporário e restaurantes de ramen para turista ver.

Respirar (numa galáxia distante)

 A notícia já tem alguns dias, o que para o caso, e considerando a vastidão do inescrutável, é deveras irrelevante. Refiro-me à descoberta de oxigénio na galáxia mais distante do universo, a JADES-GS-z14-0, cuja luz demorou 13,4 mil milhões de anos a chegar à Terra (a idade estimada do Universo é de 13,8 mil milhões de anos).

De acordo com a informação disponível, a descoberta obrigará os astrónomos a repensar a velocidade de formação das galáxias no Universo primordial. Para os não praticantes da astronomia, a descoberta de oxigénio, por mais longínquo que esteja, constitui sobretudo uma janela que se pode abrir para respirar ares mais saudáveis - uma  poética possibilidade de exílio ou fuga de um planeta que se vai tornando mais mesquinho, sujo, vil e irrespirável a cada dia que passa.

sexta-feira, 21 de março de 2025

Superlativo embaraço

 Cada cavadela, cada minhoca.

O noticiário do dia informou hoje que a empresa do primeiro-ministro prestou e facturou putativos serviços relacionados com a protecção de dados pessoais sem estar registada na Comissão Nacional de... Dados Pessoais. Trata-se, creio, de um atropelo menor, tendo em conta as trapalhadas de que fomos tendo conhecimento nas últimas semanas, mas, ainda assim, uma trapalhada e um embaraço para qualquer pessoas com um pingo de vergonha no rosto. Não para Luís Montenegro, porém.

Reagindo lateralmente às notícias, o primeiro-ministro sacou de um superlativo absoluto sintético de ocasião e declarou estar "disponibilíssimo" para "informar" e "esclarecer". Poderia também estar disponibilissississímo sem que o caso mudasse substantivamente de figura. Por muito que Montenegro diga que está disponível para prestar esclarecimentos, o facto é que nunca esclarece absolutamente nada e o embaraço não pára de crescer. Creio que se trata já de um embaraço superlativo. Parece, todavia, que o homem vai continuar a assobiar para o lado e a enriquecer a novilíngua da desfaçatez.

quinta-feira, 20 de março de 2025

O diabo tem as costas largas

 Segundo o JN, os desalojados na Lourinhã pelo mais recente temporal atribuíram "o caos", como é costume, à influência do maligno, que tem as costas proverbialmente largas. "Foi horrível, foi impressionante", descreveram. "Parece que andava aqui o diabo".

Não creio, porém, que exista qualquer demonstração da influência do demo na degradação das condições climatéricas, sequer na muitíssimo exaustiva literatura que os séculos mais beatos nos legaram. Apesar do adágio popular que diz "Fevereiro quente, diabo no ventre", nem Santo Agostinho, que dedicou extensa reflexão ao animal, se refere, creio, a tais artes do chifrudo - e até assevera que "o demónio não pode fazer mais do que aquilo que lhe é permitido por deus" (mas Agostinho desconhecia a cerveja e julgava que os homens só podem comer trigo se o triturarem para fazer pão; não se deve confiar demasiado num indivíduo que nunca provou uma das weiss do meu amigo Neves).

O diabo, se existisse - e há tantas provas disso como da chuva de criptomoedas no Alandroal ou da própria veracidade da ideia de deus -, haveria de se entreter com actividades mais substanciais ou subversivas, como a perdição das almas (de quem as tenha), as libações entorpecentes ou a produção de novas deleitáveis tentações. 

Daí que o mafarrico, se alguma vez tivesse transitado pela Lourinhã, não perderia tempo com ventanias, raios e bátegas. Criaria, quando muito, a variante local do cognac, bailaria um corridinho e, se lhe sobrasse tempo, espargiria a terra com a semente das mais curvilíneas criaturas em que um sáurio pudesse enterrar o dente.

terça-feira, 18 de março de 2025

A História julgará Israel. E depois é provável que o esqueçam

 Israel interrompeu unilateralmente, esta noite, o cessar fogo em Gaza e matou mais algumas centenas de seres humanos que dormiam pacificamente nas suas casas (sem água, sem luz, sem esgotos, sem comida). Mas não servirá de nada que lhe chamemos genocídio, que critiquemos a conivência e o apoio militar norte-americano ou que estranhemos o ensurdecedor silêncio do mundo. É possível esperar que, tal como sucedeu com os antigos algozes dos judeus, a História acabe, algum dia, por julgar e condenar a longa atrocidade cometida por Israel. É também provável que, depois de algum tempo, os falsificadores do passado procurem convencer-nos de que não aconteceu nada.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Os de Vila Meã

 Cresci a escutar várias pessoas declinarem um dito segundo o qual os de Vila Meã afirmam hoje algo diferente do que dirão amanhã. Suponho que os vilameanenses não têm culpa nenhuma desta má fama, a qual decorrerá apenas da possibilidade de uma rima fácil, mas não deixei de recordar aquele apotegma nos últimos dias, a propósito da enorme inquietação com a "estabilidade" declarada por alguns protagonistas políticos. Não me lembro, porém, de ter visto algum daqueles que hoje são defensores juramentados da "estabilidade política" a defender, há ano e meio, essa vetusta senhora. Tal era a pressa de proceder a nomeações e de distribuir cargos e prebendas que nenhum deles procurou, então, salvaguardar a estabilidade proporcionada por uma maioria absoluta parlamentar, a qual facilmente garantiria a tranquilidade política possível a outro governo apoiado pelo PS. Daqui resulta uma conclusão mais ou menos óbvia: os agora aguerridos defensores da "estabilidade" podem até fazer negócios em Espinho (e vastos arredores), mas comportam-se como se vivessem na Vila Meã dos provérbios.

Fazer voz grossa

 Ontem, após o noticiário dedicado à moção de confiança ao Governo, a SIC exibiu uma reportagem sobre uma escola holandesa onde aspirantes a cantores de dark metal são ensinados a entoar qualquer frase com a voz grossa típica daqueles artistas. Lembrei-me outra vez, claro, do debate parlamentar da tarde, durante o qual vários protagonistas procuraram fazer voz grossa a fim de transmitirem aos seus argumentos uma firmeza que talvez não sentissem. Outros limitaram-se a fazer bluff, draw, muck e outras habilidades de casino, se calhar aprendidas em alguma mesa de póquer da Solverde.

segunda-feira, 10 de março de 2025

As terríveis consequências

 "O que estamos a criar é um monstro cuja influência vai mudar a história. Se é que vai sobrar alguma coisa da história! Mas é impossível não o fazer. Não só por razões militares, mas também porque seria uma falta de ética, do ponto de vista científico, não fazermos aquilo que sabemos que é realizável, sem cuidar de saber quão terríveis poderão ser as suas consequências."

O excerto precedente consta de MANIAC, a mais recente (e extraordinária) ficção de Benjamín Labatut, e serve de explicação aos avanços científicos e tecnológicos que permitiram a concretização da bomba atómica e da bomba de hidrogénio. Em ambos os projectos trabalhou um grupo de matemáticos e físicos excepcionais, parte dos quais judeus de origem húngara, liderados pelo também húngaro János (ou John) von Neumman, um génio amoral e fanático de uma espécie radical de racionalismo, ao qual se deve igualmente a invenção do primeiro computador digital, necessário para efectuar os impossível cálculos que permitiram a construção da bomba de hidrogénio e, de certa forma, também ao presente desenvolvimento da inteligência artificial. Descreveu ainda o funcionamento matemático do DNA e do RNA, antes de qualquer comprovação experimental, abrindo caminho à replicação artificial dos genes.

De algum modo, aquelas frases servem também de mote para o avanço da ciência e da tecnologia dos últimos 150 anos, independentemente das "terríveis consequências" que as suas descobertas pudessem significar para a humanidade. Sendo verdade que estas novidades tecnológicas impulsionaram enormes progressos em outras áreas do saber, como a Saúde ou as comunicações, também é certo que, no momento em que escrevo este post, a comunidade humana foi capaz de evitar o pior. Mas nada nos garante que os homens e as mulheres vão continuar a ser capazes de controlar os monstros que criam.

"Os portugueses não querem eleições"

 Trata-se de um paradoxo divertidíssimo, desde que, claro, ainda se possua algum sentido de humor: inúmeros indivíduos têm passado os últimos dias nos vários canais de televisão garantindo que "os portugueses não querem eleições". Ora os graves sujeitos que o afirmam categoricamente são curiosamente de nacionalidade portuguesa e estão mortinhos por ir a eleições, ao ponto de terem forçado a sua inevitabilidade. Mas é muito possível que tais murcões, embora desejosos de ir a eleições, detestem as eleições em geral. Não conheço, por outro lado, nenhum dado objectivo que sustente a ideia expressa por aqueles patetas travestidos de ministro, secretário de Estado e autarca. Mas, sendo português, pelo menos tão português como qualquer um, eu gosto muito de ir a eleições. Suspeito de que não serei o único.

quinta-feira, 6 de março de 2025

"Quando a encontrei, eu era ainda um homem com asas"

 Há, por exemplo, um homem que muda de pele todos os dias. Ou o subtil relâmpago da frase: "Mas não sei como proceder diante do chefe e reúno meus dedos numa flor de súplica sobre a mesa".

Regressei esta noite, por involuntária sugestão de uma amiga, ao Pequeno tratado sobre as ilusões do Paulinho Assunção, publicado pela Campo das Letras em 2003 (havia conquistado o Prémio Guimarães Rosa, na categoria Contos, em 1998, sem ter ainda encontrado um editor) — e voltei a experimentar o elementar fascínio das suas histórias muito breves e encantatórias. Não preciso de dizer, creio, que o livro não voltou a ser publicado. Já nenhum editor se interessa por um livro que se lê entre duas cigarrilhas e procura praticar a literatura sem ceder a nenhum dos paupérrimos sucedâneos que agora se vendem à mesma velocidade dos pães quentes.

Pequeno tratado sobre as ilusões é hoje impublicável em Portugal, como o Montedidio do Erri de Luca ou a obra completa do Rubem Fonseca. Se Borges não se tivesse erguido à condição de Borges, tampouco alguém hoje leria (ou publicaria) O Livro de Areia, decerto desprezado entre capas coloridas de desgaste e consumo rápido. O público quer a última bolacha do pacote das redes sociais e não abre mão desse cintilante esterco, de preferência com autor camone e enredo de telenovela de quinta categoria.

Testemunho de uma época transacta e esquecida que o tempo obliterou, o Pequeno tratado sobre as ilusões continua presente na memória de quem outrora o leu e a ele pode ainda voltar. Será um livro de areia que o vento dissipa devagar, parte da poeira cósmica a que todos, cedo ou tarde, regressaremos. Mas ali, no círculo infinito das estrelas, continuará a soar a perene poesia de uma frase: "Quando a encontrei, eu era ainda um homem com asas".

Que continue a voar quem pode.

O irritante hábito de estragar o vosso dia

Diversos indivíduos têm dito coisas relativamente sensatas a propósito do plano europeu de rearmamento, destinado a garantir que "somos capazes de nos defender sem a ajuda dos Estados Unidos da América de Trump". A necessidade parece evidente, tendo em conta, desde logo, a ameaça iminente do vizinho russo, a quebra de lealdade do amigo americano, a imprevisibilidade turca num cenário de dissolução da NATO e o crescente poder militar chinês, só para referir o mais óbvio. Agora imaginem, se quiserem ter o dia estragado, uma Europa rearmada, onde os respectivos países vão sendo progressivamente liderados pelos fascistas cujas votações não têm parado de crescer nos últimos anos.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Elipse, uma demonstração prática

 Em toda a parte se pode aprender. No matinal e madrugador autocarro, por exemplo. Até aí se beneficia de demonstrações práticas sobre diversas matérias, sem excluir as sempre aborrecidas figuras de estilo da Língua Portuguesa.

Esta manhã, suscitou o interesse de duas senhoras que um rapaz de onze anos tivesse sido esfaqueado no pescoço, no interior de uma escola. Nenhuma deve ter lido mais do que o título da notificação no telemóvel (a única notícia que encontrei diz respeito a uma ocorrência em Dublin, na Irlanda), o que as não impediu de discorrer sobre o assunto:

- As escolas estão que valha-me deus.

- Também as empregadas... Devem passar o dia a coçá-la.

E assim, de uma só penada, se fica simultaneamente ilustrado sobre elipses e técnicas de manipulação política de massas.

Perguntar não ofende#2

 Considerando os devidos preceitos legais, éticos e políticos, em que medida se distingue o caso da empresa do primeiro-ministro da situação do ex-ministro Manuel Pinho, atualmente em julgamento nos tribunais?

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Perguntar não ofende

 Com que legitimidade pode um governo chefiado por um assalariado da Solverde tomar, até ao final de 2025, decisões sobre as concessões dos casinos que esta empresa tutela em Espinho e no Algarve?

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Um tão brando amor


Continua disponível o livro que reúne seis novas ficções curtas (algumas não tão curtas quanto isso), quatro das quais totalmente inéditas (uma das excepções é Final feliz para raparigas tristes, que em tempos aqui partilhei). Um tão brando amor pode ser adquirido apenas na plataforma de print-on-demand da Amazon. Não é a solução ideal, nem sequer uma boa solução. É apenas a alternativa possível nas actuais circunstâncias.

Está também disponível uma versão Kindle para adeptos dos livros electrónicos.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Sobre a cadeira de sonho

 O comunista Rui Sá recorda hoje, no JN, algo que é essencial conhecer sobre o carácter do putativo candidato do PSD à Câmara Municipal do Porto. Poderia acrescentar a isso o facto de nunca alguém ter ouvido a Pedro Duarte uma ideia sobre a cidade (pelo menos fora do bunker do PSD). Parece, assim, bastante acertada a conclusão segundo a qual o dito indivíduo deseja apenas a "cadeira de sonho", mas não o serviço à cidade e à sua população.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

O problema das imobiliárias dos políticos

 A aparente abundância de empresários do sector imobiliário e da construção civil no governo e no parlamento não constitui, à partida, nenhum problema. Não há nada que impeça um político de ter um negócio qualquer, excepto se a lógica desse negócio está na origem daquele que é, de momento, o maior problema do país: a falta de habitação a preços razoáveis. Pessoas responsáveis pela absurda especulação imobiliária que deixa congeladas as vidas de milhares de pessoas não deviam, à partida, e por razões éticas, poder tomar decisões que têm como objetivo aumentar ainda mais os lucros das empresas de que são proprietários, canalizando para esse negócio dinheiros públicos (sob a forma de apoios) ou terrenos onde até aqui a defesa do interesse público impedia que se construísse.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Cardumes de água, imagens transumantes

 As crónicas de Fernando Alves na Antena 1 têm frequentemente o poder de nos iluminar as mais esquinadas horas do dia. Hoje, por exemplo, enquanto o céu se encastelava das massas líquidas que haviam de cair copiosas, ouvi-o dizer uma daquelas frases que nos ficam a reverberar numa corda secreta e íntima da consciência pouco consciente, como uma melodia que regressa sem ter porquê nos momentos mais inesperados do dia. Dizia esse texto matinal: "Fico a pensar num mercado que se possa abrir aos pastores de nuvens, cuja arte pudesse juntá-las em cardumes de água, vestidas só de vento". Agora que os rios transumantes já descarregaram as suas bátegas sobre o pó dos construtores de cidades, a frase regressa como uma imagem tão concreta que quase é possível sonharmo-nos também pastores de nuvens armados só com redes de apanhar borboletas, quimeras ou pérolas de orvalho.

Quando a realidade imita a ficção

 Lendo A Piada Infinita, tem-se frequentemente a sensação de que a realidade parece imitar certos momentos daquela ficção. Na imaginação de Foster Wallace, os EUA estabelecem, no futuro distópico do livro, uma organização internacional de defesa "interdependente" com o Canadá e com o México, a ONAN, a qual sucede ao desmantelamento da NATO. Neste caso, e tendo em conta as últimas movimentações da diplomacia internacional, o futuro ficcional de Wallace pode tornar-se verdade a qualquer momento, se calhar já na semana que vem. E isto até nem será a pior coisa que nos pode acontecer.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

A catástrofe que se aproxima

 Num texto que tem por título A discreta grandeza da Europa, o escritor colombiano Héctor Abad Faciolince explica hoje, no El País, que o continente europeu conseguiu, nos últimos 80 anos, algo de extraordinário: a convivência civilizada de diferentes povos unidos em torno de uma ideia de progresso humanista. Não há no mundo, diz, outro caso assim.

À luz da convicção exposta por Faciolince, soa algo bizarra a pretensão dos novos fascistas europeus, recentemente declarada em Madrid, de voltar a tornar a Europa grande e cristã. À parte o oco triunfalismo que acomete estes tristes e torpes imitadores, tornar a Europa grande e cristã significa, no fundo, regressar ao período antes do fim da Segunda Guerra Mundial e regredir à Idade Média, às constantes guerras e disputas fronteiriças, à fome de que padeciam todos os que não pertencessem à nobreza e ao clero e a mais umas quantas coisas sórdidas de que os cidadãos europeus parecem ter-se esquecido.

Uma vez que os interesses da Europa Grande destes bandidos são incompatíveis entre si, e que, ao que já se percebeu, também parecem inconciliáveis com os da América Grande do energúmeno alaranjado, não espanta que a actriz alemã Hanna Schygulla ontem tenha declarado em Berlim que "a catástrofe se aproxima", uma vez que os nacionalismos "só trouxeram lágrimas e guerras". É este, mais tarde ou mais cedo, o desígnio de todos os nacionalismos: conflituar com o nacionalismo dos vizinhos do lado por qualquer Olivença, por qualquer Donbass, até que, muitas mortes depois, alguém venha tentar limpar o sangue.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Ah, o liberalismo!

 Passou relativamente disfarçada pelos órgãos de comunicação social portuguesa a notícia segundo a qual uma criptomoeda promovida ou recomendada pelo presidente argentino Javier Milei burlou 40 mil pessoas em poucas horas. No novo esplendor do liberalismo, que por cá se vende como se fosse a última bolacha do pacote, o facho vigarista respondeu a quem o questionou ser normal que, quando se vai jogar ao casino, se esteja preparado para perder dinheiro.

Independentemente de saber quem ganhou o dinheiro que os cripto-otários perderam (mas podemos imaginá-lo), importa estabelecer que não é normal que um chegano vigarista seja presidente de um país. Mas acontece. Na Argentina ou até na mais poderosa nação do mundo, os mais altos magistrados são agora simples vendedores da banha da cobra (cripto ou não), travestidos de paladinos do liberalismo enquanto sinónimo de simples desregulação, tendo em vista a transformação das economias nacionais em casinos onde é normal que um pobre perca dinheiro para que os mais ricos o embolsem.

É, assim, relativamente normal que os cheganos se babem com o sucesso do gémeo argentino Milei. Menos comum, mas não surpreendente, é ver que também os fachos da IL andam encantados com Milei e a brandir serras elétricas com ar triunfal, exibindo os (supostos) resultados macro-económicos que escondem o impacto das políticas ditas liberais na vida dos cidadãos argentinos que não sabem vigarizar o vizinho com criptomoedas. Para quem tivesse dúvidas (e dois neurónios activos), a criptomoeda $Libra serve como demonstração cabal de que a farinha de diferentes marcas que por aí se vende provém toda, afinal, do mesmíssimo saco.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

A neve da Baviera

 Nevava esta manhã em Munique, diante do Bayerischer Hof, onde está a decorrer uma Conferência de Segurança que juntará até domingo, creio, alguns líderes mundiais. Quero dizer que, quando entrei no estabelecimento suburbano onde tomei o primeiro café do dia, o televisor estava ligado e transmitia imagens do dispositivo policial presente naquele local, sob o qual caíam grandes, leves, alvíssimos flocos de neve. Vieram-me à cabeça memórias de outros nevões na Baviera, da paz que havia nessas tardes em que, sem nenhum rumor, tudo se cobria de branco diante da minha janela. Havia corvos debicando no chão gelado, crianças encasacadas, bosques belos como postais ilustrados, colunas de fumo elevando-se de certas chaminés; automóveis, telhados e sebes cobertos de neve. E um silêncio concreto e material como o que há-de existir antes de que caiam os obuses de todas as guerras. Lembrei-me também de que em 1938, a 29 de Setembro, se reuniram em Munique vários líderes europeus, tendo a Inglaterra e a França condescendido com a cedência à Alemanha de Hitler da região dos Sudetas, na Checoslováquia. E depois começou a Grande Guerra.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Os grandes prestidigitadores

 Há um conto de Kafka no qual o autor checo parece coincidir com Foster Wallace na crítica implícita à sociedade do espectáculo. Não me recordo do título do conto - era o que faltava! -, mas nele surge o quase proverbial K., desta vez no papel de "grande prestidigitador", "apesar de - comenta o narrador - o seu programa ser um tanto monótono". E acrescenta: "É claro que a suposta sobrelotação da sala desempenha, sem dúvida, um papel decisivo em toda a impressão com que fiquei do espectáculo”.

Todos nos lembramos, suponho, do tempo em que o imitador português do grande prestidigitador americano era um murcão desconhecido e incapaz de ganhar, sequer, as eleições para a Câmara Municipal de Loures, e de como certos canais televisivos de entretenimento lhe lotaram a sala (para seguir a ideia de Kafka) e continuam a providenciar um público a este ilusionista (mesmo se se trata de um público que não foi ensinado a escolher bem, para acompanhar a terminologia de Foster Wallace).

Não é difícil concluir que o sucesso destes aldrabões depende em grande medida da "suposta sobrelotação da sala" que lhes é proporcionada pelos media. Um imbecil a falar sozinho (num banco de jardim ou num blogue), conforme sucede a este vosso criado, constitui um espectáculo apenas lamentável. Já um imbecil com um público é muito capaz de se tornar perigoso.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Esclarecimento estatístico

 Malgrado as interrupções, as suspensões e as efémeras desistências, este blogue atingiu recentemente os 1.600 posts (desde julho de 2010) e as 548 mil visualizações. O primeiro número parece-me francamente excessivo. O segundo há-de ser resultado de um exagero informático.

Essa é a questão

 David Foster Wallace não previu Trump e Musk n'A Piada Infinita (se bem que o presidente Gentle apresente algumas semelhanças bastante inquietantes). Não deve ser possível prever uma tragédia de tais proporções. Mas imaginou um tempo ficcional em que os EUA e o Canadá vivem em "interdependência" e à mercê, no país mais a sul, das consequências de uma cultura de ignorância e de submissão ao entretenimento. A dado passo, um separatista do Quebeque pergunta a um agente dos serviços secretos inquieto com a derrocada dos EUA: "Quem é que ensinou os americanos a escolher com cuidado?". Essa é a questão. E não só na América.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Havíamos de fugir da nossa cidade a voar?

 Perdoar-me-ão, decerto, que regresse a Kafka tão depressa, mas um dos seus textos parece particularmente adequado ao êxodo que os EUA pretendem promover em Gaza. Refiro-me a um pequeníssimo conto que refere a invasão de uma cidade onde todos os habitantes têm asas, os quais, paradoxalmente, não fugiram aquando da chegada do rigoroso invasor. "Admirais-vos?", pergunta um velho interpelado pelo narrador. "Havíamos de fugir da nossa cidade a voar? Deixar a terra natal? Os mortos e os deuses?".