Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

Uma tarde cheia de Cabo Verde

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)

Não sei se é Cabo Verde que me persegue ou se sou eu que estou sempre atento a estes mínimos pormenores e às deliciosas coincidências que me vão permitindo manter esta crónica viva, mas foi assim: uma tarde destas, estando eu em casa a tentar fazer literatura ao som de Bau, lembrei-me de que ainda me faltava comprar um presente de Natal. Já tinha decidido que compraria “ Lus”, de Nancy Vieira, para oferecer à Olga (o Carlos recebeu o romance do Mário Lúcio Sousa, “O Novíssimo Testamento”, que é um presente igualmente supimpa), mas, para isso, precisava de sair de casa e de me meter numa dessas confusões de gente, filas e sacos de compras que, pelos vistos, é o Natal. Como, em todo o caso, estava a precisar de um café e de caminhar um pouco para aquecer os pés, meti-me no autocarro e lá fui em busca do último presente.

Cumprida a espinhosa missão, fiquei a dar umas voltas pela Baixa, mas por aquela parte da Baixa onde não anda toda a gente atarefada com as compras e que até parece quase deserta com as universidade encerradas para férias. Já tinha anoitecido e, como escreveu o poeta Cesário Verde, havia naquela parte da cidade uma tal soturnidade, uma tal melancolia, que eu resolvi entrar no café do costume para uma meia-de-leite e uma torrada, crente de que nada como ter a barriga forrada para afastar o spleen.

Tinha, pois, o CD da Nancy Vieira num saquinho de plástico e entrei no café — o mesmo sítio onde tinha estado, algumas noites antes, com o actor Flávio Hamilton, na ressaca de uma feijoada e de uns cálices de pontche meloso. O Flávio, desta vez, não estava, mas, em sua vez, ouvi a voz e a guitarra do Bilan flutuando na sala em lusco-fusco, uma melodia muito doce que, daí a nada, deu lugar a “Papa Juquim Paris”, aquela mesma canção que foi, para mim, a porta de entrada na música do Bilan, há quase um ano atrás.

Encantado com a coincidência, telefonei ao Bilan para poder dizer “manera, tud dretu?”, e depois, regressado ao ar frio da cidade, fui atento às pessoas do metro para ver se havia algum cabo-verdiano (creio que sim, uma mãe com dois filhos, mas não ousei falar-lhes). Por fim telefonei também para a Yasmin, com quem não falava há tanto tempo, para saber novidades dela na minha terra e para ouvi-la dizer aquele “fica dret” ao qual eu já sei responder “bo també”.

Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

Crónicas do autocarro#49



A Cristina confessava, na semana passada, a falta que sente das rapaziadas nos autocarros durante o período das férias escolares, e boas razões deve ter para isso. Os meus horários nos transportes públicos são menos animados pela vivacidade dos moços e das moças pubescentes, mas, graças aos hábitos que os adolescentes adquirem durante a interrupção lectiva, pude ontem ter uma ideia de como hão-de ser animadas e vivazes as viagens daqueles que utilizam os transportes públicos em horário estudantil. Seguia no autocarro, ao fim da tarde, um pequeno grupo de moças espigadotas, as quais trocaram pérolas como “vê se arranjas um gajo para ti para não andares atrás do meu”, e outras que, entretanto, não pude ouvir convenientemente. Devia, com efeito, ter dado mais atenção à conversa delas, para aqui poder dar devida nota dos factos, mas a Vanessa começou a querer comportar-se como se também ainda tivesse quinze anos e eu vi-me obrigado a tentar sossegá-la, uma vez que me ocorre sempre uma frase que li há muitos anos, segundo a qual o poder dos repórteres fotográficos reside no facto de conseguirem ser invisíveis. Ao cronista do autocarro, parece-me, cabe cultivar, ao menos, a mesma virtude: ser discreto para observar melhor.

Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

A literatura explica

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 7 de Dezembro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Aproveitei uma deslocação de trabalho à Galiza e já comprei (e li) Lo que sé de los hombrecillos, o mais recente romance de Juan José Millás. O livro justificou amplamente o entusiasmo antecipado que aqui manifestei, mas isso nem sequer vem agora ao caso. Não sendo crítico literário, a minha leitura é essencialmente recreativa, ainda que tenha outra vez constatado como, de certa forma, a realidade e a literatura tendem a confundir-se, nem que seja na minha transtornada cabeça.

Quis o acaso que estivesse a ler a página 144 do livro na mesma altura em que a habitual maioria parlamentar da Assembleia da República (PS, PSD, CDS) chumbava uma proposta do PCP para que os dividendos das acções fossem taxados já este ano a 29 por cento. A medida destinava-se a impedir que algumas empresas prejudicassem o Estado e os contribuintes comuns em várias centenas de milhões de euros, antecipando para 2010 a distribuição de lucros para beneficiar de um regime fiscal mais favorável. A maioria dos deputados, porém, decidiu autorizar esta modalidade de batota e fuga ao fisco, argumentando que o Estado, ao contrário das empresas, não pode mudar as regras a meio do jogo.

Os impostos que aquelas empresas e os seus accionistas não vão pagar serão, evidentemente, pagos por alguém: os contribuintes do costume, aqueles que não podem enganar o Estado. A explicação para este persistente fenómeno das finanças portuguesas está na tal página 144 do livro de Millás, cujo narrador é um professor jubilado de Economia.

O economista do romance, explique-se, descobre que a sua casa é visitada por uma colónia de homenzinhos, ágeis como lagartixas. Um deles é uma réplica exacta do narrador, fabricada a partir de tecidos seus, desenvolvendo-se uma relação simultaneamente simbiótica e parasitária entre os dois. Partilham sensações e concedem-se novas experiências só possíveis nos respectivos mundos (o pequeno e o grande). A dado passo do enredo, o homenzinho exige desfrutar da sensação de matar outra pessoa e o professor sai para a rua disposto a escolher uma vítima. Decide-se por um velho coxo e miserável e, logo a seguir, percebe como também naquela situação a economia explica a realidade. “Aquele velho ia morrer por ser pobre. Por ser coxo também, mas sobretudo por ser pobre. Perguntei-me por que não fui procurar uma vítima num bairro rico (...) e não tive mais remédio senão dar-me uma resposta de carácter económico”.

Algo muito semelhante acontece na Assembleia da República sempre que é preciso decidir quem há-de ser sacrificado a bem das finanças públicas. Obedecendo a uma lógica muito peculiar, os senhores deputados escolhem invariavelmente penalizar os mesmos de sempre, não sei se por serem pobres ou apenas por não serem capazes de se defenderem, por exemplo distribuindo cargos em conselhos de administração. Em última análise, a justificação é sempre económica, tendendo as decisões da maioria a favorecer o pecúlio próprio e as economias de quem já é rico.

Sábado, 25 de Dezembro de 2010

Reflexão natalícia (para obrigar os neurónios a queimar meia caloria)

Existirá algum bom motivo para que se escreva tão pouco nos blogues durante o Natal? Provavelmente existe, mas eu é que não estou a ver. Por exemplo: o facto de quase ninguém ler blogues enquanto mastiga rabanadas e abre presentes parece um motivo perfeitamente plausível, mas não acredito que tenha alguma validade no plano prático. Se o facto de quase ninguém me ler interessasse para alguma coisa, nunca escrevia coisa nenhuma.

Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

Programação para um (looonngoooo) fim-de-semana televisivo

E pronto. A curta-metragem "Quem é o pai do Menino Jesus", cujo argumento tive o prazer de escrever, estreia no próximo domingo, dia 26, na RTP 1, às 11h15 (toca a levantar cedo, portanto). O filme foi realizado pelo José Alberto Pinheiro e conta com as interpretações de Miguel Rosas, Margarida Carvalho, Jorge Loureiro e Nara Gonçalves, e com a participação especial do Adolfo Luxúria Canibal.

Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

Crónicas do autocarro#48



A mulher vinha avançando pelo corredor do autocarro, resoluta, mas, de repente, deteve-se e ficou parada, tentando equilibrar-se sem se agarrar a nada. O autocarro balançou, todos os que viajavam em pé se firmaram como puderam, deitando as mãos às barras metálicas — todos excepto a mulher baixinha, que persistiu no seu estranho equilibrismo. Ao meu lado, um cavalheiro deu um passo atrás e arqueou o braço, para que a mulher se agarrasse ou seguisse o seu caminho, mas ela sacudiu a cabeça e disse "não, eu é que não passo por baixo", por baixo do braço do simpático cavalheiro, queria ela dizer. Ele chegou-se à frente e, depois, ela contornou-o pelas costas, presumo que aliviada por se ter livrado da pesada maldição que sobre ela cairia se acaso tivesse passado sob o maléfico arco que o braço do homem formava. Eu desejei que ela tivesse caído e partido um ou dois dentes. Ou talvez não o tenha desejado. Limitei-me a pensar nisso, que as pessoas supersticiosas deviam ser castigadas pelos seus medos parvos, para que se deixassem de merdas.

Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

O Rio sem Zumbi

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 30 de Novembro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



“Os helicópteros surgem, rodeando o morro, como negros marimbondos enfurecidos”. A descrição podia pertencer a algum dos filminhos gravados durante o último fim-de-semana com sofisticados telemóveis, e logo postos a circular na internet a partir de alguma casa do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, durante a ofensiva policial e militar que tomou conta da favela e dos noticiários. A frase, porém, está escrita no romance O ano em que Zumbi tomou o Rio, do angolano José Eduardo Agualusa, que imaginou a guerra civil na cidade maravilhosa com alguns anos de antecedência (o livro foi publicado em Abril de 2002).

Entre a ficção e a realidade, há inúmeros pontos de contacto e outras tantas diferenças. Agualusa imaginou que, em pleno século XXI, Francisco Palmares, o Zumbi, encarna a herança revolucionária do célebre herói antiesclavagista do século XVII e encabeça a revolta dos morros pobres contra a opulência da cidade rica, o asfalto. Na literatura, o confronto tem motivações políticas e sociais, como numa revolução socialista, sendo, todavia, suportado pelo dinheiro e pelas armas dos líderes do tráfico de droga. Na realidade, as autoridades tomaram as favelas de assalto para recuperar o controlo de uma parte do território em que o Estado tinha deixado de mandar (o Mundial de Futebol e os Jogos Olímpicos a isso obrigam). Os moradores do morro receberam os tanques com alívio, como um povo libertado após anos sob a tirania dos bandos de traficantes.

No ponto mais alto do Complexo do Alemão, a polícia hasteou a bandeira do Brasil (“ordem e progresso”) e exibiu as luxuosas mansões dos líderes do tráfico, com deliciosas piscinas de água azul debaixo do amistoso sol do Rio. A realidade não abre brechas por onde penetre a bondade libertária da ficção. Os líderes da favela são tão ou mais ricos, tão ou mais opulentos e corruptos, tão ou mais brutais e opressivos do que os chefes do asfalto. Ou, como diz um dos personagens do livro de Agualusa, os muadiês do morro não têm consciência política. Aí se extingue a utopia e sobre o Rio desce a normalidade do quotidiano.

Na realidade, não houve uma coluna de blindados avançando pesadamente pela Avenida Vieira Souto, diante do mar de Ipanema. Uma reportagem publicada no Diário de Notícias de domingo relatava que os surfistas continuavam cavalgando as ondas, os corpos dourados ainda estavam crestando ao sol, indiferentes à guerra civil que, decorrendo naquela mesma cidade, era, afinal, uma coisa de outra cidade, de um outro mundo. Os turistas tomavam água de coco nas esplanadas e Mónica Marques, a escritora portuguesa que ali vive há dez anos, explicava que estava calmamente instalada na praia do Leblon, como se nada fosse. “Tenho estado sempre na night sem problemas, a curtir o Rio”.

Nos morros do imenso país que vai do Oiapoque ao Chuí, dezenas de milhões de brasileiros não poderão dizer o mesmo (e já foi pior). Vão continuar a ser gente de segunda (ou de terceira), sem possibilidade de curtir quase nada. Mas também ali a revolução não é para já.

Domingo, 19 de Dezembro de 2010

Lectoproedonosmia: ide e praticai-a



Perdoem-me, por favor, o tremendo palavrão, mas creio, com efeito, estar na hora de homenagear condignamente os indivíduos cuja paixão pela literatura se manifesta em todos os aposentos de uma habitação, mesmo naqueles injustamente menorizados. A lectoproedonosmia é não apenas um método perfeitamente honrado de praticar a amantíssima comunhão com os livros e, vá lá, a magia das palavras, como provavelmente, em muitos casos, o melhor momento do dia de muitos cidadãos.

Não é para me gabar, mas sou um razoável lectoproedonosmista e estou inclusivamente convencido de que esta prática me torna um pouco mais inteligente e, ao mesmo tempo, contribui para o regular funcionamento dos meus esfíncteres e, portanto, para um estilo de vida mais saudável. Por exemplo: creio que estaria hoje bastante pior da minha ressaca se não tivesse esta manhã dedicado dez minutos à leitura das primeiras páginas de “Gómez Palacio”, um dos contos de Roberto Bolaño do livro “Putas Asesinas”. E é assim, de resto, todas as manhãs, melhores ou piores conforme a qualidade literária da breve sessão de leitura.

A lectoproedonosmia – obrigado señor Rigoberto Guadamuz – é como um intervalo, um limbo, uma prega no tempo. Já não estamos a correr para tomar banho e o pequeno-almoço, mas também ainda não estamos a correr para apanhar o autocarro e ir enfrentar a jornada de trabalho. Ainda um dia, creio, a lectoproedonosmia vai ser receitada pelos médicos. O mundo será, então, um sítio um pouco melhor.

Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010

A propósito das primeiras frases de "El Ojo Silva", do livro "Putas Asesinas", de Roberto Bolaño

"O que são as coisas. Mauricio Silva, conhecido como O Olho, sempre tentou escapar à violência mesmo correndo o risco de ser considerado cobarde. Mas da violência, da verdadeira violência, não se consegue fugir, pelo menos nós, os nascidos na América Latina na década de 1950, os que tínhamos vinte anos quando morreu Salvador Allende".*

Assim eram, pois, as coisas. Leio-o e interrogo-me sobre o que leremos, daqui a trinta anos, que venha a ser escrito por aqueles que, nascidos em Portugal nas décadas de 1980, 1990 e posteriores, sempre terão tentado fugir ao desemprego, à insegurança, à falta de perspectivas de vida. Penso nisso, dizia, e ocorre-me que também os meus filhos (perdoem-me, se puderem) estarão um dia, como os latino-americanos daquele tempo, a escrever a partir do exílio. Se tiverem juízo, estarão também a escrever num idioma qualquer que se fale em países a sério. Esta merda não tem remédio.**


*tradução caseira
** trata-se, bem sei, uma previsão falível, mas não mais falível do que era a frase daqueles cavalheiros que, há mais de cem anos, escreveram que isto é uma choldra e continuam absolutamente actuais

Para história de Natal não está nada mal

Este é o tipo de gente que a NATO está a defender no Kosovo.

Dois amigos de parabéns

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)



1.Espero que não me levem a mal, mas vou voltar a escrever sobre a Mayra Andrade. Sou partidário de que qualquer motivo é bom para invocá-la e considero que a simples menção do seu nome confere imediatamente bom aspecto ao mais desinteressante dos textos. Neste caso, porém, Mayra fornece triplo motivo de regozijo a todos aqueles que se habituaram a apreciar o seu trabalho.

Em primeiro lugar, acaba de ser lançado o mais recente disco da compositora e cantora, “Studio 105”, o qual, segundo a crítica, se destaca por apostar num registo intimista que permite destacar a voz doce e rouca que ela tem. Canta Orlando Pantera e Teté Alhinho, mas também Serge Gainsbourg e os Beatles. Ainda não pude escutar os novos enleios da voz de Mayra, mas estou já ansiosamente à espera do dia em que o disco se estreará no ar frio da minha sala, provavelmente aquecendo-o com a cálida voz que ela tem.

Por estes dias, cá por cima, Mayra foi ainda motivo de notícia por ter gravado um fado em parceria com Pedro Moutinho, num dos discos mais badalados da saison musical tuga. E, se isto não fosse já suficiente, Mayra cantará hoje no Casino de Paris, onde, no dia em que escrevo esta crónica, há notícia de rigorosos nevões e de uma inclemente vaga de frio. Era capaz de jurar que tudo isso passará assim que Mayra subir ao palco para cantar.

2. Já com algum atraso, não quero deixar de saudar o lançamento, aí na cidade da Praia, do livro de estreia do Abraão Vicente nas lidas literárias, “O Trampolim”. Tive ocasião de ler a obra antecipadamente, há mais de um ano, mas, de tudo, aquilo de que mais gostei foi da ressonância melancólica e da promessa de drama familiar do primeiro capítulo. Fiquei com vontade de saber o que sucedeu a Zara, o que sucedeu a Katina e que vida teve Carla na Holanda; exactamente o que mudou naquele dia em que se sacrificou a cabra Estrelinha à festa da família; que rumores pairavam sobre o clã de Alcides Barbosa Vicente.

É sempre um pouco insensato permitir-se que a literatura nos entre pela vida dentro. O Abraão, porém, deixou-se contaminar e, agora, como seu amigo, tenho apenas que fazer aquilo que cabe aos amigos. Fico ao lado dele, de pedra e cal, para o que der e vier, pois, às vezes, a literatura é uma febre que se transforma num turbilhão, numa revoada, num desses vendavais que levam a areia da Gamboa até bem longe e a infiltram no mais profundo de nós.

Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

Exercício prático para descongelar as meninges e, quem sabe, dar ao mundo um espantoso performer (salvo seja)



Estava aqui a cogitar acrescentar mais alguns caracteres a uma coisa com a qual tenho andado a perder tempo, mas, depois de abrir o documento word respectivo, ocorreu-me que hoje não me apetece, não sei se por cansaço, por causa do frio que faz lá fora ou pela explosiva constatação da absoluta inutilidade do exercício da literatura quando praticado por um indivíduo sem nada que o recomende particularmente, excepto, se calhar, o facto de dar pouco trabalho a um eventual revisor. Talvez poupe, deste modo, duas ou três cigarrilhas, uma vez que queimo menos tabaco quando não tenho que fazer este esforço descomunal para pôr o tico e o teco em contacto, e, assim como assim, se é para escrever mais uma ou duas alarvidades, posso perfeitamente abrir o editor do blogue e ser imbecil com meia dúzia de pessoas a assistir, o que torna a coisa muito mais participativa. Se alguém, por exemplo, estiver agora a ler esta palavra, isto já é quase uma performance. A performance, aliás, é uma arte à qual eu não me tenho dedicado tão empenhadamente como devia, e é pena, uma vez que, com um ou dois uísques no bucho, eu tenho algum talento para ser um palhaço aceitável e para proferir inconveniências a que os cultores do humor negro conseguem achar alguma graça. Recordo-me que, no último encontro de escritores em que participei, ninguém deu grande atenção ao que eu disse sobre a literatura e as suas mágicas subtilezas, mas, em compensação, foi espectacularmente bem acolhido o momento em que eu fiz uma batucada na mesa, expondo-me um bocadinho ao ridículo, mas colhendo, outrossim, um merecido aplauso. Vou pensar nisto. É um exercício bestial para descongelar as meninges.

Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

Corpo artístico (ou de como o Abraão Vicente me transformou num indivíduo um bocadinho menos aborrecido)


© Abraão Vicente, 2010

Entretanto, no Porto, mais um espectacular triunfo do notável doutor Rui Rio

Esta é uma história que explica perfeitamente aquilo em que o Porto está transformado. A Câmara demorou um ano e meio a embargar um prédio cuja ilegalidade se percebia, pelos vistos, desde o primeiro momento. Um prédio na Foz, claro está. Se fosse uma anexo num bairro social, ou um cartaz do PCP fora do sítio, a câmara tinha ido lá no próprio dia, com câmaras de televisão e banda de música, para pôr a manada na ordem. Mas na Foz é outra louça. Na Foz, com uma palavrinha, a câmara do doutor Rio até altera o traçado de uma ciclovia e, em vez dela, cria uma zona de estacionamento do lado esquerdo de uma faixa de rodagem. Agora, depois de um ano e meio a assobiar para o lado, a câmara foi notificada para embargar a obra (mesmo!). Diz que vai cumprir a ordem. Já não faz diferença. O prédio está quase pronto a habitar por algumas famílias que, ou muito me engano, ou serão convenientemente boas e tradicionais famílias sociais-democratas, que hão-de encher as varandas com aquelas bandeirinhas vermelhas do menino jesus.

Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

Crónicas do autocarro#47



Haja alegria. O velhote tinha o cabelo branco bastante desgrenhado, assim como se tivesse acabado de sair da cama e entrado no autocarro sem passar pela casa de banho, mas já tinha posto os auscultadores nos ouvidos – talvez tivesse, em todo o caso, adormecido com eles. Sentado numa das últimas filas do veículo, o ancião erguia, de vez em quando, uma voz fininha e aflautinada, indecisa, que fazia lembrar as gravações do Michel Giacometti entre os povos bárbaros da província portuguesa. Podia, pois, aquela ser a voz de um homem empurrando uma carroça de bois, ou a de um homem colhendo azeitonas, mas era apenas, isso sim, a voz de um velho entoando uma cantilena que se repetia, uma modinha popular, a bem dizer, a qual versava sobre uma vizinha que "é bonita e é bacana". Não se percebia muito mais a partir do lugar onde eu estava, apenas as palavras “sacana” e “bichana” no final de umas rimas, mas foi o suficiente para que os passageiros do costume se pusessem de nariz no ar, interessados no acidental trovador. Quando saí, e pelo olhar que o velho lançou ao quadril de uma senhora que saiu à minha frente (eu não olhei, eu não olhei), fiquei capaz de jurar que ia ali a musa inspiradora da cantoria.

Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Os extraterrestres, o arsénio e os comunistas



Com mil demónios! Parece que a descoberta de uma bactéria que se alimenta de arsénio e que prometia revolucionar a busca de vida extraterrestre pode, afinal, resultar da deficiente lavagem das amostras usadas pelos autores do achado. A falta de limpeza é uma coisa que me incomoda bastante, sobretudo quando ocorre na casa dos outros. Por outro lado, este revés contraria sobremaneira uma teoria em que eu andava a matutar, segundo a qual os extraterrestres, existindo, se tinham apoderado, decerto com pérfidas intenções, dos invólucros onde viviam o sujeito José Sócrates (o que explica que a réplica com a qual convivemos actualmente pareça esquecida de tudo o que o homem antes disse) e o indivíduo que dava pelo nome de Cavaco Silva, grande impulsionador da especulação na bolsa e do uso de fundos comunitários para a aquisição de veículos automóveis, promotor ainda do célebre caso das escutas telefónicas, mas agora bestialmente preocupado com as injustiças sociais e, de um modo geral, um sujeito muito ponderado e responsável, referência de estabilidade e assim. Posto isto, e se os extraterrestres não forem realmente os culpados, a marosca deve, com certeza, ser coisa dos comunistas, os quais, calhando, também bebem arsénio ao pequeno-almoço.

Imagine

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 23 de Novembro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Em dois dias seguidos da semana passada, a comunicação social nacional e estrangeira deu alguma atenção a assuntos relacionados com a astrofísica, os quais têm a enorme vantagem de serem um oásis de repouso no meio do noticiário sobre o défice e a dívida pública. Na quarta-feira, soube-se que um grupo de cientistas tinha conseguido aprisionar, durante um instante, alguns átomos de anti-hidrogénio. Na quinta, foi revelada a descoberta, na Via Láctea, de um planeta, o HIP 13044 b, vindo de outra galáxia. São acontecimentos fascinantes e capazes de alimentar a fantasia e o vago optimismo de um militante da descrença.

Há o défice, a crise, o desemprego, a incompetência, a guerra, a mesquinhez, a idiotice, os banqueiros, a fome, a miséria, os políticos, a corrupção, os assaltos com arma branca em caixas multibanco e o cheiro ao suor dos outros nos transportes públicos. Mas há também, apesar de tudo, a ínfima possibilidade de, lá em cima, no universo infinito, poder existir um sítio onde a vida seja o oposto de tudo isto, mais amena e suportável – e de esse planeta, como o HIP 13044 b, estar também a ser sugado para dentro da nossa galáxia, aproximando-se de nós.

Tal como a quimera da vida extraterrestre, também a existência do anti-hidrogénio constitui uma auspiciosa fonte de optimismo. Parece que o escritor Dan Brown imaginou, num dos seus calhamaços, que uma bomba de antimatéria fazia explodir o Vaticano. Trata-se de uma ficção simpática, mas pouco ambiciosa. Seria preciso, pelo menos, mandar pelos ares mais uma dúzia de templos, assembleias e sedes de instituições para que a Terra passasse a ser um sítio um pouco mais bem frequentado.

Sendo, todavia, um indivíduo de hábitos pacíficos, prefiro acreditar que as potencialidades da antimatéria podem ser aproveitadas de um modo menos fulminante. Uma bomba de antimatéria que tivesse o meu dedo havia de explodir mansamente, libertando os anti-átomos de hidrogénio, oxigénio, hélio e carbono necessários para que as coisas daninhas e desconcertantes do mundo se transformassem, de um sopro suave e doce, no seu exacto oposto.

Como diria o John Lennon, imagine que não há países e, mesmo havendo, que Portugal é governado por um anti-Sócrates; que não há céu, inferno ou religiões, que o Afeganistão é bombardeado por anti-bombas e as mulheres árabes andam com a cabeça coberta por anti-véus; que não há ganância nem fome e que as finanças mundiais correm sob o mando razoável e justo de um anti-mercado financeiro. Imagine uma anti-África, um anti-conflito israelo-palestiniano e que o mundo vive uma permanente anticrise; uma anti-Birmânia, um anti-Paquistão e um anti-Sudão.

Chegado a este ponto, pode o leitor estar pensando que eu sou um sonhador, lá-lá-lá-lá, que lhe ando a dar no pó e que, daqui a nada, invocarei a voz rouca de Louis Armstrong cantado Wonderful World e as cores do arco-íris. Pois bem: já me ocorreu, mas não o farei. Tenho só que parar de ler as notícias de astrofísica.

Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Quando um indivíduo se encontra em saldo



Há pessoas que me perguntam — muito de vez em quando, creio que por piedade cristã — onde podem encontrar os meus livros à venda. Costumo responder que não sei, o que é a mais rigorosa verdade, dada a situação de falência literária de que fui acometido. Hoje, porém, devo informar que encontrei alguns títulos à venda numa espécie de livraria de saldos (ou, segundo um cartaz avistado no local, de livros "a preços de outlet") que há na estação ferroviária de Campanhã. Os preços variam entre os quatro euros (O Silêncio de um Homem Só, Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco em 2005) e os sete euros e meio (A Menina Gigante, infantil, obra incluída no Plano Nacional de Leitura), mas há outras coisas igualmente sem interesse, agora transformadas em verdadeiras pechinchas (se um tipo vale o preço a que os seus livros são vendidos, só não cortei imediatamente os pulsos porque também lá estavam exemplares do Rubem Fonseca, do Gunter Grass e do Javier Marías) . Visto que não recebo os respectivos direitos de autor há pelo menos quatro anos — creio que nunca mais verei um tostão relativo a esses livros —, esta informação é, pois, o mais desinteressada possível. Os livros não são grande coisa, mas podem dar excelentes presentes na festa de Natal da empresa, da repartição ou do escritório, conforme for o caso. Fazem mais vista do que um par de peúgas ou do que uma caneca com a tromba do pai natal.

Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

Planeta dos monstros, última transmissão

A frase aparece meio a despropósito no início do capítulo 9 de Estrela Distante: "Esta é a minha ultima transmissão do planeta dos monstros. Nunca mais voltarei a mergulhar no mar de merda da literatura. Daqui em diante escreverei os meus poemas com humildade e trabalharei para não morrer de fome e não tentarei publicar". Agora que ele está morto, parecem mais ou menos óbvias as frases como "Roberto Bolaño é o mais importante escritor surgido na América Latina desde Gabriel García Márquez". Enquanto foi vivo, porém, Bolaño teve momentos em que sentiu a necessidade de escrever "Esta é a minha ultima transmissão do planeta dos monstros". Mas depois continuou. Quando se está mergulhado no mar de merda da literatura não há muitas alternativas. Tens que continuar a mexer os braços para nadar, nem que seja apenas para te manteres à tona — mais ou menos como na vida.

Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

Qatar



Na introdução de Estrela Distante, Bolaño atribui a história de Ramírez Hoffman ao seu "compatriota Arturo B.", nome que remete para o de Arturo Belano, o visceral-realista que é uma das personagens centrais de Os Detectives Selvagens. As irmãs Garmendia fazem também lembrar as irmãs Font. Ou seja: Bolaño cria o seu próprio mapa de estradas, fazendo o leitor viajar de uns livros para os outros, coleccionando referências, pistas, indicações e coincidências, como num jogo. Talvez por isso, a ideia de publicar conjuntamente os quatro livros que estão condensados em 2666 me pareça, de certo modo, um atentado a esta visão lúdica da literatura. Sempre que olho para o enorme tijolo que é 2666, assalta-me como que a sensação de que estou às portas de uma cidade que quer ser, ao mesmo tempo, Paris, Londres, Barcelona, Nova Iorque, Rio de Janeiro e Rabat, onde tudo está disponível sem ser preciso sair do sítio. Olho para 2666 e imagino-o parecido com o Qatar - mesmo sem nunca ter ido ao Qatar.

Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

Viajar sem depender de controladores aéreos

Gosto de, enquanto leio, seguir as pistas de leitura que os próprios livros sugerem, criando uma espécie de viagem literária e um mapa imaginário com estradas que ligam uns livros aos outros. Daí que, estando a ler Estrela Distante, de Roberto Bolaño, e tendo constatado, logo no texto de apresentação, que este romance é o desenvolvimento do último capítulo de A Literatura Nazi nas Américas, me sinta compelido a comprar e ler este livro antes mesmo de avançar para o Putas Asesinas, que já está lá em casa em fila de espera. As vantagens deste método são óbvias: os voos não estão condicionados pelas cinzas de nenhum vulcão, não são cancelados pelas greves dos pilotos ou dos controladores aéreos, e as estradas não ficam fechadas sempre que ocorre um nevão nas montanhas.

Livros na cabeça

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 16 de Novembro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Indivíduos mais clarividentes do que eu andam há um ror de tempo a anunciar o fim do livro enquanto objecto feito de papel e tinta, bem como a sua substituição por um dispositivo electrónico no qual se podem armazenar vários milhares ou milhões de ficheiros destinados à leitura, seja de poesia, ensaio, ficção, literatura técnica ou simples lixo. Sou perfeitamente capaz de admitir que o aparelho há-de ser bestialmente prático para pessoas sobredotadas, mas, para sujeitos limitados como eu, capazes de lerem apenas um livro de cada vez, e devagarinho, as novas tecnologias de leitura afiguram-se ainda um pouco estrambólicas.

Até há bem pouco tempo, estive inclusivamente convencido de que os e-readers pertenciam ao domínio da ficção científica, como os tubos de teletransporte, as viagens a Marte, a deslocação entre diferentes dimensões do espaço-tempo ou o Orgasmatron inventado por Woody Allen para o filme O Herói do Ano 2000. Mas depois vi claramente vista uma moça gordita a ler um livro electrónico na estação do metro da Trindade e convenci-me de que o futuro tinha, enfim, chegado.

Um pouco desnorteado pela novidade, quis sinceramente acreditar que a simples existência daquela rapariga justificaria os milhões de palavras que este jornal tem dedicado ao e-book. Acresce que alguém mais viajado se encarregou de me sossegar, garantindo que em Nova Iorque anda toda a gente com um e-reader na rua. Se a memória não me falha, aconteceu algo parecido com os tamagochi, os amorosos animais electrónicos que era preciso alimentar e tratar carregando em botões.

Sendo tão bota-de-elástico como qualquer pessoa que envelhece, estou convencido, ainda assim, de que o livro electrónico é um produto comercialmente muito mais promissor e viável do que eram os tamagochi. A possibilidade de ter toda uma biblioteca dentro de uma bolacha electrónica é seguramente muito interessante para qualquer indivíduo que não aprecie a companhia quieta de centenas de livros já lidos, amarelecendo em silêncio e cobrindo-se melancolicamente de pó.

O sol, escreveu Pessoa, “doira sem literatura”, e “o rio corre, bem ou mal, sem edição original”, pelo que não há nenhum motivo válido para que as pessoas ainda se enterneçam com certas mariquices antiquadas. Este fim-de-semana, por exemplo, alguns maduros paleolíticos andaram a espalhar trinta mil livros pelas ruas de Madrid, acreditando romanticamente nessa patetice segundo a qual há uma certa magia no encontro que se estabelece entre um leitor e o livro que, algures, o espera. Em Bragança, andam a fazer o mesmo pelos cafés do distrito, abandonando livros para que alguém os ache e leia. Mas é tudo uma enorme perda de tempo.

Segundo já profetizou um inteligente, “a literatura não é feita de papel” e, portanto, não há-de faltar muito para que seja possível fazer download de vários milhões de terabytes literários directamente para o cérebro, previamente dotado de uma tomada USB biocompatível. Com o interface adequado, será mesmo possível dispensar-se, um dia, a maçada de aprender a ler.

Sábado, 4 de Dezembro de 2010

Luzes, câmara... Acção!



A minha primeira experiência de escrita de argumento, Quem é o pai do menino Jesus, já está a ser rodada no Porto, com realização de José Alberto Pinheiro. Na imagem, a Nara Gonçalves (filha dos Clã Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves) dá corpo à pequena Madalena na cena final do filme.

Crónicas do autocarro#46



Não devia, muito provavelmente, dedicar-me agora a este assunto, sobretudo tendo em conta o estado em que me encontro, mas não consigo que me saia da cabeça a conversa daquelas duas mulheres esta manhã. Cumprimentaram-se e, logo a seguir, a que ia sair na paragem seguinte perguntou
— E a tua mãe?
— Está bem — respondeu a outra.
— E o teu pai?
— O meu pai faleceu?
— A sério? Quando?
— Dezanove?
— Por isso é que não te tenho visto...
— Olha... Acabou-se o sofrimento.
Ouvi a conversa procurando disfarçar a atenção de que necessito para ser capaz de me lembrar de alguma coisa passados cinco minutos. O sofrimento do falecido até pode ter acabado no dia dezanove, mas o meu constrangimento estava apenas a começar. Suponho que o constrangimento da primeira mulher também, mas esta é uma suposição muito arriscada. Nunca se sabe em que é que a malta do autocarro está a pensar. Depois, passado um bocado, tive que ir ver a neve e, aí sim, pude conversar com gente — gente que diz "lavoira" e que diz "mántimentos" e que diz "não veo" quando quer dizer "não veio". Gosto de gente assim. Mas, infelizmente, estas pessoas não andam de autocarro.

Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

Na Galiza a pensar em Cabo Verde

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)


© Teatro Anatómico 2008 (Calhau, S. Vicente)


Andei pela Galiza, em Espanha, conversando com estudantes de Português a pretexto do romance “As Sereias do Mindelo”. Felizmente, e por uma vez, as sessões centraram-se sobretudo em assuntos literários, embora nunca me livre de responder a questões relativas à predilecção do narrador do livro pelas mulheres de Cabo Verde, ao seu respeito pelas meretrizes ou, ainda, ao facto de ter eu escrito também um livro que leva como título a frase “As mulheres deviam vir com livro de instruções”. Há, nessas questões, uma insinuação bastante concreta. Supõem-me um machista empedernido, algo misógino, quando não um Don Juan, um engatatão de primeira apanha, coisa que, em boa verdade e lamentavelmente, eu nunca fui e já não vou a tempo de ser, que os anos não perdoam e os feitios das pessoas não se mudam por decreto.

Existe, com efeito, uma certa tendência para confundir os enlaces da ficção com a biografia do escritor, o que, no caso de Cabo Verde e das cabo-verdianas, dificilmente poderia ser mais desfasado da realidade. Ao contrário do personagem principal de “As Sereias do Mindelo”, eu tenho pouca experiência com as mulheres das ilhas e ainda menos fortuna. E, com muita pena minha, conheço também relativamente mal o país, ao ponto de, um destes dias, quando cheguei a casa vindo da Galiza, me ter sentado no sofá a ver um documentário que passava na televisão e que tinha como fulcro a vida e a obra de Eugénio Tavares. Fiquei, pois, a sorver as imagens dessa ilha Brava aonde nunca fui.

Na última sessão na Galiza, um dos assistentes perguntou-me coisas sobre Cabo Verde e o motivo do meu interesse pelo país. Respondi-lhe que me apaixonei pela doçura das gentes e pela cultura crioula, por aquilo que ela tem de miscigenação e tolerância, ao ponto de me ter sentido em casa desde a primeira vez que aí aterrei; mas devia, muito simplesmente, ter dito que o fascínio e a paixão não se explicam. Dei-me conta disso quando o homem me perguntou mais coisas sobre o país e os seus hábitos e eu me vi mais ou menos impossibilitado de responder, por deficiente conhecimento da realidade. Disse generalidades, mas, também nesse caso, se tivesse conseguido ser honesto, devia ter-me limitado a reconhecer que ficcionei Cabo Verde; que, enfim, criei para mim uma certa ideia de Cabo Verde, do mesmo modo que inventei, no tal livro, um escritor dedicado a procurar consolo no amor de uma crioula.

Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010

Resposta breve a Rubem Focs

Perguntas bem, Paulinho, mas, para ser completamente sincero, devo reconhecer que os meus passos não se têm cruzado com o voo das gaivotas ou, sequer, com as margens do Douro. Eu, no lugar delas, das gaivotas, digo, e se acaso pudesse voar, teria já partido para algum sítio mais quente, onde fosse estrangeiro-estrangeiro mas, por puro paradoxo, pudesse sentir-me em casa. Aqui está frio, muito, e as águas do Douro, tal como consigo imaginá-las à distância de uns poucos de passos, hão-de estar gélidas, agrestes ou, em suma, muito pouco convidativas, seja para banhos humanos, para simples caminhadas ou para procissões de gaivotas. Nos dias que aqui vivemos, e são tão grandes e diversos os desatinos que nos atingem, nem todo o vinho do porto chega para manter o corpo quente e a cabeça alheia a tanta aflição. O Rubem Focs que venha quando quiser, que regresse, mas que esteja preparado: aqui já pouco falta para que também as memórias paguem imposto.

As divisões partidárias {actualizado: e no fim pagam os do costume}

De acordo com as notícias da hora do almoço, a bancada parlamentar do PS está dividida relativamente à votação de uma proposta do PCP para que os dividendos das acções sejam taxados já este ano a 29%, para evitar a fuga promovida por empresas como a PT ou a Jerónimo Martins, que resolveram antecipar o pagamento de dividendos a fim de lesar o Estado em algumas centenas de milhões de euros (que os outros contribuintes terão que pagar). Ao contrário do que se possa pensar, não é provável que a divisão seja apenas ideológica, entre o PS mais à esquerda e o PS mais direita. A divisão deve ser, muito simplesmente, e salvo alguma eventual excepção, entre os deputados que são e os que não são, directa ou indirectamente, accionistas na PT, da Jerónimo Martins e etc.

P.S.: ninguém se surpreenderá, decerto, que a proposta do PCP tenha sido chumbada com os votos do PSD, do CDS e de quase todos os deputados do PS. Os argumentos são extraordinários: o Estado não pode mudar as regras a meio do jogo. Logo, as empresas podem, com o consentimento da Assembleia da República, fazer batota e antecipar a distribuição de lucros para beneficiarem de um regime fiscal mais favorável e o Estado tem que ficar de braços cruzados, a ver os accionista rebolarem nos milhões. Quem paga? Os do costume, evidentemente.

Os homens, os homenzinhos, os seus duplos e os insectos

A leitura de Lo que sé de los hombrecillos tem avançado em pequenas doses homeopáticas. Se o ponto de partida do livro, tal como Millás a apresentou, me cativou imediatamente, o romance revela-se ainda melhor do que a encomenda. Desde logo, os homenzinhos de Millás são também uma forma de abordar a temática do duplo e do múltiplo, sempre bestialmente literária e sobre a qual tenho também trabalhado desde Os Fantasmas de Pessoa, explorando as potencialidades de personagens que se desdobram e, por essa via, conseguem ser várias pessoas ao mesmo tempo e viver várias vidas, paralelas e alternativas. Para além disso, o narrador acaba, no capítulo 19, de explicar que a sua experiência enquanto homenzinho tende a identificar-se com o mundo dos insectos (sim, Kafka, claro), coisa que eu não tinha como saber quando escolhi a ilustração para este post. Uma perdição, pois, para quem, como eu, tem o vício das coincidências.

Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

Promessas que não se cumprem



Tinham-me prometido o aquecimento global, o calor perpétuo e mais não sei o quê, mas devia saber que ninguém neste país cumpre as promessas que faz. Eis, pois, que estive ontem à noite a escrever durante duas horas e meia e, no final, dei por mim enregelado dentro da minha própria casa.

Fim de tarde, Hotel dos Anjos; manhã, Calle de las Avenidas

“Nada digno de registo”. Ao telefone, as autoridades de segurança e protecção civil garantem que a noite e a manhã deste primeiro dia de Dezembro foram calmas e que nada justifica uma pequena notícia que seja. Utilizo há mais de uma década estas mesmas folhas A4 onde estão impressos os contactos telefónicos e, olhando-as em cima da secretária na redacção vazia, sempre tenho noção da exacta medida do meu fracasso. As páginas estão ainda semeadas de anotações diversas, algumas já quase apagadas pelo tempo e outras ainda perfeitamente perceptíveis, embora eu não consiga recordar-me daquilo a que respeitam: “quatro cinco linhas/até ao fim de Março”; “advogados pedem 700 contos/não se apresentou”; “obriga a mexidas”... Na primeira folha, porém, há uma nota com o nome de um hotel (“Hotel dos Anjos”), um número de telefone, uma morada e um preço, “35 euros”. Lembro-me perfeitamente de tê-lo escrito há sete anos e, também, da estada no Hotel dos Anjos. Ocorre-me que Hotel dos Anjos teria sido um bom título para alguma coisa que tivesse escrito nestes sete anos, mas só hoje reparei nesta nota e é já demasiado tarde. Não sou, em definitivo, a mesma pessoa que pernoitou no Hotel dos Anjos e talvez tenha tido a clara noção disso quando, um destes dias, estava deitado no Hotel América, em Vigo, a poucos passos do cais que aparece numa fotografia tornada possível pela noite no Hotel dos Anjos. Caminhei até à marina na manhã seguinte e, conforme desconfiei, não senti nenhuma nostalgia, nenhum desconforto, nada. Mesmo o sítio me pareceu estranhamente outro, apesar de ser exactamente o mesmo sítio, com os seus galpões brancos, os barcos (talvez os mesmos) agitando-se levemente, os mastros sem velas. Soube que envelheci, soube-o profundamente, na carne, quando constatei que nem o facto de ali estar era já capaz de comover-me. Aprendi entretanto as virtudes da tranquilidade e que, enquanto não sabem beneficiar do amor das mulheres bonitas, os homens fracos são menos infelizes ficando quietos.

P.S.: uma leitora de Espanha apresentou-me há minutos o seu protesto relativo às linhas finais do post anterior, nas quais eu tinha escrito que "os homens que não sabem merecer o amor das mulheres bonitas deviam estar condenados a amar apenas as muito feias". Diz ela: "Como mujer fea que soy, no me ha gustado nada la idea de que amarme sea una condena, sólo por ese simple hecho". E está completamente certa. O texto já está corrigido.