domingo, 31 de outubro de 2010
Breve relato da manhã, enquanto corria contra a nortada
O céu estava pesado, caíam bátegas regulares sopradas pela nortada inclemente e o mar era uma massa fervente de espuma banca que parecia capaz de vir por ali acima e engolir tudo. Em Matosinhos, porém, uma mulher loura e um pouco pesada pôs-se em roupa interior e correu pela areia em direcção ao mar, como se não houvesse vento, chuva ou frio. Pareceu-me uma pessoa muito livre ou muito louca. Devia estar feliz.
sábado, 30 de outubro de 2010
A improdutividade da vigésima quinta hora
Também invejo espectacularmente, para que conste, as pessoas que conseguem sobreviver com três, quatro ou cinco horas de sono por dia, ou por noite, que para o caso tanto dá. Com menos de oito horas de cama eu não sou ninguém e, mesmo assim, é possível que me erga do leito por obrigação e complexo de culpa judaico-cristã, por não estar a aproveitar devidamente os fulgores da manhã, e passe depois o dia envergando um par de negras e fundas olheiras.
O dia de amanhã, por força da mudança dos fusos horários, vai, parece, ter 25 horas em vez das 24 do costume, mas, ao contrário do que sucede aos indivíduos muito dinâmicos e atarefados, uma hora a mais ou a menos não me faz diferença absolutamente nenhuma. Sou profundamente improdutivo e a vigésima quinta hora que o próximo dia terá passá-la-ei a dormir, é o mais certo, ou a ver televisão ou a praticar qualquer outra actividade igualmente estúpida e inútil. Eis, no fundo, o que eu valho e o que sou.
O dia de amanhã, por força da mudança dos fusos horários, vai, parece, ter 25 horas em vez das 24 do costume, mas, ao contrário do que sucede aos indivíduos muito dinâmicos e atarefados, uma hora a mais ou a menos não me faz diferença absolutamente nenhuma. Sou profundamente improdutivo e a vigésima quinta hora que o próximo dia terá passá-la-ei a dormir, é o mais certo, ou a ver televisão ou a praticar qualquer outra actividade igualmente estúpida e inútil. Eis, no fundo, o que eu valho e o que sou.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Enquanto indivíduo a quem às vezes ocorre escrever livros
Na apresentação do seu mais recente livro, o qual há-de ter um título (que presentemente não me ocorre), António Lobo Antunes declarou que o próximo romance está a dar cabo dele, cumprindo, aliás, uma tradição bastante arreigada do autor, que sofre imenso para conseguir ser o melhor escritor do mundo e arredores, e agora, ainda por cima, tem que negociar cada novo livro com a própria morte, que costuma ser dura de roer e eu posso bem imaginar o tormento que aquilo constitui, é até possível que seja uma coisa mais arisca do que as reuniões do Teixeira do Santos e do Eduardo Catroga por causa do Orçamento do Estado. Invejo, apesar de tudo, o atormentado Lobo Antunes. Antes de mais, invejo-o pelo óbvio - eu atrapalho-me com as vírgulas e jamais conseguirei ser o melhor no que quer que seja, nem na bisca lambida ou no berlinde... Para além disso, enquanto indivíduo a quem às vezes ocorre escrever livros, sofro também tremendamente, mas isto sucede-me sobretudo depois de a coisa estar consumada, mais ou menos quando percebo que ninguém quer ler aquela bosta, nem sequer os meus supostos editores, e que ainda por cima posso ser responsável pelo sacrifício de meia-dúzia de árvores, e devo, apesar de tudo, tentar ajudar a vender alguns (poucos) exemplares e não tenho jeito nenhum para dizer frases como "a doença paira sobre tudo o que se diz, se pensa, se nomeia, sobre tudo o que existe" sem, pelo menos, me rir um bocadinho no final. Isto é uma merda. Vou tomar café e ver a chuva a fazer bolinhas transparentes nas vidraças.
A laranjas jogam e ganham (follow the money)
É evidente que chegou a vez do PSD (já teria acontecido há um ano se o partido tivesse um candidato em vez de um grupo de múmias que nos entrava pela casa dentro, de olhos muito arregalados, a murmurar “a verdaaaadeeee, a verdaaaadeeee, uuuuuhhh, a verdaaaadeeee...”). O dinheiro está do lado do PSD, as sondagens estão do lado do PSD e creio que até o PS está a passar-se para o lado do PSD, pois fica sempre bem distribuir alguns tachos por opositores respeitáveis no decurso do grande banquete que costuma seguir-se ao baile da alternância democrática. Assim, e se tudo correr conforme o figurino, Passos Coelho há-de ser primeiro-ministro algures durante o próximo ano. Se correr mal, o PSD governará na mesma, neste caso através do seu ex-vice-presidente que acaba de ser escolhido para liderar o FMI na Europa. Como diz a outra, não há coincidências.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Simplex é enganar quem nos assalta
Sempre gostaria de saber quanta tinta não teriam já vertido os iluminati de Lisboa caso tivessem feito ao IC19 ou ao IC20 o que fizeram ao IC1 – transformá-los em auto-estradas por decreto e, depois, fazer com que os utilizadores sem opções razoáveis pagassem a respectiva utilização. Mas provavelmente nunca o saberei.
Assim sendo, faço o que posso (como qualquer português que se preze). E a primeira coisa que fiz, no dia em que se começaram a pagar portagens nas chamadas Scut, foi arranjar um caminho que me permitisse utilizar a auto-estrada e, simultaneamente, não passar sob o pórtico que fotografa os veículos e lê os chips. Perdem-se cinco minutos nos desvios e poupam-se uns euros ao fim de algum tempo.
Como, às vezes, me acontece ter alguma pressa nas minhas deslocações (toca a todos), também aderi à Via Verde assim que li que podia usufruir da “discriminação positiva” que, nos primeiros tempos, isentará do pagamento das primeiras viagens mensais aqueles que morem a menos de dez quilómetros das vias onde agora o Governo veio roubar para a estrada. Pensei, pois, que tinha tudo tratado. Erro meu.
Afinal, o livrete do carro não faz prova de coisa nenhuma e, para beneficiar da “discriminação positiva”, é preciso preencher um requerimento específico, acompanhado de um atestado de residência que, suponho, terá que ser requerido em papel azul de 25 linhas, provavelmente em formato digital (para dar mais estilo). Por força deste processo complicadex, na melhor tradição da administração pública portuguesa, creio, por isso, que me limitarei doravante a fintar os pórticos. Dá menos trabalho e sempre se tem o indizível prazer de andar a enganar a gatunagem.
Assim sendo, faço o que posso (como qualquer português que se preze). E a primeira coisa que fiz, no dia em que se começaram a pagar portagens nas chamadas Scut, foi arranjar um caminho que me permitisse utilizar a auto-estrada e, simultaneamente, não passar sob o pórtico que fotografa os veículos e lê os chips. Perdem-se cinco minutos nos desvios e poupam-se uns euros ao fim de algum tempo.
Como, às vezes, me acontece ter alguma pressa nas minhas deslocações (toca a todos), também aderi à Via Verde assim que li que podia usufruir da “discriminação positiva” que, nos primeiros tempos, isentará do pagamento das primeiras viagens mensais aqueles que morem a menos de dez quilómetros das vias onde agora o Governo veio roubar para a estrada. Pensei, pois, que tinha tudo tratado. Erro meu.
Afinal, o livrete do carro não faz prova de coisa nenhuma e, para beneficiar da “discriminação positiva”, é preciso preencher um requerimento específico, acompanhado de um atestado de residência que, suponho, terá que ser requerido em papel azul de 25 linhas, provavelmente em formato digital (para dar mais estilo). Por força deste processo complicadex, na melhor tradição da administração pública portuguesa, creio, por isso, que me limitarei doravante a fintar os pórticos. Dá menos trabalho e sempre se tem o indizível prazer de andar a enganar a gatunagem.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Os milagres que acontecem (apesar da choldra que isto é)
Felizmente as cidades e os países movem-se a despeito das avantesmas que têm como presidentes, ministros ou lá o que seja. No Porto, por exemplo, a primeira edição do festival Shortcutz tem registado plateias completamente cheias, com gente sentada no chão e tudo, para ver essa coisa vagamente bizarra que são curtas-metragens portuguesas sem qualquer valor comercial. Fique o registo: o vencedor do primeiro mês de competição, acabado de anunciar, é Vicky & Sam, de Nuno Rocha (foto acima). As sessões são sempre à quarta-feira, às 22h00, no Hard Club (excepto na próxima semana, em que os filmes passarão excepcionalmente na terça-feira).
Coisas que nos enternecem
Como de costume, o Manuel António Pina diz aquilo que é realmente essencial. Nunca se deve começar o dia sem ler o que ele escreve. E, ainda por cima, enternecer é um verbo perfeitamente adequado às circunstâncias.
E entretanto o Real Madrid empatou em Múrcia
A minha religião não me permite ouvir discursos do presidente da república, mas fiquei a saber, pelos jornais da manhã, que o indivíduo Cavaco Silva afirmou ontem que pretende ser um “árbitro independente”. Deve ser uma excelente aquisição para o conselho de arbitragem da liga de clubes. Embora impedido pela idade de exercer funções no activo, Cavaco pode ser muito útil sempre que seja necessário visionar os vídeos dos jogos do Benfica.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Bêbados ou jornalistas
“Disseram-me que na escola eu era aquele género de simplório que sofria de um complexo de superioridade. Na Islândia é sabido que aqueles que sofrem dessa doença nunca poderão ser senão bêbados, jornalistas ou funcionário de somenos importância".
Em Os peixes também sabem cantar, de Halldór Laxness, edição Cavalo de Ferro
Em Os peixes também sabem cantar, de Halldór Laxness, edição Cavalo de Ferro
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Dar palha ao animal
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 5 de Outubro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Tratava-se, pois, de dar palha ao animal. Grave e sério, como convém, o primeiro-ministro iniciou, na passada quarta-feira, uma peregrinação televisiva para comunicar aos portugueses que a besta voraz dos mercados precisa, outra vez, de ser alimentada. Como não temos feito outra coisa pelo menos desde que, há dois anos, os mercados ameaçaram fazer colapsar o mundo tal como o conhecemos, somos agora convocados a participar em mais um peditório nacional destinado a reunir fundos para a nova dose de forragem. Somos rijos, havemos de aguentar.
O esquema funciona admiravelmente. Se os mercados estão desregulados, convocam-se os orçamentos estatais para tapar o buraco. Se os orçamentos estatais ficam desequilibrados, os mercados ameaçam destrambelhá-los ainda mais, aumentando o risco da dívida pública (ou lá o que é). Em qualquer caso, a cena acaba sempre por fazer lembrar o epílogo de Casablanca, quando Rick mata o oficial alemão e o chefe da polícia, cúmplice, pisca o olho e manda prender os suspeitos do costume. Neste caso, os suspeitos do costume somos nós. E também não sabemos do que estamos a ser acusados.
Se isto não fosse trágico, seria cómico. Mas um sátiro é capaz de enxergar comicidade mesmo nas situações mais desengraçadas. No mesmo dia em que José Sócrates, condoído, anunciou ao país o próximo assalto perpetrado em nome dos mercados, fui contactado, via e-mail, pelo capitão Frank Markovski, um soldado ao serviço da NATO no Afeganistão. Propunha-me que participasse numa operação destinada a fazer sair daquele país 120 milhões de dólares encontrados em Tora Bora - e que não contasse isto a mais ninguém (ups!). Quase à mesma hora, telefonaram-me do banco de que sou cliente há 25 anos para me desafiarem também a “investir” (provavelmente em alguma das muito vantajosas “aplicações financeiras” disponíveis nos famosos mercados).
Como tenho imensa dificuldade em distinguir um vigarista verdadeiro de um falso trampolineiro, fiquei indeciso entre os milhões do capitão Markovski e as delícias das aplicações financeiras. O militar, ao menos, propõe-me algo que parece destinado a ludibriar os mercados em vez de cair nos braços do inimigo. Se não acreditasse na insensatez de viver só do meu trabalho e quisesse realmente escolher um dos negócios, acho, pois, que apostava tudo no guito de Tora Bora, mesmo que movido por sentimentos ruins (raiva, desejo de vingança) e por não ter ainda sido roubado e enganado pelo capitão Markovski. Afinal, quando o governo anunciou a criação de um pequeno imposto sobre os lucros bancários, não foi o capitão Markovski quem veio comunicar que o dito imposto seria pago pelos clientes dos bancos. Parecendo que não, isto faz alguma diferença.
Assim, quando tudo correr mal e vierem outra vez apresentar-me a conta da palha que é preciso dar ao animal, a mirífica fortuna afegã poderá continuar a ser, como a Paris de Rick e Ilsa, o elemento onírico e romântico que me podia ter feito feliz. Se mantiver Tora Bora à distância, terei sempre Tora Bora.
Tratava-se, pois, de dar palha ao animal. Grave e sério, como convém, o primeiro-ministro iniciou, na passada quarta-feira, uma peregrinação televisiva para comunicar aos portugueses que a besta voraz dos mercados precisa, outra vez, de ser alimentada. Como não temos feito outra coisa pelo menos desde que, há dois anos, os mercados ameaçaram fazer colapsar o mundo tal como o conhecemos, somos agora convocados a participar em mais um peditório nacional destinado a reunir fundos para a nova dose de forragem. Somos rijos, havemos de aguentar.
O esquema funciona admiravelmente. Se os mercados estão desregulados, convocam-se os orçamentos estatais para tapar o buraco. Se os orçamentos estatais ficam desequilibrados, os mercados ameaçam destrambelhá-los ainda mais, aumentando o risco da dívida pública (ou lá o que é). Em qualquer caso, a cena acaba sempre por fazer lembrar o epílogo de Casablanca, quando Rick mata o oficial alemão e o chefe da polícia, cúmplice, pisca o olho e manda prender os suspeitos do costume. Neste caso, os suspeitos do costume somos nós. E também não sabemos do que estamos a ser acusados.
Se isto não fosse trágico, seria cómico. Mas um sátiro é capaz de enxergar comicidade mesmo nas situações mais desengraçadas. No mesmo dia em que José Sócrates, condoído, anunciou ao país o próximo assalto perpetrado em nome dos mercados, fui contactado, via e-mail, pelo capitão Frank Markovski, um soldado ao serviço da NATO no Afeganistão. Propunha-me que participasse numa operação destinada a fazer sair daquele país 120 milhões de dólares encontrados em Tora Bora - e que não contasse isto a mais ninguém (ups!). Quase à mesma hora, telefonaram-me do banco de que sou cliente há 25 anos para me desafiarem também a “investir” (provavelmente em alguma das muito vantajosas “aplicações financeiras” disponíveis nos famosos mercados).
Como tenho imensa dificuldade em distinguir um vigarista verdadeiro de um falso trampolineiro, fiquei indeciso entre os milhões do capitão Markovski e as delícias das aplicações financeiras. O militar, ao menos, propõe-me algo que parece destinado a ludibriar os mercados em vez de cair nos braços do inimigo. Se não acreditasse na insensatez de viver só do meu trabalho e quisesse realmente escolher um dos negócios, acho, pois, que apostava tudo no guito de Tora Bora, mesmo que movido por sentimentos ruins (raiva, desejo de vingança) e por não ter ainda sido roubado e enganado pelo capitão Markovski. Afinal, quando o governo anunciou a criação de um pequeno imposto sobre os lucros bancários, não foi o capitão Markovski quem veio comunicar que o dito imposto seria pago pelos clientes dos bancos. Parecendo que não, isto faz alguma diferença.
Assim, quando tudo correr mal e vierem outra vez apresentar-me a conta da palha que é preciso dar ao animal, a mirífica fortuna afegã poderá continuar a ser, como a Paris de Rick e Ilsa, o elemento onírico e romântico que me podia ter feito feliz. Se mantiver Tora Bora à distância, terei sempre Tora Bora.
domingo, 24 de outubro de 2010
The Fabulous Penetrators
Não me perguntem como foi, mas acabei a noite de ontem a abanar o capacete num concerto alienígena, ao som de uma banda inglesa cujo vocalista envergava um fato à Elvis, preto com debruns dourados, pestanas postiças e a cara pintada de um modo um pouco grotesco. Cantava coisas incompreensíveis e explicou que a banda se chama The Fabulous Penetrators. A dada altura, provavelmente por causa da livre circulação da cerveja no fluxo sanguíneo, ocorreu-me que tudo aquilo fosse uma paródia ao Orçamento de Estado. Não era. Parece que o Orçamento de Estado vai doer mais.
sábado, 23 de outubro de 2010
O Inverno
O pão, esta manhã, tinha já pedaços de uma marmelada rija e boa, de um tom dourado e honesto. Depois, ao final da tarde, enquanto a cidade arrefecia e se punha agreste — ou talvez me pareça agreste a mim, que por ela ando como em terra estranha — entrei numa mercearia para comprar castanhas e romãs. Assei as castanhas, abri o vinho e regalei-me melancolicamente enquanto a Mayra Andrade cantava, como se fosse só para mim, aquela música do Orlando Pantera que sempre me arrepia e enternece, aquela que diz "bo feitiss ta infeitissa-m/bo prága t'amaldisua-m/bo séka ta seka-m nha peit/más mésmu asim ja-m-kre-b oh morna". Chegou o Inverno, parece. Talvez seja do final de Outubro. Talvez seja só de mim.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Paul Gonsalves, o saxofonista errante
(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)

O que é um livro? Pode ser uma viagem. Embarca-se na primeira página e vai-se por ali fora à procura do fim do caminho. Não raro, porém, a caminhada abre-se numa bifurcação que ilumina novas aventuras – foi o que me sucedeu enquanto lia “Os Trinta Dias do Homem Mais Pobre do Mundo”, do Mário Lúcio Sousa, que está agora em Portugal para lançar o CD “Kreol” e o torrencial e brilhante romance que é “O Novíssimo Testamento”, editado pela D. Quixote.
Seguia, pois, o amoroso tráfico do licenciado e de Maria Cuenca Cuenca nos escondidos do Tarrafal quando dei com o nome de Paul Gonsalves, saxofonista tenor da banda de Duke Ellington. Seria gente de verdade ou ficção do Mário Lúcio? Fui investigar e achei. Existiu de verdade esse crioulo de bigodinho que também tocou nas bandas de Count Basie e Dyzzy Gillespie, e que veio a morrer a 15 de Maio de 1974, em Londres, apenas alguns dias antes de que também o Duke se finasse, a 24.
Extraordinária história! De acordo com a biografia que há na Wikipedia, Paul Gonsalves ganhou de Ellington a alcunha de The Stolling Violins (algo como “os violinos errantes”), por ter o hábito e o virtuosismo de tocar longos e complexos solos enquanto caminhava entre o público. Mário Lúcio conta ainda que Paul Gonsalves acabou por ser afastado da banda de Duke “devido ao seu incorrigível apego à aguardente”, elemento que facilmente ajudaria a compor, ao menos, uma personagem com a tessitura, se não de um Bird, ao menos equiparável à do velho saxofonista que dá corpo à ficção de “Round Midnight”, o encantador filme de Bertrand Tavernier bebido da biografia de Dexter Gordon (mas que sempre me pareceu ter sido inspirado no sobre-humano conto de Julio Cortázar que é “El Perseguidor”).
Terminei, pois, de ler “Os Trinta Dias do Homem Mais Pobre do Mundo”, mas a minha cabeça já andava longe, perseguindo com a imaginação a memória desse Paul Gonsalves filho de cabo-verdianos e músico de excepção entre os melhores do seu tempo. Os pais de Paul, parece, pediam-lhe, às vezes, quando era menino, que tocasse velhas canções do folclore português. Talvez o Duke tenha escutado alguma dessas melodias e, em certas noites de borga maior, acabasse brindado com cálices de grogue de Santo Antão. Mas isto talvez seja já uma outra história.
O que é um livro? Pode ser uma viagem. Embarca-se na primeira página e vai-se por ali fora à procura do fim do caminho. Não raro, porém, a caminhada abre-se numa bifurcação que ilumina novas aventuras – foi o que me sucedeu enquanto lia “Os Trinta Dias do Homem Mais Pobre do Mundo”, do Mário Lúcio Sousa, que está agora em Portugal para lançar o CD “Kreol” e o torrencial e brilhante romance que é “O Novíssimo Testamento”, editado pela D. Quixote.
Seguia, pois, o amoroso tráfico do licenciado e de Maria Cuenca Cuenca nos escondidos do Tarrafal quando dei com o nome de Paul Gonsalves, saxofonista tenor da banda de Duke Ellington. Seria gente de verdade ou ficção do Mário Lúcio? Fui investigar e achei. Existiu de verdade esse crioulo de bigodinho que também tocou nas bandas de Count Basie e Dyzzy Gillespie, e que veio a morrer a 15 de Maio de 1974, em Londres, apenas alguns dias antes de que também o Duke se finasse, a 24.
Extraordinária história! De acordo com a biografia que há na Wikipedia, Paul Gonsalves ganhou de Ellington a alcunha de The Stolling Violins (algo como “os violinos errantes”), por ter o hábito e o virtuosismo de tocar longos e complexos solos enquanto caminhava entre o público. Mário Lúcio conta ainda que Paul Gonsalves acabou por ser afastado da banda de Duke “devido ao seu incorrigível apego à aguardente”, elemento que facilmente ajudaria a compor, ao menos, uma personagem com a tessitura, se não de um Bird, ao menos equiparável à do velho saxofonista que dá corpo à ficção de “Round Midnight”, o encantador filme de Bertrand Tavernier bebido da biografia de Dexter Gordon (mas que sempre me pareceu ter sido inspirado no sobre-humano conto de Julio Cortázar que é “El Perseguidor”).
Terminei, pois, de ler “Os Trinta Dias do Homem Mais Pobre do Mundo”, mas a minha cabeça já andava longe, perseguindo com a imaginação a memória desse Paul Gonsalves filho de cabo-verdianos e músico de excepção entre os melhores do seu tempo. Os pais de Paul, parece, pediam-lhe, às vezes, quando era menino, que tocasse velhas canções do folclore português. Talvez o Duke tenha escutado alguma dessas melodias e, em certas noites de borga maior, acabasse brindado com cálices de grogue de Santo Antão. Mas isto talvez seja já uma outra história.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Violência doméstica: um caso dramático que importa denunciar
Eu tinha já deglutido para cima de meio quilo de costelinhas assadas (e bebido o correspondente quartilho de tinto), circunstância que sempre me deixa algo letárgico e pouco propenso a grandes mobilizações cidadãs. Ainda assim, um caso de violência doméstica é sempre um caso de violência doméstica, sobretudo quando ocorre dentro da nossa casa, no seio da nossa família. Tudo começou quando ouvi a minha mãe altear a voz e protestar. O meu pai tinha agarrado num pau e batia com ele, afincadamente, no indefeso tronco da raquítica e infantil laranjeira plantada no meio do quintal. Não adiantou que a minha mãe protestasse que só os limoeiros devem levar porrada, e apenas nos ramos, nunca no tronco. O meu pai não quis escutá-la e continuou a desferir as suas inclementes pancadas no pobre arbusto, do qual desponta já uma pequena e saudável laranja. Um dia, se calhar, aquele ser agora violentado há-de ser uma laranjeira de aparência forte e saudável, mas com certa propensão para as maleitas do foro psíquico.
Ninguém pára a crise (nem o Benfica) – um post só para irritar os lampiões
Finda a primeira volta da fase de grupos da Liga dos Campeões, os dois representantes do campeonato português somam os mesmos três miseráveis pontinhos, confirmando-se os meus piores receios. Privar-se a Liga dos Campeões do único clube português com categoria internacional dificilmente poderia dar bons resultados. Como se o vexame não fosse já suficiente, o raio da crise, ao contrário do que nos tinham prometido, não acabou no exacto dia em que os 146 milhões e meio de lampiões puderam desfrutar da cada vez mais rara alegria do título nacional.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
O nosso bairro é melhor do que o raio do vosso facebook, mas...
Um dos grandes momentos do dia de trabalho é o intervalo para o café e para a cigarrilha. Talvez seja até o melhor momento do dia, mas não vale a pena estar agora a alongar-me sobre este assunto, até porque gostaria de não ser obrigado a referir nomes. O caso é que, junto à máquina do café e à janela que se abre para deixar sair o fumo e entrar o sol do Outono, se encontram grandes personagens. O Sérgio Sousa da Rádio Nova, por exemplo, contou-me hoje da ida ao barbeiro mais próximo, onde escutou a história de um homem que, vendo passar Marcelo Caetano num automóvel, disse "olha o Marcelo Caetano", tendo o presidente do conselho ordenado que a viatura parasse e fizesse marcha-atrás, para poder saudar convenientemente o cidadão em causa. Para a troca, eu contei-lhe da conversa de uns adolescentes que, à porta de um café da Baixa, discutiam sobre as motivações do namoro, tendo o moço dito à rapariga algo como "se calhar vocês não fodem, namoram para ficar virgens" (leia-se com o sotaque apropriado). Depois ou antes de contar isto, já não me lembro, disse ao Sérgio que, às vezes, dá vontade de ir às barbearias antigas cortar o cabelo só para ouvir as histórias e as conversas dos velhotes. Ele, como é um moço com piada — segundo o qual o nosso café gratuito, não sendo grande coisa, tem uma relação qualidade/preço absolutamente imbatível —, comentou que a barbearia é uma espécie de antecessora do Facebook. Concordámos, por fim, que a barbearia é melhor do que o Facebook. Agora que penso nisso, devo, porém, reconhecer que a barbearia tem muito menos gajas.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Isto não vai acabar nada bem
Apareceu no lançamento do romance do Mário Lúcio Sousa na Póvoa de Varzim, subitamente materializado na última fila de cadeiras, o inevitável beato maldisposto, empenhado em fazer-se notado e em advertir os inconscientes dos riscos que existem quando se brinca com coisas supostamente sérias, como Deus e outras merdas. O que disse ele exactamente? Várias coisas, todas sem interesse. Mas eu apreciei particularmente a ameaça velada. Num tom pausado e grave, com o dedo um pouco espetado, avisou-nos de que a galhofa vai acabar mal. “E mais cedo do que se pensa”, acrescentou após uma pausa espantosa, dando a entender que dispõe de informação privilegiada sobre o juízo final e assim. Como sou tolerante, não me meti na discussão dos crentes. Mas, sendo incauto, cometi, logo a seguir, um novo pecado cabeludo. Depois de, em tempos, ter coadjuvado uma performance do Malangatana, batucando numa mesa enquanto ele emitia sons guturais, atrevi-me, desta vez, a tamborilar com os dedos enquanto o Mário Lúcio cantava Palavra. Deus não me assusta por aí além, mas, muito sinceramente, creio ter pisado o risco. Não me espantarei, por isso, se vários fantasmas de músicos mortos vierem instalar-se debaixo da minha cama com o fito de me aterrorizarem. É muito bem feito.
Os homenzinhos
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 28 de Setembro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

O suplemento Babelia do El País pediu a alguns escritores, entre aqueles que apresentam livros novos nesta época do ano, que explicassem como escolheram o tema do romance e em que momento começaram a escrevê-lo. Há respostas de vários géneros e para quase todos os gostos, mas nenhuma tão pouco esclarecedora e ao mesmo tempo tão brilhante como a de Juan José Millás - pura literatura.
Em benefício da verdade e da mais elementar gratidão, devo esclarecer que o título genérico destas crónicas, O bisturi, foi inspirado pelo livro O Mundo, de Millás, que me comoveu e do qual guardei precisamente a passagem relativa ao facto de o pai do autor/narrador ter sido o primeiro, em Espanha, a fabricar um bisturi eléctrico, “que cauteriza a ferida ao mesmo tempo que a abre”: “Quando escrevo à mão num caderno, como agora, acho que me pareço com o meu pai (...), pois a escrita abre as feridas e cauteriza-as ao mesmo tempo”.
Não li, antes e depois disso, mais nenhum livro de Juan José Millás, o que talvez constitua um lapso bastante comprometedor. Para o caso, não interessa. A resposta do escritor espanhol ao questionário do Babelia é tão boa que, aconteça o que acontecer, faço questão de ler Lo que sé de los hombrecillos (qualquer coisa como O que sei dos homenzinhos).
Explica Millás que teria sete ou oito anos quando, um dia, viu sair um homenzinho de dentro de um dos seus sapatos. A pequena criatura fugiu e desapareceu debaixo da cama, mas o infantil Juan nunca mais voltou a vestir-se sem antes verificar se não haveria algum homenzinho dentro do calçado. Esta relação secreta, acrescenta Millás, durou até à actualidade. “Há coisa de três ou quatro anos, apareceu-me em sonhos um destes homenzinhos, criticando-me por nunca ter escrito um romance sobre eles. Argumentei que não sabia o que fazem os homenzinhos. Respondeu-me que eles também não sabiam o que eu faço e nem por isso negavam a minha existência. Comecei a escrever Lo que sé de los hombrecillos nessa mesma noite e o livro saiu sozinho, como se me tivesse sido ditado. Ao terminá-lo, eu já sabia o que fazem os homenzinhos e inclusive o que fazia eu. Aprende-se alguma coisa com cada romance”.
Releio a resposta de Millás e facilmente me convenço de que os homenzinhos que viviam nos seus sapatos são, como o bisturi, uma extraordinária metáfora. Pensando no assunto, talvez se deva concluir que toda a escrita é sobre misteriosos homenzinhos, independentemente do tamanho que tenham e do sítio onde vivam. Escreve-se (romances, poemas, crónicas) para investigar a vida deles, para saber de que tratam e que motivos levam os homenzinhos a fazer uma coisa e não outra completamente diferente. Quando se escreve ficção, inventa-se uma actividade que lhes convenha, frases que possam dizer, uma existência, mas apenas queremos descobrir que vida é, afinal, a nossa. Às vezes, fica-se um pouco mais perto de o saber. Noutras alturas, porém, não se tem ânimo, sequer, para abrir mais uma ferida.
O suplemento Babelia do El País pediu a alguns escritores, entre aqueles que apresentam livros novos nesta época do ano, que explicassem como escolheram o tema do romance e em que momento começaram a escrevê-lo. Há respostas de vários géneros e para quase todos os gostos, mas nenhuma tão pouco esclarecedora e ao mesmo tempo tão brilhante como a de Juan José Millás - pura literatura.
Em benefício da verdade e da mais elementar gratidão, devo esclarecer que o título genérico destas crónicas, O bisturi, foi inspirado pelo livro O Mundo, de Millás, que me comoveu e do qual guardei precisamente a passagem relativa ao facto de o pai do autor/narrador ter sido o primeiro, em Espanha, a fabricar um bisturi eléctrico, “que cauteriza a ferida ao mesmo tempo que a abre”: “Quando escrevo à mão num caderno, como agora, acho que me pareço com o meu pai (...), pois a escrita abre as feridas e cauteriza-as ao mesmo tempo”.
Não li, antes e depois disso, mais nenhum livro de Juan José Millás, o que talvez constitua um lapso bastante comprometedor. Para o caso, não interessa. A resposta do escritor espanhol ao questionário do Babelia é tão boa que, aconteça o que acontecer, faço questão de ler Lo que sé de los hombrecillos (qualquer coisa como O que sei dos homenzinhos).
Explica Millás que teria sete ou oito anos quando, um dia, viu sair um homenzinho de dentro de um dos seus sapatos. A pequena criatura fugiu e desapareceu debaixo da cama, mas o infantil Juan nunca mais voltou a vestir-se sem antes verificar se não haveria algum homenzinho dentro do calçado. Esta relação secreta, acrescenta Millás, durou até à actualidade. “Há coisa de três ou quatro anos, apareceu-me em sonhos um destes homenzinhos, criticando-me por nunca ter escrito um romance sobre eles. Argumentei que não sabia o que fazem os homenzinhos. Respondeu-me que eles também não sabiam o que eu faço e nem por isso negavam a minha existência. Comecei a escrever Lo que sé de los hombrecillos nessa mesma noite e o livro saiu sozinho, como se me tivesse sido ditado. Ao terminá-lo, eu já sabia o que fazem os homenzinhos e inclusive o que fazia eu. Aprende-se alguma coisa com cada romance”.
Releio a resposta de Millás e facilmente me convenço de que os homenzinhos que viviam nos seus sapatos são, como o bisturi, uma extraordinária metáfora. Pensando no assunto, talvez se deva concluir que toda a escrita é sobre misteriosos homenzinhos, independentemente do tamanho que tenham e do sítio onde vivam. Escreve-se (romances, poemas, crónicas) para investigar a vida deles, para saber de que tratam e que motivos levam os homenzinhos a fazer uma coisa e não outra completamente diferente. Quando se escreve ficção, inventa-se uma actividade que lhes convenha, frases que possam dizer, uma existência, mas apenas queremos descobrir que vida é, afinal, a nossa. Às vezes, fica-se um pouco mais perto de o saber. Noutras alturas, porém, não se tem ânimo, sequer, para abrir mais uma ferida.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
A saia da Carolina
A saia da Carolina, sabemos bem, tem um lagarto pintado. Aqui e na Galiza, onde a canção tradicional sempre se cantou exactamente como do lado de cá da fronteira. Este ano, porém, os pais de uma escola de Marín constataram que o livro da escola primária dos seus filhos ensina uma versão diferente, à espanhola, em que a saia da carolina aparece transfigurada e é, afinal, la falda de Carolina. A editora do livro promete resolver o diferendo do próximo ano, trocando a saia por uma blusa, conforme se canta nas Astúrias, mas os pais de Marín querem mesmo que os filhos aprendam a versão galaico-portuguesa e criaram um colectivo, A Saia da Carolina, que está a organizar uma manifestação e já conta com a adesão de uma estilista que criou uma saia a condizer, com lagarto e tudo. Uma bela história – é só isto.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Coisas muito tristes
Estive uma grande parte do dia em São João da Madeira, passei à porta de uma das bibliotecas que ela dinamizou, lembrei-me de quando ali fui para apresentar um livro do Valdemar Cruz e referi-o circunstancialmente numa conversa – recordei-me dela, portanto; tive-a presente. Quando cheguei à secretária, agora ao final da tarde, abri o blogue do Francisco e soube que ela, a Isabel Sousa, morreu. Uma coisa muito triste. A Isabel era demais. Concretizou muitos projectos e, tenho a certeza, morreu ainda cheia de coisas que queria ter feito. Se houvesse céu ou inferno, ela havia de pôr aqueles caralhos todos a ler.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Coisas que acontecem
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 14 de Setembro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Acredite-se ou não em coincidências, elas simplesmente acontecem. Irrompem no quotidiano de um modo poderoso e estranho, como espantosas anomalias, e desbaratam todas as tentativas de normalizar o real. Poderia, aliás, escrever que as coincidências se manifestam, mas correria o risco de ser mal interpretado. Positivista e nada místico, não atribuo nenhum significado transcendente às coincidências. Fico apenas maravilhado – como suponho que aconteceria se aparecesse um oceano na Lua, ou se, contra todas as evidências, viesse a ser demonstrado que o país tem sido bem governado nos últimos 20 anos.
Qual é a probabilidade de apanhar duas vezes, num só dia, o mesmo táxi na enorme cidade de São Paulo? Ridícula. Mas, como sofro da extravagância das coincidências, já me aconteceu. Também em São Paulo encontrei, certa noite, um conhecido sentado no bar do hotel onde estávamos ambos instalados. Outra noite, em Luanda, levaram-me a uma esplanada sobre a baía e, ao subir as escadas, deparei com um conhecido que, fiquei a saber, tinha ido trabalhar para Angola e, por coincidência, ali estava diante de mim.
Estas coisas acontecem-me com alguma frequência, mas desdenho, ainda assim, da sua ínfima e poética possibilidade. Numa das vezes que fui a Londres, a minha filha, inconsciente das leis que regem a matemática das probabilidades, sugeriu que talvez pudesse encontrar uma amiga dela que também lá estava. Eu, estúpido, duvidei e até gracejei com a adolescente inocência da Maria Miguel. Pois bem: encontrei a Margarida e os pais da Margarida logo na minha primeira manhã em Londres, como que prodigiosamente materializados diante de mim, numa rua de Portobello, apenas para amesquinhar o meu cepticismo.
Este fim-de-semana voltei a ser acometido pelo espanto. Eu tinha escrito uma crónica para o jornal A Nação, de Cabo Verde, na qual discorria sobre o modo como os cartazes anunciando os concertos de Mayra Andrade deixam o Porto mais bonito, com centenas de risos perfeitos e enternecedores despontando até nas esquinas mais sujas e escuras. O título da prosa era “Quando Mayra vem à cidade”, ainda que a cantora cabo-verdiana fosse cantar a Braga e ao Porto restasse, desta vez, a consolação de acolher a sua imagem impressa. No sábado, porém, quando melancolicamente revolvia o café depois do almoço, Mayra Andrade, em carne e osso, entrou no restaurante onde eu estava – como uma visão extraordinária.
Graças a outras coincidências que não vêm ao caso, sentei-me na mesa de Mayra. Como as conversas seguem também, às vezes, rumos improváveis, falámos do big-bang, da velocidade da luz, das viagens interplanetárias e de outros mistérios que o universo infinito guarda. À noite, em Braga, Mayra cantou Seu, palavra que, em crioulo, significa céu. A letra fala da força do destino e de uma estrela brilhante que mostra caminhos. É uma explicação um tanto rebuscada. Mas, por um instante, até parece fazer sentido.

Acredite-se ou não em coincidências, elas simplesmente acontecem. Irrompem no quotidiano de um modo poderoso e estranho, como espantosas anomalias, e desbaratam todas as tentativas de normalizar o real. Poderia, aliás, escrever que as coincidências se manifestam, mas correria o risco de ser mal interpretado. Positivista e nada místico, não atribuo nenhum significado transcendente às coincidências. Fico apenas maravilhado – como suponho que aconteceria se aparecesse um oceano na Lua, ou se, contra todas as evidências, viesse a ser demonstrado que o país tem sido bem governado nos últimos 20 anos.
Qual é a probabilidade de apanhar duas vezes, num só dia, o mesmo táxi na enorme cidade de São Paulo? Ridícula. Mas, como sofro da extravagância das coincidências, já me aconteceu. Também em São Paulo encontrei, certa noite, um conhecido sentado no bar do hotel onde estávamos ambos instalados. Outra noite, em Luanda, levaram-me a uma esplanada sobre a baía e, ao subir as escadas, deparei com um conhecido que, fiquei a saber, tinha ido trabalhar para Angola e, por coincidência, ali estava diante de mim.
Estas coisas acontecem-me com alguma frequência, mas desdenho, ainda assim, da sua ínfima e poética possibilidade. Numa das vezes que fui a Londres, a minha filha, inconsciente das leis que regem a matemática das probabilidades, sugeriu que talvez pudesse encontrar uma amiga dela que também lá estava. Eu, estúpido, duvidei e até gracejei com a adolescente inocência da Maria Miguel. Pois bem: encontrei a Margarida e os pais da Margarida logo na minha primeira manhã em Londres, como que prodigiosamente materializados diante de mim, numa rua de Portobello, apenas para amesquinhar o meu cepticismo.
Este fim-de-semana voltei a ser acometido pelo espanto. Eu tinha escrito uma crónica para o jornal A Nação, de Cabo Verde, na qual discorria sobre o modo como os cartazes anunciando os concertos de Mayra Andrade deixam o Porto mais bonito, com centenas de risos perfeitos e enternecedores despontando até nas esquinas mais sujas e escuras. O título da prosa era “Quando Mayra vem à cidade”, ainda que a cantora cabo-verdiana fosse cantar a Braga e ao Porto restasse, desta vez, a consolação de acolher a sua imagem impressa. No sábado, porém, quando melancolicamente revolvia o café depois do almoço, Mayra Andrade, em carne e osso, entrou no restaurante onde eu estava – como uma visão extraordinária.
Graças a outras coincidências que não vêm ao caso, sentei-me na mesa de Mayra. Como as conversas seguem também, às vezes, rumos improváveis, falámos do big-bang, da velocidade da luz, das viagens interplanetárias e de outros mistérios que o universo infinito guarda. À noite, em Braga, Mayra cantou Seu, palavra que, em crioulo, significa céu. A letra fala da força do destino e de uma estrela brilhante que mostra caminhos. É uma explicação um tanto rebuscada. Mas, por um instante, até parece fazer sentido.
domingo, 10 de outubro de 2010
A casa está em silêncio. O fim-de-semana também.
Não fui, afinal, subir o Douro de comboio e, como sucede sempre que deixo de fazer alguma coisa, tenho excelentes pretextos para ter agido assim e não de outra maneira. Poderia entediar algum eventual e extemporâneo leitor com a minuciosa enumeração dos meus aborrecimentos, mas não vejo, também neste caso, necessidade de ser exaustivo. Não fui, simplesmente, por que não me apeteceu. Fiquei, em vez disso, constatando a suave melancolia das sombras que produz o sol fraco de um dia que não decidiu ainda se há-de ser de chuva ou não, deixei-me ficar a dormir sonhos estranhos e a tossir uma bronquite que creio poder atribuir à chuva de sexta-feira e ao facto de não ter tirado as botas molhadas quando cheguei a casa para comer fois gras e queijo de cabra, para sobretudo beber vinho tinto, que é a melhor forma de esquecer que há lá fora um mundo de coisas inóspitas e com má cara, como a chuva, o vento e as raparigas que não sorriem. Ficar em vez de ir tem, a seu modo, algum tipo de compensação, na medida em que me permite avançar na leitura de Os Trinta Dias do Homem Mais Pobre do Mundo, o primeiro romance do Mário Lúcio de Sousa, cujo Novíssimo Testamento e recém-estreado livro devo apresentar no final desta semana; ler a entrevista que Juan José Millás concedeu ao Babelia do El País a propósito do lançamento de Lo que se de los hombrecillos; e, enfim, descobrir que não estou incapacitado de escrever ficção. Inaugurei um caderno Moleskine por voltas das sete da tarde e, de uma assentada, escrevi várias páginas de um longo parágrafo que pode vir a ser o início de uma coisa qualquer, ou não, pois ignoro cada vez mais do que possa depender o avanço desses trabalhos ficcionais. Vai-se tornando evidente, porém, que a invenção em mim de alguém que é ou pretende ser escritor tenha sido, seja ainda, a mais extraordinária literatura de que fui capaz. Reconheço-o e, porém, lamento não ter chegado a concluir decentemente também este trabalho, pois o escritor que me inventei saiu-me um pouco mal acabado, desinspirado, torpe, e se penso nisso não é difícil perceber que poderia, sem muito esforço, ter concluído melhor esta invenção, criando, ao menos, um escritor cuja obra pudesse ser interessante de seguir, ou alguém efectivamente talentoso. Mas, bem vistas as coisas, ter inventado um escritor não é muito diverso de ter inventado uma viagem de comboio para fazer num domingo qualquer. Em todo o caso, não fui, não vou a parte nenhuma. A casa está em silêncio. O fim-de-semana também. É domingo na minha vida.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
O que eu gostei das visitadoras (e de todas as outras galdérias)
Mário Vargas Llosa, o escritor peruano, venceu hoje o prémio Nobel da Literatura. Como nos outros anos, é uma perda de tempo discutir se Llosa merece ou não o prémio ou se o conquistou na altura certa e por bons ou maus motivos, se tem bom ou mau feitio (o Nobel não é um concurso de miss simpatia). Haverá sempre, seja como for, alguns imbecis dispostos a fazer de conta que um Nobel é uma coisa sem importância e sem significado (espero que saibam de quem estou a falar), o que, em caso nenhum, mancha a qualidade literária do premiado. E a obra de Vargas Llosa merece o prémio pelo menos desde que escreveu Conversa na Catedral, que foi publicado em 1969 e que, por si só, pelo que teve de inovador e genial, justifica o galardão. Para além dessa (louca, brilhante, iluminada) conversa com Zavalita, o jornalista que gostava de putas, há ainda o enorme divertimento que é Pantaleão e as Visitadoras (1973), um romance que conta as rigorosas manobras de logística militar que conduzem à criação de uma estrutura profissional dedicada a levar mulheres aos longínquos e inóspitos assentamentos militares da selva amazónica, onde caritativamente deviam proceder ao alívio das tropas (foram feitos dois filmes, o mais recente dos quais corresponde à foto em anexo). Absolutamente fundamental (o livro, não o filme). E depois disso não li mais nada de Vargas Llosa. Nem vou fazer de conta que li só porque aconteceu o que aconteceu.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Uma viagem tão boa (ou tão má) como qualquer outra
© Teatro Anatómico / Agosto de 2010
Ando há algum tempo a ruminar uma ideia um pouco estapafúrdia, mas, em todo o caso, suficientemente mobilizadora para que acorde frequentemente a pensar no assunto (o que talvez signifique apenas que estou definitivamente xoné; ver post anterior). A ideia passa por apanhar um comboio, uma manhã destas, e deixar-me ir pelas curvas do Douro até ao Pocinho, enchendo os olhos com as cores da vinha que, por esta altura, há-de estar laranjeando, enchendo-se de brilhos fulvos e cores quentes. Quero ver, enfim, aqueles pedaços do Douro que não se vêem da estrada, que é uma merda, pois afasta-se do vale e depois volta, como se estivesse indecisa entre enlear-se no rio ou perdê-lo para sempre, serpenteando à toa. De acordo com o plano várias vezes revisto, devo, depois, almoçar no Pocinho e apanhar o último comboio de regresso ao Porto, onde hei-de chegar cansado e já de noite, idealmente feliz por ter concretizado a viagem, provavelmente aborrecido por ter passado mais um dia sem conversar com ninguém. Creio que é um bom projecto para o próximo domingo, caso consiga arrancar-me da cama, de casa, do aborrecimento instalado. Para ser um perfeito fracasso, só falta que esteja a chover.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Trabalho de casa
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 21 de Setembro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Um gajo sabe que está razoavelmente destrambelhado quando, sendo segunda-feira, acorda muito antes de o despertador tocar e já com os neurónios concentrados na tarefa de escrever esta crónica. É, bem entendido, uma ocorrência razoavelmente estúpida, na medida em que equivale a levar trabalho para casa sem, na verdade, poder demonstrar que se esteve a trabalhar em casa: não há dossiês pesados para transportar ou calhamaços para consultar, nenhum labor visível; apenas a incomodidade de não ter ainda decidido o assunto que há-de preencher um determinado espaço numa página de jornal. Acordo, pois, convencido de que é o primeiro dia de Abril e que, por isso, o tema da crónica se apresenta bastante óbvio: devo escrever sobre a mentira, sobre as várias faces da mentira, mas, daí a um instante, já razoavelmente desperto, entro na casa de banho e tomo consciência de que não é Abril, de que ainda é Setembro e que, afinal, havia estado a sonhar com trabalho, o que é ainda mais estúpido do que levar trabalho para casa. Volto para a cama, a minha filha bate na porta para me perguntar se está tudo bem (minto e digo que sim), mas já não sou capaz de voltar a dormir. Dali a três quartos de hora o despertador acabaria por tocar e eu ainda não tinha decidido sobre o que seria esta crónica, o que me arrelia bastante, pois gosto de ter isso decidido com alguma antecedência para não ter que enfrentar a angústia da página em branco quando chegar à redacção. O mundo está cheio de milhões de histórias, casos e assuntos susceptíveis de fornecer matéria para, pelo menos, um texto sofrível e enxuto, mas escolher um tema implica abandonar os outros e isto constitui sempre uma espécie de traição do real. Nunca se pode ter a certeza de ter escolhido com acerto, mas também é manifestamente impossível meter o mundo todo em três mil caracteres de uma página de jornal. Como se esta angústia não fosse já suficiente, alguns dos poucos leitores deste espaço fazem agora questão de me sugerir assuntos, que tenho que escrever sobre isto ou aquilo, que uma determinada história envolvendo um saco de dinheiro da Reserva Federal norte-americana daria uma boa crónica, e eu ainda sou insensato ao ponto de me deixar sugestionar por um texto de Julio Cortázar, recordando-me de um passarito minúsculo que costumava passar as manhãs bicando o seu próprio reflexo no vidro de uma das janelas da antiga redacção do jornal, exactamente como o pássaro-narciso da crónica de Cortázar. Ocorre-me ainda que havia passado a semana a reunir outras ideias, mas, ali na cama, não conseguia lembrar-me de nenhuma. Aproximava-se, em todo o caso, a hora de acordar e eu tinha ainda a crónica às voltas na cabeça, chocando com as paredes do cérebro como um par de sapatilhas sujas no tambor da máquina de lavar roupa. Logo depois o despertador toca, ouço que cinco mil desempregados vão perder o subsídio de desemprego até ao final do ano e penso que isto provavelmente daria uma crónica como deve ser. Mas já não havia tempo. Estava na hora de me levantar para vir para o trabalho.
Um gajo sabe que está razoavelmente destrambelhado quando, sendo segunda-feira, acorda muito antes de o despertador tocar e já com os neurónios concentrados na tarefa de escrever esta crónica. É, bem entendido, uma ocorrência razoavelmente estúpida, na medida em que equivale a levar trabalho para casa sem, na verdade, poder demonstrar que se esteve a trabalhar em casa: não há dossiês pesados para transportar ou calhamaços para consultar, nenhum labor visível; apenas a incomodidade de não ter ainda decidido o assunto que há-de preencher um determinado espaço numa página de jornal. Acordo, pois, convencido de que é o primeiro dia de Abril e que, por isso, o tema da crónica se apresenta bastante óbvio: devo escrever sobre a mentira, sobre as várias faces da mentira, mas, daí a um instante, já razoavelmente desperto, entro na casa de banho e tomo consciência de que não é Abril, de que ainda é Setembro e que, afinal, havia estado a sonhar com trabalho, o que é ainda mais estúpido do que levar trabalho para casa. Volto para a cama, a minha filha bate na porta para me perguntar se está tudo bem (minto e digo que sim), mas já não sou capaz de voltar a dormir. Dali a três quartos de hora o despertador acabaria por tocar e eu ainda não tinha decidido sobre o que seria esta crónica, o que me arrelia bastante, pois gosto de ter isso decidido com alguma antecedência para não ter que enfrentar a angústia da página em branco quando chegar à redacção. O mundo está cheio de milhões de histórias, casos e assuntos susceptíveis de fornecer matéria para, pelo menos, um texto sofrível e enxuto, mas escolher um tema implica abandonar os outros e isto constitui sempre uma espécie de traição do real. Nunca se pode ter a certeza de ter escolhido com acerto, mas também é manifestamente impossível meter o mundo todo em três mil caracteres de uma página de jornal. Como se esta angústia não fosse já suficiente, alguns dos poucos leitores deste espaço fazem agora questão de me sugerir assuntos, que tenho que escrever sobre isto ou aquilo, que uma determinada história envolvendo um saco de dinheiro da Reserva Federal norte-americana daria uma boa crónica, e eu ainda sou insensato ao ponto de me deixar sugestionar por um texto de Julio Cortázar, recordando-me de um passarito minúsculo que costumava passar as manhãs bicando o seu próprio reflexo no vidro de uma das janelas da antiga redacção do jornal, exactamente como o pássaro-narciso da crónica de Cortázar. Ocorre-me ainda que havia passado a semana a reunir outras ideias, mas, ali na cama, não conseguia lembrar-me de nenhuma. Aproximava-se, em todo o caso, a hora de acordar e eu tinha ainda a crónica às voltas na cabeça, chocando com as paredes do cérebro como um par de sapatilhas sujas no tambor da máquina de lavar roupa. Logo depois o despertador toca, ouço que cinco mil desempregados vão perder o subsídio de desemprego até ao final do ano e penso que isto provavelmente daria uma crónica como deve ser. Mas já não havia tempo. Estava na hora de me levantar para vir para o trabalho.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Amanhã corro, transpiro mais um bocado e isto há-de sair com o unto
Sim. A versão inicial do post anterior era mais extensa, tinha vários palavrões (todos perfeitamente justificados, diga-se) e um epílogo mais dramático. Apaguei tudo. Às vezes sou acometido por esta fraqueza inconsequente dos finais dramáticos, embora já tenha idade suficiente para saber que não tenho coragem para finais dramáticos (estou, na verdade, a ficar careca de saber disto). Também não adianta vingar-me no blogue, que não tem culpa nenhuma. Devia deixar-me de merdas e dedicar-me a envelhecer em paz, comodamente, e a lamber os cus necessários para assegurar que o meu santo sossego não será tão frequentemente incomodado.
"Nobody said it was going to be fun"
Richard é, em The Big Chill/Os amigos de Alex (de 1983), uma personagem bastante secundária (faz basicamente de marido aborrecido e corno), mas cabe-lhe, creio, a melhor frase do filme de Lawrence Kasdan: "Nobody said it was going to be fun". Pois não.
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