Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

Não me perguntem para onde vou




Um dia, quando eu fosse grande, as férias haviam de ser só uma paisagem pela qual eu entrasse sem regresso: um mundo só para mim, sem regras nem horários, sem turistas acotovelando-se, hotéis, toalhas estendidas na areia. Iria sem destino e um livro que leria sentado no capô, com as pernas à chinês, ouvindo os rumores dos animais do deserto e sentindo o sol muito forte na pele. Não haveria uma brisa, uma voz humana, nenhum sinal da civilização. Só eu e a minha pobre cabeça. A minha casa.

Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

A crise da caça



Resumindo a coisa: Christopher McDougall, jornalista norte-americano, escreveu um livro, Born to run, em que explica que o Homem nasceu para correr, e que foi a sua capacidade para cobrir longas distâncias correndo que lhe permitiu sobreviver num meio adverso. Os outros animais eram mais rápidos, mas acabavam por sucumbir ao cansaço e acabavam caçados. Numa entrevista ao P2 de ontem, McDougall lamentava, porém, que o ser humano tenha descoberto a forma de sobreviver sem ter que se mexer, o que, de algum modo, diz, nos está a matar. Por outro lado, quando um tipo tenta manter as velhas aptidões da espécie, depara-se com algumas dificuldades. A caça, por exemplo, já não é o que era. Quando vou correr ali na beira-mar, sucede-me frequentemente passar energicamente pela caça sem que as espécies cinegéticas, sequer, saiam do lugar onde estão deitadas.

A crise da alimentação

Activistas empenhadas de uma associação de defesa animal apareceram anteontem na Times Square, em NY, embaladas em papel celofane e recordando que “milhões de animais são abusados violentamente” para que nós, os inclementes e insensíveis, tenhamos a possibilidade de comer carne. E o que dizer dos trilhões de pés de soja e dos milhões rabanetes cuja vida é precoce e violentamente arrancada para que alguns possam ser vegetarianos? Ninguém defende os indefesos repolhos?

A crise das exportações



Aprendem-se coisas extraordinárias lendo os jornais. Por exemplo: que, no século XVII, as madrilenas cultivavam uma palidez muito peculiar como toque distintivo, a qual se obtinha, entre outras coisas, comendo argila. Consumia-se o petisco em tabletes ou mordiscando os rebordos da louça de barro. Segundo parece e vinha escrito no último Babélia do El País, as moças preferiam, para esse efeito, os púcaros portugueses de Estremoz. Depois a moda mudou e toda a gente quer, agora, ser bronzeada, dourada, castanhinha - e assim se perdeu um excelente produto de exportação, sem que a cerâmica das Caldas tenha, por seu lado, conseguido tirar proveito das novas tendências.

Terça-feira, 27 de Julho de 2010

A crise da imprensa, volume 3



O Público e o Diário de Notícias dão hoje grande destaque, nas respectivas primeiras páginas, ao facto de haver calor em pleno Verão, coisa absolutamente inexplicável e, pelos vistos, responsável por um aumento (estimado – repare-se na subtileza) da mortalidade e por um caso de febre do Nilo. Não há direito. Um dia destes é capaz, pasme-se, de haver folhas a cair das árvores no Outono e de fazer frio no Inverno, o que é sempre uma complicação dos diabos. Na Primavera, se tudo correr normalmente, as folhas voltarão a aparecer nas árvores, haverá pólens no ar e, por isso, podem começar já a escrever as manchetes. E os portugueses são capazes de ir de férias e não ver grande interesse em levar um jornal para a praia.

Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

A crise da imprensa (agora um pouco mais a sério)



Sou perfeitamente capaz de apreciar o sentido de humor, mesmo se, conforme sucede neste caso, a coisa se reveste de algum mau gosto. Retive, ainda assim, a frase “estando consciente que o actual nível de tiragem do jornal não facilita o conhecimento dos mesmos por parte da maioria das pessoas”, a qual remete para um abnegado sentido de serviço público, perfeitamente compreensível num sítio mantido pelo dinheiro dos contribuintes. E estranho, ainda assim, o modo pouco aplicado como naquele mesmo site são criteriosamente ocultadas outras notícias e textos jornalísticos. Mas, obviamente, o caso não é de pasmar. Desde que tomou posse como presidente da Câmara do Porto, Rui Rio já assistiu, sem uma palavra, ao encerramento de dois jornais que eram instituições da cidade, O Comércio do Porto e O Primeiro de Janeiro, já expulsou jornalistas de conferências de imprensa, já atacou o Público, o Jornal de Notícias, a RTP e os tribunais, e chegou a identificar um único jornalista sério em toda a cidade. Se as coisas continuarem a correr de feição ao grande educador das massas, não há-de tardar o dia em que todos os órgãos de comunicação social relativamente livres tenham níveis de tiragem que os obriguem também a fechar portas e o isento site da autarquia, e a sua imparcial revista, sejam, de uma vez por todas, os portadores da única verdade a que os portuenses têm direito.

A refeição frugal

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 6 de Julho de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)




Os tempos correm de feição para os paradoxos, ao ponto de o jornal italiano Corriere della Sera estar a promover um concurso via SMS de frases paradoxais. É possível, porém, que a nenhum dos participantes da iniciativa tenha ocorrido explorar o facto de, na semana passada, uma gravura de Pablo Picasso, Le Repas Frugal, ter sido vendida, em Paris, por 720.750 euros, um valor muito acima das expectativas da casa de leilões Sotheby’s. São vários paradoxos num só.

Le Repas Frugal, explique-se, é uma obra litográfica de 1904, com 61 por 44 centímetros, a preto-e-branco, da qual foram impressos mais de 250 exemplares até 1913. Mostra um casal humilde diante de uma mesa onde estão dois copos, uma garrafa, um prato vazio e um naco de pão. Os dedos do homem e da mulher são finíssimos e longos, e os seus olhares melancólicos e tristes – olhos de trabalhador sem trabalho.
Uma gravura da primeira série, mais rara, tinha já sido vendida, em 2004, por 1,4 milhões de dólares, mas o exemplar agora leiloado em Paris, pertencente à mítica colecção do marchand Ambroise Vollard, estava avaliado entre os 250 e os 400 mil euros. O valor da transacção acabou, pois, por surpreender os especialistas, o que constitui, em si mesmo, um paradoxo, ainda assim menos extravagante do que aquele que há no facto de, no meio de uma grande crise económica, continuarem a ser batidos recordes no valor de venda de obras de arte.

Na semana que precedeu o leilão de Paris, uma outra venda, em Londres, atingira um valor total de 135,3 milhões de euros, com um único auto-retrato de Edouard Manet a chegar aos 27 milhões. Todos os dias escutamos relatos de situações de penúria, desemprego generalizado, falta de liquidez e corrida aos bancos de ajuda alimentar, mas, ao mesmo tempo, o dinheiro parece jorrar de inesgotáveis cornucópias, possibilitando fantasiosos negócios concretizados por quantias inimagináveis. Chega, por isso, a ser difícil decidir se é mais paradoxal que uma empresa de telecomunicações de uma economia em crise ofereça 7,15 mil milhões de euros por metade de outra empresa de telecomunicações, ou se o verdadeiro paradoxo reside no facto de o Governo de um outro país em crise impedir aquela transacção.

As contradições podem, ainda assim, tornar-se um pouco mais subtis, desde logo quando exista quem pague 720 mil euros por uma gravura mostrando um casal famélico e melancólico diante de uma frugal refeição de três vinténs. Faltará, talvez, que o milionário proprietário deste exemplar do Le Repas Frugal o pendure na sala de jantar de um apartamento de luxo ou de uma mansão. Suponha-se e imagine-se, pois, o triste e mal alimentado casal de Picasso presidindo doravante, do alto de uma moldura de madeira exótica, a sumptuosas refeições de champanhe e caviar, servidas em toalhas de linho, taças de cristal e talheres de prata. Diante das personagens da gravura, como de milhões de outras pessoas, continuará havendo, porém, apenas um prato vazio e um naco de pão. Se isto não é um paradoxo...

Sexta-feira, 23 de Julho de 2010

A crise da imprensa




Os jornais, as televisões e (provavelmente) as rádios (mas eu não tenho ouvido rádio), dedicaram, nos últimos dias, um espaço amplo ao caso do alegado triplo homicida de Lourinhã, o Rei dos Gnomos. Parece que era homossexual e sucateiro e que morava numa espécie de horrendo castelo junkie kitsh, com suburbanas portas de alumínio. Todavia, que eu tivesse reparado, ainda nenhum órgão de comunicação social abordou o caso pelo ângulo que realmente interessa ao mortal comum: quem é a inspectora da Polícia Judiciária com voluptuosos caracóis ruivos (à direita da imagem do Diário de Notícias) que apareceu acompanhando o suspeito à entrada para o Tribunal de Torres Vedras? E que malfeitorias é preciso praticar para que ela venha executar uma busca domiciliária?

Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

Uma paixão fulminante

Eram grandes, carnudas, quase negras. Agarraram-me pelo braço quando subia a Rua do Almada e não resisti. Entrei na minúscula mercearia e pedi para ser servido. A senhora que estava na espécie de sala que há para lá do pequeno balcão, nos fundos da loja, garantiu que eram tão boas como pareciam. “Chegaram há pouco. Que lhe saibam bem e depois venha comprar mais”, desejou a merceeira. Levei seiscentos gramas e fugi para casa. Comi-as todas, uma a uma, regalando-me com o modo como me rebentavam na boca; como o suco, doce e amargo numa proporção perfeita, me inundava as papilas. Às vezes bastam cerejas. Cerejas.

Crónicas do autocarro#38



Como é que eu descreveria a senhora que ontem veio sentar-se ao meu lado? Tinha seguramente mais de 70 anos, talvez quase 80, e era uma velha, claro. Uma velha com o cabelo branco penteado para trás, preso na nuca, muito enrugada, baixinha. Como estas pessoas me enternecem um pouco, talvez me referisse a esta senhora em particular como “uma velhinha”. Mas é um juízo precipitado. Daí a instantes, quando outra senhora que ia no banco da frente declarou que só estava bem em casa e não gostava de sair, a minha companheira de banco reagiu com inusitada vivacidade. Disse que gostava mesmo era de andar rua, de passear, de arejar. Queria, enfim, aproveitar o tempo antes de se transformar numa velhinha. Eu devia, pois, ter prestado mais atenção aos óculos de sol estilosos, parecidos com os dos ciclistas da Volta à França, que a falsa velhinha usava quando se sentou ao meu lado.

A ocasião faz a comoção

Em Angola, Cavaco Silva ficou comovido ao ser recebido no Lubango por uma multidão de crianças. Disse, a propósito, qualquer coisa sobre o modo como Portugal continua no coração dos angolanos. Nestas ocasiões já não interessa nada se as crianças foram arrebanhadas e arregimentadas pelas autoridades, e privadas de um dia de escola, para estarem ali a fazer figura de corpo presente. Parece que, nestes casos, é preciso "nunca deixar dúvidas de que respeitamos Angola, os seus dirigentes e as opções do povo angolano".

Sexo, mentiras & tribunais

Um cidadão árabe de Jerusalém foi condenado a um ano e meio de prisão por violação de uma mulher judia. O sexo entre os dois tinha sido consensual, conforme ficou provado, mas a mulher apresentou queixa ao tomar conhecimento de que o indivíduo não era judeu, conforme afirmara, mas sim árabe. Kashur mentira, pois, para conseguir consumar a relação sexual. Suponho, porém, que se a moda pega e forem condenados por violação todos aqueles que mentem para dar uma queca, não haverá espaço suficiente no mundo para construir as cadeias necessárias para meter tanta gente.

Terça-feira, 20 de Julho de 2010

Razões imediatamente atendíveis

Questionado em Luanda sobre o projecto de revisão constitucional do PSD, Cavaco Silva, o presidente da república, declarou que está em Angola e que, estando em Angola, não faz comentários sobre a situação política portuguesa. São, como diz o outro, razões imediatamente atendíveis. Só que também se depreende que, estando em Angola e não comentando a política portuguesa, Cavaco Silva se entreteria a comentar a política angolana. Pura ilusão, porém. Outras razões imediatamente atendíveis se devem ter levantado para impedir tal vertigem.

Doenças profissionais

Quando chegou ao Camboja, em 1972, o jornalista italiano Tiziano Terzani notou que os soldados metiam na boca os pequenos budas que traziam ao pescoço. "Disseram-me que ajudavam a repelir as balas e concluí que também eu precisava de um, conta Terzani no livro Disse-me um Adivinho (edição portuguesa da Tinta da China). Assim fez: comprou um pequeno buda de marfim e, para que a sua protecção se tornasse efectiva, levou-o para que fosse benzido por um monge. O chefe do pagode quis saber de que pretendia Tiziano ser protegido e, para isso, perguntou-lhe pela profissão. Jornalista? "Então deve ser protegido do fogo, da água e da sífilis". Eram outros tempos, obviamente. Em 21 anos de jornalismo, já vi colegas afectados por doenças coronárias e vasculares, stress, tendinites, problemas cardíacos, hérnias discais, toxicodependência, dificuldades para compatibilizar o sono, obesidade, alcoolismo, cefaleias, hemorróides, gastrite e mau feitio, mas nunca ouvi falar de um único que se queixasse de sífilis.

Segunda-feira, 19 de Julho de 2010

Os valores deles

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 22 de Junho de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



O diabo está nos pormenores. E a estupidez humana, ainda que seja perfeitamente capaz de se manifestar em grande escala, revela-se também nas mais pequenas coisas – e em qualquer raça, entre gente de todas as cores e com os pretextos mais imbecis. A semana que passou foi particularmente fértil neste aspecto. Escondidas entre o anúncio do apocalipse financeiro europeu e a festa do futebol na África do Sul, não faltaram, nos jornais, notícias capazes de causar inquietação.

Em Espanha, depois de várias autarquias catalãs e andaluzas terem votado regulamentos que proíbem o uso de véus islâmicos em edifícios públicos, e de o próprio Governo ter anunciado a possibilidade de criar legislação nacional sobre o assunto, um político de uma aldeia de 109 habitantes, Tarrés, apresentou uma moção destinada a banir as burcas e os niqab do convívio social. Pormenor: não mora em Tarrés um único cidadão imigrante, nem árabe, nem negro, nem sul-americano, nem chinês, nem português, nem nada. Mas “é melhor prevenir do que remediar”, argumentou Daniel Rivera, o autor da moção, citado pelo El País.

Em Israel, onde o diabo se manifesta regularmente, oitenta judeus asquenazes (oriundos do leste da Europa) recusam-se a autorizar que as suas filhas estudem na mesma escola que é frequentada, pasme-se, por meninas judias sefarditas (originárias da Península Ibérica). Instados pelo Supremo Tribunal de Justiça a pôr fim a esta segregação, os pais asquenazes mandaram dizer que preferem a prisão.

No Egipto, o sindicato dos actores moveu um processo contra um actor famoso, Khaled al-Nabawy, o qual corre o risco de enfrentar uma longa suspensão. O seu crime: cruzou-se na passadeira vermelha do Festival de Cannes com uma actriz israelita, Liraz Charhi, cumprimentou-a e, instado pelos fotógrafos, abraçou-a. Quando regressou a casa, no Cairo, depois de a fotografia ter sido publicada nos jornais egípcios, soube que estava a ser acusado de “normalização de relações com Israel”, crime ainda punível pela lei.

O pretexto para a intolerância é, nestes casos, sempre o mesmo. Em Espanha, como noutros países europeus, invocam-se os valores que consideram que o véu islâmico humilha as mulheres, mesmo as que o usam de livre vontade. Em Israel, os valores asquenazes não permitem misturas com sefarditas. No Egipto, defendem-se os princípios que não autorizam abraços a judeus e que, há algumas semanas, forçaram o “ateu e homossexual” Elton John a cancelar um concerto previsto para o Cairo. Se não me equivoco, trata-se do mesmo género de valores que levaram o jornal do Vaticano a atacar José Saramago depois de morto.

Egípcios, espanhóis, vaticanistas e israelitas asquenazes resultam, assim, muito parecidos com o grupo de senhoras do Estoril que são contra o casamento entre homossexuais e estão empenhadas em desencantar um candidato presidencial que defenda os... valores da família. São, todos, indivíduos carregados de certezas e da vontade de impô-las aos outros. Mas, sendo tão semelhantes, não conseguem viver juntos.

Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

Hipocrisias diplomáticas

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)



Imagino, mesmo a esta pouco conveniente distância, que na semana passada quase não se tenha falado de outra coisa por aí: a visita do cidadão português e presidente da república, Aníbal Cavaco Silva. Tratando-se, como se tratava, de um exercício de diplomacia, não espanta que o senhor Silva se tenha desdobrado em declarações de grande simpatia, ora afirmando que Cabo Verde está no coração dos portugueses, ora louvando o carácter exemplar da economia cabo-verdiana. “Inspirador”, considerou, mesmo sem, desta vez, ter ido mergulhar nas águas cálidas de Quebra-Canela.

Do que o presidente da república portuguesa se esqueceu é que a economia de Cabo Verde, para ser o bom e inspirador exemplo que é, depende em grande medida das remessas dos seus filhos na diáspora, os quais, por seu lado, dependem (também) das obras públicas que por cá se fazem. E não terá sido conveniente, a este propósito, recordar as declarações da amiga, ex-ministra e sucessora de Cavaco na liderança do PSD, Manuela Ferreira Leite, a qual, ainda há um ano, desaconselhava a realização de obras públicas precisamente porque apenas davam emprego aos ucranianos e cabo-verdianos.

Mas Cabo Verde, para ser o bom exemplo que é, não precisa apenas das obras públicas de Portugal e da Europa, das casas para limpar e do alforge laboral da Cova da Moura. Necessita também do investimento, das receitas e dos postos de trabalho que são gerados por aquela que é hoje uma das principais actividades económicas do país: o turismo. Ora, a este propósito, o que ainda há bem pouco tempo declarou o cidadão Silva foi que os portugueses deveriam demonstrar algum patriotismo e fazer férias em Portugal, abstendo-se, assim, de viajar para o estrangeiro.

Também neste particular, suponho, ninguém deve ter cometido a indelicadeza de quebrar a hipocrisia e as conveniências diplomáticas para recordar ao ilustre visitante o teor das suas declarações recentes, as quais, a serem seguidas pelos portugueses e outros europeus que habitam em economias em crise, deixariam de viajar para Cabo Verde e privariam o país de uma das suas fontes de riqueza, de um dos motivos da sua exemplaridade.

Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

É entrar, é entrar. Venham conhecer o fufunismo



Aproximem-se as belas moças e as gentis senhoras. Venham ver. Saibam tudo, ou quase tudo, sobre a secreta arte do fufunismo. Se não conhecem, tanto melhor, talvez seja este o tempo certo, o momento exacto, a hora agá para penetrar nos seus segredos mais íntimos, nos seus truques, nos recônditos e nos convexos, na minuciosa e fescenina arte que pode mudar a sua vida, torná-la melhor do que é, pô-la de pernas para o ar.

A expressão “fufunismo”, segundo o jornal Corriere dela Sera, foi inventada em Janeiro passado pela edição francesa da revista Elle. Não consegui confirmar esta preciosa informação, mas, dali, a palavra terá passado, num ápice, para as bocas do mundo (salvo seja!), sobretudo em França, onde as mulheres parecem particularmente empenhadas na prática fufunista. O fufunismo passou a ser assunto dominante nas páginas da internet dedicadas às subtilezas femininas e fala-se mesmo de um boom do fufunismo em França. Os mais recatados benzem-se e vêem em toda esta loucura uma clara interferência do demo e o triunfo do pecado, Sodoma a Gomorra, pouca-vergonha que eu sei lá.

Como o mal e o bem são, de um modo geral, uma questão de perspectiva, os adeptos e praticantes do fufunismo descrevem as fufunistas como mulheres que se preocupam com as pilosidades do seu corpo, buscando o cálice sagrado da depilação integral, o nec plus ultra da remoção dos pelos púbicos, devolvendo ao sexo a aparência, nua e glabra, com que se nasceu. A alternativa, informa-se, é o chamado “bilhete de metro”: tiram-se todos os pêlos supérfluos, excepto uma pequena tira do tamanho do bilhete do metropolitano de Paris, bastante mais amistosa, neste caso, do que o extraordinário bilhete Andante.

Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

Fundação Benemérita de Apoio ao professor Isaltino de Morais



Isaltino de Morais, o (quase) inocente e dedicado autarca de Oeiras, viu ser reduzida a pena de pisão a que tinha sido condenado por corrupção, branqueamento e fraude fiscal. O Tribunal da Relação entendeu também restituir-lhe a propriedade de um terreno na ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, o qual havia sido confiscado pela justiça. Tratando-se de uma parcela poeirenta da ilha, uma porcaria onde não se pode construir nada, segundo as palavras do próprio edil, a fundação que aqui fica formalmente instituída, tendo como único e desinteressado corpo social o presente subscritor, propõe-se libertar Isaltino deste pesado fardo imobiliário, disponibilizando-se desde já, e no mais curto espaço possível, para receber a título inteiramente gracioso o terreno supra.

Todos os nomes, menos um



Se vencer um Prémio Nobel não é para qualquer um, vencer um Prémio Nobel da Literatura escrevendo em Português ainda deve ser mais difícil. José Saramago, o único a conseguir tal coisa, viu ser-lhe reconhecido o mérito ainda em vida. O seu nome baptizou, creio, pelo menos quatro bibliotecas (Loures, Almada, Leiria e S. João da Talha), duas escolas, uma avenida (Santarém), duas pracetas (Caneças e Arruda dos Vinhos) e ruas em Alcochete, Benavente, Pinhal Novo, Sintra, Pontinha, Barreiro e Massamá (mas deve haver mais). No Porto, porém, o nome do escritor recentemente falecido está, para já, banido da toponímia. Trata-se, pois, de um caso em que a estatura das pessoas, se dúvidas houvesse ainda, se define perfeitamente pelas decisões que tomam. Bem vistas as coisas, até é melhor assim.

A primeira pedra



O assunto é muito sério. Seriíssimo. A lapidação de mulheres é uma prática atroz e o facto de países como o Irão a manterem devia incomodar-nos e indignar-nos a todos. Dito isto, posso, mais tranquilamente, explicar que, como sou um pouco parvo, a odiosa pena sempre me faz recordar a minha anedota preferida, a do lusitano na Galileia, a qual passo, com a vossa licença, a contar: há muitos, muitos anos, ainda nem os romanos se tinham convertido à fé em Cristo, nem Maomé tinha vindo fazer pregações, o lusitano empreendeu uma peregrinação à Terra Santa. Ali chegado após mil aventuras e perigos, calhou-lhe passar pelo Monte da Oliveiras e de ver que ali se ultimavam os preparativos para a lapidação de uma mulher adúltera. Os romanos aconchegavam a mulher na cova aberta num espaço amplo e os homens andavam de nariz no chão, procurando boas pedras para atirar. O lusitano fez o mesmo e encontrou um bom calhau e um sítio ainda melhor. Quando, enfim, foi dada a ordem para que o apedrejamento começasse, Jesus Cristo entrepôs-se gritando e erguendo os braços para o céu. Os agressores suspenderam o gesto e Jesus aproveitou para falar à consciência de todos: “Quem nunca falhou que atire a primeira pedra!”, disse. E o lusitano, tendo ouvido e ponderado, olhou a pedra, olhou a mulher e desferiu uma pedrada no meio da testa da condenada. Indignado, Jesus perguntou-lhe: “O quê?! Tu nunca falhaste?!”. O lusitano encolheu os ombros, abriu os braços e justificou-se humildemente: “A esta distância, mestre?”.

Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Crónicas do autocarro#37



Que sítio admirável é o autocarro. Os seus utentes são tão variegados que, em certos dias, este chega a parecer o mais democrático dos meios de locomoção, fazendo conviver estreitamente os suores mais azedos e nauseabundos com o último grito da tecnologia. Ontem, por exemplo, ouvi um rapaz atender e falar brevemente ao telemóvel. Quando, o mais dissimuladamente que pude, olhei para o lado, vi que o moço estava a utilizar, isso sim, um aparelho de usar no pulso, misto de relógio e telefone móvel. Chiça! Fui procurar no Google e descobri que a coisa existe em vários modelos e que até tem um slogan estiloso, "liberte as mãos para as coisas importantes". Não percebi. Mas também não importa nada. Como diz um amigo meu que se dizia em África, "estilo é que conta e marca presença".

Segunda-feira, 12 de Julho de 2010

Mais ketchup, menos conversa

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 15 de Junho de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)




Num texto de 1965, o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini escreveu que o futebol é um sistema de signos e, portanto, uma linguagem autónoma. Cada um dos vinte e dois jogadores em campo expressa-se tocando a bola com os pés e criando uma infinidade de palavras a partir de um conjunto de unidades mínimas (Pasolini chama-lhe “podemas”, por analogia com os fonemas). Os adeptos, conhecedores do código desta linguagem, entendem perfeitamente o que é dito, seja quando os futebolistas falam como oráculos iluminados, seja quando se atrapalham, gaguejam e tartamudeiam.

Ainda de acordo com Pasolini, os jogadores dividem-se em duas grandes categorias, a dos prosadores e a dos poetas. Os povos europeus, como o italiano e o alemão, são mais propensos à prosa realista, enquanto os latino-americanos são os cultores do futebol-poesia. E “o melhor marcador de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano”, declarou o realizador, eventualmente recordando Pelé.

Como, de 1965 para cá, o mundo se alterou de forma bastante substancial, creio que hoje ninguém se arriscará a estabelecer fronteiras tão rígidas entre as diversas correntes literárias do pontapé na bola. O futebol europeu está irrevogavelmente contaminado pela delirante poesia de fantasiosos prosadores de origem sul-americana e africana. E o poético escrete brasileiro tende, às vezes, a apresentar-se com um burocrático fato escuro, carregando uma pasta na mão e com o olhar tão perdido e realista como o de um londrino de chapéu de coco esperando o metro em Bond Street.

A acreditar no que diz Pasolini, os jogadores de futebol serão, pois, capazes de, com os pés e uma bola, criar metáforas, hipérboles, metonímias, catacreses e aliterações, e de escrever páginas inesquecíveis. Quando arranca driblando meia equipa adversária e termina a frase deitando o guarda-redes e marcando golo, o argentino Lionel Messi não é menos brilhante do que Julio Cortázar quando escreve um daqueles discursos parabólicos e cheios de palavras acabadas de inventar, fresquíssimas e palpitantes como hidromúrias e ambónios selvagens.

Assim sendo, dificilmente se percebe que os futebolistas insistam em expressar-se numa linguagem que não dominam - como o Português falado, por exemplo. Podem, por esta via, dar origem a anedotas hilariantes, como as que constam do livro 30 Anos de Mau Futebol, de João Pombeiro ( “vocês os dois façam um triângulo”), ou frases tão ocas e irrelevantes como aquelas que Cristiano Ronaldo, um inspirado operário da poesia, proferiu na conferência de imprensa do passado domingo em Magaliesburg, na África do Sul (“deus sabe quem trabalha”, “quero explodir neste mundial” e “não gosto de explodir só uma vez”). Disse ainda Cristiano que “os golos são como o ketchup: quando aparecem vêm todos de uma vez”. É, evidentemente, uma frase capaz de excitar jornalistas, mas que não significa nada. As embalagens top down, sempre prontas a disparar molho de tomate, foram inventadas há vários anos e é só disso que a selecção portuguesa necessita: mais ketchup e menos conversa.

Domingo, 11 de Julho de 2010

Ter ou não ter Iniesta, ter ou não ter a Catalunha

A final do Campeonato do Mundo foi aborrecida e, no fim, ganhou a Espanha — porque foi melhor e tem Iniesta, por cujos pés passaram três dos quatros golos que levaram a roja ao título maior do futebol (fez os passes para os golos contra Portugal e o Paraguai e marcou contra a Holanda). Para além disso, a Espanha tem uma grande quantidade de jogadores do Barcelona, catalães, o que demonstra que, quando em 1640 Portugal e a Catalunha se rebelaram contra a coroa, os castelhanos sabiam muito bem o que estavam a fazer. Escolheram ficar com os catalans. Bruxo!

Sexta-feira, 9 de Julho de 2010

Larissa Riquelme ou quando o futebol foi, mais do que nunca, uma questão estética



Não é de bom-tom contrariar o mestre. Se o brasileiro Luis Fernando Verissimo (vénia) diz que a grande figura do Mundial de Futebol da África do Sul foi Diego Armando Maradona, treinador da Argentina e divindade da igreja maradoniana, então é provável que tenha sido mesmo assim. Há, todavia, um conjunto de pessoas, se calhar perdidas e totalmente irrecuperáveis, que só viram a Larissa Riquelme. Perguntem-lhes quem marcou o terceiro golo alemão no jogo dos quartos-de-final com a Argentina e eles encolherão os ombros. Mas fale-se-lhes na Larissa Riquelme e verão como os seus olhos se iluminam e sorriem, sonhadores e lúbricos.

Larissa Riquelme, manequim paraguaia de 25 anos, era, antes do Mundial, uma quase desconhecida. Quando apareceu numa praça de Assunção cheia de adeptos do Paraguai, durante a transmissão do jogo com a Itália - com uma blusa justa e decotada, vibrando com o golo da selecção do seu país -, as imagens deram a volta ao mundo várias vezes (e ainda não pararam). Soube-se, depois, que tinha sido contratada por uma empresa de telecomunicações para fazer publicidade a um aparelho que, muito convenientemente, passava o jogo depositado no generoso decote da moça. Houve até quem tenha realmente reparado no telemóvel, o que, convenhamos, não era fácil.

Morena, bonita e sensual, Larissa despertou o interesse dos media e em pouco tempo se ficaram a conhecer outras fotografias suas, menos desportivas e mais arrojadas. Também foi entrevistada e, entre várias coisas sem interesse, declarou o seu fervor patriótico prometendo despir-se no caso, então bastante improvável, de o Paraguai atingir as semifinais da competição. Entusiasmada pela promessa, ou por outro motivo qualquer, a selecção superou as expectativas e foi-se aguentando na competição.

A expectativa em torno de Larissa nunca mais parou de crescer. Multiplicaram-se as fotografias dela, as pesquisas no Google, os amigos e seguidores no Facebook, as propostas de contratos milionários (consta que a revista Playboy ofereceu um milhão de euros por um ensaio fotográfico). A Espanha era favorita no jogo dos quartos-de-final com o Paraguai? Ninguém queria saber. O futebol transformara-se, mais do que nunca, numa questão estética e impunha-se escolher, isso sim, entre os passes rendilhados de Xavi, Iniesta e Villa ou o sinuoso contorno de Larissa.

Quando o Paraguai perdeu o jogo, os adeptos dividiram-se. Houve quem agradecesse aos espanhóis por terem evitado que os pobres dos bairros de lata paraguaios se anestesiassem com o ópio da festa do futebol e quem, desolado, visse esfumar-se a possibilidade de ver Larissa em pêlo. A desilusão durou pouco, porém. Esta semana - e porque os jogadores se tinham portado como verdadeiros heróis e mereciam, apesar da derrota, uma justa homenagem - um jornal paraguaio (o Diário Popular)revelou, enfim, as tão esperadas fotografias da moça, revelando o pouco que ainda não se tinha visto. Se valeu a pena? Depende. Larissa é, afinal, apenas uma mulher. Mas também houve, neste Mundial, vários jogos com muito menos interesse.

Cinema com perfume de estrugido



Apesar de serem aparentemente muito diferentes, os dois últimos filmes que vi (Estômago e Eu sou o amor) assemelham-se extraordinariamente na medida em que tratam ambos de poder, amor/sexo e comida. A arte da cozinha, o apelo dos sabores e a gastronomia servem, nos dois casos, de pretexto e móbil à alteração do destino das personagens e, portanto, a comida é o cerne do próprio enredo. Vendo bem, é o género de cinema que mais convém a um indivíduo que vai ao cinema ainda com o perfume da cebola e do alho nas mãos, exalando a inconfundível e irresistível fragrância do estrugido.

Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Agora resta esperar que o Mundial acabe depressa para que os rapazes do Barcelona possam voltar a jogar futebol

Os mais atentos, bem como aqueles que aqui vêm demasiadas vezes, terão reparado que apaguei ontem de manhã um post em que vaticinava a derrota da Alemanha na meia-final desta noite. Sucedeu, conforme temi. Mas não pelos motivos que imaginei. A Alemanha perdeu porque quis ser calculista e foi apenas medrosa. Esqueceu-se de jogar futebol. Foi muito bem feito. Aos 20 minutos de jogo já eu cabeceava diante do televisor. Suponho que teremos, então, como eu escrevi (e apaguei), uma final Espanha-Holanda que há-de parecer um fastidioso jogo de xadrez. Chegados a este ponto, espero apenas que os rapazes do Barcelona reaprendam a jogar a bola assim que o Mundial terminar.
Daqui a quatro anos há mais.

Crónicas do autocarro#36



Chega o calor e o povo do autocarro divide-se mais ou menos equitativamente entre o autocarro e a praia, locais onde, em princípio, se pode desfrutar de uma fresca. A praia parece, porém, bastante mais apelativa. Há o mar, a areia e as ninfetas passando em trajes menores. E apenas se trabalha para o bronze, vantagem de que não se podem gabar aqueles que insistem no autocarro. Por outro lado, e o contrário do que sucede com as máquinas do ar condicionado que providenciam a fresca no interior das viaturas dos transportes públicos, a nortada da praia nunca falha, nunca se avaria e não depende do humor de nenhum motorista.

Segunda-feira, 5 de Julho de 2010

Sobre pássaros

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 8 de Junho de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Julguei ter visto, na semana passada, um bando de andorinhas movendo-se no céu, mas concluí, entretanto, que não consigo distinguir uma andorinha de um estorninho. Apurei que são ambos pássaros migratórios e que voam em grupo, formando uma espécie de nuvem caprichosa que muda constantemente de direcção, mas confundo-os muito facilmente.

Fiquei, por exemplo, convencidíssimo de que eram andorinhas as aves que aparecem fugazmente no filme Aquário/Fish Tank, de Andrea Arnold, voando no céu azul de Barking, na área suburbana de Londres. Por causa dessas imagens, lembrei-me de uma das observações de Senhor Palomar, a personagem literária de Italo Calvino. Quando, porém, fui reler essa passagem do livro, deparei não com uma descrição de bandos de andorinhas, mas com o voo dos estorninhos “na atmosfera violeta do pôr-do-sol” de Roma: uma “avalancha de asas” que, diz Palomar, parece “um corpo composto por centenas e centenas de corpos separados”.

Confundido por esta leitura, já não sei se são realmente andorinhas as aves que aparecem no firmamento Polaroid de Aquário ou, sequer, se eram andorinhas os pássaros que eu me lembro de ter visto, há muitos anos, voando em grupo no céu do Porto. Como, em todo o caso, não me recordo de ter visto nenhuma dessas nuvens aladas nos últimos tempos - afugentadas talvez pelas gaivotas, pelos pombos ou pelos aviões da Red Bull -, vejo-me na desconcertante condição de nutrir certa nostalgia por uma recordação que não sei descrever completamente. Em todo o caso, trata-se de uma nostalgia boa e que evoca uma certa inocência perdida ou, mais simplesmente, uma época em que o tempo me sobrava ao ponto de poder reparar em coisas tão inúteis (e tão pouco pragmáticas) como um bando de andorinhas.

Percebo, pois, tanto de ornitologia como de engenharia aeroespacial (rigorosamente nada), mas, em certos momentos, parece-me particularmente aconselhável escrever sobre a subtil poesia das pequenas aves para evitar tratar de passarocos mais sérios. Nada direi, pois, sobre o assalto de luva branca que, dentro de dias, começará a ser praticado por empresas privadas às quais o governo socialista concedeu o direito de cobrar portagens em estradas já pagas pelo dinheiro dos impostos dos portugueses e dos europeus. Contornarei igualmente a proposta social-democrata para “liberalizar” os despedimentos à boleia da crise, bem como as outras vilanias essenciais à veneração da Nossa Senhora das Finanças e à alimentação do insaciável monstro dos mercados.

Enquanto fraco observador das aves de rapina, constato que me custa também distinguir os milhafres-rosa dos falcões-laranja, ou vice-versa, no decisivo momento em que, aliados a bem da pátria, vêm em voo picado para bicar o coelho assustado do meu ordenado. Já vimos estas aves e este filme – e, apesar das semelhanças que há, não foi n’Os Pássaros de Hitchcock. Estou um pouco atormentado, isso sim, e não sei ainda se hei-de rir ou chorar. Mas talvez não tenha sido boa ideia escrever sobre as andorinhas.

Domingo, 4 de Julho de 2010

Refrescar as ideias



Bem sei: parecerá, às vezes, que o Teatro Anatómico se transformou num blogue futebolístico e que o imbecil que produz o que aqui se lê foi objecto de uma rigorosa lavagem cerebral, uma trepanação mal sucedida ou, ainda, uma lobotomia com perda total. Não garanto que não tenha sucedido. Eu sei lá o que acontece durante a noite, enquanto durmo. Noto que, em certas manhãs, não sou eu mesmo quem se ergue da cama e custa-me a reconhecer o meu próprio rosto diante do espelho. Tendo a pensar que se trata apenas de uma ressaca, uma simples ressaca, mas não sei bem. Vendo as coisas pelo lado positivo, a trepanação teria algumas vantagens. Sempre ficavam uns furinhos pelos quais poderia entrar algum ar que ajudasse a refrescar alguma ideia que ainda resista.

Sábado, 3 de Julho de 2010

Espanha-Paraguai, uma lição (mas infelizmente os vaidosos já sabem tudo)

O Paraguai perdeu, sim, mas foi possível perceber a diferença que faz ter um treinador que sabe escolher os jogadores e fazer com que, depois, actuem como uma equipa, obedecendo a uma estratégia traçada em função (também) do adversário. Não se viu hoje a Espanha e quase não se viu Villa, excepto na recarga a uma bola devolvida pelo poste. Mais importante: embora mais defensivo e cauteloso, o Paraguai até podia perfeitamente ter ganho o jogo - e isto é algo que Portugal, exceptuando no jogo contra os desgraçados da Coreia do Norte, nunca esteve sequer perto de conseguir fazer.

4:0 gegen Argentinien – DFB stürmt ins Halbfinale*

Os cabo-verdianos têm uma expressão – basofos – que descreve perfeitamente os argentinos, os brasileiros e todos os demais países, indivíduos e equipas de futebol que são campeões antes do tempo, ufanos e convencidos da inquestionável qualidade dos seus craques milionários. Os alemães não são nada disso – aprenderam a humildade provavelmente da forma mais radical e trágica. Antes de começar cada Mundial, quase nos esquecemos de que existem. E ainda bem. Depois eles começam a jogar e surpreendem-nos com a qualidade do que fazem, reduzindo os basofos à vulgaridade. Não são donos da bola, não fintam seis adversários numa cabine telefónica, não passam quinze vezes o pé por cima da bola antes de se decidirem a fazer alguma coisa com ela. Jogam futebol, simplesmente. E, no fim, às vezes ganham.

*título do Berliner Morgenpost online

Sexta-feira, 2 de Julho de 2010

O Gana — num remate se ganha, num remate se perde

Chego invariavelmente esgotado ao fim dos jogos do Mundial de futebol, como se também tivesse estado a jogar. Quando o árbitro apita para o final do jogo, não sei já quantas vezes torci as pernas para evitar uma entrada dos adversário, quantos sprints imaginários fiz, quantos cruzamentos da linha de fundo, remates, cortes de carrinho. Quando, há pouco, terminou o Gana-Uruguai, dirigi-me à pia da louça vergado pela derrota, de cabeça baixa, como se Gyan tivesse falhado com o meu pé direito, no último minuto do tempo de compensação, o pénalti que colocaria os africanos na meia-final com inteira justiça. Consumada a derrota com mais dois pénaltis falhados, abri a torneira da água quente e percebi, como hão-de estar percebendo os ganeses, que perderam de modo incrível uma oportunidade histórica, mas que viveram, por outro lado, um daqueles momentos mágicos que enchem os estádios e são a verdadeira razão para que os estádios se encham. Num instante, mais rápido que piscar os olhos, uma equipa derrotada, cujos jogadores já choram, ressuscita. Levanta a cabeça e, minutos depois, festeja enlouquecida. Um pénalti é o remate mais fácil à baliza, mas também o mais difícil. Não há pénaltis antecipadamente concretizados, como não há jogos ganhos antes de se jogarem. Suponho, claro, que isto há-de querer dizer qualquer coisa de bestialmente profundo, mas, sinceramente, estou agora demasiado cansado para pensar no assunto.

Um grande livro. E ponto final

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)



Quando, há dois anos, estivemos juntos no Mindelo, o actor e meu amigo Flávio Hamilton comprou um livro, “Os Trinta Dias do Homem Mais Pobre do Mundo”, obra de um artista que eu, então, apenas conhecia enquanto músico: Mário Lúcio de Sousa. Estou até hoje à espera que o Flávio me empreste o livro, ao qual teceu rasgados elogios, mas uma parte da minha curiosidade acaba, porém, de ser saciada. Estou, graças à cumplicidade de um amigo comum, a ler o próximo livro do Mário Lúcio, “O Novíssimo Testamento”, que já venceu, aqui em Portugal, o Prémio Carlos de Oliveira e vai, ainda este ano, ser editado por uma editora de grande prestígio. A leitura confirma o que o Flávio me dissera: Mário Lúcio é (também) um escritor de mão cheia.

Sendo um livro completamente despojado de pontos finais, “O Novíssimo Testamento” é, desde logo, uma obra torrencial, com um modo de narrar que, em alguns momentos e salvas as devidas distâncias, evoca a escrita de José Saramago. Li-o na versão que venceu o Prémio Carlos de Oliveira (creio que não será a definitiva, uma vez que está nas mãos de uma das mais competentes editoras portuguesas, a Maria dop Rosário Pedreira, a qual poderá ainda limar o romance e expurgá-lo de alguns excessos) e o que mais me impressionou foi a imaginação delirante do autor. O texto prende imediatamente e tive mesmo a tentação de escrever que se trata de uma obra-prima. E ponto final. Mas, como não sou crítico de literatura, deixarei isso para quem seja do ramo.

Basta ler, por exemplo, a enumeração de produtos que podem ser encontrados à venda numa pequena loja de Cabo Verde, não maior do que um quarto de dormir, para se ficar com a certeza de que estamos perante um autor com uma capacidade de observação agudíssima e um enorme sentido de humor, para além, claro, da agilidade narrativa que demonstra a cada passo. Mas o “argumento” do livro fala por si: uma mulher velha e casta morre e, cumprindo-se a sua última vontade, é chamado um fotógrafo (italiano, na falta de alternativas) para lhe captar o retrato. Quando a máquina dispara, a velha desaparece do leito mortal e, ao ser processada a película, a imagem revela-se no papel como uma reencarnação de Jesus, a cara chapada dele, provocando uma invasão da ilha de Santiago por uma multidão convencida de estar perante um regresso do prometido. Quem ainda não leu não perderá pela demora.

Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

Crónicas do autocarro#35



Quando se faz todos os dias a mesma viagem nos transportes públicos, à mesma hora, a repetição rotineira dos rostos, das palavras e da paisagem que passa pelas janelas torna-se um pouco enfadonha, ao ponto de acabarmos por confirmar o adágio que postula que a cabeça vazia é a casa do diabo. Se não há nada de palpitante e novo que atraia a nossa atenção, esta distrai-se, devaneia e atenta onde não deve – comete, enfim, indiscrições. Ainda há pouco dei por mim a bisbilhotar a mensagem no telemóvel de uma mulher gordota que se sentou ao meu lado e nunca mais acabava de escrever. A mensagem dizia assim: “Ó micas a paragem que tens que sair é planetário”. A Micas sairá, pois, do autocarro na paragem do Planetário e, com sorte, descerá à Rua das Estrelas, ali ao pé da Via Panorâmica. A minha zona, parecendo que não, é um universo em miniatura. E o autocarro é uma nave espacial.

Fui dizer adeus ao meu cinema



Fui ontem à última noite dos Cinemas Cidade do Porto. Despedi-me daquele que, nos últimos anos, foi o meu cinema, assistindo, com mais dezoito pessoas, à última exibição de Estômago, um filme do brasileiro Marcos Jorge (interessante, mas que até já tinha passado pelas salas dos multiplexes com pipocas). Com o encerramento das quatro salas do Cidade do Porto, inúmeros filmes de cinematografias marginais deixarão de poder ser vistos na segunda maior cidade do país, uma vez que, agora, a exibição destas obras passa a estar quase limitada à sala do Teatro do Campo Alegre, que não será materialmente capaz de estrear tudo aquilo que vale a pena. Mas talvez seja suficiente. Habituei-me, ao longo dos anos, a ver cinema em salas praticamente vazias, e não sei, sinceramente, se tão pouca gente justifica o investimento necessário para digitalizar uma sala de cinema. Mas também não consigo deixar de achar bizarro (porque já não estranho nada, nem me espanto com coisa nenhuma) que a câmara da segunda cidade de um país não diga um ai perante uma coisa destas, apesar de ter divulgado, esta semana, um comunicado criticando uma autarquia vizinha que não respondeu a um e-mail. Vendo bem as coisas, até faz sentido. Quem elege esta gente estava, ontem à noite, a ver telenovelas na televisão ou, na melhor das hipóteses, engrossando a multidão que foi assistir à estreia do Eclipse.