Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009
2009, um balanço perfeitamente desnecessário
Há evidentemente inúmeras coisas que podem ser ditas nesta época, mas o ano é apenas um lapso de tempo com trezentos e tal dias e que depois acaba. Pela parte que me toca, 2009 foi um ano bom. Não viajei, não publiquei nenhum livro, não plantei árvores e talvez tenha inclusivamente perdido alguns amigos. Não fiz, na verdade, nada de especial ou que mereça ser recordado. Desenganei-me, desiludi-me e tirei pesos de cima dos ombros (para lá colocar outros, sim, mas isso que importância tem?). Magoei pessoas que provavelmente não mereciam ter de conviver com a minha estupidez e inconstância, mas, ainda assim, 2009 conseguiu ser de uma banalidade tocante e um ano verdadeiramente encantador. Por mim, podia ser sempre 2009 e não se falava mais nisso. Creio mesmo que devia deixar de ser morcão e fazer alguma coisa nesse sentido, mas ainda não decidi se me limito a amuar e a recusar-me a entrar em 2010 ou se, em vez disso, declaro guerra ao Brasil.
Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009
Maravilha de mortos
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 10 de Novembro de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há mais)

Estou avisado pelo Levítico (“E aquele que blasfemar o nome do Senhor, certamente morrerá”), mas, ainda assim, arrisco, pois, exceptuando o José Saramago, quase ninguém, blasfemo ou não, escapa, tarde ou cedo, à sinistra ceifeira.
Gosto de defuntos e, de entre eles, gosto especialmente de defuntos capazes de alguma acção espectacular – a menos que queiram ser deus e impor regras tão parvas como “não cobiçarás a mulher do próximo”. Ou por outra: sou capaz de apreciar um morto que tenha a pretensão de ser deus, desde que deus seja como o narrador do romance A Morte de um Herói, de Frank Ronan, e, portanto, capaz de declarar coisas tão humildes como “Perdi-o e não posso trazê-lo de volta. Sou apenas Deus e não fui eu quem fez as regras”.
De entre todos os mortos hiperactivos que sou capaz de recordar, tenho um carinho particular por Brás Cubas, o personagem de Machado de Assis, o qual se dispôs a narrar a própria vida a partir da morte, escrevendo as suas memórias póstumas. É um romance admirável, sobretudo se tivermos em consideração que é obra de um cadáver que, logo de entrada, deixa tudo muito claro: “Expiei às duas da tarde de uma sexta-feira do mês de Agosto de 1869, na minha chácara de Catumbi”. Não espanta, portanto, que, tendo em conta a agilidade literária do morto, Santana Lopes se tenha confundido um pouco, acabando, há uns anos, por convidar o brasileiro Machado de Assis para uma cerimónia na Câmara de Lisboa.
(em tempo: referi, numa crónica anterior, a frase “decifra-me ou devoro-te”, proferida por uma personagem de um romance de José Eduardo Agualusa, mas cometi, então, a injustiça de não a tributar também a Machado de Assis e, mais concretamente, à ideia que permitiu a Brás Cubas criar o célebre emplastro; assim se demonstra que não só os mortos são capazes de actividades extracurriculares, como também as suas frases têm o poder de ressuscitar em romances alheios)
Os supracitados que me perdoem, porém, mas nem deus nem Brás Cubas alcançaram um efeito tão espectacular quanto Ademir Jorge Gonçalves, o Tufão, um pedreiro brasileiro de 59 anos que aproveitou o dia de finados, na semana passada, para comparecer no seu próprio funeral, imitando, a seu modo, Nelson Rodrigues e Mark Twain. Tufão tinha morrido num acidente de viação, o desdentado corpo havia sido reconhecido pela própria mãe e metido num caixão, mas, também neste caso, a notícia do seu falecimento era bastante exagerada. O próprio Ademir tratou de ir desfazer o equívoco – e gosto de imaginar que foi caminhando devagar, respirando os eflúvios da Primavera em Santo Antônio de Platina, e assobiando com ironia uma cantiguinha da Xuxa. “Se eu disser morto tem que abaixar./ Se eu disser vivo tem que levantar”.
No caso de Tufão, as causas da insuspeitada ressurreição são já perfeitamente conhecidas: o pedreiro não compareceu ao acidente que o vitimou porque se deixou ficar num bar a beber cachaça (provavelmente uma daquelas cachaças capazes de fazer levantar um morto). Depois não me venham dizer que o álcool prejudica a saúde.

Estou avisado pelo Levítico (“E aquele que blasfemar o nome do Senhor, certamente morrerá”), mas, ainda assim, arrisco, pois, exceptuando o José Saramago, quase ninguém, blasfemo ou não, escapa, tarde ou cedo, à sinistra ceifeira.
Gosto de defuntos e, de entre eles, gosto especialmente de defuntos capazes de alguma acção espectacular – a menos que queiram ser deus e impor regras tão parvas como “não cobiçarás a mulher do próximo”. Ou por outra: sou capaz de apreciar um morto que tenha a pretensão de ser deus, desde que deus seja como o narrador do romance A Morte de um Herói, de Frank Ronan, e, portanto, capaz de declarar coisas tão humildes como “Perdi-o e não posso trazê-lo de volta. Sou apenas Deus e não fui eu quem fez as regras”.
De entre todos os mortos hiperactivos que sou capaz de recordar, tenho um carinho particular por Brás Cubas, o personagem de Machado de Assis, o qual se dispôs a narrar a própria vida a partir da morte, escrevendo as suas memórias póstumas. É um romance admirável, sobretudo se tivermos em consideração que é obra de um cadáver que, logo de entrada, deixa tudo muito claro: “Expiei às duas da tarde de uma sexta-feira do mês de Agosto de 1869, na minha chácara de Catumbi”. Não espanta, portanto, que, tendo em conta a agilidade literária do morto, Santana Lopes se tenha confundido um pouco, acabando, há uns anos, por convidar o brasileiro Machado de Assis para uma cerimónia na Câmara de Lisboa.
(em tempo: referi, numa crónica anterior, a frase “decifra-me ou devoro-te”, proferida por uma personagem de um romance de José Eduardo Agualusa, mas cometi, então, a injustiça de não a tributar também a Machado de Assis e, mais concretamente, à ideia que permitiu a Brás Cubas criar o célebre emplastro; assim se demonstra que não só os mortos são capazes de actividades extracurriculares, como também as suas frases têm o poder de ressuscitar em romances alheios)
Os supracitados que me perdoem, porém, mas nem deus nem Brás Cubas alcançaram um efeito tão espectacular quanto Ademir Jorge Gonçalves, o Tufão, um pedreiro brasileiro de 59 anos que aproveitou o dia de finados, na semana passada, para comparecer no seu próprio funeral, imitando, a seu modo, Nelson Rodrigues e Mark Twain. Tufão tinha morrido num acidente de viação, o desdentado corpo havia sido reconhecido pela própria mãe e metido num caixão, mas, também neste caso, a notícia do seu falecimento era bastante exagerada. O próprio Ademir tratou de ir desfazer o equívoco – e gosto de imaginar que foi caminhando devagar, respirando os eflúvios da Primavera em Santo Antônio de Platina, e assobiando com ironia uma cantiguinha da Xuxa. “Se eu disser morto tem que abaixar./ Se eu disser vivo tem que levantar”.
No caso de Tufão, as causas da insuspeitada ressurreição são já perfeitamente conhecidas: o pedreiro não compareceu ao acidente que o vitimou porque se deixou ficar num bar a beber cachaça (provavelmente uma daquelas cachaças capazes de fazer levantar um morto). Depois não me venham dizer que o álcool prejudica a saúde.
Domingo, 27 de Dezembro de 2009
Notícias do râguebi, esse desporto só para tipos de barba rija

Gareth Thomas, o antigo capitão da selecção de râguebi do País de Gales, retirou-se da competição e anunciou ao mundo que é homossexual. Antes disso, parece, o treinador já tinha desconfiado, confirmou as suspeitas e achou que não havia nenhum problema. Três outros colegas do atleta reagiram igualmente bem à novidade. Ainda assim, parece ter sido avisada a opção de só revelar a coisa publicamente depois do fim da carreira. Pode parecer que não, mas este é o tipo de informação que pode lançar alguma confusão numa formação ordenada.
Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009
A crise. Ah!, como é bonita a crise na casa dos pobrezinhos
A Porsche aumentou em 25% o volume de vendas em Portugal durante o ano de 2009.
A minha rua
Há na minha rua algumas particularidades que aprecio especialmente neste dia em que quase não passam automóveis, os suburbanos não vêm estacionar na praceta e os passeios estão desertos. O Jardim Botânico, por exemplo, abre os portões logo pela manhã e pode-se caminhar pelos trilhos de saibro e respirar livremente, sem luzes piscando convulsivamente nos pinheiros, nem pais natal encarnados, nem meninos rubicundos ameaçados pela hipotermia entre a palha da manjedoura. Outro pormenor encantador é o café da esquina, o qual abre religiosamente as portas no dia de Natal, com esplanada à porta e tudo (nisto incluindo o cheiro a suor da camisa do empregado), e pratica preços diferentes dos do costume, presumo que para honrar o espírito da quadra. O café, por exemplo, passa de 60 para 70 cêntimos no Natal, mas eu pagaria até um euro, ou mais, pelo privilégio de poder tomar café neste dia, antes de vir trabalhar, como noutro dia qualquer.
Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
Os Lorca
Fracassaram, em Espanha, as pesquisas destinadas a recuperar os restos mortais do poeta Federico Garcia Lorca, fuzilado pelos fascistas espanhóis e provavelmente atirado para uma vala comum. O tempo, esse, redimiu o génio de Lorca. E vinga-se dos fascistas com certa ironia. O filme pornográfico El Facha, rodado no bastião franquista do Vale dos Caídos, é protagonizado por uma actriz provavelmente muito talentosa, com o nome artístico de Ann Lorca. Respondendo antecipadamente às reacções escandalizadas da direita espanhola contra a profanação do templo fascista, os produtores sublinharam o carácter nacionalista do filme, composto, parece, por “escenas de sexo 100% español”. Olé.
Milagre

Abel Xavier, o futebolista estrambólico, converteu-se ao islão e vai passar a chamar-se Faisal. Não vai poder comer carne de porco, nem beber álcool. E terá que rezar cinco vezes por dia. Mas o grande teste é o cabelo. Se o cabelo do Abel Xavier passar a ostentar um aspecto razoável, então estaremos perante um verdadeiro milagre.
Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009
Manel d’Novas
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 3 de Outubro de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há mais)

Juro que tinha a intenção de dedicar esta crónica ao movimento do quadril de Beyoncé, a cantora, e ao modo como as capas dos jornais ficam um bocadinho mais primaveris sempre que Beyoncé ganha um prémio da MTV (fica prometido), mas sucede que morreu na semana passada, aos 71 anos, o velho Manel d’Novas. Para quem não saiba, Manel d’Novas é num dos mais notáveis escritores de mornas de Cabo Verde. Como o seu falecimento não suscitou quase atenção nenhuma nos media portugueses, fiquei um pouco indignado e triste com mais este exemplo do galopante triunfo de um certo cosmopolitismo parolo.
Fosse Manel d’Novas inglês, francês, cubano ou norte-americano e o acontecimento teria dado origem, pelo menos, a uma ou duas daquelas primeiras páginas estilosas, com uma fotografia a preto-e-branco a toda a altura da página e uma frase de efeito, compungida, rendendo homenagem à genial simplicidade do trovador da boina. Mas Manuel Jesus Lopes é apenas um escritor de canções num idioma exótico falado em bairros problemáticos de Lisboa. Porém, queiramos ou não, as mornas crioulas de Manel d’Novas são também um dos mais belos e doces produtos da cultura da língua portuguesa, assente no seu sedimento viajante.
A Manel d’Novas faltou aquilo de que beneficiou, por exemplo, o son cubano: um Ry Cooder e um Wim Wenders que acendessem os holofotes sobre a riquíssima tradição musical do século XX cabo-verdiano. A França conseguiu resgatar Cesária Évora e transformá-la numa estrela planetária, e inventou Mayra Andrade, mas faltou quem, suficientemente conhecido, fosse investigar a origem daquelas melodias tristes e belas e descobrir um fenómeno que não fica a dever nada ao que é retratado no filme Buena Vista Social Club. Agora talvez já seja tarde. Já morreu B. Leza, já morreu Ildo Lobo, já morreu Orlando Pantera e já morreu Manel d’Novas, a mão por trás de canções como Nôs Morna, Stranger ê ilusão, Lamento d’um emigrante, Cmé Catchorr ou Apocalipse, esta última celebrizada por Cesária Évora.
Já nem sequer é fácil encontrar, na cidade do Mindelo, quem mantenha viva a memória da música cabo-verdiana. Certa noite, assistindo a uma já rara serenata no Centro Cultural do Mindelo, oficiada por três velhos músicos, um actor brasileiro que estava na cidade há vários dias, e tinha dançado algumas dezenas de zouks, comentou comigo que não sabia como era bonita a música de Cabo Verde. Ainda não tinha podido escutá-la e podia perfeitamente ter ido embora ignorante se não se tivesse organizado aquela maravilha para assinalar o final de mais uma edição do festival de teatro Mindelact.
O caso, porém, talvez não justifique a indignação que senti. Bem vistas as coisas, Manel d’Novas foi a enterrar no Mindelo rodeado pelos seus amigos. Houve música e cantaram-se as mornas que ele escreveu, nas quais se encontra a melhor lição de todas (traduzo Apocalipse directamente do crioulo para que todos entendam): “Para quê tanta maldade neste mundo se nós só cá estamos um segundo?”. Nô perdê Manel d’Novas, mas a sua lição fica aí.

Juro que tinha a intenção de dedicar esta crónica ao movimento do quadril de Beyoncé, a cantora, e ao modo como as capas dos jornais ficam um bocadinho mais primaveris sempre que Beyoncé ganha um prémio da MTV (fica prometido), mas sucede que morreu na semana passada, aos 71 anos, o velho Manel d’Novas. Para quem não saiba, Manel d’Novas é num dos mais notáveis escritores de mornas de Cabo Verde. Como o seu falecimento não suscitou quase atenção nenhuma nos media portugueses, fiquei um pouco indignado e triste com mais este exemplo do galopante triunfo de um certo cosmopolitismo parolo.
Fosse Manel d’Novas inglês, francês, cubano ou norte-americano e o acontecimento teria dado origem, pelo menos, a uma ou duas daquelas primeiras páginas estilosas, com uma fotografia a preto-e-branco a toda a altura da página e uma frase de efeito, compungida, rendendo homenagem à genial simplicidade do trovador da boina. Mas Manuel Jesus Lopes é apenas um escritor de canções num idioma exótico falado em bairros problemáticos de Lisboa. Porém, queiramos ou não, as mornas crioulas de Manel d’Novas são também um dos mais belos e doces produtos da cultura da língua portuguesa, assente no seu sedimento viajante.
A Manel d’Novas faltou aquilo de que beneficiou, por exemplo, o son cubano: um Ry Cooder e um Wim Wenders que acendessem os holofotes sobre a riquíssima tradição musical do século XX cabo-verdiano. A França conseguiu resgatar Cesária Évora e transformá-la numa estrela planetária, e inventou Mayra Andrade, mas faltou quem, suficientemente conhecido, fosse investigar a origem daquelas melodias tristes e belas e descobrir um fenómeno que não fica a dever nada ao que é retratado no filme Buena Vista Social Club. Agora talvez já seja tarde. Já morreu B. Leza, já morreu Ildo Lobo, já morreu Orlando Pantera e já morreu Manel d’Novas, a mão por trás de canções como Nôs Morna, Stranger ê ilusão, Lamento d’um emigrante, Cmé Catchorr ou Apocalipse, esta última celebrizada por Cesária Évora.
Já nem sequer é fácil encontrar, na cidade do Mindelo, quem mantenha viva a memória da música cabo-verdiana. Certa noite, assistindo a uma já rara serenata no Centro Cultural do Mindelo, oficiada por três velhos músicos, um actor brasileiro que estava na cidade há vários dias, e tinha dançado algumas dezenas de zouks, comentou comigo que não sabia como era bonita a música de Cabo Verde. Ainda não tinha podido escutá-la e podia perfeitamente ter ido embora ignorante se não se tivesse organizado aquela maravilha para assinalar o final de mais uma edição do festival de teatro Mindelact.
O caso, porém, talvez não justifique a indignação que senti. Bem vistas as coisas, Manel d’Novas foi a enterrar no Mindelo rodeado pelos seus amigos. Houve música e cantaram-se as mornas que ele escreveu, nas quais se encontra a melhor lição de todas (traduzo Apocalipse directamente do crioulo para que todos entendam): “Para quê tanta maldade neste mundo se nós só cá estamos um segundo?”. Nô perdê Manel d’Novas, mas a sua lição fica aí.
Domingo, 20 de Dezembro de 2009
E quando crescer pode ter uma carreira muito bonita
No auto-rádio, uma criança portuguesa de seis anos (trata-se, segundo a locutora, de um menino muito especial, que exprime opiniões peculiares e está a ser devidamente acompanhado por um psiquiatra) declara que gosta do Paulo Portas, o conservador e populista líder do CDS, e que, se tivesse muito dinheiro, comprava uma metralhadora e uma shotgun e matava todas as pessoas de que não gosta (à cabeça dos quais indica o nome do primeiro-ministro José Sócrates, porque defende a escolaridade obrigatória). Pensando bem, faz algum sentido. Num país desenvolvido, esta criança poderia aspirar a ser um fuhrer, um caudilho ou algo assim. Em Portugal está limitado à intriga política. Ou ao banditismo.
Sábado, 19 de Dezembro de 2009
E então é assim

Gran Sertón: Veredas acaba de chegar às livrarias espanholas. Já tinha tido uma edição em 1967, pela Seix Barral. Tente agora o caro leitor encontrar nas livrarias portuguesas o magistral romance de João Guimarães Rosa. Procure o leitor aquela que é uma das mais impressionantes construções literárias da língua portuguesa. Esmiúce bem a ver se encontra a incrível história de Tatarana e Diadorim. Verá que há-de ser mais fácil provar a existência do Pai Natal do que encontrar por aí o Grande Sertão: Veredas.
Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009
Dez minutos
São dez minutos de absoluta paz. Alice aproveita o intervalo entre o pequeno-almoço e a saída de casa, a caminho de mais um dia de trabalho, para ler. São os únicos dez minutos em que consegue realmente ler: mergulha profundamente na realidade paralela dos livros e aí fica durante dez minutos, longe de tudo, indiferente mesmo ao processamento do bolo fecal (perdoe-se-me a escatologia). Alice suspeita de que esses dez minutos lhe beneficiam igualmente a saúde e a regularidade do trânsito intestinal, mas isso agora não vem ao caso. Estes dez minutos são completamente livres e Alice lê. Ocorre-lhe, aliás, que, se pudesse passar o dia inteiro na retrete, lendo sem pensar em mais nada, talvez pudesse chegar a ser uma intelectual, uma pessoa culta, alguém com um saber enciclopédico e essas merdas. As melhores ideias que tem chegam-lhe nesses dez minutos, enquanto lê. Aí pensa na vida. Mas são só esses dez minutos e Alice sabe que vão ser sempre apenas esses dez minutos, um intervalo no resto da vida. Sabem-lhe muito bem, os dez minutos. Tão bem que, às vezes, até se esquece do que ali foi fazer e chega atrasada ao trabalho.
Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
Conto de Natal

Dezembro, efectivamente, tinha-se posto um mês bastante frio. A neve cobria os campos, os telhados das casas e os ramos dos abetos. Arrepiava-se só de imaginar a borrasca, mas, apesar do mau tempo, os indivíduos mantinham os seus hábitos e as suas necessidades. A avó da menina, por exemplo, estava doente e necessitava de um pote de manteiga como de pão para a boca, como costuma dizer-se, a fim de barrar os vergões que ganhara nas nádegas por passar tanto tempo sentada da cadeira de baloiço, sem mais nada que fazer do que ler os tijolos do Dan Brown. Telegrafou à filha, a qual, diligente, ordenou à menina que atravessasse o temporal montada num burrico para levar a manteiga à avozinha. A tigela de manteiga foi acomodada num cestinho de verga (que levava também meio bolo-de-mármore e uma posta de bacalhau de cura amarela) e a menina pôs-se a caminho, agasalhando-se como pôde, com um casaquinho de fazenda e um barretinho de lã vermelha na cabeça. Na floresta, a menina do barretinho vermelho encontrou o Pai Natal. Ele tinha um ar muito vicioso e celerado, com umas barbas esgrouviadas e um olhar demente. Era muito feio e devia ser também muito mau:
- Para onde você vai?
- Vou à casa da vovozinha, que está muito doente, levar-lhe a manteiga da mamãe.
- Onde fica a casa de sua avó?
- Naquela curva do caminho logo depois da ponte de pedra.
- Sei muito bem onde é. — disse o Papai Noel. — Essa velha é boazuda pra cacete.
A história, como se sabe, não termina nada bem. O Pai Natal fez companhia à menina, com o fito (muito perverso) de surpreender a velha, mas a avó da barretinho não queria voltar a vê-lo nem barrado com mostarda de Dijon (também não gostava de bacalhau de cura amarela). Muito contrariado, o Pai Natal ponderou comer a menina, mas entretanto vieram os lobos e, logo após, os caçadores. Pôs-se ali uma cena selvagem e muito desagradável, com tiros, gritos e uivos, findo a qual se contabilizaram várias baixas: dois lobos feridos com gravidade, um caçador perneta e o Pai Natal irremediavelmente morto e bastante desfigurado.
- Era muito feio e desagradável, mas beijava muito bem e talvez fosse, afinal, um bom homem – condoeu-se a avozinha, acometida, sem dúvida, pelo pontiagudo remordimento da culpa.
Contado assim ninguém acredita, mas, felizmente, o Pai Natal quis tirar um retrato com a menina do barretinho vermelho no gnomo do photomaton. A avozinha guarda religiosamente a imagem que demonstra a verdade inquestionável de todos os factos aqui narrados. Tem-na num passpatour que está em cima do psiché.
(clicar na imagem para ampliar, sff)
Sodoma

Recebi um convite, não imagino porquê, para a estreia do mais recente filme do realizador Arturo Ripstein, "El Carnaval de Sodoma". Com muita pena minha, a cerimónia decorreu ontem em Oaxaca, no México, e não consegui lá dar uma saltada. Tive, digamos assim, outros afazeres. Surpreende-me, contudo, que o pessoal do Cine Club El Pochote tenha sabido que aprecio bastante os temas bíblicos e que, portanto, este é um filme capaz de suscitar o meu mui selectivo interesse. E seria assim mesmo que a acção decorresse em Gomorra. Obrigado, pá.
Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009
Deus e o diabo jogam às cartas
A propósito de mais esta entrada do impagável Diário de Bernfried Järvi, ocorre-me que vi, em tempos, uma mulher velha jogando cartas num desses grupos de reformados e ociosos que se juntam nos jardins da cidade. Se a memória não me trai (e trai-me cada vez mais e mais frequentemente), vi-a no jardim diante da Câmara de Matosinhos, em pleno exercício da batota, não sei se da lerpa ou da bisca lambida.
Pensei, então, que a presença da mulher num meio tão arreigadamente masculino e conservador como aquele devia revestir-se de uma importância sociológica não negligenciável. Aquela senhora jogando cartas havia de ser a consumação do longo e penoso processo de emancipação feminina. Mas tive, entretanto, mais em que ocupar o tempo.
Creio já ter deixado claro que o assunto me interessa sobremaneira (ainda que tenda naturalmente a valorizar outras modalidades de emancipação feminina), pelo que considero que a presença do elemento estranho no domínio másculo da bisca de jardim deve ser levada na devida conta e, eventualmente, estudada por quem de direito. Importa saber até que ponto, por exemplo, a invasão feminil implicou alterações na semântica das conversas entre os jogadores ou, ainda, se estes se privam de coçar as virilhas na presença do belo sexo; se arrotam e fazem batota para prejudicar a senhora; ou de que modo, enfim, são tratados os jogadores que aceitam formar pares com a mulher.
Há aqui, creio, todo um campo de investigação que deve ser explorado pelas ciências sociais e, para além disso, existe uma questão teológica que importará igualmente esclarecer: se é possível encontrar uma mulher a jogar cartas com os velhos do jardim, a possibilidade de lá estar também o diabo, aqui aventada por Järvi, não é completamente tola. Neste caso, talvez seja possível concluir, por simples dedução lógica, que o diabo efectivamente existe. E, existindo o diabo, é possível que exista também deus. E que joguem os dois às cartas.
Pensei, então, que a presença da mulher num meio tão arreigadamente masculino e conservador como aquele devia revestir-se de uma importância sociológica não negligenciável. Aquela senhora jogando cartas havia de ser a consumação do longo e penoso processo de emancipação feminina. Mas tive, entretanto, mais em que ocupar o tempo.
Creio já ter deixado claro que o assunto me interessa sobremaneira (ainda que tenda naturalmente a valorizar outras modalidades de emancipação feminina), pelo que considero que a presença do elemento estranho no domínio másculo da bisca de jardim deve ser levada na devida conta e, eventualmente, estudada por quem de direito. Importa saber até que ponto, por exemplo, a invasão feminil implicou alterações na semântica das conversas entre os jogadores ou, ainda, se estes se privam de coçar as virilhas na presença do belo sexo; se arrotam e fazem batota para prejudicar a senhora; ou de que modo, enfim, são tratados os jogadores que aceitam formar pares com a mulher.
Há aqui, creio, todo um campo de investigação que deve ser explorado pelas ciências sociais e, para além disso, existe uma questão teológica que importará igualmente esclarecer: se é possível encontrar uma mulher a jogar cartas com os velhos do jardim, a possibilidade de lá estar também o diabo, aqui aventada por Järvi, não é completamente tola. Neste caso, talvez seja possível concluir, por simples dedução lógica, que o diabo efectivamente existe. E, existindo o diabo, é possível que exista também deus. E que joguem os dois às cartas.
O ano de 1916

Parece que Francisco Franco, o ditador espanhol, planeou invadir Portugal no decurso da II Grande Guerra Mundial, no âmbito de um mais vasto projecto colonial. Como, porém, colecciono informações inúteis, a notícia não me apanhou completamente desprevenido. Franco tinha um testículo a menos e tenho como certo que se deve desconfiar sempre de um homem fanado. São indivíduos capazes de tudo. Ando há que tempos, aliás, para explanar uma teoria segundo a qual toda a história do século XX, com o seu cortejo de guerras e atrocidades, foi decisivamente influenciada por dois acontecimentos traumáticos ocorridos no ano de 1916, com poucos meses de distância, aos quais, creio, não são alheios os planos expansionistas de Franco.
Eu gosto de pequenas notícias. É normalmente aí, entre as breves que os jornais e os jornalistas tratam com desdém e menosprezo, que se encontram grandes verdades e revelações espantosas. Foi o que sucedeu também neste caso. Em Maio passado, salvo erro, vários jornais concederam uma migalha dos seus espaços editorais à informação segundo a qual, para além do bigodinho ridículo, os ditadores sanguinários Adolf Hitler e Francisco Franco tinham também em comum o facto de terem só um testículo. Em ambos os casos, o outro apêndice foi perdido em combate: Hitler perdeu o seu na batalha do Somme, a 7 de Outubro de 1916, e Franco viu-se privado dessa parte da sua anatomia num combate em El Biutz, perto de Ceuta, no final de Julho do mesmo ano.
Respeitador como sou dos cidadãos portadores de deficiência, não sustentarei que Hitler e Franco tenham sido menos homens do que qualquer outro indivíduo do sexo masculino – o ditador espanhol veio até a ter filhos depois do incidente africano – e que, por via disso, tenham procurado ambos afirmar as respectivas virilidades do modo mais sinistro de todos. Mas creio que ninguém poderá negar que esta é uma perspectiva bastante inquietante (e também um pouco divertida), assim como uma hipótese de trabalho cheia de potencialidades no campo da psicanálise histórica.
Bem vistas as coisas, nós, portugueses, somos quem melhor pode interpretar e fazer um esforço para compreender a pretensão expansionista de Franco (e de Hitler), ou não estivesse o nosso ADN nacional infectado pela nostalgia da perda de D. Sebastião em Alcácer Quibir (não muito longe de Ceuta, aliás). Se um povo inteiro pode viver suspenso das manhãs de nevoeiro, à espera de recuperar, ao menos simbolicamente, o rei perdido em combate, imagine-se como se há-de sentir um só homem que tenha ficado privado de um testículo em Ceuta.
Hitler começou uma guerra mundial e foi responsável por milhões de mortes, mas talvez, no fundo, apenas pretendesse conquistar o simbólico campo de batalha nas margens francesas do rio Somme. Franco planeou invadir Portugal e, sabe-se agora, o que queria realmente era estabelecer um império colonial no Norte de África – aí onde estão El Biutz e a traumática memória de um testículo perdido em 1916, esse ano tão aziago.
Crónica publicada no P2 do Público, no dia 27 de Outubro de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há mais
Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009
Post de Natal

Um estudo da consultora Deloitte, que a agência Lusa hoje revelou, garante que os portugueses vão riscar duas pessoas das listas de Natal. O tuga, de acordo com o insuspeito estudo, tornou-se um dos mais cautelosos cidadãos da Europa e, por isso, vai comprar apenas treze presentes (em média, claro).
Gostava de ser capaz de manifestar choque & pavor ante a catástrofe em curso, mas, muito sinceramente, este é um cenário que não me deixa espantado nem surpreendido. Na verdade, é ainda necessário ser-se muito crédulo para comprar treze presentes de Natal, sobretudo depois de ontem termos visto o presidente do Governo Regional da Madeira pronunciar, nos telejornais, a destruidora confissão segundo a qual ele é o Menino Jesus.
Como isto anda tudo ligado, e para que tenhamos presentes os verdadeiros e espitiruais valores do Natal, por oposição ao horroroso mercantilismo, alguns católicos lançaram a ideia de pendurar nas janelas um pano vermelho com um Menino Jesus estampado (o qual, parece, pode ser comprado nos melhores templos da especialidade pela módica quantia de quinze euros). Ainda não vi nenhum Menino Jesus nas janelas dos bairros sociais do Porto, mas as vivendas e os apartamentos da Foz e de Nevogilde ostentam já inúmeros exemplares do bento estandarte.
Estou, pois, à beira de concluir que o Menino Jesus não gosta dos pobrezinhos (ou vice-versa). E aviso desde já que não voto no Alberto João Jardim nem que o Scolari desça à terrinha e mande pendurar um Menino Jesus em cada janela.
Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
O que se passa em Paredes?

“Encontro facilmente qualquer coisa interessante na depravação”, comenta Simon Tanner, o personagem de Robert Walser, depois de ter beijado na boca o enfermeiro Heinrich. A mim sucede-me a mesma coisa (encontrar interesse na depravação, bem entendido, que não conheço o enfermeiro Heinrich de lado nenhum) e, por isso, ando muito curioso com o que se passa no concelho de Paredes, provavelmente o mais depravado do país.
Há meio ano atrás, Paredes foi notícia porque se descobriu que dois funcionários municipais daquela simpática localidade nortenha aproveitavam as instalações das piscinas paredenses para se entregarem a gostosas práticas sexuais, as quais eram filmadas para posterior divulgação e engrandecimento da terra. Incompreensivelmente, a autarquia não enxergou o alcance da iniciativa e decidiu castigar o arrojado casal.
Já no passado domingo, dia do senhor, vários habitantes da localidade depararam com um casal dentro de um automóvel, amando-se com certo desvario numa das mais movimentadas artérias da cidade. "Eles não se largavam. A rapariga estava sem camisola e o rapaz estava com as calças para baixo. Eu e outras pessoas passámos junto ao carro, mas eles não se importavam com ninguém", descreveu ao Diário de Notícias uma das testemunhas da ocorrência.
Simon Tanner considera também que, “com efeito, a depravação é muito instrutiva, permite uma visão profunda do mundo”. Deve ter sido algo parecido com isto o que pensou um morador do Largo José Barbosa, que até chamou a respectiva esposa para assistir ao ardor do casal amante. “Da janela da minha casa assistia-se a tudo", contou.
Houve, todavia, alguém que, não tendo o elevado sentido de instrução demonstrado por Tanner e por aquele vizinho, optou por chamar a polícia municipal ao local em vez de aproveitar para aprender alguma coisinha. Quando os agentes chegaram, meia-hora depois, o instrutivo casal, parece, ainda se achava em “flagrante delito”; com a boca na botija ou lá o que é.
Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
A vida dos outros
Fui ontem fazer compras ao hipermercado (sim, alguém tem que fazê-lo). À saída, no parque de estacionamento (subterrâneo, como convém), o lugar ao lado do meu carro estava ocupado por uma viatura em cujo interior havia um casal de pessoas com uma certa idade e aquele ar característico que têm os professores quando se aposentam (ele tinha uma barba encanecida, ela óculos redondos com aros metálicos). Estavam sentados um ao lado do outro, imóveis e olhando fixamente em frente. Enquanto ali estive, arrumando as compras no carro, não fizeram mais nada. Olharam em frente, como estátuas, para os carros estacionados no parque subterrâneo. Mas talvez, por dentro, estivessem vivos.
Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009
Medicina desportiva
A Medicina, creio, não encontrou ainda forma de certificar o apuro sanitário do bom senso e do bom gosto. Como, porém, metade da equipa de futebol do meu clube se apresentou ontem em Madrid a jogar de chuteiras amarelas, talvez seja boa ideia sujeitar os rapazes a um teste de despistagem do daltonismo.
Terça-feira, 8 de Dezembro de 2009
Praia Grande
© (Praia Grande, S. Vicente, Cabo Verde)
Todo o exagero conduz, mais cedo ou mais tarde, a uma reacção de sinal contrário – é uma questão de esperar o tempo suficiente (ou de ficar suficientemente velho).
A parte do mundo que tem acesso aos solavancos da modernidade ainda está entusiasmada com o Messenger, o Twitter, o Facebook e a espantosa possibilidade de entupir a vida alheia com breves desabafos de 140 caracteres (logo se verá que moda pegará depois desta), mas já há, mesmo entre os adeptos da estonteante velocidade das novas tecnologias de comunicação, quem desconfie da absoluta bondade da vida online. São, está bom de ver, sujeitos que principiam a tornar-se botas-de-elástico (soberba expressão de outros tempos): desligam o telemóvel quando se vão deitar, passam o fim-de-semana longe do computador, recusam entender o Twitter e apagam a conta do Facebook quando deixam de conseguir saber como estão os amigos, subitamente afogados pela permanente tuítada (horrenda expressão dos novos tempos) de certas e determinadas pessoas.
Na verdade, ninguém necessita, nem é capaz, de saber permanentemente tudo sobre todas as coisas. Há, ainda assim, quem tente fazê-lo e acabe por viver numa espécie de permanente jet-lag digital. É o que diz, num manifesto recentemente publicado no Wall Street Journal, John Freeman, um dos editores da prestigiada (e muito trendy) revista Granta. Naquele artigo, que resume o espírito do livro A Tirania do E-mail, Freeman considera que os novos meios de comunicação, cada vez mais rápidos, não são compatíveis com um estilo de vida humanamente razoável. “A internet forneceu-nos uma quantidade de informação quase ilimitada, mas a velocidade a que funciona – e a que nós, por causa dela, trabalhamos – privou-nos dos seus benefícios”, escreveu.
Nesta espécie de manifesto pela comunicação lenta, Freeman pergunta, por exemplo, “quantas das nossas recordações mais felizes foram criadas em frente ao monitor?”. É uma boa questão.
Se passar em revista os últimos meses da minha vida, vejo que retive apenas instantes absolutamente incompatíveis com a trepidação do quotidiano online: um ou outro livro, sorrisos, beijos lentos, abraços dos meus filhos e almoços e jantares demorados que incluíram acepipes como a perna de borrego leital de Marvão, a chamuça de alheira de Armamar, as costelas mendinhas de vitela dos lameiros do Barroso ou o arroz de cabidela da minha mãe – e vieram coros de anjos anafados entoar cânticos que só eu escutei.
Fujo agora, sempre que posso, das fontes de informação urgente e, com isto, ganhei tempo para ver o pôr-do-sol, saber em que fase está a lua e reparar nas folhas juntando-se em crepitantes tapetes sobre o pavimento. Quando me perguntam por um momento em que tenha sido realmente feliz, lembro-me de ter ido a correr sozinho até ao ponto mais afastado da Praia Grande, na ilha de S. Vicente, e de ali ter ficado a gritar o mais alto de que fui capaz, enquanto as ondas se desfaziam na areia com um rumor violento.
Não sabia, sequer, que era possível berrar assim. Nem tinha noção do bem que faz.
Crónica publicada no P2 do Público, no dia 29 de Setembro de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há mais
Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009
Mudanças
Ao fim de vinte anos de trabalho, meti ombros à tarefa de encaixotar os meus pertences pessoais num caixote de cartão. Vinte anos e o caixote ficou quase vazio depois de ter posto ordem nas coisas e remetido ao lixo tudo o que era inútil. Vinte anos e não reuni quase nada que valha a pena transportar de um lado para o outro, das velhas instalações para as novas. Levaria comigo um caixote quase vazio se não tivesse guardado lápis velhos, revistas gastas e alguns livros que não li e que não pretendo ler. Os livros são muito úteis nestas circunstâncias: fazem bastante peso no caixote e ajudam a disfarçar os vinte vagos anos que deixei fugir.
Domingo, 6 de Dezembro de 2009
Chuva
Eis mais um domingo: a chuva outra vez, o vento roubando as últimas folhas às árvores, as poças no chão, a casa fria e vazia, uma cigarrilha após outra, um, dois, três cafés, a Lisa Ekdahl a cantar. Que mais? Chuva outra vez. Chuva a rodos. Um largo e inóspito mar à porta de casa (com dois ou três dedos de altura). Chuva, chuva, chuva. E o vento, às vezes. Os vidros abanam no caixilho das janelas de um dos quartos e deixo-me ficar na cama, à espera não sei de quê. O Inverno não morre. Eis mais um domingo que passou como se não valesse a pena ter existido.
Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009
Os Tanner

Não sei como dizer isto sem parecer completamente parvo, mas tem-me custado um pouco ler Os Irmãos Tanner, de Robert Walser, ainda que, de algum modo, me fascine o modo como Walser escreve, transformando os irmãos em personagens torrenciais e um pouco loucas (ou muito loucas, dependerá do grau de destrambelhamento do observador), talvez por serem demasiado livres. Aquelas pessoas são capazes de falar interminavelmente sem cansaço nenhum, analisando todos os possíveis ângulos de um assunto, mesmo que o assunto não interesse absolutamente nada. Invejo a Walser essa capacidade para escrever sem parar, para criar monólogos enormes e contrários a todo a lógica, frases e frases e frases que, às vezes, se contradizem umas às outras. Edwig, por exemplo, diz uma coisa à noite e outra completamente diferente na manhã seguinte, desmente-se, gosta e desgosta, e, ainda assim, sou capaz de respeitá-la. Simon quer hoje ser livreiro e nisso demonstra uma vontade inquebrantável, mas logo tudo aquilo o aborrece. É o mais admirável dos irmãos precisamente por ser o mais desregrado, o mais tolo e o mais improvável de todos. Não considera necessário deixar de apreciar as coisas belas do mundo ou maculá-las com obrigações quotidianas e não se dá ao aborrecimento de pensar no futuro. Anda pela cidade estranhando o ritmo apressado dos outros e perguntando-se por que correm e para onde. Não sei o que irá acontecer com o livro, se vou terminá-lo ou não, mas tenho a certeza de que o mundo seria um bocadinho mais animado se andassem por aí muitos Tanner, indiferentes às calças esfarrapadas, mas apreciando bastante a liberdade que há em caminhar por aí e viver sem amanhã e essas merdas. E depois há a descrição do jovem poeta de fato amarelo, um cadáver no meio do caminho de Simon, em pleno Inverno. Parece a antecipação da morte do próprio Walser.
Teatro Circo
Encontrei ontem o caderninho gasto onde tinha anotado o nome que, há dois anos e qualquer coisa, decidi dar a este blogue: “Circo Anatómico”. Não sei que voltas lhe dei, mas, no fim, o nome acabou por ficar Teatro Anatómico. Tendo em conta o que isto tem sido, o nome original fazia mais sentido.
Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009
À atenção das autoridades de saúde

Eis, enfim, uma notícia sobre a gripe A que realmente me interessa. Uma médica norte-americana de origem ucraniana defende que, em situações de emergência, se usem as copas dos soutiens para improvisar uma máscara que evite o pernicioso contágio. Isto, parece-me, é a maior invenção a favor da libertação da mulher (e contra o empolamento glandular artificial) desde a Grande Queima. Se me virem por aí a espirrar, não estranhem. Há causas que merecem ser agarradas com ambas as mãos.
Pornografia

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social, que deus a guarde, deliberou outra vez contra os conteúdos pornográficos não pagos ou sem acesso condicionado, invocando, para tal, a Lei da Televisão e o artigo que ameaça com a perda de licença o operador que transmita “programas susceptíveis de prejudicar manifesta, séria e gravemente a livre formação da personalidade de crianças e adolescentes”. Não gostei. Antes de mais, parece-me que a ERC se demite das suas funções, abstendo-se de regular, como em outros capítulos da actividade, a qualidade da pornografia que nos chega a casa. Vêem-se, na verdade, coisas muito fraquinhas, que estão para a pornografia como os jornais da TVI para a informação. Mas sou um espírito aberto e estou sempre disposto a ser tolerante para com as deliberações beatas e algo taliban de entidades com a ERC, a ASAE e o Governo em geral, o qual pretende enfiar-me um chip não sei onde, à canzana, e quanto a isto a ERC não diz nada. Também não percebo os motivos pelos quais a ERC autoriza outros conteúdos que manifestamente ameaçam de forma grave a formação da personalidade das crianças e adolescentes, como sejam as transmissões de combates de wrestling, de jogos de póquer ou de encontros de benfiquistas. Pela minha parte, e para não estropiar demasiado os meus petizes, tapo-lhes os olhos e o nariz quando a televisão transmite debates parlamentares, explico-lhes didacticamente, sobretudo ao moço, que a Beyoncé não é uma pessoa de verdade e que só existe nos videoclips, e mudo de canal à pressa sempre que o pivot do telejornal anuncia mais um aumento no preço dos combustíveis.
Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
Crónica de Verdade

Ainda não me foi concedido o privilégio de visitar Vénus, coisa que teria vindo muito a calhar nas férias agora findas, mas não troçarei, ainda assim, de Miyuki Hatoyama, a esposa do futuro primeiro-ministro do Japão, recentemente eleito. A senhora Hatoyama reclama, entre outras coisas aparentemente bizarras, ter sido abduzida por extraterrestres, que a terão levado num óvni triangular para conhecer o planeta-estufa. “Era muito bonito e verde”, descreveu a dama nipónica, levando-me a supor que Vénus seja parecido com o Gerês.
Ao contrário de muita e razoável gente, eu acredito em extraterrestres (ou, pelo menos, na sua possibilidade) e, sendo um amante dos dias longos, do Verão e do calor em geral, aprecio particularmente Vénus, onde um dia dura 5832 horas terrestres e as temperaturas atingem os 460 graus centígrados. Tenho, pois, inveja de Miyuki Hatoyama – não só visitou Vénus como pode, pelos vistos, atestar a existência do Japão, estranho país de que já ouvi falar, mas que nunca vi com os próprios olhos. Tenho avistado, ainda assim, uma quantidade enorme de japoneses e, se fosse a julgar pelas aparências, concluiria que há mais japoneses do que extraterrestres, o que não me parece plausível, tendo em conta a infinita extensão do universo (a menos, claro, que o universo seja parecido com o Alentejo: vasto e, porém, pouco povoado).
Em termos epistemológicos, conto-me entre aquele grupo de indivíduos que, colocados diante de um fenómeno misterioso e mais ou menos inexplicável, como a imaculada concepção, os moai da ilha da Páscoa ou a presença do Luisão na selecção brasileira de futebol, tendo a recorrer à mesma explicação que justifica a existência do super-homem: interferência alienígena na esfera terrestre. Não zombarei, por isso, das convicções esotéricas da senhora Hatoyama, uma vez que também desconfio que os extraterrestres têm o hábito de visitar detentores de cargos públicos, alguns aspirantes a primeiro-ministro e mesmo familiares próximos de políticos com reconhecido potencial. Enquanto ministro da Defesa e do Mar, por exemplo, Paulo Portas conseguiu garantir, com a ajuda alienígena da Nossa Senhora de Fátima, que o crude do navio Prestige não conspurcasse o mar português. E o ex-ministro da Economia Manuel Pinho foi várias vezes visitado por marcianos (tinham duas antenas na cabeça, como numa célebre fotografia) que lhe anunciaram o fim da crise.
É também por isso que julgo não dever afrontar a doutora Manuela Ferreira Leite. Certos sátiros, como o primeiro-ministro José Sócrates, poderão entreter-se em jogos de palavras, alegando que a verdade não é uma graça divina ou uma patente registada pela líder do PSD, mas eu creio convictamente que a Verdade lhe foi revelada por habitantes de não sei que planeta. Um dia destes, tenho a certeza, Manuel Ferreira Leite acabará por esclarecer tudo. Talvez diga que a Verdade (que não inclui vestígios de asfixia democrática na Madeira) é como Vénus ou o Paul da Serra: bonita e muito verde.
Crónica publicada no P2 do Público, no dia 9 de Setembro de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há mais
Subscrever:
Mensagens (Atom)