terça-feira, 30 de agosto de 2011

A destruição de livros está longe de ter terminado


Sem rodeios: encontrava-me semi-defenestrado, metade do corpo dentro de casa, a outra metade lá fora, esfregando os vidros, quando a minha vizinha do lado perguntou lá de baixo, da rua, se podia incomodar-me um minutinho. Não incomodou nada. Veio, por causa da crónica anterior, trazer-me um livrinho totalmente dedicado à queima de livros ao longo dos tempos: A Universal History of the Destruction Of Books, de Fernando Báez (2004; editado em Português, em 2009, pela Texto Editora), é muito mais exaustivo do que o meu artigo podia ser e elenca exemplos de destruição desde a antiga Suméria ao Iraque "libertado" pelos norte-americanos em 2003. E conclui: "A internet (...) tornará mais difícil a destruição de livros, mas não deterá a censura ou o desejo de erradicar os dados armazenados nos computadores. Por outras palavras, a destruição de livros está longe de ter terminado".

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Máquinas de sonhar*



Quem tenha lido o D. Quixote de la Mancha, o engenhoso romance de Miguel de Cervantes, recordará que, após o primeiro regresso a casa do cavaleiro da triste figura, bastante amachucado por sinal, um padre e um barbeiro, de conluio com a governanta, se dedicam a deitar fogo à biblioteca do fidalgo. Convencidos de que os romances de cavalaria tinham sido os responsáveis pelo desatino que acometeu Quixote e o levou à insana aventura de ser cavaleiro andante pelas terras de Espanha, barbeiro e cura chegam ao ponto de emparedar a biblioteca, para que não ficasse rasto nenhum daquela máquina de sonhar e imaginar que, pelos vistos, são os romances impressos.

Queimar livros é, aliás, uma prática quase tão antiga como a própria existência dos livros. A Biblioteca de Alexandria, após séculos de incidentes menores, acabou reduzida a cinzas no ano de 391, às ordens de um bispo cujo nome não quero recordar, o qual fez questão de guardar para si o prestígio de inaugurar a era de intolerância e trevas que reinaria pelos séculos seguintes.

Durante a época medieval, a Inquisição dedicou especial atenção à queima dos livros proibidos e tidos por pecaminosos. Queimaram-se uma boa quantidade deles, quase sempre reunidos, segundo ficou escrito, em canastras cheias para os autos de fé em que, ainda assim, a atracção principal era o sacrifício às chamas de gente viva que, por exemplo, praticasse o suspeitíssimo hábito da higiene pessoal ou atentasse contra deus através de palavras, actos ou omissões.

Na Alemanha de 1933, os nazis empenharam-se igualmente na queima de livros, juntando aqueles que tivessem sido escritos por autores inconvenientes e chegando-lhes o fogo purificador em grandes pilhas armadas nas praças públicas das cidades. Impunha-se, afinal, eliminar os elementos estranhos que pudessem “alienar a cultura alemã”. E daí ao Holocausto foi, como se sabe, um ápice.

De volta à literatura, Ray Bradbury imaginou também, em Fahrenheit 451, uma sociedade do futuro, extremamente bem comportada (como alguns políticos gostam), na qual todos os livros estariam proibidos – e, com eles, a opinião individual e o pensamento crítico. Para garantir o bem-estar da nação, um corpo de bombeiros dedica-se exclusivamente à queima dos perversos volumes impressos, à temperatura de 451 graus fahrenheit. É uma parábola eficaz, mas peca por falta de ambição ou de espírito visionário.

Ray Bradbury não imaginou, por exemplo, que o futuro, seja lá o que venha a ser, talvez não conte sequer com livros impressos, mas antes com dispositivos digitais de leitura. Nessas maquinetas se poderão ler ficheiros adquiridos virtualmente, os quais, pelos vistos, terão morada numa espécie de nuvem de éter (cloud), a partir da qual podem ser descarregados. Daí que, correndo-lhes as coisas de feição, os inquisidores do porvir já não precisarão de recorrer ao fogo. Basta-lhes soprar a nuvem de liberdade, loucura e sonho que, eventualmente, ainda ajude o Homem a pensar pela sua cabeça.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 16 de Agosto de 2011

domingo, 28 de agosto de 2011

Volta ao mundo sem sair dos livros

Saí do quarto, evidentemente. Agosto é (é? ainda é?) mês de praia, de esplanada, de sofá, de mesa. Fui à Mancha de Quijote e aos sertões de Angola. Percorri as estradas desse sítio que se chamou Jugoslávia e vi os campos de Pousaflores. Estive em Olinda e na costa leste de Inglaterra. Passei pelo Congo, pela Costa Brava e por outros sítios cujo nome já esqueci. Hoje, pela mão do João Paulo Borges Coelho, entrei em Lourenço Marques pelo mar e vi o Hertzog baloiçando nas águas. Era 1918 e tinha estado a chover. E em toda a parte estive sem sequer sair dos livros.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O meu milagrário pessoal

Iniciei, entretanto, a leitura de Milagrário Pessoal, que é, salvo erro, o mais recente romance do José Eduardo Agualusa. A dado passo, logo no início, o octagenário professor/narrador explica que toma nota dos "factos extraordinários" que lhe sucedem num caderninho que é o seu milagrário pessoal; coisas, enfim, como "Cruzou-se comigo, no Chiado, uma menina dos seus dezoito anos. Ruiva, muito ruiva mesmo, a pele atormentada por um enxame de sardas". E por aí adiante. Penso no tipo de coisas que poderiam figurar no meu milagrário pessoal, no caso de me dar à canseira de escrever um, e creio que, muito provavelmente, me limitaria a anotar, um dia atrás do outro, qualquer coisa como: "Mais uma manhã e continuo vivo. Ainda não declarei insolvência e tenho as contas em dia. Deve, por isso, estar tudo bem".

Manual prático para mais um dia de preguiça

Acordei mais cedo do que tem sido costume e com o sol a insinuar-se entre os buraquinhos da persiana, circunstância que me fez imaginar que me levantava da cama muitíssimo vivaz e que, por isso, seguiria o exemplo de W.G. Sebald n'Os Anéis de Saturno e sairia para a rua disposto a caminhar durante o dia todo, indo daqui até Melres a pé, por exemplo, ou daqui até Angeiras sempre a caminhar junto à praia, determinado como um marine dos filmes. Deitado na cama e a imaginar que palmilhava quilómetros como um peregrino de coisa nenhuma, planeava já certos troços do caminho que faria e deitava contas ao que necessitava absolutamente de levar — água, máquina fotográfica, um caderninho no qual tomaria as notas (naturalmente muito perspicazes) que, depois, desenvolveria —, quando resolvi, enfim, levantar-me de um salto e tomar banho. Foi então que notei que me doía o pescoço e, logo a seguir, reparei que umas nuvens grossas ocultavam o sol e, enfim, pareceu-me que nenhum dos meus planos fazia já nenhum sentido, pois é absolutamente certo que um preguiçoso consegue sempre encontrar um modo de justificar-se no caso de, como de costume, acabar a fazer coisa nenhuma, sentado no sofá a ler (mais) um livro ou diante do computador a escrever mais um pedaço de prosa inútil. Mas podia ser pior; podia ter-me dado (outra vez) para lavar as janelas do apartamento.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Triste figura*



Que coisa absolutamente moderna é o D. Quixote, a obra que Miguel de Cervantes publicou há coisa de quatrocentos anos. Já lá estava quase tudo o que veio a ser a ficção nos séculos posteriores, nisto se incluindo o quinhão de comédia e tragédia que sempre devem dar corpo a um romance, mas também os mecanismos do suspense entre capítulos, o jogo da metaliteratura, o enovelamento romanesco e a tentação da sequela (a primeira parte do livro, tal como hoje o conhecemos, saiu no início de 1605 e a segunda, mais fraquinha, só veio a ser editada dez anos depois, incluindo respostas às críticas e reflexões sobre a difícil arte de narrar). O Quixote é tão bom que me parece agora muito parvo que me tenha sido necessário fazer quarenta anos para finalmente ganhar juízo e vergonha na cara, tendo, pois, passado a lê-lo. Triste figura fiz eu enquanto perdia tanto tempo a ler coisas sem interesse quase nenhum, só porque eram a última sensação literária, quando teria gasto esse tempo com muito maior proveito entretendo-me com essa velharia maravilhosa que são as aventuras do insensato cavaleiro e do seu escudeiro, tão fiel como desbocado, tão humilde quanto desmedidamente ambicioso.

Não sei de qual dos dois gosto mais, se de Quixote ou de Sancho Pança, ou se prefiro o destrambelhamento da dupla às histórias que com eles se cruzam, como a do curioso impertinente, a quem a extrema desconfiança abre caminho à maior das traições, ou a do soldado desterrado que regressa da moirama na companhia da mais bela das argelinas; se me convence mais o rigor formal dos episódios que o têm ou o desbragamento daquela passagem em que Sancho Pança se borra de medo. Mas é tudo muito melhor do que a versão em desenhos animados dos anos 1980, na qual o fidalgo era ruivo e os episódios sempre começavam com o próprio Cervantes escrevendo à pena a frase inicial do livro: “En un lugar de la Mancha de cuyo nombre no quiero acordarme...”.

Tal como fui capaz de entendê-lo, o humilde fidalgo Alonso Quijano é, quando transmutado em D. Quixote, um homem muitíssimo livre e apenas governado pela louca máquina da imaginação. Se confunde moinhos de vento com gigantes, uma bacia de barbeiro com o elmo de Mambrino, estalagens com castelos ou rebanhos de ovelhas com exércitos, fá-lo não tanto por ter o espírito perturbado pela insânia, mas sobretudo por ser capaz de ver aquilo que mais convém ao fito de viver aventuras que possam medir-se com aquelas que figuram nos romances de cavalaria. Quando se queixa de ter sido enfeitiçado ao ponto de não ver os logros em que vai caindo, Quixote é apenas, e talvez o saiba, um doente de literatura. Se calhar, foi o primeiro de todos os que sofreram dessa maleita em que os livros nos transformam em indivíduos capazes de desejarem vidas diferentes, e melhores, do que daquelas que fomos vivendo. Ao contrário da maioria de nós, o fidalgo da Mancha saiu de casa e arriscou experimentar o sonho, indiferente à triste figura que estivesse fazendo.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 9 de Agosto de 2011

sábado, 20 de agosto de 2011

Território Comanche, o meu

A minha varanda e o ar morno que aqui chegava hoje fez-me voltar à varanda do Hotel Porto Grande, no Mindelo, e a esse final de Julho de 2005, quando ali me instalei, numa quente, deliciosa tarde de névoa. Da minha varanda, porém, não se vê a Praça Amílcar Cabral, nem as pessoas passando de um lado para o outro entre as acácias. Da minha varanda, na verdade, não se vê porra nenhuma, apenas as varandas de um prédio igual ao meu e duas ou três árvores entre as quais não circula a vida do Mindelo. Em Agosto, na verdade, não passa por aqui vida nenhuma, como se a cidade tivesse adormecido.

Sem nada que me convocasse à rua, tive, pois, tempo para reler o Território Comanche, esse admirável relato do quotidiano dos repórteres de guerra na antiga Jugoslávia, a sua evocação enquanto dois jornalistas da TVE esperam que os croatas em fuga façam explodir uma ponte, para poderem filmá-la no momento em que vai pelos ares. Creio, por exemplo, que percebi quem inspirou a personagem de Olvido, a mulher de O Pintor de Batalhas, e, eventualmente, mais uma ou duas coisas comuns aos dois livros, comuns è realidade e à ficção, quero dizer, mas não obtive nenhuma grande revelação relativamente ao segundo motivo da revisitação. Ou seja: não sei porquê, nem em que momento, fracassei ou comecei a fracassar.

Território Comanche trata de jornalistas como, no início, (quase) todos os jornalistas gostavam de ser: aventureiros e um pouco heróicos, arriscando a pele para contar como é uma guerra e a sua imensa insensatez, os seus horrores. Pérez-Reverte conta o trágico e o épico, revela as grandezas, mas não esconde nenhum dos perigos que aquela vida encerra: uma bala perdida, um morteiro lançado ao calhas, uma mina, uma avenida errada à hora errada.

Eu também, em algum momento, quis ser um jornalista daqueles. Hoje sei que nunca o serei. E nem sei o que serei. Tenho, porém, certeza de que nunca terei coragem para aquilo, para estar onde esteve Reverte ou o meu amigo Pedro Rosa Mendes. Talvez, inconscientemente, me tenha lembrado de Território Comanche quando, em 2001, recebi um telefonema perguntando se queria ir para o Iraque — para a guerra do Iraque, quero dizer. Lembro-me de que estava na sala, creio que a jantar, e que olhei para os meus filhos sentados à mesa. Olhei para eles e respondi que não — e talvez tenha sido aí que comecei a desistir. O meu Território Comanche é aqui, um dia atrás do outro, uma conta após outra conta. E não tem corrido mal: estamos todos vivos.

Ler à procura de uma coisa qualquer

À medida que O Pintor de Batalhas se aproxima do fim, torna-se-me mais óbvio que vou ter de reler Território Comanche, o livro de Pérez-Reverte que a Presença publicou em Portugal no ano de 1997 (custou-me 1.575 escudos e ainda ali o tenho na estante, comprovando as vantagens de juntar livros e de não os emprestar ao primeiro atrevido que aparece). Não sei bem o que procuro, se uma nova perspectiva sobre O Pintor de Batalhas no cenário real de onde sai o ficcional Markovic, se uma referenciação exacta do ponto em que o jornalista a sério que existia em mim começou a fenecer.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Para assinalar o dia mundial da fotografia



© Teatro Anatómico/Museu do Côa, Agosto 2011

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Emboscada, cerco, armadilha e isso



Aparentemente O Pintor de Batalhas e Os Pretos de Pousaflores (de Arturo Pérez-Reverte e Aida Gomes, respectivamente) são livros tão diferentes quanto dois romances podem sê-lo. Pus-me, entretanto, a pensar no assunto — coisa assaz desaconselhável, uma vez que tenho praticado muitíssimo pouco — e parece-me que não são livros tão diferentes assim. Tal como Andrés Faulques, o pintor de batalhas e ex-fotógrafo de guerra, emboscado num torreão pelos estilhaços das guerras passadas, os pretos de Pousaflores são também personagens cercadas pelo passado e conduzidas à armadilha de uma pequena aldeia pelos caminhos que a guerra urde. São indivíduos emboscados pela vida. Talvez o sejamos todos. Mas não interessa nada, ainda que possa haver aqui uma coisa qualquer que me esteja a escapar, eventualmente importante. Mas eu tinha avisado que não estava preparado para grandes reflexões.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

No bolso do morto*

Foi há coisa de um ano que aqui referi o romance Somos o esquecimento que seremos, de Héctor Abad Faciolince, e o poema que o escritor colombiano achou no bolso das calças do pai quando o encontrou assassinado numa rua de Bogotá: “Já somos o esquecimento que seremos/o pó primordial que nos ignora”.

O poema, cujo primeiro verso serviu de título ao romance, estava assinado “JLB” e Faciolince entendeu que se tratava de um escrito de Jorge Luís Borges. A história desse controverso escrito não terminou aí, porém. A sua autoria foi contestada, inclusivamente pela zelosa viúva de Borges, e armou-se uma daquelas polémicas em que os literatos, às vezes, se exercitam. A controvérsia, porém, não deu um filme – deu dois livros. Traiciones de la memoria, do próprio Héctor Abad Faciolince, e Los falsificadores de Borges, do argentino Jaime Correas, contam, de modo diverso, uma investigação de vinte anos que permitiu determinar que os versos eram mesmo do autor de O Aleph. “É uma história estranhíssima. Podia ser um conto de Borges”, declarou Correa quando, há alguns meses, apresentou o seu romance em Buenos Aires.

Tanto quanto foi possível determinar, o poema – que, afinal, eram cinco – saiu da gaveta de Borges na calle Maipu num dia de Setembro de 1985, pela mão de Franca Beer, a fim de serem incluídos num artigo que o marido e poeta francês Jean-Dominque Rey estava a escrever. Uma cópia foi depois entregue a Correas, que também os publicou numa revista, e, a partir de então, os versos começaram a circular em diferentes versões. María Kodama, a viúva de Borges, garantia que os poemas não tinham sido escritos pelo marido e, no meio da investigação que Faciolince encetou, surge até um vilão, Harold Alvarado Tenorio, afirmando, primeiro, que Borges lhe tinha ditado os poemas e, depois, que era ele o seu verdadeiro autor.

Num acrescento à primeira versão dos factos, Tenorio contou ainda, num artigo publicado na revista Enfocarte, que encontrou os versos dentro de um livro, na casa de uns amigos de Madrid, e que os levou a um especialista na obra de Borges, José Manuel Martell. Este ter-lhe-á garantido que haviam de ser anotações que o argentino tinha tomado nos anos sessenta, que nunca quis publicar, mas que usava como anzol sempre que aparecia alguma rapariga que lhe interessava.

“É um personagem fascinante, como o mal”, disse Faciolince sobre Tenorio, o grande responsável pelo facto de, durante tanto tempo, a autoria do poema no bolso de Faciolince-pai ter estado por determinar. Questionado agora, outra vez, sobre os motivos que terão levado o pai a meter os versos de Borges no bolso, Abad não tem dúvidas: “Levava-os como última vontade de uma pessoa que sabe que vai ser morta, é uma mensagem sobre o modo como encarou a morte” – um passo mais para o esquecimento. Vem-me à memória, por isso, um poema de Pessoa que diz quase a mesma coisa: “A morte é a curva da estrada/morrer é só não ser visto”. Também não ficava mal no bolso de um cadáver.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 2 de Agosto de 2011

sábado, 13 de agosto de 2011

Actualização: Não se vê nada e ainda não é por causa do aumento do preço da luz

A esta pouco habitual hora a que vos escrevo, há lá fora, no firmamento, uma monumental chuva de estrelas cadentes, provocada, parece, pelas Perseidas. É o que diz o jornal. Fui à varanda e não vejo nada. O jornal também esclarece que a chuva das Perseidas não se enxerga por causa da luminosidade da lua cheia. Uma chatice, enfim. Ocorre-me que deve estar a acontecer algo de parecido com o governo da pátria: deve ser um governo do caraças, mas eu não consigo ver nada; estou, digamos assim, ofuscado pelo descaramento com que vêm meter-me a mão ao bolso. Por este andar, não tardará muito o dia em que apenas cá encontrarão cotões.

Adenda: apercebi-me, entretanto, de que é facílimo manter este post actualizado perpetuamente. Basta retirar a passagem relativa à chuva de estrelas e ir trocando a expressão "aumento da luz" por, digamos, "aumento do IVA", "aumento dos transportes", "aumento da gasolina", "aumentos dos impostos em geral", "aumento dos transportes" outra vez — e assim sucessivamente.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O confessionário número 10



Ninguém, creio, peca tanto como os católicos, o que, bem vistas as coisas, encerra uma espécie de paradoxo. Os católicos, tal como eu consigo entendê-los, sujeitam-se livre e espontaneamente a um conjunto de preceitos ao abrigo dos quais se deviam abster do pecado ou, ao menos, se deviam comprometer a evitá-lo tanto quanto possam. Entra-se, porém, num sítio como a catedral de Santiago de Compostela e lá estão os beatos esvaziando os seus sacos de pecados ao ouvido de um dos confessores de serviço, como se tivessem, até aí, pecado como se não houvesse amanhã.

O que os confessionários de Santiago têm de mais extraordinário é que, para além de serem dez, alinhados ao longo de ambas as paredes da nave principal, estão ainda dotado de um sistema luminoso que faz lembrar a sinalização dos estacionamentos vagos nos centros comerciais mais modernos: têm um número electrónico e uma luzinha vermelha indicando se estão ou não de serviço — como os táxis, conforme bem observou o Afonso.

De um modo geral, os confessionários estão sempre ocupados com a farta clientela que se desloca ao santuário, os curas inclinando-se para ouvirem melhor os pecados por entre o clamor da turba dos turistas. Na cabina do confessionário número dez, porém, o confessor de serviço parece que nunca tem clientes, como um táxi velho ou um peepshow muito decadente. Está sempre com a cabeça baixa, o frade, como se lesse ou meditasse, mas ninguém o procura, apesar do traje pesado e da cruz de Santiago bordada ao peito. Tem, talvez, um ar demasiado severo e intolerante e é possível que tenha ganho fama de aplicar um receituário de penitências de alto lá com elas, capazes, pois, de fazer inveja ao contrato-programa da troika/FMI e de castigar os pecados dos cristãos com o rigor que eles deviam merecer.

O frade da cabina número 10 também não gosta de fotografias. Assim que um turista aponta a lente, ele, como se estivesse dotado de uma percepção extrasensorial, levanta a cabeça do breviário e trata de fechar as janelinhas do confessionário, mirando-nos obliquamente como se mil pragas houvessem de tombar sobre as nossas frontes. Soube, naquele instante, que estou perpetuamente amaldiçoado. Fugi, pois, dali antes de que as estátuas dos santos principiassem a verter lágrimas de sangue e as paredes da catedral ruíssem como nos filmes. Eu gosto bastante de Santiago e, apesar de tudo, acho que a catedral, naquele sítio, não fica lá mal de todo.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Brevíssima reflexão estival e um pouco quixotesca

Só terminei de ler o Quixote depois de ter deixado escrita a crónica que hoje foi publicada no P2. O que li entretanto não muda uma vírgula naquilo que escrevi, mas confesso que me desgostou um pouco ver Alonso Quijano renegar e mesmo repudiar os romances de cavalaria às portas da morte, exactamente como sucede com certos ateus que se encomendam a deus na hora derradeira, temerosos do que lhes poderá acontecer depois, ou como certos indivíduos que, tendo professado ideais em prol do bem comum, se venderam por uns bagos de guito e foram fazer-se embaixadores do casino da bolsa e apóstolos da banca comercial (com os resultados que se vão conhecendo). Isto inquieta-me sempre um pouco e é, inclusive, um dos motivos pelos quais desejo uma morte fulminante, que não me dê tempo para ponderar na possibilidade de me transformar num cabrãozinho.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Das firmes convicções*

Anders Behring Breivik, o vaidoso assassino xenófobo de Oslo e Utoya, comia frequentemente numa pizaria gerida por imigrantes turcos. No “manifesto” que publicou na internet horas antes da matança que veio a praticar, considerava, porém, que os restaurantes dos muçulmanos constituem uma espécie de guarda avançada para a islamização da Europa. Mas é possível que Anders frequentasse o Milano apenas com o fito de poder olhar o imaginário inimigo nos olhos, mesmo temendo que a conquista se fará pelo estômago.

Segundo o El País, o energúmeno evitava as pizas e pedia quase sempre pasta e tarte de maçã. E era “amável”, garante Ali Aykut, o turco que lhe levava a comida à mesa. No diário que mantinha, o indivíduo conta também, na entrada relativa ao dia 25 de Junho, que tinha ido à cidade comprar comida chinesa.

Anders tem, pois, um aparelho digestivo tolerante e cosmopolita, no qual convivem amenamente a gastronomia do sul da Europa preparada por mãos muçulmanas e os acepipes da China (dita) socialista. O problema de Anders reside, assim, na cabeça e na conspiração marxista-islamista que nela se engendrou. E a cabeça de um louco, já se sabe, é uma forja operada por um metalúrgico doido, na qual as coisas mais inocentes se fundem e confundem, dando origem a construções muitíssimo extravagantes e malignas: facas, punhais e lanças, mas também o nacionalismo e a intolerância.

Os loucos assustam-me indistintamente, sejam do Sul ou do Norte, cristãos ou islâmicos, louros ou morenos, norte-americanos ou chineses, russos, transmontanos ou o meu vizinho do lado. Mas o que neles me assusta não é a loucura em si, que até pode ser benévola e doce, mas o facto de saber que o mal está em toda a parte, dentro de todas as pessoas, mesmo daquelas que parecem mais amáveis e boas. Basta um mau impulso, um instante em que o mal labore livre da vigilância comum do bom senso, para que sucedam tragédias inauditas. Todos os dias sabemos de histórias de cidadãos pacatos e simpáticos que perdem a cabeça e matam a filha, a mulher ou o vizinho. O homicídio é sempre um momento de privação do juízo e da razão.

Parece que Anders Behring Breivik, para além de ser amável e inteligente, passava muito tempo a matar insectos e a jogar videojogos, preocupando-se igualmente em manter uma aparência refinada. Nada de muito significativo, afinal. Adolf Hitler gostava de ler e de desenhar os bonecos da Disney. Estaline lia quinhentas páginas por dia e desenhava nus. Mao amava a poesia e as mulheres. Bin Laden apreciava o voleibol. Qualquer grande facínora é, pois, perfeitamente capaz de manter uma vida de gostos inocentes e hábitos comuns. O que os distingue de um cidadão pacato e de um criminoso comum não é, sequer, o assomo da loucura e da crueldade (quem nunca matou, alguma vez, uma mosca?), mas, sim, a capacidade que têm para acreditarem cegamente em ideias inspiradoras, por mais tortas e retorcidas que sejam.
Os loucos assustam-me, pois. Mas do que tenho mais medo é das firmes convicções que eles têm.


*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 26 de Julho de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

É uma questão de perspectiva

O boletim meteorológico anuncia chuvas e trovoadas para a próxima semana, o que não destoa muito, com efeito, daquele que tem sido o estado do tempo no presente Verão (chamemos-lhe assim para simplificar). Mas, se pensarmos bem no assunto, não há aqui nada de inesperado. Se não temos direito a pagar impostos de forma comedida e justa, se não temos direito ao subsidio de natal inteiro, se não temos direito a governos razoáveis nem a transportes públicos a preços decentes, se não temos direito ao serviço nacional de saúde nem a saber para que serviu, afinal, o dinheiro que metemos no BPN, se não temos direito a aumentos de ordenado e só a vê-lo cada vez mais minguado, se não temos direito, enfim, a quase nada nem a qualquer dos estímulos reservados ao sistema financeiro, por que raio é que havíamos de ter direito a um Verão minimamente decente? Creio que não me equivoco muito se garantir que também esta merda de Verão estava prevista no acordo com a troika, de modo a que, como nos hospitais, os ricos possam ir de férias para onde haja um Verão decente e os outros, enfim, tenham que se contentar com o Verão que houver.

Quando fui contrabandista*



Coincidência de um raio: tinha planeado dedicar esta crónica a um caso de bananas — de contrabando de bananas, para ser mais exacto —, cujo pretexto seria uma história que o Diário de Notícias publicou há dias e que narrava a descoberta de uma rede de empresas fictícias que se dedicava a simular a importação de bananas e a fingir que as reexportavam para outros países comunitários, conseguindo, entre uma coisa e a outra, enganar o fisco em oito milhões de euros. Sendo eu também um pouco banana em matéria comercial, financeira e fiscal (entre outras), nem percebo muito bem como é que se criam esquemas para ganhar dinheiro fácil com algo tão simples e aparentemente inocente como o fruto da bananeira. Na qualidade de pessoa quotidianamente assaltada pelo fisco, tenho até alguma inveja desses indivíduos tão imaginativos, mas, para o caso, isto não importa nada, é só um desabafo. Pago e não bufo — e não se fala mais nisso.

Quis o acaso, ainda assim, que me tenha visto convocado para um trabalho jornalístico na ilha da Madeira, onde me encontro no momento em que escrevo isto, parecendo-me, pois, que nem de propósito encontraria sítio e pretexto mais adequados à concretização da dita crónica. De entre todas as bananas que há no mundo, nenhumas são, afinal, tão gostosas como as cavendish que crescem neste arquipélago, sobretudo quando estão naquele ponto em que ainda não amadureceram completamente, rescendendo perfume e sabor.

Junto, pois, o caso das bananas fraudulentas e o enquadramento que a ilha da Madeira proporciona, e conto a incrível e venturosa história da minha primeira viagem internacional. Devia ter uns doze ou treze anos e soube-se na minha rua de uma excursão a Vigo que aconteceria num sábado e, delícia das delícias, não custava um tostão aos participantes. Os meus avós paternos arranjaram lugar na camioneta para eles os dois e ainda para mim e para um primo meu que era afilhado deles, e eis-nos gloriosamente a caminho do desconhecido e então distante estrangeiro, das delícias do El Corte Inglés e dos caramelos.

A viagem ainda incluía, à época, um trajecto percorrido por estradas nacionais e complexas formalidades aduaneiras, as quais implicavam longas filas de trânsito em direcção à fronteira de Valença do Minho. O que eu não imaginava é que o regresso pudesse ser ainda mais complicado. Finda a jornada turística, regressamos à camioneta e só aí percebemos a gratuitidade da excursão. Tratava-se, afinal, de uma iniciativa de um grupo de vendedeiras do (extinto) mercado da Praça da Lisboa, as quais iam a Espanha comprar carradas de bananas, a tal ponto que é difícil imaginar tanta banana junta. Para retribuir o passeio, só tínhamos que guardar um enorme cacho no colo e dizer que a fruta nos pertencia se a Guarda Fiscal viesse pedir explicações. A coisa não correu lá muito bem, mas, em todo o caso, ganhei o dia: fui ao estrangeiro e ainda me estreei como contrabandista. De bananas, evidentemente.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 19 de Julho de 2011