(texto publicado na Time Out Porto de Outubro, já nas bancas; vem com uma fotografia excelente para afastar as formigas das latas do açúcar)
Se as palavras e as frases fossem como plantas de jardim e necessitassem de cuidados quotidianos, de serem regadas e podadas, se precisassem de doses regulares de sol e de chuva, o eventual jardim que calhasse ter sido entregue à minha guarda estaria, muito provavelmente, seco e estiolado, ao abandono, tomado pelas ervas daninhas, pelo mato selvagem. Talvez, na verdade, estejam também assim as páginas que eu escrevo cada vez mais irregularmente - agora que um certo cansaço de apoderou de mim e, muitas vezes, não seja já capaz de me convencer de que vale a pena cuidar das plantas de canteiros que ninguém verá, de frases que quase ninguém vai ler.
Escrevo, enquanto jornalista, todos os dias, se calhar por simples deformação profissional, por obrigação, como um lixeiro que sai à noite para recolher a porcaria dos outros. Quando, depois, chego a casa e as tarefas domésticas se extinguem, faço cada vez menos aquilo que antes gostava de fazer: sentar-me, abrir o computador e escrever uma coisa que aspirava a ser literatura e que talvez o fosse; ficar ali até serem horas de dormir, tentando uma escrita que não fosse a mesma escrita burocrática que praticava durante o dia, que inventasse vidas e pessoas, mundos.
Foi-se extinguindo, creio, o entusiasmo que, antes, me fazia ignorar o cansaço. Talvez esteja a ficar velho, ou apenas descrente de quase tudo, como se soubesse que as eventuais vidas que possam sair-me dos dedos não chegarão jamais a ser vidas completas, inteiras, e que, por defeito meu, estão inevitavelmente condenadas a serem efémeras e algo toscas, como gente mal nascida. Se uma frase, às vezes, ainda me assalta, se me desassossega e volta a fazer sonhar, tento guardá-la escrevendo-a em pequenos cadernos, entre as suas folhas, como certos botânicos fazem com os espécimes vegetais, depositando-as entre páginas para que sequem e, assim, se preservem. Faço-o, sobretudo, porque a memória me trai cada vez mais frequentemente e temo, assim, não ser capaz de recordar-me amanhã de como eram as cores e o cheio de uma frase. E, às vezes, dessas sementes deixadas ao acaso, ainda calha brotar um livro.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Leve a carteira, senhor engenheiro
Esmerei-me o mais que pude na confecção experimental de um risotto de salmão fumado, abri a humilde (mas perfumada) garrafa de vinho branco e preparei-me para jantar em paz, mas o meliante entrou-me pela casa dentro assim que eu levei à boca a primeira garfada e constatei, com algum desgosto, o ligeiro excesso de sal da refeição. A culpa é minha, que não aprendo a desligar a televisão à hora das refeições e assim me exponho à aparição de todo o tipo de farsantes que irrompem nos noticiários. Desta feita, o homem que não teme e tem sempre uma solução para as dificuldades do país — uma solução de quinze em quinze dias, mais ou menos — surtiu como um bandoleiro escondido numa moita e gritou pela minha bolsa (pela dos outros também, mas a minha dói-me mais) e proferiu a tradicional ameaça, a bolsa ou a vida!, a bolsa ou o caos!, e eu encolhi tristemente os ombros, leve a bolsa, senhor engenheiro, mas salve-nos do caos dos mercados financeiros, do vil ataque da dívida pública. Não será lá grande incentivo isto de nos vermos reduzidos a uma bolsa onde se pode vir surripiar algum dinheiro sempre que a pátria está carecida, mas as coisas são como são, se é a carteira que quer, senhor engenheiro, leve lá a carteira e não se fala mais nisso. E nem adianta gritar o tradicional agarra que é ladrão! A polícia, já se sabe, nunca aparece quando faz falta.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Nobre povo e tal
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 7 de Setembro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Um dos títulos do Diário de Notícias de ontem informava que os amantes do abate recreativo de animais pretendem voltar a perpetrar uma arreigada tradição cultural de Monsaraz: matar um touro na antiga praça de armas do castelo alentejano, património nacional, convenientemente transformado, nesta altura do ano, em arena tauromáquica informal. Para tal, os folcloristas locais propõem-se ignorar a proibição imposta pela Inspecção-Geral das Actividades Culturais, evidente inimiga da cultura pátria.
De acordo com a notícia, a pitoresca tradição, que se cumprirá no próximo sábado, conta com a bênção da selectivamente piedosa Santa Casa da Misericórdia de Monsaraz e com o apoio da autarquia. A despeito das disposições legais e da coragem dos prevaricadores, a estocada final costuma ser desferida sob a protecção de “um enorme pano estendido à largura da praça para evitar que o autor seja identificado pela GNR”. Os guardas, inocentes e distraídos, são todos os anos surpreendidos pela engenhosa manobra de ocultação e nunca lhes terá ocorrido juntarem-se à ululante multidão que se esconde debaixo do pano. Consequentemente, ninguém é penalizado.
Excluindo certos pormenores perfeitamente negligenciáveis, como o derramamento de sangue bovino, a matança de Monsaraz não é um fenómeno tão local como parece. Trata-se, isso sim, da manifestação pontual de uma tradição mais vasta e arreigadamente portuguesa. As leis, entre nós, não são escritas para serem respeitadas, mas para serem contornadas, dribladas e escarnecidas nas barbas das instituições, enquanto uma multidão entusiasmada grita olés. O próprio Estado se encarrega de dar o exemplo e de estimular a balbúrdia.
Qualquer português médio sabe que o bom cidadão não é aquele que cumpre as regras; é, antes, o que estaciona em cima do passeio e em segunda fila, que constrói sem licença, que engana o fisco e que saca subsídios ao Estado. Vale praticamente tudo e é conveniente que a prevaricação seja abundante e permanente – para que seja impraticável zelar pelo cumprimento de todas as regras e penalizar todos os criminosos. Como em Monsaraz, o Estado cumpre o seu dever e trata de manter as aparências: proíbe e olha para o lado; e fiscaliza selectivamente. É, por exemplo, perfeitamente capaz de detectar os ociosos do rendimento mínimo, mas, tal como foi noticiado na semana passada, não consegue avistar os discretíssimos (e naturalmente elegantes) sinais exteriores de riqueza de alguns portugueses muito prósperos, cujas milionárias dívidas ao Estado acabam por perscrever.
Existem, evidentemente, alguns portugueses bem-educados e cumpridores. Sabem que até um carro mal estacionado acaba por prejudicar alguém e que as suas fintas fiscais serão, tarde ou cedo, pagas por todos os outros. São, estes portugueses, indivíduos bastante estúpidos. Estão na base da cadeia alimentar da pátria e, sendo a pátria o que é, não andará muito distante o dia em que estarão a sustentar sozinhos a vida de todos os outros.

Um dos títulos do Diário de Notícias de ontem informava que os amantes do abate recreativo de animais pretendem voltar a perpetrar uma arreigada tradição cultural de Monsaraz: matar um touro na antiga praça de armas do castelo alentejano, património nacional, convenientemente transformado, nesta altura do ano, em arena tauromáquica informal. Para tal, os folcloristas locais propõem-se ignorar a proibição imposta pela Inspecção-Geral das Actividades Culturais, evidente inimiga da cultura pátria.
De acordo com a notícia, a pitoresca tradição, que se cumprirá no próximo sábado, conta com a bênção da selectivamente piedosa Santa Casa da Misericórdia de Monsaraz e com o apoio da autarquia. A despeito das disposições legais e da coragem dos prevaricadores, a estocada final costuma ser desferida sob a protecção de “um enorme pano estendido à largura da praça para evitar que o autor seja identificado pela GNR”. Os guardas, inocentes e distraídos, são todos os anos surpreendidos pela engenhosa manobra de ocultação e nunca lhes terá ocorrido juntarem-se à ululante multidão que se esconde debaixo do pano. Consequentemente, ninguém é penalizado.
Excluindo certos pormenores perfeitamente negligenciáveis, como o derramamento de sangue bovino, a matança de Monsaraz não é um fenómeno tão local como parece. Trata-se, isso sim, da manifestação pontual de uma tradição mais vasta e arreigadamente portuguesa. As leis, entre nós, não são escritas para serem respeitadas, mas para serem contornadas, dribladas e escarnecidas nas barbas das instituições, enquanto uma multidão entusiasmada grita olés. O próprio Estado se encarrega de dar o exemplo e de estimular a balbúrdia.
Qualquer português médio sabe que o bom cidadão não é aquele que cumpre as regras; é, antes, o que estaciona em cima do passeio e em segunda fila, que constrói sem licença, que engana o fisco e que saca subsídios ao Estado. Vale praticamente tudo e é conveniente que a prevaricação seja abundante e permanente – para que seja impraticável zelar pelo cumprimento de todas as regras e penalizar todos os criminosos. Como em Monsaraz, o Estado cumpre o seu dever e trata de manter as aparências: proíbe e olha para o lado; e fiscaliza selectivamente. É, por exemplo, perfeitamente capaz de detectar os ociosos do rendimento mínimo, mas, tal como foi noticiado na semana passada, não consegue avistar os discretíssimos (e naturalmente elegantes) sinais exteriores de riqueza de alguns portugueses muito prósperos, cujas milionárias dívidas ao Estado acabam por perscrever.
Existem, evidentemente, alguns portugueses bem-educados e cumpridores. Sabem que até um carro mal estacionado acaba por prejudicar alguém e que as suas fintas fiscais serão, tarde ou cedo, pagas por todos os outros. São, estes portugueses, indivíduos bastante estúpidos. Estão na base da cadeia alimentar da pátria e, sendo a pátria o que é, não andará muito distante o dia em que estarão a sustentar sozinhos a vida de todos os outros.
domingo, 26 de setembro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Bute lá mostrar a esse FMI que não há povo mais hospitaleiro do que o bom povo português
Tenho constatado a existência de um número considerável de pessoas preocupadas com a vinda do FMI para Portugal e, inclusivamente, nota-se no ar uma certa hostilidade. É incompreensível. Muito francamente, o FMI é um visitante como outro qualquer. Se o FMI vier, devemos de recebê-lo de braços abertos, mostrar-lhe o Allgarve e o lince da Malcata, levá-lo às casas de fados, mostrar-lhe o Museu de Serralves, os pastéis de Belém e assim.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Os bons maus exemplos
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 31 de Agosto de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Ganha fama e deita-te na cama. O escritor peruano Bryce Echenique é considerado, palavras do próprio, “aquele que foi capaz de consumir maiores quantidades de álcool e o mais bêbado de todos os escritores latino-americanos”. Ele não se importa e nunca se deu ao trabalho de desmentir a reputação que se lhe colou.
Num recente encontro de escritores, celebrado na Bolívia, Echenique garantiu, porém, que, apesar da fama de boémio e dissoluto, é, na verdade, um indivíduo muito organizado e que só essa característica lhe permitiu escrever tantos livros. Afirma o peruano que, enquanto cria, se rodeia de um ambiente de “muito trabalho, muita ordem, disciplina e muito silêncio”. Alguns espantaram-se e quiseram perceber, nesse caso, de onde lhe veio a má reputação e porque nunca tentou contrariá-la. Ele respondeu que é simplesmente mais fácil viver com a má fama.
Há, claro que sim, escritores austeros, ascéticos e engomados, com vidas aborrecidas e rotineiras. Talvez alguns dobrem o pijama todas as manhãs e apenas bebam água mineral, mas a história da literatura está cheia, isso sim, de incorrigíveis bebedores e boémios estrepitosos. São geniais e são malditos, são um pouco loucos e, valerá a pena dizê-lo, são bastante mais divertidos do que as pessoas comuns. Bocage, Luiz Pacheco ou José Cardoso Pires são excelentes exemplos de maus exemplos e foram, de certeza, extraordinários convivas, tal como, no seu tempo, há-de ter sido o espanhol Lope de Vega, notável escritor, espadachim, bêbado e mulherengo.
Hunter S. Thompson (1937-2005), que detém o título de o mais bêbado dos escritores norte-americanos (empatado com Ernest Hemingway), declarou, certo dia, que detestava defender as drogas, o álcool, a violência ou a loucura. “Mas sempre funcionaram comigo”, acrescentou. E talvez tenham funcionado também com os outros oito autores que constam daquele top ten, entre os quais se contam Raymond Chandler, Charles Bukowski, Jack Kerouac e F. Scott Fitzgerald.
Igualmente famosos pela sua relação com as bebidas espirituosas são Graham Green, Truman Capote, William Faulkner e Herman Melville. A lista é enorme, ao ponto de a literatura norte-americana parecer, muitas vezes, directamente tributária da proximidade de um gargalo de garrafa.
O binómio bebida-criatividade, porém, não é exclusivo dos EUA. Basta pensar em Fiodor Dostoievski, Charles Baudelaire ou Vinicius de Moraes. Mais ou menos descaradamente, aliás, sucessivas gerações de escritores têm revelado uma particular propensão para o convívio com o álcool. Conheci, há alguns anos, dois jovens poetas catalães que, participando num encontro de escritores na Galiza, sempre reservavam uma garrafa de vinho do jantar para lhes fazer companhia durante os colóquios nocturnos. Um deles era um declamador extraordinário e ficámos de nos encontrar depois disso. “Havemos de beber como cossacos”, prometia. Pensando bem, beberíamos só como escritores.

Ganha fama e deita-te na cama. O escritor peruano Bryce Echenique é considerado, palavras do próprio, “aquele que foi capaz de consumir maiores quantidades de álcool e o mais bêbado de todos os escritores latino-americanos”. Ele não se importa e nunca se deu ao trabalho de desmentir a reputação que se lhe colou.
Num recente encontro de escritores, celebrado na Bolívia, Echenique garantiu, porém, que, apesar da fama de boémio e dissoluto, é, na verdade, um indivíduo muito organizado e que só essa característica lhe permitiu escrever tantos livros. Afirma o peruano que, enquanto cria, se rodeia de um ambiente de “muito trabalho, muita ordem, disciplina e muito silêncio”. Alguns espantaram-se e quiseram perceber, nesse caso, de onde lhe veio a má reputação e porque nunca tentou contrariá-la. Ele respondeu que é simplesmente mais fácil viver com a má fama.
Há, claro que sim, escritores austeros, ascéticos e engomados, com vidas aborrecidas e rotineiras. Talvez alguns dobrem o pijama todas as manhãs e apenas bebam água mineral, mas a história da literatura está cheia, isso sim, de incorrigíveis bebedores e boémios estrepitosos. São geniais e são malditos, são um pouco loucos e, valerá a pena dizê-lo, são bastante mais divertidos do que as pessoas comuns. Bocage, Luiz Pacheco ou José Cardoso Pires são excelentes exemplos de maus exemplos e foram, de certeza, extraordinários convivas, tal como, no seu tempo, há-de ter sido o espanhol Lope de Vega, notável escritor, espadachim, bêbado e mulherengo.
Hunter S. Thompson (1937-2005), que detém o título de o mais bêbado dos escritores norte-americanos (empatado com Ernest Hemingway), declarou, certo dia, que detestava defender as drogas, o álcool, a violência ou a loucura. “Mas sempre funcionaram comigo”, acrescentou. E talvez tenham funcionado também com os outros oito autores que constam daquele top ten, entre os quais se contam Raymond Chandler, Charles Bukowski, Jack Kerouac e F. Scott Fitzgerald.
Igualmente famosos pela sua relação com as bebidas espirituosas são Graham Green, Truman Capote, William Faulkner e Herman Melville. A lista é enorme, ao ponto de a literatura norte-americana parecer, muitas vezes, directamente tributária da proximidade de um gargalo de garrafa.
O binómio bebida-criatividade, porém, não é exclusivo dos EUA. Basta pensar em Fiodor Dostoievski, Charles Baudelaire ou Vinicius de Moraes. Mais ou menos descaradamente, aliás, sucessivas gerações de escritores têm revelado uma particular propensão para o convívio com o álcool. Conheci, há alguns anos, dois jovens poetas catalães que, participando num encontro de escritores na Galiza, sempre reservavam uma garrafa de vinho do jantar para lhes fazer companhia durante os colóquios nocturnos. Um deles era um declamador extraordinário e ficámos de nos encontrar depois disso. “Havemos de beber como cossacos”, prometia. Pensando bem, beberíamos só como escritores.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
A angústia do blogueiro antes de colocar o último ponto final
A tentação é enorme, quanto mais não seja porque é mais fácil desaparecer enquanto entidade blogosférica, ou digital, do que enquanto indivíduo composto por um conjunto considerável de proteínas, água e mais não sei o quê, cujo extermínio envolve sempre uma quantidade enorme de porcaria biodegradável. O único motivo pelo qual continuo a escrever no blogue é, como diria Cortázar, porque não o posso dançar, cozinhar ou pintar e, às vezes, desopila tremendamente poder escrever coisas perfeitamente idiotas, das quais me arrependerei dez minutos depois. Também ocorre, é verdade, a circunstância, não totalmente negligenciável, de não ter, aqui, que suportar o convívio com certos e determinados indivíduos, e, por outro lado, tenho poupado uma maquia considerável por poder praticar este género de psicanálise em forma de literatura-trash, evitando recorrer aos profissionais do ramo, que ou bem que pago as prestações da casa ou bem que dou de comer aos licenciados da terapia. Não tem, todavia, sido uma tarefa fácil sobreviver a tanto fracasso, mormente quando se constata o desastre inapelável em que se transforma tudo aquilo que ameaçou, um dia, poder constituir uma carreira auspiciosa e, por outro lado, se sabe perfeitamente que se é incapaz de recorrer a outros expedientes mais rentáveis para garantir a subsistência, tipo lamber cus, vigarizar o próximo ou ser cônsul honorário de um país qualquer (dá-se preferência aos que exportem diamantes). Seja como for, também me devo arrepender, daqui a dez minutos, de ter escrito mais este pedaço de esterco, pelo que, fatalmente, acabarei por apagá-lo e seguir adiante, pois que urge fingir uma certa normalidade, está tudo bem, calma, não foi nada, isto passa e tal.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Como escreveu o Luís Fernando Veríssimo, as únicas línguas que não mudam são as que estão mortas
Bem podem, os burocratas da língua, tentar normalizá-la, prendê-la, congelá-la. Podem decretar quantos acordos quiserem. A língua, seja como for, continuará viva. Por exemplo: enquanto, por cá, andamos há não sei quantos anos a chamar inadequadamente pulseira electrónica a um aparelho que se usa no tornozelo (e não no pulso), os brasileiros já inventaram a tornozeleira.
Verdades inconsequentes
Apesar de se ter vestido com pedaços de carne, a Lady Gaga continua a não ser lá grande febra.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
5, rue de Verneuil
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 24 de Agosto de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)
Serge Gainsbourg, o actor e cantor francês, não é um ícone do meu tempo. Ou fui eu que nasci demasiado tarde, ou ele cedo demais, mas não coincidimos em parte nenhuma, excepto em algum eventual vídeo do Youtube. Sempre me surpreende, então, que um homem tão feio tivesse conseguido conquistar algumas das mais espantosas mulheres do seu tempo, de Brigitte Bardot a Jane Birkin, mas - sou perfeitamente capaz de reconhecê-lo - trata-se de um tipo bastante primário de inveja.
Penso em Gainsbourg e ocorre-me sempre a lamentável entrevista no Canal+ em que o cantor desgrenhado e aparentemente ébrio aproveita para chamar “puta” e “nojenta” a Catherine Ringer, uma artista que escolheu a pornografia como modo de expressão. Ela reclama que o seu trabalho é parte da “aventura moderna”, mas Serge, que cantou o álcool, as mulheres e a promiscuidade, protesta e diz que a aventura moderna não tem nada a ver com a actividade de Catherine. “Nós temos uma ética”, garante, provavelmente convencido de que isso faria alguma diferença.
Cada qual terá as suas contradições e Serge Gainsbourg tinha as dele. E nem isso impede que, em Paris, os seus sítios sejam ainda hoje objecto de uma espécie de peregrinação turística por parte dos fãs. Visitam o liceu que frequentou, os bares onde actuou, a sua ponte favorita (a Pont des Arts, de onde quis que a sua primeira mulher, Elizabeth Levistky, se lançasse para o Sena como prova de amor), o quarto onde compôs Je t’aime... moi non plus e também a casa do número 5 da Rue de Verneuil, no bairro de Saint Germain, próximo da praça Furstenberg.
Nunca ali estive, mas sei que Serge Gainsbourg comprou o apartamento da Rue de Verneuil no início do seu romance com Brigitte Bardot e que o decorou em tons escuros, negros. Por coincidência, ou não, a BB regressou pouco tempo depois para os braços do marido e o cantor transformou a casa numa espécie de museu desse amor despedaçado, forrando as paredes com fotografias da (então) loira e curvilínea actriz.
A porta no número 5 da Rue de Verneuil, creio, encontra-se normalmente fechada, o que não é suficiente para desmobilizar os fãs, que ali se encontram para escrever mensagens nas paredes e para cultuar a suposta obscura maldição da casa (também próxima do ninho de outro amor mítico e conturbado, o de Salvador Dalí e Gala). Conheço aquele pedaço de Paris apenas por tê-lo visto numa fotografia recentemente publicada num suplemento de viagens: uma fachada conspurcada por milhares de traços de tinta sobrepostos, tão feia e anónima como um prédio qualquer numa grande cidade portuguesa que tenha sido objecto de um ataque de selváticos adeptos dos graffiti.
Não me custa imaginar que cada um dos fãs que ali deixaram a sua marca tenha sido movido pela melhor das intenções, eventualmente tocado pela tal ética que obrigava os iluminados da aventura moderna (e, suponho, os seus adeptos). O resultado, porém, é um verdadeiro pesadelo. Pura pornografia visual. Catherine Ringer não seria capaz de o fazer tão mal.
Serge Gainsbourg, o actor e cantor francês, não é um ícone do meu tempo. Ou fui eu que nasci demasiado tarde, ou ele cedo demais, mas não coincidimos em parte nenhuma, excepto em algum eventual vídeo do Youtube. Sempre me surpreende, então, que um homem tão feio tivesse conseguido conquistar algumas das mais espantosas mulheres do seu tempo, de Brigitte Bardot a Jane Birkin, mas - sou perfeitamente capaz de reconhecê-lo - trata-se de um tipo bastante primário de inveja.
Penso em Gainsbourg e ocorre-me sempre a lamentável entrevista no Canal+ em que o cantor desgrenhado e aparentemente ébrio aproveita para chamar “puta” e “nojenta” a Catherine Ringer, uma artista que escolheu a pornografia como modo de expressão. Ela reclama que o seu trabalho é parte da “aventura moderna”, mas Serge, que cantou o álcool, as mulheres e a promiscuidade, protesta e diz que a aventura moderna não tem nada a ver com a actividade de Catherine. “Nós temos uma ética”, garante, provavelmente convencido de que isso faria alguma diferença.
Cada qual terá as suas contradições e Serge Gainsbourg tinha as dele. E nem isso impede que, em Paris, os seus sítios sejam ainda hoje objecto de uma espécie de peregrinação turística por parte dos fãs. Visitam o liceu que frequentou, os bares onde actuou, a sua ponte favorita (a Pont des Arts, de onde quis que a sua primeira mulher, Elizabeth Levistky, se lançasse para o Sena como prova de amor), o quarto onde compôs Je t’aime... moi non plus e também a casa do número 5 da Rue de Verneuil, no bairro de Saint Germain, próximo da praça Furstenberg.
Nunca ali estive, mas sei que Serge Gainsbourg comprou o apartamento da Rue de Verneuil no início do seu romance com Brigitte Bardot e que o decorou em tons escuros, negros. Por coincidência, ou não, a BB regressou pouco tempo depois para os braços do marido e o cantor transformou a casa numa espécie de museu desse amor despedaçado, forrando as paredes com fotografias da (então) loira e curvilínea actriz.
A porta no número 5 da Rue de Verneuil, creio, encontra-se normalmente fechada, o que não é suficiente para desmobilizar os fãs, que ali se encontram para escrever mensagens nas paredes e para cultuar a suposta obscura maldição da casa (também próxima do ninho de outro amor mítico e conturbado, o de Salvador Dalí e Gala). Conheço aquele pedaço de Paris apenas por tê-lo visto numa fotografia recentemente publicada num suplemento de viagens: uma fachada conspurcada por milhares de traços de tinta sobrepostos, tão feia e anónima como um prédio qualquer numa grande cidade portuguesa que tenha sido objecto de um ataque de selváticos adeptos dos graffiti.
Não me custa imaginar que cada um dos fãs que ali deixaram a sua marca tenha sido movido pela melhor das intenções, eventualmente tocado pela tal ética que obrigava os iluminados da aventura moderna (e, suponho, os seus adeptos). O resultado, porém, é um verdadeiro pesadelo. Pura pornografia visual. Catherine Ringer não seria capaz de o fazer tão mal.
sábado, 11 de setembro de 2010
Quando Mayra vem à cidade
(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)

Há certas épocas do ano em que as ruas do Porto se põem um pouco mais bonitas, e nem sempre é por causa do sol limpo da Primavera ou da luz clara das magnólias esvoaçando nos ramos nus dessas peculiares árvores, nas quais a flor se apresenta antes de qualquer folhagem. Há meses, como este de Setembro, em que mesmo as esquinas mais sujas e violentadas pela propaganda selvagem se transformam em sítios aprazíveis. Basta, afinal, que esteja marcado um concerto de Mayra Andrade num qualquer teatro das redondezas e que os cartazes que o anunciam tomem o lugar de todo o papel feio que ali existiu antes. A cidade passa a ter como que centenas de Mayras sorrindo, centenas de risos perfeitos e enternecedores, pelo que parece que os dias se tornam um pouco menos ásperos mesmo para quem não conheça a melodia doce do canto de Mayra e o pontinho escuro que ela tem no branco de um dos olhos.
Mayra Andrade vem, desta vez, cantar a Braga e, por isso, o Porto está outra vez contagiado pela luz morna que irradia dos cartazes que anunciam o espectáculo. O tom do anúncio é um pouco mais escuro do que é habitual, e Mayra tem no rosto um sorriso muito bonito e um pouco tímido, que parcialmente esconde com as mãos que tentam ocultar o rosto. Trata-se, pois, de um sorriso um pouco mais humano, como se Mayra quisesse, agora, apresentar-se como uma pessoa comum quando sabemos perfeitamente que ela não é deste mundo, que é como uma visão extraordinária ou um desses deuses gregos que, às vezes, por simples desfastio, desciam do Olimpo e se apresentavam diante dos mortais. Mayra Andrade é uma visão que canta.
Há alguns anos atrás, depois de ter decorado Navega de tanto o ouvir, fui a Guimarães para ver Mayra Andrade. No final do concerto, ela sentou-se numa mesinha tomando um chá quente e concedendo autógrafos aos crentes. Eu corri ao carro para ir buscar o meu CD e apresentei-me também diante do seu altar, devoto. Saudei-a em crioulo, no melhor crioulo de que fui capaz, e ela levantou os olhos para me perguntar se sou cabo-verdiano. Ali, a escassos centímetros de mim, Mayra pareceu-me ainda mais bonita do que aparenta nas fotografias, ou no palco, absolutamente mágica. Tremi, emocionei-me, a voz embargou-se-me e não fui capaz de dizer mais nada. Levei para casa o CD autografado. Guardo-o, desde então, como essa devoção patética dos católicos que possuem relíquias de Jerusalém. No meu caso, porém, eu vi claramente vistos os olhos da santa.
Há certas épocas do ano em que as ruas do Porto se põem um pouco mais bonitas, e nem sempre é por causa do sol limpo da Primavera ou da luz clara das magnólias esvoaçando nos ramos nus dessas peculiares árvores, nas quais a flor se apresenta antes de qualquer folhagem. Há meses, como este de Setembro, em que mesmo as esquinas mais sujas e violentadas pela propaganda selvagem se transformam em sítios aprazíveis. Basta, afinal, que esteja marcado um concerto de Mayra Andrade num qualquer teatro das redondezas e que os cartazes que o anunciam tomem o lugar de todo o papel feio que ali existiu antes. A cidade passa a ter como que centenas de Mayras sorrindo, centenas de risos perfeitos e enternecedores, pelo que parece que os dias se tornam um pouco menos ásperos mesmo para quem não conheça a melodia doce do canto de Mayra e o pontinho escuro que ela tem no branco de um dos olhos.
Mayra Andrade vem, desta vez, cantar a Braga e, por isso, o Porto está outra vez contagiado pela luz morna que irradia dos cartazes que anunciam o espectáculo. O tom do anúncio é um pouco mais escuro do que é habitual, e Mayra tem no rosto um sorriso muito bonito e um pouco tímido, que parcialmente esconde com as mãos que tentam ocultar o rosto. Trata-se, pois, de um sorriso um pouco mais humano, como se Mayra quisesse, agora, apresentar-se como uma pessoa comum quando sabemos perfeitamente que ela não é deste mundo, que é como uma visão extraordinária ou um desses deuses gregos que, às vezes, por simples desfastio, desciam do Olimpo e se apresentavam diante dos mortais. Mayra Andrade é uma visão que canta.
Há alguns anos atrás, depois de ter decorado Navega de tanto o ouvir, fui a Guimarães para ver Mayra Andrade. No final do concerto, ela sentou-se numa mesinha tomando um chá quente e concedendo autógrafos aos crentes. Eu corri ao carro para ir buscar o meu CD e apresentei-me também diante do seu altar, devoto. Saudei-a em crioulo, no melhor crioulo de que fui capaz, e ela levantou os olhos para me perguntar se sou cabo-verdiano. Ali, a escassos centímetros de mim, Mayra pareceu-me ainda mais bonita do que aparenta nas fotografias, ou no palco, absolutamente mágica. Tremi, emocionei-me, a voz embargou-se-me e não fui capaz de dizer mais nada. Levei para casa o CD autografado. Guardo-o, desde então, como essa devoção patética dos católicos que possuem relíquias de Jerusalém. No meu caso, porém, eu vi claramente vistos os olhos da santa.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Acampei uma noite na Quarteira e nunca mais me ocorreu fazer férias no Algarve
Todas as coisas, estranhas ou misteriosas, acabam, tarde ou cedo, por ter uma explicação. Espantamo-nos, por exemplo, com o facto de os extraterrestres não se empenharem em contactar connosco, os seus vizinhos do infinito celeste, nem sequer para pedir uma xícara de açúcar, um dedal de aguardente, eu sei lá. Mas também a discrição dos outros habitantes do universo poderá ter uma explicação perfeitamente plausível. A ser verdade que, há 20 anos, sobrevoaram Alfena, é perfeitamente compreensível que não tenha ficado com vontade (ou interesse) de regressar.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Uma coisita que convém lembrar com alguma regularidade
"Continuo convencido de que com a seriedade posta como uma peruca nunca se vai muito longe, e que o sorriso continua a ser a melhor vitamina para impulsionar as inteligências e os machetes. Uma revolução que não salve a alegria abaixo ou acima de todos os seus valores essenciais está condenada ao fracasso, à lenta paródia do que não chegou a ser"
Julio Cortázar, Papéis Inesperados
Julio Cortázar, Papéis Inesperados
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
O nome das coisas
Um acidente com fogo-de-artifício feriu 16 pessoas durante as festas populares de Ribeiradio, em Oliveira de Frades. Trata-se, obviamente, de uma coisa um pouco desagradável, mas, neste caso, talvez seja de ter em conta, a título de atenuante, que as festividades naquele local se fazem em honra de Nossa Senhora Dolorosa.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Aprender a roubar
A Galp, denominação oficial de um reputado bando de trampolineiros, anunciou a abertura de um posto de abastecimento de combustível low-cost em Setúbal e os órgãos de comunicação social foram em peso, obedientes, conhecer a novidade e ouvir as explicações da companhia: que se trata de um combustível mais simples e, por isso, mais barato; que nunca disseram que a gasolina vendida pelos hipermercados era de má qualidade; que...
O consumidor, não sendo totalmente desprovido de neurónios, percebe perfeitamente o que se passa: como não aprecia o roubo descarado, passou a encher o depósito onde a gasolina é mais barata. Eu, por exemplo, há mais de um ano que não abasteço em postos das marcas e, sempre que estou próximo da fronteira, vou a Espanha poupar umas coroas. Multiplique-se isto por algumas centenas de milhares de pessoas e facilmente se percebe que a Galp está a levar no pêlo e que, por isso, passou a tentar competir com os postos onde a gasolina é mais barata.
A despeito da ruidosa apresentação de Setúbal, aliás, já funciona em Gaia, há mais de um mês, uma bomba da Galp onde os combustíveis são mais baratos (“de qualidade a preços baixos”, garante a publicidade no local). Trata-se, curiosamente, do posto que antes era explorado pelo Continente da Arrábida e que a Petrogal deve ter comprado para eliminar a concorrência. A gatunagem é mesmo assim: ágil.
O consumidor, não sendo totalmente desprovido de neurónios, percebe perfeitamente o que se passa: como não aprecia o roubo descarado, passou a encher o depósito onde a gasolina é mais barata. Eu, por exemplo, há mais de um ano que não abasteço em postos das marcas e, sempre que estou próximo da fronteira, vou a Espanha poupar umas coroas. Multiplique-se isto por algumas centenas de milhares de pessoas e facilmente se percebe que a Galp está a levar no pêlo e que, por isso, passou a tentar competir com os postos onde a gasolina é mais barata.
A despeito da ruidosa apresentação de Setúbal, aliás, já funciona em Gaia, há mais de um mês, uma bomba da Galp onde os combustíveis são mais baratos (“de qualidade a preços baixos”, garante a publicidade no local). Trata-se, curiosamente, do posto que antes era explorado pelo Continente da Arrábida e que a Petrogal deve ter comprado para eliminar a concorrência. A gatunagem é mesmo assim: ágil.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Sobre aeroportos
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 17 de Agosto de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Tiziano Terzani, repórter e escritor italiano, decidiu obedecer à profecia de uma espécie de bruxo de Hong Kong e passou o ano de 1993 sem entrar num avião. Em Disse-me um adivinho, o livro em que conta aquele que, diz, foi um dos mais extraordinários anos da sua vida, Terzani evoca as vantagens da lentidão por oposição à velocidade dos aviões, a descoberta de uma outra compreensão do mundo.
Antigo correspondente do Der Spiegel na Ásia, o italiano compara os aeroportos, “todos idênticos”, a “bolhas de ar condicionado”. São, escreveu, “ilhas de relativa perfeição até nos países em ruínas onde se encontram”. Já as estações de comboios são “autênticas”, “espelhos das cidades em cujo coração estão implantadas”.
Tenho viajado incomparavelmente menos do que viajou Tiziano Terzani e, apesar das afinidades profissionais que nos aproximam, jogamos, na verdade, em campeonatos completamente diferentes. Ele disputava o Campeonato do Mundo e a Liga dos Campeões do jornalismo, eu arrasto-me nos campos de terra de uma divisão amadora dedicada aos pernetas. Ainda assim, e apesar de ser mais novo, fui ainda a tempo de conhecer, em África, aeroportos dificilmente comparáveis com os seus congéneres europeus.
Em 2005, por exemplo, aterrei no velho aeroporto da cidade da Praia, a capital de Cabo Verde. Tratava-se, então, de uma pequena construção à qual foram sendo acrescentados pitorescos anexos, incaracterísticos como marquises dos subúrbios. Seriam, creio, quatro da manhã quando cheguei e, apesar disso, o aeroporto estava cheio de gente que esperava familiares, carregava malas e tomava cerveja sentada dos muros, num fervilhar incrível.
Nesse mesmo ano, e outra vez em 2008, conheci ainda o velho aeroporto de S. Pedro, no Mindelo, com um edifício que fazia lembrar Pedras Rubras de há trinta anos atrás. A cidade cabo-verdiana inaugurou, entretanto, uma nova gare, mas, então, era uma sensação única aterrar ali num ATR 400 e, depois, descer os três degraus que nos separavam da pista e caminhar ao sol até à sala onde as malas eram despejadas por um buraco na parede.
Em Luanda, em 2007, a ruína aparente das velhas construções da capital angolana contaminava também, de algum modo, o aeroporto. Quando se chegava havia um homem de bata branca, com uma enorme seringa na mão, preparado para vacinar quem se tivesse esquecido de prevenir a febre-amarela. Avisavam-nos, depois, que não devíamos sair para a rua sem que alguém conhecido viesse buscar-nos ao perímetro vedado da zona de desembarque. E, no regresso, os procedimentos alfandegários incluíam um interrogatório policial destinado a apurar se estávamos a abandonar o país na posse de algum exemplar da moeda local. A sala de embarque era um sítio abafado e habitado por uma implacável nuvem de moscas.
Bem vistas as coisas, talvez seja um viajante refractário, mas com sorte. Conheci, se calhar, os últimos aeroportos do mundo que eram como gares ferroviárias, ainda autênticos e cheios de vida. Únicos – como as memórias.
Tiziano Terzani, repórter e escritor italiano, decidiu obedecer à profecia de uma espécie de bruxo de Hong Kong e passou o ano de 1993 sem entrar num avião. Em Disse-me um adivinho, o livro em que conta aquele que, diz, foi um dos mais extraordinários anos da sua vida, Terzani evoca as vantagens da lentidão por oposição à velocidade dos aviões, a descoberta de uma outra compreensão do mundo.
Antigo correspondente do Der Spiegel na Ásia, o italiano compara os aeroportos, “todos idênticos”, a “bolhas de ar condicionado”. São, escreveu, “ilhas de relativa perfeição até nos países em ruínas onde se encontram”. Já as estações de comboios são “autênticas”, “espelhos das cidades em cujo coração estão implantadas”.
Tenho viajado incomparavelmente menos do que viajou Tiziano Terzani e, apesar das afinidades profissionais que nos aproximam, jogamos, na verdade, em campeonatos completamente diferentes. Ele disputava o Campeonato do Mundo e a Liga dos Campeões do jornalismo, eu arrasto-me nos campos de terra de uma divisão amadora dedicada aos pernetas. Ainda assim, e apesar de ser mais novo, fui ainda a tempo de conhecer, em África, aeroportos dificilmente comparáveis com os seus congéneres europeus.
Em 2005, por exemplo, aterrei no velho aeroporto da cidade da Praia, a capital de Cabo Verde. Tratava-se, então, de uma pequena construção à qual foram sendo acrescentados pitorescos anexos, incaracterísticos como marquises dos subúrbios. Seriam, creio, quatro da manhã quando cheguei e, apesar disso, o aeroporto estava cheio de gente que esperava familiares, carregava malas e tomava cerveja sentada dos muros, num fervilhar incrível.
Nesse mesmo ano, e outra vez em 2008, conheci ainda o velho aeroporto de S. Pedro, no Mindelo, com um edifício que fazia lembrar Pedras Rubras de há trinta anos atrás. A cidade cabo-verdiana inaugurou, entretanto, uma nova gare, mas, então, era uma sensação única aterrar ali num ATR 400 e, depois, descer os três degraus que nos separavam da pista e caminhar ao sol até à sala onde as malas eram despejadas por um buraco na parede.
Em Luanda, em 2007, a ruína aparente das velhas construções da capital angolana contaminava também, de algum modo, o aeroporto. Quando se chegava havia um homem de bata branca, com uma enorme seringa na mão, preparado para vacinar quem se tivesse esquecido de prevenir a febre-amarela. Avisavam-nos, depois, que não devíamos sair para a rua sem que alguém conhecido viesse buscar-nos ao perímetro vedado da zona de desembarque. E, no regresso, os procedimentos alfandegários incluíam um interrogatório policial destinado a apurar se estávamos a abandonar o país na posse de algum exemplar da moeda local. A sala de embarque era um sítio abafado e habitado por uma implacável nuvem de moscas.
Bem vistas as coisas, talvez seja um viajante refractário, mas com sorte. Conheci, se calhar, os últimos aeroportos do mundo que eram como gares ferroviárias, ainda autênticos e cheios de vida. Únicos – como as memórias.
domingo, 5 de setembro de 2010
Traços de família

Os livros têm destas coisas, semelhanças de família, como um nariz demasiado personalizado e que, depois, se repete nas gerações seguintes. Alguns dos textos que sobraram de Um Tal Lucas (1979), de Júlio Cortázar, agora reunidos no volume Papéis Inesperados, fazem pensar, por exemplo, no Palomar de Italo Calvino (1983). Para tirar dúvidas e, sobretudo, para poder continuar a gostar dos dois, vou provavelmente ter que ler Um Tal Lucas, quando e se o encontrar, um dia destes. Já quando li O Livro de Manuel (1973) me pareceu que havia nele alguma coisa — no tom, no ritmo das frases, no processo de invenção de novas palavras — que remetia para o Ulisses (1922), mas pode ter sido só impressão minha, até porque ainda não tive vida para ler o Ulisses até ao fim.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
À atenção do Governo: é fundamental que o Simplex facilite outras metamorfoses
O Governo aprovou, segundo a agência Lusa, uma proposta de lei que regula o procedimento de mudança de sexo e de nome próprio, simplificando o processo e transferindo para o registo civil a competência da decisão. Trata-se, porém, de um processo legislativo que peca por deixar de fora outras possibilidades de metamorfose civil. Não se prevê em lado nenhum, por exemplo, que um indivíduo possa mudar para se transformar, digamos, num bahamut, num basilisco, num centauro, num insecto, num silfo, num odradek ou num cronópio, processos que o simplex, definitivamente, devia simplificar. Eu, por exemplo, vejo certas vantagens em transformar-me, um dia, naquele cronópio empregado de restaurante que, quando o fama lhe diz "Olhe, meu amigo, vá para o caralho", obedece instantaneamente à sugestão e desaparece como se o vento o tivesse engolido. O fama, diz Julio Cortázar, não chega a saber onde fica o tal caralho, o cronópio também não, mas, em todo o caso, o almoço fica um pouco prejudicado.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
O Outono de um homem não começa em Setembro, começa quando lhe doem as articulações
Não sou um indivíduo supersticioso, mas palavra de honra que isto parece castigo. Desde que escrevi este post nunca mais consegui voltar a correr, como se a prática da caça platónica, com fins meramente artísticos (a fruição do Belo e tal), me tivesse sido vedada. Devo, pois, muito provavelmente, ser obrigado a entregar-me às mãos da Ortopedia.
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