Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

Um pequeno passo para o cão, um grande passo para a humanidade


Parece que um cão devidamente adestrado consegue detectar o cancro da próstata com 91 por cento de eficácia. Trata-se, creio, de uma significativa conquista para a medicina. O urologista que, em tempos, praticou em mim o famoso toque rectal não me pareceu muito convicto do diagnóstico e, por via das dúvidas, até me mandou-me fazer análises e mais não sei o quê (baldei-me). Pior do que isso, desbaratou completamente esse cândido momento de intimidade. Não me telefonou no dia seguinte, não mandou mensagens e, dias depois, quando nos cruzámos na rua, fez de conta que não me viu.

Crónicas do autocarro#57



Um dia destes, a Clarineide, ou lá como se chama a criatura, veio sentar-se ao meu lado na fila do fundo do autocarro. Tremi. Vi-a empunhar um pequeno objecto e abri-lo, mas não era ainda o telemóvel. Era um kit que incluía um espelhinho e que serviu para que ela viesse a empoeirar o rosto e a (tentar) pôr-se mais bonita. Só depois, sim, pegou no telemóvel, no aparelho pequeno e vermelho, e ficou a dar voltas com ele na palma da mão, como se estivesse à espera de que tocasse – ou como se tivesse lido o que eu escrevi e estivesse agora acanhada e não quisesse que eu escutasse a voz muito irritante que ela tem. Fosse como fosse, a morena criatura não disse uma palavra durante toda a viagem. Depois, antes da paragem em que eu sempre saio, ela passou para o banco da frente. Eu levantei-me e agradeci. Ela olhou para mim e sorriu. Há pessoas assim: encantadoras desde que se mantenham caladas.

Mau-olhado*


Não é nada mal visto: alguns bruxos romenos lançaram, na semana passada, uma maldição contra o Governo e o Presidente da República, protestando, assim, contra o novo código fiscal daquele país, o qual obriga os praticantes da feitiçaria ao pagamento de impostos. O método utilizado será falível, os motivos da sublevação podem ser demasiado particulares, mas só um cidadão romeno sujeito a rigorosas medidas de austeridade saberá a que ponto a situação é desesperada e capaz de inspirar as acções mais desvairadas.

Mesmo não acreditando nem um bocadinho em bruxas, ocorre-me que também Portugal tem uma longa tradição de feitiçaria, infelizmente ameaçada pelo progresso, pela educação e pela desertificação do interior. Eu próprio descendo de uma linhagem de mulheres com poderes extraordinários, as quais, longe dos hospitais e das farmácias, praticavam rezas várias para talhar males do corpo e do espírito. A minha bisavó Emília, conhecida em Avitoure como “a Matatuda”, curava conjuntivites (treçolhos) e distensões musculares (pulso ou pé abertos) com simples mezinhas, as quais implicavam o uso de alguidares com água salgada e carrinhos de linhas. Eram magias benévolas, às quais a minha avó e a minha mãe não deram continuidade, embora uma e outra creiam sinceramente na existência de maldições como o mau-olhado e o mal-de-inveja, responsáveis pelo simples azar, mas também por doenças físicas, dessas que agora se tratam com analgésicos e antibióticos.

Não querendo ser acusado de utilizar este espaço para alimentar campanhas negras, é com o mais pragmático dos ânimos que me atrevo a considerar que a tradição nacional da bruxaria é um cluster muito mal aproveitado nos tempos que correm. Leio nos jornais, por exemplo, que os magos da Roménia justificam o lançamento de feitiços contra as autoridades com a insensatez que há em cobrar impostos a quem não ganha quase nada, e imediatamente me ocorre que há muito quem, em Portugal, se possa queixar da mesma coisa e que, portanto, talvez não fosse má ideia ponderar a possibilidade de lançar meia dúzia de bruxedos contra alguns indivíduos escolhidos a dedo: os que passaram vários anos a viver à grande, alimentados pelos impostos de todos, os que acumulam pensões milionárias do Estado, os que geriram danosamente o interesse público, os que enriquecem graças à miséria alheia e os que compram acções a preço de saldo e depois as vendem com lucros fabulosos a bancos cuja falência será evitada, outra vez, pelos impostos do pagode. Creio que sabem de quem estou a falar.

Proponho que a coisa se faça numa cerimónia pública e requintadamente encenada, com a presença de sapos, galinhas negras e sangue de virgens. O mau-olhado que assim se lançasse não teria, claro, poder absolutamente nenhum. Mas, havendo entre aquela gente quem acredite em entidades sobrenaturais e poderes invisíveis, religiões e assim, é sempre possível que alguns, devidamente sugestionados, acabassem por passar um mau bocado. E era bem muito feito.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 11 de Janeiro de 2011

Domingo, 30 de Janeiro de 2011

"Pirineos is biutiful"



Biutiful, de Alejandro González Iñárritu, podia ser um grande filme — sobre a imigração clandestina, a escravatura, a pobreza, a doença, a família à deriva. E, de certo modo, é-o. E é também um bom filme sobre as traseiras "biutiful" das belas cidades, as partes recônditas e podres para as quais preferimos não olhar. No caso, ficamos a saber que se trata de Barcelona quando os imigrantes africanos são perseguidos pelas Ramblas (excelente sequência), mas podia ser Paris, Londres, Roma, Lisboa ou o Porto (todas as cidades têm aquelas casas velhas e húmidas aonde ninguém vai, as lojas chinesas e paquistanesas, os africanos a vender pelas ruas). O tratamento do som é também notável em vários momentos. E há ainda Bardem, talvez o melhor actor da actualidade. Mas, inexplicavelmente, perde-se um grande filme quando Iñárritu opta por misturar assuntos sérios com a patetice do espiritismo.

Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011

Ensaio sobre a solidão


Um ano mais, o filme de Mike Leigh, é, ou pode ser, para lá da espantosa qualidade das interpretações, uma espécie de viagem ao futuro para qualquer pessoa que tenha uma vida relativamente banal (real?). É talvez um pouco triste, demasiado melancólico ou, até, um pouco aborrecido - precisamente porque a vida é mesmo assim. Tem as cores (frias) do realismo inglês e a cadência dos anos sucedendo-se.

Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

Lição de optimismo


Fiquei um pouco contrariado com a avaria, uma destas manhãs, de um dos estores cá de casa, sobretudo porque a persiana completamente corrida instalou uma barreira inexpugnável entre o meu quarto e a luz (em sentido literal e metafórico), entre o meu quarto e a roupa que tenho a secar na varanda (aqui no mais utilitário dos sentidos, até porque tenho lá as calças que queria vestir amanhã). Os jovens, porém, conseguem sempre ver o lado positivo das coisas mais desagradáveis. Confrontada com a minha irritação, a minha filha procurou animar-me. Pelo menos, disse, não tenho que estar semppre a fechar o estore antes de me deitar.

Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

Crónica do autocarro#56



"Os dias — escreveu o Gonçalo M. Tavares — são, em geral, móveis, um autocarro que não pára". Ao contrário dos dias, acrescento eu, os autocarros vêem-se, porém, obrigados a fazer várias paragens: as regulamentares, as forçadas pelos semáforos vermelhos e, às vezes, aquelas que são impostas pelos engarrafamentos do trânsito. Esta tarde, e como muito bem assinalou uma utente do lado bom da força, o trânsito pôs-se ainda mais aborrecido por causa de um outro autocarro parado. No caso, tratava-se do autocarro do Benfica estacionado na Avenida da Boavista. Haverá contrariedade mais desagradável? A cidadã parecia achar que não, até porque, disse ela, já tinha levado com aquilo nas trombas logo de manhã. A cena repetia-se agora ao final da tarde, desagradável como um cadáver em contramão rodeado de mirones, com mais polícia do que o presidente da república — e nós a pagar aquilo tudo, protestava a utente. Estava, pois, ali parado o autocarro do Benfica, ao contrário dos dias geralmente móveis e, quiçá, reclamando uma bola de golfe ou, vá lá, um ovo podre. Assim, e pela contrariedade que a mulher demonstrava, o autocarro parado, para lá das declinações filosóficas que possa inspirar, pode também ser um excelente local para a captação de novos talentos para os super-dragões.

Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Turismo

"Há seres vivos que começam a viajar
para caçar acontecimentos para a sua vida, como se as
excitações fossem borboletas de tamanho grosso
e considerável (para não fugirem pelas redes)".


Em Uma Viagem à Índia (Canto II), de Gonçalo M. Tavares,

O admirável encanto do anonimato

Entrei há pouco no metropolitano (estação de Francos, pois claro) e, ao primeiro relance, espantei-me com a quantidade de pessoas que aparentavam estar a ler alguma coisa que não fosse o Destak (ou lá o que é). Olhando com mais atenção, pude confirmar que pelo menos três dos passageiros iam a ler livros (livros!), um dos quais numa velha encadernação de pele que excluía a possibilidade de se tratar de um desses best-sellers que se lêem como telenovelas. Havia ainda uma senhora que lia uma revista dedicadas às mundanidades e uma moça na qual reparei particularmente, uma vez que tinha aberto o jornal do dia numa página em que estava impressa uma fotografia minha (igualzinha à do Andante). Sobressaltei-me um pouco, claro, pois ninguém está livre de levar um par de estalos de um fanático do professor Cavaco. Mas tão depressa pensei nisto como me aquietei. Já me disseram várias vezes que não sou, assim na vida real, muito parecido com o rapaz bem-parecido daquela fotografia. Ninguém, portanto, me reconheceu e pude, assim, terminar a viagem em paz e sair tranquilamente na Trindade ao lado da rapariga do jornal, que também nem chegou a ler a crónica, uma vez que as pessoas têm mais que fazer do que perder tempo a ler o jornal todo.

Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011

Um comediante*


Se fosse verdade que o clima rigoroso dos países do Norte determinou o progresso intelectual dos povos que lá vivem – dele irrompendo, como flores entre a neve, as principais correntes filosóficas que moldaram a civilização ocidental –, esta crónica seria provavelmente a mais extraordinária de todas quantas aqui tenho escrito. A redacção amanheceu privada de electricidade, o aquecimento não funciona e eu tenho as mãos geladas e o corpo encolhido para suportar a invernia. Graças a uma qualquer ironia da técnica, porém, o meu computador continua ligado e eu posso, assim, trabalhar para (tentar) aquecer, como suponho que terão feito, no seu tempo, Tolstói e Dostoievski, Kant e Erasmo, mas também Proudhon e Marx, Leibniz, Locke e o senhor Nobel enquanto inventava a dinamite.

Uma vez que não acredito nas vantagens morais do frio e do ascetismo, nem na superioridade de alguns povos sobre os demais, vi-me, entretanto, obrigado a abandonar as instalações para atravessar a Baixa do Porto a pé, de um lado para o outro, a fim de procurar aumentar a temperatura corporal e descongelar os dois neurónios que habitualmente me assistem. Subi e desci ladeiras, escorreguei uma ou duas vezes nas pedras molhadas e aproveitei para almoçar um naco de novilho e para beber um quartilho de maduro tinto. Findo este autêntico martírio, estou finalmente capaz de matraquear no teclado sem parecer que estou a fazê-lo com a extremidade de um apêndice morto.

O eventual leitor não terá, sequer, notado que daqui saí, mas a verdade é que fui e que regresso agora, tão pouco europeu como antes e, portanto, quase nada capaz de impressionar a ilustre audiência com o brilhantismo gelado desta crónica. Os povos que vivem ao frio terão sido capazes de arquitectar grandes e imortais romances, brilhantes (ups!) sistemas económicos e sociais e formas mais eficazes de matar o próximo, mas os outros inventaram o samba, a crioula, o realismo mágico, o Kama Sutra e o cha-cha-cha. Não sei se é possível escolher imparcialmente entre uns e outros, mas não andarei muito longe da verdade se disser que a crónica enregelada não estava a sair grande coisa e que só o espírito (quente) do maduro tinto foi capaz de salvá-la.

Um leitor habitual destas crónicas, que encontrei na rua no último dia do ano passado, cumprimentou-me e disse que eu sou “um cómico”, conclusão a que chegou, pelos vistos, ao ler aquilo que aqui vou escrevendo. Uma vez que não posso, em consciência, rebater o teor daquela afirmação, nem a sua bondade, pareceu-me melhor tirar algum proveito deste pouco invejável estatuto e abster-me de tentar escrever sobre assuntos sérios nesta semana aziaga em que tudo aumenta. O capitalismo, o liberalismo e o Estado de Direito não estarão, nesta altura, na melhor das formas, mas de certeza que não vou ser eu a mudar alguma coisa entre as duas piadas torpes que aqui costumo fazer. Os velhos latinos cunharam uma frase segundo a qual a rir se castiga melhor. Os latinos, porém, eram, como eu, indivíduos do Sul. Não se deve levá-los muito a sério.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 4 de Janeiro de 2011

Cinco conclusões eventualmente precipitadas

1. Cerca de 75 por cento dos votos expressos nas eleições presidenciais ficaram concentrados nos representantes da união nacional que se governa em Portugal há 80 anos. A maioria dos portugueses, porém, não quer saber; encolhem os ombros, como faziam no tempo da outra senhora. São cúmplices.

2. Sobre o indivíduo que vai continuar a ser o chefe desta espécie de Estado, já disse o que tinha a dizer. Lamento, portanto.

3. Para além das restantes e já conhecidas habilidades, Cavaco ainda aprendeu entretanto, com o ignóbil Rio, a (pelo vistos) muito apreciada arte de sacudir água do capote diabolizando a imprensa. Um dia haverá uma só verdade: a que eles quiserem.

4. A votação demonstra, outra vez, que os portugueses não querem saber de que cepa são feitos aqueles que governam o país. Os jornalistas não servem para nada. Devia, por isso, passar a identificar-me como lixeiro, até porque não estou a ver nenhuma outra actividade na qual um inútil como eu possa ganhar a vida. Mas talvez experimente a política.

5. Votei em Fernando Nobre, mas obviamente enganei-me. Um tipo capaz de festejar numa noite em que Cavaco ganha eleições não merece o meu voto.

Domingo, 23 de Janeiro de 2011

My own private Roy Channing story


Há alguns meses atrás, o João Luís Barreto Guimarães pediu-me, como já tinha pedido a outras pessoas, que escolhesse um poeta e um poema para o blogue Poesia Ilimitada. Eu escolhi Cesário Verde e o poema De tarde, provavelmente por ser dos poucos que eu sou capaz de dizer de cor desde o tempo do liceu. A coisa fez-se natural e descontraidamente, mas, um dia, alguém deve ter encontrado e achado piada ao poema, e nem se deu trabalho de ler os textos que o acompanhavam: republicou-o num blogue qualquer e atribuiu-me a autoria de De tarde. E, a partir daí, tenho sido dado como poeta genial por alguns sítios da blogosfera, autor do inesquecível poema do pic-nic de burgueses. Ou seja: aconteceu-me, embora de modo totalmente involuntário, o mesmo que ao personagem-escritor do filme de Woody Allen, Roy Channing, com a vantagem de já não haver nenhuma centelha de vida biológica em Cesário Verde e, portanto, eu não correr risco nenhum de que ele venha a reclamar a autoria do poema. Ainda assim, eu preferia que não tivesse acontecido. O fracasso assenta-me perfeitamente bem.

Menos sozinho no mundo

Li opiniões contraditórias sobre "Vais conhecer o homem dos teus sonhos", o último filme de Woody Allen. Pelo que me toca, gostei. Tal como sucedia com "Tamara Drew", de Stephen Frears, o filme de Allen conta, entre os personagens, com a caricatura de um escritor falhado. Parecendo que não, isto é algo muito reconfortante. Um tipo vai ao cinema, entre outras coisas, com a esperança de se sentir um pouco menos sozinho no mundo.

Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

Crónicas do autocarro#55



Espero que o clima de reflexão eleitoral tenha pousado, entretanto, sobre o bulício do autocarro, quanto mais não seja porque amanhã é sábado. Esta manhã, porém, o autocarro ainda vinha agitado, não exactamente por causa da campanha eleitoral em curso, mas, antes, devido à ventania que corria a cidade de nascente para poente e deixava tudo em desalinho. Uma das habituais utentes do 502 das nove e dez, por exemplo, comentava com a irmã que “aqueles miúdos assim com o cabelo mais extraviado” nem precisavam de se pentear; bastava-lhes sair à rua que o vento tratava do assunto. Logo adiante, choveram sobre o autocarro umas bolinhas vegetais que o vento arrancava das árvores da Rotunda da Boavista e a irmã da utente achou que estávamos a ser atacados. E por aí adiante. Mas nenhum malefício da ventania poderá explicar o homem gordo que viajava de pé, a meio do autocarro, com a sua rotunda barriga muito empinada, o seu brinco na orelha, os seus vários anéis na mão esquerda, os seus sapatos de biqueira fina e os seus auscultadores nas orelhas. Lá ia ele escutando a sua musiquinha a mexendo os lábios, fechando os olhinhos nos agudos e sacudindo a cabeça como se estivesse numa audição dos Ídolos, absolutamente empenhado na cantoria. Pareceu-me, ao longe e pelos meneios do bom homem, que ele ia a ouvir Beyoncé, mas, quando me aproximei para sair na paragem seguinte, percebi que o batoque murmurava palavras que soavam vagamente italianas. O azeiteiro, afinal, devia estar só a ouvir a Laura Pausini.

No fundo, no fundo, existe um Cavaco dentro de cada um de nós

Lá está. Se Cavaco ganhar as eleições presidenciais, não será por ser sério, rigoroso ou um garante de estabilidade política. O Público revela hoje que a misteriosa casa de férias do indivíduo foi objecto de obras não licenciadas, entre outros atropelos processuais. É mais um pormenor a juntar ao que já se sabia. Cavaco ganhará, pois, por ser tão trampolineiro, ignorante e sem-vergonha como a maioria dos portugueses.

Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

O senhor Bloom


A epopeia ainda vai no adro, ainda não partiu de Londres, pelo que esta é, muito provavelmente, uma opinião precipitada e palerma (não o são todas?). Uma Viagem à Índia, o último de Gonçalo M. Tavares, tem-me remetido, em todo o caso, para os livros da série O Bairro – mas como se, ao contrário dos senhores Valéry, Calvino, Juarroz ou Walser, o senhor Bloom fosse incapaz de assentar, de alugar uma casa ou contrair um empréstimo, de comprar móveis e tachos, e necessitasse, antes, de vagabundear pelo mundo e de levar as suas melancolias para muito longe, para onde o não conheçam e onde não tenha vizinhos nem plantas para regar.

Onde é que estão as comissões de protecção de menores quando são realmente necessárias?

Yannik Djaló e Luciana Abreu ameaçam chamar Lyonce Viiktórya à própria filha. Palavra de honra, acabo de ler no Correio da Manhã.

Pergunta o gajo de Francos que tenho dentro de mim:

Terei sido o único depravado que notou que, entre as putativas namoradas de Berlusconi, há uma ex-higienista oral chamada Nicole Minetti?

Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

Um único senão: gostamos mesmo muito que façam de nós parvos

Na crónica de hoje no Público, o (excelente) Rui Tavares escreve que “Cavaco está – quase de forma extraordinariamente transparente – a fazer dos eleitores parvos” e a “contar com a nossa estupidez”, pelo que devemos, pelo menos, “fazê-lo passar por um mau bocado”. O raciocínio tem, porém, um senão. Os eleitores são tão parvos, e são-no de forma tão efectivamente patética, que já deram quatro vitórias eleitorais a Cavaco, três das quais com maioria absoluta.

Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

Louco de palestra*



Tanto quanto é possível determinar, a expressão “louco de palestra” terá sido escrita pela primeira vez num texto do escritor brasileiro André Czarnobai para a revista Piauí, há coisa de um ano. Serve para denominar aqueles indivíduos que, em qualquer conferência, debate ou mesa redonda, aproveitam o momento destinado à participação do público para se erguerem das respectivas cadeiras e falarem durante alguns (longos) minutos sobre assuntos raramente relacionados com a matéria em análise. Os loucos de palestra começam quase sempre por declarar que querem “só dizer uma coisa” e acabam por tecer várias considerações avulsas, por fazer perguntas completamente estapafúrdias e até por declamar poemas originais (e injustamente incompreendidos).

No Brasil, pelos vistos, a expressão caiu imediatamente no goto dos habituais participantes em conferências. Já foram escritos longos artigos sobre o assunto, elencando os vários géneros de loucos de palestra e enumerando casos concretos de oradores tão espontâneos como inesquecíveis, bem como algumas das mais fleumáticas réplicas dos interpelados. Em Portugal, porém, a expressão ainda não foi devidamente adoptada, embora também não me ocorra nenhum equivalente luso suficientemente generalizado. Ainda assim, qualquer pessoa que já tenha participado numa sessão pública conhece pelo menos a sua boa meia dúzia de loucos de palestra.

Fiquei, aliás, a par da existência da expressão brasileira graças a uma professora galega de Português, a qual, tendo assistido, na Póvoa de Varzim, à apresentação de um livro na qual fui um dos oradores, pôde testemunhar a performance de um dos mais notáveis loucos de palestra que já conheci. O homem sentou-se na última fila, discretamente, mas, assim que teve ocasião, explicou que entrara ali por acaso, ficando horrorizado com o carácter ímpio de um romance que nem sequer lera – O Novíssimo Testamento, do cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, obra notável e muito divertida, que inventa um Jesus ressuscitado fêmea na ilha de Santiago.

Beato e mal disposto, o homem não queria saber do livro para nada e empenhou-se apenas em advertir os presentes dos riscos que existem quando se brinca com coisas supostamente sérias, como deus e assim. Proferiu frases memoráveis, que o Mário Lúcio encaixou com uma paciência maior do que a de Job, mas eu apreciei particularmente a ameaça velada com que terminou a intervenção. Num tom pausado e grave, com o dedo um pouco espetado, avisou os presentes de que a galhofa vai acabar mal. “E mais cedo do que se pensa”, acrescentou após uma pausa espantosa, dando a entender que dispõe de informação privilegiada sobre o juízo final e outros desígnios divinos.

Penso, às vezes, nestes indivíduos e na capacidade que têm para agirem ao arrepio do mais elementar bom senso, proferindo sentenças graves contra toda a razoabilidade, sempre muito seguros de si. Penso neles e pergunto-me se escrever crónicas não será também uma forma de ser louco de palestra.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 28 de Dezembro de 2010

Domingo, 16 de Janeiro de 2011

Crónicas do autocarro#54



Existe, entre as pessoas que tomam banho diariamente, um preconceito segundo o qual o ambiente olfactivo dos autocarros padece com a falta de higiene das camadas populares. Os juízos apriorísticos, porém, são que são e eu prefiro não dizer que sim nem que não, na exacta medida em que ando de autocarro e nem por isso deixo de praticar as ablações matinais com sabonete e champô, perfumando-me até um pouco antes de enfrentar cada dia. Ainda que o faça apenas para ajudar a disfarçar o cheiro a merda do mundo, faço-o - e preparo-me para o que der e vier.

Foi, pois, com certo agrado que, um dia destes, senti a dado passo, dentro do autocarro, o odor bom e saudável do café acabado de moer. Estranhei, mas imaginei que o cheiro se estaria escapando da carteira de alguma das utentes, provavelmente vinda da Casa Chinesa ou de algum dos velhos bazares da Baixa, desses com sólidas prateleiras de madeira pintada. Logo a seguir, porém, pareceu-me que percorria o ar, isso sim, um cheiro a pão torrado, o qual, um instante depois, se tinha já transformado num evidente olor a frango assado.

Ante a improbabilidade de estar a decorrer no autocarro um piquenique sem que eu tivesse dado por nada, conclui que devia estar padecendo de alguma forma peculiar de alucinação olfactiva. Só depois, pensando nisso, me ocorreu que um distúrbio destes pode perfeitamente manifestar-se ao nível dos outros sentidos, pelo que me vejo forçado a admitir que o episódio do tomate, do boné e do guarda-chuva vermelhos, que aqui narrei há dias, pode muito bem ter resultado de uma alteração das funções cognitivas. Tudo o que aqui conto, aliás, pode ser o resultado de uma mente distorcida e doente, de surtos psiquiátricos episódicos, eu sei lá. Talvez, afinal, o autocarro nem sequer exista e eu seja, enquanto passageiro, um puro engano – um equívoco a precisar de voltar a ler René Descartes.

Escrevi, contudo, "voltar a ler", pelo que me ocorre que tal formulação implica que já antes, em algum momento, tenha lido René Descartes. E, se o li, talvez, afinal, eu exista. Hei-de voltar a pensar no assunto.

Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

Morna di bai

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)


© Teatro Anatómico 2005 (Tarrafal de Santiago)

Ainda me recordo bem da emoção que senti quando, há um ano atrás, escrevi a minha primeira crónica para esta coluna, espécie de declaração de amor a um país que não é o meu mas que também é o meu, na exacta medida em que creio que um homem pode escolher as nações a que pertence e que lhe pertencem, a despeito das leis e dos governos, das burocracias e das fronteiras, dos ódios e das raças. Agora que penso nisso, parece-me, na verdade, que todas as crónicas que aqui escrevi foram apenas isso mesmo, declarações de amor dispersas e lançadas ao mar como mensagens presas dentro de garrafas vazias. Esperei secretamente que cada uma das garrafas fosse flutuando por este mar fora, incertas e velozes, cobrindo a distância que há entre a foz do Douro e qualquer uma das praias ou das arribas das ilhas que aí estão, e acabassem achando, desse lado, um par de mãos que as recolhessem, um par de olhos que lessem os bilhetes de amor que levavam dentro.

Passou um ano e pareceu quase tempo nenhum e muito tempo. Não há, se calhar, coisa mais relativa do que o tempo, tantas são as formas que temos de medi-lo e de pesá-lo, de armazená-lo dentro de nós e de construir com eles eras só nossas. Passaram cinco anos e meio desde que descobri Cabo Verde, cinco anos desde que tive a certeza de que também sou daí, crioulo por dentro, crioulo mesmo, por ser essencialmente o resultado de muitas misturas, das que me precederam e ficaram diluídas no sangue e das que eu escolhi depois que me foi dado decidir sobre estas coisas.

Cinco anos é, aparentemente, mais tempo do que um ano, mas pode não ser tempo nenhum. Há cinco anos descobri Cabo Verde, que sou também um pouco de Cabo Verde, das mornas do Humbertona e do Eugénio Tavares, do desamparinho de Santo Antão, do vento do Mindelo quando chega o Outono e da areia negra de Quebra Canela. Há um ano comecei a escrever neste espaço, a dar livre curso a estas coisas que se me foram metendo dentro e passando a fazer parte de mim. Foi muito tempo e não é tempo nenhum. Eu mudei e sou o mesmo, nem melhor nem pior, apenas diferente e igual neste meu jeito de dizer que te gosto, Cabo Verde, que sou daí, e que esta distância, às vezes, faz doer o peito e querer voltar, a tal da saudade que é só nossa, mas que, calhando, talvez seja melhor amar-te à distância e em silêncio - coisa só minha.

Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

Crónicas do autocarro#53



Ora bolas! Uma vez que não há nada mais fácil de arruinar do que uma quimera, fui cobardemente informado de que Sonhos é, efectivamente, uma localidade de Ermesinde e, mais concretamente, da freguesia de Alfena (o horror!...). Preferia, conforme imaginarão, ter sido mantido na mais estrita ignorância, mas não posso agora fazer de conta que não estou a par da realidade. Talvez, um dia, ainda vá a Sonhos, o que, em todo o caso, é um pouco improvável, já que a minha assinatura mensal dos transportes públicos (o passe post-moderno) não permite deslocações aos subúrbios. Terei, pois, que continuar a beneficiar da quotidiana transumância dos subúrbios, exactamente como sucedeu com a mulher que, ainda ontem (terá sido ontem?), pedia explicações relativas à chamada que tinha recebido no telemóvel, cuja origem não estava identificada, mas que, pelos vistos, partira de um indivíduo que lhe devia finezas. Por várias vezes ela perguntou ao homem por que é que ele tinha ligado de um número não identificado e para quem é que ele tinha estado antes a ligar de um número não identificado. Por quem, afinal, é que ele não queria ser identificado?

(se, acaso, o leitor estiver incomodado com a repetição da palavra “identificado”, saiba que eu a escutei vezes sem conta em cerca de dez minutos, pois a mulher não dizia mais nada e insistia na pergunta, over and over and over)

Como as explicações do sujeito não a satisfaziam, a mulher, a dada altura, revelou o verdadeiro teor da sua inquietação e perguntou ao homem, com toda a frontalidade, se ele tinha estado a ligar “para a outra”. Eu não me surpreendi com o desabafo e creio que também nenhum dos outros passageiros se surpreendeu com o verdadeiro motivo do drama da chamada não identificada. Os grandes sobressaltos existenciais dos transportes públicos são, ainda, deste teor. Os desempregados viajam, regra geral, em silêncio, remoendo o medo e a angústia do dia seguinte.

O admirável mundo das finanças

As secções de economia dos órgãos de comunicação social regozijam-se com o facto de o país ter conseguido voltar a endividar-se, a um juro inferior a sete por cento, provavelmente para pagar empréstimos anteriores, com juros mais baixos. O governo também se regozija e os mercados devem estar igualmente a regozijar-se bastante, embora sejam um pouco mais discretos (eu, no lugar deles, dava pulos e deitava foguetes, mas “eles”, presumo, têm formas de festejar um pouco mais requintadas e dispendiosas). Eu, porém, não posso regozijar-me por aí além, já que tenho a vaga impressão de que vou pagar este regozijo todo nas próximas contas do hipermercado e nos próximos recibos de vencimento. De qualquer modo, e conforme nos diria o professor Cavaco antes da campanha eleitoral, é sobretudo muito importante não irritar os mercados. Quando os mercados se irritam não há regozijo para ninguém.

Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Crónicas do autocarro#52



Ignoro se serei capaz de manter este espaço de reflexão (chamemos-lhe assim) durante muito mais tempo, mas estou certo de que a minha missão de utente e cronista dos transportes públicos não ficará concluída enquanto não tiver tido tempo para embarcar no autocarro 703, aquele que parte da Baixa e, depois, percorre ruas e ruelas em direcção a um sítio chamado Sonhos, que eu não sei onde fica e, por isso, imagino como uma espécie de País das Maravilhas, com fontenários de onde jorra o mel e unicórnios correndo por pastagens verdíssimas, entre árvores de pasmar. Ocultas pelas ramagens haverá ninfas espreitando a chegada dos forasteiros, e elas estarão armadas de arcos e setas, como cupidos, escolhendo alvos entre os mortais recém-chegados, flechando-os para a prática de pecados carnais e outras delícias, vinhos e ovos-moles, moquecas e petiscos diversos. O utente dos transportes públicos tem algo de poeta e de sonhador, mas é, ao mesmo tempo, um sujeito pragmático e habituado ao duro recontro com a aridez da realidade. Sei perfeitamente, por isso, que Sonhos há-de ser um sítio em Ermesinde ou em Valongo, talvez até em Rio Tinto ou em Fânzeres, e que muito provavelmente lá não haverá lugar para nenhum tipo de devaneio (ainda que as gajas de Ermesinde, já se sabe...). É por isso que continuo a adiar a viagem – para poder continuar a sonhar.

E agora no grande ecrã (parece que desta é que é)



Quem é o pai do menino Jesus, a tal curta-metragem, passa na sessão desta noite do Shortcutz Porto, no Hard Club, a partir das 21h30.

Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

Crónicas do autocarro#51



Pode um dia cinzento e triste a bordo de um autocarro transformar-se, de um golpe, num instante colorido e semelhante a um sonho psicadélico? Numa celebração surrealista? Pode. Claro que sim. E só quem nunca andou de autocarro duvidará da magia que, de vez em quando, se instala entre os bancos e os varões. Ontem, por exemplo, chovia copiosamente sobre a cidade. Os vidros do 502 das nove e dez vinham embaciados e os passageiros empunhavam guarda-chuvas encharcados. Vínhamos todos com cara de segunda-feira e, talvez por isso, fui o único que notou que, debaixo do banco junto à porta traseira, havia um tomate esquecido – um tomate bem maduro e rubro. Entretive-me um instante a contemplar o tomate e a imaginar como ali teria ido parar, mas, logo depois, reparei que o homem sentado no banco sob o qual estava o legume tinha um boné na cabeça. Não era, porém, um boné qualquer, mas sim um boné insolitamente vermelho. Estranhei a coincidência, obviamente, mas, logo a seguir, notei que havia ali ao lado um outro homem, de pé, empunhando, este, um guarda-chuva vermelho, paradoxalmente vermelho, e ocorreu-me que a arte contemporânea agora está em toda a parte e que a empresa dos transportes públicos parece não poupar esforços para entreter os passageiros. Creio, aliás, que não andarei muito longe da verdade se afirmar que a contemplação simultânea do tomate, do boné e do guarda-chuva vermelhos provocaram em mim um sobressalto estético, como um arrepio, e, muito francamente, não percebo como é que o Museu de Serralves ainda não se tinha lembrado disto.

Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011

Coitadinhos dos senhores, que vão ser obrigados a mandar os filhos para as escolas em que andam os pobrezinhos

Não posso senão concordar com as alminhas que recebem o professor Cavaco em semi-êxtase, com os círios aflitos e acesos, e reclamam o direito de escolher as escolas em que andam as respectivas crias. Claro que podem escolher. Quando, porém, escolhem que a escola do Estado não lhes serve, devem assumir as consequências dessa escolha e pagar aquilo que custa uma escola privada. Os meus filhos já frequentaram escolas assim, privadas (mea culpa). E eu pagava em conformidade, que não tenho como esconder rendimentos. Alguns colegas deles, porém, chegavam à escola de BMW, Mercedes, Land Rover, Volvo e afins, tinham sopeiras, mas eram tão pobrezinhos, coitados, que tinham a mensalidade subsidiada pelo Estado (ou seja, pelos meus impostos). Toda a gente sabia que era assim. Ninguém se incomodava. Mas, agora que parece que terminou a bandalheira, estão todos muito enervados e parece que vão votar no professor Cavaco, dispostos até a esquecer a desfeita que ele lhes fez quando aprovou a badalhoquice do casamento dos homossexuais. Os bons espíritos reencontram-se sempre.

Máquinas quânticas*



Tenho tido alguma dificuldade para entender o funcionamento da máquina quântica, a invenção que a revista Science considerou “a descoberta científica do ano de 2010”. Parece, pelo pouco que fui capaz de compreender, que a grande vantagem do dispositivo reside no facto de poder ser visto a olho nu, quando, normalmente, a quântica se manifesta apenas no mundo subatómico e de uma forma que contraria a experiência física comum e a mecânica normal das coisas que se podem ver e tocar. Há-de, pois, ser como uma espécie de wikileaks do mundo, capaz de revelar coisas que até aqui sucediam sem que ninguém pudesse vê-las (ainda que há muito tempo se suspeitasse da sua existência).

A máquina quântica, tal como a vi descrita, é um mecanismo da grossura de um fio de cabelo, dotado de uma espécie de lingueta supercondutora capaz de, ao mesmo tempo, vibrar muito e pouco. Ou ainda, conforme li noutra publicação, que pode estar simultaneamente em movimento e em repouso. Trata-se, portanto, de uma coisa admirável, que a revista Science resume numa pergunta: “Por que é que um carro e uma pessoa não podem estar em dois sítios ao mesmo tempo?”.

As possibilidades abertas pela física quântica são, assim, tremendas. Por exemplo: acaba de entrar um colega de trabalho que, ironicamente, comentou que a redacção deserta (somos três neste momento) está a “fervilhar de trabalho”. À escala humana, a afirmação não tem ponta por onde se lhe pegue. Mas, agora que é possível ver os quanta em acção, simultaneamente parados e em movimento, é realmente possível que a redacção fervilhe a um nível subatómico e que existam vários jornalistas que só não estão neste momento aqui e noutro lado qualquer porque andam distraídos e não acompanham os últimos desenvolvimento da ciência (mas eis que entra o António Arnaldo Mesquita, o qual, mesmo inconscientemente, já estava aqui e não estava um nanossegundo antes de chegar).

Estimulado por uma profunda ignorância sobre este assunto, sinto-me autorizado a imaginar, desde já, loucas aplicações práticas para a máquina quântica. Não me interessa absolutamente nada que o bater de asas de uma borboleta em Tóquio provoque um furacão em Nova Iorque (não tenho nada contra Nova Iorque), mas creio que, nos tempos difíceis que aí vêm, poderemos todos colher algumas vantagens da possibilidade de estar em dois sítios ao mesmo tempo. Não invocarei, sequer, a possibilidade de andar lá fora a apanhar sol enquanto estou aqui sentado a ganhar dores nas costas, a qual, em todo o caso, já seria um incremento significativo na minha qualidade de vida. O caso é que, com menos dinheiro na carteira, mais impostos para pagar e aumentos nos preços de tudo e de mais alguma coisa, haverá toda a vantagem em que nos transformemos, já no dia 1 de Janeiro, em fabulosas e moderníssimas máquinas quânticas, capazes, por exemplo, de estar ao mesmo tempo em dois empregos - ambos, provavelmente, no subatómico país das maravilhas.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 21 de Dezembro de 2010

Domingo, 9 de Janeiro de 2011

Já não se fazem personagens como Norma e Teresa

Dizer que Lúcia McCartney (1967) e A Coleira do Cão (1965), em velhas edições cobertas de pó, humidade & outros miasmas, foram os meus melhores presentes do último Natal, é, decerto, dizer pouco. Estando eu sem vontade de viajar e sem tempo para frequentar alfarrabistas, a Vanessa encontrou forma de me ajudar a concluir a colecção de Rubem Fonseca, uma daquelas de que sou mais zeloso. Um livro do Rubem Fonseca é sempre motivo de festa. Dois, devia dar direito a banda de música e foguetório, tanto mais que, perto da frívola Norma e da voraz e insaciável Teresa do conto Relatório de Carlos, a Kirsten de O Seminarista é uma mulher com muito pouca graça.

Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

Crónicas do autocarro#50



Cinquenta crónicas do autocarro já são um bocado de fruta, sobretudo quando, como me disse o Manuel António Pina, se tem que arranjar assunto em vez de inventá-lo. Em cerca de um ano, cinquenta crónicas hão-de corresponder ao esforço que, há dias, ouvi um moço descrever recorrendo à espantosa expressão “quilhões de merdas”. São portanto, quilhões de merdas escritas e, desta vez, não farei mais do que dar conta da conversa, ouvida ontem, entre dois dos profissionais que conduzem os nossos autocarros. Segundo percebi, há, entre estes diligentes motoristas, um que responde pela alcunha de "Sandokan". Escutei-o a propósito de uma conversa que tinha a ver com trocas de folgas ou algo assim e, acto contínuo, imaginei Sandokan, “o tigre da Malásia”, conduzindo um autocarro da STCP como quem conduz um navio-pirata preparado para atacar um veleiro inglês, com um sabre nos dentes e os olhos azuis faiscando de coragem e temeridade. Pensei nisto, dizia, mas ocorreu-me que vocês, miudagem que por aqui passa, já não são do tempo do Sandokan, nem da televisão a preto-e-branco, nem dos autocarros Leyland de dois andares, nem de andar à guna nos eléctricos na Avenida da Boavista. Outros tempos...

Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011

O país que pesava demais (uma homenagem a Malangatana)



© José Carlos Marques 2005

(a partir do quadro A Minha Flauta Canta, 1974/75)

No canto da sala, o catalão Lluís Llach canta “Criatura Dolcíssima”, seguindo o poema de Joan Fuster. Escuto, pois, o que LLuís Llach canta ao piano e, querendo, posso ouvir também, ao fundo, soando de nenhures, a flauta do homem de Malangatana dobrando certas notas, compondo uma melodia qualquer que se assemelha às palavras de um cântico. Escuto e vejo os seres que nascem desse sopro e logo mergulham nos claros abismos da esperança, e enxergo a flauta que canta entre as mãos dele e aí perdura, as carícias com que os dedos grossos a percorrem e tangem, e noto os músculos retesados das pernas flectidas. Nada, que eu saiba, liga Llach a Malangatana. Mas, escutando e vendo ao mesmo tempo, me parece óbvio que seguem a mesma música e os mesmos gestos, que esse corpo dulcíssimo que canta um pode ser o desta flauta que desenhou o outro e aí está agora, parindo criaturas aladas como uma inaugural boceta que seja a origem de todas as coisas, dos anjos e dos demónios, daquilo que cria e daquilo que destrói.

Noto: os olhos do flautista são tristes — tristes de um pânico antigo. A carne dele tem chagas de onde goteja gente. Os seres alados nascidos do sopro têm dentições contundentes com as quais se podem devorar mutuamente (como fazem, às vezes, os homens que não habitam as obras de arte) ou destruir colheitas como as pragas bíblicas. Alguns espreitam ainda desconfiados a melodia nova. Outros estão tristes, desconsolados, derrotados já. O homem da flauta é velho e rotundo o ventre dele — inchado como as barrigas dos meninos que têm fome.

Posso especular: que o flautista aí está sentado desde o início dos tempos e que o canto da flauta dele é o verbo que liberta e está no início de tudo. Que os olhos antigos que ele tem já viram todas as coisas do mundo e o tempo que sobre elas transcorreu; e que, estando aí sentado, quieto e paciente como um Deus, não fez o homem mais do que esperar pelo dia em que a flauta pudesse finalmente cantar as mil e uma histórias com que a Liberdade se conta e anunciar a chegada dela aos povos ocultos das matas e dos caniços. Que, enfim, e como afiança o ditado, o pobre se habituou a desconfiar das esmolas mais tamanhas e que, por isso, apenas se atrevem a espreitar aqueles que escutam a anunciação da flauta.

Posso imaginar — sendo isto o que mais me apraz: era uma vez um velho muito velho que vivia num país cujas pessoas carregavam sobre si o peso quintuplicado de uma gravidade excessiva e desproporcionada, a qual confirmava as leis de Newton mas logo multiplicava por cinco os resultados das equações da massa dos corpos, de tal modo que a maçã que, reza a lenda, caiu da macieira sobre a cabeça do dito Newton, enquanto este dormia a sesta, teria rebentado a cabeça ao senhor caso fosse uma maçã nascida numa árvore deste país. Ou seja: ali todas as coisas pesavam tremendamente, como se a própria terra, em vez de as atrair, tentasse sugá-las para o seu bojo. Assim era. E por força deste modo que as coisas e as pessoas tinham de pesar muito mais do que a matéria delas fazia supor, tudo tendia a estar fatigado e imóvel. Os frutos das árvores faziam vergar os galhos até quase tocarem no chão, os animais comiam apenas aquilo que nascia ao seu redor ou que inadvertidamente por ali passasse, os rios quase não se moviam e mesmo as aves relutavam tremendamente em voar, assemelhando-se todas às galinhas pesadonas e pouco lestas que existem nas capoeiras dos demais países da Terra. Os homens, não sendo excepção ao desregramento que por ali fazia as vezes de regra, tinham igualmente extrema dificuldade para se locomoverem — às vezes ainda forcejavam por isso, arrastados por um ímpeto qualquer, talvez um resquício, que em todo o humano exista, da curiosidade natural que levou uns quantos primatas antigos a erguerem-se nas patas posteriores e a caminharem de pé. Mas, se a este impulso cediam os habitantes do país em que tudo era pesado, tão-logo as forças deles cediam ao cansaço extremo. Sentavam-se à sombra das árvores de ramos vergados ao peso da fruta e aí ficavam, alimentando-se apenas das polpas e das folhas que tinham à mão. Sem mais distracções do que ficarem sentados a ver o mundo acontecer em volta, os homens e mulheres desse país envelheciam com invulgar rapidez, por não terem muito em que ocupar o tempo, e desenvolveram enormes olhos, para enxergar melhor, disto resultando que, não raro, faleciam mirrados e encarquilhados como ameixas secas, mas com uma visão agudíssima. Ninguém usava óculos.

No país das coisas pesadas existia, pois, um velho, o qual era lendário entre os seus, asseverando-se que jamais morria, pois estava sentado numa sombra fazia já muito tempo, pelo menos desde que tinham nascido os pais dos actuais habitantes, e os pais deles e os pais destes, a partir dos quais as narrações sobre a estranha longevidade do velho se perdiam na noite dos tempos e havia, por isso, quem assegurasse que ele vivia desde sempre e para sempre. Deste facto decorria a ignorância das gentes acerca de um pau que o velho continuamente esculpia com a lâmina de um canivete, pois todos se recordavam de o ver fazendo os mesmos gestos (afagando o fio da navalha na carne da madeira) e de escutarem os pais e os avós contarem coisa semelhante. Muitos gostariam mesmo de lhe perguntar o que fazia, mas sucedia que o velho mais velho do que todos permanecia muito imóvel sob uma figueira antiga e vizinha de mais nenhuma sombra, pelo que apenas podiam gritar-lhe de longe e jamais alguém tinha escutado qualquer resposta, ainda que, graças aos aguçadíssimos olhos que tinham, muitos conseguissem ver que esse velho movia os lábios como se estivesse retorquindo às perguntas que as brisas lhe levavam.

Sucedeu há já muitos anos que um dos pesados moradores da terra da gravidade excessiva devotou os seus últimos anos a uma penosa viagem, indo da árvore em que se tinha deixado ficar desde que se cansara de rastejar até à figueira retorcida onde o velho sempre estava, empenhando-se nisto precisamente com o fito de se inteirar do segredo do pau que o mais antigo sempre estava esculpindo. Era sua intenção regressar a tempo de contar aos demais a história que escutasse, mas, fosse porque o velho falasse com vagar, fosse porque a percepção da distância o traísse, o certo é que jamais regressou. Os factos vieram, porém, a saber-se, ou não os estaria narrando aqui e agora, nisto residindo igualmente prova de que a paciência é uma virtude que devia ser tomada em melhor conta e praticada com maior frequência.

Sucedeu assim: quando, por fim, o velho mais velho de todos terminou de explicar os motivos de tanta idade e a finalidade do labor que dedicava a aplainar seu pau, o concidadão que ali se tinha deslocado encetou o caminho de regresso, ainda mais devagar e penosamente do que na ida, pois envelhecera já um tanto e o peso do seu corpo não parecia ter diminuído, antes pelo contrário, parecendo-lhe mais longa a volta do que recordava ter sido o trajecto inverso. Quando pressentiu que as forças lhe faltavam, ocorreu-lhe escrever na areia do país as sábias sentenças e os bons ensinamentos que escutara ao velho, nisto tendo gasto quase a vida toda que lhe restava e o ânimo que ainda possuísse. Deixou-se cair no chão quando constatou ter posto o último ponto final após a derradeira palavra e aí ficou até que o sol o fulminasse e lhe secasse a carne toda que tinha agarrada aos pesados ossos, os quais logo se acharam também enxutos e ocos, apenas um fio daquilo que tinham sido, mera quilha carcomida daquilo que, um dia, fora um corpo inteiro e excessivamente denso.

Não basta, porém, que uma história se escreva na areia para que alguém a leia e, deste modo, dela se inteire e possa repeti-la. Isto apenas o velho tinha meios de alcançar, pois houve um dia, muito mais tarde, em que o pau que talhava na lâmina da navalha ficou pronto e veio a ser, afinal, uma flauta. O homem antigo ergueu-se, pois, da posição em que há muito tinha acomodado o corpo sob a retorcida sombra da figueira e, aproximando a flauta da rotunda barriga dele — inchada como as dos meninos que têm fome no mundo dos outros —, mirou e remirou a obra de tantos anos, não sabendo se ter medo, se ter esperança, se ter pressa em levar a flauta aos lábios a fim de que emitisse os primeiros sons. Tinha nas mãos um frémito, uma febre triste no olhar: caso estivesse certo o que passara mil vidas pensando, caso tivessem sido precisos todos os gestos da navalha sobre o gomo da madeira, algo sucederia no instante em que a primeira nota tocasse a densidade do ar daquele país inusitadamente pesado.

Decidiu-se, enfim, a empunhar a flauta, agarrando-a pelas extremidades, junto ao ponto onde gravara os entalhes mágicos, e nela soprou pelo orifício a tal destinado, logo se escutando um silvo que não era ainda melodia ou sequer música. Só depois, quando as notas se juntaram e passaram a formar frases, se assistiu ao milagre de ver pequenos e penugentos corpos de gente pequena e muito leve, tão sem peso que ficavam um pouco a pairar no ar, mordiscando-se como fazem certos peixes. Só depois de flutuarem por um bocado os braços e pernas dessas estranhas pessoas começavam a ganhar consistência verdadeira, logo descendo em suave voo, quase pairando, até tocarem no chão muito levemente e saírem caminhando, correndo e pulando como se endiabrados, parecendo isentos da excessiva gravidade que mantinha agarrados à terra todos os habitantes do país.

Sem nunca parar de tocar, o velho que era muito velho — e cujos olhos tinham uma tristeza cansada que o movimento agitados dos dedos desmentia — principiou a bater com um pé na terra ao compasso do cântico que a flauta tocava e assim soube que as pernas e os braços não pesavam já o que tinham pesado antes e que a maldição do seu país tinha terminado. Ordenou, pois, com um só gesto que a gente nova nascida da música fosse pelos campos e pelas montanhas avisando todos da boa nova. E eles foram correndo a espinoteando como diabretes e as pessoas do país viram-nos chegar perto dos seus imensos e aguçados olhos e esconderam-se assustadas e tementes, apenas se atrevendo a espreitar de trás das árvores e por entre os caules dos canaviais. Mas logo, percebendo o que se dizia, arriscaram também erguer-se sobre as pernas e foram a correr e dançar ao som da longínqua cantiga do homem mais antigos de todos, festejando o fim do peso e da prisão que os mantinha imóveis como enormes e obesos animais.

Assim foi.

(2006, publicado no livro O profundo silêncio das manhãs de domingo, edição Quasi/revista Sábado, 2007)

Até já, grande feiticeiro



Morreu o Malangatana. Merda de dia.

Terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

Um sonho muito assustador com duas lagartixas que se transformam em sapatilhas



Acordei, uma noite destas, bastante sobressaltado e com o coração aos pulos. Tinha estado a sonhar e o que vira era terrível e assustador. Alguém apontava horrorizado para debaixo de um sofá e, quando me baixei para ver o que lá estava, deparei com um par de lagartixas coloridas e não muito grandes, do tamanho de uma mão ou assim. Dispus-me a matá-las e, para isso, empunhei um sapato. O diabo das lagartixas, porém, possuíam estranhos poderes camaleónicos e transformaram-se num par de sapatilhas de aspecto muito inocente. Eu continuei a bater com o meu sapato nas lagartixas disfarçadas de sapatilhas. Batia cada vez com mais força e procurando atingir um qualquer órgão vital dos animais, mas sem saber muito bem onde devia acertar, uma vez que nunca tinha tido necessidade de matar uma sapatilha.

Top 10: os meus livros do ano são quase todos um pouco velhos*


A Primavera há-de chegar, Badini, de John Fante (1938)

Os peixes também sabem cantar, de Halldór Laxness (1957)

O Complexo de Portnoy, de Philip Roth (1969)

O Livro de Manuel, de Julio Cortázar (1973)

Disse-me um adivinho, de Tiziano Terzani (1997)

Os detectives selvagens, de Roberto Bolaño (1998)

A máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe (2010)

Adoecer, Hélia Correia (2010)

O novíssimo testamento, de Mário Lúcio Sousa (2010)

Lo que sé de los hombrecillos, de Juan José Millás (2010)


*ordenados cronologicamente

Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011

Viver sem açúcar

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 14 de Dezembro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



A fazer fé nas notícias dos últimos dias, existe um problema com o abastecimento de açúcar à população. O caso tem sido tratado de um modo ligeiro, como se fosse um fait-divers da quadra natalícia, mas inquieta-me um pouco que ninguém tenha aproveitado para interrogar o primeiro-ministro relativamente a um assunto desta gravidade. Também ainda não se confrontou o Presidente da República, ou os candidatos à sua sucessão, com os riscos potenciais que a carência de açúcar acarreta para a felicidade geral da nação. Já quase todos se declararam, como convém, preocupados com a pobreza, a fome e as injustiças sociais em geral, mas ainda ninguém percebeu bem o barril de pólvora que isto é. Não haver pão é um problema, claro, mas não é menos grave que as pessoas sejam capazes de perceberem o que lhes falta e o que lhes vai sendo surripiado.

As coisas doces, sabe-se, são uma das drogas de que os mais desfavorecidos se socorrem para entorpecerem os sentidos. Ingerem-se açúcares e o organismo produz serotonina, a qual, actuando sobre certas partes do cérebro, anestesia as dores, a depressão e a ansiedade, induzindo uma sensação de bem-estar, de euforia e até de felicidade. Dito assim, parece a receita ideal para enfrentar o Inverno, os dias escuros e as manhãs chuvosas. Mas o açúcar também é essencial para aumentar a produtividade e para ajudar os cidadãos a atravessarem uma conjuntura económico-social particularmente desfavorável.

Não se sabe para quantos desaires, desilusões e coisas ruins ainda estaremos guardados, mas é quase certo que tudo nos vai parecer mais negro sem, ao menos, o conforto de uma rabanada polvilhada de açúcar, uma fatia de bolo ou, vá lá, uma porção de ovos-moles embrulhada em massa de hóstia. Há, evidentemente, as últimas eliminatórias dos Ídolos, as derradeiras expulsões da Casa dos Segredos, os enlaces romanescos do Mar de Paixão, a esperançosa quimera do dinheiro fácil do Euromilhões e do Quem quer ser milionário, e as fabulosas campanhas promocionais das operadoras de telecomunicações. Mas, no estado em que isto está, é capaz de ser excessivo confiar cegamente nas drogas audiovisuais para manterem o povo sereno.

Ontem, à hora de almoço, circulavam informações contraditórias sobre a falta de açúcar no mercado. As mais optimistas indicavam que os stocks já estavam a ser repostos, mas falta saber se o doce granulado ainda virá a tempo de evitar a rebelião. Eu bem vi, numa das reportagens da televisão, um ancião que, à saída do hipermercado, estava visivelmente transtornado com a falta de açúcar. Posto perante uma repórter que se gabava de ter acabado de comprar dois quilos (inteirinhos), ele, tenso e invejoso, perguntou onde tinha ocorrido o milagre, aparentemente disposto a correr para lá, como um celerado esquecido das artroses. A jornalista, altiva e desdenhosa, informou-o de que tinha feito a compra ali mesmo. E o bom homem olhou-a com um ricto no qual se pressentia a raiva, a luta de classes, o desespero e outros traços amargos da privação de açúcar.

Sábado, 1 de Janeiro de 2011

A caminho da meia-noite

A caminho da meia-noite, a caminho do ano novo, o metropolitano para a Baixa ia completamente cheio de uma malta animada. Falavam alto, empunhavam garrafas de champanhe e coca-cola, iam apertados uns contra os outros, empurrando-se quando o metro travava e quando o metro acelerava, estranhamente irmanados na necessidade de chegarem à Baixa antes de que o ano terminasse para verem rebentar uns foguetes e apanharem a tosga. Não sei bem o que teriam para festejar, se o aumento dos preços, se a falta de empregos, se vida de merda que provavelmente têm pela frente, mas , de qualquer maneira, invejei um pouco o facto de acharem que há alguma coisa para festejar no início de um ano (ou no fim de outro). Depois, no sentido inverso, o metro vinha quase vazio. Um casal de amblíopes falava alto e ria por tudo e por nada. Riam com a palavra "bitoque" e com a palavra "Matosinhos", com o que fosse, mas riam-se muito estrepitosamente e com convicção. Invejei-os também, a caminho da meia-noite, a caminho do ano novo, não sei se por quase não serem capazes de verem um palmo diante do nariz, ou se por serem capazes de se rirem daquela maneira parva e simples, honesta. Depois eles saíam na estação da Casa da Música, o metro entrou na periferia da cidade, a caminho da meia-noite também, a caminho do ano novo. Daí a nada, o ano mudou efectiva e rotineiramente - para que tudo continuasse exactamente na mesma.