segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Lost in translation

Espero sempre que não me interpretem mal, mas sucede-me bastante ser mal interpretado. Não sei porquê, mas os meus intérpretes, sejam lá quem forem, tendem a procurar sentidos duplos em frases absolutamente unívocas e a tentar achar um sentido em frases que não têm sentido nenhum. Sempre que eu penso, digo, escrevo ou faço algo profundamente estúpido, não há nada para interpretar. Sou apenas eu no meu melhor.

Só visto

Há não muito tempo, quando escrevi esta crónica, a minha editora de serviço comentou, desdenhosamente, qualquer coisa como “os homens e a Beyoncé, bah!”. Caso se desse ao trabalho de ler este blogue, a dita editora poderia, daqui a nada, comentar alguma coisa como “os homens e a Shakira, bah!”, pois, já o terão adivinhado, este breve ensaio é sobre a Shakira e, mais concretamente, sobre a profunda preocupação da cantora colombiana com os meninos pobres, motivo da sua visita a Lisboa para participar na Cimeira Ibero-Americana.

Muito francamente: sempre que vejo a Shakira em algum lado, a primeira coisa que me ocorre é a necessidade de ajudar as crianças pobrezinhas. Houve uma vez em que estava a assistir ao teledisco de Hips Dont’t Lie e, naquela parte em que a rapariga sacode a anca, num vestido branco, à moda de Barranquilla, dei por mim já com a carteira na mão, a agarrar no casaco para correr para a rua a fim de socorrer a primeira criança necessitada que encontrasse. O profundo sentimento caritativo que a colombiana inspira é tão grande que estive mesmo proibido pelo meu médico de assistir à dança ondulante que Shakira e Beyoncé protagonizam em Beautiful Liar, na medida em que, neste caso, a vontade de ajudar duplicava e, às vezes, triplicava, a ponto de colocar em perigo a minha depauperada saúde financeira.

Agora que Shakira está em Lisboa para dar conta das suas preocupações sociais, imagino que o mundo de fala ibérica pode facilmente endoidecer, abrindo os cordões à bolsa para resgatar milhões de crianças à fome, à pobreza e à doença, erradicando, se calhar, estas chagas de uma vez por todas. Não se fala noutra coisa. Até é capaz de passar no Só Visto.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Coisas assim

Bem sei que tinha prometido a mim mesmo evitar a irritação política, mas o título "Promessas quebradas", do post anterior, é, antes de mais, um mea culpa. Errei, errei, errei, mil vezes errei, e eu bem sei que fiz mal. A liberdade de expressão paga-se (hei-de pagá-la, bem sei) e, neste caso, o cobrador não tem, ao menos, a elegância de vir de fraque. Asfixias... Errei. Irritei-me e errei - e nem sequer sei bem porquê. Há-de ser só mau feitio. Siga a rusga, que a falta de tino também tem compensações: um arrozinho de feijão com tora de chouriço de sangue, um mimo, ao balcão de um tasco de Celorico; dormir mal se cai na cama; a minha filha sendo uma adolescente feliz. Essas merdas. Tudo junto, vale a pena.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Promessas quebradas

Já ninguém se lembra disto, nem interessa nada, que o povo vota mal ou bem sem olhar a quem, mas, há oito anos, recordo-me perfeitamente porque estava lá, Rui Rio foi eleito para a presidência da Câmara do Porto prometendo, entre outras coisas, que iria promover a requalificação da Baixa. Para tal, propunha-se, mal ou bem, também não sou urbanista, congelar os licenciamentos no resto da cidade, de modo a que os empreiteiros, classe profissional vulgarmente designada pela expressão "a corja", se vissem obrigados a investir no centro da cidade. Não tenho números nem estatísticas, fé que não domino e da qual não sou crente, mas posso ver que a Baixa está como estava, esvaindo-se (com excepção das zonas em que alguém resolveu fazer alguma coisa apesar de Rui Rio), enquanto, no resto da cidade, do Freixo a Nevogilde, florescem maravilhosos empreendimentos de luxo, com áreas amplas, belas vistas e acabamentos não sei quê. Como se isto não bastasse, a própria câmara vai promover a demolição de um bairro social com vistas de rio e mar para que ali se construa mais um condomínio a preceito, dos Espírito Santo ou de qualquer outra família tradicional de boa cepa e como deus quer, um condomínio, dizia, no qual os grandes traficantes de droga e outros meliantes poderão adquirir habitações adequadas ao seu estatuto social e aos oito ou nove mil milhões de euros desaparecidos das contas do BPN. Eles andam aí e têm de ser gastos em algum lado.

(desculpar-me-ão, decerto, a evidente má disposição e o mau feitio, mas, bem vistas as coisas, um exílio poético e perto da praia é capaz de ser uma coisa que vem bastante a calhar; fico, mais do que agradecido, verdadeiramente penhorado, meu caro Nuno)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Escrutínio

Afirma Aguiar Branco, deputado e vice-presidente do PSD, candidato a candidato a líder do PSD, que aqueles que aceitam cargos políticos devem ver as suas conversas pessoais escrutinadas. Parece-me bem (assim como assim, não pretendo aceitar cargos para os quais nem sequer fui convidado). Se não fosse pela já anunciada mudança de instalações do meu posto de trabalho, estaria até disponível para, sendo do agrado de sua exa. o mais faltoso deputado da república, escrutinar, esmiuçar e fazer um relato circunstanciado dos hábitos diários do deputado Aguiar Branco, incluindo as entradas e saídas no health club, no Porto, em momentos do dia em que se supunha que o deputado Aguiar Branco estivesse no parlamento, em Lisboa, a desempenhar o cargo político para o qual foi eleito e pelo qual recebe um ordenado pago pelos contribuintes.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Da guerra


© (Fazenda Tumba Grande, Angola)


O mais perto que estive da guerra foi numas férias de Verão – e fiquei a saber menos da guerra do que aquilo que aprendi lendo as reportagens do Pedro Rosa Mendes, do Adelino Gomes, da Alexandra Lucas Coelho e do Robert Fisk; ou o livro Território Comanche, do Arturo Pérez-Reverte.

Tudo o que sei da guerra devo-o, portanto, àqueles que estiveram perto das explosões, que viram os mortos retorcidos como bonecos de trapos na berma das estradas e que seguiram adiante para contar como é. Ou por ter visto demasiado cinema: “I love the smell of napalm in the morning”...

Não sei também ao que cheira a guerra, ou se todas as guerras têm o mesmo cheiro; se o napalm e a pólvora se sobrepõem ao cheiro dos corpos em decomposição, ao do sangue, ao da terra revolvida pelas explosões. A minha guerra é um álbum de fotografias e preto-e-branco no fundo da porta do meio de um guarda-vestidos antigo, a paisagem do Bengo, no Norte de Angola, na qual se adivinha o calor dos meses e a imagem do meu pai ainda novo e quase nunca parecendo preocupado com a guerra ou com o que fosse que houvesse em volta. Já o alferes Altino, que estava com o meu pai no campo aéreo que protegia a Fazenda Santa Eulália, parece-me uma pessoa assombrada pelos fantasmas dessa guerra. Conversámos uma vez sobre Nambuangongo e os seus olhos puseram-se sombrios como um dia de cacimbo. Devia ser aquilo, a guerra: uma nuvem espessa nos olhos dos homens.

Apesar do alferes Altino e de tudo o que tentei saber, não sei quase nada da guerra excepto aquilo que vi na Quibala, quatrocentos quilómetros a sudeste de Luanda, nos últimos dias de umas férias de Verão: na avenida grande, ao lado das palmeiras altas e do busto de Agostinho Neto, os prédios continuavam mordidos pelas bombas, derrocados, ameaçando tombar, exactamente como imaginei enquanto lia essa loucura demasiado lúcida que é Baía dos Tigres, do Pedro Rosa Mendes. Numa esquina mais abaixo, à saída para o Catofe, estavam dois tanques desconjuntados e insolitamente verdes: pareciam esperar um sinal para avançar no cruzamento e abandonar, enfim, o campo de batalha e deixar a cidade entregue à trégua.

Só depois, porém, senti o medo – ou uma espécie de medo. Se é verdade que as operações de desminagem não confirmaram as previsões mais negras sobre a existência de milhões de engenhos por deflagrar enterrados no chão angolano, os mutilados cruzam-se connosco nas ruas indiferentes aos grandes números e à estatística. Na hora de pôr o pé fora das estradas e dos caminhos das picadas impõe-se, por isso, alguma cautela. Certa manhã, na fazenda da Tumba Grande, a três horas de Luanda, preparava-me para atravessar um terreno recém-arado com a mesma despreocupação com que, na Europa, passearia por um prado verde; quando, porém, o fazendeiro português comentou, com certa displicência, que era ainda preciso ter cuidado com as minas, eu estaquei onde estava - e voltei para junto da pick-up, tentando pisar metodicamente as minhas próprias pegadas.

Crónica publicada no P2 do Público, no dia 1 de Setembro de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há mais

domingo, 22 de novembro de 2009

Tetro



Ainda não sei o que pensar de Tetro, o mais recente Francis Ford Coppola. Gostei do preto-e-branco, das texturas do bairro de Boca, de um certo ambiente dark, da presença luminosa de Maribel Verdú e da subversão edipiana, conquistando o drama o direito a um final feliz. Mas ainda não sei o que pensar de Tetro, sobretudo por não ter apreciado por aí além a abordagem gótica de certos momentos, nem a tentação pelo piscar de olhos ao universo de Pedro Almodovar, nem os flashes teatrais. Talvez tenha que rever tudo outra vez para compreender. Sou um pouco lento, bem sei, mas Coppola tem comigo crédito suficiente para cometer estes excessos.

sábado, 21 de novembro de 2009

Copros

Ainda não li o livro, mas folheei-o hoje numa livraria. Jonas, o copromanta, o mais recente livro da brasileira Patrícia Melo em Portugal, é, tal como supunha, uma sequela de um conto de Rubem Fonseca incluído no livro Secreções, excreções e desatinos, e, por isso, trata de uma fixação pela observação “científica” de excrementos. Tal como os restantes livro de Patrícia Melo, Jonas, o copromanta foi editado pela Campo das Letras, que está em processo de falência e não honra, há muito, os compromissos para com os seus credores (e autores). A publicação de Jonas, o copromanta, pareceu-me, assim, uma forma sofisticada de mandar os credores à merda.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

À espera de que o telefone toque



Vinicius de Moraes, que também foi diplomata, já tinha avisado: "beleza é fundamental". Ainda assim, a baronesa Catherine Ashton é, desde ontem, o novo rosto da política externa da Europa. Se Henry Kissinger pudesse ter sido capaz de imaginar uma coisa assim, duvido que alguma vez tivesse expressado o desejo de telefonar para a Europa. Só se fosse para gozar connosco.

Carta aberta

Caro/a bracarense:

Permita-me, antes de mais, que o/a cumprimente respeitosamente e lhe diga que sabê-lo/a aí desse lado, vigilante e fiel, perseverante, me reconforta o espírito e, de algum modo, me enternece. Aprecio sinceramente quem realmente sabe o que quer, mesmo que, como neste caso, desconfie que o objecto de tamanha persistência não é merecedor da sua tão férrea atenção. Mas, sendo um pouco vaidoso, gosto.

Como, porém, o Inverno já se insinua e nos ameaça, húmido e cinzento, aproveito o ensejo para lhe recomendar que se agasalhe bem e, outrossim, que, uma vez por outra, faça uma pausa para tomar um chocolate quente ou uma sopa.

Querendo conversar ou trocar ideias sobre o assunto, já sabe que aqui me tem

Um seu criado
.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Basbaques

“Começo a sentir qualquer coisa como um peso na consciência e a pensar que ter um peso na consciência não basta, que é também preciso fazer qualquer coisa. Correr ao sol, a longo prazo, não pode ser considerado uma acção, e ler livros é coisa para basbaques"

Em Os Irmãos Tanner, de Robert Walser, edição Relógio d'Água

Talentos

Enquanto espírito inquieto, tento, modéstia à parte, acompanhar uma vastíssima panóplia de assuntos. Inquieta-me tanto o ranking da corrupção como o último videoclip da Shakira; não dou mais valor ao Tratado de Lisboa do que às notícias dedicadas à pequena criminalidade da província. É, pois, neste ecuménico contexto que tenho reparado que os editoriais das revistas femininas portuguesas têm concedido crescente (e justo) protagonismo a um conjunto de talentos surgidos na série televisiva Morangos com Açúcar. Eu bem sei que os adultos normais têm certa tendência para menosprezar estas manifestações de baixa cultura, mas convenhamos: um produto televisivo capaz de revelar talentos como Diana Chaves, Cláudia Vieira, Benedita Pereira, Joana Duarte, Mafalda Teixeira, Marta Faial, Dânia Neto, Sara Salgado, Anita Costa, Andreia Dinis, Marta Melro e Jéssica Athayde merece, pelo menos, uma respeitosa reverência.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Filosofia



Um congressista democrata norte-americano, Mike McIntire, era a favor da normalização das relações dos EUA com Cuba. Recebeu, depois, 9.700 euros de um grupo que apoia as sanções a Cuba e mudou o sentido do seu voto no Congresso. Segundo vem referido na edição de hoje do Público, o congressista explicou que o seu novo posicionamento político não teve nada a ver com o dinheiro, devendo-se antes a “uma mudança de opinião filosófica”. É uma declaração que deve ser analisada com atenção, na medida em que permitirá observar algumas questões por um novo (e mais correcto) prisma. Os casos Freeport e Face Oculta, por exemplo, deviam ser tratados no sítio certo, as faculdades de Letras, em vez de se andarem a consumir inutilmente os preciosos recursos do sistema de Justiça. Nas cadeiras de Filosofia Antiga, ao menos, Sócrates é um ancião sábio e simpático que, dotado de uma consciência, recusa a ajuda dos amigos poderosos e prefere beber cicuta a perder a honra.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Wonder Woman




Contrariando aquilo que milhões de portugueses (re)descobrirão nos próximos meses, esta crónica honra escrupulosamente a palavra dada. Tinha prometido Beyoncé e, para cumprir, nem precisava de outro motivo que não fosse o elevado interesse estético da iniciativa. Mas os astros não dormem nem desamparam o cronista abnegado, pelo que acaba de ser anunciado que a cantora norte-americana foi escolhida para protagonizar o filme Wonder Woman (Mulher Maravilha, na tradução literal, ou Super Mulher, conforme o título português da série televisiva dos anos 1970).

Independentemente da tradução que se escolha, a notícia de que Beyoncé Knowles será a próxima Wonder Woman constitui um belíssimo pretexto para esta crónica e também uma extraordinária redundância. Melhor do que isto só se anunciassem que Adolf Hitler iria interpretar uma nova versão d’O Grande Ditador de Chaplin.

Para além de todos os belos e curvilíneos argumentos que plenamente justificam a escolha do realizador John Moore, eu estou convencido de que Beyoncé é realmente dotada de superpoderes (ela cantou “to the left”, na canção Irreplaceable, e a América virou à esquerda como um cachorrinho obediente). Suspeito também de que Beyoncé é extraterrestre: aquele quadril e o movimento que o anima quando dança são claramente sobrehumanos e não me espantaria nada se viesse a descobrir-se que ela nasceu em Kripton e é prima direita do Super Homem.

Há nisto, claro, um pequeno inconveniente, na medida em que, depois de Beyoncé protagonizar Wonder Woman, é provável que me veja obrigado a reconstruir a infância e a reorganizar o código de valores cimentado enquanto assistia, com infantil excitação, às façanhas da Super Mulher que era Lynda Carter, com os olhos muito azuis, o bustier encarnado e ouro onde se abrigava o generoso peito da heroína, o pequeno calção azul com estrelas brancas e o chicote dourado que manejava como um cowboy desajeitado, usando-o para laçar os vilões. A imagem de Beyoncé, estou certo, substituirá a de Lynda no meu imaginário, o que não deixará de acarretar vários distúrbios freudianos e, eventualmente, alguma confusão ontológica.

Apesar dos perigos que corro, estou mortinho para ver Beyoncé metida numa versão moderna do sensual uniforme que a actriz Lynda Carter usava na televisão. Não sei o que passará pela cabeça dos aderecistas do filme, mas creio que até seria boa ideia aproveitar alguns dos conceitos testados nessa notável peça de vídeoarte que é o teledisco de Single Ladies, dotando Wonder Woman de uma mão metálica, justiceira e cibernética, implacável com os facínoras.

Temei, pois, bandidos, que a Wonder Woman está de volta. Quando (e se) riscar os céus como um pequeno ponto de luz a velocidade supersónica, os transeuntes perguntarão se é um pássaro ou um avião. Embevecido e sonhador, alguém responderá:

- Não. É a Super Mulher. Que avião!


Crónica publicada no P2 do Público, no dia 13 de Outubro de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há nova remessa

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Aos bochechos

Incomodam-me um pouco a falta de rigor e a imprecisão, sobretudo quando a falta de rigor e a imprecisão dão origem a citações que multiplicam a falta de rigor e a imprecisão. O exemplo que, assim de repente, me ocorre é o do presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha Nascimento, o qual, acossado pelos microfones, lamentou que as certidões relativas às escutas das conversas entre José Sócrates e Armando Vara cheguem “às bochechas”. Isto foi o que o juiz disse, mas os jornalistas, na ânsia de normalizar, entenderam que o juiz queria dizer “aos bochechos” e escreveram-no e reproduziram com grande abundância esta versão revista da realidade. Não ponho em causa que o douto Noronha Nascimento tenha realmente pretendido dizer “aos bochechos” quando disse “às bochechas”, nem sei se isto interessa realmente. O que me inquieta, a bem dizer, é que os órgãos judiciais que devem validar ou não as ditas escutas andem há meses a tomar decisões aos bochechos, a anunciá-las às pinguinhas e a revelar apenas pedacinhos de conversas que, se tivessem sido conhecidas em tempo útil, talvez ajudassem a ter uma ideia mais aproximada, e menos parcial, do sujeito que os portugueses escolheram para ser primeiro-ministro. Eu, concedo, não tenho que ter conhecimento das conversas pessoais do indivíduo que governa o país, mas, se calhar, convém-me saber se o homem for um refinado crápula e um mentiroso contumaz.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A Mosca



Numa entrevista hoje publicada no Correio da Manhã, o realizador David Cronenberg revela que, em tempos, julgou que viria a ser escritor. Eu, confesso, tive também alguma esperança. Mas, tal como sucede no filme de Cronenberg que adapta um livro de Franz Kafka, acordei certa manhã e percebi que, em vez disso, me havia transformado num insecto bastante repelente.

Gostar de vacas



Quando era pequeno, ia muitas vezes à aldeia da minha mãe, Avitoure (de Baixo). No início nem sequer havia estrada para lá chegar e tínhamos que apear-nos do carro em Travassos e, depois, seguíamos a pé por um caminho de pedras muito irregulares onde transitavam, às vezes, carros puxados por vacas, com rodas de madeira que chiavam tremendamente. A memória dessas viagens é como uma máquina do tempo na qual gosto de embarcar em tardes de maior melancolia.

Quando era pequeno, nada do que havia na aldeia me parecia muito estranho: as vacas, as barbas de milho, as couves tronchudas, as laranjas amargas, as orações para talhar os pulsos abertos, as maçãs supriega e as raparigas que engravidavam no meio dos campos faziam parte de um mundo que me era próximo. Mesmo morando na cidade, tinha um galinheiro no fundo do quintal, uma ramada por cima do poço, uma casota com coelhos, peixeiras que apregoavam a “bibinha!” e hortas ao fundo da rua, à margem da Linha da Póvoa. Mas agora as minhas memórias desse tempo, que não são de há tanto tempo assim, devem parecer bestialmente bizarras aos meus filhos, habituados a ver tudo na internet e a ter o Metro do Porto a circular onde antes passava uma automotora vermelha e branca que apitava na passagem de nível. Eles nunca deram de comer às vacas ruivas do tio Idalino e não podem imaginar o maravilhoso sabor que tem o leite antes de ser pasteurizado e metido em pacotes.

Sei que estou a ficar velho quando penso nestas coisas e começam a ocorrer-me expressões como “no meu tempo...”. Ou quando me emociono ao ver uma vaca. Uma vez, na ilha de S. Miguel, fui cercado por dezenas de vacas malhadas que pareciam ter decidido libertar-se de todas as excreções ao mesmo tempo, precisamente quando passavam pela janela do carro e me olhavam de lado, bovinamente. Outra pessoa talvez sentisse repulsa – eu emocionei-me como alguém que regressa a casa ao fim de muito tempo.

Não sei como é com os outros amantes da carne, mas eu respeito muito todos os animais que ingiro às refeições. Às vacas, para além disso, vejo-as e ponho-me nostálgico - como quando dormi três noites no Palmarejo, na cidade da Praia, em Cabo Verde. O Palmarejo é uma zona residencial de classe média-alta, onde moram burgueses e altos quadros do Estado, mas, quando descia com o fotógrafo Adriano Miranda para tomar o pequeno-almoço na minúscula esplanada da padaria que havia no prédio onde estávamos alojados, passavam vacas circulando no empedrado da rua e era bonito estar ali e vê-las obrigando os carros a desviarem-se. Percebi que alguns cabo-verdianos não gostavam de ter os lentos bovinos circulando por ali; que se envergonhavam por mostrar cena tão pouco moderna na capital do país. Mas, vendo passar aquelas vacas ruivas, iguais às do meu tio Idalino, eu fiquei a pensar que aquilo era como estar em casa sem estar em casa; que era como estar em casa noutro tempo que já não é este; e que gostava que ainda houvesse vacas na minha cidade.

Crónica publicada no P2 do Público, no dia 11 de Agosto de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há nova remessa

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Apito dourado

Não me pronunciei em tempo útil sobre o extraordinário espectáculo proporcionado por Linda Reis numa discoteca de Amares, mas, como diria Bartleby, o escrivão, preferi não o fazer, em parte por falta de tempo, em parte para que não possam acusar-me de graves manifestações de depravação. Esperei, portanto, que alguém mais douto acrescentasse uma nota de erudição ao assunto e, claro, que algum tipo de confirmação permitisse extrair uma lei geral relativa ao peculiar e imaginativo emprego dos genitais na província. Não perdi, obviamente, pela demora, pois o Jornal de Notícias de hoje dá à estampa o não menos incrível caso de uma cidadã estrangeira que, mal se achou na nossa bem amada província, e mais concretamente na Moita do Ribatejo, encontrou forma de guardar “onze jóias em ouro e um relógio Omega Speed Master” na própria vagina. Espero, apesar de tudo (e de alguma semelhança musical) que este não seja mais um caso judicial a envolver Valentim Loureiro e o árbitro Jacinto Paixão. Mas nunca se sabe.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Homenagem

Não me ocorre melhor forma de homenagear o escrivão Bartleby, a personagem de Melville, com quem pretendo acamaradar nos próximos dias: não escreverei e pondero mesmo agir, no trato social, ao arrepio de toda a e qualquer lógica, fazendo provavelmente coisas bastante disparatadas. Espero que se note a diferença.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Paixão solitária

Ainda não li o Manual da Paixão Solitária, mas, tanto quanto consigo perceber, Moacyr Scliar invoca, neste romance, a passagem do Velho Testamento em que Onan, filho de Judá, se recusa a engravidar Tamar, preferindo deixar o sémen correr para a terra e inaugurando, assim, o onanismo. A expressão passou, entretanto, a descrever todo e qualquer acto de amor solitário, aquilo a que Alexandre O'Neill se referia recorrendo à doce expressão “esgaramantear a laustríbia” (e que um amigo meu, mais prosaico, descrevia como um namoro com a irmã da canhota).

Somos, enquanto rapazes novos, um pouco soezes e, vá lá, porcos, de pouco nos valendo, nessa altura, possuir a erudição suficiente para descrever o vil pecado com uma referência ao Génesis e a um –ismo. Uma punheta é apenas uma punheta, não tem mal nenhum e alivia, mas o mundo rodeia-nos e ameaça-nos: que vicia, que provoca borbulhas, que faz crescer pêlos na palma da impura mão, que provoca a cegueira do pecador. E, mesmo assim, esgaramanteamos insensata e temerariamente a laustríbia de cada dia.

Creio que de nada servirão, portanto, os alertas segundo os quais o Viagra pode também induzir a perda de visão em diferentes graus ou mesmo provocar visão azulada. Quando se trata de esgaramantear, não há mito urbano que resista às naturais pulsões. Visão azul? Não deve ser pior do que aquelas televisões a preto-e-branco de antigamente com um plástico azul à frente, para fazer de conta que eram a cores. Há sempre quem goste.

Do Brasil

A Câmara Brasileira do Livro anunciou ontem à noite o vencedor do Prémio Jabuti para o melhor livro de ficção de 2008, distinguindo Manual da Paixão Solitária, do gaúcho Moacyr Scliar, livro que ficou também com o galardão destinado ao melhor romance. Moacyr tinha já conquistado o Jabuti por duas vezes: em 1993 conquistou o prémio para a categoria romance com Sonhos Tropicais e, em 1998, O Olho Enigmático conquistou o prémio na categoria contos. Em Portugal, estão publicados A Mulher que Escreveu a Bíblia, O Exército de Um Homem Só, A Majestade do Xingu e Os Leopardos de Kafka.

Outra boa novidade é o lançamento do novo livro de Rubem Fonseca, agora na editora Agir. O filme de apresentação de O Seminarista pode ser visto aqui, com locução do próprio Fonseca.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Jaime Ramos

Gramo à brava o inspector Jaime Ramos e parece-me que gosto ainda mais dele como está agora, debilitado pela doença, mais velho, mais melancólico, permitindo o acosso suave das nostalgias, arrastando-se um pouco, quase dócil, deixando-se cuidar. Hei-de, um dia destes, fazer como ele e ir apanhar chuva para a Ponte da Arrábida no meio da tempestade, vendo as luzes das cidades, lá em baixo, desenhando os contornos do rio. Tenho andado a namorar o sítio.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Das favas

É necessária, creio, alguma ponderação. Algum bom senso. Certo voluntarismo. Pode olhar-se para o lamentável caso das favas com pessimismo, sim. É um sinal. Um mau sinal, com efeito. Mas enquanto este cavalheiro, e mais este, se lamentam, eu, muito simplesmente, meti as mãos na massa. As favas eram daquelas congeladas, do supermercado, os ovos não eram famosos (tenho que pressionar mais amiúde os meus traficantes de produtos caseiros), mas o chouricinho veio de Pitões das Júnias, rijo e curado nos rigores da serra. Não seriam as melhores favas do mundo, mas, cavalheiros, estavam bem boas. Regalei-me.

Cegueira



Aquilo de que me lembrei quando, há dias, li os depoimentos de alguns dos pacientes que cegaram após terem sido tratados a uma doença ocular num hospital de Lisboa (“No domingo, por volta da uma da tarde, perdi completamente a visão. Fiquei assim, como ainda estou agora: cego”) foi do romance Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. Bem sei que não há quase nada em comum entre a pandémica e parabólica cegueira branca do livro que Fernando Meirelles adaptou ao cinema e a acidental (e trágica) perda da visão dos utentes do Santa Maria, mas aquela frase, escrita assim, precisa e seca, pareceu-me que podia perfeitamente constar do romance de Saramago – quase gémea, afinal, daquela, “estou cego”, com a qual termina o segundo parágrafo do Ensaio.

Ignorarei, desta vez, a inquietante estranheza que há nisto de a realidade tender a imitar a ficção, mas não tenho como passar ao lado da bizarria de que sou acometido sempre que a literatura encontra forma de se insinuar no meu quotidiano, regendo-o como a um títere desprovido de livre arbítrio. Ainda impressionado pelo episódio que cegou seis pessoas num só dia e que, pareceu-me, simulava quase perfeitamente o início de Ensaio sobre a Cegueira, dei por mim a ler Barroco Tropical, o mais recente romance do angolano José Eduardo Agualusa, narrado precisamente por um escritor cego de um olho, sobre o qual usa uma pala semelhante à dos antigos piratas da perna-de-pau. A dada altura, Bartolomeu Falcato perde também completamente a visão, como mizaru, o macaco japonês que cobre os olhos para não ver (gémeo do que tapa os ouvidos para não ouvir e daquele que tapa a boca para não falar).

Pode argumentar-se, claro, que não há nisto nada de extraordinário e que a cegueira de Falcato, atingido pelo estilhaço de uma mina, não pode ser comparada à do médico do livro de José Saramago ou à de Walter Lago Bom, o cozinheiro que o misterioso frasco de Avastin deixou sem visão. Mas Walter Lago Bom pareceu-me, de repente, um nome particularmente adequado para uma personagem de um romance de Agualusa; que podia até ser esse o verdadeiro nome de Rato Mickey, o antigo sapador António Taborda, que, em Barroco Tropical, perde os dois olhos e a face na acidental explosão da mina que só parcialmente atingiu Falcato e que, desde o Carnaval seguinte, usa uma máscara da Disney com a qual sobressalta e arrepia os estrangeiros.

Devia, antes, concentrar-me na personagem da cantora Kianda, essa mulher tão fácil de amar (“Decifra-me ou devoro-te”, promete a Falcato), mas estou outra vez enredado nestas confusas coincidências e, talvez por isso, penso em Rato Mickey, em Walter Lago Bom, no médico de Saramago, em Bartolomeu Falcato e nas muitas formas de alguém contrair a cegueira para não ver o mundo tão claramente como o via a mulher do médico. Pondero nisto e ocorre-me ainda essa espécie de vertiginosa cegueira que é beijar alguém com os olhos fechados, longamente e sem pressa, como se não houvesse mais mundo lá fora e tudo, afinal, se pudesse resumir a isto. E é bom. É muita boa esta cegueira.

Crónica publicada no P2 do Público, no dia 28 de Julho de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há nova remessa. Estão avisados. Ser-me-ia agradável poder manter este trabalho.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Tarja negra

Depois do inquietante caso de Braga, os serviços de vigilância do Teatro Anatómico detectaram um episódio semelhante na Póvoa de Varzim. A menos que haja duas pessoas suficientemente distraídas para deixarem a internet ligada 24 horas por dia, abandonando o electrodoméstico às questionáveis delícias deste blogue, temo que as autoridades venham a concluir que o Teatro Anatómico é prejudicial à saúde, sendo susceptível de provocar a morte súbita dos seus leitores. Vou preparar uma tarja negra para colocar no topo.

Anónimos do século XXI




Li em idade tenra, e com perturbada volúpia, as memórias eróticas de Fanny Hill, obra publicada sob anonimato no século XVIII (sabe-se agora que o livro foi escrito por um tal John Cleland enquanto esteve preso em Londres). Outros grandes momentos da literatura erótica, como Teresa Filósofa, Escola de Raparigas, Os Desejos de Eveline ou Memórias de uma Princesa Russa, justificam, assim, alguma simpatia pela figura do “anónimo do século XVIII” (bem como pelo anónimo do século XIX e dos seguintes). Confesso, porém, que, numa época em que, a pretexto da responsabilização e da transparência dos métodos, os jornalistas são incitados a não citar fontes anónimas (ou não identificadas) e a assinarem as respectivas prosas, para que não pareçam filhas de pai incógnito, me provoca alguma confusão que os editoriais dos jornais possam ser obra de ilustres anónimos do século XXI.

domingo, 1 de novembro de 2009

Outono




Agora escurece cedo, sim. Já estava escuro quando o dia nasceu (suponho, não vi). O dia foi todo escuro, aliás. Choveu muito. Havia uma neblina rija e os círios não devem ter chegado a arder nos cemitérios. Bebi vinho e anestesiei-me para o que faltava da tarde. Dormi um pouco diante da televisão (devia ter aproveitado para terminar o O Mar em Casablanca, mas fica para outro dia, quando a roupa secar no varal). Podia ter sido, enfim, um bom dia para escrever qualquer coisa, uma página decente ou uma palermice qualquer para o blogue. Mas não me apeteceu.