No fundo, a fama e a celebridade estão ao alcance de qualquer um. Tudo vai de um indivíduo ser pouco dotado de amor próprio e estar disponível para aproveitar as oportunidades que lhe saiam ao caminho. Foi o que eu fiz. Hoje armei-me aos cágados e estive num canal de televisão por cabo a palpitar durante quase dez minutos.
Eu sabia que, mais dia menos dia, isto acabava por acontecer; que, no dia em que me estreasse como comentador da actualidade na televisão, contaria, quase de imediato, com uma legião de seguidores. Pois aconteceu exactamente como previra. Fui ao jornal 18/20 da RTP Informação e, mal saí dos estúdios do Monte da Virgem (a propósito: bonito topónimo), a caminho do metro, percebi que já estava a ser perseguido. Alertado pelo ruído, olhei furtivamente para trás. Não me enganei: era um saco de plástico do Continente soprado pelo vento.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Santa Pamela Anderson*
Quando se pensa que já se assistiu a quase todos os malabarismos e piruetas passíveis de favorecer a venda de literatura (e de outros produtos de consumo mais ou menos rápido), há sempre, algures, um Eduardo Labarca capaz de inventar um truque ainda mais surpreendente. O que fez Labarca? Escreveu e publicou um livro de “semificção” chamado El Enigma de los Módulos, em cuja capa se apresenta uma fotografia do autor urinando sobre a lápide de Jorge Luis Borges no cemitério de Genebra onde o génio descansa em paz.
Eduardo Labarca é um escritor chileno de 72 anos e, face à polémica gerada, explicou que a mediática mijinha não passou de um gesto artístico, realizado com o objectivo confesso de obter “prestígio”. Também contou que se tratou de um atentado simulado, já que não urinou de facto, limitando-se a despejar sobre a tumba o conteúdo de uma garrafa de água mineral.
Os mecanismos da publicidade de choque são, porém, misteriosos. O truque só funciona se alguém se escandaliza e reage com veemência. O caso de Labarca, por exemplo, data de Janeiro deste ano e foi noticiado em jornais de vários países, da Argentina a Inglaterra, onde mereceu até a atenção do Guardian. Mas não mobilizou os media portugueses (comprometendo, de algum modo, os quinze minutos de fama a que Labarca há-de ter direito), mais sensíveis a campanhas que simulem manchar a honorabilidade de alguma personagem bíblica. Outra coisa que resulta espectacularmente, como ainda na semana passada se viu, são fotomontagens em que o papa apostólico romano apareça a dar um apaixonado linguadão a um imã sunita.
Custa a acreditar, todavia, que a reacção histérica a estes truques se deva à pura inabilidade de uma instituição milenar e, de algum modo, especializada na publicidade dos próprios milagres e das obras literárias canónicas. Se um tipo se põe a meditar no assunto, pode até chegar a acreditar que a igreja católica tem uma avença com a Benetton (e com a editora Gradiva), assegurando o sucesso das respectivas campanhas de marketing contra o pagamento de generosas espórtulas. Do mesmo modo, estou quase tentado a apostar que não foi por simples coincidência que a troika e o governo se puseram de acordo para divulgar a necessidade de cortar (ou conter, belo eufemismo) os ordenados do sector privado uma semana antes de uma greve geral. Nem José Rodrigues dos Santos faria melhor.
Sendo as centrais sindicais, e os trabalhadores em geral, bestialmente ingratos, é natural que ainda não se tenham lembrado de retribuir a contribuição dos verdugos para o possível sucesso da paralisação, eventualmente adiando a greve enquanto Governo e troika decidem se vão cortar ou moderar os salários. Trata-se, evidentemente, de um debate seriíssimo e desinteressado. Tão sério, pelo menos, como aquele programa especial de Natal da televisão canadiana CTV no qual a actriz Pamela Anderson vai inocentemente interpretar o papel de Maria, a virgem. Acreditamos?
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 22 de Novembro de 2011
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
E ficávamos todos muito bronzeados e sem necessidade de voltar a ouvir o Gaspar das contas
Algumas pessoas, bestialmente optimistas, asseguram que o frio é psicológico. O caneco! A capacidade para suportá-lo até pode depender de uma psique musculada, mas, com mil demónios, eu passo estes meses encolhido, com a minha estatura real diminuída em, pelos menos, uns trinta centímetros (no Verão sou alto e louro, tenho para cima de dois metros e os olhos azuis — mas nunca consigo que alguém acredite nisto). Na qualidade, pois, de pessoa que sofre bestialmente com as agruras do Outono/Inverno (e ainda que o sobretudo não me assente completamente mal), recebi como muito refrescante a imagem que hoje ao fim da tarde era exibida no ecrã gigante da nova sede da EDP: o Sol rodopiando em torno do seu eixo, explodindo numa miríade de erupções muito luminosas e cálidas. Creio que podia ter ficado ali durante muito tempo, olhando fixamente a imagem do Sol. Achei aquilo mesmo muito relaxante. E, palavra de honra, ocorreu-me que, se aquilo fosse o Sol de verdade, àquela distância, amanhã tínhamos a porra do problema da dívida pública resolvido.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Como não percebo nada de economia, até posso fazer resumos muito inocentes da coisa
Se a memória não me engana, foram os mercados (e aquele que era, então, o seu porta-voz, um tal de Cavaco Silva) que nos convenceram a investir na bolsa, em auto-estradas, em novas tecnologias (o futuro!) e em casas próprias, uma vez que coisas como produzir, pescar e cultivar eram completamente anacrónicas e terceiro-mundistas. Depois, quando, afinal, não precisávamos todos de informação a toda a hora no telemóvel, os mercados perceberam já não conseguiam aguentar tanta casa por vender, tanto empréstimo por pagar, e vieram de mão estendida cravar o dinheiro dos nossos impostos, o que tínhamos e o que não tínhamos (e Sócrates e sus muchachos fizeram-lhes o favorzinho). A seguir, como pedimos dinheiro emprestado para evitar a falência do sector financeiro e o caos que sobreviria como as sete pragas do Egipto, os mercados baixaram-nos o rating e aumentaram-nos os juros, até o ponto em que tínhamos de pedir empréstimos para pagar empréstimos e já não merecíamos a confiança dos mercados (para novos empréstimos). Fomos, por isso, de mão estendida aos mercados pedir que nos financiassem a juros mais camaradas, ao que os mercados acederam, desde que vendêssemos as empresas públicas e reduzíssemos os direitos sociais dos chatos dos trabalhadores (e nada melhor que um social-democrata como Passos Coelho e a sua comandita para distribuírem entre eles os benefícios da "liberalização"). Também concordámos e fizemos o que nos mandaram, cortando tanto e tão pouco que, sem dinheiro para gastar, os consumidores se retraíram e deixaram de comprar várias coisas, supérfluas ou não, atirando a economia para o vórtice da recessão. E eis que, salvadores, os mercados reaparecem e voltam a baixar-nos o rating (e a puta que os pariu), agora a pretexto de que a economia está recessiva. Conseguem imaginar o que vai acontecer a seguir?
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Seremos nós os alunos da escola do professor Piórkowski?
Hoje, tendo ligado inopinadamente a televisão num canal de notícias, deparei com o ministro das Finanças a fazer um piada sobre um deputado do BE, aconselhando-o a encetar uma carreira na ficção. Pareceu-me, pois, que a minha tarde devia concluir-se com um mergulho ainda mais radical no absurdo e, por isso, fechei-me na casa de banho a ler algumas páginas de Ferdydurke, o desconcertante romance de Witold Gombrowicz. Que coisa tremendamente inspiradora! Provavemente menos calhado para a ficção do que o deputado do BE visado pelo senhor ministro, imaginei, ainda assim, que Vítor Gaspar era o tutor da escola do professor Piórkowski, na qual os rapazes são internados para aprenderem a arte da ingenuidade e da inocência; e que, enquanto nós, os alunos, nos entretemos a proferir os palavrões mais cabeludos para descrever a política fiscal do Governo, alguém, talvez o próprio Vítor Gaspar, esteja escondido atrás de um carvalho tomando notas e comprazendo-se da nossa inocência, citando selvagemmente versos de Eugénio de Andrade e dando piruetas loucas enquanto, muito infantis e inocentes, continuamos a dizer frases veementes sem sermos capazes, porém, de sair da letargia ingénua da austeridade e, vá lá, de dar uns tabefes em meia-dúzia de palhaços que estão mesmo a pedi-las. Raios me partam se fantasiar coisas destas não pode ser uma extraordinária forma de terminar o dia.
Nottingham outra vez*
Na versão mais conhecida da lenda, Robin dos Bosques rebela-se por causa da cobrança abusiva de impostos: os servos eram obrigados a entregar quantias cada vez mais elevadas aos esbirros do xerife de Nottingham, mas o dinheiro servia basicamente para sustentar os gastos excessivos dos detentores do poder. Intrépido, Robin emboscava os odiosos cobradores na floresta, assaltava-os e distribuía o dinheiro pelos mais necessitados. Terá sido, de algum modo, um dos inspiradores do “Estado Social”.
Do tempo de Robin dos Bosques para cá, o modo de encarar os impostos alterou-se bastante. Pagamos hoje muito mais do que se pagava em Nottingham, mas fazemo-lo porque nos convenceram de que o Estado receberia esse dinheiro e trataria de apoiar os mais carecidos, assegurando, por outro lado, um conjunto de serviços públicos de que todos necessitamos - hospitais, estradas, abastecimento de água e luz, escolas, serviços de segurança, tribunais, transportes - e que não seríamos capazes de prover individualmente. A nossa vida em sociedade assenta em grande parte, aliás, nesta ideia de organização colectiva. Não faria nenhum sentido termos uma escola para cada um, dispormos de uma estrada particular para nos deslocarmos de casa para o trabalho, pagarmos um médico privativo, uma central de tratamento de água e uma canalização só para nós, ou fazermos justiça pelas próprias mãos.
Esta concepção, porém, está a mudar muito. E muito depressa. Os estados entenderam, a dado passo, que os privados seriam capazes de administrar melhor os fundos públicos e entregaram-lhes a construção e gestão de estradas e de hospitais, ou a produção e distribuição de energia eléctrica. No Porto, e só para usar um exemplo que me é próximo, a câmara municipal já decidiu privatizar a recolha do lixo, o Pavilhão Rosa Mota, os mercados do Bolhão e do Bom Sucesso, o Palácio do Freixo, o Rivoli, o abastecimento de água e o estacionamento na via pública. A habitação social, a reabilitação da Baixa e do centro histórico e a “animação da cidade” também foram entregues a “empresas municipais”. Ou seja: os cidadãos continuam a pagar (cada vez mais) impostos e, ao mesmo tempo, tornaram-se clientes das firmas que passaram a desempenhar os serviços públicos privatizados.
Imagino que esta nova organização social tenha sido planeada. Supôs-se que, como em Nottingham, não teremos mais remédio senão pagar impostos cada vez mais altos, a bem ou a mal, e sem que alguma vez nos perguntemos para onde vai esse dinheiro (desde que nos permitam continuar a eleger o xerife). Cavaco Silva chama a isto “maturidade cívica”, mas é capaz de estar enganado. Estamos muito carecidos de um Robin dos Bosques. Tanto que, às vezes, até o confundimos com um qualquer farsante que, por estratégia política, aparece a reclamar impostos iguais “para todos”. Se, porém, escutarmos com atenção, nunca os ouviremos reclamar o fim das isenções fiscais de que beneficiam os lucros dos grandes grupos económicos. Não se morde a mão que dá de comer.
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 15 de Novembro de 2011
domingo, 20 de novembro de 2011
Algumas coisas que impressionam
À porta da dona Maria, no Bairro Maria Vitorina, cheirava tremendamente a urina esta manhã. A dona Maria, que tem uma filha médica e um apartamento a sério alguns metros acima da ilha, insiste em morar naquele sítio das Fontainhas, numa casita minúscula entre casitas muito pobres e que ameaçam vir por ali abaixo até ao Douro, apesar de, às vezes, lhe entrar água em casa a partir dos tugúrios vizinhos e abandonados. Ela explica que ali nasceu há 81 anos, tal como o pai dela já ali tinha nascido ("e depois foi para a guerra"), e que é ali que se sente em casa. O que mais lhe custa é que, numa das inundações, se estragaram alguns dos livros antigos que tem em casa, "do Camilo Castelo Branco e tudo". Talvez os indivíduos que não mexem uma palha para acabar com as ruínas cheias de lixo e "bicharada" não imaginem que há quem insista em viver nas Fontainhas por gosto e não por indigência ou pobreza extrema; que ali, naquela parte da cidade que a cidade não vê (porque o fogo de artifício do S. João é sempre de noite), vive e viveu gente igual a qualquer um de nós, que lê Camilo Castelo Branco e gosta de, às vezes, vir à janela e ver o Douro a correr ao fundo da vertigem.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Certas coisas deviam ser criteriosamente evitadas
Holden Caulfield, o narrador de À Espera no Centeio, de J. D. Salinger, é um imbecil maravilhoso. Odeia tudo tão tremendamente que se chega a perceber perfeitamente os seus estúpidos motivos, e a simpatizar com ele e com o inacreditável cortejo de complexos e macaquinhos que traz no sótão. Raios me partam se, às vezes, não me apetece fazer como ele e provocar toda a gente até me tornar detestável e malquisto, e ser posto fora de todos os lugares. A maior parte dos sítios onde vamos não possuem, na verdade, nada que os recomende; e as pessoas, se vistas de um certo ponto de vista, têm todas particularidades muito detestáveis e cagarolas. Há excepções, evidentemente. E, às vezes, as pessoas também conseguem ser muito simpáticas e afáveis, e fazer com que gostemos realmente delas. É uma fraqueza que tenho e que me impede de ser anti-social: gosto de indivíduos, de ver como se movem, falam e sorriem e, afinal, como nem sempre são odiosos. Às vezes a humanidade enternece-me e faz-me feliz. Mas depois, insensatamente, ligo a televisão para ver as notícias.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Um homem muito feio talvez possa pagar imposto
Voltei hoje a ver um homem muito feio e coxo cujos modos façanhudos me inquietam um pouco: tem o cabelo curto mas revolto, uns olhos claro e pequeninos, daninhos, um cenho protuberante e servido por espessas sobrancelhas grossas, o rosto picado e um bigode tipo escova, parecido com o do Camilo Castelo Branco e o do Nietzsche. Vejo-o e penso nos indivíduos que aparecem nas estampas rurais do século XIX, nas fotografias dos condenados da Cadeia da Relação, e imagino que possa ter sido um artilheiro miguelista que tenha estado congelado durante cento e cinquenta anos (e tivesse sido descongelado há pouco). Acresce que arrasta uma das pernas, exactamente como se ainda padecesse de um ferimento provocado pelas bombardas de antigamente. Quando hoje o vi, o bom e horrendo homem levava um saco de uma empresa de exames e análises clínicas, comprovando que padece de alguns achaques. Sendo um pouco fantasioso, imaginei que a segurança social continua a cobrir as despesas de saúde de um combatente das guerras liberais (esses madraços!), e que um ministro qualquer há-de, um dia destes, aparecer no parlamento insurgindo-se contra esta pouca-vergonha, este défice oculto e, enfim, o descalabro a que este país chegou. Talvez o governante em causa aproveite até para questionar a existência de pessoas muito feias, propondo que, tendo em conta o estado debilitado das finanças públicas, se lance um imposto excepcional sobre a fealdade.
(parece que há hoje uma conferência de imprensa do ministro Vítor Gaspar; contribuintes, temei!)
(parece que há hoje uma conferência de imprensa do ministro Vítor Gaspar; contribuintes, temei!)
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Ouvir vozes*
Agora que penso nisso, é um pouco estranho que nunca antes tivesse convocado o doutor House para esta crónica. Faço-o hoje por causa de um episódio no qual o casmurro médico anda às voltas com umas vozes que lhe soam dentro da cabeça, chegando a supor que se trata de uma alucinação auditiva. O surto acaba por ser resolvido – salvo erro porque House descobre que a voz provém de um respiradouro oculto sob um tapete –, mas, ainda assim, lembrei-me dessa ocorrência por causa de um advogado do Rio de Janeiro que alega receber mensagens de Nossa Senhora.
Pedro Siqueira, de 40 anos, fala com santos, anjos e mortos desde a mais tenra idade. Há alguns anos, começou a transmitir o teor dessas comunicações em igrejas, com a ajuda de um violão. Já oficiou estas cerimónias em vários templos e tem dado muitíssimas entrevistas, até na televisão, explicando que vê a Virgem exactamente como se ela fosse de carne e osso; a única diferença é que a santa lhe aparece dentro de uma luz, às vezes descalça, “em túnica violeta e véu branco”, mas invariavelmente “bela, sorrindo”. Siqueira também já lançou um livro, Senhora das Águas. Segundo li, fê-lo a pedido expresso de Nossa Senhora, que lho transmitiu durante uma peregrinação a Fátima (mas parece que não ordenou a distribuição gratuita da obra tendo em vista uma mais ampla difusão da mensagem, pelo que o livro custa 32 reais, cerca de 13 euros). O advogado iniciou, entretanto, uma espécie de tournée divulgada no Facebook.
Qualquer pessoa que acompanhe as inúmeras séries televisivas dedicadas ao exercício da Medicina sabe que este género de contactos paranormais tem uma causa fisiológica qualquer, frequentemente um aneurisma ou alguma patologia do foro neurológico ou oncológico. Com alguma sorte, o doutor Derek Shepherd do Seattle Grace consegue resolver o problema executando uma daquelas cirurgias muito complicadas e fascinantes. Pedro Siqueira, porém, afirma que, quando era mais novo, os médicos (“neurologistas, psicólogos e psiquiatras”) garantiram que ele não tem problema nenhum. Mas, conforme se aprende na televisão, o diagnóstico destes casos nunca é simples e os 40 anos, já se sabe, são uma idade muito traiçoeira. Há indivíduos saudáveis que cometem a imprudência de fazer um check-up e frequentemente descobrem que, afinal, estavam doentíssimos.
Reconheço que as vozes interiores transmitem mensagens muito impressionantes (no domingo, por exemplo, senti-me subitamente poderoso enquanto corria na Foz, mas depois percebi que era por causa de uma cantiga que estava a tocar no iPod) e não desejo nenhum mal a Pedro Siqueira. Faço votos, aliás, para que seja apenas um simples vigarista, mais inócuo, em todo o caso, do que certos eleitos que passaram anos a ouvir a voz dos mercados aconselhando a que se gastasse dinheiro como se não houvesse amanhã. Deu no que deu, mas os sujeitos alegam agora ouvir mensagens com a mesma proveniência, indicando, porém, que se deve empobrecer, vender empresas públicas e criar desempregados. E eles mandam.
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 8 de Novembro de 2011
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
"A Metamorfose" de Kafka actualizada
Certa manhã, ao acordar dos seus húmidos sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, muito transpirado e transformado num insecto repelente e monstruoso: um ministro do XIX Governo Constitucional.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Fintar a vida e a morte: uma entrevista a Rubens Figueiredo (2002)
Já tinha conquistado, em 1999, o Prémio Jabuti na modalidade de
conto. Estava à espera de voltar a ganhar este prestigiado prémio [em 2002]?
Ganhar um prémio gera sentimentos ambíguos. Sem dúvida, é uma alegria. Por outro lado, há livros excelentes que jamais ganharam prémio algum. Os prémios nos lembram que é mais importante confiar no nosso próprio julgamento do que nas legitimações institucionais, mesmo reconhecendo que a intenção delas é generosa. Afinal, põem em relevo a criação contemporânea. O ruim é que, indirectamente, alimentam o ânimo competitivo e suas ilusões.
Veja-se o caso deste “Barco a Seco”, que passou completamente despercebido em Portugal quando aqui foi editado, tendo o prémio conquistado feito com que se voltasse a olhar para ele numa fase em que, muito provavelmente, já vai ser difícil encontrá-lo nas livrarias. O que pensa disto?
Sua observação é muito justa. Mas o que posso pensar, se não que o que importa verdadeiramente num livro é o que está escrito em suas páginas?
A imprensa brasileira descreveu várias vezes “Barco a Seco” como sendo um livro “sobre um pintor de marinhas”, o que parece uma definição bastante redutora. Concorda?
Concordo. E creio que isso reflecte a dificuldade de enquadrar o livro nos moldes de divulgação habituais na nossa imprensa. Esses moldes reproduzem os padrões de percepção mais adequados aos propósitos do comércio. Se, em alguma medida, o livro resistir a isso, já pagará o meu esforço. Ao experimentar essa dificuldade de enquadrar o livro, o leitor já se põe também numa perspectiva crítica com relação ao seu tempo.
Como descreveria o seu próprio livro?
Tenho dificuldade de descrevê-lo. Vejo-o, talvez, como um bolo em camadas, não muito simétricas. O tema que anima o romance pode ser o da sobrevivência. As personagens, cada uma ao seu modo, empenham-se em manter-se vivos, nos planos físico, moral e social. Lutam contra o não-vivo, que se abriga em todos esses planos da existência.
Mas esta estrutura em camadas pode também funcionar como um obstáculo à leitura. É uma estratégia deliberada? Defende que o leitor tem que ser confrontado com este tipo de dificuldades?
Não defendo, de maneira alguma, que se devam criar obstáculos à leitura ou ao leitor. Mas não me parece justo bajular o leitor. Uma obra de ficção engendra muitas hipóteses. Uma delas é o seu leitor.
Fiquei com a sensação de que “Barco a Seco” nos fala também dos limites movediços da identidade, de como é fácil falsificar identidades.
Em algum ponto, o livro alude ao medo que sentimos de sermos vistos como de facto somos. A tensão do livro talvez decorra desse temor que assombra as personagens de modo incessante. Eu gostaria que o livro não apresentasse a fabricação de identidades como algo fácil, muito menos que a tratasse de um ângulo lúdico, ou como um mero jogo narrativo. Pois essa manipulação está no cerne de uma angústia que se irradia por todos os aspectos do cotidiano. O temor de ser identificado, a par da necessidade de ter uma identidade.
Relacionada com a questão da identidade e da sobrevivência, há, no livro, a questão da falsificação. Afinal, o maior falsificador do pintor Emilio Vega é o próprio Emilio Vega. Para além da confrontação entre os parâmetros da falsificação e da autoria, fica no ar a ideia de que a obra de um autor depende muito mais das suas condições sociais do que do seu talento natural. É assim?
Desta vez você me pegou. Não sei o que responder, se não que sua interpretação parece um desses achados com que os críticos enriquecem as obras ao longo do tempo. Muito mais do que as acanhadas declarações do autor, são esses comentários que podem justificar a mera existência de um romance como o que escrevi, e pelo qual, bem ou mal, sou o responsável.
Pode dizer-se que as próprias personagens são, também elas, barcos a seco, vidas que de algum modo naufragaram?
Sou apenas o autor. Não detenho nenhuma autoridade a respeito de como o livro deve ser lido e entendido. Mas suponho que a noção de algo fora do lugar, de algo incompatível com aquilo mesmo de que é feito, possa prevalecer sobre a ideia de naufrágio.
Pelo menos um crítico comparou o livro a “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. Como vê este tipo de comparações?
É natural tentarmos aproximar os livros que lemos. Os romances não se escrevem sozinhos. Queiram ou não seus autores, tantas vezes inflados de ilusões egocêntricas, os romances integram um conjunto, um contínuo de vozes que se confirmam, se contestam ou se rectificam mutuamente. O interessante é que todos são vozes que não emudecem. Cada novo romance faz os antigos falarem de novo, e mais alto. E os romances antigos, por sua vez, como um actor que por um momento se cala em cena, permitem que os romances novos se façam ouvir no contexto de uma história comum.
Aparece também no livro uma ligação estreita entre pintura e literatura, que pode remeter-nos, por exemplo, para o “Manual de Pintura e Caligrafia”, de José Saramago. Foi uma das suas referências?
Tenho de confessar que não. Também tenho de confessar que não sou entendido em pintura e que não saberia traçar um paralelo entre ela e a literatura. Pode ser até que eu tenha escrito sobre o assunto nesse livro. Mas terá sido antes por força das circunstâncias e do material que reuni do que em razão de alguma convicção ou de alguma tese. Tive a impressão de que a pintura, no livro, fosse apenas o campo de uma luta pela sobrevivência. Em seu lugar, poderia estar a arte culinária, a construção civil, o cultivo de tomates. Creio que nisso reside um dos atributos centrais do ficcionista.
Porquê, então, a opção pela pintura?
Sua questão é pertinente. Acho que exagerei um pouco na resposta, embora em última instância creio ser verdadeira. A força específica do ficcionista consiste em, como um actor, ser capaz de encarnar os contextos humanos mais variados, sem possuir conhecimentos especializados de nenhum deles. No caso do meu livro, a pintura veio na esteira de alguns personagens — um pintor e um perito. Essas figuras me vieram à mente em primeiro lugar, quando o romance ainda era menos do que uma hipótese.
A sua escrita parece mais próxima do português “clássico” do que da oralidade brasileira passada para a literatura do seu país. E, por outro lado, confere um cariz intensamente visual à acção, a cada pormenor, como se nos desse a ver um filme ao qual sobrepusesse o raciocínio do narrador. Isto tem apenas a ver com o facto de o livro ter como pano de fundo uma arte visual?
A dita oralidade brasileira, transposta para a ficção, acaba por ser uma convenção literária como qualquer outra. Isso não a desqualifica para a literatura. Longe disso. Apenas nos previne da ilusão de tomá-la como uma matéria bruta extraída da realidade, capaz de conferir autenticidade ao estilo que a exibe.
O efeito visual nos pormenores da acção no meu livro talvez decorra da minha constante preocupação de ressaltar os aspectos concretos da experiência. Minha aspiração foi traduzir em termos concretos as questões oriundas do enredo.
A crítica brasileira não deixou também de notar que, em “Barco a Seco”, o seu habitual humor endureceu. Porque é que isso aconteceu? Desiludiu-se com o mundo?
Os três primeiros romances que escrevi são francamente humorísticos e debochados consigo mesmos. Os três livros seguintes têm outro tom. A mudança não se limita ao desvio do humor. Cada pessoa escreve como pode, à luz do que consegue pensar no momento. O humor, aliás, costuma ser uma defesa que se faz passar por um ataque. Um floreio da mão direita, que desvia nossa atenção daquilo que a mão esquerda está fazendo ou deixando de fazer.
E, neste caso, quis que toda a gente visse o que estava a fazer a mão esquerda. Porquê?
Mas não se trata de toda a gente, de modo algum. Trata-se, digamos, de escrever com as duas mãos. O escritor sabe que trabalha com artifícios e que eles são tudo de que dispõe. Mas não me agrada a ideia de que o escritor deva se comprazer com isso, dar a essa transigência irremediável o caráter de um programa literário e recrutar o leitor para abrigar-se num deleite lúdico.
Parabéns, Rubens Figueiredo
Passageiro do fim do dia, do brasileiro Rubens Figueiredo, é o vencedor da edição de 2011 do Prémio Portugal Telecom de Literatura 2011. Quando, em 2001, a Cotovia editou Barco a Seco em Portugal, Rubens foi basicamente ignorado (e não voltou às nossas livrarias, apesar de ter continuado a coleccionar prémios no Brasil, onde é um dos autores mais consagrados). Na altura, num suplemento já extinto do Público, escrevi que este autor praticava, nesse livro, "um português exímio – apenas com pequenos toques tropicais – trabalhando com uma precisão poética e capaz de conferir uma visão quase cinematográfica a cada instante da reflexão do narrador". Posso, portanto, perceber os motivos do júri que agora o premiaram e, deste lado de cá do mar, enviar um longo abraço de parabéns até ao Rio de Janeiro, abrangendo também, naturalmente, o Gonçalo M. Tavares, que ficou em segundo lugar com Viagem à Índia.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
A culpa é sempre da economia, carago
Há gralhas que, uma vez impressas, se tornam divertidas (como quando cai o segundo c aos colchões, por exemplo) e outras que nos põem a pensar. Na entrada da entrevista que a revista Os Meus Livros deste mês dedica à minha modestíssima pessoa, há, por exemplo, uma informação entre parêntesis que deveria remeter, suponho, para a recensão ao livro Uma Mentira Mil Vezes Repetida, publicada algumas páginas adiante. A tal gralha, porém, levou a que a informação remeta, em vez disso, para uma “recessão nesta edição”. Está bem que a crise tem muitos defeitos e que não deve ser agradável para uma revista de prestígio chegar ao ponto em que se vê forçada a entrevistar-me, mas, francamente, também não era preciso torná-lo evidente em letras tão grandes.
Sair da crise*
Se os cálculos dos especialistas estivessem correctos (mas eu desconfio cada vez mais dos especialistas e dos respectivos cálculos), o mundo passou ontem a contar com sete mil milhões de habitantes. Nas Filipinas, por motivos que suponho puramente simbólicos, fez-se mesmo uma festarola para saudar o nascimento de Danica Camacho, uma menina de dois quilos e meio parturejada num hospital público de Manila. Trata-se de uma ironia trágica: Danica nasceu para viver num dos países mais pobres do planeta e, ainda assim, alguém se deu ao trabalho de celebrá-lo numa unidade de saúde invadida por jornalistas.
A festa não foi totalmente em vão. Talvez, daqui a quinze ou vinte anos, Danica esteja já contribuindo para o progresso económico mundial, cosendo camisas ou sapatilhas de marca numa daquelas fábricas cujos operários labutam quase de graça (menos de um dólar /dia por jornadas de 14 horas de trabalho), produzindo bens de consumo que, depois, são vendidos nos países ricos com lucros astronómicos que cairão nos bolsos do costume – isto, evidentemente, se a presente crise não limitar de modo excessivo os actuais padrões de consumo. Também pode suceder que o crescimento económico dos países “em vias de desenvolvimento” seja capaz de compensar a estagnação das “economias modernas” e que Danica esteja, nessa altura, usando sapatilhas e t-shirts produzidas em algum país africano em franco desenvolvimento, cuja abundante mão-de-obra esteja já tão desesperada e outra vez tão bem adestrada que seja capaz de produzir bem e barato (como nas sanzalas), substituindo os chineses, os vietnamitas ou os filipinos.
Querendo ser absolutamente optimista, até para contrariar a quadra fúnebre vigente, estou mesmo disposto a acreditar que o Governo português está cheiinho de razão. Se o milagre económico filipino permitiu que a dívida externa daquele país baixasse dos 79% do PIB em 2003 para os 39% em 2009, não há motivo nenhum para que não sejamos capazes de um feito ainda mais espectacular. Tudo vai de sermos capazes de obedecer ao desígnio nacional que o presidente do conselho de ministros não se cansa de indicar, florescente como os amanhãs que cantam: temos que empobrecer para sair da crise.
Se formos capazes de aliar o prometido empobrecimento ao crescimento demográfico que o presidente da república tão visionariamente tem defendido, ainda há esperança para Portugal. Basta, para que o país se salve, que o número de desempregados continue a crescer de forma sustentada, que os níveis de protecção social se reduzam, que os salários baixem para níveis “competitivos” e que os portugueses passem a multiplicar-se como coelhos (ou como católicos decentes). Daqui a 20 anos, quando Danica Camacho já puder comprar sapatilhas de marca, é possível, pois, que elas sejam produzidas na mais dinâmica e produtiva região do mundo, esse vasto continente que vai do rio Minho ao Cabo das Agulhas. Com sorte, “e se deus quiser”, o bebé oito mil milhões há-de nascer em Barcelos. Ou em Lagos – na Nigéria.
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 1 de Novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
O cronópio, enfim. Um bicharoco argentino
"Ar de esquilo, focinho estreito e comprido, caninos anormalmente grandes, olhos pequenos e peludo". Esta é, segundo os jornais, a descrição de um animal do tamanho de um rato cujo fóssil foi recentemente descoberto na Argentina. O tal mamífero terá vivido há 94 milhões de anos e parecer-se-ia com Scrat, o esquilo do filme "Idade do Gelo". Os cientistas chamaram-lhe Cronópio, como os seres imaginários inventados por Julio Cortázar; mais precisamente cronopio dentiacutus. É uma bonita homenagem, mesmo se os leitores de Cortázar estivessem à espera de que os cronópios fossem semelhantes ao ser humano, apenas um pouco mais inteligentes, mais descontraídos e menos filhos da putinha do que os humanos comuns. Mas os famas devem, em todo o caso, estar carregadinhos de ciúmes.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Pequena elucubração semiótica à roda do traseiro de Scarlett Johansson
Graças ao Corriere dela Sera (coisa fina!), inteirei-me, enfim, das famosas fotografias privadas da actriz Scarlett Johansson, postas a circular por um hacker que agora está a ser julgado em tribunal. Trata-se de um episódio cujo único detalhe edificante se prende com a possibilidade de confirmar (se necessário fosse) que Scarlett, a gaja, tem um traseiro firme e seios bonitos (ou vice-versa), e um telemóvel com máquina fotográfica. A coexistência destes três itens, segundo parece, gera uma espécie de tentação pela vertigem do automironismo narcísico, fenómeno que, apesar das minhas naturais limitações, posso compreender e até aceitar com certo carinho (lamentando, embora, que não existam no mundo hackers suficientes para divulgarem todos os talentos inatos merecedores de prestígio internacional). Mas as fotografias de Scarlett parecem-me, isso sim, remeter para uma dimensão profundamente poética. Olhe-se por onde se olhar, a actriz aparece, nas imagens, tocada por uma melancolia profunda, sem truques, com uma borbulha na testa, um pouco desgrenhada e com olhos de quem acabou de acordar. É uma mulher normal, ou, pelo menos, uma mulher normal que tenha um traseiro firme e seios bonitos, mas que, apesar de toda a fama que tem e de todos os fotógrafos que já a fotografaram, chega a casa e, como qualquer ser humano enfadado e inseguro, enfrenta o desamparo da solidão e a necessidade inapelável de fotografar o próprio traseiro reflectido no espelho. Ninguém diga, pois, que está bem, mesmo se, à primeira vista, nada parece estar particularmente fora do sítio.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Candy shop
Como qualquer insensato que se preze, dirigi-me ontem a uma livraria com o intuito de adquirir novo material de leitura, papel novo para juntar às pilhas de papel velho que vou amontoando por aí. As livrarias, porém, produzem em mim um efeito semelhante ao que as lojas de gomas induzem nas crianças (& outros gulosos). Entro, vejo e quero todos — mesmo se é perfeitamente óbvio que jamais terei anos que cheguem para ler metade daquilo que gostaria. Havia O Retorno da Dulce Maria Cardoso, o Saramago resgatado ao esquecimento, a viagem de camioneta do Josep Pla, coisas novas e velhas do(s) Roth, os Frantzen que ainda não li, o Pinchon, o novo do Mário de Carvalho, um livrinho vermelho do Vila-Matas e eu sei lá mais o quê, se me deixasse estar ali mais cinco minutos não sei com quantos quilos a mais não sairia da livraria. Triunfaram os clássicos. Trouxe o À Espera no Centeio, do Salinger, na nova edição da Quetzal, e o Ferdydurke do Gombrowicz. Até ao Natal estamos conversados.
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