quinta-feira, 31 de março de 2011

É imperioso regular o intenso tráfego dos gnomos na floresta



© Teatro Anatómico 2011 / Mata da Penoita, Vouzela

terça-feira, 29 de março de 2011

Souto Moura, o Prémio Pritzker maltratado na sua terra

Eduardo Souto Moura venceu o Prémio Pritzker, o mais importante galardão mundial atribuído à obra de um arquitecto. No Porto, a sua cidade, a câmara municipal decidiu, esta manhã, “congratular-se”. Tem, porém, poucos motivos para isso. Se se exceptuarem as estações do metro, a obra de Souto Moura na cidade tem sido tratada com um desdém que roça a atrocidade: a Casa das Artes, que é propriedade do Ministério da Cultura, está encerrada e a degradar-se há mais de dez anos sem que o actual executivo tenha movido um dedo em sua defesa. A Casa do Cinema Manoel de Oliveira foi recebida por Rui Rio como coisa malquista e que não serve para nada, transformada à pressa em escritório de alguns burocratas municipais, completamente esquecida já a função para a qual foi projectada. O desenho para a requalificação e ampliação da Biblioteca Pública Municipal também nunca passou do papel. E as torres que tinham sido projectadas para junto do Parque da Cidade foram tratadas como lixo e recusadas pela cidade e pelos seus políticos. No lugar delas há um ermo alcatroado que serve de boxe às corridas de automóveis que o doutor Rui Rio gosta de organizar e uns barracões que o Sport Clube do Porto construiu para a prática do ténis. Estamos, pois, conversados.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Outra vida*



Estando de folga, passei a manhã de sexta-feira a limpar o pó, a aspirar e a esfregar azulejos, pelo que só à hora de almoço desse dia fiquei a par daquilo que tinha acontecido no Japão. Soube do impressionante safanão produzido pelas entranhas da Terra revolvendo-se e vi as imagens aéreas do tsunami avançando imparável sobre o litoral, arrastando tudo, casas e carros, barcos e pessoas.

Pude, creio que pela primeira vez, ter uma vaga ideia de como será estar diante da onda gigante, vendo-a aproximar-se e destruir tudo. Fui capaz de me imaginar lá em baixo, esbracejando para tentar manter-me à tona no meio do turbilhão, porque Clint Eastwood o mostrou no cinema, numa das cenas iniciais de Hereafter-Outra Vida. Ainda que a realidade tenha sido simulada de modo imperfeito pelo filme, o tsunami perdeu aí a condição de acontecimento destruidor mas relativamente distante, filmado ao longe, e passou a ser uma coisa que afoga e sufoca, um pesadelo do qual, às vezes, algumas pessoas se salvam – como Marie Lelay, a ficcional jornalista francesa de Hereafter, ou o sexagenário japonês que foi encontrado no domingo, em alto mar, em cima do que restava de um telhado à deriva.

De acordo com uma notícia do canal japonês NHK, Hiromitsu Shinkawa tinha sido evacuado da cidade de Minami Soma, na região de Fukushima, mas voltou atrás para tentar recolher alguns bens pessoais. Foi aí que a onda do tsunami o apanhou, arrastando-o juntamente com a casa. Deve, então, ter sentido o pavor do abismo líquido e da morte quase certa, afogando-se e debatendo-se para se agarrar à vida. Depois, quando o mar recuou, Hiromitsu conseguiu trepar para cima dos restos flutuantes de um telhado, e ali ficou 45 horas, até que um navio da Marinha japonesa o encontrou a quinze quilómetros da cidade de Futaba, acenando e provavelmente feliz por ainda estar vivo e sem ferimentos graves; por estar a viver uma outra vida sem ter realmente perdido a que tinha antes, apesar da esposa desaparecida e da casa apagada do mapa pela hiperbólica força das águas.

A incrível história de Hiromitsu Shinkawa deu a volta ao mundo num ai e, ontem de manhã, o Google já registava 72 mil ligações para notícias com o seu nome. Há quem lhe chame “o homem mais sortudo do mundo”. As fotografias mostram-no com um braço erguido e um capacete branco na cabeça, sentado sobre um monte de destroços flutuando num mar ironicamente manso; e, depois, já a bordo do pequeno barco que o resgatou, enrolado num cobertor amarelo e segurando uma lata de refrigerante.

Não consigo imaginar o que ia na cabeça do senhor Shinkawa no momento em que o bote era erguido para o destroyer da Marinha japonesa. Mas ocorre-me que, na sexta-feira, enquanto ele tentava manter-se vivo, eu estava em casa, no exercício pleno da minha outra vida, limpando domesticamente o pó e esfregando azulejos. É um trabalho que, às vezes, me aborrece e irrita. Naquele dia, porém, estando longe do pesadelo japonês, eu era, sem que sequer o soubesse, o verdadeiro gajo com sorte.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 15 de Março de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

Extra, extra! O verdadeiro motivo da queda do governo

Que gentinha! Apanham uma quarta-feira sem Liga dos Campeões e é isto, inventam logo uma crise política. Teria sido muito mais produtivo fazerem como a malta lá do estaminé e marcarem um jogo de futebol de salão ou assim. Nós, por exemplo, carimbámos a passagem à final do torneio que estamos a disputar - e com um guarda-redes que se apresenta em campo com gripe, dopado com Aspergic e em calças de pijama!

terça-feira, 22 de março de 2011

O eterno retorno (para ler de um só fôlego)

Parece que o governo vai cair amanhã, ou depois de amanhã, o mais tardar na sexta, ou na próxima semana, assim se confirmem as infalíveis previsões anunciadas há várias semanas, e depois há-de haver eleições e há-de ser formado um novo governo, o qual, como aqueles que o precederam, há-de explicar às massas que o país está de tanga, há-de anunciar projectos mobilizadores (e caros) que dinamizem a economia e há-de prometer pôr as contas públicas em ordem, tal como o governo ainda em funções, os que o precederam e aqueles que depois virão, sendo necessário, para tal, nomear vários assessores, directores gerais, directores de departamento, directores adjuntos, adjuntos dos directores adjuntos, chefes dos respectivos gabinetes, secretárias, motoristas, ajudantes, ajudantes de ajudantes, delegados regionais e ajudantes destes, indemnizando, evidentemente, aqueles que lá estão agora, uns atrás dos outros, infatigavelmente, até que já não haja país ou acabemos por concluir que, se é para ter governos destes, é melhor não ter governo algum.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Os fulgores metaliterários da Primavera (ou então sou eu que...)

A Primavera está no ar e eu entendi que seria conveniente voltar a sair de casa, logo pela manhã, usando óculos escuros – uns óculos escuros apenas relativamente parecidos com aqueles que eu vi o Enrique Vila-Matas usar em Matosinhos e que são os mesmos óculos, afinal, com que ele está na fotografia que vem na badana de Dublinesca, tirada pelo Daniel Mordzinski apenas alguns minutos antes de ele ter entrado na sala de conferências como se fosse o misterioso personagem da gabardina mackintosh de Ulisses. Já os meus óculos de sol são apenas os mesmos que eu uso há vários anos e, na verdade, nunca me tinha ocorrido que pudessem ser minimamente literários. Esta manhã, porém, enquanto seguia pela rua de mãos dadas, tomando o primeiro pólen da manhã, a minha namorada comentou que eu parecia o Vila-Matas – como se a leitura de Dublinesca não me estivesse apenas a dar vontade de dormir belas sestas, mas acabasse também por promover uma espécie de misteriosa simbiose. Ou isto ou, muito mais prosaicamente, a Vanessa quis apenas dizer que estou a ficar careca.

Patos de borracha*



Enquanto o fim-de-semana transcorria, despertei sobressaltado, entre uma sesta e outra, pelo anúncio da descoberta de novos indícios da existência de vida extraterrestre. Ainda mal refeito dessa maravilha, li a notícia sobre o possível achamento, nos Açores, de túmulos com dois mil anos ou mais. A confirmarem-se as hipóteses agora em cogitação, poderão ter sido ali enterrados os corpos de uns quantos gregos ou cartagineses que chegaram às ilhas muito antes de Diogo de Silves e Diogo de Teive.

Pode imaginar-se, pois, uma galé fenícia descobrindo a Terceira e, depois, o Corvo, deixando para trás alguns colonos que tenham acabado por morrer aos poucos sem que mais ninguém por lá passasse; ou que um trirreme tenha naufragado perto do arquipélago e os sobreviventes, agarrados aos destroços, acabassem por andar à deriva até que as correntes marítimas os tenham depositado nas ilhas – como aconteceu com os 28.800 brinquedos de borracha que há quase vinte anos caíram de um navio mercante que navegava no Pacífico e têm, desde então, percorrido os mares do mundo, dando ocasionalmente à costa nas mais desencontradas praias, da Escócia ao Hawai.

Há alguma coisa de muito poético na história dos patos de borracha amarelos que o jornalista norte-americano Donovan Hohn conta no livro Moby-Duck. Produzidos numa fábrica chinesa para irem distrair os banhos infantis em banheiras do mundo todo, acabaram por viver uma autêntica saga marítima, navegando ao sabor das ondas. A viagem que fizeram serviu para aprofundar estudos sobre as correntes oceânicas e inspirou um filme publicitário de uma marca de automóveis, levando Hohn a seguir-lhes o rasto durante cinco anos. Chegou a encontrar um dos brinquedos, um castor já descolorido pela acção do mar, o qual seria simples lixo se não tivesse atrás de si uma história que valia a pena contar: a narrativa imaginada de um pequeno pato de borracha, amarelo e solitário, que desafia o mar imenso, tão indefeso e indómito como um remador das galés fenícias.

Quando apanhou o castor numa praia do Alaska, Hohn há-de ter sentido algo semelhante ao fascínio da descoberta que acometeu o arqueólogo Nuno Ribeiro diante das necrópoles açorianas, ou ao assombro que sentiu o cientista da NASA que garante ter encontrado minúsculas bactérias fossilizadas em três meteoritos, as quais testemunharão a existência de vida fora da Terra. Há, nos três casos, a subtil magia da serendipidade maquinando para que, a partir de um indício insignificante, fosse posta em marcha a capacidade humana para imaginar, relacionar conhecimentos e enternecer-se com o extraordinário poder do acaso.

Se não for estulto meditar nisto entre duas sestas, talvez se acabe concluindo que não somos mais, cada um do nós, do que frágeis patos de borracha navegando na larga e incerta correnteza dos dias. Erguemo-nos da cama, trabalhamos, comemos, dormimos e asseguramo-nos de que os nossos filhos crescem saudáveis. Só daqui a muito tempo, porém, há-de ser inventada a narrativa que dê sentido a tudo isto.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 8 de Março de 2011

domingo, 20 de março de 2011

Um pouco mais de metaliteratura

Contei no Aonde o vento me levar como Enrique Vila-Matas, de uma vez que veio ao Porto apresentar um livro, parecia encarnar o narrador corcunda de Bartleby & Companhia. Agora, em Dublinesca, Vila-Matas refere por mais de uma vez um misterioso personagem de Ulisses: um enigmático tipo de gabardina mackintosh que comparece ao funeral de Paddy Dignam. Ora, eu recordo-me perfeitamente de que, quando há dois anos esteve em Matosinhos, Vila-Matas estava a conversar muito normalmente nos bastidores da sala onde decorreria a conferência em que ia participar, mas que, quando chamado a comparecer na mesa, ergueu a gola do sobretudo que tinha vestido e pôs uns óculos escuros, entrando na sala como se fosse precisamente aquele tipo enigmático que aparece fugazmente no livro de James Joyce.

terça-feira, 15 de março de 2011

A rapariga a quem faltava um dente

Na página 109 de Dublinesca, Samuel Riba, o editor, telefona a um amigo escritor, Javier, e pergunta-lhe pelo momento em que se sentiu o centro do mundo. Javier evoca, então, o seu primeiro amor, o modo como ela estava a descascar batatas-doces no momento em que a viu, e depois acrescenta um desconcertante "recordo que lhe faltava um dente". Ocorre-me imediatamente que, um dia, inventei uma personagem à qual também faltava um dente, mais precisamente um dente da frente; uma rapariga cabo-verdiana pela qual o narrador desse livro se apaixona. Semanas depois de tê-la inventado, meti conversa, numa noite cálida do Mindelo, com uma moça a quem fiz sorrir com uma patetice qualquer que hei-de ter dito, e, então, vi que lhe faltava também a ela um dente, precisamente o mesmo dente da frente que eu tinha imaginado que faltaria à rapariga do romance. Lembro-me de me ter sentido o centro das coisas de uma forma muito estranha, como se aquilo a que às vezes se chama o mundo tivesse decidido pôr-se de acordo e urdir de forma a que as minhas ficções adquirissem uma certa realidade.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Como vem nos livros*


Visto existirem, como escreveu Shakespeare, mais coisas entre o céu e a terra do que as sonhadas pela vã filosofia de Horácio, a realidade urde, às vezes, situações em que quase não se acredita – como aquela que juntou, na semana passada, o espanhol Alberto Torres Blandina e o cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa num autocarro que circulava pelas ruas da Póvoa de Varzim.

Como no comboio descendente de Fernando Pessoa, havia, neste autocarro cheio de escritores, quem gargalhasse, quem fosse dormindo, quem fosse com sono e outros que “nem sim nem não”. Blandina, escritor convidado para participar no encontro literário Correntes d’Escritas, devia ir, como no poema, calado para os outros, mas atento ao que se dizia, pois percebeu que Mário Lúcio é de Cabo Verde e aproveitou para meter conversa, comentando que uma das suas músicas favoritas é daquele país e se chama Dor di amor. Isto, porém, era coisa pouca, pois logo o escritor crioulo pôs o outro a par de tudo: “Fui eu que compus essa canção”, disse.

Talvez por não ser um crente do poder desconcertante das coincidências, Blandina deu seguimento à conversa dizendo que a sua versão preferida de Dor di amor é a do grupo Simentera. “Mas fui eu que fundei o Simentera”, contrapôs o atónito Mário Lúcio.

Não assisti à conversa, mas ouvi quando Mário Lúcio a contou à cubana Karla Suarez e ao espanhol José Manuel Fajardo, os quais também coincidiram nas Correntes d’Escritas há alguns anos e, depois, perceberam que iam ser a música favorita um do outro. Estávamos à espera do elevador e o Mário Lúcio ficou de costas para as pessoas que iam chegando. Não viu, por isso, quando Alberto Torres Blandina se aproximou, encostando-se discretamente à parede e ficando a ouvir a narração da sua própria história. Mas, nesse instante, ante o espanto de quem ouvia o caso, Mário Lúcio voltou-se e viu Blandina ali mesmo, sorrindo e confirmando tudo. “Contei-o no Facebook e ninguém acredita”, acrescentou o espanhol.

Visto que os escritores, segundo parece, têm o estranho poder de convocar o acaso, subi ao quarto para largar o casaco e desci logo depois. Na viagem descendente entre o nono andar e o rés-do-chão, o elevador parou, a porta abriu-se e Alberto Torres Blandina, o próprio, ficou diante de mim e entrou na cabina, o que me pareceu bestialmente conveniente e também, a seu modo, muitíssimo literário, na medida em que estas coisas só costumam acontecer nos livros. Comentei que a história do encontro dele com o Mário Lúcio me parecia incrível e quis saber como raio tinha um espanhol, entre as suas canções favoritas, o original de uma modinha cabo-verdiana à qual, depois, Cesária Évora deu alguma notoriedade. A explicação é simples: Blandina é músico além de ser escritor e, por isso, toca numa banda de world music.

Faz sentido. Mas não deixa de ser extraordinário que, de entre todas as musics que existem no world, Blandina tivesse escolhido precisamente aquela que Mário Lúcio compôs. E que, sendo o mundo tão vasto, tivessem vindo encontrar-se na Póvoa de Varzim.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 1 de Março de 2011

domingo, 13 de março de 2011

Lendo Dublinesca e dormindo belas sestas

Creio que já expliquei algures de que modo a leitura dos livros de Enrique Vila-Matas me proporciona uma experiência de imersão radical, ao ponto de alterar o modo como relaciono factos, a minha forma de pensar. Com Dublinesca, o mais recente romance do escritor catalão, a minha relação tem sido ainda mais inquietante, se é que posso dizê-lo deste modo. O convívio com o quotidiano de Samuel Ribas, o ex-editor transformado numa espécie de autista, tem-me proporcionado uma estranha sensação de dormência, de algum modo gémea do alheamento de Ribas, como se a realidade exterior se fosse afastando, tornando-se difusa. Dou por mim, aliás, a cabecear de cada vez que começo a ler Dublinesca e acabo mesmo por adormecer durante um segundo ou dois. Não estou certo de que isto seja bom, ou de que seja mau, mas sei que tenho, entretanto, dormido belas sestas.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Facebook no convento*



Serei um pouco bota-de-elástico, mas faz-me ainda alguma confusão que uma das mais interessantes peças jornalísticas produzidas por este jornal na passada semana não tenha sequer sido publicada... nas páginas deste jornal. Era a história de uma freira espanhola que foi expulsa do convento em que vivia há mais de 35 anos, por causa das actividades que mantinha no Facebook. O suculento caso possui vários dos condimentos que costumam ditar o sucesso de uma peça jornalística – religião, tecnologia, sociologia, modernidade versus tradição, transgressão, inveja, elementos pícaros e imigração –, mas revela também alguns dos paradoxos com que se debatem os jornais na era da informação digital.

A história da soror María de Jesús Galán, explique-se, foi apenas contada na versão online do Público. Tinha, até ao final da manhã de ontem, contabilizado 27.450 leitores, os quais, para lê-la, não tiveram que gastar um único cêntimo. Já aquelas pessoas que, como vossa excelência, compram o jornal regularmente, não foram merecedoras dessa combinação singular de Umberto Ecco (O Nome da Rosa) e Whoopi Goldberg (Do cabaré para o convento).

Como não sou capaz de, num espaço tão pequeno, solucionar o drama esquizofrénico em que vive a imprensa (papel ou digital?), posso, ao menos, compensar o leitor que hoje tenha gasto um euro a comprar o Público, resumindo aqui o essencial da história que a Susana Almeida Ribeiro escreveu.

María de Jesús Galán era uma freira como as outras, pelo menos até ao dia em que comprou um computador e, depois, criou um perfil no Facebook. Se o diabo se tinha mantido afastado das paredes do convento de Santo Domingo el Real, em Toledo, pode, pois, dizer-se que ele ali entrou com o rompante permitido pelas comunicações de banda larga. A “soror internet” até foi premiada pela junta de Castilla-La Mancha “pelo seu trabalho de catalogação de documentos e livros da biblioteca conventual, pela contribuição para a difusão destes documentos pela internet e pela introdução de tecnologias num ambiente tradicional”, mas a paz de deus tinha sido definitivamente quebrada no lar daquelas que com ele estão casadas. Instalou-se, em vez disso, “uma tensão insuportável e um mal-estar crescente” no convento. E a freira-arquivista acabou por ser expulsa.

No Facebook, María de Jesús, como qualquer mortal xenófobo em época de crise, atribuiu as culpas pelo sucedido a “umas quenianas”, freiras que como ela viviam no convento de Toledo, acusando-as do pecado mortal da inveja. Dito isto, foi inscrever-se no centro de emprego lá do sítio e anunciou aos seus amigos electrónicos a intenção de aproveitar a oportunidade para ir conhecer Londres e Nova Iorque.

Nestas coisas, porém, nem tudo é preto ou branco como nos negócios entre deus e o diabo. Se o Facebook pode ter levado María de Jesús à perdição, também serviu, neste caso, para salvar a história que sobre ela se escreveu. Não fossem os quinhentos links que os utentes da rede social fizeram e a notícia ter-se-ia perdido no éter ao fim de duas ou três horas de exposição na página principal do Público Online.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 15 de Fevereiro de 2011

sexta-feira, 4 de março de 2011

Acho que agora só lhe falta utilizar a expressão "com estes dois que a terra há-de comer"


Circular de autocarro na cidade transformou-se, para mim, numa espécie de missão, mas as viagens no metro incorporam, hoje, alguns dos grandes momentos da dramaturgia urbana contemporânea. O meu cego preferido, por exemplo, teve hoje que atender uma chamada telefónica de um chato qualquer, mas despachou o interlocutor enquanto o diabo esfregava um olho. Depois de desligar o aparelho, o cego virou-se para alguém que ia com ele e comentou que, muito francamente, “há gente que não se enxerga”.

Tenho, entretanto, que passar em qualquer lado para comprar o Dublinesca

Na entrevista que, há dias, concedeu ao Ípsilon a propósito da edição de Dublinesca, perguntaram a Enrique Vila-Matas se espera ser lido daqui a cem anos. A resposta é um tratado de humor: “Nessa altura terei 162 anos e estarei interessado noutras coisas, como ir buscar os netos dos meus netos ao colégio, por exemplo”. O interrogador, porém, não responde à provocação e pergunta-lhe, antes, algo sobre o risco de desaparecimento da literatura. No final dessa espécie de monólogo patafísico em que a entrevista se transforma, Enrique conta que se iniciou na literatura por causa de um equívoco, quando, na verdade, esperava vir a ser tenista. Ou muito me engano ou o próximo Vila-Matas terá um narrador que fracassou em transformar-se no Rafael Nadal.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Um recado para o Manuel António Pina

O Manuel António Pina anunciou esta semana que as crónicas que escreve no Jornal de Notícias estão de férias até Abril, "se a senhora Merkel não dispuser outra coisa". Ora, embora o Manuel António Pina mereça totalmente umas férias, falta ainda muito tempo até Abril e custa muito ficar, assim de repente, sem a companhia e a clarividência do melhor cronista português. O meu filho, que o lê todos os dias, já reclamou e, em conformidade, encarregou-me de transmitir este recado. Está entregue?

quarta-feira, 2 de março de 2011

As delícias da cinefilia japonesa


Um clássico é sempre um clássico - e um clássico japonês é um filme com certas necessidades específicas, como ter tomado três cafés antes de entrar na sessão, não ter jantado e ter dormido 14 horas na noite anterior. Visto que sou, porém, um pouco inconsciente, dediquei a noite de ontem às delícias da cinefilia e fui ver, em regime pós-prandial, Rua da Vergonha, de Kenji Mizoguchi, um filme de 1956 rodado no bairro do prazer (Yoshiwara) da Tóquio antiga. Tudo muito certo. A sala estava quase cheia e eu, a dado passo, dormitei um bocadinho, mas apenas por um brevíssimo instante, pois tinha uma senhora de cada lado e tive vergonha de que percebessem que sou ignorante ao ponto de dormir em plena fruição de um Mizoguchi (acordei, de uma das vezes, com o riso da senhora do meu lado esquerdo e supus, por isso, que ela se estava a rir de mim). A segunda parte do filme correu um bocadinho melhor, fundamentalmente porque era mais curta. Uma das protitutas era bonita, mas não vi ninguém conhecido.

terça-feira, 1 de março de 2011

Livros vibrantes como tigres de papel (Moacyr Scliar, 1937-2011)


Nunca é tarde, creio, para homenagear um morto - ele dispõe da eternidade toda para nos ignorar. Só agora, pois, invoco Moacyr Scliar, o escritor brasileiro falecido no último fim-de-semana, provavelmente à mesma hora a que um bando de outros escritores erguiam cálices à vida e à literatura no bar de um hotel da Póvoa de Varzim. Nem todos, parece-me, estaríamos, então, tão vivos e tão de boa saúde literária como Scliar sempre estará, presente ali naquele canto na estante, num sítio que é só seu, entre Erico Verissimo e Raduan Nassar. Vou e passo o gume dos dedos por O exército de um homem só, A mulher que escreveu a bíblia, A majestade do Xingu e Os leopardos de Kafka. Sento-me e olho a fileira de lombadas, onde os livros de Moacyr Scliar parecem muito vivos e vibrantes, mais vivos e vibrantes do que os livros comuns, exactamente como sucedia aos paradoxais tigres de Kafka, os quais, sendo apenas escritos, tinham mais consistência do que os animais reais.

(não convém, entretanto, deixar de ler os dois textos que o editor Luiz Schwarcz escreveu)

Os perigos de ler o Quixote


Cada um carrega a cruz que lhe cabe em sorte - e a minha consiste numa absoluta falta de seriedade, “essa senhora demasiadamente tida em conta”, como escreveu Julio Cortázar num dos textos que compõem Volta ao Dia em 80 Mundos. Não sou, pois, o “escritor típico”, aquele que, quando chega ao momento de se pôr a trabalhar num conto ou numa novela, “mete o colarinho duro e sobe para a parte mais alta do roupeiro”. E muito menos o faço quando toca a escrever neste mui destrambelhado Teatro Anatómico, onde pratico, no essencial, as esquivas artes da balbúrdia e da superficialidade. Hoje, por exemplo, li no P2 que Hitler era um amante de livros, coisa que há-de contrariar, e muito, os bem-intencionados que acreditam que o contacto com a literatura produz pessoas melhores. Acresce a isso que Hitler tinha, entre os seus livros preferidos, o D. Quixote de la Mancha, de Cervantes. Ora, eu conto passar ainda esta tarde pelos correios para ir buscar a versão do Quixote modificada para o Português pelo Aquilino Ribeiro e, tendo lido o que li esta manhã, prometo vigiar-me atentamente, a fim, ao menos, de não acabar um dia destes a invadir a Polónia.

E agora um pouco de arte contemporânea


O que havia atrás de um muro que caiu - Rua Monte de Ramalde, Porto, esta tarde