quarta-feira, 28 de abril de 2010

Marte ataca!



Isto, já se sabe, anda tudo ligado. No domingo, quando abriu as portas do Palácio de S. Bento ao povo, o primeiro-ministro José Sócrates recebeu com frieza e desconsideração uma cidadã que se lhe dirigiu garantindo ser a embaixadora de Marte (creio que é possível escutar o que aconteceu numa reportagem da TSF). Ora, como é cada vez mais óbvio, a economia e as finanças - incluindo as cotações da bolsa, a fixação dos juros bancários e a flutuação do preço dos combustíveis - obedecem a regras do domínio extraterrestre, completamente incompreensíveis para o terráqueo comum. Os marcianos andam realmente por aí e, consta, governam o Standard & Poor’s, o Banco Central Europeu, a Galp e os chamados “mercados internacionais”. Foi, por isso, bastante imprudente a atitude de José Sócrates, ao tratar com soberba a embaixadora de Marte, voltando-lhe ostensivamente as costas e afastando-se. Stephen Hawking, o vidente aleijadinho, bem tinha avisado que os ET podem odiar-nos. É evidente que nos odeiam e nos querem muito mal. Desrespeitados por Sócrates, os marcianos vingaram-se imediatamente e ripostaram com violência e fúria extrema, baixando-nos o rating (ou lá o que é). Bem pode, agora, o ministro Teixeira dos Santos dizer que é preciso repelir o ataque. O tanas! Eu vou mas é buscar a caçadeira e meter a avó na pick-up.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Monsanto

(*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 30 de Março de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Talvez me tenha cruzado com os poetas John Mateer e Anna Reckin enquanto passeava pelas ruelas de Monsanto, mas não tinha, então, como saber que eles também por lá andavam. Desconhecia, aliás, a existência daqueles dois poetas. Foram-me revelados pelo P2 de ontem(*) - e, no mesmo instante, senti a mordida bífida e venenosa da inveja e da cobiça. No domingo, enquanto via o entardecer a partir da minúscula e enlouquecedoramente bela esplanada do Bar Lusitano, encarrapitada no topo de um penedo, tive vontade de passar uma temporada em Monsanto apenas para poder ler, escrever, preguiçar e praticar outras actividades inúteis, como escutar o profundo silêncio que circula entre o casario de pedra e conversar com as velhas mulheres que vendem marafonas em cestinhos de vime. Calhava-me bem, pareceu-me, aquele janelão aberto sobre a paisagem imensa e talvez ali pudesse passar horas vendo o tempo transcorrer ou medindo a consistência da neblina diante do contorno das serras ao longe.

Enquanto fracção do tempo, o domingo não é (infelizmente) elástico, característica que se agrava quando, durante a madrugada, por causa da mudança para o horário de Verão, se perde uma hora inteira num só segundo. Por muito que se corra, não é possível visitar Belmonte e Sortelha fazendo de conta que não há pressa, dando as mãos e parando para fotografar (quase) tudo, almoçar como deve ser e, depois, chegar a Monsanto a tempo de prestar ao sítio a homenagem que ele merece. Seria uma insanidade e um despautério sem nome andar a correr pelas vielas de Monsanto sem chegar a pressentir o silêncio que lá há. É necessário tempo para escutar o balido das cabras e trocar as boas tardes com o pastor que fica sentado diante da paisagem, trocando olhares metafísicos com uma parelha de cães. A Monsanto, creio, deve chegar-se levando na bagagem as subtis e simples lições expressas, por exemplo, n’O Livro dos Prazeres Inúteis, de Tom Hodkinson e Dan Kieran; ir preparado para actividades tão fundamentais como a contemplação das coisas que voam, a observação de nuvens, a deambulação ociosa, a cigarrilha às escuras ou a apanha de folhas das árvores em pleno voo.

Uma vez que “não há nada que seja menos prejudicial ao ambiente do que não fazer nada”, hei-de voltar a Monsanto para sentir a chuva e o vento no rosto e, então sim, trepar devagar pelo caminho que leva ao topo do monte para penetrar nas muralhas do castelo e, a partir daí, ver o mundo como uma coisa vasta e quieta. Molhados e enregelados, regressaremos, depois, à casa quente, tomaremos um banho e, envolvidos num roupão, faremos um chá, abriremos preguiçosos braços e experimentaremos outros infinitos prazeres passíveis de serem praticados em locais assim (mais concretamente aquele que Fernando Pessoa estabeleceu nos versos “Ter um livro para ler/E não o fazer!/Ler é maçada,/Estudar é nada./O sol doira/Sem literatura”). Lá fora, o galo metálico permanecerá quieto sobre a torre da igreja e uma velha percutirá um adufe com a ponta dos dedos. Talvez seja domingo.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Uma mulher lendo no meio do domingo

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)

Deveria, talvez, escrever alguma coisa sobre essa espécie de Crónica de uma morte anunciada que é Os Dois Irmãos, o romance de Germano de Almeida com que tenho entretido as minhas viagens nos transportes públicos, mas estou tornando-me consciente de que não percebo nada de literatura e, por isso, entendo ser melhor deixar em paz André, João, Maria Joana e o desconcertante trio do tribunal reunido para julgar o crime narrado pelo Germano. Falarei, em vez disso, de como, estando lentamente abdicando da literatura e do conhecimento dos seus mistérios, me tenho debruçado, antes, sobre a observação da vida dos outros e do curioso jogo que pratico enquanto tento adivinhar se uma determinada pessoa com a qual me cruzo na rua é ou não cabo-verdiana - e se daria, eventualmente, uma boa história para esta crónica, habitualmente tão falha de assunto.

Adquiri, é verdade, a mania de que sou capaz de identificar um natural de Cabo Verde, convicção soberba e um pouco tola, a qual tento confirmar pondo-me à escuta do que diz (sendo caso disso), para ter a certeza de que o objecto da minha observação é efectivamente um falante de Crioulo. Sucede, às vezes, acabar por escutar alguém que, muito simplesmente, está a falar brasileiro, coisa que também não me espanta desde que, por volta de 1999, li um texto de um cronista brasileiro narrando como, ao procurar a origem da famosa bunda de Vera Cruz, acabou por descobrir Cabo Verde e os sinais exteriores de beleza que aí se escondem.

Quero, sendo assim, reconhecer que não sei se me equivoco ou não, mas, há dias, regressando a pé de uma reportagem, deparei, ao virar uma esquina, com uma mulher sentada num banquinho à inexistente sombra de uma árvore. Tenho quase a certeza de que era uma badia de extracção humilde, pela corpulência saudável que aparentava e pelo modo como tinha os brincos postos nas orelhas e o cabelo apartado em tranças. O que me comoveu deveras é que a mulher, encostada a uma dessas árvores mirradas que há na cidade e às quais ninguém presta atenção, estivesse lendo, presa do mistério e da magia que houvesse no livro que tinha entre as mãos, nele mergulhada enquanto, sendo domingo, os demais habitantes do bairro humilde se achavam reunidos no café, em pleno desfrute da cerveja e coçando as partes, ou não fosse o domingo dia sagrado para os adeptos do nada fazer.

Vi essa mulher e tive pena que não estivesse ela lendo também o livro do Germano Almeida, o que talvez pudesse ser assunto para uma conversa breve de solera di porta. Devia ter parado mesmo assim e ficado a papiar ma ela, mas não o fiz. Tal como sucede com as coisas da literatura, suponho que também não tenho grande vocação para entrar na vida dos outros.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Mandrake



Tenho perdido algum tempo com Mandrake, a série televisiva brasileira que tenta transpor o universo do famoso (e fabuloso) personagem de Rubem Fonseca para o pequeno ecrã, em exibição no canal 2. O programa, porém, é algo confrangedor e colide de frente com tudo aquilo que eu imaginei enquanto lia todos os livros do Rubem Fonseca em que apareça o advogado que fuma charutos e bebe vinho português. Se se exceptuarem as cenas com moças desnudas – e não estou a falar do traveca do episódio de terça-feira -, a série é realmente fraquinha. Já vi Marcos Palmeira, o actor que faz de Mandrake (demasiado bonito e demasiado jovem para ser Mandrake), a manejar uma bolinha anti-stress. Ora eu não imagino nada menos mandrakiano do que uma bolinha anti-stress. Irrito-me e acabo sempre por ir dormir antes do fim do episódio.

terça-feira, 20 de abril de 2010

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Bolañomania

As modas literárias, por outro lado, são quase tão estranhas quanto uma cabeça de impala empalhada numa montra. Depois de várias hesitações, cedo, enfim, à bolañomania e adquiro Os Detectives Selvagens, o qual foi publicado em Portugal em 2008 (antes da febre, portanto) e sem que quase ninguém tenha dado por ele. Os Detectives Selvagens não foi, pelos vistos, suficiente para espoletar o actual fenómeno gerado em torno dos livros de Bolaño e eu sinceramente não percebo. As primeiras duas linhas – “Fui convidado para fazer parte do realismo visceral. Evidentemente aceitei. Não houve cerimónia de iniciação. Antes assim” – foram suficientes para que acabasse tragado pelo livro, deliciado com as descobertas de García Madero, o poeta de dezassete anos que, convertido ao realismo visceral, acaba, julgo que por causa da adesão à seita poética, por beneficiar de um broche (e alguns beliscões) de Brígida, a diligente funcionária da Encruzilhada Veracruzana, precisamente quando o jovem Madero começava a inquietar-se com a vida: “O futuro não se apresenta muito brilhante, principalmente se continuo a faltar às aulas. No entanto, o que me preocupa de verdade é a minha educação sexual. Não posso passar a vida inteira a bater punhetas. (Também me preocupa a minha educação poética, mas é melhor não enfrentar mais do que um problema ao mesmo tempo.)”. Parece-me, na verdade, impossível não simpatizar com García Madero. Temo, evidentemente, pelo curso de Direito precocemente abandonado em favor do convívio com as irmãs Font.

Impala

Habituámo-nos a coisas estranhas. Todas as manhãs, entre o autocarro e o emprego, passava pela cabeça de impala empalhada e deitada na montra de uma loja de mobiliário vintage. Os olhos do ex-animal pareciam sempre muito vivazes, como se me olhassem. Essa impressão era, creio, reforçada por uma espécie de enorme verruga escura que a impala tinha no focinho. Na semana passada, porém, a loja fechou. Todas as manhãs volto a cabeça para a montra vazia e não vejo a cabeça da impala. Há ali uma estranha ausência. Sinto falta do olhar vivo daquele bicho morto.

domingo, 18 de abril de 2010

Donas-de-casa apressadas

Confrontado com as muitas ausências que o vulcão islandês causou no encontro de Literatura em Viagem, em Matosinhos, Carlos Vaz Marques, o moderador do painel dedicado ao sonho de África, propõe-me, na galhofa, que ocupe um dos lugares vagos na mesa. “Podes falar das tuas mulheres cabo-verdianas”, disse-me, referindo-se, obviamente, ao título dessa enorme insensatez que é o livro As Sereias do Mindelo. Como sou um pouco estúpido, ainda comecei a explicar que foi um erro aceitar o título que o editor escolheu, já que o livro não é propriamente sobre as mulheres de Cabo Verde, bem pelo contrário, mas que, sendo assim, parece não haver forma de escapar à ideia segundo a qual o Marmelo voltou a escrever sobre gajas e tal, como se não tivesse feito mais nada na puta da vida. Depois, a meio da explicação, ocorreu-me aquilo que devia ter sido óbvio desde o início; que o Carlos não leu o livro nem lhe interessa o que lá esteja escrito, e que apenas tinha que resolver o problema imediato de uma cadeira vazia na mesa que ele devia moderar. Fosse como fosse, eu tinha realmente que regressar a casa para tratar do jantar e cuidar das demais obrigações que estão implicitamente atribuídas às donas-de-casa.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O presidente no país de Kafka



A vida é uma infinita possibilidade, está certo, mas nem ao mais imaginativo funcionário do serviço de protocolo da Casa Civil tinha ocorrido uma coisa assim.

Certo dia, o presidente da república decidiu visitar um país estrangeiro. Nada indicava que não se trataria de uma normalíssima visita de cortesia, destinada a aprofundar os laços de amizade entre os povos e impulsionar algum eventual negócio. Encheu-se, por isso, um avião de empresários e de outros membros da sociedade civil, embora em parte nenhuma se avistasse o povo cuja amizade devia ser aprofundada. Adiante.

A visita fez-se, o país estrangeiro foi percorrido e louvado pelo presidente da república, que inclusivamente se entregou à maçada de visitar museus e escutar música erudita. Na hora de regressar, porém, o espaço aéreo do país estrangeiro foi encerrado à circulação de aeronaves, por força de uma suposta nuvem maligna e sulfurosa que vinha soprando sobre o continente a partir do vulcão de Eyjafjallajokull (nome não fictício).

Nas televisões, os jornalistas anunciavam que a comitiva presidencial se encontrava retida, presa, impossibilitada de regressar à pátria. Os dias, entretanto, passavam sem que a nuvem maligna se dissipasse e sem que a circulação aérea fosse reposta, até que, várias semanas depois, poucas pessoas eram ainda capazes de se recordarem do que ali tinham ido fazer. O próprio presidente tinha desaparecido. Não voltara a ser visto desde a tarde em que pronunciara a enigmática frase

- Maria, parece que vamos ter que procurar um banco de jardim.

Quando, enfim, alguém se lembrou de procurar o presidente na suite do hotel, não havia nenhum sinal da sua presença. Parecia, na verdade, que o mais alto magistrado se tinha evaporado no ar ou que, pior do que isso, se tinha transformado num insecto qualquer – talvez esse mesmo que acabou de ser pisado pelos repórteres que se estão atropelando para anunciar o trágico (e misterioso) desaparecimento.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sierva María

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 9 de Março de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)




A memória é um saco furado cheio de areia fina. Tenta-se carregá-lo às costas, um ano após outro, mas, quando se vai pelo que lá estava dentro, descobre-se que o saco se esvaziou e só guardou a ténue poeira que a areia deixou – apenas um resíduo mínimo de tudo quanto julgávamos ter guardado. Fui, hoje, procurar Sierva María de Todos los Ángeles, mas apenas encontrei a sua ossada diminuta e dispersa, o esqueleto de uma criança que deve ter sido extraordinariamente bela (ou assim a imagino).

Explico-me.

Del amor y otros demonios, o filme realizado pela costa-riquenha Hilda Hidalgo a partir do romance homónimo de Gabriel García Márquez, foi exibido na semana passada no Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias, na Colômbia, e, por causa da notícia da estreia, dei por mim a pensar que devo regressar o quanto antes aos livros de Gabo e que é idiota perder tempo lendo ninharias quando se pode, simplesmente, ler e reler Gabriel García Márquez. Devo ter lido Do Amor e Outros Demónios há vinte anos, mais ou menos, e depois esqueci-o quase completamente. Um crime.

De acordo com a sinopse do filme, Del amor y otros demonios narra a história de uma menina de 13 anos, Sierva María, que viveu em Cartagena das Índias durante a época colonial. Filha de marqueses, foi, porém, criada por escravos negros e manifestava a poética intenção de conhecer o sabor dos beijos. Mordida por um cão raivoso numa época em que a raiva era confundida com uma possessão demoníaca, acabou por ser internada num convento para ser exorcizada. Aí morreu. E foi aí que Gabriel García Márquez a descobriu no dia 26 de Outubro de 1949, durante a operação de exumação das criptas funerárias do antigo Convento de Santa Clara.

Como uma biblioteca decente é ainda mais difícil de carregar às costas do que um saco de areia que se vai esvaziando, não tenho comigo o romance de García Márquez para me ajudar a recordar o enredo de que não me lembro. Recorro, porém, à internet e encontro o PDF da oitava edição do romance na Editorial Sudamericana de Buenos Aires. Aí leio a epígrafe de Tomás de Aquino segundo a qual “os cabelos hão-de ressuscitar menos que as outras partes do corpo” – e começo a recordar.

Não me ocorre, porém, o enredo. Vívida como se a tivesse lido ontem, assalta-me, isso sim, a descrição do esqueleto de uma criança morta e da sua enorme cabeleira viva, “de uma intensa cor de cobre”, com vinte e dois metros e onze centímetros de comprimento. Percebo, então, que nunca a esqueci, que não cheguei a perder a imagem dessa “esplêndida” cabeleira agarrada ao crânio de uma menina morta, tal como García Márquez a descreve no prefácio do livro. Aí conta como, sendo jornalista num dia sem grandes notícias, foi mandado ver se a exumação das criptas de Santa Clara revelava alguma história que valesse a pena. E acomete-me uma estranha (e dupla) nostalgia: do tempo em que lia os livros de Gabo e em que acreditava que ser jornalista seria tão simples como encontrar histórias para contar.

sábado, 10 de abril de 2010

Espantalhos mal empalhados

Fernando Vallejo, o escritor colombiano, diz, numa entrevista ao suplemento Babelia do El País, algo como “não se escreve o que se quer, mas apenas o que se pode”. Ele quis que o seu mais recente romance, El don de la vida, fosse uma espécie de epitáfio literário, cheio de dor e tristeza, mas, depois, o livro encheu-se de vida, de mendigos, prostitutas e engraxadores de sapatos, do modo de falar de Medellin. Às vezes, bem sei, sucede-me precisamente o contrário: tento arrastar para o que escrevo as pessoas vivas que vêm comigo no autocarro, no metro, aqueles com quem me cruzo na rua, as palavras que dizem, os gestos que fazem, os instantes de melancolia captados em algum olhar, mas o resultado é invariavelmente torpe. Vejo, depois de escritas, cada uma dessas pessoas vivas e parecem-me espantalhos toscos, mal empalhados. É bem verdade, pois, que não se escreve o que se quer, mas apenas o que se pode - e, afinal, não posso quase nada.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Agência de viagens



No Diário Volúvel, Enrique Vila-Matas conta que foi a La Baule, na costa atlântica francesa, sobretudo para poder anotar uma frase que, para ser verdadeira, exigia essa deslocação. “A frase? É simples e autêntica: «Vim a La Baule para poder escrever que estou em La Baule»”. Trata-se, no fundo, de um impulso muito comum ao Homem contemporâneo e as agências de viagens perceberam-no muito bem. Se se exceptuarem as viagens de negócios (ou de trabalho) e as deslocações que fazemos para sítios onde já estivemos antes (mesmo que metaforicamente), a indústria turística é alimentada precisamente por gente que vai a um determinado sítio apenas com o intuito, porventura nada literário, de passar a ter uma fotografia atestando que ali esteve. Talvez essas pessoas não o reconheçam completamente, nem tenham, por isso, tanta graça, mas, no fundo, quando pedem para ser fotografadas diante do Taj Mahal, estão apenas a dizer, como Vila-Matas, que foram à Índia para poderem ser fotografadas ali e provarem a si mesmas e ao mundo que aí estiveram, mesmo que o país do Taj Mahal as enoje bestialmente.

Memórias

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)

Já o escrevi uma vez e repito: poucas vezes me senti tão livre como num pedaço de tarde que passei na Praia Grande de S. Vicente. Bastou-me, para tanto, ir a correr (literalmente) até à ponta do areal mais distante do sítio onde os banhistas se deixavam ficar (não sei como é agora, com a nova estrada que vai até à Baía das Gatas). Ali chegado, e aproveitando a camuflagem da marulhada que as ondas fazem quando se enrolam e viram espuma, gritei alto como nunca tinha gritado, a plenos pulmões, como costuma dizer-se; berrei de um modo completo e libertador, uma, duas, três vezes, até me sentir aliviado e limpo.

Penso nisto e creio que tinha estado remordendo aqueles gritos há não sei quantos anos, talvez desde sempre, falando baixo, calando quando devia dizer, recalcando sentimentos maus e obrigando-me àquele silêncio que se cultiva para evitar chatices maiores. Berrei, pois, e tê-lo feito ali, na ponta da Praia Grande, atou ainda mais apertadamente o inexplicável laço que me liga a Cabo Verde.

Há instantes assim, que nos tocam e comovem, que se gravam fundo na tábua cheia de lanhos, incisões e garatujas que vamos sendo desde que nos apresentamos ao mundo e ele começa a escrever-nos. Outro exemplo: eu já tinha imaginado a ilha de Santo Antão antes de lá ter ido, o que só aconteceu alguns dias depois dos berros na Praia Grande. Transformei a ilha em cenário literário de um conto que escrevi e, para tal, vi fotografias que encontrei na internet, alguma coisa, enfim, que me ajudasse a compor uma ilha imaginária mas minimamente assemelhada à ilha concreta e real que tinha lido num romance de Onésimo Silveira. Quando, por fim, cheguei a Santo Antão, não estava ainda preparado para o que encontrei, para tamanho delírio da geografia, tanta vertigem.

Na Ponta do Sol, diante do pequeno porto de barcos coloridos, fiz mesmo questão de sair da Hiace para pisar e fotografar o sítio exacto onde a peculiar personagem do meu conto passava os seus inventados dias. A viagem tinha que prosseguir tão depressa quanto possível, pois era ainda necessário regressar a Porto Novo a tempo de apanhar o último barco do dia para o Mindelo, mas, nos breves instantes que ali estive, senti como que um leve estremeção interior – exactamente como num simbólico e impossível regresso a casa.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Oblomov, Porto, 9h30 a.m.

Passei uma parte da noite a sonhar que escrevia vários posts para o blogue, o que, além de inquietante, é admirável e bizarro, uma vez que escrevia esses textos imitando o estilo de Enrique Vila-Matas. Acordei, por isso, um pouco estremunhado e exausto pela intensa e febril actividade intelectual mantida durante o sono. Enquanto tomava o café, a televisão do estabelecimento noticiava que se comemora hoje o Dia Mundial da Actividade Física, coisa que dificilmente me poderia contrariar mais, na medida em que, inspirado por Vila-Matas, eu aspirava a estar ainda na cama, imaginando os textos extraordinários que aqui poderia escrever e, porém, não fazendo absolutamente nada que não fosse preguiçar, exactamente como Oblomov, o jovem personagem de um romance de Ocharov de que Enrique fala numa entrada do seu Diário Volúvel. Oblomov, explica o escritor, limita-se a permanecer deitado num divã, tentando evitar problemas, propostas e obrigações. "Encolher os ombros é a sua expressão preferida. Pertence a esse tipo de pessoas que têm o hábito de repousar antes de se fatigarem". Entro no emprego invejando profundamente Oblomov e incapaz, na verdade, de encontrar qualquer utilidade aos problemas, preocupações, chatices e obrigações que aqui me esperam.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Literatura e bares



(*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 2 de Março de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Quinze bares históricos de Buenos Aires, na Argentina, oferecem aos clientes, desde a semana passada (*), a possibilidade de lerem as obras completas de Jorge Luis Borges. A iniciativa chama-se Yo leo en el bar e, de acordo com o ministro da cultura da região portenha, Hernán Lombardi, destina-se a cumprir a tarefa de difundir o hábito da leitura entre os que a não praticam.

Parece uma coisa encantadora, apesar de pouco convencional: um sujeito entra no bar para beber um mate, ou uma aguardente velha, e aparece-lhe O Aleph, agarra-o pelos colarinhos e transforma-o num leitor. Pode imaginar-se que o suposto cliente ficará horas lendo e relendo Ficções e que voltará no dia seguinte para retomar um livro que tenha deixado a meio na noite anterior. É, sim, uma ideia bonita e benévola, mesmo que, sob influência borgiana, o novo leitor acabe por mergulhar numa espiral de leitura obsessiva e passe a vida como que encerrado numa biblioteca infinita sem jamais sair do mesmo livro do escritor argentino.

Na apresentação da simpática iniciativa, Lombardi declarou que os bares são lugares tradicionais de leitura. Poderia invocar-se também o ameno e histórico convívio dos escritores com essas casas, plasmado, por exemplo, no enredo de Conversas n’A Catedral, de Mário Vargas Llosa, ou no título de um livro do brasileiro Paulinho Assunção, A Sagrada Blasfémia dos Bares. Na verdade, porém, nem sempre a literatura é acolhida tão amistosamente nos lugares onde se servem bebidas alcoólicas. Bastaria, para percebê-lo, ter estado, na semana passada, na apresentação de O Terceiro Reich, o mais recente romance do chileno Roberto Bolaño, lançado num bar de praia da Póvoa de Varzim.

À hora marcada para o início da cerimónia, o bar estava ainda tomado por uma multidão de jovens suburbanos poveiros assistindo a intervenções de karaoke. Os escritores, editores e jornalistas convidados para participarem nas Correntes d’Escritas foram chegando e misturando-se com a fauna local, agarrando também eles em cervejas e outros líquidos, mas a juventude poveira parecia pouco disponível para abandonar o palco e deixá-lo entregue à literatura (podem encontrar-se no P2 de ontem e no blogue Irmão Lúcia citações das pouco amistosas frases escutadas aos espadaúdos mancebos). Instantes antes de Francisco José Viegas, o editor do livro, subir ao estrado, ainda se escutava, aliás, uma imitação pouco feliz da canção Coisinha Sexy, de Ruth Marlene.

Não me pareceu mal, apesar de tudo, o convívio de Ruth Marlene com Roberto Bolaño. Quando o DJ Pedro Vieira, convidado pela editora Quetzal para animar a noite, teve que interromper a actuação mal se escutou a frase “não podemos ficar agora a noite toda a ouvir a vossa música”, os praticantes do karaoke puderam retomar o controlo territorial do palco. Dois mocetões e uma rapariga anafada cantaram e dançaram com coreografias estudadas, mas, nos lugares da frente, os escritores, jornalistas e editores já não arredaram pé. Tinha irrompido ali mesmo uma forma de literatura, algo surreal e grotesca, e empenhámo-nos, talvez por isso, a demonstrar que cromos também dançam.

domingo, 4 de abril de 2010

Enquanto a Maria lê Eça de Queirós

Enquanto escrevo, a Maria Miguel lê Eça e ri-se daquilo que vai lendo. Hoje mesmo confessou que jamais lhe tinha ocorrido rir-se com semelhante livro. Surpreendeu-se e simpatizou com o João da Ega (pelo menos enquanto não percebeu que o João da Ega era um escravocrata e um prudente defensor da estupidez feminina) e com o substrato revolucionário da Maria Eduarda. Recordo-me, pois, de ter lido Os Maias por obrigação e de só ter apreendido a ironia na escola, graças às lições da professora de Português (vi-a anteontem, ela não me reconheceu: estou a ficar velho). Bem sei que eu mesmo duvido, às vezes, da evolução da espécie, mas, caramba, os nossos filhos serem mais espertos e inteligente do que nós fomos havia de ser sinal bastante. Se os nossos filhos são capazes de se rirem com Eça de Queirós sem que ninguém os ensine, ainda o mundo não está completamente perdido.

Alegoria

Se a puta da montanha não se move, lá vai o Maomé ter que mexer o cu...
Logo pela manhã, um homem paramentado se apresentou na praia de Matosinhos para levar o senhor aos insensíveis que andavam a aproveitar o sol. Levava à ilharga duas menores de idade (nota: não há aqui a mais leve insinuação), as quais tocavam os sinos com certa indolência e pouca cerimónia, produzindo um som semelhante aos das vacas quando agitam os badalos. Só não achei tudo aquilo bestialmente bucólico porque o homem paramentado continuava lá, no meio do passeio, mostrando o crucificado a quem andasse por perto. Ninguém, todavia, quis beijar uma das sete chagas do ironman. A Páscoa, ainda assim, é uma quadra muito bonita, especialmente naquela parte em que o cabrito chega à mesa rodeado de batatinhas coradas.