sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O dia que nunca existiu


Não estou certo de que as mais criativas especialidades da física, incluindo a quântica e a das partículas subatómicas, sejam capazes de explicar tão estranho fenómeno, mas, desde que se tornou público que o governo da pequena república de Samoa decidiu saltar esta sexta-feira de modo a acertar o calendário, vários fenómenos estranhos começaram a suceder nos mais desencontrados sítios do mundo. Não sei como fizeram em Samoa, se ficaram simplesmente a dormir de quinta para sábado ou se encontraram outro modo de executar o pulo temporal que os transportou, de um segundo para o outro, do dia 29 de Dezembro para o dia 31, mas, entre nós, o inusitado acontecimento tem provocado os mais bizarros episódios. Vi um homem com o chapéu do avesso e outro que trazia as meias por fora dos sapatos, também estes trocados, o sapato direito no pé esquerdo e vice-versa. A água está a escorrer nos ralos em vórtices contrários ao sentido dos ponteiros dos relógios e os passarinhos passaram a voar misteriosamente, de papo para o ar, e parece que assobiando estranhas cantigas. Rui Rio foi visto a ler um livro (de Eugénio de Andrade; e parece que as letras da capa não estavam de pernas para o ar). Porcos pedalam excêntricas bicicletas. Ruben Focs não tem sido visto em Belo Horizonte e o escrivão Bartleby passou a fazer absolutamente nada oito horas e meia por dia, mesmo em alguns dias feriados. Um jornal desportivo, cujo nome não quero recordar-me, diz que o Benfica foi o campão nacional de futebol de um ano em que choveu de baixo para cima, como se o mundo estivesse todo de cabeça para baixo e um indivíduo com os pés bem assentes no chão não pudesse já saber o que é a verdade e a mentira entre tudo o que vê, lê e escuta, e, de certo modo, tivesse mesmo muita vontade de imitar os samoanos e saltar directamente de 2011 para um ano qualquer em que este país tivesse voltado a ser inteiro e limpo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Lendas e narrativas da Coreia do Norte


Segundo a TV norte-coreana, o falecimento de Kim Jong-Il foi assinalado pela abertura de uma fenda nas montanhas e até por um grupo de andorinhas que foram chorar a morte do querido líder nas árvores próximas do memorial que homenageia o monarca. Palavra de honra que já não ouvia nada tão divertido pelo menos desde que as virgens e coisas assim abençoaram os primeiros monarcas europeus e indicaram que eram eles os escolhidos de deus para reinar sobre os desgraçados.

Está bem, estava a esquecer-me das coisas da IURD e daquelas cenas maradas na Cova de Iria, mas vocês entendem o que eu quero dizer.

Jingle bells, jingle bells, já temos promoções*


Curta-metragem: desalentados com os escassos sinais da quadra festiva nas ruas do Porto, o Pai Natal e o seu antecessor, S. Nicolau, juntam-se no Mercado do Bolhão para carpir mágoas. Triunfante e ufano, o Gnomo das Promoções irrompe na Cafetaria Pintainho para se gabar

Fade in.
Exterior.
Porto, Avenida dos Aliados. Junto da estátua de Almeida Garrett há uma construção cónica de manequins de plástico (consta que é uma espécie de árvore de Natal). Dois dos manequins já estão tombados, desarticulados.
Corta para
Rua 31 de Janeiro, sobre as cabeças, duas fileiras tristes de luzinhas pindéricas em forma de pinheiro fazem as vezes de iluminações de Natal.
Corta para
Sucessão de montras da Baixa onde se lê “Promoções”, “-30%”, “-50%”, “Outlet”, “-70%”, “Descontos no interior”, “Promoção Especial de Natal”, “Natal com descontos especiais”, “Liquidação total”, “Ganhe 500 euros em produtos”, “-50%”, “Promoções”... Um grupo de imigrantes sul-americanos toca música dos Andes na Rua de Santa Catarina. Sobre a entrada do Teatro Sá da Bandeira, um enorme cartaz anuncia a revista Mostra a perna que a crise não é eterna.
Corta para
Interior
Mercado do Bolhão. Duas vendedeiras de frutas, com orelhas de coelho, perguntam:
Quer alguma coisa, filhinho?
No centro do mercado, há um presépio armado em redor da fonte. As floristas vendem raminhos de azevinho.
Quer alguma coisa, filhinho?
Corta para
A Cafetaria Pintainho tem a televisão ligada, num canto, a transmitir uma telenovela portuguesa. Noutro canto há um fio eléctrico do qual pendem lúgubres luzinhas coloridas. Por baixo, um minúsculo pinheiro de plástico, com dois palmos de altura e sem decoração. Ao balcão, cabisbaixo, está sentado o Pai Natal. Come, em silêncio, petingas fritas com arroz de feijão. Pede mais um copo de verde tinto Paisinho no momento em que entra o São Nicolau. Encosta o báculo à parede e senta-se também ao balcão. Cumprimenta o Pai Natal com uma palmadinha nas costas.
São Nicolau: Isso vai ou quê?
Pai Natal (bebendo o vinho de um trago só): Vai mal, vai mal.
São Nicolau: Então? Não é preciso beber para esquecer. Isto toca a todos, meu velho. Vê tu o caso do Menino Jesus, que já nem cá aparece. Mais cedo ou mais tarde, todos acabamos por nos transformar em velharias de bric-a-brac. Faz como eu, habitua-te. Há muito tempo que sou uma espécie de ficção do Natal do passado. Ainda desembarco todos os anos na Ribeira, mas agora já nem os jornais aparecem para fazer a fotolegenda do costume.
Pai Natal: Falas de papo cheio. Continuas a ser o taumaturgo, o santo de Bari, o padroeiro da Rússia, da Noruega, da Grécia e dos guardas-nocturnos da Arménia. A mim tiram-me o Natal e fico sem nada.
São Nicolau: Sempre és o santo padroeiro da Coca-Cola, homem!
Pai Natal: Mas ainda sou novo, não pensei que me substituíssem tão depressa.
São Nicolau: Somos sempre novos enquanto os outros não nos transformam em velhos.
Pai Natal: Então? O filósofo não era Santo Agostinho?
São Nicolau: Era. Isto um santo safa-se como pode. Hoje faz milagres, amanhã distribui presentes e para a semana, se for preciso, ensina Filosofia. Um tipo habitua-se a tudo.
Pai Natal: Pois eu ainda não me habituei a isto. Já viste como está a cidade? Vai-se de uma ponta à outra de Santa Catarina e só se vêem promoções, liquidações, descontos... A maior parte das lojas nem tem decorações de Natal, só autocolantes com percentagens. Música dos Andes em vez do Jingle Bells. Só vi um Pai Natal insuflável, daqueles dos chineses, com um ar aparvalhado, e mesmo assim ninguém lhe ligava nenhuma.
São Nicolau: É da crise... Este ano o Gnomo das Promoções chegou mais cedo.
Pai Natal: Cabrãozinho...
Nisto, o Gnomo das Promoções materializa-se em cima do balcão, com um grande sorriso. Faz duas ou três cabriolas e fica a pairar no ar diante do Pai Natal e do S. Nicolau.
Gnomo das Promoções: Está tudo bem, velhotes?
Pai Natal: Desanda, morcão. Arreda belzebu, fideputa, cabrão.
Gnomo das Promoções: Que mau humor! Então? É Natal! (ri-se com uma gargalhada escarninha)
Pai Natal (resmungando): É, mas não parece.
Gnomo das Promoções: Não tenho culpa, é a crise. Ainda há petingas? Estou com uma fome de lobo.
São Nicolau: Só bolinhos de bacalhau.
Gnomo das Promoções: Seja. Bolinhos de bacalhau. Sempre fico dentro do espírito da quadra.
Pai Natal: Se vens para aqui gozar, ouve o que eu te digo e põe-te a mexer antes que me chegue a mostarda ao nariz.
Gnomo das Promoções: Ui, que rezingões que nós estamos. Somos amigos ou não somos?
Pai Natal: Eu não sou amigo de gentinha como tu. T’arrenego, concorrência desleal! Agiota, maldito, avezimau, tinhoso!
Gnomo das Promoções: Eu não tenho culpa se a vida te corre mal, ó velhote. Não inventei as compras, nem fui eu quem transformou o Natal nesta coisa de dar presentes e lembrancinhas. Só cheguei mais cedo para ver se te dava uma mãozinha à festa, para ver se as pessoas podem ao menos fazer de conta que está tudo bem e que é Natal como de costume. É assim que agradeces?
Pai Natal: Obrigadinho, ó Freitas.
Gnomo das Promoções: Já não está cá quem falou. Se estás mal, muda-te. (erguendo o dedo, professoral) Podes muito bem olhar para o mercado de Língua Portuguesa... Angola, Moçambique, a Guiné, São Tomé e Cabo Verde, e não só, o Brasil também tem uma grande necessidade de mão-de-obra qualificada ao nível de pais natal.
São Nicolau: Onde é que eu já ouvi isso?
Gnomo das Promoções: Deve ter sido o Duende da Emigração. Ele anda aí outra vez. Para Angola rapidamente e em força!
Pai Natal: Está bonito. Já só falta chover aqui dentro.
São Nicolau: Já faltou mais. As obras no mercado nunca mais começam.
Gnomo das Promoções: Tenho de trazer comigo, um dia destes, a Fada da Construção Civil.
Pai Natal: Ou isso ou organizar-se uma corrida de mercados antigos.
Fade out. A câmara sobe e afasta-se, em traveling, sobre o Bolhão e, depois, pela cidade mal iluminada. Ouve-se em fundo uma canção tradicional:

Jingle bells, jingle bells!
É Natal à força.
O papá e a mamã
Abrem os cordões à bolsa.

Jingle bells, jingle bells!
Já temos promoções;
Estamos mal, estamos mal:
Não há bolsa para os cordões.

FIM


*O texto aqui reproduzido foi publicado um dia destes numa página obnóxia de um jornal que quase ninguém leu, por ser natal e assim

José Rodrigues Miguéis*



A imortalidade é um acidente difícil de gerir. Ocorre-me isto porque, só nos últimos dias, perdemos, os vivos, a companhia de Cesária Évora, de Vaclav Havel, de Christopher Hitchens, do carnavalesco Joãosinho Trinta ou de Kim Jong-il, para falar só naqueles que tiveram direito a notícia nos jornais que leio. É provável que, por bons ou maus motivos, alguns deles continuem a ser recordados nos próximos dez ou vinte anos. Talvez sejam ainda lidos, escutados, amados e respeitados dentro de um século ou dois. Sodad há-de ser, por muito tempo, uma espécie de hino de Cabo Verde, e Havel será sempre o primeiro presidente da Checoslováquia eleito após o fim das ditaduras do Leste europeu. Na Rocinha, Trinta não deixará de ser aquele que conquistou os títulos do Carnaval do Rio para os Acadêmicos. E a memória de Jong-il durará enquanto persistir a monarquia comunista da Coreia do Norte.

E Hitchens? Até quando continuará a ser lido e admirado?

A pergunta pode parecer despropositada, mas vem-me em boa hora. Permite-me, por exemplo, escrever uma crónica em que tenho matutado com certa frequência; uma crónica que recorde José Rodrigues Miguéis, o escritor português falecido em Nova Iorque, em 1980, com o qual a eternidade não tem sido benévola. Miguéis foi muito popular, e justamente, da década de 1950 em diante, e ainda o li nos anos 1980: os contos de Paços Confusos, a peça de teatro O Passageiro do Expresso e o extraordinário O pão não cai do céu, aparentado, se se quiser, com o Levantado do Chão de Saramago – um retrato contundente e trágico do país que era Portugal durante o Estado Novo, assolado pela pobreza, pela fome e pela tortura. Hoje, porém, José Rodrigues Miguéis está completamente arredado das livrarias e das leituras do grande público, remetido, quando muito, ao reduto estreito das faculdades de Letras e ao bolor dos alfarrabistas. Foi, por isso, com jubilosa alegria que, há dias, reencontrei os livros de Miguéis expostos ao ar livre, tomando a brisa que corria pela alfacinha Rua Anchieta, onde, num sábado à tarde, se tinha montado uma feirinha de livros velhos e amarelecidos. Tomado de um impulso irreprimível, fiz-me dono de um exemplar de Léah e Outras Histórias, de 1958, na sexta edição que a Estampa fez em 1981, e de Uma Aventura Inquietante, também de 1958 e reeditado na década de 1980.

Custa-me, ainda assim, que, mesmo na minha geração, muito pouca gente tenha lido frases como “eras quase da minha estatura, rosada, fresca e reluzente como um grande fruto”, talvez porque o realismo passou de moda e saber de José Rodrigues Miguéis se transformou numa bizarria excêntrica, partilhada por gente igualmente deslocada e extravagante, que não confunde os melhores zeladores da língua portuguesa com a terra rasa e estéril que por aí se vende como se fosse literatura. Não se lê Miguéis (como não se lêem Sena, Nemésio ou Gomes Ferreira) e, pior do que isso, há ainda quem queira regressar ao antigamente, quando Portugal se parecia com a Coreia do Norte e os homens quase não tinham voz.


*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 20 de Dezembro de 2011

A imagem acima, roubada à Brown University (tenho a certeza de que o meu amigo Onésimo fará o favor de me absolver), inclui um esboço da cena culminante do conto O Natal do Dr. Crosby, que ontem, providencialmente, terminei de ler.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Então feliz coiso e tal, como eles dizem

Não sou um indivíduo natalício. A quadra, sendo o que é, festejando o que festeja, dificilmente me poderia dizer menos. Mais facilmente teria motivos para celebrar a data do nascimento do Madjer (15 de Fevereiro), do Vinicius de Moraes (19 de Outubro), da Beyoncé (4 de Setembro) ou do Julio Cortázar (26 de Agosto), cujos mistérios nunca cessaram de me surpreender, ou um dia em que, sei lá, tenha sido particularmente feliz, se fosse capaz de me lembrar de datas (sou capaz de me lembrar de datas, mas não interessa nada).
Hoje a minha filha perguntou-me se gosto mais de dar ou de receber presentes. Não é uma pergunta fácil, mas a resposta saiu-me muito facilmente. Gosto mais de dar. É o único motivo pelo qual tenho algum respeito pela merda da data que amanhã e depois se comemora com grandes comilanças (é o meu segundo motivo para guardar respeito à festa; tenho o estômago em grande consideração). Gosto de ver a felicidade dos outros quando recebem prendas. Não fosse isso e mais depressa passaria estes dois dias debaixo de uma manta, tentando esquecer a todo o custo a merda que há lá fora.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

As melhores leituras de um ano inteiro (top15, corrigido)



1.D. Quixote de la Mancha, de Miguel Cervantes (traduzido por Aquilino Ribeiro)

2.O Dois Amigos, de Kirmen Uribe

3.A Pastoral Americana, de Philip Roth

4.Os anéis de Saturno, de W. G. Sebald

5.Ulisses, de James Joyce (traduzido por Antônio Houaiss)

6. Uma Viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares

7.A Festa do Chibo, de Mário Vargas Llosa

8.Ferdydurke, de Witold Gombrowicz

9.Dublinesca, de Enrique Vila-Matas

10.À espera no centeio, de J. D. Salinger

11.O Retorno, de Dulce Maria Cardoso

12.Os Pretos de Pousaflores, de Aida Gomes

13.O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe

14.O olho de Herzog, de João Paulo Borges Coelho

15.El faro por dentro, Menchu Gutiérrez

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Livra-te deles, pequena (ou: bem sei, já fazia falta que eu escrevesse alguma coisa sobre a Rihana)



Circulava há pouco — no éter, por aí — uma notícia segundo a qual Jon Bon Jovi tinha morrido. Não sei se o óbito do Querido Chunga terá sido confirmado, mas, em todo o caso, inquietou-me um pouco mais o tweet segundo o qual a jovem Rihana vomitou durante o concerto que ocorreu em Lisboa, um dia destes. A despeito de o lugar poder inspirar estas manifestações de profundo asco (parece que até apareceu no hotel da cantora alguém, algum benfiquista, a proferir bacoradas de cariz racial), coisas como vomitar durante concertos costumam ser, infelizmente, o primeiro passo para que um determinado indivíduo faleça precocemente. No caso de Rihana, trata-se de um destino triste e que naturalmente se lamenta, quanto mais não seja pelo facto de estar em causa uma moça harmoniosamente concebida e, ainda por cima, dotada de alguns talentos vocais. Eu gosto muito da Rihana, dos olhos verdes dela e no narizinho de barraca, do quadril antilhano e de uma certa pose dengosa, motivo pelo qual lamento sinceramente os ínvios caminhos em que ela se enleie, convivendo, pelos vistos amenamente, com tipos que (digamos assim) cantam como se tivessem engolido um daqueles aparelhos que os traqueostomizados usam para falar. Livra-te deles, pequena. Livra-te deles.

Umas tangerinas muito pequeninas

Comi hoje umas tangerinas muito engraçadas, pouco maiores do que berlindes. Cresceram numa árvore do Souto do Rio, num quintal voltado para o Douro, e tinham um sabor antigo e honesto – bom. Eram frutos de outros frios, como que saídos de uma máquina do tempo sem passar pela peneira das normas comunitárias e pelos fiscais da ASAE. Achei aquelas tangerinas parecidas com um velhote que, pouco depois, vi mastigando um pão na estação de Francos do metropolitano. Era muito magro e pequeno, quase não tinha dentes, e só reparei nele quando uma moça que comprava bilhetes perguntou a alguém no outro lado da linha se, por acaso, não tinha vinte cêntimos. O velho corporizou-se, então, e perguntou: “Queres vinte cêntimos?”. Ela disse que sim. Ele tirou as moedas do bolso e deu-lhas.

Um eterno retorno*



Pertence provavelmente ao domínio das belas coincidências a circunstância de o ano literário português ter principiado e terminado com dois romances cujas narrativas exploram o drama daqueles que, vivendo em Angola aquando da independência do país, se viram obrigados a embarcar para Portugal. Os Pretos de Pousaflores, de Aida Gomes, e O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, têm méritos literários indiscutíveis e tratam ambos de pessoas desenraizadas e estigmatizadas, afastadas das suas referências e, por isso, transplantadas numa terra estranha e pobre, retrógrada e hostil, e forçadas a ganhar aqui novas raízes.

Mais recente e tendo sido objecto de maior atenção mediática, O Retorno tem uma trama já relativamente conhecida, na qual milhares de ex-colonos brancos imediatamente se reviram. Rui, um adolescente louro de 14 anos, nascido em Angola de pais portugueses, vê-se retornado a um país onde nunca tinha estado, e hospedado num hotel de luxo do Estoril, num exílio simultaneamente dourado e miserável. Inadaptado e objecto da estúpida xenofobia da época, Rui conta uma história tocante e provavelmente não muito diferente de inúmeras outras.

Os Pretos de Pousaflores constitui, por isso, uma ficção ainda mais radical, na medida em que ao purgatório comum a todos os “retornados” se junta o facto de estarmos perante três jovens crioulos, filhos de Silvério, um português que vivia em Angola há quarenta anos quando, em 1975, achou mais prudente regressar à pátria. Narrado de modo polifónico, o romance de estreia de Aida Gomes leva-nos para dentro do labirinto individual de cada um dos filhos de Silvério (Justino, Belmira e Ercília), confrontados com a vida mesquinha e paupérrima, amarga, de uma pequena aldeia do interior português, e com um racismo ainda mais selvagem e visceral. Não contam, sequer, com o amparo de outros na mesma condição, nem com o rótulo oficial dos “retornados” e com a caridade que lhe correspondia. Sendo tão portugueses como o louro Rui, são, porém, apenas “pretos”, quase alienígenas para os vizinhos e para a tia que os acolhe de má catadura.

De algum modo, Justina, Belmira e Ercília, mas também Rui, parecem-se com os cegos de Saramago avançando pela cidade inóspita agarrados uns aos outros para não se perderem, mas perdendo-se ainda assim. Talvez, contudo, se assemelhem sobretudo a nós, portugueses deste início de século XXI, enredados também na condição de estranhos estrangeiros, ou de párias de estimação, expulsos da realidade que tínhamos e atirados para um país sem esperança, sem emprego e sem remédio que não seja empobrecer para viver amanhã pior do que ontem. Somos oficialmente aconselhados, outra vez, a sair e a procurar uma vida longe do nosso chão, onde os nossos filhos possam sonhar com uma vida melhor do que a nossa. Alguns de nós partirão atrás das novas Áfricas e, um dia, fustigados pela intolerância em que o Homem frequentemente se amesquinha, talvez tenham que regressar outra vez – e começar de novo.


*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 13 de Dezembro de 2011

sábado, 17 de dezembro de 2011

C'ma vida tem um sô vida



Cesária Évora 08/1941 - 12/2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Impulso cívico e consciência de classe

Há-de, certamente, haver um teste psicotécnico que inclua uma situação parecida com aquela que me proponho relatar. E, se não há, devia haver.

Pois imagine-se que um caralhinho qualquer vai a correr por uma vereda, entre árvores, e que, lá de cima, assiste a um assalto que se está praticando na via pública, vários metros abaixo. A primeira coisa que lhe ocorre é um impulso cívico: fazer alguma coisa para deter o meliante. O caralhinho, porém, é um pouco cobarde, não tem cabedal para levar dois estalos e, além disso, o larápio está ao fundo de uma vereda muito inclinada.

O caralhinho, estando a correr, também não tem consigo um telemóvel para alertar a polícia. Ocorre-lhe, ainda assim, a possibilidade de encontrar, ali perto, um agente da autoridade, ao qual alertará para o facto de o vidro de um BMW X não sei quê ter sido partido por um indivíduo assim e assim, o qual se apossou de um saco que estava no interior da viatura.

Ao fim de meia hora correndo, o caralhinho não encontra, porém, nenhum agente da autoridade, uma vez que a dita autoridade havia de estar em peso cuidando da boa ordem da demolição de um bairro de desgraçados para que lá seja construído um bairro de gente rica, no qual, daqui a alguns anos, o proprietário do BMW X não sei quê pode vir a morar, contemplando o rio aos seus pés e já esquecido da merda da saca e do vidro que lhe partiram, pois haverá sempre quem, por fraca retribuição, produza o suficiente para pagar a porra de um vidro partido no carro do patrão.

O caralhinho, correndo, resolve mas é ir tomar banho e esquecer o assalto. Sabe que não é um exemplo de consciência cívica, mas nada lhe garante que o dono do BMW X coiso não seja um cabrão capitalista que nem sequer saiba o que seja ter uma consciência.

Não há-de ser nada. Está tudo bem. Há, afinal, animais muito merdosos que conseguem sobreviver na selva.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Sócrates bom*



Tonto como sou, ando há várias semanas a perder tempo com o infeliz assunto da irresponsabilidade contumaz dos dirigentes que temos. Hoje, porém, voltou a ocorrer-me que esta teimosia é reveladora de uma enorme insensatez; que, apesar do esforço de reflexão, análise e crítica realizado por várias gerações de pessoas muito melhores do que eu, não consta que o país alguma vez tenha despendido algum esforço para tentar ser melhor do que é. Quando muito, carrega na maquilhagem, faz uma plástica às mamas e vai abanar o traseiro para os salões, na esperança de engatar algum velho rico que o sustente.

Muitíssimo cansado, pois, de todos os Sócrates maus que têm governado esta choldra – desde aqueles que realmente se chamam Sócrates aos que prosaicamente se chamam Barroso ou Coelho, passando pelos simples Silva que fazem gala em não saber hoje aquilo que fingiam conhecer profundamente há 20 anos –, apetece-me hoje homenagear aqueles que foram os Sócrates bons. Quero recordar, desde logo, o filósofo ateniense que, segundo a lenda, ensinava aqueles que o escutavam a usar a própria cabeça – e que, por isso, se tornou incómodo ao ponto de ter sido condenado à morte pelos responsáveis políticos da época em que viveu –, mas também o ex-futebolista brasileiro falecido este fim-de-semana.

Tenho, felizmente, idade suficiente para ter visto jogar Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira naquele Mundial de 1982 que a Itália ganhou sem saber ler nem escrever. Foi há muito tempo e, por isso, vi tudo a preto-e-branco na pequena televisão Grundig que tínhamos em cima do frigorífico. Belmiro, o meu primo carioca que, então, tinha vindo conhecer a terra dos avós, preferia o Zico e o Falcão e trazia uma camisola oficial do escrete (agora que penso nisso, acho que foi por causa da camisola amarela do Belmiro que eu fiquei a saber qual era a cor do equipamento do Brasil; por outro lado o meu primo jogava tão mal à bola que conseguiu destruir o bondoso preconceito segundo o qual todos os brasileiros eram futebolistas predestinados). Eu nunca mais me esqueci do Sócrates, um magricela barbudo que se movimentava no campo como se vivesse numa dimensão paralela do tempo: os outros afadigavam-se e corriam, mas Sócrates parecia ter sempre tempo para tudo, como se cada instante durasse, para ele, nove ou dez segundos. Esticava o tempo de uma forma quase insuportável e, depois, com uma elegância etérea, fazia um passe exacto e perfeito, de puro milagre, que inventava um espaço que não parecia existir antes.

As muitas biografias que ontem o recordavam coincidiam em sublinhar que Sócrates era culto e inteligente, cívica e politicamente empenhado, e que jogava sempre de cabeça erguida. Era um criativo cuja capacidade de invenção residia na capacidade de simplificar as coisas. “Dava poucos toques na bola, não desperdiçava nenhum”, escreveu o Filipe Escobar de Lima na página 23 do PÚBLICO. Dito assim, parece o protótipo do governante ideal, seja de um país ou de uma casa de família. Mas os políticos nunca aprendem nada com o futebol.


*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 6 de Dezembro de 2011

domingo, 11 de dezembro de 2011

Exercício prático para voltarmos a ser pobrezinhos

Tendemos naturalmente, os realistas, a ser exagerados e a ver catástrofes onde elas, na verdade, não existem. A austeridade, por exemplo — pode acarretar iniludíveis vantagens sociais que não se enxergam imediatamente, mas que estão lá, mergulhadas na escuridão. Foi o que me aconteceu ontem, quando uma avaria em várias subestações da EDP me deixou a viver (quase) na Idade Média durante um par de horas. No princípio não víamos a ponta de um corno, a Maria protestava que não podiam tomar banho e mais não sei o quê, mas, daí a nada, tínhamos outra vez música e o jantar na mesa iluminada por uma vela destinada a disfarçar o odor do tabaco. Graças ao fogão a gás, ao iBook com a bateria carregada e a um iPhone convidado, muitíssimo jeitoso para alumiar o esturgido da feijoada, jantámos com alguma normalidade e, depois, enquanto esperávamos que a electricidade regressasse para lavar a louça, jogámos um daqueles jogos sociais que me aborrecem enormemente (ganho sempre). No fim, o Afonso ainda desenhou um retrato espectacular da irmã, mas aí já tínhamos outra vez luz em casa e havíamos voltado a viver à grande, como se não estivéssemos no país do Passos Coelho e do Vítor Gaspar. Mas a verdade é que, ficou provado, se podemos perfeitamente viver (quase) na Idade Média, é também possível voltarmos a ser pobrezinhos como no tempo da outra senhora. Não é a melhor coisa do mundo e não será fácil explicar ao Afonso que aquilo de desenhar retratos não é uma actividade muito promissora para pelintras como nós, mas, que diabo!, mais tarde ou mais cedo ele também vai ter que perceber que a Scarlett Johansson não chega para todos.

Grandes baluartes da revolução bolchevique


— Três é um número de sorte — disse Mandelstam, soltando o laço enquanto lambia o resto do vinho tinto dos lábios. Depois, lançou-se num solilóquio constrangido (um que eu já ouvira anteriormente) sobre como a revolução bolchevique tivera consequências sexuais, como sociais e políticas. (...) — Na década de 20 — disse ele à nossa convidada —, os ménage a trois começaram a ser amplamente praticados nos círculos intelectuais. (...) Falo pela minha mulher, não falo, Nadenka?, quando digo que consideramos um casamento a três um baluarte que nenhum intruso consegue conquistar.

Em O Epigrama de Estaline, de Robert Littel

Não basta fazê-las enormes e tapar as janelas do Siza


Creio que não andarei muito longe da verdade se afirmar, com a natural insensatez que em mim se abriga, que o aspecto mais notável das fotografias de Thomas Struth expostas em Serralves é o tamanho em que estão impressas (isso e a capacidade de Struth para se levantar de madrugada a tempo de conseguir fotografar as cidades ainda sem gente). Impressionou-me, ainda assim, o paradoxo e a confusão mental que se pode estabelecer durante a visualização, numa sala vazia, das enormes fotografias em que aparecem as salas de grandes museus cheias de gente a olhar para quadros famosos, bem como o cuidado dos responsáveis por Serralves em correr os estores das janelas do museu. Muito sinceramente, qualquer das imagens do parque que pudessem ver-se pelos janelões do Siza seria muito mais espectacular do que as fotografias gigantes do Struth.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O grito da menina vestida de verde



As fotografias não têm som, mas a imagem que Massoud Hossaini ontem captou em Cabul, no Afeganistão, após um ataque bombista, parece capaz de nos obrigar a levar as mãos aos ouvidos para tentar abafar o grito daquela menina vestida de verde. Está rodeada dos corpos semeados pela explosão, sangra de uma ferida na cabeça, as calças sujas de sangue, as mãos sujas de sangue e terra – e as mãos dela gritam quase tanto como a boca aberta num ricto de horror. Em outra imagem da mesma sequência, a menina continua gritando, na mesma posição, enquanto uma mulher de preto fala ao telemóvel, como se a dor e o absurdo a tivessem transformado numa estátua imóvel e dura, numa estranha obra de arte. Olha-se para a menina de verde e é como ver o Grito de Edvard Munch elevado ao paroxismo do mais hiperbólico terror, o Grito entre corpos deixados em posições desarmadas e estúpidas, como bonecos devastados pela ira de uma criança. Não se ouve o grito, mas escuta-se distintamente o grito. E quem leva as mãos aos ouvidos somos nós.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O "excedente orçamental" ainda nos vai sair muito caro

Tal como, há não muito tempo, José Sócrates tinha feito com o fundo de pensões da Portugal Telecom, Passos Coelho executou o seu primeiro brilharete orçamental graças à transferência para o Estado dos fundos de pensões da banca. Mais interessante, ainda assim, do que discutir se o Governo tinha mesmo necessidade de nos romper os bolsos das calças quando cá veio meter a manápula, talvez fosse importante perceber que tipo de garantias o Estado/Governo deu aos senhores banqueiros, os quais, tanto quanto se sabe, não cultivam o hábito de entregar as suas ricas pataquinhas a terceiros por dá cá aquela palha. O que lhes deu, pois, o Governo em troca? Ainda não se sabe. Mas ou muito me engano ou o excedente de dois mil milhões de euros nas contas públicas deste ano não serão propriamente uma boa notícia para os direitos de quem trabalha.

A infantilização em curso*



Tenho andado a ler um livro muito bizarro e louco, Ferdydurke, que o polaco Witold Gombrowicz publicou em 1937. O romance é tão absurdo, tão irreal e desconcertante, que, tolo como sou, dei por mim a achar que aquela narrativa celerada se parece bestialmente com a realidade.

O enredo do romance conta como Józio, um homem de trinta anos, é submetido a um rigoroso (e paródico) processo de infantilização, de modo a que volte a ser um adolescente inocente e ingénuo. É encaminhado para a inenarrável escola do professor Piórkowski, especializada em educar uma juventude inquieta e disparatada, que resiste ao ensino proferindo palavrões muito selvagens. Submetido ao tutu, Józio mergulha, de facto, numa espécie de segunda infância, radical e insana, comportando-se de forma totalmente alheia à normalidade. De resto, quase tudo no romance acontece ao arrepio do trato comum das coisas do mundo – um pouco como se os ministros de um país mergulhado na crise e na austeridade se deslocassem em automóveis topo-de-gama para os locais onde haverão de comentar o aumento do desemprego e anunciar novos cortes nas prestações sociais.

A realidade, por muito disparatada que pareça às vezes, não tem evidentemente espaço para episódios tão absurdos, nem nos adestra, apesar de tudo, para sermos adultos infantilizados e, por isso, dóceis e receptivos a quase todos os sacrifícios e ordens que os tutores nos queiram impor. Não somos, por exemplo, inocentes e ingénuos ao ponto de acreditar que seja possível perder direitos adquiridos sem mexer um dedo; ou de nos ser possível conceber que um só deputado possa votar pelos outros todos, quando a razão nos diz que cada indivíduo eleito para representar o povo vota sempre de acordo com a sua consciência individual e salvaguardando os interesses daqueles que o elegeram.

Ferdydurke é tão disparatado que só um espírito muito perturbado (como o deste vosso criado) pode chegar a vislumbrar alguma relação entre o puro destrambelhamento da ficção e a exemplar organização do real. Qualquer pessoa normal entende perfeitamente, por exemplo, que aquela sociedade infantilizada não tem nada a ver com a Polónia real e concreta que, dois anos depois, havia de ser invadida e facilmente ocupada pela Wehrmacht de Hitler e, depois, por Moscovo.

Vivemos, felizmente, num tempo de gente madura e com sólida formação cívica, no qual dificilmente se encontra espaço para o absurdo. Entre nós, bem entendido, as coisas acontecem de acordo com regras precisas e indisputáveis, sem a intervenção de histerismo aleatórios. Aniquilam-se a agricultura e as pescas quando isso faz sentido e lançam-se projectos mirabolantes, tipo expos e assim, quando é o melhor para todos. Por isso, quando Mietus, um dos personagens do livro, se lança em busca de um camponês que o redima, não me ocorreu, por um instante sequer, o programa de repovoamento agrário que o nosso bondoso presidente tão consequentemente defende.

A literatura, como se sabe, está cheia de ideias muito insensatas.


*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 29 de Novembro de 2011

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Como transformar um mono numa mulher com alguma graça


Ecumenicamente sensível à temática da violência sobre os animais, e consternado com os maus tratos que alguns humanos se auto-infligem, sempre me inquietou um pouco a saúde geral desse ser conhecido pela designação de Lady Gaga, frequentemente exposto em público com sinais evidentes de ter sido submetido a sevícias estéticas muito selvagens. A fotografia que aqui se exibe, hoje publicada no El País, da autoria de Annie Leibovitz, demonstra, ainda assim, que, por baixo daquele fantoche existe ainda uma mulher – e uma mulher visualmente interessante, ainda por cima, bem servida de proporções, ágil e elástica, aparentemente firme. Na fotografia também aparece Tony Bennet, o qual até poderia constituir uma potencial ameaça à integridade da criatura no seu estado natural. Mas, com a idade que tem, Bennet já não deve ser capaz de fazer mal a uma mosca.