Terça-feira, 31 de Maio de 2011

Uma avenida ladrilhada com pedrinhas de brihantes

A sempre benemérita câmara municipal portuense escreveu-me. Encontrei aquela espécie de postalinho, um dia destes, na caixa do correio, comovendo-me um pouco com as queriduchas explicações do Gabinete de Comunicação e Propaganda. Tão amorosos! Informavam-me de que as obras de requalificação na Avenida da Boavista estão quase concluídas, acrescentando, mui carinhosamente, que só vão plantar as árvores e pintar as pistas para as bicicletas depois do espectacular grande prémio automóvel, para que as malvadas das carripanas não prejudiquem uma obra toda ela voltada para a fruição cidadã, para o bem-estar da população e para a alta recreação dos portuenses.

Como disse, comovi-me um pouco com as explicações e cheguei a arrepiar-me um bocadinho com a preocupação demonstrada pela ternurenta edilidade. Desfazem-se em simpatia, é o que é. Só naquele bocado da avenida, entre o mar e Rua de António Aroso, a autarquia já fez obras de alto lá com elas por duas vezes no espaço de quatro anos — e tudo para a nossa comodidade. Será um bocadinho verdade que, mais acima, na zona entre a VCI e a Rua de João Grave, o passeio reservado aos peões parece um caminho de cabras, com uma vala no meio e pedaços irregulares de cimento espalhados ao calhas, mas, muito francamente, ninguém com um mínimo de bom gosto vai andar a pé para a Avenida da Boavista. Para além do mais, tenho a certeza absoluta de que, no dia em que passar por ali um carro de corrida, o doutor Rio mandará imediatamente ladrilhar o passeio em causa com pedrinhas de brilhantes, como na velha canção, para mostrar ao povo como é que se faz para este país andar para a frente.

Podia ser um belo passatempo (se eu ainda tivesse vida social)

Agora que a Organização Mundial de Saúde identificou as radiações dos telemóveis como possíveis agentes cancerígenos, espero, evidentemente, que as autoridades sanitárias legislem em conformidade e que a ASAE passe a perseguir e multar todos os utilizadores do maléfico aparelho. Eu, pela parte que me toca, pretendo tossir imenso e abanar a mão diante do nariz de cada vez que alguém atender uma chamada à minha frente ou estiver a ler uma SMS. Bandalhos! É que não respeitam ninguém.

Sem lugar para o sonho ou, sequer, para o wishful thinking

De acordo com o noticiário da hora de almoço da RTP1, um comício do PP num sítio qualquer contou ontem com a presença agitada de um pequeno morcego que esvoaçou de um lado para o outro, rente ao tecto, mas não incomodou, afinal, o discurso de Paulo Portas. Se algum optimista tivesse, pois, pensado que o pequeno mamífero voador ia, finalmente, lavar a honra da espécie e, por uma vez, “chupar o sangue fresco da manada” certa, o bicho do comício acabou por se revelar tão previsível como os vampiros da velha canção. O morcego limitou-se, afinal, a comparecer à festa dos seus - aqueles "mordomos do universo todo" que, de ar sisudo, com pés de veludo e a bênção do FMI, já estão batendo as asas pela noite calada.

Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

O Prémio Camões*


A primeira coisa que o meu filho disse quando chegou a casa na sexta-feira foi: “Com que então Prémio Camões”. Referia-se à atribuição do mais importante galardão literário da Língua Portuguesa ao Manuel António Pina, cujas crónicas no Jornal de Notícias o Afonso lê diariamente. Não sei ao certo como foi que adquiriu este tão saudável e instrutivo hábito, nem quando começou a praticá-lo quotidianamente, mas compreendo que tenha recebido a notícia do prémio como uma coisa que, de algum modo, também lhe diz respeito. Se ficamos felizes quando o nosso clube ganha o campeonato de futebol, também podemos e devemos festejar quando um dos nossos escritores triunfa numa grande competição literária. Talvez devêssemos, aliás, celebrar a conquista do Manuel António Pina na Baixa da cidade, com cachecóis e buzinas, dando sequência, já agora, à festa pela vitória do José Saramago no Nobel da Literatura e à comemoração dos triunfos do Eduardo Souto Moura e do Siza Vieira nos Pritzker da arquitectura.

Quando escrevi que não sei ao certo como foi que o Afonso se tornou leitor das notáveis crónicas do Manuel António Pina, disse apenas meia verdade. Sei que, ao contrário daquilo que se poderá supor pelos quinze anos que tem, ele não leu os livros que o Pina escreveu para os mais novos. Começou, isso sim, a consumir as crónicas depois de ter lido Os Papéis de K., um pequeno e belo livro que é também uma rara incursão do escritor e poeta na ficção novelística. Conquistado, o Afonso aconselhou o livro a outros amigos, os quais, suponho, terão passado a palavra adiante. Na semana passada, devem todos ter gostado de saber que o Pina ganhou o Camões. No próximo ano, talvez queiram conhecer a obra daquele que vier a conquistar o prémio e ganhem, assim, um novo escritor.

Os galardões literários, porém, nunca chegam a distinguir todos os escritores que vale a pena ler. Por isso, da próxima vez que o Afonso me pedir um livro para ler, vou confiar-lhe Os Papéis do Inglês, do angolano Ruy Duarte de Carvalho. É um pequeno romance de feição conradiana, o qual, ainda por cima, tem vários pontos em comum com Os Papéis de K.. Têm espoletas narrativas semelhantes – manuscritos e cartas deixados por alguém do passado –, sendo ambos aquilo a que alguém designou como “ficções de ficções de ficções”. Acresce que o Ruy Duarte de Carvalho era um praticante absolutamente ímpar da nossa língua, o qual também devia ter ganho, alguma vez, o Prémio Camões, mas que morreu no ano passado sem que se tivesse feito essa justiça a uma obra notável e vasta, que vai da sociologia à poesia, passando pela ficção.

Faltará, depois, que o Afonso leia ainda mais um livro da mesma família destes dois, Nove Noites, do brasileiro Bernardo Carvalho, no qual, outra vez, uns quantos papéis do passado motivam o mergulho do narrador no coração das trevas do território hostil do Xingu, e, depois, numa espiral de demência e morte. Mas não há pressa. O Bernardo Carvalho ainda vai muito a tempo de ganhar o Camões.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 17 de Maio de 2011

Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

Crónicas do autocarro#76



A vida é mesmo assim. Tinha maior facilidade em fazer amigos enquanto desempenhei funções profissionais com alguma disponibilidade para distribuir postos de trabalho e outras prebendas, tipo viagens e assim, mas não deixo que o desencanto me impeça de apreciar a amizade alheia, tão simples e desinteressada como a dos dois velhotes que hoje se cruzaram inopinadamente no autocarro. Ele, o ancião emproado das análises às fezes, foi, fiquei a saber, membro da assembleia municipal “no tempo do Paulo Valada e do Alfredo de Magalhães”. Ela, uma idosa em quem nunca tinha reparado, foi cozinheira na autarquia durante 36 anos e lembrava-se perfeitamente do velhote, o qual, porém, não estava a ver quem ela era, que um deputado municipal do burgo não retém assim, do pé para a mão, informação relativa aos serviçais. Fosse como fosse, os velhos encontraram-se no autocarro e logo arranjaram assunto de conversa. Foram um bom pedaço a dizer mal do Rui Rio, o que, a despeito dos achaques que a idade impõe, há-de ser ainda sinal de alguma presença de espírito.

A virgem maria dormiu lá no prédio esta noite

Os beatos da paróquia irromperam na praceta, ontem à noite, entoando cantilenas lúgubres e empunhando círios. Postaram-se diante da porta e o líder do grupo anunciou pelo megafone que ali estavam por causa de uma coisa qualquer e a fim de permitir que alguma família interessada acolhesse a imagem de nossa senhora durante a noite e até às 21h30 de hoje. Passado um pedaço, ainda entre cançonetas, despediram-se da santa (“boa noite, Maria, boa noite, Maria”) e anunciaram pelo aparelho que a imagem ficaria ali. Pareceu-me, porém, um pouco temerário que abandonassem a virgem sob o mesmo tecto que abriga um herege da minha estirpe, mas, felizmente, não sofro de sonambulismo e a imagem há-de ter passado a noite em paz. Que fique, pois, totalmente esclarecido: se alguém tiver arrombado a virgem, não fui eu. Por outro lado, a tipa há-de ter acordado cedo, em virtude (salvo seja) do barulho das obras no quarto andar.

Terça-feira, 24 de Maio de 2011

Crónicas do autocarro#75



Tendo superado algumas provas culinárias mais elementares, e também a da moqueca de camarão segundo a receita prescrita no romance Gabriela Cravo e Canela, eis-me, enfim, capaz de enfrentar outros sabores exóticos. Ainda mal refeito do triunfo alcançado aquando da confecção de um caril de frango "igual ao do restaurante indiano", enfrento hoje, com a galhardia possível, um mais complexo lamb madras, com o cordeiro trocado por carne de vitela. É um pouco pecaminoso, bem sei, cozinhar assim um animal sagrado, mas cada um peca como pode e a mais não é obrigado, sobretudo tendo em consideração que nem no autocarro um indivíduo pode circular livre das tentações da carne e dos apelos gastronómicos. Tudo, enfim, me remete para o tacho e o fogão. A "agente de condução" do 502 vinha, há dias, transmitindo pelo auricular a receita de um arroz doce, aconselhando particularmente o acrescento da canela no final. E esta manhã uma moça estudante vinha falando sozinha e gesticulando para decorar uma lição qualquer. Olhei e vi escrita, no topo de uma página, a frase "obtenção de baunilha em pó medianamente fino" e imediatamente me surpreendi a imaginar certas e determinadas delícias. Só quando ela saiu do autocarro, e pela direcção que tomou, percebi que deviam tratar-se de apontamentos de Farmácia e, portanto, coisa pouco calhada ao fermentar da gula. Fosse como fosse, eu já levava a boca em água.

Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

É um assalto*


Há exactamente dezoito anos, um dia depois do nascimento da minha filha, fui assaltado pela primeira vez. Ia a sair da casa de banho de um centro comercial, a caminho da maternidade, quando fui abordado por um indivíduo com maus modos, a ressacar, o qual me exigiu que lhe desse o dinheiro que tinha. Com dez contos no bolso de trás das calças, só lhe dei duas ou três moedas. Ele insistiu, ameaçador, e eu repeti, repeti e repeti que não tinha dinheiro comigo. Quando consegui ganhar espaço para empurrar o assaltante, fugi a correr. Um polícia à paisana que por ali andava achou que o meu sprint era suspeito e veio atrás de mim.

Lembro-me de ter pensado, na altura, que era bastante estúpido ter engendrado uma criança que acabaria a viver num mundo onde acontecem coisas assim. A Maria Miguel, porém, demonstrou que valia mesmo a pena ser pai dela. É um ser humano excepcional, responsável e carinhoso, uma companheira que dá sentido mesmo aos meus piores dias.

Há seis meses, quando saía de um restaurante onde tínhamos acabado de almoçar, voltei a ser assaltado. Dois indivíduos mostraram-me uma faca e obrigaram-me a levantar trezentos euros no multibanco. Desta vez a Maria estava ao meu lado, tão assustada e aterrorizada como eu, mas portou-se admiravelmente e só desmoronou quando os cabrõezinhos se foram embora, livres e tendo-se abotoado com o equivalente ao ordenado de muito boa gente. Senti impotência e muita raiva. Abracei a Maria e murmurei várias vezes “já passou, já passou, vai ficar tudo bem”. O susto, obviamente, acabou esquecido. Mas a minha filha nunca mais quis ir àquele restaurante (eu também demorei algum tempo até voltar a entrar na casa de banho do Brasília).

Não poderia ter tido mais sorte com a minha descendência do que aquela que tive, mas, às vezes, ainda me parece que posso ter-me precipitado um pouco quando decidi conceber e criar dois filhos, condenando-os a viver num mundo como este, sobretudo agora que já se conhecem as consequências de décadas de desgoverno e as implicações práticas do filantrópico auxílio do FMI às finanças da pátria. A fim de “impulsionar o mercado financeiro” e “reduzir a dívida externa”, serei meticulosamente aliviado, sem receber alguma coisa em troca, de quantias muito superiores àquela que me foi roubada pelos larápios de há seis meses. Ao contrário do que sucedeu há dezoito anos, não me servirá de nada tentar fugir. Se houver um polícia por perto, ele virá outra vez atrás de mim e, agora, não se satisfará com uma explicação; dir-me-á que os assaltantes têm a lei do seu lado e que eu tenho que entregar tudo aquilo que eles quiserem exigir.

A Maria Miguel tem assistido às notícias com interesse e sentido crítico. Eu inquieto-me um pouco com o futuro que vai ter, mas ela continua a pensar que vale a pena esforçar-se por ser uma boa aluna, dedicada àquilo em que acredita (mesmo se o mercado de trabalho parece contrariá-la). Acha que o seu empenho acabará, um dia, por ser recompensado. Tenho, naturalmente, muitas dúvidas. Mas espero que ela tenha razão.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 10 de Maio de 2011

Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

Falcão, Falcão, marca um golo por mim. Serás Dragão até ao fim

A magnífica e extraodinária Câmara Municipal do Porto anunciou no seu site (um órgão de comunicação social, segundo a rigorosa avaliação da alta autoridade competente), no dia 14 de Abril último, com grande pompa, a conquista de um título europeu de badmington por uma selecção nacional que disputou o "Campeonato Europeu da III Divisão" da modalidade, no qual, parece, participou um tipo que bate bolas no Monte Aventino. Ontem, o maior clube da cidade conquistou o seu quinto título europeu, uma competição que nunca tinha sido ganha por um clube português e... nada. A Câmara do Porto faz de conta que não aconteceu nada, mesmo se tem a soleira da porta invadida por milhares de pessoas em festa. Não recebe a equipa — como fazem os parolos dessa cidade provinciana que é Madrid — e nem uma linha escreve no aludido site. De algum modo, seria muito triste se o energúmeno recebesse os campeões contrafeito e com maus fígados. Por outro lado, até calha bem que ele seja assim: quando ganhamos, temos a satisfação de saber que há pelo menos mais um cretino mal-disposto. E sabemos que não há FMI, Banco de Portugal, PS ou PSD que nos possa roubar esta alegria. O caneco já cá canta.

Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

Shrek e o burro*



Há quem acredite que o casamento é uma instituição ultrapassada e em crise. E existem pessoas, como os brasileiros Denise Flores e Marcelo Basso, que não se cansam de tentar encontrar uma forma de o reinventar, mesmo se as estatísticas do divórcio parecem aconselhar, no mínimo, alguma ponderação. Denise e Marcelo decidiram transformar o casamento numa coisa digna de um conto de fadas e uniram-se pelos sagrados laços do matrimónio na igreja matriz de Garibaldi, no Sul do Brasil. Ela, uma cabeleireira de 30 anos, compareceu fantasiada de princesa Fiona. Ele, um artesão de 39, casou-se vestido de Shrek, o ogre verde dos filmes de animação. A maioria dos seiscentos convidados da festa de Denise e Marcelo alinhou na encenação e ajudou a reconstituir a cinematográfica cena, mascarando-se a preceito. Havia, segundo A Folha de S. Paulo, um gato de botas, um burro, reis e rainhas, mas também piratas e pessoas com os trajes típicos da região gaúcha.

A despeito da bizarra indumentária dos nubentes, a celebração seguiu escrupulosamente os rituais católicos e parece ter corrido bem. Tanto quanto é possível saber, Denise e Marcelo continuam casados, cumprindo os votos. Não se deve, aliás, descartar a hipótese de, contra toda a probabilidade, virem a ser felizes para sempre, como costuma acontecer em Bué, Bué de Longe e nos desenhos animados em geral.

Pouco sensível, porém, às pequenas alegrias da existência terrena, o bispo de Caxias do Sul não gostou da extravagância e puxou publicamente as orelhas ao padre que cometeu a imprudência de celebrar a heterodoxa cerimónia. Numa nota oficial, D. Paulo Moretto considerou que os católicos têm “ritos e linguagem adequados”, pelo que os trajes do casamento devem ser “fundamentados na fé e não inspirados na imaginação e na fantasia”. Ou seja: os consortes devem pagar o aluguer da igreja, conforme vem nas escrituras, e comparecer com fatiotas reluzentes, ela de espampanante vestido branco, ele de fraque e gravata, exactamente como fizeram Adão e Eva quando, no Paraíso, constituíram a família inaugural.

Os bons católicos, na verdade, deveriam ser capazes de se absterem de toda a fantasia e de suspenderem absolutamente a imaginação. Seria aconselhável, por exemplo, que se privassem de acreditar em homens muito velhos dotados de super-poderes demiúrgicos, oceanos abrindo-se para ceder passagem a cidadãos em fuga, gente sendo criada a partir de costelas alheias, pães e peixes multiplicando-se a eito ou virgens pairando sobre oliveiras diante de crianças parolas e indefesas - histórias tão bestialmente estapafúrdias que nem J.R.R. Tolkien, J.K. Rowling ou William Steig se teriam lembrado delas. Não fosse, porém, pela capacidade humana de fantasiar um pouco e talvez já ninguém se casasse. Sem uma ponta de loucura, é até possível que Jesus Cristo, Maomé ou algum mitómano mais recente tivessem acabado por confrontar os respectivos adeptos com a pergunta que Shrek fez ao burro: Por que é que me estás a seguir?


*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 3 de Maio de 2011

Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

Crónicas do autocarro#74



O ideal, sei-o bem, seria estar sempre e a cada instante em todos os autocarros da cidade, observando e tomando notas como um grande deus coscuvilheiro que fosse também o omnisciente cronista dos transportes públicos. Tendo-me, porém, sido negada a graça da omnipresença (e quantas graças, com efeito, me faltam), não seguia, a mi pesar, no mesmo veículo colectivo em que, pelos vistos, se fez transportar a namorada do Nuno Casimiro. De acordo com a sintética descrição dos factos a que tive acesso, a moça, inscrita pelo seu mais-que-tudo no grupo restrito das “moças mais lindas do bairro operário”, não me viu a bordo e comunicou a minha ausência comentando algo como “andei de autocarro e não vi o Marmelo". Que desencontro tremendo! A frase dela, como facilmente compreenderão, poderia perfeitamente ser estampada em letras maiúscula em t-shirts de várias cores, muito jeitosas para o Verão, o que havia de ser um negócio interessante no caso pouco provável de eu acordar uma destas manhãs imbuído do espírito empreendedor dos grandes homens de negócios. Mas nem é a falta desta outra graça aquilo que mais me incomoda. O que é realmente gravoso para o bem-estar geral deste vosso criado é que, em vez de ter visto a namorada do Nuno no meu autocarro matinal, fui, isso sim, na companhia de um cinquentão muito fresco e bronzeado, de calções curtos e camisola caveada, com um cordão dourado ao pescoço e uma tatuagem no braço ostentando a data 4-5-1970 e uma caravela — uma caravela inteira e do tamanho da minha mão, ou talvez maior, com o velame todo desfraldado e a cruz de cristo rasgando os ausentes mares sobre os quais a industriosa pátria outrora reinou. Sentado diante do garboso e navegante macho, senti alguma saudade, confesso, da voz estridente da Clarineide.

O blogger não tem andado bom

As últimas 24 horas foram impossíveis. O acesso ao Blogger esteve interrompido e, por via disso, padeci um pouco de delirium tremens e de outros sintomas próprios da abstinência. Pior do que isso, a internet comeu alguns dos posts que aqui estavam, incluindo a entusiasmada comemoração da atribuição do Prémio Camões ao Manuel António Pina [entretanto recuperada]. Espero que seja tudo reposto e que, assim, possa voltar a ser lida uma nota muito grave e ponderada, na qual se considerava oportuno que alguém avisasse o economista Eduardo Catroga da necessidade de voltar a tomar os medicamentos, sob pena de o bom homem ainda poder acabar por vender o corpo a fim de contribuir para o aumento da competitividade das empresas. E para quem trabalha não vai nada, nada, nada?

Quinta-feira, 12 de Maio de 2011

Viva! O Manuel António Pina ganhou o Prémio Camões

Um tipo fica sempre mais contente quando estas coisas acontecem a alguém que merece e, ainda por cima, é um bom amigo e uma excelente pessoa. Estamos felizes por ti, Manel.

Já agora: convém ler todos os dias aquilo que o Pina escreve no JN, mas a crónica de hoje vem particularmente a propósito.

Terça-feira, 10 de Maio de 2011

Mais uma imagem de um farol e uma explicação breve e um pouco patética


© Teatro Anatómico 2007 / Farol do Arnel, S. Miguel, Açores

Esta é a fotografia que devia ilustrar o post anterior, relativa ao açoriano farol do Arnel, que refiro no texto. Todavia, quando estava a procurar no meu caótico arquivo, encontrei três imagens do farol cabo-verdiano que se pode ver abaixo. Só então me lembrei dele, do farol de D. Maria Pia. Na primeira vez que fui a Cabo Verde, aterrei no antigo aeroporto da Praia quando ainda era noite cerrada. A cidade estava pouco iluminada e, por isso, fui conduzido ao hotel sem ter, sequer, conseguido perceber a geografia da cidade. Na manhã seguinte, acordei, saí do hotel e o farol foi a primeira coisa de Cabo Verde que eu vi. Tenho a impressão que isto há-de querer dizer qualquer coisa, ou explicar alguma coisa, mas não sei bem. Sinto-me um pouco pateta, hoje. Um pouco mais pateta do que é costume, quero dizer.

Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

Dentro do farol*


© Teatro Anatómico 2005 / Farol D. Maria Pia, Praia, Cabo Verde


Gosto de faróis e não sei porquê.

Costumo contar, em favor da subtil magia da ficção, uma história relacionada com o filme A Ostra e o Vento, cuja acção decorre precisamente num farol, tendo como protagonista o actor Lima Duarte, na pele de um velho faroleiro. José, o personagem, usa sempre um gorro de lã e uma camisola de gola alta. Quando perguntaram a Walter Lima Jr., o realizador, que terra era aquela, ventosa e habitada por brasileiros friorentos e muito agasalhados, ele respondeu, imagino que com um sorriso de onírica ironia, que A Ostra e o Vento acontece “no país da ficção”.

Agrada-me que o país da ficção tenha uma costa escarpada, acossada por ondas violentas. Imagino-o, muitas vezes, como a Costa da Morte, na Galiza: misterioso, semeado de bruxas e devidamente rematado por um sítio chamado Finisterra, o local onde termina a quimérica terra das histórias, fustigado por inclementes ventanias e dotado, claro, de um farol.

Uma vez, aliás, resolvi meter-me num avião e voar para os Açores enquanto estava a ler As Duas Águas do Mar, o romance do Francisco José Viegas. Estive vários dias a deambular pela ilha, um pouco ao acaso, até que, numa placa na beira da estrada que vai do Nordeste para Vila Franca do Campo, vi a indicação para o farol da Ponta do Arnel. Virei à esquerda sem pensar e mergulhei (literalmente) no assombro de uma estrada muito apertada que se afundava num abismo entre penhascos e conduzia ao sítio que vinha narrado no livro e, creio, justificava que eu tivesse ido aborrecer-me para a ilha de S. Miguel. Havia ali, junto ao farol, um sossego absoluto e uma cascata de água caindo ao mar. Pareceu-me o paraíso.

Regressei aos faróis na semana passada, conduzido indirectamente por uma das belas e cultas crónicas de Manuel Rodríguez Rivero no Babelia do El País. O caminho foi tortuoso: o texto elogiava uma autora, Menchu Gutiérrez, da qual se tinha publicado em Portugal, em 2000, A Tábua das Marés. Encomendei o livro numa livraria electrónica e fiquei dois meses à espera. Debalde. Como o mistério não se explica, recorri a um amigo do lado de lá da fronteira e, em menos de uma semana, tinha nas mãos os dois livros mais recentes de Menchu Gutiérrez. Comecei a ler, aleatoriamente, aquele que se chama El Faro por Dentro/O Farol por Dentro. E, como naquela tarde nos Açores, mergulhei no abismo psicológico de um faroleiro no limite da solidão e da loucura. Vive acompanhado por Basenji, um cão africano que nunca ladra, e por um alambique, encerrado no labirinto de um solilóquio insano e alucinado, como num pesadelo ruim.

No prólogo, Menchu escreve que “viver num farol é muito diferente de habitá-lo”. Sabe do que fala, uma vez que, como o faroleiro louco, viveu vários anos numa dessas estruturas costeiras, no Norte de Espanha. Enquanto lia o livro, passeei por mais esse farol da ficção, simultaneamente asfixiante e ancho, debruçado sobre o infinito. Só então me ocorreu que nunca vi realmente um farol por dentro.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 26 de Abril de 2011

Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

Crónicas do autocarro#73



A avaliar pelas primeiras 240 páginas do Ulisses, não existiam autocarros em Dublin no ano de 1904. Havia, isso sim, putas com fartura, combates de boxe, sítios onde refrescar a goela, jornais, moças de "seios dadivosos", clubes de cavalheiros e assim, mas nada de ver Leopold Bloom a entrar e sair de um transporte público. Espero que, entretanto, essa aparente carência civilizacional já tenha sido resolvida pelos patuscos dublinenses, pois a cidade há-de, ainda este mês, ser invadida por gente deste outro país em crise económica e existencial do qual este humilíssimo utente vos escreve com a regularidade possível. Há-de ser, pois, um regalo, quando chegarem a Dublin os de Braga e os do Porto, dispostos a escorropichar barris de cerveja até à última gota e falando mais alto do que é costume para que os camones de lá os entendam, ai o caralho que o morcão está aqui está a levar com o remo nas vistas que até se lambe. Resta-me, sendo assim, fazer votos para que um eventual tripeiro desgarrado e perdido nos autocarros de Dublin seja, pelo menos, tão cordialmente recebido como um africano que, um dia destes, seguia no 502 do fim da tarde; e que os irlandeses, lá na língua deles, se aprontem para ajudar o nosso compatriota como fez aquele senhor que ia para a Pasteleira e gritava ó nosso amigo, ó, tu aí, ó branquinho, anda comigo que eu vou para lá. Ó, tás óbir? Anda! E o preto lá foi.

Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

Espero que a Sic continue a transmitir só os jogos do Benfica.

Gosto muito de ver os jogos do Porto na internet com comentários em árabe. O próximo será com o Sporting de Brega. De Braga, queria dizer. Parabéns Domingos. Foi lindo. Quase que gostei mais do que dos 5-0.

Agora sim, viver como se não houvesse amanhã

Esta manhã, no decurso de uma conferência de imprensa, o ministro das Finanças (e agora filósofo) Teixeira dos Santos, respondeu a uma pergunta qualquer sobre "o futuro", considerando qualquer coisa como "é melhor não falar do futuro, já que cada vez que falamos do futuro nos arriscamos a estragá-lo". É, parece-me, uma excelente síntese do momento actual e do buraco em que estamos metidos. Perdidas todas as garantias para as quais contribuímos pagando impostos (e outras deduções) anos a fio, resta-nos agora viver como se não houvesse amanhã.

O bom português* (ainda mais actual)


O boletim meteorológico anunciava chuva, raios e coriscos que eu sei lá, e o rádio-despertador sacudiu-me da cama com as más notícias do costume – as medidas de austeridade que nunca atingem aqueles que as anunciam, a negociata dos submarinos, a xenofobia e a extraordinária inveja dos verdadeiros finlandeses, zangados por não terem calor nem raparigas bronzeadas, e, ainda por cima, serem obrigados a pagar a nossa crise. Não sendo, porém, pessoa para me deixar abater por tão pouco, escanhoei a cara e saí festivamente para a rua, disposto a aproveitar os últimos raios de sol antes da borrasca, o chilrear dos passarinhos e a competência geral da nação. Trouxe, evidentemente, os sapatões amarelos, o velho chapéu de coco com uma florzinha, a gravata verde-alface e o narigão vermelho. Cabendo-me ser um bom e verdadeiro português, convém-me muitíssimo trajar a preceito.

(Tenho a impressão de ter ouvido alguém chamar-me palhaço, mas não tive tempo de levar a mão ao chapéu para agradecer o simpático reconhecimento do meu esforço, pois logo outro transeunte me lançou à cara um esguicho de água disparado por uma espécie de bisnaga escondida na lapela. Que pilhéria tremenda!)

Dá gosto estar vivo só para poder circular nas nossas ruas e constatar que a vida é uma festa. Mesmo a dívida pública e privada, se bem entendo as coisas, há-de ser uma invenção de algum mentiroso ressabiado, pois tenho a felicidade de não ter conhecido até hoje um único português incompetente, gastador ou que seja minimamente responsável pela situação em que agora dizem que estamos. Recordo-me bem, aliás, dos discursos nas noites das eleições, e sei perfeitamente que nós, os bons e verdadeiros portugueses, somos sempre bestialmente sábios e ponderados na hora de escolher os nossos representantes, e que estes são sempre visionários, grandes estadistas e excelentes gestores. O mesmo se passa, de resto, com a economia da nação, servida dos melhores empresários, dos banqueiros mais beneméritos, das mais competentes chefias intermédias e de uma mão-de-obra laboriosa e bem paga – radiante.

Que país bem-aventurado! Medito nisto enquanto coço pensativamente o meu nariz vermelho – e não posso senão concordar com aquilo que o Paulo Varela Gomes aqui escrevia no sábado; que devemos aproveitar a crise europeia para atrair ao nosso país os turistas que, agora mais austeros, não possam já ir refastelar-se nas praias de Bali ou sacudir mosquitos na Índia. Que venham, pois, os europeus. Que venham carradas de alemães e finlandeses, de suecos e holandeses, de camones de todos os credos e cores, e que vejam, de uma vez por todas, que é mentira que este seja um país de preguiçosos e incompetentes, de inúteis gastadores. Que venham e constatem como demos bom uso ao dinheiro que para cá mandaram, destrocando-o por carros de luxo, auto-estradas a perder de vista, centros comerciais à farta e belas imitações de Miami Beach. E que aprendam, enfim, como é fácil ser feliz com ordenados de trezentos euros.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 19 de Abril de 2011

Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

Uma não-história muito bem contada


Também aproveitei a interrupção terapêutica da leitura do Ulisses para ler o Nenhum Lugar, do argentino Ricardo Romero, que a Deriva recentemente editou em Portugal. Começo por advertir que se trata de um romance que decorre num lugarejo perdido no deserto, habitado por pessoas vazias e secas e onde, na verdade, não se passa rigorosamente nada: um tipo é abandonado por um taxista e fica por ali, aparentemente sob um surto amnésico, à espera de que o motorista regresse ao táxi. Dito isto, interessa sobretudo notar que o modo de o contar é tão cativante que o livro foi capaz de me prender até ao fim. Assim de repente, parece-me que é um dos maiores elogios que se pode fazer a um escritor. E o Ricardo merece-o.

Segunda-feira, 2 de Maio de 2011

Bin Laden está morto. Mas pode realmente dizer-se que foi feita justiça?

Apesar de Obama e outros líderes internacionais terem comentado a liquidação de Osama Bin Laden com a frase "fez-se justiça", aquilo que aconteceu no Paquistão parece ter sido, no essencial, uma execução sumária, um homicídio premeditado levado a cabo por um grupo de justiceiros. Bin Laden será um assassino em série e um terrorista. Um monstro. Muito certo. Mas será difícil que os povos que seguem o Corão percebam o que nos distingue e as vantagens éticas da democracia e do modo de vida ocidental, a separação de poderes, o valor da justiça, quando nos comportamos também, afinal, como gente sem lei — como se ainda andássemos todos aos tiros no faroeste. Enquanto isto não for claro para todos, haverá sempre espaço para práticas inspiradas pela máxima "olho por olho, dente por dente".

Domingo, 1 de Maio de 2011

Um romance que é como o cavername de um romance


Tinha-me esquecido do Kirmen Uribe, o basco discreto que conheci num encontro ibérico de jovens escritores que decorreu em Mondoñedo, na Galiza, em Novembro de 2002. Agora em Fevereiro, na Póvoa, calhou ficarmos sentados à mesma mesa depois de um jantar, enquanto bebíamos vinho e contávamos anedotas. O rosto dele pareceu-me familiar, mas apenas isso. Depois ele perguntou-me se eu não tinha estado naquele encontro de Mondoñedo. Fez-se luz. Claro. Estávamos lá os dois.

O Kirmen estava na Póvoa de Varzim, nas Correntes d'Escritas, a lançar o primeiro romance, "O Dois Amigos", que, em Espanha, se chamou "Bilbao-New York-Bilbao". Li-o agora e recomendo-o vivamente. Começa por pretender ser um livro sobre um tempo perdido, o mundo desaparecido dos velhos pescadores de Ondarroa, do avô de Kirmen, mas acaba por ser, além disso, uma sucessão de belas e tocantes histórias que são os passos que o narrador vai dando à medida que prepara a escrita do romance, as reflexões que faz, as dúvidas que tem e as estratégias que adopta para coser os episódios que descreve. É, pois, como o esqueleto de um romance, ou o cavername de um romance, para ser fiel ao imaginário náutico que atravessa a narrativa - uma coisa simultaneamente delicada e sólida, elegante e bela.

Vale a pena lê-lo por vários motivos, mas, se tivesse que escolher uma história de entre todas as que compõem a narrativa, creio que escolheria aquela em que se conta o modo como Kirmen e Nerea se conheceram e ficaram juntos, por causa de uma crónica em que o escritor contava um baile de há muitos anos atrás: "À entrada, uma mulher ofereceu-me uma carta, como ao resto dos rapazes. A mulher tinha dois baralhos e aos rapazes tirava de um e às raparigas, de outro. Cada um devia dançar com quem tivesse a mesma carta. Que angústia! Sem conseguir suportar a vergonha, atirei a ditosa carta para um canto e, no final, não dancei com ninguém.
(...) Era isso que a coluna contava.
O artigo foi publicado no Outono de 2005. Uma noite daquele Inverno Nerea aproximou-se de mim e disse-me: “Eu era a rapariga que, em San Jerónimo, tinha a mesma carta que tu”".


Como se isto não bastasse, há ainda, em "O Dois Amigos", um farol, o farol de Stornoway, na Escócia; um farol como em "As duas águas do mar", do Francisco José Viegas, e em "El faro por dentro", de Menchu Gutiérrez. E fala-se do desastre do petroleiro Prestige, na costa da Galiza, que tinha acontecido poucos dias antes daquele encontro de Mondoñedo. Lembro-me de como, então, a Rosa Aneros acompanhava, nos bares aonde íamos, as notícias da televisão, com um olhar angustiado e triste, como se o crude do Prestige não estivesse apenas manchando o mar e as praias da Galiza, mas maculasse os olhos e a vida da Rosa e dos outros galegos que lá estavam. É por isso que sei sempre em que ano estive em Mondoñedo.