quarta-feira, 30 de junho de 2010

A minha Scut é mais pobrezinha do que a tua


(putativa viatura de um eventual cidadão do depauperado concelho de Santo Tirso)


A despeito das más línguas, a proposta do Governo para resolver a embrulhada das portagens chega a revelar uma imaginação prodigiosa. Podiam, por exemplo, ter decidido atribuir isenções em função da cor dos carros, da marca dos mesmos ou da afeição clubística da maioria dos passageiros a bordo, devidamente comprovável com a exibição de cachecóis nas janelas, mas, num momento de algum bom humor, lembraram-se apenas disto.

Adiós muchachos

E pronto, chegou ao fim a minha tormentosa relação com a língua espanhola e com o futebol da selecção de Carlos Queiroz. Modéstia à parte, tenho a sensação de que, apesar de tudo, e ao contrário dos morcões da bola, fui melhorando qualquer coisinha à medida que a competição avançou.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Uma noite com ciganos

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 1 de Junho de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Fotografia de Adriano Miranda


Somos perfeitamente capazes de gostar dos ciganos de Emir Kusturica, mas temos medo (ou desconfiamos) dos ciganos que venham bater-nos à porta. Ainda assim, arrastado pelos meus filhos, passei a noite de sábado num bairro de barracas de madeira. Entrei nas casas deles, ouvi o seu modo estranho de falar (dizem “mira” em vez de “olha”) e invejei o brilho imaculado dos tachos e das panelas, a rigorosa organização dos cobertores e das malgas.

Pude fazer estas coisas graças a Baralha, um projecto de Marco Martins para o festival Imaginarius de Santa Maria da Feira. Durante vários meses, a equipa do realizador de Alice andou pelo bairro cigano de Sanguedo, colhendo depoimentos e ministrando workshops. No fim, durante três noites, a comunidade da Baralha abriu as portas aos forasteiros que quisessem ir ver o bairro transformado numa espécie de instalação artística.

As casas dos ciganos estão alinhadas ao longo de uma pequena rua, no cimo da qual uma grande tela mostrava o monólogo de um homem que falava em Romani da sua pistola, com legendas e tudo. Parecia um velho cinema ao ar livre. Pelo meio, a actriz Beatriz Batarda fumava e tocava acordeão entre as fundações de uma casa mal começada. Dizia um texto em que se misturavam o preconceito e a curiosidade dos filhos dela relativamente aos ciganos (“eles são muito porcos, mãe?”) e a curiosidade e o preconceito das crianças ciganas sobre o mundo dos outros.

Depois entrava-se numa mata escura, entre cujos eucaliptos estavam mais telas gigantes transmitindo filmes que Marco Martins e Clara Andermatt rodaram na Baralha. O efeito era mágico e fantasmagórico ao mesmo tempo, semelhante a um mergulho numa dimensão estranha na qual se misturavam a luz e a escuridão, o silêncio e o murmúrio das vozes das pessoas nas telas.

Mais adiante, numa clareira, um círculo de pessoas desenhava o palco onde Israel, o adolescente de cabelos longos e argola na orelha, cantava músicas ciganas. As letras pareceram-me iguais às da música romântica comum (“Há um caminho da tua boca para a minha boca” e coisas assim). Disseram-me que Israel é uma espécie de Toni Carreira dos ciganos enquanto duas ou três ciganitas dançavam em cima de uma prancha de contraplacado deitada na erva. O cenário por trás dos artistas era composto por duas motoretas de carga enferrujadas e um balcão com lâmpadas pendendo de um fio. Era o que mais se parecia com um filme de Kusturica. Por volta da meia-noite, a lua cheia derramou sobre tudo uma luz bonita e quase amarela.

Quando o playback de Israel terminou, voltamos à rua dos ciganos. As janelas das casas estavam ocupadas por televisores, nos quais passavam filmes que mostravam os moradores. Os meus filhos estranharam que seja possível viver assim, entre paredes de madeira, telhados de chapa e chão de cimento. Eu perguntei-me, depois, se algum de nós, os que ali estávamos de visita, alguma vez abriria a porta de casa para que os ciganos por lá andassem a bisbilhotar à vontade.

domingo, 27 de junho de 2010

Da velocidade



O automóvel é demasiado rápido para quem pretende observar o que está à volta (do avião nem se fala, do avião não se vê nada que tenha uma escala humana aceitável, o mundo fica reduzido a tapetes de nuvens e cidades quietas como maquetas). Caminhar parece ser suficientemente pausado, sim, andar permite olhar, permite a distracção de passar alguns segundos com o olhar fixo numa árvore, numa casa, numa pessoa. E correr? Correr é um logro. Há uma idade a partir do qual se corre tão lentamente que parece possível observar enquanto se corre, como se se caminhasse. Mas trata-se de uma falácia. Quando se chega a essa idade em que só se corre devagar, os olhos já não são o que eram antes, as coisas apenas ganham consistência e interesse quando as vemos de perto. Mas, quando aí chegamos, e uma vez que vamos a correr, acontece tudo demasiado depressa.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O mundial latino-americano: um balanço

Das oito equipas do continente americano que participam no Mundial da África do Sul, sete estão apuradas para os oitavos-de-final (só as Honduras acabaram eliminadas). Ou seja: quase cinquenta por cento das selecções ainda em competição são daquele continente. A Península Ibérica conseguiu fazer o pleno, mas Portugal e Espanha cruzam-se já no próximo jogo e uma delas vai ter que ficar de fora. E nem sequer será muito difícil que, nos quartos-de-final, a grande maioria dos jogadores falem Português ou Espanhol. Só no EUA-Ghana e no Inglaterra-Alemanha não há equipas latinas. Mas até aí haverá Cacau, na Alemanha, e vários mexicanos que alinham no grande vizinho do Norte. Para quem esperou que este pudesse ser o Mundial africano, a competição está, pois, a revelar-se tremendamente chicana. Mas o Ghana joga com os EUA e, depois, defrontará o vencedor do Uruguai-Coreia, pelo que até pode chegar às meias-finais. Quanto ao Japão, joga com Portugal ou com a Espanha se conseguir ultrapassar o Paraguai.

A eternidade no Campo das Cebolas

Está decidido. As cinzas do único Nobel da Literatura que escreveu em Português escaparam à inominável vilania que seria o seu degredo em solo estrangeiro, sob uma oliveira que o próprio Saramago plantou, e vão, em vez disso, repousar no espaço nobre da cidade de Lisboa que, de agora em diante, passará a ser conhecido como O jardim em frente à Casa dos Bicos. Com o alto patrocínio, presumo, da Rodoviária Nacional.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Borges não precisava de ler o que escrevia, eu não acredito no que vou escrevendo



À medida que Jorge Luís Borges foi envelhecendo e ficando cego, a sua caligrafia foi ficando mais miúda e apertada, as letras minúsculas, embora fizesse mais sentido que fosse ao contrário, que as suas letras se fossem agigantando para que ele conseguisse vê-las melhor. Depois, quando cegou, Borges passou, creio, a ditar o que queria escrever, o que talvez indique que não precisava de ler o que escrevia, que tinha o texto perfeitamente claro e articulado desde que o imaginava. De qualquer modo, a sua letra foi minguando à medida que a cegueira avançava – tenho-o anotado num caderno que é também a prova viva de que, não estando eu a ver melhor do que via antes, a minha caligrafia não está maior nem mais pequena, apenas mais feia e desengonçada, ao ponto de, às vezes, não conseguir reconhecer o que escrevi, nem querer acreditar que o tenha escrito assim, tão em tosco, tão necessitado de trabalho posterior. Não me pareço com Borges.

“Mari Ferrari põe tudo a dançar”

Sendo um indivíduo atento às novas tendências, não dispenso as páginas que o Correio da Manhã dedica às coisas mundanas. Ontem, num espaço de poucos centímetros da página 51, havia notícia de duas festas em discotecas algarvias, ambas animadas por dj's do sexo feminino. Em Albufeira, a música esteve a cargo da russa Mari Ferrari e o título da “notícia” assegurava que “Mari Ferrari põe tudo a dançar”. Posso perfeitamente imaginar. Em Tavira, a coisa correu por conta da DJ Sexation, loiríssima e trajando insolitamente apenas uns collants opacos. Em ambos os casos, as moças trabalharam em tronco nu, com uma espécie de autocolantes apostos nos respectivos mamilos, indumentária que, lamentavelmente, não vi ainda utilizada nos locais que eu frequento. Mas, enfim, o dia hoje promete ser quente e nunca se sabe de que incontroláveis impulsos padecerão as moças acaloradas.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O realismo visceral

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 25 de Maio de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Fotografia: Graciela Iturbide



Ao contrário do poeta García Madero, personagem do escritor chileno Roberto Bolaño, não fui convidado para fazer parte do realismo visceral. Não importa. Suponho que posso perfeitamente juntar-me ao grupo sem avisar ninguém, mesmo que, lidas as quinhentas páginas de Os Detectives Selvagens, continue a não saber muito bem em que consiste o realismo visceral. García Madero também não sabia.

O realismo visceral é uma mentira. Existe apenas na ficção, no romance de Bolaño, mas trata-se de uma mentira tão bela e instigante que vamos atrás dela como se, no fim da viagem, se nos fosse revelar uma coisa maravilhosa e única, como o Graal ou a Atlântida. Não chegamos a ver quase nada, apenas um poema gráfico de Cesárea Tinajero, a suposta fundadora dessa imaginária e peculiar corrente literária, mas Os Detectives Selvagens é, em todo o caso, uma coisa torrencial e avassaladora. Andei com o livro para trás e para a frente, lendo-o em viagens curtas de autocarro e, às vezes, em pé, enquanto esperava na paragem. Mergulhei intensamente nessa mentira e, até ao fim, preferi não saber se os visceralistas (ou real visceralistas ou, simplesmente, “a pandilha”) existiram de facto ou se foram criados a partir de alguma história real. Se, enfim, podia haver alguma verdade nas centenas de depoimentos a partir dos quais se recompõem a história de Cesárea, a poeta mexicana dos anos 1920, e, depois, a trajectória de Ulisses Lima e Roberto Belano, os jovens poetas que, na década de 1970, refundam o realismo visceral e adquirem o paródico poder de convidar novos membros e de expulsá-los.

E depois há o inocente e desconcertante diário de García Madero, transformado em observador involuntário do momento crucial do realismo visceral: aquele em que Belano e Lima, saindo da Cidade do México para ajudar uma prostituta a fugir do seu chulo, acabam percorrendo erraticamente o deserto de Sonora, procurando Cesárea Tinajero, os sinais que dela ainda pudessem existir, e acabam por encontrá-la lavando roupa num tanque. “Não tinha nada de poética. Parecia uma rocha, ou um elefante. As suas nádegas eram enormes, e moviam-se ao ritmo que os braços, dois troncos de carvalho, imprimiam ao esfregar e enxaguar a roupa”, descreve García Madero.

Sucede que Belano e Lima encontram Cesárea no mesmo dia em que o chulo de Lupe os encontra a eles. As coisas precipitam-se e depois o grupo divide-se e como que se dissolve na paisagem agreste de Sonora. García Madero é o único que lê os cadernos de Cesárea. Mas nada conta sobre o que lê. Escreve, também ele, os três poemas gráficos em que o romance se apaga como um traço estendido até ao horizonte, a caminho de nenhures.

Em 1997, o actor brasileiro Lima Duarte protagonizou um filme, A Ostra e o Vento, de Walter Lima jr., no qual dá corpo a um faroleiro vestindo uma camisola grossa de gola alta. Um dia perguntaram-lhe que país era aquele em que decorre a acção do filme. Lima Duarte respondeu que se tratava do país do cinema e do sonho. É a terra onde também o realismo visceral existe.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Até já, camarada



Disseram há pouco, nas notícias, que já não estás “entre nós”. Pareceu-me um disparate tremendo. Talvez o teu corpo velho e doente tenha sucumbido, deixado de funcionar, mas tu estás onde sempre estiveste: naquela fileira de lombadas amareladas da prateleira mais próxima do lugar que tomo ao jantar. Estás sempre ali, quieto e vigilante, pronto a ser revisitado, como um amigo, ou redescoberto como um sítio feliz aonde não vamos há algum tempo. Até já.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Futebol na cabeça



Tenho feito algum esforço para concentrar os dois neurónios (o bêbado e o distraído) em outros assuntos de maior acutilância social, mas, inevitavelmente, acabo em frente à televisão a torcer pela equipa errada. Queria, sim, qualificar em termos particularmente severos a proposta social-democrata destinada a liberalizar os despedimentos e eternizar os contratos a prazo, mas creio que a minha opinião definitiva pode perfeitamente esperar pelo dia, não muito distante, em que Passos Coelho proporá a reinstitucionalização da escravatura como motor do desenvovimento económico. Para já, gosto cada vez mais de futebol. Olha-se para as selecções em competição na África do Sul e há ganeses e polacos na equipa alemã, cabo-verdianos e turcos na equipa da suíça, nigerianos e mexicanos nos EUA, marfinenses e senegaleses na equipa francesa, ucranianos e italianos na Austrália, brasileiros e canadianos na selecção portuguesa. O mundo parece um sítio bestialmente melhor e mais tolerante quando se resume a um rectângulo relvado. De resto, também no futebol Portugal é a merda que se sabe e só me custa um pouco ver a Nigéria perder com a Grécia.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Portugués, guapo y matador



A partir de hoje, e enquanto durarem os totós navegantes (triste sina a de depender de tal gente), vou estar também por aqui. É mais ou menos como estar a disputar o campeonato do mundo, mas numa modalidade que se desconhece quase completamente: el castellano, por supuesto.

Partir a louça toda

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 18 de Maio de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Um estudo feito pela Madison University, do Winsconsin, incidindo sobre crianças com idades compreendidas entre os sete e os doze anos, concluiu que a ansiedade produzida por problemas de matemática particularmente difíceis de resolver pode ser reduzida com um simples telefonema para a mãe. O segredo está, parece, numa hormona, a oxitocina, que o organismo produz durante esse contacto tranquilizador. Mais impressionante: a quantidade de oxitocina libertada durante o telefonema é igual à que se produz quando a mãe abraça a criança. “A voz da mãe, ao telefone, funciona como um abraço verdadeiro”, concluíram os pesquisadores.

Confrontados com as medidas de austeridade anunciadas pelo Governo e com as complexas contas que, por isso, vão ter que fazer à vida, os adultos portugueses parecem ter que recorrer a terapias mais radicais para combater a ansiedade. Em Lisboa, uma iniciativa que permitia partir pratos contra uma parede para reduzir o stress transformou-se num sucesso instantâneo. Em poucos dias, segundo informou o Diário de Notícias, esgotou-se o stock de cinco mil pratos e os organizadores tiveram que fazer uma nova encomenda, o que, em tempo de crise, pode significar um impulso de grande importância para a indústria cerâmica nacional (ou para o que dela tiver sobrado).

Foi, pois, com sincera preocupação que li as declarações de uma cliente defraudada pela ruptura do stock de pratos. Dizia ela que a situação é “muito desagradável”, o que se compreende perfeitamente à luz do anunciado aumento dos impostos, dos preços e da incontornável necessidade de combater a ansiedade que tais circunstâncias provocam. Mas, pior do que isto, a mulher lamentava, isso sim, que não se tivessem avisado as pessoas de que os pratos tinham acabado. Imaginei-a, pois, à beira de um ataque de nervos, já um pouco desorbitada e exigindo que a deixassem partir um prato que fosse, ou um pires, ao menos. Movido pela compaixão, pensei despachar para Lisboa o que resta de um serviço de louça que já não uso ou até as garrafas vazias que tinha destinado à reciclagem - qualquer coisa, enfim, que pudesse ajudar a atalhar o stress e a ansiedade dos lisboetas, e a evitar, eu sei lá, que, tomados pelos nervos, se lembrem de fazer greves e manifestações violentas como na Grécia, apenas para terem um pretexto para quebrar tudo o que lhes apareça pela frente.

Tudo isto, devo confessar, acabou por me perturbar um pouco, ao ponto de ter sido acometido pela vontade de partir a louça toda. Em alternativa, ponderei deslocar-me à capital durante o fim-de-semana para beneficiar das vantagens terapêuticas da nova remessa de pratos. Consultei os horários dos comboios e cheguei a meter cuecas e meias numa mala, mas, afinal, não fiz a viagem. Lembrei-me que, ao domingo, a minha mãe costuma fazer cozido à portuguesa, o que sempre me acalma bastante, como se fosse um abraço. Recuperei, assim, o bom senso e a tranquilidade. Parti algumas garrafas vazias no contentor da reciclagem e agora estou bem, obrigado.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Cuauhtémoc Blanco ou como ser um encantador paquiderme

O Mundial, enfim, começou; ou começou aquilo que realmente me interessa para lá do folclore pré-orgasmático dos navegantes: a bolinha a correr em campo independentemente da cor das camisolas. Do primeiro jogo guardei o espantoso remate de Tshabalala para o golo da África do Sul e a presença em campo de Cuauhtémoc Blanco, um rapaz de 37 anos e com para aí 90 quilos de peso, que transpirava abundantemente instantes depois de ter entrado em campo, já com a segunda parte a decorrer. Numa competição em que se glorificará inevitavelmente a juventude, o apuro físico, a versatilidade, os abdominais impecavelmente ginasticados, o gel capilar e os brincos de diamante, o lento e gordo Cuauhtémoc Blanco é uma presença absolutamente enternecedora. Primeiro, porque Cuauhtémoc faz lembrar o nome de uma personagem de Os Detectives Selvagens, o magistral romance de Roberto Bolaño. Depois, porque Cuauhtémoc Blanco trata a bola com uma gentileza irrepreensível: não falha um passe e não obriga ninguém a correrias loucas. Comecei, confesso, por estranhar a presença dele em campo, mas acabei rendido. Cuauhtémoc Blanco está simplesmente ali, imperturbável, como um paquiderme antigo ou um cavalheiro de outros tempos. É muito reconfortante ver um homem normal, barrigudo e quase velho, a jogar um Mundial de futebol, indiferente à vaidade dos falsos semideuses. Vejo Blanco em campo ensaiando pequenas corridas lentas para se posicionar e parece que tudo é possível: se ele e o Miguel Veloso lá estão, também eu podia perfeitamente jogar numa selecção.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Tenho visto algum cinema, mas, nos últimos tempos, nenhum filme me pareceu tão bom como este

El secreto de sus ojos, de José Maria Campanella e com Ricardo Darín, Guillermo Francella, Soledad Villamil, Pablo Rago e Javier Godino nos principais papéis. A sequência no estádio de futebol durante um jogo do Racing é extraordinária.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Ménard não sente frio

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 11 de Maio de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Li, um destes dias, sobre uma performer transexual francesa, Philippe Ménard, a qual tem calcorreado o mundo, de Tóquio a Bogotá, com um estranho espectáculo assente na relação que mantém com o gelo. Faz malabarismos, move o corpo lentamente e cria um ambiente de vertigem e psicadelismo, contracenando com centenas de litros de água congelada. E alega que nunca na vida sentiu frio. Nunca.

Leio sobre Philippe Ménard e, estranhamente, penso em Gisberta, o transexual brasileiro encontrado morto em Fevereiro de 2006, num edifício abandonado do Porto, no poço de um elevador sem elevador para onde tinha sido lançado por um grupo de jovens imbecis. Penso em Gisberta, sim, mas não por imaginar o frio que Gisberta sentiu enquanto agonizava no fundo de um buraco de um prédio inacabado. Recordo Gisberta porque, neste mesmo dia em que tomo conhecimento do espectáculo de Philippe Ménard, leio também sobre os alunos de uma escola de Oeiras que, na semana passada, receberam com insultos e pedradas um grupo de rapazes travestidos. Quem assistiu à cena descreveu-a recorrendo à expressão “chuva de pedras”. Talvez influenciado pela arte de Ménard, invoco, por isso, a imagem mental das pedras de gelo que resultam de certos fenómenos meteorológicos e chovem efectivamente sobre as pessoas, os carros e as casas, provocando, às vezes, mais danos materiais do que aqueles que causou a chuva de pedras lançada sobre o quase carnavalesco grupo de travestis de Oeiras.

Creio, não sei porquê, que Philippe Ménard há-de gostar de saraivadas e do gelo efémero do granizo, da neve e da geada, mas isto nem sequer vem ao caso, pois, no mesmo dia em que leio sobre o seu arrepiante espectáculo e acerca da chuva de pedras caída nos arredores de Lisboa, tomo ainda conhecimento, por um jornal da comunidade portuguesa em França, da agressão de que foram vítimas, no Parque Belleville, em Paris, três dos transexuais que protagonizam o filme Morrer como um homem, de João Pedro Rodrigues, acabado de chegar às salas de cinema francesas. Em Paris, como em Oeiras, os transexuais foram insultados e agredidos com pedras e garrafas vazias. Foram perseguidos, assaltados e talvez tivessem acabado mortos, agonizando ao frio no fundo de um poço de um prédio abandonado, se não estivessem em igualdade numérica e não tivessem abandonado o local antes que algo pior sucedesse.

Leio, então, a descrição de Philippe Ménard visitando uma fábrica de gelo em Bogotá, na Colômbia, a estranheza que a sua aparição provoca entre os operários e, depois, o modo como recebe as amostras de gelo nas mãos, com delicadeza, “com a ternura com que alguns acariciam um animal ou um filho”. Houve um tempo em que também a fecharam em hospitais psiquiátricos, a maltrataram, lhe chamaram louca e doente. Agora que é uma artista relativamente consagrada, já não lhe atiram pedras – nem sequer pedras de gelo. Depositam-lhas nas mãos. Ela, porém, não sente o frio. Nunca sentiu. Não sabe o que é chamar-se Gisberta e morrer no Inverno do Porto.

domingo, 6 de junho de 2010

Só para contrariar

Não faço férias fora de Portugal vai para três anos e há mais de dois anos e meio que não entro num avião. Não tenho precisado. Mas ouvir o presidente da república apelar aos portugueses para que sejam patriotas e façam férias cá dentro é, definitivamente, uma daquelas coisas que me faz ter vontade de ir a correr para a agência de viagens mais próxima e escolher o destino mais longínquo e mais caro que tiverem, apenas para prejudicar a puta da balança comercial, o caralho do défice externo e o que mais preocupar o senhor Silva.

Ser ou não ser um João César das Neves



Não tenho nenhum prazer especial (mesmo) em contrariar o doutor César das Neves, que deve ser espectacular a praticar o amor em Cristo, salvo seja, mas, fraco como sou, carne e apenas carne, deixo-me, às vezes, cair na tentação e cedo, também eu, pobre desgraçado, ao totalitarismo do orgasmo e pratico uma série de badalhoquices que, de algum modo, me equipara à tenebrosa maioria parlamentar e faz de mim uma espécie de José Sócrates de alcova, mas um pouco mais meigo e com menor propensão a praticar a sodomia (em sentido figurado) com um número tão considerável de portugueses e portuguesas (como diria o saudoso António Guterres). O santo e pacato doutor, guardião insone dos valores da portugalidade, há-de arrepiar-se quase todos os dias com as mais diversas coisas do quotidiano, mas, pensando bem, a distância que vai da proibição à legalização é, na maior partes dos casos, uma distância deste tamanhinho assim, basta ver como a Guernica de Picasso foi, durante décadas, proibidíssima em Espanha e, afinal, é só uma pintura esquisita e que não parece causar grandes danos físicos e morais a quem ouse contemplá-la. Calhando, porém, podemos todos, um dia, transformar-nos em indivíduo bolorentos como o doutor Neves. Seremos indivíduos dispostos a lutar contra o que der e vier, dos moinhos de vento de Cervantes à fruta fresca dos Monty Pythons, privados, também nós, da vertigem do orgasmo, que não sei que raiva lhe tem o doutor Neves, mas, calhando, já há medicamentos no mercado capazes de assegurar algum conforto ao bom senhor. Sabendo, como sabemos, que o corpo não é eterno e que nem todos possuímos uma alma em que se possam depositar fundadas esperanças, talvez não seja mau de todo, afinal de contas, não deixar para amanhã o orgasmo que nos seja possível gozar hoje. A vida são dois dias e, amanhã, podemos ser já um João César das Neves.

sábado, 5 de junho de 2010

Tolerância & heterodoxia

Ontem jantei sushi, sashimi e outras coisas insonsas e cruas. Hoje almocei tripas à moda do Porto.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O que valem, de facto, as promessas de José Sócrates

Esta manhã, no Parlamento, José Sócrates “garantiu”, segundo a RTP, que não haverá mais aumentos de impostos este ano e no próximo, uma vez que, cito de memória, "acredita" que as medidas já tomadas devem ser suficientes para enfrentar as dificuldades orçamentais. O primeiro-ministro atingiu, na verdade, o mais invejável dos patamares políticos: pode prometer o que quiser, a lua, este mundo e o outro ou a ressurreição do tecido económico nacional, que já ninguém espera que ele cumpra o que quer que seja.

Três notas breves

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)



(Em cima: frame do filme Ulime)


1. Conheci pessoalmente a Matilde Dias em Setembro de 2008, no Mindelo, e, no mesmo dia, creio, o Tambla Almeida, marido dela. Casal absolutamente supimpa! Recebo agora a notícia de que estrearam no passado dia 28 Ulime, uma curta-metragem realizada pelo Tambla e que combina a lenda do boi Blimunde com a história do capitão Ambrósio, a personagem de um poema de Gabriel Mariano que presta homenagem ao homem que liderou uma revolta popular no Mindelo contra a fome que, em 1975 (creio), grassava na cidade. O povo, conta-me a Matilde (que produziu o filme), invadiu a cidade e assaltou os armazéns onde se guardava a comida.
Não pude, pelos motivos óbvios, estar presente na estreia, mas desejo a Ulime a maior das sortes no trajecto que agora iniciou, mostrando-se ao mundo e encontrando o seu público. Fico, pois, ao longe - pensando nisso e imaginando-me uma espécie de capitão Ambrósio da amizade, juntando as minhas tropas para, um destes dias, voltar a invadir o Mindelo, exigindo alimento imaterial. Falo, claro, dos abraços e dos sorrisos, das conversas à volta de um grógu, do zouk na Cave, das noites mornas na baía.

2. Completei, um dia destes, os meus trinta e nove anos e a Vanessa armou-me um jantar-surpresa. Desconfiado como sou, percebi que havia alguma coisa no ar e, afinal, não me enganei muito. Mas não imaginava que o local da festa viesse a ser aquele que foi: o restaurante Novo Ambiente, de nha Iva, ali perto da Praça dos Leões, onde comi catchupa, bebi grogue, dancei funana na rua e falei crioulo (ou aquela espécie de crioulo atrapalhado que eu consigo falar). A noite do Porto estava quente como sucede poucas vezes e, também por isso, a festa foi sab - como estar em casa.

3. Numa entrevista ao Diário de Notícias, Pedro Pires, o presidente da república, declara, entre outras coisas, que “a diáspora cabo-verdiana é uma coisa interessante”. Para demonstrar as potencialidades do povo de Cabo Verde espalhado pelo mundo poderia invocar vários exemplos, de Horace Silver a Mayra Andrade, mas refere, antes, o facto de na selecção de futebol portuguesa haver três filhos de cabo-verdianos (Nani, Rolando e Miguel), mais um na selecção da Holanda e outro na da Suíça. É disto, também, que fala o conto Natch, que escrevi para o livro Fora de Jogo, que reúne sete histórias inéditas sobre futebol e está, por estes dias, a chegar às livrarias. Natch é um futebolista cabo-verdiano imaginário que adoptou a nacionalidade portuguesa, mas que, à noite, tem um pesadelo em que falha, com a camisola de Cabo Verde, um golo decisivo, angustiando-se com a espécie de traição que é não representar o seu país de origem. Será verosímil?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

À atenção da Sociedade Protectora dos Animais

A campanha televisiva de uma empresa produtora de molhos apostou num conceito interessante, fazendo um rewind a partir do produto final até à sua origem. A coisa funciona relativamente bem com o ketchup, cujo filme nos conduz até ao tomate original, fresquíssimo, polpudo e rubro. Já o spot relativo à maionese tem mais que se lhe diga, terminando com uma galinha a sentar-se em cima de um ovo. Parece-me que aquilo deve ter aleijado.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Ajudar o animal enquanto o dono dorme no passeio

Quase todas as manhãs, o homem ainda dorme no passeio da Avenida da Boavista quando o sol já vai alto e incide com força naquele pedaço da via pública. O homem dorme sobre o cimento, enrolado numa manta e com a cabeça pousada nos destroços de um acordeão. Ao lado do homem há sempre um cão amarelo que dorme também, indiferente à luz do sol, ao barulho dos automóveis e ao trânsito das pessoas. Dormem ambos e hoje estavam lá outra vez. Uma mulher, porém, teve vontade de fazer alguma coisa, de ajudar: foi ao Pingo Doce, ali ao lado, e comprou uma embalagem de comida para o cão. Despejou a mixórdia no passeio e o cão acordou. Estava com apetite. O homem ainda dormia, mas a agitação do cão acabou também por despertá-lo.