sexta-feira, 31 de julho de 2009

Deixo-vos, pois, com uma obra-prima do Verão televisivo português

Arejar


Artigo pleno de oportunidade na edição de hoje do Diário de Notícias informa que, contrariando o mito urbano, não é, afinal, proibido conduzir descalço ou usando apenas uns informais chinelos de meter o dedo. Posso, pois, partir de férias mais descansado, com o vidro aberto, o cabelo ao vento, a camisola caveada, o coração tatuado no braço (de fora da janela), os joanetes e os fungos acumulados sob as unhas dos pés arejando à vontade. Suponho que seja isto, enfim, a liberdade.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Reader



Há por aí um grupo de pessoas dedicadas a tecer loas a uns aparelhos muito modernaços que, segundo consta, servem para ler e são capazes de armazenar quatrocentos livros lá dentro. Não sei como é que estes indivíduos fazem para arranjar vagar para ler quatrocentos livros ou a que habilidades circenses se dedicam para conseguirem lê-los todos ao mesmo tempo. Eu só consigo ler um livro de cada vez e, se tivesse tempo para ler quatrocentos livros, preferia ir morar numa biblioteca.

Ciúme & despeito

Agora que os jornais do dia tornaram público, notório e até um pouco demasiado evidente que Joana Amaral Dias manteve “contactos pessoais e privados” com o secretário de Estado Paulo Campos (ou vice-versa), já não sei, muito sinceramente, se ainda quero jantar com a Joana Amaral Dias. Vou antes beber um copo de vinho ruim, verter uma lágrimita sobre a página 11 do DN e escrever uma letra de tango.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Sustentabilidade

A presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, declarou-se hoje, segundo a agência Lusa, contra aquilo a que chamou de "uma quase perseguição social" dos ricos. Por uma questão de racionalidade energética e de economia dos meios do Estado, faz mais sentido, de facto, perseguir os pobres e os remediados. Mexem-se menos, os carros deles andam mais devagarinho e não costumam mandar o dinheiro arejar para off-shores internacionais. Basta meter-lhes a mão no bolso e pronto. Resmungam um bocadinho, mas depois lá vão, ordeirinhos, votar nos senhores do costume.

Irão



É bem curioso o olhar da chamada “comunidade internacional” sobre aquilo que tem estado a acontecer no Irão. Aquele que, até prova em contrário, é o vencedor das eleições, é visto como um déspota, um ditador e um facínora. Já os obscuros ayatollahs, cujo poder emana directamente do sagrado e desse mesmo fanatismo em que fermentam o terrorismo internacional e o vexamento das mulheres, passaram, de repente, a ser indivíduos bestialmente simpáticos e civilizados, desde que estejam contra o vencedor das eleições.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Convite

Ignoro se o PS convidou Joana Amaral Dias para uma cena qualquer de que toda a gente fala. Mas gostaria, ainda assim, de dar o meu humilde contributo para este debate convidando Joana Amaral Dias para jantar.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Kirkuk



Os jornais do dia informam que, durante as tradicionais festas madeirenses do Chão da Lagoa, aonde Manuela Ferreira Leite estava para ir mas não foi (fez mal: a poncha é um excelente remédio para a gripe), um balão em forma de zepelim, com publicidade a um outro partido que não o PSD, foi alvejado com quatro tiros de carabina e, furado, aterrou de emergência. Por acaso acho tudo isto perfeitamente normal: estou farto de ver na televisão imagens das festas tradicionais no Iraque e aparecem sempre pessoas a disparar tiros para o ar.

sábado, 25 de julho de 2009

Orwelliano

Parece que Baduela Ferreida Leite esdá co'a gripe.
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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Entremeada



Alguém, decerto brilhante e bestialmente preocupado com o futuro da humanidade, propõe que as segundas-feiras passem a ser dias sem carne e, logo, dedicados ao exercício insonso e pusilânime do vegetarianismo e de outras práticas gastronómicas igualmente aberrantes. Ignoram, decerto, que quem passa o ano inteiro a pastar não dispõe da presença de espírito necessária para pensar em que dia da semana está quando se lhe apresenta a festiva oportunidade de se atirar de cabeça ao delicado pitéu da entremeada.

Carta aberta

Excelso engenheiro:
Compreendo bem a solidão em que actualmente viverá, ainda por cima cônscio de que é mais popular no estrangeiro do que entre os compatriotas a que tem devotado o seu incansável e genial labor. Há-de ser particularmente doloroso, imagino, estar na posição de ter a consciência de que ainda está para nascer o português que, em matéria de défice, se lhe possa equiparar, motivo pelo qual venho, por este meio, comunicar-lhe que tentarei hoje mesmo conceber essa desejada criança. Para tanto me postarei defronte da Faculdade de Ciências, disponível para procriar com alguma aluna de Matemáticas que por ali circule o desejado que, finalmente, possa assegurar o futuro da pátria, sucedendo humildemente a si, senhor engenheiro, e ao doutor Oliveira Salazar, que deus o tenha, também ele um especialista nisso de enfrentar o défice com o mesmo arrojo temerário que, em gloriosos tempos, os corajosos lusitanos dedicaram ao Adamastor.
Cordialmente, um seu criado

quinta-feira, 16 de julho de 2009

MFA

“Há estados socialistas e estados capitalistas e há o estado a que isto chegou”.
Isto terá dito Salgueiro Maia, a 24 de Abril de 1974, antes de sair do quartel de Santarém para permitir que a poesia saísse à rua e Portugal tivesse direito a um novo “dia inicial inteiro e limpo”. “O estado a que isto chegou” parece-me hoje uma expressão que descreve particularmente bem o, digamos assim, estado em que as coisas estão - em Portugal, no mundo e dentro da minha cabeça, na minha vida, debaixo da minha pele. “O estado a que isto chegou”, pois. Não é preciso um mestrado em História para saber como se faz para acabar com isto: basta um grupo relativamente bem organizado de indivíduos que os tenham no sítio. O caso complica-se, porém, numa terra de cobardes, num país de cobardes, numa vida medricas.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Péssangas

Nas brincadeiras infantis havia uma espécie de palavra mágica que suspendia as regras e nos salvava de situações difíceis: péssangas. Estávamos quase a ser apanhados nas caçadinhas e gritávamos “péssangas!” para parar o jogo. Era uma forma de batota, sim, mas era também uma batota perfeitamente regulada e estabelecida – e que, de qualquer maneira, só estava ao alcance de quem fosse capaz de reagir rapidamente às situações, a tempo de evitar o pior. Era um jogo dentro do jogo. Um jogo de nervos, muito irritante, às vezes. Creio que abominava os miúdos que estavam sempre a pedir péssangas e que apenas atrapalhavam as brincadeiras.

É, bem sei, demasiado tarde: já aconteceu tudo o que estava para acontecer. Mas, mesmo assim, peço péssangas.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Loteamento

E talvez, afinal, se trate apenas de Julho, do mal de Julho. Por causa do final de Home, o filme de Ursula Meier, fui escutar Nina Simone outra vez e ouvi aqueles versos em que nunca tinha reparado: "She thinks her brown body/Has no glory./If she could dance/Naked,/Under palm trees/And see her image and realize/She would know/Yes, she would know". E, depois, uma coisa puxa pela outra, pus a tocar o CD do Vinucius, Toquinho, Jobim e Miucha, "gravado ao vivo no Canecão", e outra vez escutei a versão modificada de Carta ao Tom: onde normalmente se ouve "É, meu amigo, só resta uma certeza,/é preciso acabar com essa tristeza/É preciso inventar de novo o amor", há, antes, o velho Vinicius cantando, terrivelmente lúcido, aquele "meu amigo só resta uma certeza/É preciso acabar com a natureza/É melhor lotear o nosso amor". E faz sentido, parece, parti-lo aos bocados como a uma quinta abandonada e decrépita, a velha casa tomada pelos fantasmas, ameaçando ruir, e especular com ele, vender os lotes pelo melhor preço, permitir que aí nasçam urbanizações novas e bestialmente burguesas — e tirar o sentido das memórias, do passado, das frases que eram apenas frases e que o vento levou para outro lado, para outro homem, daquilo, enfim, que é só escombro, resto, cinza e nada. Faz sentido...