Vi de relance, nos telenoticiários da hora do almoço, uma primeira página de um jornal dedicada a anunciar que Paulo Portas, o presidente do CDS, acha mesmo, com muita força, que pode chegar a primeiro-ministro (longe vá o agoiro). Pergunto-me, entretanto, que ministério irá ocupar o benemérito Jacinto Leite Capelo Rego.
P.S.: Também achei muita piada ao modo como um dos jornalistas mudou rapidamente de assunto quando, durante a entrevista de ontem na RTP 1, o Francisco Louçã começou a falar do negócio dos submarinos e na sua conexão alemã. Hilariante.
Sexta-feira, 29 de Abril de 2011
Até já, David. Havemos de comer, beber e conversar no grande restaurante onde se juntam os bons homens

O David Lopes Ramos era um homem extraordinário. Culto, grande conversador, boa gente, jornalista, grande garfo, bom copo, era crítico de comidas e vinhos do Público. Trabalhei de perto com ele durante um ano, ao ponto de ter tido a ilusão de que tínhamos passado a ser amigos, embora fôssemos só companheiros de trabalho. Foi uma honra enorme ter trabalhado com o David e ter tido oportunidade para conversar com ele sobre tudo e mais alguma coisa quando só tínhamos que combinar qual seria o próximo trabalho dele para o Fugas. Parece que o David morreu. Eu tenho a certeza de que já está sentado ao lado direito de Baco na grande mesa à qual, com alguma sorte, me hei-de sentar também um dia destes. Até já, David. Podes ir encomendando os petiscos.
Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
Sítios aonde não devemos ir

Parábola nenhuma: os jornais, as revistas, as televisões e os sucedâneos respectivos estão cheios de secções dedicadas a indicar sítios imperdíveis, coisas que não devemos deixar de experimentar, restaurantes e bares absolutamente essenciais para o bem-estar do nosso umbigo, mas em lado nenhum, que me lembre, se listam os sítios que devemos evitar a todo o custo. E é pena. Evitavam-se algumas chatices.
Na agora tão afamada "noite do Porto" existe, por exemplo, um sítio muito trendy e especializado em tias, sobrinhas e respectivos patrocinadores, 3C de seu nome, à porta do qual, há alguns meses atrás, me pediram 50 euros só para franquear a porta. Supus, pelo preço, que devia tratar-se da única e verdadeira entrada do paraíso, mas, como só queria beber uma cerveja, segui adiante, à procura de uma casa de gente mais séria. Ontem, porém, havia menos potenciais clientes nas ruas e a dita porta encontrava-se escancarada. Ainda mais tentadora, a esplanada tinha lugares livres com vista para a noite cálida. Abanquei e pude constatar, dali a pouco, que tinha cometido um erro, na medida em que o dito tasco estiloso devia estar numa qualquer lista dos sítios a evitar: uma cerveja que às 11h00 custava dois euros passou, depois da meia-noite, a custar apenas um euro e meio. Questionada a funcionária que trouxe a segunda cerveja, explicou que os preços podem ser diferentes, mas apenas ao fim de semana. Como lhe assegurámos que não era disso que se tratava, mas de cervejas pedidas com meia hora de intervalo, ela pôs-se carrancuda e perguntou se queríamos outra cerveja com aquele ar de quem se sujeita a aturar mitras para sobreviver. Não volto a incomodá-la, evidentemente, nem a nenhum dos colegas. Fica na lista.
Também não devo voltar tão cedo à Casa do Livro, onde, em tempos, os clientes já foram atendidos com diligência e simpatia. Como parece que o vislumbre do sucesso sobe à cabeça de certas e determinadas pessoas, ontem, com a sala quase vazia, pedi um uísque para ajudar a digerir o jantar, mas, se dependesse da empregada que me atendeu, ainda lá estava sentado à espera, eventualmente um pouco afrontado, ou já coberto de teias de aranha. Também fica na lista. O que não falta por aí são sítios onde se sirvam bebidas alcoólicas.
Terça-feira, 26 de Abril de 2011
Ulisses, relatório de leitura
O Ulisses não quadra bem com as tardes de sol à beira-mar. Qualquer movimento ao redor, uma gaivota passando, um gesto de alguém, o guincho de uma criança, o vento no cabelo, tudo me distrai, tudo me faz voltar os olhos a um lado e outro (ou deverei dizer voltivoltear os divagolhos?), não sei exactamente se para me certificar do que existe à volta ou se, apenas, para fugir do livro. Recomeço e recomeço e recomeço a leitura. Aborreço-me e regresso precipitadamente a casa. Apesar de tudo, já passei a página duzentos. Esta manhã, por exemplo, prendeu-me a atenção a descrição de um cartaz de um combate de boxe, Myler Keogh contra o sargento Benett, o qual estava marcado para o dia do meu aniversário. A "droga da coisa", porém, já tinha acontecido, o que me pareceu muitíssimo conveniente. Devia suceder com todos os meus aniversários e todos os dias santos, todas as celebrações "obrigatórias" - já terem passado quando se reparasse nelas.
Segunda-feira, 25 de Abril de 2011
O equilíbrio impossível*

Sempre que uma obra de ficção parece ser absolutamente espantosa e inventiva, o mais provável é que a realidade se tenha antecipado e conseguido ser ainda mais surpreendente e rocambolesca. Voltei a ter certeza disto por causa de Imposible equilibrio, o romance que o argentino Mempo Giardinelli publicou em 1995. Nesse livro, Mempo imagina que as autoridades de uma cidadezinha do Chaco, Puerto Barranqueras, resolvem combater uma praga vegetal importando uma pequena colónia de hipopótamos, animais que, sendo herbívoros de grande apetite, se alimentariam das plantas invasoras e ainda dinamizariam a economia e o turismo local. A decisão é anunciada com pompa e circunstância, num discurso que, como entre nós, não dispensa o auto-elogio à capacidade de, a cada instante, tomar as melhores, mais sábias e difíceis decisões em prol da pátria. Tal como, cá e lá, sucede com outras extraordinárias realizações públicas, a ideia da importação dos hipopótamos tem resultados desastrosos, mas, ainda assim, muito úteis para a economia narrativa. Sucedem-se as peripécias e os momentos de alta comicidade, de tal modo incríveis que o leitor supõe que coisas daquelas só aconteçam nos livros.
Puro engano. Soube recentemente que a história dos hipopótamos de Puerto Barranqueras pode, afinal, ter sido decalcada da realidade quase a régua e esquadro, imitando aquilo que sucede na Colômbia desde que o narcotraficante Pablo Escobar foi preso e o casal de hipopótamos que ele tinha no jardim ficou entregue à sua sorte. Um documentário recente do colombiano Antonio von Hildebrand revela como, em 1983, os animais chegaram à Colômbia num avião Hércules, na companhia de outros animais exóticos que deviam povoar o zoológico privado que Escobar criara na Hacienda Nápoles. Quando, dez anos depois, o traficante morreu, o contingente de cisnes, girafas, gazelas, zebras, cangurus, leões, crocodilos e tigres ficou entregue à sua sorte. Muitos dos animais foram roubados e até cozinhados e comidos, mas os dois hipopótamos sobreviveram e deram origem a uma numerosa e bem alimentada prole. São cerca de trinta e, constituindo a primeira comunidade desta espécie a viver em liberdade longe de África, vagueiam à vontade pela Colômbia, arrasando culturas, derrubando cercas, matando gado e assustando as populações da região.
“De todos os problemas que Pablo Escobar trouxe ao país, só nos faltava uma peste de hipopótamos a circular livremente e a flutuar pelas águas, sem que ninguém consiga controlá-los”, disse Antonio von Hildebrand aquando da apresentação do filme Pablo’s Hippos no Festival Internacional de Cartagena das Índias. Como todos os absurdos se parecem, um tipo lê as histórias do Chaco e da Hacienda Nápoles e, vá-se lá saber porquê, acaba pensando nas exóticas espécies de políticos e burocratas que cresceram alimentando-se avidamente da forragem da pátria, os quais, reproduzindo-se a cada ciclo eleitoral, acabaram conduzindo ao impossível equilíbrio das contas públicas portuguesas.
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 12 de Abril de 2011
Quinta-feira, 21 de Abril de 2011
Quarta-feira, 20 de Abril de 2011
As grandes criticas de Rui Rio ao regime que o sustenta [actualizado]
Tenho andado um pouco indiferente à estupidez alheia, já que sou bastante auto-suficiente neste departamento, mas não pude deixar de reparar nisto: depois de ter enchido as ruas e praças da cidade com bandeirinhas, pendões, cartazes e outdoors anunciando os seus “grandes debate do regime” – convém dizer ao povo que os debates são grandes, não vá o povo pensar que se trata de uma coisa sem importância e apenas destinada à auto-promoção a expensas do colectivo –, o doutor Rui Rio aproveitou uma cerimónia de entrega de umas medalhas para voltar a pronunciar-se sobre o “desgaste do regime”, advogar a respectiva “reformulação” e criticar os partidos. Rui Rio, porém, é um indivíduo que vive há várias décadas no âmago do regime, que tem beneficiado dos partidos para obter cargos na Assembleia da República e na Câmara do Porto, e que, tanto quanto se consegue perceber, também não terá sido capaz de melhorar nem um bocadinho o partido do qual é militante e do qual até foi vice-presidente há relativamente pouco tempo. Em todo o caso, a relação dos roedores com os navios em dificuldade está sobejamente descrita em vários tipos de literatura.
P.S.: apercebi-me, entretanto, de que o ecuménico autarca também apelou ao "entendimento" entre os partidos. Basta, porém, ter alguma vez assistido a uma reunião pública do executivo da Câmara do Porto para constatar como Rio (des)trata os eleitos dos outros partidos; e para perceber como aquilo que ele diz são apenas palavras para enganar os telejornais e quem os vê.
P.S.: apercebi-me, entretanto, de que o ecuménico autarca também apelou ao "entendimento" entre os partidos. Basta, porém, ter alguma vez assistido a uma reunião pública do executivo da Câmara do Porto para constatar como Rio (des)trata os eleitos dos outros partidos; e para perceber como aquilo que ele diz são apenas palavras para enganar os telejornais e quem os vê.
Adenda um pouco tardia a uma história submarina
Segunda-feira, 18 de Abril de 2011
Trepar às árvores*

Comemorou-se há coisa de uma semana*, e eu não sabia, o Dia Internacional de Subir às Árvores. Parece que é uma data marcada pelos ideais da ecologia e dedicada a “alertar para o mau uso que tem sido dado ao espaço florestal no nosso território”, invadido por “espécies florestais exóticas”. Embora simpatize com a ideia de encontrar “as pontes comuns de afecto e cumplicidade” entre o Homem e a Natureza, acho que o dia da festa foi muito mal escolhido. Se fosse eu a mandar, o Dia Internacional de Subir às Árvores comemorar-se-ia a 15 de Junho, na data em que, no ano de 1767, Cosimo Piovasco de Rondó, o ficcional Barão de Ombrosa, decidiu passar a viver em cima das árvores sem jamais pôr um pé no chão, conforme vem contado no romance O Barão Trepador, de Italo Calvino.
Segundo o comunicado que recebi por e-mail, o Dia Internacional de Subir às Árvores foi comemorado na Mata do Choupal, em Coimbra. Terá havido um piquenique, uma sessão de “dança natural” e um passeio guiado. No fim, os convivas treparam simbolicamente às árvores e apetece-me supor que alguns humanos chegaram a piar e chilrear para tentar corrigir o lapso da fauna coimbrã relatada no célebre poema do brasileiro Gonçalves Dias (“Minha terra tem palmeiras/onde canta o sabiá;/ as aves, que aqui gorjeiam,/ não gorjeiam como lá”).
No mesmo dia em que, em Coimbra, os ecologistas imitaram Cosimo Piovasco de Rondó e treparam às árvores, eu andei a caminhar pela Mata da Penoita, em Vouzela, entre coníferas belas como nos bosques dos gnomos e carvalhos antigos cobertos de um musgo muito verde e espesso. Sendo algo excêntrico, senti-me na mata quase como se estivesse em casa, escutando o pio dos pássaros, apanhando chuva e ouvindo o vento soprar nos ramos mais altos. Em nenhum momento, porém, me ocorreu trepar a essas encantadoras árvores cobertas de verde. Também não cedi ao impulso insensato de abraçar com força cada um dos carvalhos velhos, nem à ideia de ali montar uma cabana, mesmo se, às vezes, me apetece muitíssimo esconder-me num sítio aonde não cheguem as notícias do rating, dos juros da dívida pública e da campanha eleitoral em curso.
Perdi, pois, uma oportunidade excelente para imitar Cosimo e passar a viver uma existência selvagem e um pouco tola, alimentando a utopia de criar, entre as árvores, uma república de cidadãos livres e justos. Mas nem tudo está perdido. Não se diz em lado nenhum, no comunicado da semana passada, que os participantes da festa do Choupal desceram das árvores após o “momento culminante” em que treparam aos choupos, aos plátanos e às nogueiras-pretas. Posso, assim, imaginar que eles ainda lá estão, coerentemente acocorados nos ramos e aprendendo a viver como o adolescente Barão de Ombrosa. Uma semana será pouco tempo para que já lá tenham estabelecido uma sociedade mais justa, mas agrada-me pensar, ainda assim, que os amigos das árvores de Coimbra conseguiram, entretanto, fazer alguns avanços. Se as coisas estiverem a correr bem, já devem ser capazes de imitar o sabiá.
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 5 de Abril de 2011
Domingo, 17 de Abril de 2011
E entretanto a Clarineide ganhou asas e voou
Obrigado, Paulinho. Dito assim, com o sotaque desse lado, até parece letra de samba.
Crónicas do autocarro#72
Se há pessoas com mais sorte do que as demais, a mulher da camisa cor-de-rosa é indiscutivelmente uma dessas poucas felizardas às quais a vida corre até melhor do que a conta, pois parece que não lhes falta nada e até ficam agoniadas com a fartura que se lhes põe no prato. Tem, pelos vistos, um marido que não lembra ao diabo e que deve ser uma jóia de um homem, uma vez que, segundo pudemos ouvir todos, ele vai ao talho e faz as compras. “Põem-me tudo em casa”, vinha a tal mulher contando a duas amigas uma tarde destas, gabando-se um pouco, é verdade, mas também informando que a carne e o peixe a enojam um pouco, à carne, então, parece que lhe ganhou “coisa”, “aversão”, pelo que ela agora já quase só come sopa. Ora isto, já se sabe, há sopas e sopas, e até sobre este tão particular assunto uma viagem de autocarro pode ser rica e bestialmente instrutiva. Graças à torrente verbal da mulher da camisa-cor-de-rosa – que ia ao hospital com as amigas no dia seguinte, mas não era, de certeza, por nenhum mal da garganta -, fiquei a saber que existe algures uma pastelaria que tem uma sopa muito boa, completamente diferente de uma outra sopa que a cidadã tinha comido um dia destes, que era só espinafres e água. Uma sopa “em condições”, fiquei ainda a saber, “tem que ter os legumes todos” e não ser só aquela porcaria dos espinafres com água. “Se eu quiser água, compro uma garrafa”, disse a mulher antes de sair do autocarro. E é, com efeito, muito bem observado.
Sexta-feira, 15 de Abril de 2011
Crónicas do autocarro#71
Podia evidentemente tentar arranjar uma desculpa qualquer, ou atribuir a responsabilidade do lapso a outra pessoa, conforme o ar dos tempos, mas só existe um motivo verdadeiro para o facto de aqui não ter ainda discorrido sobre a mais extraordinária utente do autocarro das nove e dez. Refiro-me, evidentemente, à minha proverbial e comprovada incompetência literária, a qual não me permite descrever correctamente a irmã mais nova da mais regular passageira do autocarro em causa. Porém, e para que fiquem, ao menos, com uma pálida ideia, direi que é uma jovem gordalhufa e muito curiosa, que usa o cabelo curto e pintado de louro claro, com uma grande farripa ondulada diante dos olhos. Tem várias tatuagens no corpo, incluindo um anjinho de bom tamanho no braço direito, e usa calças três números abaixo do que seria minimamente aconselhável, circunstância que permite aos utentes dos transportes públicos estarem sempre a par das cores e dos padrões das bragas da moça. Não se trata, porém, de uma visão agradável e já me habituei a aproveitar os momentos em que ela se levanta para passar a contemplar melancolicamente as pedras da rua, o movimento dos transeuntes ou o voo elíptico dos passarinhos.
Esta manhã, a presença da rapariga impôs-se-me mais do que é comum, uma vez que ela vinha a protestar contra uma colega das limpezas, a qual, pelos vistos, não trabalha o que deve. “Não vou andar eu a fazer o trabalho dela, que não sou preta nem nada”, foi o que declarou para os autos, tendo a irmã assentido e comentado, logo depois, que agora já nem esses, os pretos, trabalham. Tratou-se, pois, de um belo momento de convívio e reflexão sobre as complexidades do mercado de trabalho. No banco ali ao lado, ainda por cima, ia sentada a Clarineide, a qual também é um bocado preta e parece que não anda nas limpezas. Ia, a propósito, a bebericar de uma lata daquela bebida que dá asas ou lá o que é, e tenho pena, sinceramente, de não ter podido seguir no autocarro durante mais um bocadinho para ver se, depois, a brasileira mamalhuda saía ou não da viatura em pleno voo, conforme os desenhos animados.
Quinta-feira, 14 de Abril de 2011
Ora agora mamas tu, ora agora mamas tu outra vez

Li esta notícia no El País de hoje e, como tenho os pirulitos um bocado trasnviados, lembrei-me do FMI. Ou melhor: lembrei-me de todas as instituições que, nos últimos trinta ou quarenta anos, fizeram as vezes da florida teta na qual Portugal mamou com a força toda, para usar uma expressão particularmente gráfica do doutor Mário Soares. Há muita gente, com efeito, que passou décadas a mamar, como o Bebé Glotón. São exactamente os mesmos que, com o mesmo ar inocente do bonequito, se preparam agora para continuar a chupar o que houver, venha do FMI ou de outro lado qualquer.
Terça-feira, 12 de Abril de 2011
O eterno dilema da escolha entre os aldrabões e os mentirosos
Terei eventualmente escutado mal, mas isto foi o que ouvi com estes que a terra há-de comer e tal. Numa entrevista à TVI, ontem, Pedro Passos Coelho, o bom rapaz, reconheceu que o aldrabão do primeiro-ministro lhe telefonou na véspera da apresentação do PEC4 para lhe dar a conhecer o novo pacote de medidas de austeridade. Ora, se a memória também não me engana, o chumbo do PEC4 e o consequente convite à entrada do FMI e das suas medidas ainda mais austeras foi justificado, na altura, pelo facto de Sócrates ter ido apresentá-lo a Bruxelas sem antes dele ter dado conhecimento “aos portugueses”. Entre os aldrabões e os mentirosos, ficaremos, pois, muito bem entregues. E com isto encerrarei, na medida do possível, o expediente político. Se fossem mas é todos nadar na piscina de Fukushima...
We all live in a yellow submarine

Num tribunal de Munique, na Alemanha, dois indivíduos foram acusados de corrupção, por alegadamente terem pago subornos de 62 milhões de euros para garantir que a empresa Ferrostaal vendia submarinos a Portugal e à Grécia. A Ferrostaal, pelos vistos, nem sequer refuta a acusação e estará disponível para resolver o assunto com o pagamento de uma multa. Curiosamente, ou talvez não, em Portugal não há notícia do que possa ter sucedido aos indivíduos que, do lado de cá, se abotoaram com uma parte desses 62 milhões. Era, contudo, uma coisa que convinha ver esclarecida, até porque vai haver eleições, os submarinos também ajudaram ao défice e ao descalabro das contas públicas e, afinal, talvez algum dos contemplados pelo Totoloto alemão esteja na fila de espera para se sentar num ministério qualquer de um governo no qual Rui Rio, o Gato das Botas e o Chapeleiro Doido também já estejam a marcar lugar.
Segunda-feira, 11 de Abril de 2011
Economia Local*

© Teatro Anatómico 2011
Numa outra manhã qualquer talvez me ocorressem pensamentos mais festivos, mas chove com razoável intensidade e, por isso, vim para o trabalho vendo a cidade molhada pelo vidro embaciado do autocarro e recordando Dublinesca, o romance de Enrique Vila-Matas no qual cai uma chuva permanente. Lembro-me disto porque chove aqui como no livro, mas também porque Samuel Ribas, o editor aposentado que está no centro da narrativa, confessa que “sempre admirou os escritores que, cada dia, empreendem uma viagem rumo ao desconhecido e, no entanto, estão o tempo todo sentados num quarto”, em lugares de solidão absoluta; sítios como imagino que tenha sido a caverna de São Macário no alto da Serra da Arada.
Estive lá no domingo, exposto ao vento inclemente e assistindo ao pesado cortejo das nuvens sobre as enormes montanhas. Procurei imaginar o que faria um homem naquele cume, longe de tudo, talvez percorrendo os penhascos de xisto apoiado num cajado, recolhendo ervas e raízes, e pareceu-me que São Macário podia ter sido um escritor como Hölderlin e Emily Dickinson, ou como Montaigne fechado na sua torre, finalmente livre do mundo e capaz, por isso, de meditar nele e de mergulhar em zonas de profunda perplexidade. Pensei nisto e senti uma ponta de inveja e a vontade difusa de me perder também num sítio distante da crise orçamental e da campanha eleitoral em curso, das pequenas hipocrisias do quotidiano e da sensação de sufoco e desorientação, de falta de perspectivas; um ermo onde pudesse encontrar um rumo sem a confusão e todo o ruído inútil do século XXI.
Depois de ter estado no alto da Serra da Arada, de onde me pareceu que se pode contemplar o mundo sem escutar a sua insensatez, desci ao fundo da garganta sem horizontes onde está a Aldeia da Pena. É um pequeno aglomerado de casitas de xisto, a maioria em ruínas, algumas feitas de novo, onde residem permanentemente apenas oito pessoas. O lugar está num fundão rodeado de montanhas e nem sequer o vento lá chega.
Parecia o refúgio ideal para um desses escritores “que empreendem uma viagem rumo ao desconhecido”. Depois, porém, notei que também ali há automóveis e antenas parabólicas nos telhados. Na fachada de uma construção de xisto em ruínas, exibia-se um cartaz insolitamente vermelho, com um número de telefone e a palavra “VENDE-SE”, como em qualquer subúrbio atingido pela crise do subprime. Na “adega típica” da qual dependem mais de metade dos habitantes, o café custa setenta cêntimos e, de repente, pareceu-me que ninguém pode morar ali e, ao mesmo tempo, estar longe do mundo, apesar das galinhas que correm a esconder-se dos visitantes e da ausência de gente nas ruelas. Chove na aldeia como no livro de Vila-Matas, mas já não me parece aconselhável perder-me na Pena, quanto mais não seja porque oito pessoas são sempre uma multidão e nem ali evito a memória funesta do paleio dos economistas. Compro, por isso, um frasco de mel. É a minha modesta contribuição para impulsionar a economia local.
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 29 de Março de 2011
Sexta-feira, 8 de Abril de 2011
"Se alguém se engana com seu ar sisudo /E lhes franqueia as portas à chegada"...
Num dia era o caos, no outro a Bolsa de Lisboa já ia de vento em popa. Parece que foi mesmo a "praça financeira" europeia que mais cresceu durante o dia ora findo, "impulsionada", como dizem os jornalistas de economês, pelos "ganhos" dos mesmos bancos que ainda anteontem tinham sido rebaixados a lixo e que agonizavam incapazes de continuar a financiar a falida pátria. Não tem nada que enganar: com o pedido de ajuda externa, chega também dinheiro fresquinho. Os vampiros ficam contentes. Já podem comprar o novo Jaguar.
Quinta-feira, 7 de Abril de 2011
E não se esqueçam de continuar a ouvir atentamente os profissionais do sacrifício

Tal como tem sucedido, dia sim/dia não, de há coisa de um ano para cá, os jornais amanheceram anunciando os sacrifícios que vamos ter que fazer e as dificuldades em que vamos viver nos anos que aí vêm. Independentemente do partido pelo qual fazem claque, os inteligentes do costume são unânimes nisto: vamos ter que fazer sacrifícios. O plural é, aqui, obviamente majestático. Nenhum dos indivíduos que nos anunciam sacrifícios pertence às classes sociais que vão ter que fazer sacrifícios. São profissionais do sacrifício, mas apenas do sacrifício dos outros, evidentemente.
Parece que vamos ter ajuda externa, mas eu sinto-me tão lixo como anteontem
A crise é francamente exagerada, mesmo se o rating da república passou a lixo. Eu sinto-me lixo com certa frequência, aí uns cinco dias por semana, há vários anos. No início aleija um bocado, mas depois um gajo habitua-se.
Quarta-feira, 6 de Abril de 2011
Crónicas do autocarro#70
Os taxistas não andam bons e, pelos vistos, a culpa deve ser atribuída quase inteiramente à Primavera, à subida das temperaturas e ao surgimento de umas “coisinhas frescas” circulando à solta pela cidade. No autocarro, porém, a saúde mental dos utentes não parece muito melhor. Só assim se explica que haja gente estudando impressos da Harvard School of Business enquanto vai do Pinheiro Manso a Cedofeita, ou carregando códigos de Direito Civil com papelinhos amarelos a marcar as páginas. E há ainda uma mulher que esta manhã regressava ao trabalho perfeitamente consciente de que devia ter aproveitado para ficar em casa mais uns dias. De férias?, pergunta a amiga. Que não, responde a combalida utente. "De baixa". Mais concretamente de baixa passada pelo Hospital de Magalhães Lemos, que é a única instituição pública capaz de fazer arrefecer os ânimos entre criada e patroa quando aquela chegou ao ponto de ter vontade de dar com a esfregona na cabeça da empregadora. “Não tenho medo dela”, diz, no que parece encarnar o primeiro-ministro naqueles momentos em que se põe em bicos de pés para garantir que defende a pátria contra tudo, todos e tal. Talvez fosse o caso, também, de mandar o engenheiro Sócrates à consulta no Magalhães Lemos. Ou à bruxa.
Terça-feira, 5 de Abril de 2011
Como a grande literatura consegue antecipar os acontecimentos fundamentais da humanidade

Por incrível que isto possa parecer às pessoas que não acreditam em fenómenos paranormais (entre as quais, aliás, orgulhosamente me incluo), o segundo capítulo do Ulisses contém uma misteriosa passagem na qual figuram as frases "italiano feroz com chicote", "Ruby: o orgulho do picadeiro" e "deve ser Ruby orgulho do sobre o chão nu". Por Zeus! Ou Joyce era um rematado espírita ou o Berlusconi tem muito mais idade do que aquela que a cirurgia plástica moderna consegue disfarçar.
Segunda-feira, 4 de Abril de 2011
Primaveris piropos*

Ontem, Dia Mundial da Poesia e da Árvore, da Floresta e das demais coisas da natureza, o jornal espanhol El País conseguiu, creio que involuntariamente, a proeza de juntar os dois assuntos num só texto jornalístico dedicado ao declínio do galanteio. Há, com efeito, poucas coisas mais poéticas e primaveris do que o piropo da anedota dos dois trolhas que, para meterem conversa com uma transeunte, deitam mão a vários recursos estilísticos para comentarem, quando ela passa, lépida e fresca, aquele lírico “inda dizem qu’as flores num andum... num andum o carago é que num andum!” (na versão censurada do mais tripeiro dos operários, evidentemente).
Como bem nota o supracitado artigo, o piropo do trolha (ou do taxista, ou do executivo engatatão) é uma tradição dos países mediterrânicos e árabes (que os portugueses, por exemplo, exportaram para o Brasil com assinalável sucesso). Contudo, com a triste agonia do galanteio soez, por via do progressivo esbatimento do machismo nas sociedades, perde-se também, conforme assinala uma catedrática espanhola, alguma coisa do subtil culto da retórica e dos jogos de palavras, da linguagem metafórica e hiperbólica que rege os melhores piropos. E elimina-se um mecanismo social que, de algum modo, permitia a comunicação entre classes distintas e, digamos assim, o convívio entre estranhos, agora tão limitado aos “gosto disto” do Facebook e quejandos.
Para as pessoas mais susceptíveis, a lisonja de andaime tem ainda um carácter agressivo, discriminatório, bárbaro e sexista, sendo um resquício de uma sociedade que maltrata e coisifica a mulher. Em certa medida e em algumas circunstâncias, é-o efectivamente. Mas também conheço muito boa gente que já se dedica a recolher piropos (como aquele subtilíssimo “que ricas pernas; a que horas abrem?”). Trata-se, creio, de um trabalho de pura etnologia. Um dia, quando o último galanteador humilde tiver desaparecido, sentiremos falta da inventividade e do colorido dos piropos, pelo menos daquilo que neles há de homenagem à poesia em movimento de uma mulher bonita caminhando pela rua de uma cidade. Veja-se, por exemplo, o caso de Garota de Ipanema, a célebre canção de Vinicius de Moraes e António Carlos Jobim, que não é senão um piropo em verso: “Olha que coisa mais linda/Mais cheia de graça...”.
Observada a linha do bom senso e do bom gosto que separa a agressão do galanteio, creio que teríamos a ganhar com a generalização igualitária do piropo. Um mundo sem discriminação de género não será aquele do qual o piropo tenha sido banido, mas aquele onde homens e mulheres o pratiquem com equanimidade. Dou um exemplo: uma noite, ao sair de um bar, uma mulher (obviamente já um pouco ébria) que estava encostada a um carro viu-me passar e portou-se “como um gajo”. Fiz como as senhoras sérias de outros tempos (que não tinham ouvidos) e segui o meu caminho, nada escandalizado com o piropo, mas constrangido, afinal, com a falta de poesia da coisa. Ela tinha dito “que giro”. Só isto - sem árvores, flores ou poesia.
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 22 de Março de 2011
Domingo, 3 de Abril de 2011
Estádio da falta de luz
Se era para poupar electricidade por causa da crise e assim, podiam ter aproveitado para poupar também a água da rega, até porque suponho que os campeões devem estar agora a tomar um (merecido) banho de água quente. Mas nunca se sabe. Nunca se sabe.
Sexta-feira, 1 de Abril de 2011
Bombas inteligentes que só matassem um bocadinho
Segundo uma notícia do DN de hoje, um padre católico, representante do Vaticano na Líbia, afirma que os bombardeamentos da NATO naquele país estão a provocar vítimas civis: pelo menos 40 pessoas terão morrido no desmoronamento de um único edifício em Tripoli. Tem piada. Eu estava absolutamente convencido de que os bombardeamentos da NATO se destinavam mesmo a proteger os civis líbios e que as bombas lá lançadas eram precisas e inteligentíssimas, capazes de distinguir com certeza absoluta os bons dos maus e de atingir, ferir e matar apenas estes últimos. A NATO é tão bondosa e virtuosa que eu imaginei que também só matasse os maus um bocadinho, para que eles depois se arrependessem e pudessem passar a viver segundo a linha justa do Ocidente e dos seus (novos) aliados de Bengasi.
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