quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Elche
A exposição J. Laurent e Portugal - Fotografia do século XIX, patente no Centro Português de Fotografia, tem bastante interesse documental, ou não pudesse ali avistar-se como era a marginal ribeirinha do Porto em 1869, com a Alfândega Nova em construção e o velho Palácio de Cristal erguendo-se na arriba de Massarelos, ou verem-se os príncipes portugueses vestidos e penteados como se fossem menininhas loiras. A imagem que mais me prendeu a atenção, porém, foi uma vista de 1870 de um canal de irrigação em Elche, Alicante, Espanha. Os muros do canal, a cortina de palmeiras altas ou não sei muito bem o quê fizeram-me recordar a levada da Cidade Velha de Santiago, em Cabo Verde, como se alguma coisa muito ténue e perturbadora pudesse ligar Elche do século XIX e a Cidade Velha do século XXI .
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Saudades de Paris

Bem curioso é o funcionamento do mecanismo que regula a associação de ideias e gera as belas coincidências. Mal tinha, um dia destes, acabado de ler a passagem de Fiesta na qual Jake Barnes passeia pela parisiense Île de Saint-Louis, quando, pela noite, escutei a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade falar na televisão sobre o acordeonista de rua (húngaro, parece) que ela se habituou a escutar quando atravessava uma das pontes de acesso à ilha, a caminho da casa onde já não mora. Lembrei-me, acto contínuo, da minha única passagem por Saint-Louis, num domingo à tarde, e fui mordido pela língua bífida da nostalgia e da saudade. Logo me ocorreu também o conto Las Babas del Diablo, do argentino Julio Cortázar, que deu origem ao filme Blow-Up, de Michelangelo Antonioni, e cuja acção, ao contrário do que sucede no filme, decorre precisamente na pequena ilha onde Mayra Andrade morou durante oito anos, salvo erro.
Quem perceba um pouco o funcionamento desregrado do cérebro de certos parasitas do alheio (normalmente designados pela equívoca expressão “escritor”), compreenderá que a semana estava definitivamente comprometida para a lida das questões comuns e mais talhada para o devaneio. Um tema tocado a meio de um concerto de jazz entre o arvoredo de Serralves obrigou-me a recordar a infinita melancolia de Round Midnight, o filme de Bertrand Tavernier sobre as ruínas de um velho saxofonista norte-americano em Paris. Depois, à noite, a Orquestra Jazz de Matosinhos tocou duas vezes (duas!) April in Paris durante o concerto dedicado à big band de Count Basie - e fazia ainda mais sentido que dançássemos em vez de ficarmos sentados nas cadeiras do Teatro Constantino Nery, que Mayra Andrade ali estivesse e pudéssemos dançar juntos, ela sorrindo daquele modo encantador e muito luminoso que, quando passa pela Pont de Sully, deve fazer com que seja sempre Abril em Paris outra vez.
Imagino, pois, esse acordeonista húngaro que, durante oito anos, viu passar regularmente Mayra Andrade, e que, vendo-a, não dizia uma palavra e apenas dedilhava uma ou outra daquelas romanticíssimas canções que compõem a mágica e vaporosa banda-sonora de Paris; imagino-o e prefiro que seja, antes, Roberto Michel, o tradutor chileno do conto de Córtazar, agora acordeonista amador (em vez de fotógrafo nas horas vagas), que vem para a rua tocar melodias para combater o vazio e a excessiva imobilidade da máquina de escrever Remington (“petrificada com esse aspecto duplamente quieto que têm as coisas móveis que se não movem”) e assiste, não a um homicídio, mas à fulguração quotidiana de Mayra Andrade vinda dos lados do Boulevard Saint-Germain. E que, em vez de um conto muito angustiado, Cortázar escreveria antes sobre o suave milagre que é ver circular a menina crioula pelas ruas de Paris, com olhos muito grandes, em cuja alvíssima córnea há um ponto negro que os torna ainda mais únicos. Como um dia de sol em Paris.
Crónica publicada no P2 do Público, no dia 21 de Julho de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há nova remessa. Ficam avisados.
domingo, 25 de outubro de 2009
Uma ideia
Tenho, às vezes, excelentes ideias, mas, sendo, como são, excelentes ideias minhas, sucede-lhes pecarem por ser também algo tardias e, quando se vai a ver bem, não são, afinal, tão boas ideias quanto isso. Por exemplo: ocorreu-me que poderia ser bastante divertido estar a escrever durante a noite passada, no momento, sempre misterioso, em que o relógio anda para trás e, sendo uma da manhã, volta a ser meia-noite outra vez. Imagino isto: que estava a escrever qualquer coisa entre a meia-noite e a uma, febril e inspiradamente (como sucede aos escritores a sério), e que, nesse intervalo, chegava a criar alguma coisa particularmente brilhante ou, vá lá, ao menos um pouco interessante (sonhar não custa nada). Estava, pois, escrevendo, castigando o teclado do computador, uma frase atrás da outra, todas com nexo e sentido, entusiasmando-me. À uma da manhã, sem ter noção das horas, recosto-me na cadeira, passo a mão pelo cabelo, acendo uma cigarrilha e pisco os olhos no exacto instante em que volta a ser meia-noite. Fecho, pois, os olhos apenas durante uma fracção de segundo, mas, quando volto a abri-los e a olhar para o monitor, constato que se apagaram todas as letras, pontos, vírgulas, parêntesis e travessões – gosto de escrever com parêntesis e travessões - que tinha estado a juntar desde a meia-noite anterior. Reparo nisto e não tenho como saber se aconteceu de facto ou se estou a inventá-lo agora mesmo.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Alice do outro lado do espelho
Que não haja a mais pequena dúvida. Este é um post para guardar e mostrar aos meus netos (e às minhas netas), na exacta medida em que consubstancia um momento absolutamente irrepetível e que, até esta manhã, julgava pertencer à esfera da pura impossibilidade – mais precisamente o momento em que o meu nome e o do Chico Buarque surgem na mesma frase sem ser para estabelecer algum tipo de comparação negativa do género “o Marmelo jamais será o Chico Buarque” ou “o Chico Buarque eu sei quem é, o Marmelo é que, sinceramente, não estou a ver”. Consumado o improvável instante, convirá agora ter em conta que Alice, a autora da extraordinária façanha, é o nome de uma bem conhecida personagem de ficção, a qual atravessou um espelho e ficou a viver num mundo completamente obnóxio e destrambelhado. Talvez isto explique alguma coisa.
Falência ou maldição
Só hoje é que dei por isto. Lamento muito. Publiquei com a Quasi três livros (O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo, O Peixe Baltazar e Uma Família Inglesa adaptado para crianças). Fico um pouco sem ar: em menos de um ano, é a minha segunda editora que declara falência (antes foi a Campo das Letras). Temo pelas outras que me publicaram, a Asa, a Caminho, a Quetzal. Ocorre-me que, se calhar, transporto algum tipo de maldição. Talvez escreva um livro sobre isto: um autor funesto e negro, amaldiçoado, que leva à falência todas as editoras em que publica os seus livros.
Deus
Sobretudo não aceito o teu Deus — murmura Johnny —. Não me venhas com isso, não o permito. Se realmente está do outro lado da porta, não quero saber. Não há nenhum mérito em passar para o outro lado se é ele quem te abre a porta. Desfazê-la a pontapés, sim. Parti-la com murros, ejacular contra a porta, mijar um dia inteiro para a porta. Naquele dia em Nova Iorque, acho que abri a porta com a minha música, mas tive que parar e, então, o maldito fechou-ma na cara apenas porque nunca lhe rezei, porque nunca lhe vou rezar e porque não quero ter nada a ver com esse porteiro de libré, esse abridor de portas a troco de uma esmola, esse...
Do conto O Perseguidor, de Julio Cortázar, no livro Las Armas Secretas. Tradução caseirinha.
Do conto O Perseguidor, de Julio Cortázar, no livro Las Armas Secretas. Tradução caseirinha.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Super-homem
Uma amiga sonhou comigo. Segundo conta, alguma coisa enorme e pesada ia cair sobre a filha dela quando eu, vindo sabe-se lá de onde, rápido como um raio, apareci para salvar o dia. Bem vistas as coisas, há inúmeras semelhanças entre mim e Clark Kent, o Super-Homem. Usamos os dois óculos para trabalhar. E ambos nos fazemos passar por jornalistas.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Viagens adiadas
Na autobiografia Vivê-la para contá-la, o escritor colombiano Gabriel García Márquez revela que encontrou numa viagem de comboio o nome para a ficcional aldeia de “vinte casas de barro e cana” onde decorre a acção de Cem Anos de Solidão. Macondo era o nome de uma quinta bananeira pela qual, às onze horas, passavam as carruagens a caminho de Aracataca, para onde o pequeno Gabito costumava viajar com o avô.
Macondo é, como Shangri-La, Xanadu e Nárnia, uma das mil e duzentas localidades imaginárias que o escritor argentino Alberto Manguel recenseou para escrever o Dictionary of Imaginary Places, um livro que apresenta descrições e mapas de sítios que, desde Homero, foram visitados pela ficção sem terem existido no mundo real. Como Macondo, também ali deve figurar Comala, aldeia sem ruídos e sem gente, com as ruas calcetadas com pedras redondas, as casas vazias, “as portas fora dos gonzos, invadidas pela erva capitã”. Trata-se da cidade onde deveria ser possível encontrar Pedro Páramo, o móbil do extraordinário romance homónimo do mexicano Juan Rulfo.
Sendo tão imaginária como Macondo, Comala, segundo parece, foi baptizada a partir do nome de um povoado da zona de Colima, no México. Porém, e segundo li já não sei onde, nada na aparência arborizada e plana da região de Colima convida a imaginar a terra em brasas, qual boca do inferno, que é a Comala da ficção. Prefiro pensar, aliás, que o nome do lugar inventado de Juan Rulfo foi decalcado da Comala que existe na região de Nampula, no Norte de Moçambique.
Nunca estive em Comala, mas, às vezes, visito-a a partir das altitudes do Google Maps: sigo com o cursor a estrada 106 que sobe de Alua para Metoro e que, depois, torce em direcção ao mar, até Pemba. Comala fica à esquerda. Vista do ar, assemelha-se a uma pintura abstracta em tons verdes, com manchas acastanhadas, mas a povoação, parece, fica numa nódoa escura da geografia, imprecisa e vaga. Gosto de supor que se trata de uma região quente e com uma vegetação escassa e rasteira, a qual, num ano de seca, facilmente se transformaria num cenário plausível para a visita do filho de Pedro Páramo.
Mas a Comala de Rulfo, eu sei, não existe. Deve, por isso, constar no livro de Manguel. E também lá deviam figurar outras cidades imaginárias, como Paris, Barcelona, Praga, Salvador e Luanda. Quando fui a Paris, por exemplo, não encontrei sinal nenhum da Paris de Céline. Barcelona é só uma sombra pálida da Barcelona de Montalbán, Vila-Matas ou Zafón. Praga é um bilhete-postal aonde não há lugar para as metamorfoses de Kafka. Mindelo é mais sab nas mornas de Ildo Lobo. Luanda é hostil como não vem em nenhum dos livros do Ondjaki. E Salvador não tem quase nada da magia dos romances de Jorge Amado. Temo, por isso, que o Rio de Janeiro não guarde nenhuma semelhança com os romances do Rubem Fonseca ou com os versos do Tom Jobim, e que Buenos Aires não se pareça com a letra de um tango. Por isso adio as viagens.
Crónica publicada no P2 do Público, no dia 30 de Junho de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há mais. Ficam avisados.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Caim
Simpatizo com o espírito blasfemo das declarações de José Saramago na apresentação do romance Caim, mas também me parece que se trata de um truque de marketing relativamente gasto e cansado (por muito que a Igreja continue a morder o isco), e que criticar o catolicismo é uma actividade que não carece, hoje, de especial coragem. A Bíblia poderá ser, sim, um “manual de maus costumes”, uma “invenção”, um “absurdo” e um “disparate”, mas, bem vistas as coisas, os católicos e as suas fantasias já não representam uma ameaça para quase ninguém. A esmagadora maioria dos católicos não segue a Bíblia e está-se a borrifar para as encíclicas e ordens papais. Usam preservativo e pecam abundantemente. Gostava que, no fim da vida, Saramago utilizasse o prestígio que dá ser Nobel e se dedicasse a combater crenças e religiões que, igualmente assentes em “maus costumes”, “invenções” e “disparates”, ainda produzem danos efectivos, que proíbem, coarctam a liberdade individual, ameaçam e matam. Talvez o mundo, um dia, pudesse agradecer-lhe.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Tejo
Quando se entra na Praça do Comércio vindo do Rossio, o rio Tejo fede. Suponho, por isso, que haja muito lodo no cais. Ou em algum dos ministérios.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Lápis cor-de-rosa
Podia ter-me apaixonado por Bety se não me tivesse apaixonado antes pela história dela. Quis, ao ouvi-la, realizar um documentário. Depois ocorreu-me escrever um romance ou um conto. E depois o documentário outra vez. Mas agora tenho quase a certeza de que não farei coisa nenhuma. Há emoções que não se explicam - são coisas de guardar só no peito.
Bety. Vi-a atravessar a esplanada da residencial Sodad, no topo de uma engelha vulcânica da cidade do Mindelo, em Cabo Verde, e pareceu-me que presenciava uma aparição pagã. Ela é uma mulher alta e sem erros, como uma estátua grega, e tinha a cabeça envolta num pano, como outra africana qualquer. Vi-a e pareceu-me possível que Bety flutuasse entre as mesas em vez de caminhar, sorrindo como uma soberana que saudasse os súbditos com uma peculiar cumplicidade. Não teria, ainda assim, ousado importuná-la se não tivesse ela condescendido em falar comigo na descida da Rua Franz Fanon. "Boa tarde", disse - e eu estremeci, estranhando ver Bety conviver com mortais comuns e sorrir exibindo os dentes encantadoramente tortos (suponho que por desfastio, só para imitar as imperfeições humanas).
Feitas as apresentações, soube que Bety é angolana de Benguela, que se mudou para a cidade da Praia ainda criança, quando a insanidade da guerra chegou ao quintal da casa dela, e que em Cabo Verde se fez bailarina e coreógrafa da companhia Raiz di Polon. Bety contou isto à mesa, no fim de um almoço ao qual se juntou o Valdemar, um actor do Porto que, na mesma altura, fugiu de Benguela para Gondomar: não se conheciam, mas tinham chorado ambos, assustados, quando, meninos postos a salvo da guerra, escutavam os rebentamentos do fogo-de-artifício dos arraiais populares.
Bety desfiou, depois, memórias de uma infância aparentemente feliz, com uma mesa grande debaixo da sombra de mamoeiros e árvores de fruta-pão, e, pondo-se sonhadora, disse a frase que nunca mais esqueci: "Penso muitas vezes que vou voltar um dia à minha casa e que, quando chegar, vou encontrar o meu saco azul no sítio onde o deixei pela última vez; e que, lá dentro, estarão o caderno de capa preta e o meu lápis cor-de-rosa".
Em torno da mesa havia uma tarde muito luminosa e a baía do Mindelo preguiçava deliciosamente, bonit de dar um aperto bom no korasom e espantar as melancolias para longe. Quando ouvi a frase, aquela frase, senti, porém, que a paisagem se tinha apagado, que não fazia já falta nenhuma, como se fosse possível viver apenas dentro daquilo que Bety contava com palavras lentas e doces: as memórias de um sítio de África que a guerra transtornou e o sonho de regressar um dia para reencontrar a infância interrompida e transplantada para um desses grãos de pó que compõem o arquipélago de Cabo Verde. Tive vontade de levar Bety pela mão de volta à casa de Benguela para resgatarmos juntos o poético resíduo da menina que ela tinha sido: o lápis cor-de-rosa.
Crónica publicada no P2 do Público, no dia 9 de Junho de 2009
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Correio azul para o ego
"Queira desculpar a forma e o conteúdo singelo, mas uma coisa lhe tenho a dizer: você escreve p´ra caralho". (do e-mail de um leitor)
Se é verdade que qualquer ego aprecia ser mimado e massajado, um ego tripeiro e algo bruto valoriza sobremaneira o elogio que recorre à hipérbole vernacular. Obrigado.
Se é verdade que qualquer ego aprecia ser mimado e massajado, um ego tripeiro e algo bruto valoriza sobremaneira o elogio que recorre à hipérbole vernacular. Obrigado.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Ressaca eleitoral
A ser verdade que muitos comunistas votaram em António Costa para evitar o regresso de Santa Lopes à presidência da Câmara de Lisboa, fica demonstrado que os camaradas continuam perfeitamente capazes de engolir sapos. E que gostam deles gordinhos.
A ser verdade que os opositores a Rui Rio são um pequeno grupo de celerados sem ligação ao sentimento profundo da cidade do Porto, o melhor que têm a fazer é uma lobotomia que os impeça de constatar a pobreza franciscana que os outros não querem ver.
A ser verdade que os opositores a Rui Rio são um pequeno grupo de celerados sem ligação ao sentimento profundo da cidade do Porto, o melhor que têm a fazer é uma lobotomia que os impeça de constatar a pobreza franciscana que os outros não querem ver.
Praia dos Ingleses
A Praia dos Ingleses não tem quase nada que a recomende: é um areal curto limitado por duas aflorações rochosas e encaixado entre o mar frio e turbulento do Norte e o ruído do trânsito da marginal do Porto. Mas o nome tem uma certa ressonância romântica, como uma pátina invisível.
Uma vez que não se encontram lá, agora, ingleses nenhuns, suponho que a toponímia do lugar se deva ao facto de o areal ter sido utilizado, noutros tempos, pela burguesa colónia britânica instalada no Porto para o comércio de vinhos. Imagino-os saídos directamente de Uma Família Inglesa, o romance de Júlio Dinis, eles molhando-se até aos tornozelos metidos em fatos de banho de corpo inteiro, às riscas horizontais, os bigodes retorcidos e praticando algum sport, e elas com vestidos vaporosos e sombrinhas, relativamente parecidas com Ann Rhys-More, a personagem que a actriz Maria João Bastos desempenha na série televisiva Equador, excepto pelo facto de serem, as inglesas, efectivamente loiras e menos afoitas em tirar a roupa para fazerem amor na rebentação das ondas.
A Praia dos Ingleses tem também uma esplanada tipo deck, suspensa em pilares sobre um rochedo aonde as ondas vêm rebentar com grande estrépito nos dias em que o mar está bravo. Gosto de me sentar ali ao fim da tarde e de render homenagem aos velhos espíritos do lugar: acendo uma cigarrilha, peço um gin-tonic (apenas potável) e fico a ler romances e a devanear vagamente, observando o lento trânsito das nuvens sopradas pela nortada da Foz.
A partir da esplanada pode igualmente observar-se um grupo de mulheres maduras e um pouco obesas, que aproveitam cada tarde de sol para ficarem a tisnar a pele encostadas ao muro alto que serve de suporte à Rua do Coronel Raul Peres. Estão sempre lá (embora tenham menos graça no Verão), bronzeando-se quase integralmente, com os seios fartos (e um pouco flácidos) expostos à ventania.
Gosto daquelas mulheres. Deixam-se estar deitadas na areia, conversando despreocupadamente sobre assuntos do quotidiano, e há nos seus corpos uma sensualidade cansada, algo paquidérmica, misto de pose pouco estudada e puro abandono aos prazeres do sol. Quando tenho o espírito inclinado para elucubrações mais elaboradas, acho as banhistas da Praia dos Ingleses semelhantes às pequenas estátuas das Vénus antigas e férteis. Outras vezes parecem compor quadros vivos de certas pinturas do renascimento, boticellianas, ou, ainda, estarem ali fazendo pose para uma imaginária pintura de Fernando Botero. Mas, se penso bem no assunto, as banhistas assemelham-se realmente, isso sim, às quatro toscas baigneuses que Picasso desenhou em 1920. Melhor ainda: são exactamente como um quimérico quadro que juntasse a compleição física das baigneuses e o seu cenário com o olhar melancólico e a pose das célebres Demoiselles d’Avignon, menos bicudas, e com certa languidez no olhar.
Acresce que este ano, segundo parece, a Praia dos Ingleses vai ter uma bandeira azul – azul como um dos períodos de Picasso.
Crónica publicada no P2 do Público, no dia 2 de Junho de 2009
sábado, 10 de outubro de 2009
Saúde
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
De Malta
Segundo o bem informado Diário de Notícias, existem indivíduos que afirmam ser cavaleiros da ordem de malta e que estão preocupados com o facto de um outro grupo de sujeitos, falsos cavaleiros da ordem de malta, andar pelo país, a troco de dinheiro, organizando falsas cerimónias de investidura de pessoas que pretendem ser também cavaleiros da ordem de malta e que estão dispostas a pagar por isso. Não vejo, assim de repente, qual o interesse que pode haver em ser cavaleiro da ordem de malta, verdadeiro ou falso, mas suponho que se deva à minha ignorância o facto de não ter grande vida social nem património imobiliário que se veja. Também julgava que os cavaleiros verdadeiros se distinguiam dos falsos pela presença de um cavalo entre as pernas dos ditos, mas parece que não é exactamente assim e que, por outro lado, as instituições psiquiátricas não tomam medidas. Tudo isto me inquieta um pouco, confesso.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Insensatez
Quando, muito de vez em quando, dedico algum tempo a pensar no assunto, sou igualmente forçado a concluir que o Teatro Anatómico também tem muy pouco interesse. Como se mantê-lo não fosse já atrevimento bastante, ainda o exibo insensatamente na maior das superfícies que conheço.
Muy pequeno
Mais do que as mensagens de leitores, que qualquer ser escrevente aprecia, gosto particularmente das mensagens de não-leitores. Uma leitora deste Teatro Anatómico, não-leitora, porém, de outras coisas que fui escrevendo, revela-me, por exemplo, que me tinha por “um autor de títulos de grandes superfícies, mas de muy pequeno interesse”. É um erro muito comum: creio que há muito tempo não se encontram livros meus nas grandes superfícies. Tenho, na verdade, andado por aí a dar uma voltas e constatei que não se encontram livros meus em quase lado nenhum.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
O missionário
Estou bestialmente satisfeito esta manhã. Graças ao frade polaco Ksawery Knotz, os meus amigos que crêem em deus, no respectivo filho e no espírito santo estão doravante autorizados a manter uma vida sexual “divertida” e “vibrante”, com posições variadas e a possibilidade de recorrerem à estimulação manual e oral. Não sei como suportarão o choque de tanta liberalidade depois de, durante anos (décadas!), terem vivido limitados à potencialmente aborrecida posição do missionário, mas tenho a certeza de que, libertados pelo livro “Sexo como não conhece: para casais que amam a deus”, escrito pelo frade Knotz, e tocados pelo poder curativo e vivificador do sexo em deus, vão agora ser pessoas muito mais felizes e, se calhar, melhores colegas de trabalho e melhores cidadãos.
Eu bem os via por aí com cara de quem pensa que o sexo deve ser “triste como um hino de igreja tradicional”, atormentados pela possibilidade de deus sair de uma nuvem para vir apontá-los a dedo e condená-los pela impura prática da fornicação – eu via-os, apiedava-me deles e perguntava-me como podia ser tal coisa, tanto aborrecimento, tão pouco gosto na vida. Por isso fotocopiarei hoje mesmo o artigo do P2 dedicado ao livro do bom frade Knotz e distribuirei imediatamente a boa nova entre os macambúzios: segundo garante o frade Knotz (a conservadora igreja polaca assina por baixo), deus quer que o casamento inclua “brincadeiras frívolas, fantasia e posições atraentes”; deus autoriza, afinal, aquilo que julgáveis ordinário e até, às vezes, um pouco porco, desde que evidentemente não o façais com alguém que não seja o vosso cônjuge.
É preciso que haja limites, sim, mas, exceptuando o pecado venial do demoníaco preservativo, quase tudo o resto é, afinal, permitido pela santa madre igreja e aconselhado pelo frade Knotz em nome da sagrada harmonia do casal. Trata-se, evidentemente, de um desígnio maior, ingente, pelo que, creio, teria sido bastante útil que a alguém tivesse ocorrido aproveitar os ajuntamentos católicos que na última semana ocorreram em Fátima e junto à estátua do Cristo Rei para aí se dar a conhecer a bela e abençoada novidade aos fiéis; que, sei lá, a Caritas tivesse produzido uma brochura explicativa ou que o cardeal Saraiva Martins referisse o assunto na homilia da margem sul, explicando como, à imagem da estátua de Almada, também o sexo poderá “unir-nos a todos num abraço”.
Não quero parecer demasiado optimista, mas, havendo tantos séculos de falsas convicções e preconceitos para deitar para trás das costas, parece-me que seria de alguma utilidade se, nesta matéria, a igreja levasse a palma ao Estado e iniciasse os seus petizes na educação sexual desde as mais tenras idades, dando nova utilidade ao ramerrão da catequese. Que se insista, pois, na leitura do Cântico dos Cânticos (“Queremos contigo exultar de gozo e alegria/celebrando tuas carícias, superiores ao vinho”) e se explique aos futuros cônjuges a posição da tigresa e da catapulta, a do nó de cobra, a da pequena sereia e a do parafuso tal como Vatsyayana, esse visionário, as descreveu no Kama Sutra.
Crónica publicada no P2 do Público, no dia 19 de Maio de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Lembrete para quando terminar de ler Mishima
Voltar a ler Cortázar – tenho que reler Julio Cortázar com carácter de urgência. Os efeitos disto podem não ser evidentes para os restantes representantes da espécie humana, mas eu, ao menos, alimento a ilusão de que escrevo melhor enquanto estou a ler Julio Cortázar. É uma vaidade como outra qualquer, não o nego, às vezes tenho estes surtos de soberba, sendo que, mesmo assim, não sei se é lá grande cartão-de-visita o facto de escrever um bocadinho melhor por causa de outro escritor, por sugestão dele ou simples imitação. Seja como for, vou primeiro acabar de ler Mishima, O Tumulto das Ondas, até porque ainda não desisti de que Hatsue volte a despir-se e a mostrar o peito a Shinji. Não é a mesma coisa ler Mishima e ler Cortázar, mas gosto de ver o peito de Hatsue tal como Mishima o escreve.
Vísceras
Os discursos presidenciais de Jorge Sampaio não eram fáceis de entender: as frases eram longas, com várias orações intercaladas e palavras pouco usadas. Havia sempre necessidade de tradução, de alguém que, enfim, simplificasse e resumisse o discurso de Sampaio. Já os discursos de Cavaco Silva, que só contam com palavras simples e incluem perguntas tão patéticas como “será que alguém pode ter acesso aos meus e-mails?”, são vagos, vazios, imprecisos e pouco esclarecedores, semeados de frases enigmáticas que podem querer dizer coisas diferentes consoante o prisma pelo qual se leiam. Há nisto, é verdade, algumas vantagens. Desde logo, as comunicações de Cavaco ao país podem chegar a agradar a toda a gente, desde que não se espere que sirvam para alguma coisa de substancial ou para esclarecer o que quer que seja. Mas Cavaco, se não precisa de tradutor, necessita de intérpretes, de vários intérpretes, de um intérprete para cada uma das mensagens que se queira extrair dos discursos. E é tão diversificado aquilo que se pode ler num discurso que não diz nada que, na verdade, os intérpretes de Cavaco fazem lembrar certos xamãs dedicados a adivinhar o futuro nas vísceras dos animais.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Tango Lesson (ou como ter saudades de Lisandro López)
O tango é, desde ontem, Património Mundial, segundo foi declarado pela Unesco. Como aprendi a gostar de tango muito por causa do filme Tango Lesson, de Sally Porter, e de uma cena em concreto, na qual Sally Potter e Pablo Veron dançam o Libertango de Piazzola, uso-os para assinalar o facto e, vá lá, para confessar que, apesar de Falcao, tenho ainda um bocadinho de saudades do Lisandro López.
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