terça-feira, 25 de agosto de 2026

Então não come nada?

 Regresso, mais de um mês volvido, à minha habitual dieta (à qual, tragicamente, falta agora a cigarrilha pós-prandial). Num restaurante a que recorro irregularmente, e apenas em caso de emergência, solicito a minha dose de tripas com feijão. Sirvo-me duas vezes, liberalmente, o que não chega para fazer justiça à abundante ração. Precocemente enfartado, peço o café e a conta. Horrorizado pelo desperdício, o serviçal interroga-me: 

- Então não come nada?

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Outra coruja responde

 Depois que se extingue a chinfrineira da festa da vila, o sossego regressa ao casario branco. Uma osga desce a parede e come o seu mosquito. Os gatos vadios guerreiam-se antes de se amarem sobre as pedras da calçada. Ao longe, uma coruja pia. Numa árvore mais próxima, outra coruja responde. Pela janela aberta passa o ar fresco da madrugada.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A amante antropófaga

 Carlos Fradique Mendes irrompe perto do final d'O Mistério da Estrada de Sintra para chocar os aristocratas com a história da sua paixão mística por uma negra antropófaga. Diz ele que, "um dia, exaltado de amor", arregaçou a manga e deixou que ela lhe arrancasse um pedaço de carne com os dentes. Depois de mastigar, a negra quis comer mais. E ele, claro, permitiu-o. 

Trata-se, creio, de uma extraordinária parábola do tempo que vivemos. Cada dentada da insânia, da estupidez e da mentira desbragada levam consigo o que resta da decência de cada um, da nossa dignidade, da nossa humanidade. E, todavia, continuamos, de manga arregaçada, a estender-lhes o braço — obedientemente.

sábado, 1 de agosto de 2026

Inteligências menos estúpidas (reloaded)

 O Teatro Anatómico atingiu em Julho as 18.731 visualizações, estabelecendo um novo recorde absoluto desde a sua criação no tempo já longínquo em que ainda se usava ler blogues. Bem sei que as visitas registadas não correspondem a uma realidade efectiva e que, diz quem sabe, este intumescimento se deve à actividade de bots digitais que por aqui passam sabe-se lá com que obscuros propósitos. Sejamos, ainda assim, optimistas: é possível que este blogue esteja a contribuir activamente para que as inteligências artificiais fiquem um bocadinho menos estúpidas - nem que seja percebendo, por fim, que não há aqui nada que minimamente lhes possa interessar.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Revolução

 No livro Vita Contemplativa: ou sobre a Inatividade, o filósofo Byung-Chul Han considera que, «se hoje não parece possível uma revolução, talvez isso se deva ao facto de não termos tempo para pensar». Cada qual sabe de si, evidentemente. Pode-se perder tempo a ver a novela da noite, o concurso da praxe e o feed da rede social mais imbecil, ou a engolir as últimas tretas de um vigarista qualquer. Pensar é, em todo o caso, uma opção triste e solitária. Ninguém faz a revolução sozinho.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Um pouco mais saudável

 É bastante tocante que tantos profissionais de saúde pareçam sinceramente inquietos com o bem-estar do cidadão comum e anónimo. Desaconselham-lhe o álcool, o tabaco, as gorduras, a carne vermelha, o café, a carne de porco, a cenoura cozida, os açúcares, o sexo com desconhecidas, certas leguminosas, o sol sem protector... Eu sei lá. Paradoxalmente, nenhum doutor disto e daquilo alerta para os efeitos nocivos do trabalho, do consumo em prol do enriquecimento de terceiros, da fruição consciente dos noticiários ou do triste, mortal e pouco saudável que é estar vivo.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Tolerantes & pacientes

 Temos de ser tolerantes. Se, de um momento para o outro, fossem demitidos todos os governantes com problemas legais ou éticos (em Espinho, em Cascais, no Alentejo, nas escolas, nos hospitais, em Braga, no CCB, em S. João da Madeira, etc.), é muito provável que deixasse de haver um governo em funções. 

(O que, bem vistas as coisas, talvez não fosse a pior desgraça que nos poderia acontecer.)

Temos, por outro lado, de ser muitíssimo pacientes. Uma vez que os sujeitos não têm vergonha na cara e as sondagens indicam que "os portugueses" não desejam ir a eleições, estamos condenados a ter esta fraca gente posta em posição de nos prejudicar a existência, fazendo e mudando leis (que não pretendem respeitar).

domingo, 19 de julho de 2026

Zapping

 Apreciei muitíssimo o intervalo estratosférico que os azeiteiros norte-americanos inventaram para a final do Campeonato do Mundo. Deu para ir urinar com toda a tranquilidade e ainda consegui ver um episódio completo da Teoria do Big-Bang.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Mais um para a pandilha

 Conto-me entre os cidadãos que consideraram a escolha de Luís Neves para o Ministério da Administração Interna simultaneamente surpreendente e interessante. Enquanto director da PJ, Neves afirmava coisas sensatas, o que constitui, por si só, uma raridade. A realidade (e o tempo) encarregaram-se, porém, de demonstrar que Luís Neves é só mais um ministro com uma relação difícil com a ética e com a legalidade. O que, bem vistas as coisas, não tem qualquer significado. Eles são tantos que até parece que já quase ninguém quer saber. Instalou-se a sensação de que aqueles a quem cabe produzir as leis e fazê-las cumprir não se sentem abrangidos nem obrigados a cumprir as mesmas regras que impõem aos restantes. Já se percebeu quem, do ponto de vista político, mais ganha com isto, mas os partidos do poder continuam a assobiar para o lado e a fazer de conta. Quando a democracia acabar, eles encontrarão maneira de sobreviver.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Só falta o Tiririca

 Seguirei com grande atenção as eleições em Clacton, disputadas exclusivamente por dois arlequins profissionais: o líder fascista xenófobo Nigel Farage e um ator vestido de caixote do lixo. Só falta o palhaço Tiririca, o qual, há alguns anos, foi eleito deputado federal no Brasil com um lema de campanha («Pior não fica») que hoje, no ponto a que chegamos, soa estranhamente optimista.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Otchentcha e otcho

 Há algumas semanas que venho notando um certo frenesim entre o grupo de influenciadores televisivos empenhados em transformar Jorge Jesus em selecionador nacional de futebol. Parece-me uma excelente opção para uma equipa que pretenda continuar a perder jogos depois dos noventa minutos ou, vá lá, aos otchentcha e otcho.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Doutor da mula ruça

 Passaram 35 anos desde que, já jornalista de papel passado, me inscrevi na licenciatura de Filosofia da Faculdade de Letras do Porto. Sendo a vida próspera em reviravoltas inúmeras, só agora, após 33 anos de interrupção, terminei o curso. Passo, assim, a ser mais um desses rebarbativos doutores da mula ruça que o sistema produz às resmas para que o país saia um pouco menos boçal no retrato das estatísticas. E agora? Agora hei-de receber uma folha de papel, a qual, pelos vistos, terá, para certos efeitos, mais valor do que um currículo de quase 40 anos. Acresce que a reforma está cada vez mais longe e ninguém me mandou começar a trabalhar tão cedo. É bem feito!

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Não ter razão sabe tão bem

 Havia já começado a escrever o texto que assinalaria a aprovação pelo parlamento do pacote patronal do governo. Vai agora para o lixo, face ao chumbo do papelucho . E poucas vezes me agradou tanto não ter, afinal, razão antes do tempo.

Sustentava, no texto agora rebarbativo, que quando, há quase um ano, o governo apresentou a proposta destinada a alterar a legislação laboral, tornando-a ainda mais amiga dos patrões - impulso normalmente disfarçado pelo uso insistente dos chavões das "reformas" e do "aumento da produtividade", pau para quase toda a manobra -, parecia evidente que tinha já algum tipo de acordo firmado com o CH. De outro modo, um governo sem maioria no parlamento não se atreveria a tentar fazer aprovar uma lei tão daninha para a esmagadora maioria dos portugueses, ainda constituída por aqueles que têm de trabalhar para viver. Parecia-me, e ainda me parece, que tudo o que aconteceu nos últimos meses (suposta negociação, piruetas do CH, putativas cedências) não passara de uma longa encenação cujo enredo fatalmente conduziria ao desenlace que ontem parecia inevitável: com os OCS a acompanhar a novela com o mesmo desvelo que dedicam a qualquer outro fait-divers, tudo se conjugava para que Ventura aparecesse investido da qualidade de herói da classe operária, reivindicando a conquista de duas ou três migalhas e adoptado uma postura muitíssimo socialista (ainda que o seu único interesse pelos trabalhadores seja o mesmo que lhe dedicava o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, Partido Nazi para os amigos).

Certo é que, para todos os efeitos, o Mussolini da Musgueira fez ontem o número que dele se esperava; e todos deram como inevitável a aprovação do pacote. Mas Ventura recuou e hoje deu o dito por não dito (tudo normal, portanto). O que aconteceu entretanto? Foi reler o Mein Kampf ? O governo recuou em alguma das promessas que fizera? Os cheganos que são também trabalhadores (também havia nazis trabalhadores, como é óbvio) tiveram força suficiente para fazer recuar Ventura? As sondagens que apontam para o triunfo do CH sobre o PSD foram suficientes para fazer Ventura salivar de expectativa? Provavelmente nunca o saberemos.

Falta, por outro lado, saber até que ponto o resultado da votação de há pouco na Assembleia da República porá em causa outros conchavos e os correspondentes ataques da pandilha ao Estado de Direito Democrático, da revisão da Constituição ao fim da liberdade de opinião. Nada nos garante, à partida, que, com esta gente, não estará para vir algo ainda pior. Mas é como diz o povo: enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. 

Fiquemos atentos.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O que ainda não foi feito

 Parece tudo bem encaminhado para que se cumpra o desígnio da campanha de marketing lançada pela FPF a propósito da participação da seleção nacional de futebol no Campeonato do Mundo de 2026: "Fazer o que ainda não foi feito". 

A equipa, por exemplo, nunca havia empatado com a República Democrática do Congo (nem sequer com o Zaire), pelo que agarrou com ambas as mãos a possibilidade de alcançar um resultado inédito no jogo de ontem. E, uma vez que "as cores nacionais" também nunca defrontaram o Uzbequistão ou a Colômbia no escalão principal do futebol internacional, vai ser bastante fácil cumprir o objetivo traçado pelos responsáveis federativos: quer perca, ganhe ou empate, a seleção conquistará sempre um resultado que ainda não foi feito nos dois jogos da fase de grupos que ainda terá a maçada de disputar. 

Com algum empenho, e caso o Francisco Conceição não saia do banco, talvez o "onze nacional" consiga até bater o recorde mundial de passes para o lado e para trás; e apanhar pelo menos uma multa por excesso de falta de velocidade. Temos em nós todos os sonhos do mundo e deve mover-nos um impulso irrefreável para o incomum e para a glória. 

Parecia muitíssimo perspicaz, desde logo, que o lema adoptado pela seleção fosse um verso (ambicioso q.b.) de um conhecido artista nacional, mesmo que se trate de um artista nacional com evidentes problemas de visão. Mas, caso Portugal empate com o Uzbequistão e perca com a Colômbia, talvez sejamos forçados a concluir que não foi a mais feliz das escolhas. "Fazer o que ainda não foi feito" fica no ouvido e anima bastante os intermináveis directos televisivos, mas é capaz de não ser a proposta de trabalho mais adequada para um grupo de marmanjos mortinhos por ir de férias.

Constatando, por outro lado, a petulância de certas personagens, a soberba, a empáfia e até a vanglória que têm caracterizado o paleio futebolístico patrioteiro, será talvez adequado que comecemos desde já a ensaiar aqueles outros dois versos da mesma canção, nos quais o Abrunhosa diz que tem "uma mão cheia de nada" e que faz parte de "um todo imperfeito". Era bem feito.

terça-feira, 16 de junho de 2026

O vosso aplauso para o Inacreditável Circo Trump


 Para quem tivesse dúvidas sobre qual seria o desfecho do ataque terrorista lançado contra o Irão (e para quem tenha fraca memória): milhares de mortos depois, milhares de milhões de dólares de prejuízos depois (no Irão, na economia global, na carteira de vossa excelência...) e após milhares de milhões de inúteis gastos militares, vai continuar tudo como antes no Irão, em Israel, no Líbano e no Estreito de Ormuz. Claro que alguém lucrou com mais esta digressão do Inacreditável Circo Trump: os mesmos do costume. Aplaudam de pé que eles merecem. Só não precisam de pedir bis. Eles tratam disso já a seguir, em Cuba, na Gronelândia ou onde lhes pareça mais lucrativo montar a tenda.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Moralizar os subsídios (conforme Montenegro gosta)

 De acordo com uma notícia da agência Lusa publicada em vários OCS, a «verba (10 milhões de euros) para apoiar a compra de carros elétricos esgotou "em poucas horas"». Os autores do arrastão de fundos devem, de certeza, ter sido os beneficiários do RSI, mortinhos por sacar mais um subsídio do Estado.

As lesmas da minha infância

 Hei-de lembrar-me daquilo que o António Guerreiro hoje escreve na sua crónica semanal de todas as vezes que, na minha praceta, cair um chuvisco breve. É ainda comum, nessas ocasiões, que os caracóis abandonem os seus escaninhos entre a erva e se atrevam a cruzar os passeios com um vagar exasperante, sujeitando-se a serem calcados pelos pedestres desatentos. Migram, às vezes, famílias inteiras desses animais, os mais pequenos, quase sem carapaça, perseguindo os maiores e expondo-se igualmente ao infortúnio - mesmo à extinção. Pisarei doravante o chão com o maior cuidado, religiosamente, atormentado pela possibilidade de contribuir para o apocalipse e, ao mesmo tempo, entusiasmado pela eventualidade de poder ainda testemunhar o derradeiro assomo dessas lesmas com casa própria. E, por falar disso, o que é feito das grandes, das negras e peludas lesmas da minha infância?

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Para que não continue tudo na mesma

 Há alguns anos, em plena vigência da austeridade troikista, frequentei uma oficina de escrita de guiões para BD organizado pela editora Turbina, no âmbito da qual imaginei um super-herói desempregado, defensor dos humilhados e que se dedicava, nos seus sonhos, a tentar corrigir as (sempre galopantes) iniquidades sociais a que estamos sujeitos. A história, depois desenhada pelo Daniel Casal, integra o fanzine Memória da Crise.  

No recém-publicado romance O Dia da Morte do Primeiro-Ministro (Glaciar, Maio de 2026), o Nuno Casimiro arrisca algo ainda mais subversivo: uma onda de ações simbólicas de protesto que põe em evidência o estado a que chegamos na sequência do modelo económico-social imposto pela governação de Cavaco Silva. Combinando uma escrita ágil e um domínio exímio do ritmo narrativo e das técnicas de comunicação de massas, o livro propõe uma espécie de possível guião para que não continue tudo na mesma, bastante mais efectivo e sério do que o imbecil voto de protesto no grupo de mentirosos contumazes oportunisticamente reunidos em torno do grande manipulador Ventura.

Vale bastante a pena lê-lo e, por estes dias, será até possível conversar com o autor nas duas sessões de lançamento já anunciadas: em Lisboa, no domingo, 7 de Junho, às 17h00, no Auditório Norte da Feira do Livro, com apresentação de Nuno Ramos de Almeida; e no Porto, na segunda-feira, 8 de Junho, às 18h30, na Livraria Térmita (ao lado do bar Candelabro), com apresentação de Álvaro Domingues.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Uma greve contra o preconceito ideológico

 Este blogue, por mais irrelevante que seja, está hoje, e a partir de agora, 00:01 de 3 de junho, em greve geral. Fá-lo contra o preconceito ideológico de um governo que se mancomuna com os neofascistas cheganos a fim de privar aqueles que trabalham dos poucos direitos que ainda lhes restam; que, por puro preconceito ideológico, se recusa sequer a ter na mesa de negociação a maior central sindical do país; que, movido pelo mais básico preconceito ideológico, opta por criar problemas onde eles não existem e por proteger (ainda mais) a sua minúscula clientela de ultra-ricos e ultra-privilegiados, perseguindo os mais pobres, os deficientes, os velhos miseráveis que carecem da esmola do Estado; e que, por deformação de carácter, se apresentou a eleições, e foi eleito, sem sequer dizer seriamente ao que vinha. Talvez, na verdade, o maior pecado de Montenegro e dos seus serviçais não seja o preconceito ideológico. É mesmo uma questão de falta de integridade.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A indústria do esquecimento

 No romance O Impostor, dedicado a um cidadão espanhol que durante décadas se fez passar por vítima dos campos de concentração nazis, Javier Cercas atribui uma parte da responsabilidade pela impostura àquilo a que chama "a indústria da memória". Ter-se-ia dado, segundo o escritor, demasiada importância ao resgate da memória histórica em Espanha, a fim de expurgar a má consciência colectiva dos espanhóis relativamente ao modo como aceitaram a ditadura e a violência do regime franquista. 

Doze anos depois da publicação daquele livro, as observações de Cercas parecem, em grande medida, saídas de uma dimensão paralela da realidade: a memória extingue-se hoje mais depressa do que a chama de um fósforo (se é que alguém ainda se recorda do que seja um fósforo) e tem-se a impressão de que a maior parte da humanidade não se lembra sequer do que aconteceu ontem, estando, por isso, bastante disponível para acreditar em todas as patranhas que inventem os grandes manipuladores da nova indústria do esquecimento.