Carlos Fradique Mendes irrompe perto do final d'O Mistério da Estrada de Sintra para chocar os aristocratas com a história da sua paixão mística por uma negra antropófaga. Diz ele que, "um dia, exaltado de amor", arregaçou a manga e deixou que ela lhe arrancasse um pedaço de carne com os dentes. Depois de mastigar, a negra quis comer mais. E ele, claro, permitiu-o.
Trata-se, creio, de uma extraordinária parábola do tempo que vivemos. Cada dentada da insânia, da estupidez e da mentira desbragada levam consigo o que resta da decência de cada um, da nossa dignidade, da nossa humanidade. E, todavia, continuamos, de manga arregaçada, a estender-lhes o braço — obedientemente.