Hei-de lembrar-me daquilo que o António Guerreiro hoje escreve na sua crónica semanal de todas as vezes que, na minha praceta, cair um chuvisco breve. É ainda comum, nessas ocasiões, que os caracóis abandonem os seus escaninhos entre a erva e se atrevam a cruzar os passeios com um vagar exasperante, sujeitando-se a serem calcados pelos pedestres desatentos. Migram, às vezes, famílias inteiras desses animais, os mais pequenos, quase sem carapaça, perseguindo os maiores e expondo-se igualmente ao infortúnio - mesmo à extinção. Pisarei doravante o chão com o maior cuidado, religiosamente, atormentado pela possibilidade de contribuir para o apocalipse e, ao mesmo tempo, entusiasmado pela eventualidade de poder ainda testemunhar o derradeiro assomo dessas lesmas com casa própria. E, por falar disso, o que é feito das grandes, das negras e peludas lesmas da minha infância?