Parece tudo bem encaminhado para que se cumpra o desígnio da campanha de marketing lançada pela FPF a propósito da participação da seleção nacional de futebol no Campeonato do Mundo de 2026: "Fazer o que ainda não foi feito".
A equipa, por exemplo, nunca havia empatado com a República Democrática do Congo (nem sequer com o Zaire), pelo que agarrou com ambas as mãos a possibilidade de alcançar um resultado inédito no jogo de ontem. E, uma vez que "as cores nacionais" também nunca defrontaram o Uzbequistão ou a Colômbia no escalão principal do futebol internacional, vai ser bastante fácil cumprir o objetivo traçado pelos responsáveis federativos: quer perca, ganhe ou empate, a seleção conquistará sempre um resultado que ainda não foi feito nos dois jogos da fase de grupos que ainda terá a maçada de disputar.
Com algum empenho, e caso o Francisco Conceição não saia do banco, talvez o "onze nacional" consiga até bater o recorde mundial de passes para o lado e para trás; e apanhar pelo menos uma multa por excesso de falta de velocidade. Temos em nós todos os sonhos do mundo e deve mover-nos um impulso irrefreável para o incomum e para a glória.
Parecia muitíssimo perspicaz, desde logo, que o lema adoptado pela seleção fosse um verso (ambicioso q.b.) de um conhecido artista nacional, mesmo que se trate de um artista nacional com evidentes problemas de visão. Mas, caso Portugal empate com o Uzbequistão e perca com a Colômbia, talvez sejamos forçados a concluir que não foi a mais feliz das escolhas. "Fazer o que ainda não foi feito" fica no ouvido e anima bastante os intermináveis directos televisivos, mas é capaz de não ser a proposta de trabalho mais adequada para um grupo de marmanjos mortinhos por ir de férias.
Constatando, por outro lado, a petulância de certas personagens, a soberba, a empáfia e até a vanglória que têm caracterizado o paleio futebolístico patrioteiro, será talvez adequado que comecemos desde já a ensaiar aqueles outros dois versos da mesma canção, nos quais o Abrunhosa diz que tem "uma mão cheia de nada" e que faz parte de "um todo imperfeito". Era bem feito.