Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

Que força é essa, que força é essa...


Por força da excessiva proximidade física que se estabelece quando um número considerável de pessoas são amontoadas a trabalhar num espaço relativamente diminuto, ouvi esta semana um telefonema de um colega que versava sobre a venda de veículos de marca Porsche em Portugal. A despeito da penúria reinante, a empresa alemã já entregou, só este ano, qualquer coisa como duzentos automóveis aos seus novos donos, tendo ainda mais 150 encomendados, dos quais 55 são do modelo Cayenne em versão diesel (os mais caros). Fiz questão de confirmar os números no fim do telefonema, não fosse dar-se o caso de estar a ouvir mal ou de ter sido acometido por uma espécie de alucinação de classe. Mas era mesmo verdade: a crise no seu estado natural, esvoaçando selvagem sobre as nossas cabeças.

Visto que não podemos esperar nada do Estado, e muito menos que nos defenda ou que exerça algum tipo de arbitragem tendente ao estabelecimento de um limiar mínimo de justiça social (esse mito jurássico), tenho frequentemente dado por mim a cogitar na necessidade de enveredarmos pela acção directa ou por algum tipo de terrorismo com açúcar, que não magoe muito mas chateie substancialmente (para ver se não se chega ao ponto de nos parecer melhor a pura e simples anarquia). Alguma coisa, enfim, como correr a cidade enchendo estes carros, e as casas dos seus proprietários, de autocolantes difíceis de descolar, nos quais se lesse uma simples pergunta: quantos desgraçados custou este carro? Esta casa? A tua vida?

Crónicas do autocarro#88



E por falar nos juvenis devaneios adolescentes, notei hoje como a terceira idade acarreta uma sabedoria calma e doce. O velhote que vinha sentado ao meu lado, por exemplo, levantou-se para ceder o lugar a uma mulher sua conhecida, alardeando um cavalheirismo antigo e muito bonito. Alguns instantes antes, esse mesmo homem tinha feito o mesmo que fizeram todo os mânfios que viram a moça madura e excessiva que ia trotando pela Avenida da Boavista acima, posta num saltos altos e exposta pela resumida indumentária. Houve quem voltasse a cabeça para vê-la passar, quem quase rodasse nos calcanhares e quem se limitasse a acompanhar a moça com os olhos, sem que se pudesse dizer se estavam comandados pela cobiça ou apenas pela nostalgia. O velho cavalheiro mirou, trocou um olhar entendido com outro sexagenário que ia em pé junto à porta e foi este o único que falou. Tinha uma voz rouca e cava, pausada, e a expressão dura do rosto não se lhe alterou quando disse “a máquina de lavar”. Depois fez uma pausa dramática e eu acreditei na possibilidade de aprender uma metáfora completamente nova. Mas não. O homem que ia em pé acrescentou apenas um inocente “deve ter encolhido o vestido”. Só isto. Sem maldade nenhuma. Como se se compadecesse do azar da moça e da sorte dos outros todos. “A máquina de lavar deve ter encolhido o vestido”. A manhã ia saindo ao caminho do autocarro e os homens pareciam todos um pouco baralhados, fosse pelo primaveril das pernas ou pelo estranho Outono que não dá descanso aos corpos. O semáforo ficou verde e o autocarro seguiu adiante apaziguado pelas promessas do dia.

Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

Crónicas do autocarro#87



Os dramas da adolescência não cessam de me enternecer, facto que, quiçá, se deva à circunstância de, apesar da idade crescentemente provecta em que me encontro (trazei-me a bengala s.f.f.), ainda ter bem presente o drama da sobredose de hormonas em circulação na corrente sanguínea. Posso, pois, compreender perfeitamente os dois gandulos que, a vários metros de distância um do outro, ontem debatiam em voz alta a perversa circunstância de uma colega ter aparecido na aula de “física” (leia-se ginástica e não físico-química, nem física nuclear, nem, sequer, física quântica) com umas calças de fato de treino incompreensivelmente “largas”, privando os mocetões dos fulgores do regresso às aulas. Acresce que, este ano e para sossego do meu torturado espírito, já não tenho de ouvir estas pérolas imaginando que os morcões podiam perfeitamente estar a falar da minha filha.

Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011

Coincidências? Com mil demónios! Vejam lá se uma coisa destas pode ser só uma mera coincidência



Capas de livro, chapéus de côco e guarda-chuvas. Ele há cada uma...

E pronto, o coiso está baptizado pela crítica especializada



“Manuel Jorge Marmelo assume o pastiche desde a primeira página e com ele ergue uma narrativa poderosa onde os meandros meta-literários são, afinal, uma forma eficaz de pensar a intolerância”.

Sara Figueiredo Costa na Time Out Lisboa de hoje.

(o texto completo já pode ser lido no Cadeirão Voltaire).

Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

Paris não existe*



A cada um a sua nostalgia. Enquanto o regular e pacato contribuinte português há-de ter saudades do tempo em que se acreditava que os impostos serviam para sustentar um sistema socialmente justo de serviços públicos gratuitos e universais, Gil Pender, o personagem central de Meia-Noite em Paris, o mais recente filme de Woody Allen, prefere sonhar com aquela década de 1920 em que a capital francesa parecia ser o trepidante centro do mundo artístico. Sendo um ser ficcional e não tendo, por isso, de lidar com o absurdo e as decepções da realidade quotidiana, o candidato a escritor tem mais sorte do que qualquer um de nós, melancólicos financiadores, afinal, dos lucros presentes e futuros da alta finança internacional.

No filme, Gil Pender é abordado por um velho Peugeot (talvez um Type 105). Entra nele e, ao mesmo tempo, embarca numa espécie de Regresso ao Futuro. Viaja no tempo e vê-se a conviver com Zelda e F. Scott Fitzerald, com Pablo Picasso, com Gertrud Stein, com Cole Porter, com Salvador Dalí e com Man Ray, Buñuel, Joséphine Baker e Ernest Hemingway, mais o toureiro que há-de ser personagem do romance Fiesta. E também conhece Adriana, uma modelo de Picasso cuja nostalgia é a Belle Époque. Com ela, e graças à subtil magia do cinema e de Paris, viajará também até 1870 e aí conhecerá Toulouse-Lautrec, Paul Gauguin e Edgar Degas. Como ninguém está bem no tempo em que vive ou com a vida que tem, os românticos e os impressionistas padecem igualmente da nostalgia do passado e declaram o sonho de ter vivido num tempo ainda mais remoto. Parece, pois, que, conforme escreveu Enrique Vila-Matas, Paris nunca se acaba e que, mais do que isso, é possível que Paris se desdobre continuamente em novas realidades paralelas e em épocas luminosas e estimulantes, acompanhando a necessidade de vivermos outras vidas e outras eras.

Quando não está mergulhado naquela espécie de inebriante metarrealidade, Gil Pender não deixa de amar a Paris do presente, com os seus bistrôs e os comerciantes de antiguidades, as luzes e as pontes, a chuva e os infinitos recantos de uma cenário que parece ter sido criado para os sonhos e para condensar todos os passados que ali ocorreram. O filme de Woody Allen é tão bom que até dói, mas a Paris que nele aparece é apenas um cenário de bilhete-postal, no qual não tem lugar, por exemplo, a cidade marginal da Morte a Crédito de Céline, nem os carros ardendo à noite nos bairros da periferia, os assaltos nas esquinas mais sujas, os caixotes do lixo selados para prevenir atentados terroristas ou os detectores de metais na entrada dos museus. A Paris de Woody Allen não existe. É uma quimera, uma espécie de terra maravilhosa, de fábula, tão falsa e irreal como a ideia de um país chamado Portugal ter sido alguma vez bem gerido e um sítio cheio de futuro. Vivendo na “choldra ignóbil” de Eça, podemos sempre, ainda assim, inventar Paris - um sítio para onde se possa fugir, nem que seja, como na canção de Samuel Úria, apenas um refúgio construído de raiz “com cobertores, no chão”, onde esperaremos, encolhidos, que a crise passe.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 20 de Setembro de 2011

Domingo, 25 de Setembro de 2011

A vaca que ri


O que é um grande líder político? A resposta pode, evidentemente, variar de pessoa para pessoa, mas proponho, por uma vez sem exemplo, que se aceite como boa e mais ou menos consensual a definição segundo a qual um grande líder político é aquele que inspira os demais cidadãos e, motivando-os com o seu exemplo sábio, impulsiona o país a avançar; um homem, enfim, como Cavaco Silva, que é quase um poeta tocado pelo bucolismo e pela melancolia quando declara aos microfones dos jornalistas aglomerados nos Açores uma frase tão poderosa como “Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante”.

Pode alguém ficar indiferente? Não sei. Eu não fiquei. Inspirado pelo sábio exemplo do presidente providencial, pus-me também à procura de exemplo de pessoas, animais ou coisas satisfeitíssimas e cujos sorrisos devessem transformar-se, doravante, no emblema optimista que colarei na lapela para me recordar, a cada instante, a obrigação de estar também felicíssimo e sorridente, grato, quanto mais não seja, por viver num país onde há pastos verdejantes, vacas satisfeitas e presidentes sábios.

Fui, pois, e vi as árvores agitando festivamente os ramos e as folhas, as nuvens cruzando o céu num assomo de alegria, a própria luz solar satisfeitíssima por existir, os rios, regatos, riachos e ribeiros correndo à toa como crianças um pouco tolas, as ondas do mar felizes e enamoradas dos areais, os passarinhos trinando melodias que são hinos de alegria e inconsciência, animais pequenos e grandes a que só falta serem capazes de sorrir para serem o próprio espelho da maravilha do mundo, as gotas do orvalho cintilando, os ricos passeando nas avenidas nos seus carros descapotáveis, sorrindo, acenando-se uns aos outros das varandas à beira-mar, e mais as flores garridas numa festa de mil e uma cores. Vi, pois, o mundo satisfeitíssimo e sorridente das vacas e do nosso presidente, o país verdejante, enfim, dos que não pagam impostos ou sabem como lhes fugir. Obrigado.

Sábado, 24 de Setembro de 2011

Correrão os neutrinos mais depressa do que o Vítor Gaspar?


Extraordinário é o universo imenso. Num dia é anunciado que a luz, viajando a 299.792 quilómetros por segundo, pode, afinal, ser mais lenta do que os neutrinos, que são aparentemente capazes de correr a 299.798 quilómetros por segundo na pista do acelerador de partículas do CERN. Fiquei inocentemente à espera de suspeitas de corrupção entre os técnicos da cronometragem, ou de que alguém garantisse ter visto os neutrinos apanhados no pecado da falsa partida, quando Vítor Gaspar, o ministro das Finanças, provocou nova comoção por essas galáxias afora, citando Médico de Província, o texto de Franz Kafka, para explicar os desafios que enfrenta o governo português. “Passar receitas é fácil, conseguir um entendimento com as pessoas é difícil”, citou Gaspar. E os portugueses reagiram perplexos, provavelmente recordados dos cortes prometidos para a Saúde e imaginando os médicos do serviço nacional da dita citando a citação de Gaspar de cada vez que quiserem ver renovada a receita dos comprimidos para o coração, para as tensões, para os nervos ou para qualquer outro achaque da vida moderna. Os médicos tentarão, em vez de passar as receitas, conseguir um entendimento com as pessoas, conversando longamente e discorrendo sobre o memorando da troika, os cortes no rating ou os juros da dívida pública. Lá fora, indiferentes ao drama individual, os neutrinos continuarão a sua correria desenfreada e Gregório Sansão, o beneficiário número tantos de tal da caixa de previdência, esperará não acordar no dia seguinte transformado num insecto ou num qualquer Vítor Gaspar da vida.

Pronúncia do Norte



Uma Mentira Mil vezes Repetida no Ensaio Geral da Rádio Renascença. Ouvir aqui.

Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011

O coiso chega hoje às livrarias. Eis o texto da contracapa:


"Para escapar ao anonimato de uma vida comum, à solidão da escrita e ao esquecimento dos futuros leitores, o narrador de Uma Mentira Mil Vezes Repetida inventou uma obra monumental, um autor – um judeu húngaro com uma vida aventurosa – e uma miríade de personagens e de histórias que narra entusiasticamente a quem ao pé dele se senta nos transportes públicos. Assim vai desfiando as andanças literárias de Marcos Sacatepequez e o seu singular destino, a desgraça do Homem-Zebra de Polvorosa, o caos postal de Granada, a maldição do marinheiro Albrecht e as memórias do velho Afonso Cão, amigo de Cassiano Consciência, advogado e proprietário do único exemplar conhecido de Cidade Conquistada, a obra-prima de Oscar Schidinski. Enquanto o autocarro se aproxima de Cedofeita, ou pára na rua do Bolhão, quem o escuta viaja do Belize a Budapeste, passando pelas Honduras, por estâncias alpinas, por Toulon ou por Lisboa. Mas se o nosso narrador não encontrou a glória - senão por breves momentos e na mente alheada de quem cumpre uma rotina - talvez tenha encontrado o amor. Ou será ele também inventado?"

Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

Crónicas do autocarro#86



Haverá necessidade de continuar a bater no ceguinho (mesmo se se trata do ceguinho que, dotado do proverbial olho, é o rei da ilha dos cegos)? Não sei. Mas as dívidas da Madeira e o respectivo buraco orçamental parecem capazes de mobilizar o proletariado do autocarro, facto que constatei com não pouca surpresa. As duas profissionais das limpezas que escutei esta manhã vinham, por exemplo, francamente indignadas, seja com o buraco propriamente dito, seja com a pose desafiante do (já denominado) bicho da Madeira. Uma das valorosas e honestas mulheres considerou, até, que João Jardim há-de estar “demente”, embora ainda ninguém tenha reparado nisso. Convenhamos que é difícil. Para que tal hipótese se verificasse seria necessário que a), em determinado período prévio, Jardim tivesse conhecido um período de não demência; e b) que fosse possível observar diferenças substanciais no comportamento do indivíduo, as quais permitissem distinguir a sua fase demente daquela que possa ter sido o seu período “não demente”. Trata-se, efectivamente, de um assunto muito desafiante e que está mesmo a reclamar abordagem científica multidisciplinar (com powerpoint e tudo) por parte das chamadas ciências sociais e do comportamento. Há, pois, que trazer as mestrandas de Psicologia para o autocarro. Serão evidentemente muito bem-vindas.

Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

Deixai comer os passarinhos (que eles ficam mais tenros quando estão gorditos)


Há algumas semanas atrás, a Câmara do Porto, que tudo vê e tudo sabe (buuuhhuuuuuu), ameaçou com coimas (e creio que até com alguns açoites) os munícipes que se dedicam a alimentar os animais selvagens (a saber: pombas, gatos, cães e gaivotas) que demonstram ser suficientemente rijos para sobreviver num ambiente tão hostil como a cidade do Porto. Ignoro se já há cidadãos que, por causa disto, tenham sido multados (ou banidos do convívio social), mas, em todo o caso, reparei no cidadão que hoje andava de um lado para o outro junto aos paços do concelho, com uma velha mochila às costas, da qual caía um fio de uma espécie de farinha, criando atrás de si uma trilha quase invisível. Ponderei advertir o cidadão do facto e dizer-lhe que tinha a mochila rota, mas reparei que ele estendia a mão para as costas e deixava que o farelo lhe enchesse a mão. Acto contínuo, atirava aquilo para o chão, atraindo a passarada e, assim, desrespeitando a municipal postura mesmo nas barbas dos funcionários. As pombas vieram em bando, passaram sobre mim a voar e foram debicar do chão aquilo que devia ser uma espécie de milho moído. Achei tudo belíssimo — o desafio à autoridade, o dar de comer aos bichos e até uma certa poesia (digamos assim) que quis ver naquele gesto benévolo e caridoso. Os pombos hão-de acabar por ficar gordinhos e, afinal de contas, os tempos são de crise e até os indigentes carecem de proteínas. Parece que os pombos ficam muito bem com arroz malandrinho.

Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

Estive no Ah, a literatura! e sobrevivi



O dito programa pode ser visto aqui. A partir do minuto 16:30, todo o drama (e o inerente horror) que há em contemplar um tipo desdentado e com uma espécie de açaime nos dentes a tentar dizer coisas que façam algum sentido.

Enquanto eles dançam*

Ontem de manhã, quando o meu autocarro chegou à Rotunda da Boavista, havia um casal a dançar tango na placa central da avenida, diante da Casa da Música. Os bailarinos estavam trajados como se tivessem saído de um filme antigo – ele de fato escuro e chapéu, ela com um vestido elegante – e executavam uma coreografia lenta e algo paradoxal, já que, pelo menos dentro do autocarro, não se ouvia música nenhuma. Depois, colocadas de maneira a formarem os extremos de uma linha diagonal que passasse pelo casal de bailarinos, havia mais duas moças de vestidos vermelhos e justos, as quais filmavam a dança com telemóveis, como se fossem também parte de um bailado que incorporasse os gestos ancestrais daquela dança e os movimentos dos dispositivos electrónicos postos diante dos respectivos narizes.

O espectáculo foi inusitado mas breve, visto que o autocarro entrou logo a seguir na rotunda e eu deixei de conseguir ver o casal dançante. Não tive tempo, sequer, de perceber exactamente o que estava ali a acontecer. Mas, em compensação, fiquei a ouvir os comentários das senhoras que costumam viajar comigo no autocarro e que sempre provocam uma grande algazarra, inexplicavelmente festiva, uma vez que são todas funcionárias de empresas de limpeza e estão há não sei quanto tempo a varrer e lavar escritórios: “Olha a dançar a esta hora... Se ela estivesse mas é com uma vassoura na mão a varrer”, disse uma das mulheres.

Àquela hora, tanto quanto consigo perceber, as senhoras das limpezas estão já a caminho do segundo ou do terceiro trabalho do dia e cheiram um pouco a lixívia. São mulheres que, em alguns casos, já teriam idade para estarem aposentadas ou que, pelo menos, têm o ar cansado e gasto de quem trabalha desde a mais tenra adolescência (como os meus pais). Têm, porém, necessidade de continuar a lavar e a varrer em vários empregos diferentes para serem capazes de continuar a pagar a conta da luz e da água, a renda do bairro social, o que comem e o que bebem, as roupas que compram nas lojas de chineses, a conta do telemóvel, algum medicamento, a eventual prestação de um frigorífico, de um fogão, talvez de um carro usado. Se têm férias, não conseguem ausentar-se da cidade. Não vão ao cinema, não praticam luxos nenhuns e, às vezes, têm ainda a seu cargo filhos e netos problemáticos, desempregados ou indivíduos mais ou menos perdidos de uma geração para a qual o trabalho não é um valor em si nem sequer um meio para atingir um fim.

Olhando todos os dias para estas mulheres, não vejo como possam ter sido minimamente responsáveis pela crise financeira, pelo buraco do sub-prime e pelos humores do rating, pelo desvario dos mercados e, enfim, pelo trágico tango em que políticos e barões da finança e do cimento estão enleados há décadas, esfregando-se mutuamente as costas (em vez de varrerem, já agora). Quanto muito, elas lavaram-lhes o chão e limparam-lhes as secretárias. E agora vão pagar os excessos e a falta de tino de toda a pirâmide social que carregam às costas. Vão pagá-lo sempre que comprarem um pão ou de cada vez que acenderem a luz – como se fossem milionárias.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 13 de Setembro de 2011

Domingo, 18 de Setembro de 2011

A grande máquina das coincidências

Corro, bem sei, o risco de parecer um imitador foleiro e muito barato do Enrique Vila-Matas, mas as coincidências não cessam de me surpreender.

Existe, no Uma Mentira Mil Vezes Repetida, um capítulo em que o narrador conta como várias das suas ideias literárias foram antecipadas por autores conceituados, assim o dissuadindo de escrever o que quer que fosse. Acaba, por isso mesmo, abandonando a possibilidade de escrever um romance que tivesse uma personagem chamada Cândida Branca Flor, como a falecida cantora, uma vez que lhe pareceu provável que alguém tivesse tido a mesma ideia entretanto. Ora, quando Uma Mentira Mil Vezes Repetida está para chegar às livrarias, estreia em Lisboa uma peça teatral que tem por assunto a própria Cândida Branca Flor, como se a realidade se tivesse transformado numa delirante provocação.

Ontem também, terminado o novo romance do Valter, pus em cima da mesa um livro de Menchu Gutiérrez, La niebla, tres veces, cuja leitura, entretanto, iniciei. Ora, mal tinha terminado a operação de pousar o livro na mesa, abri a edição electrónica do El País e comecei a ler um trabalho do Winston Manrique Sabugal dedicado aos autores que, sendo excelentes, não conseguem nunca alcançar o sucesso (o qual é, de certo modo, um dos assunto abordados no Uma Mentira Mil Vezes Repetida). Como se isto não fosse o suficiente, façam o favor de confirmar quem são os autores a que o Winston se refere. Pois....

Sábado, 17 de Setembro de 2011

O mundo posto de luz

Terminei O Filho de Mil Homens, o novo romance do Valter Hugo Mãe, que chega na sexta-feira às livrarias. E o que posso dizer? Pois que o livro tem alguma coisa do grotesco e da crueldade que havia n'O Remorso de Baltazar Serapião, mas também aquele modo onírico e poético que o Valter tem de olhar para as coisas, sendo capaz de ver nelas como que relâmpagos que nós, os outros, não conseguimos perceber, ver, cheirar. Há uma anã com as costas presas por parafusos e outras pessoas muitíssimo desgraçadas, mas há também Crisóstomo, um homem de quarenta anos cujo optimismo espalhará felicidade a toda a volta, criando um mundo de pessoas postas de luz, "como se caíssem de um candeeiro". Eu, que também tenho quarenta anos, talvez pudesse aprender com o Crisóstomo todas as lições que ele ensina, a lição da felicidade como uma doença benévola que se espalha e a lição que ensina a inventar uma família que preencha o vazio que existe quando se é só metade (ou menos) do que se podia ser.

Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011

Postal ilustrado

Ontem, depois de um dia agradavelmente extenuante, fui levado a um ponto alto da capital. O dia declinava já, envolvido numa névoa ligeira. E ali estava Lisboa, uma colina e a outra, o elevador de ferro forjado, o castelo do outro lado, a manta de telhados do casario, o Tejo azul ao fundo, riscado por barcos ocasionais. Não se estava ali nada mal, caramba. O comboio, porém, já resfolegava na estação.

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

Não quero que vos falte nada

O estimado leitor e a queridíssima leitora estão, acaso, com os nervos em franja e absolutamente fartos de esperar, incapazes de suportar por muito mais tempo a angústia do livro que nunca mais chega? Pois muito bem: já podem, querendo, adquirir o amável volumezinho aqui, com desconto e tudo. Quem é amigo, quem é?

Terça-feira, 13 de Setembro de 2011

Crónicas do autocarro#85



Quão estranha pode ser a confusão entre a ficção e a realidade? Deveras. Se não o soubesse, teria hoje tirado a coisa a limpo quando entrei no autocarro levando comigo um exemplar de Uma Mentira Mil Vezes Repetida, o romance que conta a história de um indivíduo que circula nos transportes públicos fingindo ler um livro totalmente falso, Cidade Conquistada. Pois ali estava eu, o tipo que inventou Cidade Conquistada e que inventou o livro que o conta, Uma Mentira Mil Vezes Repetida, agora numa espécie de ficção da ficção da ficção, a qual, entretanto, se tornou realidade e é um livro que tem na capa a fotografia de um homem de chapéu de coco. Pareceu-me que, para completar o ciclo, faltava apenas que abrisse o livro numa página ao acaso e fingisse lê-lo. Foi o que fiz, lamentando não ter, também eu, um chapéu de coco, mas encenando a preceito o logro de um logro de um logro, e repetindo a falsa cerimónia daquela mentira. Foi uma coisa bizarra, mas foi-o apenas para mim, confirmando, se preciso fosse, que sou, de longe, o tipo mais estranho e destrambelhado que circula nos autocarros da cidade.

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011

O fim da crise*



Existem no mundo, parece, 22 cópias da célebre escultura O Pensador, de Auguste Rodin, cujo original pode ser visto em Paris. A réplica que está instalada da Praça dos Congressos de Buenos Aires foi vandalizada na semana passada. Alguém lá pintou uma frase profetizando que o mundo terminará em 2012 – um acto que, para além de criminoso, revela uma evidente má vontade, quanto mais não seja porque Pedro Passos Coelho tinha preparado para o fim-de-semana uma comunicação garantindo que a crise que nos tem castigado terminará também em 2012. Sendo relativamente imune a profecias, desta vez inquietei-me um pouco: espero que não seja preciso acabar-se o mundo para, desse modo, terminarem também as nossas aflições orçamentais.

Tenho assistido, com a tranquilidade possível, à curiosa competição a que se têm dedicado vários membros do governo, empenhados que estão em não deixar passar um só dia sem anunciar um novo aumento dos impostos, um novo corte nisto ou naquilo, mais um golpe no orçamento dos portugueses e nos serviços públicos que os nossos impostos deviam sustentar. Hoje é o IVA, amanhã é o IRS, depois é mais uma contribuição extraordinária, o IRS outra vez, o IMI, as deduções fiscais com a educação e a saúde, numa sucessão aparentemente infindável de más notícias ao sabor das “condicionantes externas” e dos juros que os mercados queiram cobrar. Mas, mesmo dando de barato que a hiperbólica arrecadação de impostos em curso contribuirá para acabar com a “emergência nacional”, resolvendo o problema das contas públicas do país, temo bem que as contas privadas não vão ficar em muito bom estado e que o problema se limitará a transitar dos cofres do Estado para o bolso de cada um dos portugueses.

A trepidante sucessão dos anúncios do governo vai, por isso, adensando um certo clima de desgraça iminente, reproduzindo o encadeamento narrativo dos filmes-catástrofe produzidos em Hollywood: de cada vez que um governante aparece na televisão, encarecem as coisas de que necessitamos para ir vivendo (pão, leite, carne, manteiga, ovos, frutas, cuidados de saúde, arroz, luz, transportes e assim) e os nossos ordenados vão ficando mais minguados e esqueléticos, no osso, famélicos, ao ponto de quase parecer possível que o nosso 2012 venha a transformar-se numa espécie de pacato armagedão, numa agonia lenta. Passaremos a viver apenas alguns dias por mês, pagando as contas que for possível. No resto do tempo ficaremos sentados como estátuas, ensimesmados a pensar onde vamos arranjar dinheiro para comer nos dias que faltam até ao próximo ordenado. Tanto quanto consigo imaginar, vamos transformar-nos em figuras bestialmente parecidas com O Pensador de Rodin. Estaremos um pouco mais magros, é certo, mas igualmente despidos e com a cara melancolicamente enfiada no punho, apenas à espera de que, como em Buenos Aires, alguém venha escrever em nós um grafito que finalmente ateste que o mundo, ou a crise, chegaram ao fim.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 6 de Setembro de 2011

Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

O maravilhoso mundo da cunha à moda da Chamusca

Isto é evidentemente um pouco triste, mas parece que nem todos os militantes do deposto Partido (dito) Socialista tiveram a possibilidade de irem para Paris a fim de estudarem Filosofia, nem, vá lá, de transitarem para a administração de alguma empresa de obras públicas ou assim. Para os que ficaram para trás ou não estavam em lugar elegível de nenhuma lista que desse acesso a lugar remunerado, posso perfeitamente imaginá-lo, os tempos hão-de correr tortuosos, acossados como estarão pela crise em plena travessia do deserto, eventualmente desempregados. Percebo, pois, muitíssimo bem o teor de um e-mail que veio cair na minha caixa de correio, remetido pela secção da Chamusca do referido partido e que divulgava a existência de vagas como técnico de manutenção industrial numa empresa de Santarém. Trata-se de uma “oportunidade para a colocação em curso de pessoas que tenham o 9º ano”. “São 3 anos. Renumeração + transporte + sub almoço”. Parece, com efeito, tentador e facilmente presumo que vários militantes agora tornados inúteis hão-de estar ponderando aproveitar a ocasião. Apenas estranhei, no dito e-mail, a última frase, escrita entre parêntesis e a vermelho: “Dizer que vai da minha parte”. Será que ainda funciona?

Obrigado valter


Esta manhã sinto-me um pouco privilegiado - apesar do nojento nevoeiro, do friozinho, da falta de sol, da mulher da paragem do autocarro que bufava contra os "malditos transportes públicos" e do mau cheiro que há quando se entra na Rua dos Mártires da Liberdade (como se os eles, os mártires, tivessem sido deixados a apodrecer ali na esquina com a Praça da República). Sei que tenho sorte porque recebi o novo livro do Valter, que ainda não existe nas livrarias e eu já o tenho, nh-nha-nha-nha-nha-a-a-a. Hei-de lê-lo e gostar da Isaura e do Crisóstomo, da Nandinha e de tudo, e depois havemos de tomar aquele café adiado e falar de coisas que não tenham nada a ver com livros. Entretanto, no dia 23, o livro do Valter vai estar à venda, como o meu. Talvez as livrarias os exponham lado a lado, Mãe e Marmelo ficam próximos na ordem alfabética, e, desse modo, estaremos já um pouco juntos.

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

Crónicas do autocarro#84



Fui hoje acometido por uma perplexidade dilacerante: a que distância devo estar de um autocarro para que um episódio seja passível de abrilhantar uma das crónicas do dito? Vou evidentemente meditar no assunto, mas, à falta de uma conclusão definitiva, conto desde já, antes que me esqueça, o caso ocorrido hoje na passadeira para peões que há ao pé da igreja da Ordem da Trindade. Existe em todo o caso, a uns vinte metros, uma paragem e, na altura, estava lá um autocarro parado, utentes e isso. Pode parecer que não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas nunca se sabe. Quis simplesmente o destino, ou lá o que é, que, enquanto esperava que o sinal para os peões ficasse verde, se tivesse aproximado uma moça vistosa, com um vestidinho elegante e curto que deixava ver um naco generoso daquilo que aparentava ser um belo par de pernas. São, enfim, coisas bonitas que acontecem a quem anda na rua, como o voo dos pássaros ou a floração das árvores, e não vale a pena estar aqui a dizer que não reparei, até porque a rapariga possuía aquele género de pernas que se metem pelos olhos de uma pessoa a dentro. Vi-as eu e viu-as toda a gente, incluindo um par de latagões que estava do outro lado da rua, igualmente à espera no semáforo. Um dos homens, quando me cruzei com ele, estava até a comentar que a moça (suponho) “marchava, ai não”. Não sei. A mim pareceu-me que ela se limitava a caminhar com uma certa graça, mas talvez o homem estivesse a pensar noutra coisa qualquer. E depois, pronto, havia ali um autocarro próximo. Já tinha dito?

Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

Philip Roth merecia muito melhor

Terminado O Olho de Hertzog, por cuja teia narrativa fui literalmente engolido, tenho agora andado a ler Pastoral Americana, o romance que Philip Roth publicou em 1997 (e que a Dom Quixote recentemente reeditou em Portugal). Não conheço o original e, portanto, não posso cotejá-lo, mas atrevo-me, ainda assim, a considerar que a tradução me parece, no mínimo, atrapalhada e questionável. Já quanto à revisão não tenho grandes dúvidas: é lamentável. Inquieta-me um pouco que, quando, um dia destes, Roth ganhar o Nobel, os leitores possam chocar de frente com um produto que não fará justiça ao génio no norte-americano.

Teoria geral das coincidências

Absolutamente a não perder, a crónica de hoje, no El País, do Enrique Vila-Matas. Onde estava Franz Kafka a 11 de Setembro de 1911? E um ano depois?

Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011

Máquina de escrever*



No final de Abril, salvo erro, os jornais noticiaram o encerramento da única fábrica que ainda produzia máquinas de escrever mecânicas. A Godrej & Boyce, com sede em Bombaim, só tinha conseguido vender, no ano passado, oitocentos exemplares do seu último modelo, quando, na década de 1990, já em plena vigência da informática e dos documentos em Word, a empresa ainda comercializava 50 mil máquinas de escrever por ano.

Li as notícias e fui acometido por uma nostalgia patética: imaginei que escreveria um romance de resistência, totalmente dactilografado, no qual começaria por narrar como tinha ido a correr a uma casa de antiguidades à procura da máquina que me havia de acompanhar nessa insensata aventura. Antes disso, porém, consultei bases de dados na internet dedicadas ao velho artefacto. A escolha devia ser devidamente ponderada, pois não seria a mesma coisa usar uma Remington ou uma Hermes, semelhantes às que foram utilizadas por alguns dos escritores que admiro, ou optar, em vez disso, por uma marca menos conhecida, uma Cole-Steel ou uma Facit. O ideal, em todo o caso, seria tornar-me proprietário de uma Corona, velha e belíssima, com grandes teclas redondas, igual à da fotografia a preto-e-branco que guardo no desktop do computador.

A nostalgia que senti foi tanto mais estranha quanto o meu convívio com as máquinas de escrever foi muitíssimo breve e diletante. Ainda aprendi dactilografia numa disciplina do liceu que se dedicava, também, a ensinar-nos a fazer tapetes de Arraiolos e artesanato em barro, bem como a preencher vales dos Correios e impressos de registo postal. Mais ou menos na mesma altura, também comecei a escrever um romance na máquina de escrever que um tio meu tinha em casa: um policial que, tanto quanto me lembro, incluía uma intriga internacional relacionada com as mulheres-girafa da tribo Padong.

Os computadores pessoais apanharam-me em plena adolescência, pelo que toda a minha vida profissional foi passada diante de ecrãs e processadores de texto, beneficiando das comodidades que a tecnologia introduziu: apagar, copiar, cortar, colar. Cheguei ainda a trabalhar, num escritório de contabilidade, com um daqueles Olivetti com um monitor pequeno e negro, onde tudo o que se via eram algarismos, letras e sinais, em verde ou laranja. Logo a seguir, quando comecei a trabalhar no Público, em 1989, vi-me diante dessa pequena maravilha que era, então, o Apple Macintosh Classic II. Era um novo mundo que se me abria, com as suas janelas, os seus ícones clicáveis e, sobretudo, com uma incrível facilidade de utilização.

Nunca mais pensei nas máquinas de escrever como instrumentos de trabalho. Mas agora que acabaram de vez, ocorre-me que gostaria de ter uma – um objecto antigo e belo que fizesse companhia ao rádio Nordmende que foi dos meus avós e à Zorki-4 e à Flexarell que comprei a preços de bric-a-brac, com as quais ainda fotografei por desfastio. Talvez, se tivesse uma Corona, ainda tentasse escrever o tal romance.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 23 de Agosto de 2011