quarta-feira, 27 de julho de 2011

Uma fotografia que é uma espécie de resumo do mundo


Repararam na fotografia que ilustra a página 19 do Público de hoje? A legenda diz: “Funcionário de uma ONG na fronteira do Quénia com a Somália”. Nela se vê a carcaça de um animal morto pela seca nessa parte do mundo onde as pessoas morrem de fome. O dito funcionário da ONG, de fato escuro, fotografa ou filma a carcaça do animal com um iPad. Há, pois, gente morrendo de fome, mães abandonando os filhos por não serem capazes de alimentá-los e mantê-los vivos, mas o funcionário da ONG entretém-se a exibir o fatinho escuro e o iPad. É um resumo do mundo. Parece que é um bom negócio.

sábado, 23 de julho de 2011

Os olhos de Lucian Freud



Quando inaugurei o Teatro Anatómico, o primeiro cabeçalho que aqui tive era apenas isto: os olhos de Lucian Freud. Não sei porquê. Talvez tenha visto nos olhos dele uma nudez e um desamparo tão absolutos que, de algum modo, me pareceu que o pintor ali estava tão exposto como o corpo de um cadáver sendo dissecado por alunos de Medicina.

Ocorreu-me, entretanto, que já tinha escrito sobre esses olhos no conto Zero à Esquerda:

"Eu mesmo, durante certo período da minha vida, ganhei o hábito de contemplar quase diariamente um auto-retrato do pintor Lucien Freud, Reflection. No início, o meu interesse pelo quadro era puramente estético. Atraíam-me sobretudo os olhos de Freud tal como Freud os pintou, parecendo condensar e cristalizar neles uma mágoa e uma melancolia talvez excessivas, mas que me agradavam de uma forma estranha, como se também nesses olhos eu pudesse ver o reflexo de um pedaço obscuro que tenho dentro. Há neles, nos olhos de Freud, fragilidade e força, dor e desistência a um só tempo, mas também sensibilidade e rudeza. No limite, os olhos de Reflection podiam ser também os olhos de Ciclón Molina, o pugilista do conto Segundo Viaje, de Julio Cortázar – esse quase campeão do mundo atormentado por não conseguir recordar o que lhe sucedia entre o início e o fim dos combates, e que morre após a disputa do título mundial, chupado como se lhe tivessem retirado todo o sangue ou como se tivesse querido sair de si mesmo. Mais tarde, porém, o meu interesse estético por Reflection deu lugar a uma certa inquietação existencial (para não dizer que se tratava simplesmente de uma confusão à beira da demência) e fui-me convencendo de que me estava a parecer cada vez mais com Lucien Freud tal como ele é no auto-retrato e que, sobretudo, o meu olhar se assemelhava ao duro, melancólico e profundo olhar de Reflection, como se, ao olhar os olhos de Freud, estivesse a contemplar-me num espelho. Creio mesmo que passei a ver o mundo pelos olhos do pintor inglês nascido em Berlim, tal a osmose que entre mim e o quadro se engendrou."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A miscigenação pelo estômago



Um tipo que passeia pelo mundo e passa o tempo (quase) todo a comer - não foi preciso mais do que isto para que me tornasse consumidor do programa Não aceitamos reservas, que a SIC radical transmitia em Portugal. Quantas vezes não fiquei a ver o norte-americano Anthony Bourdain a empanturrar-se em várias partes do mundo enquanto, do lado de cá do televisor, eu me dedicava a salivar e a invejar profundamente o apresentador, desejando estar sentado com ele à mesa nos sítios mais improváveis, de Tripoli à Namíbia, enchendo o bandulho como se não houvesse amanhã. Se ainda tivesse idade para coisas disparatadas como acalentar sonhos e fazer projectos para o futuro, acho que - quando e se, algum dia, vier a ser grande - gostava de ser como Anthony Bourdain.

Não aceitamos reservas é (ou era) essencialmente um programa sobre comida, assunto que facilmente me mobiliza, mesmo se, com o avançar da idade, ou apesar disso, me pareço cada vez mais com aquelas pessoas das quais se diz que “têm mais olhos do que barriga”. Mas o programa é também sobre certos pontos do globo aonde seria aconselhável ir por vários motivos, mas também porque, findas as andanças, vistas as pedras antigas e conhecido o folclore local, não há nada mais saboroso do que enfiar as pernas debaixo de uma mesa e deixar que as proteínas autóctones se misturem com as nossas.

Fernando Pessoa escreveu que viajar é perder países. Todavia, sendo um viajante tão intrépido e glutão como Bourdain, facilmente se concluirá que viajar é, ou pode ser, comer países – comê-los e, por essa via, incorporar algumas das suas mais autênticas moléculas no conjunto de todas as moléculas que compõem um indivíduo. Do ponto de vista da diversidade e do ecumenismo biológico, comer como Bourdain come há-de ser a segunda melhor coisa do mundo, imediatamente a seguir a ser marinheiro e ter uma Maria em cada porto (e um filho em cada canto do mundo).

Anthony Bourdain é também, de certa forma, do mais anti-português que se pode ser. O português típico, como bem sabemos, é o indivíduo que, apreciando sobremaneira o turismo, acha que só se come bem em Portugal e que, de Caminha para Norte, para lá de Vilar Formoso e de Sagres para baixo, a comida é toda uma porcaria inominável. O típico tuga considera, de forma indisputável, que a sardinha assada e os rojões à minhota são a coisa mais sofisticada que a mente humana engendrou. Por isso, quando sai do país, faz questão de não experimentar nenhuma das lavagens que se comem lá pela estranja, refastelando-se quando encontra um bitoque com batatas fritas ou, vá lá, um McDonalds.

Cozinhar e comer é, porém, uma das marcas culturais mais distintivas dos países e dos povos que por eles passaram e que lá acabaram por assentar. Saltar de uns sítios para os outros sem contactar com a realidade e diversidade gastronómica é, por isso, um pecado sem nome. Se um dia, por exemplo, for a Roma, faço questão absoluta de nem passar perto do papa. Mas gostava de ir comer ao Roscioli.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Outro farol, agora no meio do Atlântico

À segunda tentativa, dei na Madeira com um sítio do qual posso realmente dizer que gosto. Vi-o apenas do ar, durante a aterragem e a descolagem dos aviões, mas pareceu-me encantador aquele ilhéu na ponta leste da ilha: primeiro, aquele pedaço de mundo, do Caniçal para cá, tem uma geografia vulcânica e árida, como a corcova de um ser mitológico que estivesse a mergulhar nas águas e que tivesse sido congelado nesse gesto e ali imobilizado; depois, o ilhéu agreste e telúrico fez-me pensar nas paisagens de Cabo Verde; para além disso, aquele pedaço de terra faz parte da Madeira mas também está fisicamente separado da ilha governada por loucos mitómanos e indivíduos um pouco malcriados; finalmente, o ilhéu tem um farol. E eu gosto de faróis, já disse.

O farol de S. Lourenço é, aliás, a única construção do Ilhéu do Farol. Para chegar lá é preciso ir de barco. Não há estradas, não há automóveis e quase não há turistas embasbacados ou estendidos ao sol. Podia-se lá morar sem que ninguém viesse incomodar-nos com as coisas miúdas do mundo, longe da dívida pública e dos cobradores das finanças; cumprir a cada dia os gestos que produzem a luz útil que os faróis derramam no breu; ser prestimoso e louco; e morrer ali devagarinho (que é o mesmo que viver sem pressa); estar; ir estando.

Gosto muitíssimo do Ilhéu do Farol. Apesar (ou por causa) de nunca lá ter ido.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Kathleen Turner*



Se não fosse já suficiente a dose de desgraça e decepção a que diariamente temos direito apenas lendo as páginas de economia e política dos jornais, este vosso criado cometeu ainda a imprudência de estacionar no domingo à noite diante do televisor com o fito de se distrair um pouco antes de serem horas de dormir. Vi um episódio e meio de Uma Família Muito Moderna, que é uma das melhores coisinhas que passam no caixote, e, depois, mudei de canal para ver alguns lances de Californication. Em má hora o fiz. A dado passo deparei com uma mulher envelhecida e loura que se parecia com a actriz Kathleen Turner. Percebi, logo a seguir, que aquela ruína era mesmo a Kathleen Turner. Ou melhor: era aquilo que sobrou dos predicados que ela tinha e que povoaram os meus devaneios de adolescente.

Uma parte do horror (e da nostalgia) que me acometeu deriva directamente do facto de ter cristalizada na memória a imagem fulgurante e tórrida de Kathleen Turner enquanto Matty Walker, a perigosa e irresistível loura de Noites Escaldantes (Lawrence Kasdan, 1981), tendo, porém, esquecido completamente a mulher madura que interpretava a Mrs. Lisbon de As Virgens Suicidas (Sofia Coppola, 1999). Na pior das hipóteses, sou capaz de recordar vagamente a interpretação de Kathleen em Peggy Sue Casou-se (Francis Ford Coppola, 1986), a qual lhe valeu a nomeação para o Oscar de melhor actriz, mas aquilo de que me lembro sempre é da imagem dela em camisa branca e saia vermelha, provocadora, vista através de uma vidraças pelos olhos de William Hurt/Ned Racine, enquanto os espanta-espíritos do alpendre se agitam tocados pela brisa de uma noite de Verão na Florida. E recordo também da voz – a voz rouca e quente de Kathleen Turner provocando Racine: “Well, some men, once they get a whiff of it, they trail you like a hound”.

Salvo erro, foi por causa da voz que consegui reconhecer Kathleen Turner em Sue Collini, a destravada e ninfómana personagem de Californication. Resta nela ainda alguma coisa da suave rouquidão que também ficou gravada na voz da Jessica Rabbit dos desenhos animados. O resto, porém, desapareceu para sempre. Kathleen Turner está inchada e destruída. Um destroço. Tentar reconstituir como era a partir daquilo que é hoje equivaleria a um esforço semelhante ao que terá de despender-se para adivinhar como eram os budas de Bamiyan antes de que a erosão do tempo e a insânia taliban os tivessem desfigurado.

Vi Kathleen Turner no domingo à noite e lembrei-me inevitavelmente de Elizabeth Taylor, Sofia Loren e Brigitte Bardot, mas também de Marlon Brando ou do trágico Mickey Rourke, por exemplo – ícones universais da beleza a quem a idade maltratou sem piedade. Envelhecer é uma coisa que impressiona, ainda que seja o mais natural que há. Os anos passam e as pessoas perdem uma parte do interesse que têm, ainda que cheguem a tornar-se mais sábias e ponderadas. É assim a vida.

Acresce que não sei ao certo de onde isto veio, se é dos 40 anos já feitos ou de outra coisa qualquer. Mas talvez seja melhor deixar de ver televisão ao domingo.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 5 de Julho de 2011

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Confissão um pouco precipitada, mas, em todo o caso, sincera


© Teatro Anatómico 2008

Por incrível que tal coisa possa parecer ao comum leitor destas linhas, sou uma pessoa regular e sensata durante a maior parte dos minutos que o dia tem. Sei perfeitamente, por isso, que não sou cabo-verdiano, que nada de palpável me liga a Cabo Verde e que, por muito que me interessem as conversas em Crioulo que ouço no metro, não vou nunca ser sampadjudo ou badio, de Sintanton ou da Bubista. Não foi isso que a vida quis e já não vou a tempo de mudá-lo. Tento, por isso, esquecer-me desta mania que tenho, do sobressalto que certas coisas de Cabo Verde me provocam. Mas basta que, a meio de alguma coisa que esteja a fazer, apareça o Ildo Lobo a cantar o Cretcheu Maguode, o Caminho di mar, o Sonte é bo nome ou a Conbersa co deus, para que algo em mim se revolva e enterneça. Coisa mais estranha, mais estúpida, isto de ter vontade de sorrir e fechar os olhos só por escutar um marmanjo cantando.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Sobre a inutilidade do acordo ortográfico


Confesso, senhoras e senhores, que tenho acompanhado este assunto com um interesse algo exagerado (e não foi porque a sorte dos animais me suscite qualquer preocupação ecológica digna de nota). No fundo acho que pretendia apenas que chegasse o momento em que posso fazer esta piada soez: apesar do acordo ortográfico e outras coisas assim, tenho a certeza de que os veados suscitariam muito mais procura se a hasta pública tivesse sido aberta a interessados no Brasil.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O troika-troika-troika



Tendo embora prometido, há uma semana ou duas, mudar radicalmente de assunto e não prestar doravante atenção quase nenhuma às práticas da democracia parlamentar (aka forma de governo exercida em nome do povo para geral e exclusivo benefício das grandes corporações e dos mercados financeiros), não pude deixar de reparar no sujeito que, na noite do São João do Porto, rompia a multidão compacta do bailarico de Miragaia distribuindo sonoras marteladas e anunciando a cada passo, antes de desferir as pancadinhas, aquele bem significativo “olha a troika, cuidado com a troika”.

O resto do maralhal, bem entendido, longe de se sentir ameaçado e desviar a cabeça, entregava-se docilmente ao castigo de cada nova martelada. Em certos casos, que eu bem vi, algumas pessoas chegaram mesmo a sorrir, francamente bem-dispostas pelo humor das investidas e capazes até de tolerar o incómodo das pisadelas e dos empurrões, ou não fosse o são-joanino festejo uma espécie de Carnaval sem máscaras, durante o qual as paródias são recebidas com fleuma e sem que a quase ninguém ocorra levar a coisa a peito.

Dado a certas bizarrias, pus-me a imaginar o latagão que abria caminho à martelada como uma espécie de metáfora do longo braço da troika, mas logo me pareceu que alguma coisa naquela bota não batia com a perdigota respectiva. Estávamos todos num aperto (certo) e até com alguma falta de ar (certo), dedicando-se a dita troika a impor-nos a sua implacável regra (certo), agredindo-nos à martelada (certo) com certa malevolência (certo) e sadismo (certo). Acresce que, tal como inevitavelmente sucederá, o castigo da troika tombava selectivamente sobre os cocurutos de quem cometera a imprudência de participar no plebeu e popular festejo, deixando incólumes os precavidos que celebravam particularmente em apartamentos de cobertura, barcos e jardins de vivendas, atirando ao ar o próprio fogo-de-artifício e não repartindo sardinha nem broa (muito certo).

O que nisto havia de errado não era a fraca equanimidade do castigo, que a desgraças dessas já o corpo está sobejamente afeiçoado, mas outros dois pormenores que me pareceram muito dissonantes: primo, e desde logo, o povo sorria quando directamente atacado e não esboçava nenhum protesto, o que causa espanto mesmo se não estamos entre gregos nem troianos, mas junto da serena e pacata gente lusa dos brandos costumes; depois, as marteladas daquela troika não machucavam quase nada, amortecidas por uma almofadinha de plástico em fole, a qual, em alguns modelos mais sofisticados, chega a produzir uma musiquinha estridente, espécie de assobio ou apito, somando-se ao polifónico coro das pancadinhas de São João.

Desiludido da metáfora que tinha começado a imaginar, pus-me, ainda assim, a escutar os ruídos da festa. Destrambelhado como sou, pareceu-me escutar distintamente, entre os pim-pim-pim, os toc-toc-toc e os truca-truca-truca da martelada geral, uma onomatopeia nova. Havia no ar, tenho a certeza, um ruído ruim. Ouvia-se muito bem aquele troika-troika-troika-troika.



*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 28 de Junho de 2011

sexta-feira, 8 de julho de 2011

No estado a que isto chegou, temos que aproveitar estes bocadinhos para sorrir

Bem sei que, no fim, acabo por ser eu a pagar a conta, mas confesso que me tenho divertido bastante com o tipo de indivíduos que nestes dois últimos dias têm vindo a público para criticar as agências de notação em geral e a Moody’s em particular, chamando-lhes pouco menos do que bandidos, facínoras e porcos capitalistas. É quase tão hilariante como ver o Cavaco e defender a agricultura nacional.

Um pouco mais lento do que a velocidade da luz

Vem nos livros: a luz demora 1/299792458 do segundo para percorrer um metro em vácuo e é capaz de percorrer, num só segundo, 299.792.458 metros - excepto na minha casa de banho. Na minha casa de banho, o interruptor e a lâmpada não estão a mais de dois ou três metros de distância um do outro, mas, sempre que ligo o interruptor, noto que transcorre um breve lapso de tempo até que a luz do tecto se acenda, normalmente o suficiente para que eu pestaneje uma ou duas vezes. Das duas, uma: ou as leis da física não se aplicam entre o bidé e a banheira da minha casa, o que me parece uma enorme bizarria, ou o fio que sai daquele interruptor vai ao Brasil e volta antes de chegar à lâmpada do tecto. Parece-me que, em nome do rigor científico, devia investigar este fenómeno com mais aplicação, mas tenho preferido não o fazer. Temo descobrir que a minha casa de banho é, afinal, só mais uma divisão da casa sem nada que a recomende particularmente.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Contar histórias*



Numa conferência que proferiu há dias nesse lugar extraordinário que há-de ser a livraria Ateneo Grand Splendid – um antigo teatro de Buenos Aires forrado de livros e, logo, de histórias, vidas, fracassos e sucessos –, o escritor argentino Abelardo Castillo declarou não saber como surgem as narrativas que conta. “Sempre estive convencido de que aquilo a que se chama imaginação é uma péssima mistura de má memória e falta de fé: acreditamos que estamos a inventar, mas limitámo-nos a recordar defeituosamente”, disse.

Dois ou três dias antes de tê-lo lido, tinha estado a conversar com uma amiga que mantém uma certa crença na capacidade humana para continuamente efabular e inventar histórias, mas desconfia da inclinação das gerações mais novas para se dedicarem à leitura de narrativas lineares, clássicas, por estarem agora adestradas na lógica atomizada da internet. Eu sou bastante menos optimista quanto à possibilidade de inventar novas histórias, mas creio que mesmo em ambientes tão dispersivos como o Facebook subsiste a ancestral predisposição do ser humano para se deixar prender por uma narrativa. É para isso que lá estão os chamados “murais” – para que seja possível reconstituir uma história, uma vida, a partir de um conjunto de frases e comentários mais ou menos avulsos.

Há, no Facebook, milhões de histórias sendo contadas e lidas ao mesmo tempo. Tal como, porém, acontece com uma boa telenovela, ou com um reality show, os enredos que ali se podem ler e subentender não são, evidentemente, literatura, ainda que possam ser, e sejam muitas vezes, pura ficção, mais ou menos verosímil conforme o talento do narrador para levar os leitores a acreditarem na mentira que lhes é contada. O mundo, ou uma parte dele, acreditou, por exemplo, que Amina al Omari era uma rapariga feliz e lésbica que escrevia um blogue, vivia na capital da Síria e aí foi até entrevistada por uma jornalista do Guardian – e, afinal, era só um norte-americano que vivia na Escócia. Do mesmo modo que, soube-se também na semana passada, Paula Brooks, a editora de um site de notícias lésbicas, era apenas Bill Graber, um trabalhador da construção civil do Ohio.

Mais do que contar uma história verdadeira, verosímil ou totalmente inventada, a literatura lida, ou deve lidar, com a verdade e não com a realidade, conforme afirmava Enrique Vila-Matas numa entrevista recente à revista Ñ. É um modo de dizer e contar, e, além disso, tal como Castillo sugere, a capacidade de recordar não recordando, a fim de permitir, ainda, que se recombinem e voltem a contar, como se de novidades se tratasse, as mesmas narrativas que, desde tempos imemoriais, mantêm o homem preso, de olhos esbugalhados, à roda da primordial fogueira. Desse constante mergulho, crê-se, hão-de resultar fracções de uma verdade profunda sobre o medo, a morte e esta coisa bela e horrível que é estar vivendo na companhia de um cérebro que cria problemas e os resolve, nem que para isso trate de inventar os deuses.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 14 de Junho de 2011