Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

Uma fotografia que é uma espécie de resumo do mundo


Repararam na fotografia que ilustra a página 19 do Público de hoje? A legenda diz: “Funcionário de uma ONG na fronteira do Quénia com a Somália”. Nela se vê a carcaça de um animal morto pela seca nessa parte do mundo onde as pessoas morrem de fome. O dito funcionário da ONG, de fato escuro, fotografa ou filma a carcaça do animal com um iPad. Há, pois, gente morrendo de fome, mães abandonando os filhos por não serem capazes de alimentá-los e mantê-los vivos, mas o funcionário da ONG entretém-se a exibir o fatinho escuro e o iPad. É um resumo do mundo. Parece que é um bom negócio.

Terça-feira, 26 de Julho de 2011

Crónicas do autocarro#83



Não exagero, creio, se afirmar que ao sair do autocarro, esta manhã, trazia as meninges em ferida. Será só uma figura de estilo, uma força de expressão, o que vos pareça melhor, mas, em todo o caso, doía-me a cabeça de vir a tentar discernir alguma coisa de aproveitável entre as várias conversas das mulheres-a-dias que me cercaram e fizeram muitíssima questão de vir o tempo todo a contar os casos e as tricas (pelos vistos) inerentes ao labor quotidiano que elas têm. Para ser absolutamente sincero, e não tendo saído de casa munido de tampões para os ouvidos, não tive outro remédio senão ouvir o que diziam: as histórias das sandras e das cátias, das zezas e das julietas, das zangas que têm, das ordens que recebem, dos cortinados que queimam acidentalmente e não contam às patroas, dos cuidados a ter quando se dá a ferro certo e determinado apetrecho do lar, da inconveniência de uma e outra andarem sempre juntas no trabalho, das más respostas que às vezes têm que dar, enfim, ufff, nunca mais chegávamos a Cedofeita e eu não tinha como escapar, sentaram-se três à minha volta, mais uma no banco do lado, e logo atrás de mim iam mais duas que falavam ao telemóvel, o autocarro parecia um galinheiro sem galo, uma caldeirada, o mercado do peixe, eu sei lá. Uma era vesga, outra tinha um piercing no nariz e cheiravam um pouco a suor e lixívia, e ainda se sentou diante de mim a simpática senhora que limpa as escadas do meu prédio, não podia fazer a desfeita de me levantar, preciso do patamar lavado para receber eventuais visitas, nem sou insensível ao ponto de não reconhecer o carácter terapêutico do desabafo entre duas jornadas de trabalho. Procurei, por isso, ser optimista. Pus-me a pensar que, se as mulheres-a-dias puserem no limpar metade do empenho que colocam no falar, este país há-de ficar tão pulcro e brilhante que hão-de vir resmas de turistas da Europa só para verem tamanha limpeza.

Segunda-feira, 25 de Julho de 2011

A roda do mundo*



Conhecem decerto aquela frase segundo a qual desaparece uma biblioteca de cada vez que um velho morre. Reli-a na semana passada, numa crónica do Baptista-Bastos, e imediatamente me lembrei das minhas avós – da minha bisavó Emília, a quem chamavam a Matatuda, e da minha avó Augusta, a qual, aos noventa anos, é como que o derradeiro repositório de um saber ancestral que, um dia destes, se extinguirá, sem que a ninguém apeteça já invocar divindades esquecidas e desfiar mezinhas para curar moléstias a que qualquer pomada ou supositório acodem mais razoavelmente.

Tendo desbaratado irremediavelmente todas as oportunidades que a vida me concedeu para resgatar o manancial de histórias, ritos e saberes que a minha bisavó dominava, ocorre-me agora, com certa frequência, que tenho de encontrar tempo para escutar a minha avó e registar aquilo que ainda for possível. Há alguns meses, eu e os meus filhos ouvimo-la contar, num domingo, o caso incrível (e hilariante; e dramático) do avô dela, um homem que ficou guardado no folclore familiar como alguém que gostava tanto de mulheres que perdeu com elas uma fortuna considerável. Já tentei, depois disso, tirar mais nabos da púcara, mas a minha avó apenas repetiu o que já tinha contado. Não sei se foi falta de talento da minha parte, ou se a apanhei numa maré (como ela diz) pouco propícia à evocação das aventuras fesceninas do Cricas (era a alcunha que tinha esse meu antepassado), mas, no dia dessa nova investida, conseguimos gravar no telemóvel vários minutos de conversa, durante os quais a minha avó desfiou, quase sem erro, duas ou três mezinhas com as quais, em tempos idos, se curavam os pés abertos ou estramangados, o treçolho, o arejo ou a espinhela caída.

Desconfio naturalmente das vantagens terapêuticas daqueles remédios caseiros, mas, em todo o caso, enterneço-me de cada vez que ouço a minha avó contar como cosia o pé do meu avô quando ele se magoava no picadeiro da GNR, e como essa intervenção operava uma espécie de prodígio físico: a água quente posta numa bacia passava toda para dentro de uma púcara por artes mágicas.

Também tenho tomado nota de todas as palavras estranhas que ela ainda usa e que dão testemunho de um tempo em que mesmo quem não conhecia uma letra do tamanho de um palácio usava um Português mais rico e diverso do que aquele que sabem os doutores de agora. Tenho até certeza de que, se entendi quase tudo o que li no Grande Serão: Veredas do Guimarães Rosa, foi porque reconheci aquelas palavras estrambólicas de tê-las ouvido antes da boca da minha bisavó Emília nos lentos verões de Avitoure.

Tenho escrita no bloco de notas do telemóvel, por exemplo, a expressão “é a roda do mundo”, com a qual a minha avó sublinha os sinais da novidade quotidiana. Se for natural que, na roda do mundo, se perca aquilo que ela sabe e sabia, não desisto, mesmo assim, de tentar parar o tempo com as mãos. Será insensato, mas pode ser que se salve, deste modo, um livro ou dois da nossa biblioteca.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 12 de Julho de 2011

Sábado, 23 de Julho de 2011

Os olhos de Lucian Freud



Quando inaugurei o Teatro Anatómico, o primeiro cabeçalho que aqui tive era apenas isto: os olhos de Lucian Freud. Não sei porquê. Talvez tenha visto nos olhos dele uma nudez e um desamparo tão absolutos que, de algum modo, me pareceu que o pintor ali estava tão exposto como o corpo de um cadáver sendo dissecado por alunos de Medicina.

Ocorreu-me, entretanto, que já tinha escrito sobre esses olhos no conto Zero à Esquerda:

"Eu mesmo, durante certo período da minha vida, ganhei o hábito de contemplar quase diariamente um auto-retrato do pintor Lucien Freud, Reflection. No início, o meu interesse pelo quadro era puramente estético. Atraíam-me sobretudo os olhos de Freud tal como Freud os pintou, parecendo condensar e cristalizar neles uma mágoa e uma melancolia talvez excessivas, mas que me agradavam de uma forma estranha, como se também nesses olhos eu pudesse ver o reflexo de um pedaço obscuro que tenho dentro. Há neles, nos olhos de Freud, fragilidade e força, dor e desistência a um só tempo, mas também sensibilidade e rudeza. No limite, os olhos de Reflection podiam ser também os olhos de Ciclón Molina, o pugilista do conto Segundo Viaje, de Julio Cortázar – esse quase campeão do mundo atormentado por não conseguir recordar o que lhe sucedia entre o início e o fim dos combates, e que morre após a disputa do título mundial, chupado como se lhe tivessem retirado todo o sangue ou como se tivesse querido sair de si mesmo. Mais tarde, porém, o meu interesse estético por Reflection deu lugar a uma certa inquietação existencial (para não dizer que se tratava simplesmente de uma confusão à beira da demência) e fui-me convencendo de que me estava a parecer cada vez mais com Lucien Freud tal como ele é no auto-retrato e que, sobretudo, o meu olhar se assemelhava ao duro, melancólico e profundo olhar de Reflection, como se, ao olhar os olhos de Freud, estivesse a contemplar-me num espelho. Creio mesmo que passei a ver o mundo pelos olhos do pintor inglês nascido em Berlim, tal a osmose que entre mim e o quadro se engendrou."

Quinta-feira, 21 de Julho de 2011

Crónicas do autocarro#82



Isto podia ser mais uma crónica do autocarro. Mas não é. O episódio sucedeu no metro e não vou, por isso, estar a enganar as pessoas e a abusar da sua credulidade. Bem sei que acreditariam se eu lhes dissesse que isto assim e assim aconteceu na carreira número tal às tantas horas. Mas estaria a mentir e, pior do que isso, teria consciência de estar a mentir e seria ainda obrigado a viver na companhia de um mentiroso, instalado, ainda por cima, dentro da minha cabeça. Não posso, pois, transplantar para o autocarro factos que lá não ocorreram. Deve respeitar-se o autocarro, precatá-lo de contaminações e evitar que se estrague com episódios que lhe são alheios. No autocarro nunca sucedeu, que eu visse, aquilo de ir uma moça muito decotada, e de peito farto, mas tão decotada e de peito tão farto que se lhe via perfeitamente uma parte da auréola do mamilo espreitando por cima dos panos. Isto aconteceu no metro. Já o disse? Pois isto aconteceu no metro. Eu queria avisar a moça dos óculos de sol que se lhe via um pouco da mama direita, um pedaço do seio direito que ela talvez não quisesse mostrar, uma fracção de mamilo que se escapara inopinadamente do sutiã; queria avisá-la disto, para que se compusesse se essa fosse a sua vontade, ou não, mas não soube como fazê-lo sem que ela tivesse a certeza de que eu tinha estado a olhar para o amplo decote dela. Por trás dos óculos escuros, é possível, em todo o caso, que ela tenha notado que eu tinha notado que algo de anormal se passava no decote. Mas eu não tinha a certeza. De qualquer maneira, já o disse, isto não aconteceu no autocarro. Foi no metro. E talvez nem seja verdade.

Quarta-feira, 20 de Julho de 2011

A miscigenação pelo estômago



Um tipo que passeia pelo mundo e passa o tempo (quase) todo a comer - não foi preciso mais do que isto para que me tornasse consumidor do programa Não aceitamos reservas, que a SIC radical transmitia em Portugal. Quantas vezes não fiquei a ver o norte-americano Anthony Bourdain a empanturrar-se em várias partes do mundo enquanto, do lado de cá do televisor, eu me dedicava a salivar e a invejar profundamente o apresentador, desejando estar sentado com ele à mesa nos sítios mais improváveis, de Tripoli à Namíbia, enchendo o bandulho como se não houvesse amanhã. Se ainda tivesse idade para coisas disparatadas como acalentar sonhos e fazer projectos para o futuro, acho que - quando e se, algum dia, vier a ser grande - gostava de ser como Anthony Bourdain.

Não aceitamos reservas é (ou era) essencialmente um programa sobre comida, assunto que facilmente me mobiliza, mesmo se, com o avançar da idade, ou apesar disso, me pareço cada vez mais com aquelas pessoas das quais se diz que “têm mais olhos do que barriga”. Mas o programa é também sobre certos pontos do globo aonde seria aconselhável ir por vários motivos, mas também porque, findas as andanças, vistas as pedras antigas e conhecido o folclore local, não há nada mais saboroso do que enfiar as pernas debaixo de uma mesa e deixar que as proteínas autóctones se misturem com as nossas.

Fernando Pessoa escreveu que viajar é perder países. Todavia, sendo um viajante tão intrépido e glutão como Bourdain, facilmente se concluirá que viajar é, ou pode ser, comer países – comê-los e, por essa via, incorporar algumas das suas mais autênticas moléculas no conjunto de todas as moléculas que compõem um indivíduo. Do ponto de vista da diversidade e do ecumenismo biológico, comer como Bourdain come há-de ser a segunda melhor coisa do mundo, imediatamente a seguir a ser marinheiro e ter uma Maria em cada porto (e um filho em cada canto do mundo).

Anthony Bourdain é também, de certa forma, do mais anti-português que se pode ser. O português típico, como bem sabemos, é o indivíduo que, apreciando sobremaneira o turismo, acha que só se come bem em Portugal e que, de Caminha para Norte, para lá de Vilar Formoso e de Sagres para baixo, a comida é toda uma porcaria inominável. O típico tuga considera, de forma indisputável, que a sardinha assada e os rojões à minhota são a coisa mais sofisticada que a mente humana engendrou. Por isso, quando sai do país, faz questão de não experimentar nenhuma das lavagens que se comem lá pela estranja, refastelando-se quando encontra um bitoque com batatas fritas ou, vá lá, um McDonalds.

Cozinhar e comer é, porém, uma das marcas culturais mais distintivas dos países e dos povos que por eles passaram e que lá acabaram por assentar. Saltar de uns sítios para os outros sem contactar com a realidade e diversidade gastronómica é, por isso, um pecado sem nome. Se um dia, por exemplo, for a Roma, faço questão absoluta de nem passar perto do papa. Mas gostava de ir comer ao Roscioli.

Terça-feira, 19 de Julho de 2011

Outro farol, agora no meio do Atlântico

À segunda tentativa, dei na Madeira com um sítio do qual posso realmente dizer que gosto. Vi-o apenas do ar, durante a aterragem e a descolagem dos aviões, mas pareceu-me encantador aquele ilhéu na ponta leste da ilha: primeiro, aquele pedaço de mundo, do Caniçal para cá, tem uma geografia vulcânica e árida, como a corcova de um ser mitológico que estivesse a mergulhar nas águas e que tivesse sido congelado nesse gesto e ali imobilizado; depois, o ilhéu agreste e telúrico fez-me pensar nas paisagens de Cabo Verde; para além disso, aquele pedaço de terra faz parte da Madeira mas também está fisicamente separado da ilha governada por loucos mitómanos e indivíduos um pouco malcriados; finalmente, o ilhéu tem um farol. E eu gosto de faróis, já disse.

O farol de S. Lourenço é, aliás, a única construção do Ilhéu do Farol. Para chegar lá é preciso ir de barco. Não há estradas, não há automóveis e quase não há turistas embasbacados ou estendidos ao sol. Podia-se lá morar sem que ninguém viesse incomodar-nos com as coisas miúdas do mundo, longe da dívida pública e dos cobradores das finanças; cumprir a cada dia os gestos que produzem a luz útil que os faróis derramam no breu; ser prestimoso e louco; e morrer ali devagarinho (que é o mesmo que viver sem pressa); estar; ir estando.

Gosto muitíssimo do Ilhéu do Farol. Apesar (ou por causa) de nunca lá ter ido.

Segunda-feira, 18 de Julho de 2011

Kathleen Turner*



Se não fosse já suficiente a dose de desgraça e decepção a que diariamente temos direito apenas lendo as páginas de economia e política dos jornais, este vosso criado cometeu ainda a imprudência de estacionar no domingo à noite diante do televisor com o fito de se distrair um pouco antes de serem horas de dormir. Vi um episódio e meio de Uma Família Muito Moderna, que é uma das melhores coisinhas que passam no caixote, e, depois, mudei de canal para ver alguns lances de Californication. Em má hora o fiz. A dado passo deparei com uma mulher envelhecida e loura que se parecia com a actriz Kathleen Turner. Percebi, logo a seguir, que aquela ruína era mesmo a Kathleen Turner. Ou melhor: era aquilo que sobrou dos predicados que ela tinha e que povoaram os meus devaneios de adolescente.

Uma parte do horror (e da nostalgia) que me acometeu deriva directamente do facto de ter cristalizada na memória a imagem fulgurante e tórrida de Kathleen Turner enquanto Matty Walker, a perigosa e irresistível loura de Noites Escaldantes (Lawrence Kasdan, 1981), tendo, porém, esquecido completamente a mulher madura que interpretava a Mrs. Lisbon de As Virgens Suicidas (Sofia Coppola, 1999). Na pior das hipóteses, sou capaz de recordar vagamente a interpretação de Kathleen em Peggy Sue Casou-se (Francis Ford Coppola, 1986), a qual lhe valeu a nomeação para o Oscar de melhor actriz, mas aquilo de que me lembro sempre é da imagem dela em camisa branca e saia vermelha, provocadora, vista através de uma vidraças pelos olhos de William Hurt/Ned Racine, enquanto os espanta-espíritos do alpendre se agitam tocados pela brisa de uma noite de Verão na Florida. E recordo também da voz – a voz rouca e quente de Kathleen Turner provocando Racine: “Well, some men, once they get a whiff of it, they trail you like a hound”.

Salvo erro, foi por causa da voz que consegui reconhecer Kathleen Turner em Sue Collini, a destravada e ninfómana personagem de Californication. Resta nela ainda alguma coisa da suave rouquidão que também ficou gravada na voz da Jessica Rabbit dos desenhos animados. O resto, porém, desapareceu para sempre. Kathleen Turner está inchada e destruída. Um destroço. Tentar reconstituir como era a partir daquilo que é hoje equivaleria a um esforço semelhante ao que terá de despender-se para adivinhar como eram os budas de Bamiyan antes de que a erosão do tempo e a insânia taliban os tivessem desfigurado.

Vi Kathleen Turner no domingo à noite e lembrei-me inevitavelmente de Elizabeth Taylor, Sofia Loren e Brigitte Bardot, mas também de Marlon Brando ou do trágico Mickey Rourke, por exemplo – ícones universais da beleza a quem a idade maltratou sem piedade. Envelhecer é uma coisa que impressiona, ainda que seja o mais natural que há. Os anos passam e as pessoas perdem uma parte do interesse que têm, ainda que cheguem a tornar-se mais sábias e ponderadas. É assim a vida.

Acresce que não sei ao certo de onde isto veio, se é dos 40 anos já feitos ou de outra coisa qualquer. Mas talvez seja melhor deixar de ver televisão ao domingo.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 5 de Julho de 2011

Quinta-feira, 14 de Julho de 2011

Crónicas do autocarro#81



Se as regras mais elementares do bom senso mandam que não se tente fazer omeletas sem antes partir os ovos, a circulação nos transportes públicos de pessoas carregando sacas com ovos deve, outrossim, impor alguns cuidados para que os ditos ovos não se partam nem percam entre um transbordo e outro. A patusca idosa que hoje vi no autocarro parecia, porém, pouco aparelhada para as coisas práticas, de tal forma que, ao sair em Álvares Cabral, ensaiou uma manobra arriscadíssima, digna de inaugurar um novo desporto radical: pousou no chão do autocarro o saco com as caixas dos ovos, desceu para a rua e só depois se aprestava para recolher o saco do interior do autocarro. Como, porém, um saco com ovos é uma coisa pouco visível, a porta do autocarro fechou-se antes de ter transcorrido o tempo necessário a que a tarefa se completasse, trilhando o braço da velha, o qual ficou cá dentro, segurando a saca, enquanto o resto da senhora se achava já no exterior da viatura. Na aflição, a idosa berrou e a porta abriu-se imediatamente, pelo que a coisa se resolveu sem que dali resultassem maiores transtornos do que o susto propriamente dito. No passeio, a boa mulher ficou, ainda assim, a protestar muito indignada, criticando o motorista por nem dar tempo a que se saia do autocarro. Como ela já estava lá fora quando a porta se fechou, talvez devesse, em vez disso, criticar os ovos por não terem sido suficientemente ágeis. De uma próxima vez, creio mesmo que será mais conveniente que a senhora se faça já acompanhar pelos pintos que dos ovos pudessem nascer, os quais a seguiriam ordeiramente e em fila indiana, como é do bom uso das coisas da natureza.

Confissão um pouco precipitada, mas, em todo o caso, sincera


© Teatro Anatómico 2008

Por incrível que tal coisa possa parecer ao comum leitor destas linhas, sou uma pessoa regular e sensata durante a maior parte dos minutos que o dia tem. Sei perfeitamente, por isso, que não sou cabo-verdiano, que nada de palpável me liga a Cabo Verde e que, por muito que me interessem as conversas em Crioulo que ouço no metro, não vou nunca ser sampadjudo ou badio, de Sintanton ou da Bubista. Não foi isso que a vida quis e já não vou a tempo de mudá-lo. Tento, por isso, esquecer-me desta mania que tenho, do sobressalto que certas coisas de Cabo Verde me provocam. Mas basta que, a meio de alguma coisa que esteja a fazer, apareça o Ildo Lobo a cantar o Cretcheu Maguode, o Caminho di mar, o Sonte é bo nome ou a Conbersa co deus, para que algo em mim se revolva e enterneça. Coisa mais estranha, mais estúpida, isto de ter vontade de sorrir e fechar os olhos só por escutar um marmanjo cantando.

Quarta-feira, 13 de Julho de 2011

Crónicas do autocarro#80



Quando, esta manhã, entrei no autocarro, reparei que, do outro lado da rua, ia um moço preto de rastas no cabelo a correr pelo passeio, com uma trouxinha vermelha debaixo do braço. Dali até à Avenida da Boavista, o rapaz foi sempre acompanhando o autocarro, atrasando-se quando a viatura circulava normalmente e recuperando a distância quando nos detínhamos nas paragens. Depois perdi-o de vista e fui entretido a ouvir a conversa de umas pessoas que estão tão longe da realidade que até consideram que o jackpot do euromilhões dava jeito a Portugal, “para tapar o buraco”, ignorantes de que aquele dinheiro todo já não dá nem para a cova de um dente das dívidas que para aí andam. Foi então que, ao pé do Rodrigues de Freitas, vi que o rapaz das rastas continuava a correr ao lado do autocarro. Mantinha o mesmo passo descontraído e não parecia transpirado nem nada, como se vir assim a correr desde tão longe fosse uma espécie de belo e descontraído passeio matinal. Pus-me a pensar no moço e a tentar imaginar os motivos que o teriam levado a correr com uma trouxinha vermelha debaixo do braço quando podia ter entrado no autocarro e vindo sentado como nós, olhando pela janela e pensando na vida. Ocorreu-me que o tivesse feito apenas por lhe ter apetecido, ou, mais simplesmente, por não ter sequer dinheiro para o bilhete, e que o euromilhões lhe daria muito mais jeito do que ao país, que é uma espécie de poço sem fundo onde tudo o que cai se consome em juros e outros disparates. Mas, calhando, o rapaz até está muito melhor assim: saudável e em forma.

Terça-feira, 12 de Julho de 2011

Sobre a inutilidade do acordo ortográfico


Confesso, senhoras e senhores, que tenho acompanhado este assunto com um interesse algo exagerado (e não foi porque a sorte dos animais me suscite qualquer preocupação ecológica digna de nota). No fundo acho que pretendia apenas que chegasse o momento em que posso fazer esta piada soez: apesar do acordo ortográfico e outras coisas assim, tenho a certeza de que os veados suscitariam muito mais procura se a hasta pública tivesse sido aberta a interessados no Brasil.

Segunda-feira, 11 de Julho de 2011

O troika-troika-troika



Tendo embora prometido, há uma semana ou duas, mudar radicalmente de assunto e não prestar doravante atenção quase nenhuma às práticas da democracia parlamentar (aka forma de governo exercida em nome do povo para geral e exclusivo benefício das grandes corporações e dos mercados financeiros), não pude deixar de reparar no sujeito que, na noite do São João do Porto, rompia a multidão compacta do bailarico de Miragaia distribuindo sonoras marteladas e anunciando a cada passo, antes de desferir as pancadinhas, aquele bem significativo “olha a troika, cuidado com a troika”.

O resto do maralhal, bem entendido, longe de se sentir ameaçado e desviar a cabeça, entregava-se docilmente ao castigo de cada nova martelada. Em certos casos, que eu bem vi, algumas pessoas chegaram mesmo a sorrir, francamente bem-dispostas pelo humor das investidas e capazes até de tolerar o incómodo das pisadelas e dos empurrões, ou não fosse o são-joanino festejo uma espécie de Carnaval sem máscaras, durante o qual as paródias são recebidas com fleuma e sem que a quase ninguém ocorra levar a coisa a peito.

Dado a certas bizarrias, pus-me a imaginar o latagão que abria caminho à martelada como uma espécie de metáfora do longo braço da troika, mas logo me pareceu que alguma coisa naquela bota não batia com a perdigota respectiva. Estávamos todos num aperto (certo) e até com alguma falta de ar (certo), dedicando-se a dita troika a impor-nos a sua implacável regra (certo), agredindo-nos à martelada (certo) com certa malevolência (certo) e sadismo (certo). Acresce que, tal como inevitavelmente sucederá, o castigo da troika tombava selectivamente sobre os cocurutos de quem cometera a imprudência de participar no plebeu e popular festejo, deixando incólumes os precavidos que celebravam particularmente em apartamentos de cobertura, barcos e jardins de vivendas, atirando ao ar o próprio fogo-de-artifício e não repartindo sardinha nem broa (muito certo).

O que nisto havia de errado não era a fraca equanimidade do castigo, que a desgraças dessas já o corpo está sobejamente afeiçoado, mas outros dois pormenores que me pareceram muito dissonantes: primo, e desde logo, o povo sorria quando directamente atacado e não esboçava nenhum protesto, o que causa espanto mesmo se não estamos entre gregos nem troianos, mas junto da serena e pacata gente lusa dos brandos costumes; depois, as marteladas daquela troika não machucavam quase nada, amortecidas por uma almofadinha de plástico em fole, a qual, em alguns modelos mais sofisticados, chega a produzir uma musiquinha estridente, espécie de assobio ou apito, somando-se ao polifónico coro das pancadinhas de São João.

Desiludido da metáfora que tinha começado a imaginar, pus-me, ainda assim, a escutar os ruídos da festa. Destrambelhado como sou, pareceu-me escutar distintamente, entre os pim-pim-pim, os toc-toc-toc e os truca-truca-truca da martelada geral, uma onomatopeia nova. Havia no ar, tenho a certeza, um ruído ruim. Ouvia-se muito bem aquele troika-troika-troika-troika.



*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 28 de Junho de 2011

Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

No estado a que isto chegou, temos que aproveitar estes bocadinhos para sorrir

Bem sei que, no fim, acabo por ser eu a pagar a conta, mas confesso que me tenho divertido bastante com o tipo de indivíduos que nestes dois últimos dias têm vindo a público para criticar as agências de notação em geral e a Moody’s em particular, chamando-lhes pouco menos do que bandidos, facínoras e porcos capitalistas. É quase tão hilariante como ver o Cavaco e defender a agricultura nacional.

Um pouco mais lento do que a velocidade da luz

Vem nos livros: a luz demora 1/299792458 do segundo para percorrer um metro em vácuo e é capaz de percorrer, num só segundo, 299.792.458 metros - excepto na minha casa de banho. Na minha casa de banho, o interruptor e a lâmpada não estão a mais de dois ou três metros de distância um do outro, mas, sempre que ligo o interruptor, noto que transcorre um breve lapso de tempo até que a luz do tecto se acenda, normalmente o suficiente para que eu pestaneje uma ou duas vezes. Das duas, uma: ou as leis da física não se aplicam entre o bidé e a banheira da minha casa, o que me parece uma enorme bizarria, ou o fio que sai daquele interruptor vai ao Brasil e volta antes de chegar à lâmpada do tecto. Parece-me que, em nome do rigor científico, devia investigar este fenómeno com mais aplicação, mas tenho preferido não o fazer. Temo descobrir que a minha casa de banho é, afinal, só mais uma divisão da casa sem nada que a recomende particularmente.

Segunda-feira, 4 de Julho de 2011

Contar histórias*



Numa conferência que proferiu há dias nesse lugar extraordinário que há-de ser a livraria Ateneo Grand Splendid – um antigo teatro de Buenos Aires forrado de livros e, logo, de histórias, vidas, fracassos e sucessos –, o escritor argentino Abelardo Castillo declarou não saber como surgem as narrativas que conta. “Sempre estive convencido de que aquilo a que se chama imaginação é uma péssima mistura de má memória e falta de fé: acreditamos que estamos a inventar, mas limitámo-nos a recordar defeituosamente”, disse.

Dois ou três dias antes de tê-lo lido, tinha estado a conversar com uma amiga que mantém uma certa crença na capacidade humana para continuamente efabular e inventar histórias, mas desconfia da inclinação das gerações mais novas para se dedicarem à leitura de narrativas lineares, clássicas, por estarem agora adestradas na lógica atomizada da internet. Eu sou bastante menos optimista quanto à possibilidade de inventar novas histórias, mas creio que mesmo em ambientes tão dispersivos como o Facebook subsiste a ancestral predisposição do ser humano para se deixar prender por uma narrativa. É para isso que lá estão os chamados “murais” – para que seja possível reconstituir uma história, uma vida, a partir de um conjunto de frases e comentários mais ou menos avulsos.

Há, no Facebook, milhões de histórias sendo contadas e lidas ao mesmo tempo. Tal como, porém, acontece com uma boa telenovela, ou com um reality show, os enredos que ali se podem ler e subentender não são, evidentemente, literatura, ainda que possam ser, e sejam muitas vezes, pura ficção, mais ou menos verosímil conforme o talento do narrador para levar os leitores a acreditarem na mentira que lhes é contada. O mundo, ou uma parte dele, acreditou, por exemplo, que Amina al Omari era uma rapariga feliz e lésbica que escrevia um blogue, vivia na capital da Síria e aí foi até entrevistada por uma jornalista do Guardian – e, afinal, era só um norte-americano que vivia na Escócia. Do mesmo modo que, soube-se também na semana passada, Paula Brooks, a editora de um site de notícias lésbicas, era apenas Bill Graber, um trabalhador da construção civil do Ohio.

Mais do que contar uma história verdadeira, verosímil ou totalmente inventada, a literatura lida, ou deve lidar, com a verdade e não com a realidade, conforme afirmava Enrique Vila-Matas numa entrevista recente à revista Ñ. É um modo de dizer e contar, e, além disso, tal como Castillo sugere, a capacidade de recordar não recordando, a fim de permitir, ainda, que se recombinem e voltem a contar, como se de novidades se tratasse, as mesmas narrativas que, desde tempos imemoriais, mantêm o homem preso, de olhos esbugalhados, à roda da primordial fogueira. Desse constante mergulho, crê-se, hão-de resultar fracções de uma verdade profunda sobre o medo, a morte e esta coisa bela e horrível que é estar vivendo na companhia de um cérebro que cria problemas e os resolve, nem que para isso trate de inventar os deuses.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 14 de Junho de 2011