Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

Nha Nácia Gomi


Foto de Omar Camilo, retirada do blog Café Margoso

“Lusofonia” é uma palavra boa para falar de boca cheia. Fica bem nos discursos, serve para promover excursões diplomáticas e até para manter ocupados os cavalheiros do marketing cultural. Depois, quando se vai a ver, a lusofonia é só uma coisa oca com um embrulho bonito – como um ovo de Páscoa ao qual não falta, sequer, a evocação doce do chocolate de São Tomé e do Brasil. Só isto explica que Nha Nácia Gomi tenha morrido e quase não tenha havido notícia disso nos meios de comunicação social portugueses.

Nha Nácia Gomi morreu no passado dia 4, na Praia, em Cabo Verde, aos 86 anos de idade. Era analfabeta, mas também considerada uma autêntica biblioteca de sabedoria popular. Improvisava canções, contava histórias, recitava poesia, declinava tiradas filosóficas e ensinava a História das ilhas. Nessa condição, representou o país, por exemplo, nas expos de Lisboa e de Sevilha.

Mesmo que vossa excelência que agora me lê não a conheça, Nha Nácia Gomi (ou Maria Inácia Gomes Correia) é um dos emblemas culturais de Cabo Verde, país de expressão oficial portuguesa de pleno direito, pois até o Crioulo ou os vários Crioulos que lá se falam têm o Português como sedimento fundamental. Não era, como Cesária Évora, uma embaixadora internacional dos sons melancólicos da morna, aplaudida tanto em Paris como em Tóquio. Dentro de Cabo Verde, porém, foi uma espécie de figura tutelar e matriarcal. Chamam-lhe a “rainha do finaçon” e era também intérprete maior do batuku, dois dos géneros que compõem a tradição musical do país. Estava, aliás, anunciado para estes dias o lançamento de um novo disco dela, Finkadu na Raiz, em parceria com Ntoni Denti d’Oro, outro dos ícones de Cabo Verde.

Ouvi o nome de Nha Nácia, pela primeira vez, em Dimokránsa, um dos temas do disco Navega, da também cabo-verdiana Mayra Andrade. Vi-a, depois, no filme Kontinuasom, um documentário do espanhol Óscar Martínez. Aparecia com um lenço branco amarrado na cabeça, com grandes argolas douradas nas orelhas, e assemelhava-se a essas maravilhosas pretas velhas que às vezes se encontram nas ruas de Lisboa, falando um Crioulo áspero e belo.

No filme, Bety, a bailarina, vai ter com ela para lhe pedir a bênção para o seu sonho, um pouco como os guerreiros de antanho que iam encomendar-se aos deuses antes das grandes batalhas. Na realidade, Mayra Andrade, a cantora, também foi visitar Nha Nácia Gomi. Pedi-lhe para recordar esse dia e, assim, juntar-se a esta homenagem. Eis o que ela escreveu:

“Sinto-me feliz por ter partilhado uma tarde com Nha Nácia. Lembro-me do orgulho que senti naquele dia como mulher, como artista e cabo-verdiana que sou. Foi um momento fora do tempo, no qual, sentada na sala da sua casa, Nha Nácia me mostrou – como quem não quer nada – a complexidade da sua arte, da sua vida e do seu Crioulo rebuscado e profundo. Uma tarde em que vibrei com as suas profecias, o som da sua voz e a grande inspiração que durante uma vida inteira a acompanhou”.

Se a lusofonia não for isto...

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 15 de Fevereiro de 2011

Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011

No futebol como na literatura (duas modalidades em que quase fui um bom praticante)

Imitando meio mundo literário e anexo, também eu me transferirei, a partir de amanhã, para a Póvoa de Varzim, a fim de participar nas Correntes d’Escritas, um evento que tem o duvidoso gosto de me deixar fazer de conta que sou um escritor a sério. Enquanto não me meto ao caminho, enfrentando a Scut e os seus mirabolantes pórticos, tenho ainda que acabar de digerir uma porção considerável de rojões com batatinhas, que escrever uma notícia perfeitamente irrelevante e que disputar um aguerrido jogo de futebol de cinco. Ficarei limitado, neste promissor regresso à modalidade que quase me consagrou, a uma actuação como guarda-redes, por força de uma lesão contraída na última sessão de running. Já no que à minha actuação literária diz respeito, sejamos realistas: não é aconselhável alimentar grandes expectativas. Jogarei à defesa, com incursões atrevidas no contra-ataque, como qualquer clube da terceira divisão quando tem que defrontar o FC Porto para a Taça de Portugal. Mas é tal qual dizem os paineleiros desportivos: nunca se sabe quando uma agremiação humilde se transforma num tomba-gigantes (mesmo que estejamos só a falar do tamanho dos copos no bar do hotel).

Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

Crónicas do autocarro#62



Os grandes dramas internacionais que me perdoem, mas não há choque de civilizações como aquele que acontece a bordo de um autocarro da STCP. Tão depressa se ouve um jovem chamar "azeiteirona" a uma moça pubescente, como alguém se queixa de dores nas cruzes e, logo a seguir, entra o primeiro jovem em vivo diálogo com a senhora que tem 82 anos, mas que, por pilhéria, tinha dito que ainda vai fazer 26 quando os moços se meteram com ela e lhe perguntaram a idade. É mesmo assim: uma hora está uma adolescente perguntando à outra "o qu'é que andas a fazer com essa língua?" e, logo a seguir, há uma mulher que tenta erguer-se na cadeira e se queixa "ai meu deus que não m'alevanto". Quer o acaso, que é o melhor amigo do cronista, que a dita mulher com problemas nas articulações circule acompanhada pela mãe, a qual, a despeito de ter 82 anos ou algo que o valha, se levanta de um só golpe e, numa recriminação muda, abre alas em direcção à saída, como se levasse fogo no traseiro. A achacada filha ainda comentará algo como "o pior é meu, não é teu", mas, pondo o mais azedo e ressentido dos olhares, lá acabará por movimentar o cu de modo a seguir a mãe, demonstrando-se, ao menos, que certos padecimentos não são hereditários e que, a algumas pessoas, faltou precisamente aquilo de que os jovens agora abundantemente falam, ou seja, de pôr a língua mesmo onde ela não seja imediatamente requisitada. Talvez a jovem em causa venha, num dia distante, a ter dores e tal, mas ela, ouvi-a eu com estes que a terra há-de comer, garantiu que as mulheres da respectiva família morrem todas com cem anos, excepto uma avó qualquer que foi assassinada em casa. Benditas, pois, as mulheres que assim procedem, mais, evidentemente, os homens que morrem cedo, que não há, senhores, cristão que aguente tanto assédio aos países húmidos e baixos.
Ainda é assim que se escreve "húmidos"?

Pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra...


O meu avô Ricardo não sabia escrever mais do que as letras do próprio nome. Desenhava-as muito devagarinho para não se enganar. Mas recordo-o, às vezes, a afiar lápis com o gume de uma faca. Ou debruçado muito tempo sobre as páginas de A Bola, como se lesse o jornal todo. Alguém, um dia, me explicou que ele conseguia, com esforço, juntar as letras maiores dos títulos e, desse modo, ficava com uma ideia suficiente da actualidade desportiva. Ele era do Belenenses e do Boavista e detestava o Porto de um modo visceral. Creio que deve ter-me perdoado a traição portista, já que nunca deixou de me levar nas viagens que ele e a minha avó faziam. Íamos sempre de comboio (pouca-terra, pouca-terra...) e o meu avô, que não sabia escrever, sabia de cor e salteado as estações e apeadeiros do Porto até Castelo de Vide, a terra deles.

As viagens dos meus avós eram uma coisa demorada. Saíamos de casa de manhã muito cedo para ir apanhar o comboio a Campanhã e só chegávamos a Castelo de Vide quando a noite já ia alta. Se parávamos na Pampilhosa, o meu avô sabia quantas paragens faltavam até ao Entroncamento, onde tínhamos que ficar um ror tempo à espera da composição que havia de vir de Lisboa e, depois, seguia pela Linha da Beira Baixa. Chegados à Torre das Vargens, tínhamos, às vezes, que voltar a trocar de comboio, com as malas às costas.

Até hoje me lembro, por causa dessas viagens, de nomes de sítios como Alfarelos, Caxarias e Vale do Peso, e de como a minha avó se punha aflita de cada vez que o meu avô aproveitava as paragens mais demoradas para sair do comboio e esticar as pernas. Recordo-me também de um cheiro muito particular que havia nas estações, como se do ferro dos carris, da madeira das travessas e das pedrinhas sobre as quais a linha assentava emanasse um odor que me habituei a identificar como o cheiro a comboio. Voltei a senti-lo no Verão passado, no apeadeiro do Vesúvio, quando fui mostrar o Douro aos meus filhos e acabei por me meter numa estrada sem saída: uma estrada retorcida entre vinhedos, pela qual entrei sem cuidar de que, no final, seria acometido pela nostalgia dos comboios e pela recordação das viagens antigas.

Voltei a lembrar-me de tudo isto por causa das notícias que, há uma semana, davam conta do encerramento do Ramal de Cáceres, pelo qual fazia, com os meus avós, o percurso que ia da Torre das Vargens à estação de Castelo de Vide (caiada de branco, com canteiros de flores, azulejos e placas assinalando prémios no concurso das estações floridas). Numa dessas viagens, o comboio ficou debaixo de uma nuvem de gafanhotos. Recordo o barulho dos animais chocando contra as janelas e o ruído estaladiço que faziam as rodas do comboio quando esmagavam os gafanhotos que estavam pousados na linha. Disseram-me, anos mais tarde, que não há tempestades de gafanhotos em Portugal e que a minha memória há-de corresponder a um sonho qualquer. Não importa. Não faltará muito para que também os comboios (pouca-terra...) e os apeadeiros se transformem em belas fantasias distantes.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 8 de Fevereiro de 2011

Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

Crónicas do autocarro#61



Que bela viagem estava a ser o regresso a casa! Havia utentes perguntando pelo telemóvel onde podiam arranjar flores artificiais na zona da Boavista, e esta simples menção trouxe um pouco de Primavera para dentro do autocarro. Depois, indiferente à borrasca, outra utente anunciou que ia fazer uma máquina de roupa suja e, acto quase simultâneo, uma senhora mais chique do que o comum dos passageiros telefonou em altos brados para uma tal sotôra, gritou-lhe os "parabééééééns!" e depois lá continuou com aquela conversa do sotôra para aqui, sotôra para ali, "a minha mãe caiu duas vezes, mas hoje não vamos falar de coisas tristes", e toma lá mais sotôra, "beijinhos sotôra", "beijinho sotôra" e tal. Depois, na faixa de rodagem vizinha, houve até uma moça que, conduzindo um Mercedes em terceira mão, aproveitou o sinal vermelho para tirar o casaco, pondo a descoberto um profundo e mui generoso decote. E eu reparei, pois claro (que mais podia ter feito senão ver para contar?), e ela viu que eu reparei e fez queixa ao pai, o que me obrigou a dissimular o melhor de que fui capaz (o que não costuma ser grande coisa, mas o homem tinha uma bigodaça que inspirava certo respeito). Tudo corria, pois, pelo melhor. Longe estava eu, porém, de imaginar as chatices que estavam para vir. Ainda antes de ter ido aos Correios levantar a notificação de uma passagem por um pórtico de auto-estrada sem pagar (1,90 de portagens, 4,18 euros de custos administrativos, e eu até já tinha a Via Verde paga mas, pelos vistos, não me serviu de nada), entrou e veio sentar-se ao meu lado uma dessas mulheres sebosas e com falta de banho, a qual abancou com certo estrépito, reduzindo significativamente o meu espaço vital. Cheirava mal que tolhia, pelo que, daí para a frente, acho que até podiam fazer striptease no autocarro que eu era capaz de não reparar. Vim totalmente concentrado a tentar respirar devagarinho.

Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

Coisas realmente velhas: as últimas notícias da Fundação Manuel Jorge Marmelo


Na semana em que chega às livrarias portuguesas Bufo & Spallanzani, o instigante romance que Rubem Fonseca publicou em 1986 (estão presentes na trama, para que tenham uma ideia, o amor e outros venenos igualmente letais), tenho andado entretido com uma coisita ainda mais antiga, a edição que a editora Francisco Alves fez em 1987 do livro de contos Lúcia McCartney, originalmente lançado em 1969. A notável Fundação Manuel Jorge Marmelo tem assim o subido prazer de anunciar que está praticamente concluída a sua Biblioteca Rubem Fonseca (actualmente com 21 volumes), à qual faltam apenas exemplares de O selvagem da ópera (1994) e de Os prisioneiros (1963). Agradecem-se eventuais donativos de boa vontade, mas também vendas por montantes justos & honestos. E continuamos necessitados de um edifício-sede adequado à filantrópica actividade da instituição e que, outrossim, honre devidamente a memória do seu fundador.

Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

Como nem em Grândola, Vila Morena, há um preservativo em cada esquina, eis a iAplicação que realmente interessa


Anda para aí uma grande excitação (salvo seja) por causa de uma aplicação para o iphone que permite a teleabsolvição, mas, infelizmente, ainda não vi nenhum líder de opinião vir à praça pública para exigir que isto passe a estar disponível também nas cidades e vilas portuguesas, para geral benefício dos aflitinhos (com iphone). Não estou à espera de que o doutor João César das Neves o faça, mas, caramba, a canção da Deolinda já está um bocadinho gasta. Ou não?

Crónicas do autocarro#60



Tem havido greves nos transportes e, enquanto utente solidário, devo respeitar a luta de quem trabalha, cruzando também os braços, fechando os olhos e encerrando os ouvidos. Creio, na verdade, que mesmo os meus companheiros de viagem têm estado a cumprir uma rigorosa greve de zelo, abstendo-se de fornecer episódios pícaros que pudessem abrilhantar esta crónica. Fico, pois, limitado ao ambiente do metropolitano na hora de almoço, mas já se sabe que o metropolitano não é a mesma coisa que o autocarro, apesar daquela mulher que, um dia destes, reclamava que só queria mesmo era um papel para esfregar nas trombas ou na tabuleta de não sei quem. Dias há, com efeito, em que eu também desejo muito um papel ou, vá lá, um pau com pregos para esfregar na cara de não sei quem, mas a urbanidade impõe-se-me como uma trela e nunca me deixa ir mais longe do que a simples prática dos maus pensamentos. Laboro frequentemente em ideias azedas e creio que o faço, sobretudo, quando o autocarro vai mortiço, sem nada que me entretenha, e lá fora chove. Esta manhã, por exemplo, caía granizo e os vidros da viatura ficaram muito embaciados, transformando a cidade numa mancha desfocada. Diante de mim, com a cabeça quase pousada sobre o autocolante que sinaliza a saída de emergência, vinha uma moça preta dormitando. Tinha uma boca bonita e carnuda, e ficava bem de olhos fechados. Entretido a olhá-la, não tive nenhum pensamento ruim.

Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011

Planeta de macacos


Um mito grego antigo narrava, séculos antes de Noé ter construído uma arca, como Zeus fez desabar sobre o mundo um dilúvio destinado a castigar os homens pelas suas inclinações ímpias. Da chuvada só se salvaram Deucalião, o mais justo dos homens, e Pirra, a mais virtuosa das mulheres – a bordo, pasme-se, de uma caixa de madeira que conseguiu alcançar o cume do monte Parnaso, o único sítio da Terra que escapou à inundação.

A história, porém, não serve apenas para demonstrar a falta de criatividade das religiões posteriores, uma vez que fornece também uma explicação razoável para o carácter bruto dos homens do porvir. Finda a tempestade, Deucalião e Pirra foram, sozinhos no mundo, caminhando e lançando pedras para trás das costas. Das pedras que ele lançava sobre a terra húmida nasciam varões, e fêmeas dos calhaus que atirava ela. De acordo com esta interpretação do mito, somos todos calhaus com olhos – e pouco mais.

Simpatizo com a mitologia grega, mas tendo a emocionar-me mais com histórias como a da coelha grávida que, a caminho de Porto Santo, em 1419, pariu e, como uma Eva felpuda e de orelhas compridas, deu origem a todos os coelhos que existem na ilha. O P2 contava-o ontem, mas eu tinha ouvido a fantástica narração na semana passada, pela voz do biólogo Nuno Ferrand de Almeida. E arrepiei-me com essa demonstração prática da evolução das espécies, como se estivesse diante de uma revelação. Infelizmente, sendo também pouco mais do que um calhau com olhos, ainda estou a tentar perceber aquilo que me foi revelado.

Embora filho de Deucalião, prefiro, pois, a versão segundo a qual o Homem e os outros animais resultam da evolução natural das espécies, tal como Charles Darwin a desvendou; que somos todos netos de um macaco que se pôs em pé, aprendeu a atravessar o polegar diante da palma da mão e entendeu, depois, que a cabeça podia servir para alguma coisa além da criação recreativa de piolhos. Encantou-me, por isso, a história de Ambam, um gorila de dorso prateado do zoológico de Kent, em Inglaterra, que caminha em pé (“como um homem”). Vêem-se as imagens disponíveis na internet e parece mesmo que só lhe falta uma cartola no alto do cocuruto e um charuto na mão para poder ser confundido com um homo sapiens (ou com um barão da indústria).

Parece que o pai de Ambam também é capaz de andar em pé, o que talvez signifique, no grande concerto da evolução das espécies, que estes gorilas se encontram num momento em que podem começar a parecer-se com os humanos comuns. Calhando, a ficção cinematográfica de O Planeta dos Macacos não está muito longe de se concretizar e os nossos tetranetos poderão conviver, um dia, com símios inteligentes. Podemos, assim, esperar que esses futuros seres cheguem a ser tão bonitos e sensíveis como a Ari protagonizada por Helena Bonham Carter, e tão pacíficos e fleumáticos como Ambam, o gorila de Kent. Com sorte, os crioulos que resultem dos cruzamentos deles com os humanos ainda nos podem salvar das macacadas deste mundo.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 1 de Fevereiro de 2011

Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

O post anterior foi um sucesso. Prometo voltar à antena assim que tiver novidades sobre a minha destemida ascendência


Aprecio e agradeço as visitas, todas as visitas, mas o melhor de tudo, devo confessar, foi ver isto impresso nas circunspectas páginas de economia do Público. Se o Cricas ainda fosse vivo, eles haviam de ver o que é um valor acrescentado como deve ser.

Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

Por incrível que isto possa parecer, sou descendente directo do Cricas e do Fura-Pitos

A minha avó forneceu-me, sem querer, provas objectivas e irrefutáveis de que a condição de macho alfa depende menos da genética do que da condição financeira de cada um. Isto porque, parece, o meu trisavô, avô dela, era conhecido em Avitoure (e redondezas) pela alcunha de “Cricas”, dado o gosto que o bom homem tinha pela prática de actividades que envolvessem a participação sensual do sexo oposto.

O “Cricas”, parece, vinha ao Porto e arranjava uma, ia a outro sítio qualquer e arranjava outra, ao ponto de ter desbaratado, nestas práticas, as propriedades familiares. Não sobrou rigorosamente nada que ainda pudesse ser utilizado pelas gerações seguintes. Mas foi, convenhamos, por uma boa causa.

Um outro “de Jesus” ainda conseguiu ser conhecido pela promissora alcunha de “Fura-Pitos”, mas tratava-se, aqui, de uma confusão atribuível ao duplo sentido de algumas palavras da língua portuguesa. Este Fura-Pitos, segundo a minha avó, ganhou a alcunha apenas por ter emigrado para o Brasil e ter lá arranjado emprego num matadouro de aves de aviário, cabendo-lhe a função de furar os pitos para pendurá-los nos ganchos metálicos que os transportavam na linha de desmontagem.

"Cricas", pelos visto, houve mesmo só um e, depois, perdeu-se essa mui nobre arte familiar. Assim se demonstra cabalmente, ao menos, que não há genética favorecida que resista ao convívio prolongado com o proletariado, nem espécies que evoluam perpetuamente - e nós, os "de Jesus", estamos inevitavelmente a declinar.

Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011

Efeitos colaterais (para o Gonçalo M. Tavares)


(esta manhã, numa montra do Porto, aonde Bloom não foi)


"Dois minutos podem ser a diferença
entre a fisiologia louca e a tão bonita ternura".


(Uma Viagem à Índia, canto XIX, estância 85)

O espiritismo dos outros e a lucidez de Woody Allen


A temporada cinematográfica está tomada pelo espiritismo e pelas manifestações paranormais. Pode ser uma coisa relativamente tolerável pelas pessoas que cresceram com o Harry Potter e, depois, evoluíram paras as histórias com vampiros, mas há gente que ainda foi educada de acordo com os melhores preceitos do positivismo e que, por isso, não vai à bola com mortos-vivos, almas (penadas ou não), crucifixos, religiões, espíritos e outras macacadas. O cinema da época, porém, vive disto. Iñarritu estragou um bom filme com aparições fantasmagóricas (Biutiful) e Clint Eastwood desperdiça talento a fazer um filme sobre excêntricos que comunicam com o além (Hereafter). Na verdade, conforme o meu filho bem lembrou, nem sequer Woody Allen dispensou, em Vais conhecer o homem dos teus sonhos, o aparecimento de uma vidente. Bem vistas as coisas, a Cristal de Allen e o George Lonegan de Eastwood são a mesma personagem. Mas Allen tem a sensatez de não tentar transformar uma caricatura num assunto sério. O cinema dá muitas voltas, mas pode-se sempre confiar no velho paranóico de Manhattan.

Solução balzaquiana*



Ponderei dedicar este artigo à espantosa história de Solo, o cão sudanês (do Sul) que foi raptado por macacos, libertado, posto a viver num resort de Juba e que convive agora com dois antílopes. As crónicas, porém, são como o rating da dívida pública e têm humores que escapam às próprias razões da razão. Abdico, pois, de um caso ilustrativo da capacidade dos seres ditos irracionais para viverem em harmonia com animais de espécies diferentes – e, consequentemente, de uma lição de vida para alguns humanos –, mas ganha-se, espero, um contributo para a resolução da crise nas finanças de um país depauperado.

A alteração do rumo desta crónica deve-se ao facto de ter tomado conhecimento da edição, em Espanha, de um livro que pode ser de grande utilidade para as finanças públicas dos dois países ibéricos, actualmente a braços com a ingente angústia de não saberem como vão pagar amanhã as dívidas que contraíram ontem (ao ponto de se comportarem como louras viciadas em cartões de crédito). Trata-se, concretamente, de A arte de pagar as suas dívidas sem gastar um cêntimo, obra que Honoré de Balzac terá escrito em 1827 e, estou certo, encerrará quase tanta e tão útil sabedoria quanto aquela que ficou gravada no livro dedicado às maduras e suculentas mulheres de trinta anos.

Sabe-se que Balzac foi, para além de escritor de renome, ghostwriter, editor e impressor, actividade em que se iniciou em 1826, graças ao empréstimo obtido junto de uma amante. Conseguiu, para isso, uma autorização do Ministério do Interior, na qual se reconhecia que, embora ele não tivesse qualquer formação na área da impressão, conhecia bem o seu funcionamento. Conhecê-lo-ia, aliás, tão admiravelmente que, pouco depois, abandonou a actividade carregado de calotes que nunca chegou a saldar, eventualmente auxiliado pelos valiosos ensinamentos de A arte de pagar as suas dívidas sem gastar um cêntimo.

O opúsculo, supostamente baseado na experiência do barão de l’Empésé, foi considerado “imoral, impróprio e imaturo”, e, por isso, não integrou as Obras Completas do autor. Não seria caso para menos, já que o narrador do livro se empenha em dar lições sobre o mecanismo da dívida, no que pede meças a qualquer Madoff, Lehman, Rendeiro ou Costa desta vida. A obra contém inúmeros aforismos bastante apropriados ao mundo das finanças (“quanto mais dívidas tens, mais crédito consegues obter”), pelo que, no estado a que as coisas chegaram, talvez fosse útil a Portugal seguir o exemplo do sobredito barão: estando à beira de morrer, convocou todos os seus credores para lhes comunicar que, não querendo cometer a baixeza de pagar apenas dez por cento das dívidas, não lhes entregaria nem um tostão.

Tão ignorante como Balzac diante do negócio da impressão, não sei se é possível liquidar-se a pátria. Mas não creio que seja uma hipótese muito pior do que as outras que por aí circulam. Tem mesmo a vantagem de cumprir o velho adágio popular segundo o qual, acabando-se o vício, acaba também a peçonha.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 18 de Janeiro de 2011

Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011

Os pobrezinhos estão bem é assim, transformados em estátuas

A arte tem um poder curioso. Na estação de S. Bento do metropolitano do Porto estão alinhadas esculturas representando pedintes e outros desgraçados. São personagens praticamente iguais às que, ao vivo e a cores, podemos ver em qualquer rua da cidade, estendendo a mão a quem passa ou dormindo debaixo de caixas de cartão. Ali no subsolo, imóveis e sem vida, os desafortunados transformam-se em arte. Se, porém, estivessem vivos e interpelando verdadeiramente os passantes, aqueles mesmos personagens seriam um estorvo malcheiroso e feio, repugnante, quer à superfície, quer nos subterrâneos do metro. Mais: se estivessem vivas, aquelas estátuas seriam gentilmente escorraçadas pelos securitas que mantêm a ordem e a urbanidade nas instalações.

Crónicas do autocarro#59



Diz-se, às vezes, que ter carro é semelhante a ter uma amante. Para um utente diário dos transportes públicos, a posse de um automóvel, não sendo uma completa inutilidade, constitui, de facto, uma despesa um pouco extravagante, como se, para desfrutar de uns contados momentos de real utilização fescenina, um indivíduo se visse obrigado a manter uma cortesã com gastos excessivos em peças e berloques, a qual, ainda por cima, só se contenta com o consumo de um líquido exótico e caro, seja champanhe francês ou gasolina sem chumbo. No autocarro, esta manhã, a mais habitual e conversadeira utente do veículo que passa às nove e dez vinha discordando de alguém que lhe tinha dito que os Pedros “são todos atabalhoados” e, acto contínuo, passou a discorrer sobre o carro do Pedro, o seu Pedro, que não é tão jeitoso, o carro, como era o anterior e, por isso, avaria demasiadas vezes. Assim lançada, lá atingiu a curiosa conclusão segundo a qual os automóveis “são piores do que as amantes” e não apenas equivalentes nos gastos que produzem, ou isto julgava eu, porque, logo a seguir, a cidadã me esclareceu sobre os reais motivos desta popular comparação. Amantes e automóveis, explicou ela, “em qualquer lado nos deixam ficar mal”. Talvez não seja nada mal visto. Hei-de ponderar gravemente sobre o assunto.

Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

Ainda o optimismo (queremos sempre compreender aquilo que não entendemos)

Que não se pense que abdiquei de estudar os estranhos hábitos dos optimistas — aves bem raras, por sinal, sobretudo se se tiver em conta que do noticiário do dia constava a boa nova segundo a qual os nossos filhos, para o Estado Social (este Estado Social), se resumem, afinal, a ser futuros contribuintes cuja existência devemos, desde já, comprovar mediante apresentação dos respectivos números de contribuinte em sede de IRS (quais homens e mulheres de amanhã qual quê!). Estou, pois, atento e não sou bruto ao ponto de não atender ao leitor que descreve o Teatro Anatómico como "uma cigarrilha fumada no Outono". Certas pessoas são assim, sabem falar-nos aos órgãos mais sensíveis. Mas trata-se, aqui, de investigar o optimismo e, neste particular, assisti hoje a uma demonstração tão exuberante quanto incompreensível. Um cego (ou deverei escrever "invisual"?) entrou no metro na estação da Casa da Música e, ante a solícita ajuda de que foi objecto, agradeceu e disse que não havia necessidade de tanta filantropia. Depois, revirando os olhos azuis, comentou que só não sabia quem é que lhe tinha apagado as luzes ali dentro. Seria aquilo o optimismo, ou apenas um modo de amaldiçoar tudo sem perder a presença de espírito?

Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011

Crónicas do autocarro#58



"No autocarro — escreveu ainda o Gonçalo M. Tavares —, lê-se o jornal para não se olhar para o lado". Nem uma coisa nem outra, ler o jornal ou olhar para o lado, me distrai, porém, das conversas dos outros utentes, sempre tão vivas e peculiares, ora sobre as carnes que se devem utilizar no churrasco, ora sobre factos mais intrigantes do correr do tempo. Esta manhã, por exemplo, vinha a falar alto uma senhora que, sempre que chega a Fevereiro, se esquece, no fim do mês, de carregar o passe, por, disse ela, não estar habituada a que os meses sejam assim curtos. Ela já tinha idade, digo eu, para se ter habituado, mas a boa da senhora ainda no ano passado acabou a "mandar vir, mas forte e feio", com um motorista, porque estava convencida de que o passe estava válido, mas, afinal, o mês já tinha acabado. Ela ficou envergonhada - não por causa do passe inválido, mas pela peixeirada que armou no autocarro. E, este ano, já tem uma mensagem no telemóvel para não se esquecer outra vez de carregar o título de transporte no dia 28, ainda que as peixeiradas, pela conversa em anexo, prometam continuar a animar as viagens no autocarro. Ou isto ou a outra senhora que suspira e fala alto ao mesmo tempo, "Ai Sãozinha, Sãozinha, estou tão mal da minha cabeça, meu deus", como se a Sãozinha ali estivesse no autocarro e não algures na outra ponta de uma chamada de telemóvel e nos servisse de alguma coisa inteirarmo-nos de que a criatura não anda boa da cabeça. Não adianta, pois, olhar para o lado, nem ler o jornal, quanto mais não seja porque parece que a vida no autocarro vicia de um modo muito insidioso e, às vezes, eu também não estou absolutamente certo de regular muito bem da minha cabeça. Talvez devesse suspirar também pela Sãozinha ou por outra santa qualquer e declarar-me inimputável para a comum circulação nos transportes públicos, mas, em vez disso, quis hoje seguir no autocarro até ao fim do percurso, até ao ponto em que a voz gravada que se ouve nos altifalantes anuncia o "fim da linha". Fui, pois, até lá, até ao fim da linha, talvez porque precisasse absolutamente de dar corpo a uma metáfora qualquer sobre a minha vida, a falta dela e a necessidade de mudar de autocarro. Ou sobre este blogue e isto de escutar as conversas alheias como qualquer coscuvilheira. Era só isto que queria dizer, portanto: fim da linha.