Terça-feira, 30 de Março de 2010

Visitadoras e vivandeiras



No romance Pantaleão e as visitadoras, de 1973, o peruano Mario Vargas Llosa põe em cena o eficiente tenente Pantaleão Pantoja, ao qual é ordenado que crie um serviço de prostitutas especializado em suprir as necessidades dos batalhões deslocados na selva, de modo a manter alta a moral das tropas em tão rigoroso retiro. O enredo é divertido e, parece, muito original, ainda que não me espantasse hoje se me dissessem que Llosa se inspirou, para criá-lo, na referência que José Cardoso Pires faz, n’O Hóspede de Job, de 1963, às vivandeiras evocadas por Aníbal (um velho que, “sabendo bastante mais do que soletrar, conservava a prodigiosa memórias dos analfabetos”). Aníbal recorda que, segundo era voz corrente, as vivandeiras “acompanhavam noutras eras as grandes marchas dos exércitos”, comportando-se “como soldadesas, amparo da carne e alegria do militar”. “Vivandeiras? Estarei eu enganado ou existiram de facto essas mulheres?”, pergunta-se o velho. Calhando, não importa nada. Chamem-se vivandeiras ou visitadoras, essas mulheres têm uma consistência muito real – na literatura.

Segunda-feira, 29 de Março de 2010

Sortelha

A capela da aldeia tem candeeiros da IKEA pendendo dos barrotes de madeira do tecto. A santa mais próxima da porta lateral tem uma ampla cabeleira negra e voltei, por isso, a lembrar-me de Sierva María de Todos los Ángeles, a personagem de García Márquez. À hora de almoço, chegam velhos de todos os lados; juntam-se no adro e trazem ramos de oliveira. Alguns velhos visitam as campas do cemitério voltado para as montanhas queimadas e para a árvore amarela. Os mortos estão muito bonitos, enfeitados com flores de plástico.

Marilyn, a leitora

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 23 de Fevereiro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)





Camões, que foi poeta, talvez não o imaginasse quando escreveu sobre aqueles que, por “obras valerosas, se vão da lei da morte libertando”, mas, por ter morrido com 36 anos, no apogeu da fama e da beleza, Marilyn Monroe, a loira e icónica actriz norte-americana, escapou a tudo: ao esquecimento, à implacável sentença do envelhecimento, à ditadura do lugar-comum e ao nome com o qual nasceu, Norma Jean Baker (ou Dogherty, quando casou com um marinheiro). Quase cinco décadas depois de ter morrido, não há ano em que não apareçam fotografias inéditas de Marilyn – e sempre Marilyn surge esplendorosa, mesmo quando a tristeza assoma no seu olhar. Viveu pouco tempo, mas imortalizou-se pela imagem.

Só este mês foram revelados dois novos lotes de fotografias de Marilyn e, se se percebe perfeitamente que tenha sido tão abundantemente fotografada, custa um pouco entender como foi possível que alguém o tenha feito e, depois, se tivesse esquecido disso e deixado os retratos a ganhar mofo dentro de uma caixa, como sucedeu a Len Steckler, o autor dos mais recentes inéditos. As imagens agora à venda mostram Marilyn de óculos fumados, nove meses antes de morrer, magra e sorrindo muito enquanto conversa com o poeta Carl Sandburg, em Dezembro de 1961, num apartamento nova-iorquino. A actriz, conta o fotógrafo, chegou três horas atrasada ao encontro porque estivera no cabeleireiro a tratar de embranquecer o cabelo, para combinar com o do poeta, então com 83 anos.

Também este mês, a revista Life revelou um conjunto de imagens inéditas de Marilyn, da autoria de Loomis Dean, mostrando-a na cerimónia dos prémios Henrietta, em 1952, usando um vestido estonteantemente decotado, e, no mês passado, fruto dos trabalhos de digitalização do seu arquivo fotográfico, a publicação encontrou uma longa sequência de retratos da actriz captados pelo fotógrafo Ed Clark no Griffith Park de Los Angeles, em Agosto de 1950. Ela usa, aí, uns pequenos calções claros e uma camisa (que tira para aparecer com um biquíni estampado). Em algumas imagens, a actriz lê aquilo que parece ser um argumento. Numa entrevista de 1999, porém, Clark disse que Marilyn lia poesia durante aquela sessão no Griffith Park (a poesia outra vez, sim).

É um elemento curioso: a despeito da imagem de superficialidade e do sorriso excessivo (e algo tonto) que era a sua imagem de marca, imortalizada em milhares de imagens, Marilyn foi inúmeras vezes fotografada enquanto lia, inclusivamente em posições menos ortodoxas. A fotografia foi capaz de congelar a estrela de cinema e a mulher incrivelmente bela que foi, dando corpo ao mito, mas é também graças à fotografia que podemos, hoje, vê-la a ler Leaves of Grass, de Walt Whitman, ou Ulisses, de James Joyce, livros infantis, jornais e argumentos de cinema. A avaliar pelos retratos, Marilyn Monroe - que foi casada, entre outros, com o dramaturgo Arthur Miller - lia mais do que o humano comum e não é improvável que lesse mais do que alguns escritores. Morreu, depois, em circunstâncias misteriosas. Como num romance.

Sexta-feira, 26 de Março de 2010

O Germano

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)




Cismo, às vezes, que tão cedo não volto a comprar livros - pelo menos até ter debelado o monte dos romances que já comprei e ainda não li, e enquanto não tiver voltado a mergulhar em livros que recordo com alguma nostalgia -, mas, uma noite destas, fui tomar café ao fundo da rua e não resisti. Tinham, num pequeno armário envidraçado junto ao canto dos jornais e das revistas, o romance “Os Dois Irmãos”, do Germano Almeida, numa edição que custa apenas dois euros e meio (250 escudos de Cabo Verde). Comprei-o imediatamente, não apenas pelo preço módico e porque ainda não o li, mas sobretudo porque escutei o Germano contar há dias, na Póvoa de Varzim, como os seus leitores o interpelam para exigir que escreva mais livros, alegando que “precisam de dar umas gargalhadas”.

Não desdenho, nunca, da possibilidade de dar umas boas gargalhadas e, ainda por cima, lembro-me de como me foi agradável a leitura de “O Testamento do Senhor Nepomuceno”, que tinha já visto no cinema, pela mão do realizador Francisco Manso. Ri, aliás, mesmo antes de iniciar a leitura de “Os Dois Irmãos”, uma vez que me lembrei de que estive com o Germano Almeida de todas as vezes que fui a Cabo Verde: duas vezes na casa dele, no Mindelo, com encontro previamente marcado, e, pelo meio, graças a um encontro completamente ocasional na cidade da Praia, onde eu estava para cobrir a rodagem de “A Ilha dos Escravos”, outro filme do Francisco Manso (mais uma das espantosas coincidências que me unem às ilhas). Simplesmente fui assistir ao lançamento de um livro com a minha amiga Margarida Fontes e, à entrada da sala, lá estava o Germano, enorme e totalmente vestido de branco como um devoto dos orixás.

Admiro muito, e tento cultivar, a capacidade de fazer rir os outros com a simples junção de palavras e, por isso, admiro também o modo como o Germano de Almeida é capaz de provocar a gargalhada dos seus leitores. Mas também o invejo. Se, na Póvoa de Varzim, vestido com roupas escuras e grossas para enfrentar o Inverno, parece apenas um homem grande e respeitável, no Mindelo, vestido de branco e no recato sossegado da sua casa no Alto da Boavista, o Germano Almeida é o retrato vivo de um homem de bem com a vida, mesmo quando, como da última vez, estava a caminho do hospital para ser submetido a uma intervenção cirúrgica. Recordo o escritório dele, forrado de livros, e espero, um dia, poder habitar na suprema bem-aventurança de um sítio assim, repleto de histórias que parecem murmurar das estantes. Preciso apenas, bem vistas as coisas, de continuar a não resistir às tentações.

Quinta-feira, 25 de Março de 2010

Primavera ou lá o que é




Se não padecessem do insensato pecado da pressa, as aves não tinham desenvolvido a fulminante capacidade de voar. São apressadas e, tanto quanto nos é dado observar, igualmente um pouco precipitadas. Exceptuando as muitas raras circunstâncias em que se põe contemplativos, chilreando nos ramos, ou banqueteando-se com vermes e insectos, os pássaros movem-se com excessiva rapidez. Voam de um lado para o outro e não praticam, ao fazê-lo, nenhuma metáfora ou hipérbole. Voam efectivamente, muito céleres e eficazes, como se não tivessem um único segundo a perder. Mesmo quando se exibem artisticamente, executando habilidades aéreas, parecem com pressa, com se num afã para se irem embora e, muito provavelmente, para comparecerem daí a instantes noutro ponto qualquer do céu da cidade, onde apresentam o mesmo número e seguem para o próximo palco, organizadas e burocráticas como funcionários da Segurança Social. É, creio, devido a este lapso da sua natureza que algumas aves estavam já a instalar-se nas árvores da cidade, fiadas de que a Primavera tinha chegado e de que era necessário acomodar-se o quanto antes, de modo a obter primazia na ocupação dos galhos mais espaçosos e com melhores vistas. Precipitaram-se, porém. Esta ventania que hoje se pôs há-de ter derrubado os ninhos e provocado outros e diversos prejuízos materiais. Curiosamente, vi com atenção os noticiários da hora de almoço e nenhum falou deste assunto, como se não interessasse nada a dor das aves e os pássaros não fossem tão filhos de deus como um madeirense qualquer.

Quarta-feira, 24 de Março de 2010

Crónicas do autocarro#22

Tenho, na verdade, frequentado muito pouco os transportes públicos na semana em curso, pelo que os adoradores de escatologia e de sabedoria popular terão que esperar pelo meu eventual regresso à normal actividade laboral, isto se a realidade não quiser, entretanto, fornecer mais uma demonstração viva daquela lei segundo a qual, se uma coisa pode correr mal, ela vai mesmo acabar por correr mal. Curiosamente, ainda não vi ninguém invocar Murphy no autocarro. Os utentes, ao contrário dos fazedores de opinião, não apreciam filósofos estrangeiros e raramente citam frases que não tenham sido escritas n'A Bola ou proferidas no episódio da véspera de alguma novela da TVI, ainda que sejam, eles mesmos, estátuas vivas da consumação de um país que evolui obedecendo cegamente à Lei de Murphy.

Isto devia ter um título, mas francamente não me ocorre

C'um catano! Era capaz de jurar que tinha sonhado com dois ou três posts extraordinários e que me permitiriam vir aqui fazer um vistaço, mas não estou presentemente capaz de me lembrar de nenhum (sim, estava advertido de que o álcool prejudica um pouco as actividades intelectuais, mas, muito francamente, eu só bebo, vá lá, três ou quatro vezes por dia — e quase sempre às refeições).

Segunda-feira, 22 de Março de 2010

Internet segura

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 16 de Fevereiro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)





Na semana passada, para assinalar o Dia Europeu da Internet Segura, o Público ouviu uma investigadora segundo a qual as crianças e os jovens recorrem cada vez mais à rede de computadores para fazerem os trabalhos escolares, limitando-se, quase sempre, a plagiar informações e frases. Alguns universitários, parece, fazem mais ou menos a mesma coisa: entram no Google, pesquisam sobre o tema que têm entre mãos e copiam o que encontram, repetindo os erros que existam.

Nós, os jornalistas, não somos muito diferentes. A internet permite, hoje, o acesso quase instantâneo a uma cornucópia imensa de dados, fontes e informações, facilitando muito o trabalho de quem precisa continuamente de se documentar sobre novos assuntos. Mesmo avisados dos riscos, é irresistível a tentação de recorrer ao Google para procurar elementos que, de outro modo, demorariam horas ou dias a compilar. E nem sempre há tempo para cruzar informações e evitar que as inexactidões contaminem o trabalho. Acontece a qualquer um e aconteceu também, pelos visto, ao escritor e filósofo francês Bernard Henri-Levy.

No livro Da Guerra na Filosofia, que tem como base uma conferência proferida na École Nationale Supérieure, Henri-Levy cita o filósofo Jean-Baptiste Botul, autor de um interessante conjunto de intervenções junto de um grupo de neokantianos do Paraguai e do livro A Vida Sexual de Immanuel Kant, publicado em 2004 pela editora Mille et Une Nuits. A coisa soa um pouco estranha, mas, fascinado pelo brilhantismo da filosofia de Botul, que conheceu na internet, Bernard Henri-Levy referiu-se-lhe várias vezes nos últimos tempos, inclusivamente no seu mais recente livro, o qual, ainda por cima, foi bem acolhido pela crítica. Na semana passada, porém, o proeminente pensador teve que engolir em seco e retractar-se.

Jean-Baptiste Botul não passa, afinal, de uma invenção de um jornalista do satírico Canard Enchainé, Frédéric Pagès. Com algum bom humor, o verdadeiro filósofo reconheceu o erro num artigo publicado na conceituada revista La Règle du Jeu, que dirige, e chegou mesmo a felicitar o autor do falso filósofo, considerando “brilhante e muito credível” a visão de um Kant atormentado por demónios mais humanos e distantes do conceptualismo que normalmente se reconhece na sua filosofia. Numa entrevista à Europe 1, Henri-Levy garantiu, gracejando, que todos os outros filósofos citados em Da Guerra na Filosofia são verdadeiros.

Não se imagine, porém, que escrevo movido por qualquer desconfiança radical relativamente às novas tecnologias. Não li, aliás, Da Guerra na Filosofia (nem sequer o admirável A Vida Sexual de Immanuel Kant) e fiquei a saber de todo este enredo graças à internet. Cruzei, ainda assim, a informação que encontrei no site de uma revista argentina: fui ler o artigo de Henri-Levy na La Règle du Jeu e ouvi a entrevista do filósofo na Europe 1 – coisas que, na verdade, não poderia ter feito sem o Google.

Quinta-feira, 18 de Março de 2010

Crónicas do autocarro#21

Quando me atraso um pouco e apanho o 502 que passa às 9h10, é certo e sabido que encontrarei a amarga mulher que já nem para companhia serve. Tem uma tatuagem no flanco esquerdo do pescoço e o rosto macilento. Vem sempre com uma irmã mais nova e mais gorda e fala bastante alto, discorrendo sobre os mais diversos assuntos. Gosto de ouvi-la falar, pois tenho a sensação de que o povo todo se expressa pela voz desta mulher, espécie de porta-voz dos anseios e dos dramas da comunidade. E do que fala a amarga e popular balzaquiana? Ontem, por exemplo, vinha protestando qualquer coisa sobre um homem bastante incapaz e que nem consegue carregar o próprio telemóvel. Ela, pelos vistos, aconselhou-o a deixar o aparelho a carregar durante a noite, instrução que não satisfez o cavalheiro, o qual quis saber também o que poderia fazer caso o telemóvel não carregasse completamente. “Meta o carregador no cu e leve-o consigo”, diz a mulher que lhe respondeu. A sugestão pareceu-me bastante imaginativa, mas, ainda assim, não fiquei com vontade de experimentar.

Segunda-feira, 15 de Março de 2010

Labirinto

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 9 de Fevereiro de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)




Cruzei-me ontem, numa livraria, com uma edição do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, com apenas 115 páginas. Tarde demais: ando há meses a marrar no grosso volume que adquiri num arroubo de voluntarismo, consumindo as quase 500 páginas em doses homeopáticas, quando podia ter-me limitado a ler a publicação na qual se resume “o melhor do Livro do Desassossego”.

Extenuado pela insanidade que é ler o melhor, o pior e o assim-assim da obra de Soares/Pessoa, fui ver a exposição Resistência, patente no Centro Português de Fotografia e dedicada a todos os que, entre 31 de Janeiro de 1891 e 25 de Abril de 1974, se empenharam em fazer alguma coisa para que Portugal fosse um país livre. Lá estavam Abel Salazar e o bispo D. António Ferreira Gomes, Salgueiro Maia, os grevistas da CUF, os loucos republicanos de 1891 ou os regicidas de 1908, ainda que, enquanto passeava entre as estilosas estantes de contraplacado que servem de suporte às imagens, me tenha vindo à memória, isso sim, uma notícia recente sobre uma exposição em Buenos Aires, no Centro Cultural Borges.

El vértigo de las reservas, do fotógrafo suíço Alan Humerose, mergulha no mundo inexplorado dos depósitos dos cinco maiores museus de Genebra, mostrando as obras que os visitantes não costumam ver, guardadas em subterrâneos. Para tal, Humerose teve que percorrer quilómetros de armários, investigando-os, perdendo-se para encontrar um nexo da sua viagem. À revista Ñ, explicou que, ao princípio, não sabia por onde começar, mas que o mergulho nos armazéns dos museus acabou por se transformar em algo semelhante à vertiginosa exploração de um labirinto.

Jorge Luís Borges, o escritor argentino que o espaço da exposição homenageia, também gostava de labirintos e chegou a imaginar, entre outras coisas particularmente instigantes, um dédalo literário, a Biblioteca de Babel, espaço infinito que abrigaria uma infinidade de livros e que, por isso, conteria todas as possibilidades da realidade. Enquanto metáfora do mundo à espera de decifração, o labirinto de Borges parece convidar a mergulhar também no infinito labirinto que são os depósitos e armazéns de todos os museus do mundo, nas realidades ocultas e na arte secreta que lá se esconde.

Pode-se, evidentemente, ficar com uma ideia do que é o Livro do Desassossego em 115 páginas, mas só se conhece realmente o Livro do Desassossego imergindo profundamente no enleio mental de Bernardo Soares. Talvez por isso, enquanto deambulava pela espécie de labirinto formado pelo cenário da exposição Resistência, entre fotografias de vilões e heróis, rostos famélicos e jovens da Mocidade Portuguesa executando a saudação fascista, percebi que, por trás de cada uma daquelas histórias, daqueles factos, haverá algures, num imaginário depósito, uma imensa galeria de grandes homens esquecidos e anónimos; e que, de uma forma ou de outra, estamos sempre condenados a conhecer apenas uma parte da realidade, superficial e resumida – como uma biblioteca infinita condensada em 115 páginas.

Domingo, 14 de Março de 2010

Marcela e Elisa, duas lésbicas no Porto



Um dia depois de Cavaco Silva ter enviado para o Tribunal Constitucional a lei que legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a revista dominical do El País conta a história de Marcela e Elisa, duas mulheres da Corunha que casaram em 8 de Junho de 1901, pela igreja. Na foto da boda, percebe-se como: Elisa cortou o cabelo e compareceu vestida de homem, transformada num indivíduo chamado Mario, entretanto convertido ao cristianismo e baptizado. A mentira, porém, durou pouco tempo. As duas mulheres foram descobertas e viram-se acossadas por dezenas de títulos de jornais: “Casamento sem homem”. Marcela e Elisa fugiram para o Porto, pensando que aqui, num país estrangeiro, estariam a salvo da perseguição, mas, no dia seguinte, acabaram por ser presas. A cidade achou que eram “duas desgraçadas” e ficaram 13 dias na prisão. Libertadas, ficaram a morar no Porto o mais discretamente que puderam e, no início de 1902, Marcela acabou por parir um filho, gerado não se sabe por quem. Nesse mesmo ano, o casal partiu para Buenos Aires. Macacos me mordam se não é uma história do caraças e se não me trouxe à memória, também, o bonito namoro de duas moças a que assisti há dias no histórico Café Progresso, inaugurado em 1899, dois anos antes do casamento das galegas, e onde, em 1902, também se devia achara que o amor de duas mulheres era coisa de desgraçadas.

Sábado, 13 de Março de 2010

Os meus ovos serão maiores do que os teus



Julgo que existem estudos documentando as vantagens da exposição de homens, vacas e galinhas ao sopro erudito da música clássica. As vacas produzem mais leite, as galinhas põem ovos maiores e as pessoas ficam mais inteligentes. Pois bem. Tendo assistido na noite passada ao concerto da Orquestra Nacional do Porto com a violinista Midori, ficarei, nos próximos dias, atento ao tamanho dos meus ovos. Vem mesmo a calhar para a Páscoa.

Sexta-feira, 12 de Março de 2010

Crónicas do autocarro#20

Não devo, nisto, ser muito diferente de qualquer pessoa normal que, pour épater la bourgeoisie, declara certo gosto pela escatologia, desde que, evidentemente, se trate de uma escatologia blasée à moda de Bukowski ou dos Monty Pitons. Aprecio, obviamente, a escatologia, mas unicamente quando ela não me incomode os sentidos, mormente o olfacto. Esta tarde, porém, algum dos meus companheiros de viagem deu um traque — um traque furtivo e silencioso, traiçoeiro, dotado de um odor bastante podre. Olhei para cada um dos rostos à minha volta e nenhum manifestava culpa ou embaraço, algum sinal fisionómico que traísse a prática da flatulência em espaços fechados de dimensões reduzidas e utilização colectiva. Eram apenas rostos de pessoas regressando a casa cansadas ao fim de uma semana de trabalho. Olhando-os, ninguém diria que ia ali um peidorreiro. Fiquei, ainda assim, inquieto: aquele traque era, sem lugar para qualquer dúvida, obra de uma pessoa enferma.

Um mártir é um mártir



Por todos os motivos que sou capaz de invocar, não faz nenhum sentido ser solidário com Gandhi, Mitch Snyder, Bobby Sands, Kevin Lynch, Frank Hughes, Kieran Doherty, Raymond McCreesh, Tom McElwee, Patsy O'Hara, Aminatu Haidar ou Lula da Silva (quando foi caso disso) e ignorar, agora, o sacrifício de Orlando Zapata Tamayo, já falecido, e de Guillermo Farinas, provavelmente o mais icónico dos grevistas da fome.

Coincidências

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)

Gosto de coincidências e tenho a sensação, às vezes, de que possuo o segredo do mecanismo que as produz. Ou melhor: não sei exactamente o que fazer para que dois ou três acontecimentos ocorram de modo a formar uma coincidência, mas noto que, em certos dias, basta um gesto simples e despreocupado para que uma torrente de coincidências jorre sobre a minha cabeça. Ontem foi um dia desses: aconteceu quase como se várias crónicas anteriores coincidissem num só dia, no espaço de poucas horas.

Terminámos de almoçar e o Nuno sugeriu passar numa leitaria próxima para comprar um éclair. Eu sugeri que, em vez disso, fôssemos tomar um grogue ao restaurante da dona Iva, de que já aqui falei. O Nuno e a Vanessa aceitaram a proposta – e depois deixaram-me a beber grogue sozinho, coisa de que jamais desdenho. Peguei no cálice, inspirei profundamente para sentir o cheiro da cana e, na verdade, foi como se uma poderosa magia me invadisse, despertando o fragoroso eflúvio das coincidências.

Quando voltei ao trabalho, não notei, sequer, que me entretinha a rever o meu mais recente conto cabo-verdiano, mas, ao final da tarde, quando ia a caminho do metro, acabei por me cruzar com o Bilan, o qual, desta vez, me reconheceu e até tinha lido a crónica que, há semanas atrás, lhe dediquei. Conversámos, pois, sobre essa coincidência e sobre o facto de ambos gostarmos da fotografia antiga em que se vê um zepelim pairando sobre o mar da Laginha. Eventualmente mais espantoso, o Bilan insistiu em falar comigo apenas em Crioulo, embora eu não fosse capaz de lhe responder na mesma moeda, vendo-me obrigado a recorrer ao Português. Combinámos, para um dia destes, uma catchupa e um groguim, precisamente na dona Iva e também com o actor Flávio Hamilton, para prestarmos algum tipo de homenagem ao misterioso espírito dos bons encontros.

À noite, depois do jantar, pus o Ildo Lobo a tocar na aparelhagem e um torpor enorme tomou conta de mim mal escutei os primeiros versos dessa espantosa canção que é Regresso: “Volta cretcheu, fazêm feliz nem que pa um dia”. Dormi no sofá e foi então, creio, que tomei consciência da espantosa força das coincidências que nesse dia me tinham acontecido. Quando acordei, imaginei que tudo pudesse ter sido um sonho ou, pior do que isso, que me sucede, com a idade, ficar um pouco confuso, para não imaginar nada mais grave. Felizmente, porém, tinha adormecido com a cabeça no colo da Vanessa, que me acompanhou no grogue de depois de almoço e estava comigo ainda quando encontrei o Bilan na Rua de Fernandes Tomás.

Quinta-feira, 11 de Março de 2010

Crónicas do autocarro#19

As coisas parecem estar a acontecer todas ao mesmo tempo. Algumas magnólias ainda não abandonaram os botões e já as ameixoeiras explodem em nuvens rosadas. A saúde de um tipo ressente-se, claro, e, como se isto não fosse já mais do que aquilo que um corpo em decadência consegue suportar, os jornais falam de um aluno que deu com uma cadeira na cabeça de um professor e, na paragem do autocarro, uma velha baixinha (mas de aspecto robusto e modos viris) reclama do filho da puta do professor que levantou uma mesa da sala de aulas e ameaçou dar com ela na cabeça da santa da neta dela. “Ainda se fosse o Gabriel, que é meio atravessado e anda a ser seguido por um psicólogo...”. Mas não, o professor foi logo meter-se com a santa da neta e arrisca-se, por isso, a levar um murro nos dentes – um por cada membro da família ofendida, eventualmente. À cautela, dou um passo atrás, não vá a velha entusiasmar-se, e refugio-me na leitura de Conspiração Contra a América. A literatura é sempre um bom escape quando o mundo se torna demasiado agreste.

Terça-feira, 9 de Março de 2010

Crónicas do autocarro#18

O dia amanheceu, enfim, sem nuvens e parece que isso é o bastante para que os utentes se tornem mais loquazes. As mulheres feias, por exemplo, vinham esta manhã bestialmente comunicativas, falando alto de uma ponta para a outra do autocarro, o sol primaveril acendendo-lhes reflexos nas argolas douradas. Uma, muito divertida, chamou pela Amália, alguns lugares adiante:
– Ó ‘Mália! Havias de ter visto a tua cunhada ontem no autocarro. Que figurinha!
Depois fez um gesto esquisito, sacudindo as mãos, fez uma careta e sentenciou que a cunhada da outra parecia mongolóide.
– Que figurinha!
E riu-se muito, mostrando-nos os grandes (e felizes) dentes amarelos.

Segunda-feira, 8 de Março de 2010

La Belle Ferronière

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 2 de Fevereiro de 20010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Um grupo de investigadores pretende exumar o cadáver de Leonardo da Vinci e efectuar testes que permitam determinar se o mestre italiano se inspirou no próprio rosto para pintar a célebre Mona Lisa. A teoria não é nova, mas, bem vistas as coisas, é bem menos rebuscada e estrambólica do que outros enredos que, ao longo do tempo, foram sendo suscitados pela Gioconda. Confesso, todavia, o meu absoluto desinteresse por aquilo que a mórbida bisbilhotice possa permitir apurar. Ainda que o rosto da Mona Lisa seja o de Leonardo, o sorriso dela continuará tão impenetrável e enigmático como até agora. E a biografia do extraordinário matemático, engenheiro, anatomista, inventor e artista continuará igualmente exposta às mais diversas especulações.

Interessou-me, isso sim, a história do quadro Retrato de uma mulher chamada La Belle Ferronière, vendido na semana passada pela leiloeira Sotheby’s. Custou ao novo dono 1,5 milhões de dólares, montante ao qual não é alheio, segundo o The New York Times, precisamente o facto de não ser uma pintura de Leonardo da Vinci. A explicação é simples: La Belle Ferronière foi oferecido como presente de casamento, em 1919, a um casal do Midwest dos Estados Unidos, o qual, quando tentou vendê-lo, foi acusado de estar a promover uma fraude com um falso Leonardo. O tribunal acabou por dar razão aos Hahn, mas os vários testes realizados durante as décadas seguintes estabeleceram que La Belle Ferronière, com o seu olhar penetrante, não é, afinal, uma obra de da Vinci. No leilão da semana passada, aliás, a Sotheby’s atribuiu o retrato a um “seguidor” do mestre italiano, “provavelmente anterior a 1750”, o que não impediu que a tela fosse vendida pelo triplo do montante esperado.

Olhando o rosto de La Belle Ferronière, pintado a três quartos como o da Gioconda, notam-se outras semelhanças com o retrato da Mona Lisa: a pose, as maçãs do rosto salientes, a boca pequena, o pescoço nutrido, uma certa escorrência da luz e o formato da cabeça que, se calhar, poderá também ser compatível com o crânio de Leonardo da Vinci. As diferenças entre os retratos revelam-se, porém, muito mais interessantes.

A Mona Lisa será ambígua e misteriosa, sim, mas também parece uma mulher choca, mortiça, austera e dissimulada, feia e sem graça. Já La Belle Ferronière tem cores fortes e uma boca mais suculenta. Parece uma mulher com certas vaidades. Usa um colar preto e amarelo que dá três voltas ao pescoço antes de se afundar no peito, e um vestido vermelho com folhos e debruns dourados. O olhar dela é mais vivo, questionador, quase desafiante sob o arco bem definido das sobrancelhas; o rosto fechado trai uma centelha de volúpia e malícia e a pele apresenta uma palidez saudável.

Não sei o que pensam os críticos e os investigadores, mas é provável que La Belle Ferronière não chegue jamais a estar exposta nas paredes do Louvre, onde não será fotografada por hordas de turistas. Já a mulher que ela foi daria, decerto, muito mais vibração a uma sala. E a uma vida.

Sexta-feira, 5 de Março de 2010

W.G. Zé Balde



Este é um segredo cujo conhecimento tem permanecido na posse de um número muito restrito de indivíduos. Talvez a revelação, que agora inicio, espante ou choque o eventual leitor, mas é, em todo o caso, uma história que tinha que ser contada – e era absolutamente necessário que alguém reunisse a coragem suficiente para fazê-lo.

W.G. Sebald, o escritor alemão falecido em Dezembro de 2001, não é, na verdade, um escritor alemão. Quero dizer: W.G. Sebald não nasceu, conforme consta da sua biografia, a 18 de Maio de1944, em Wertach im Allgäu. Aqueles que conseguem dizer correctamente o nome Sebald, com a pronúncia alemã, já o terão suspeitado. Confirmo-o, pois, categoricamente: W.G. Sebald é, na verdade, o nome artístico de um rapaz do portuense Bairro da Sé, nascido em data algo incerta. Chamava-se, na verdade, José Fernando Walter Gomes.

Segundo fontes que me escuso a revelar, José Fernando era uma criança como as outras pelo menos até ao Natal em que um familiar lhe ofereceu um baldinho de folheta. Zé Nando apreciou bastante o presente e, daí em diante, durante várias semanas, não mais o largou. Era vê-lo muito contente - como é mister serem inconscientemente felizes as crianças das fábulas -, a correr de um lado para o outro com o baldinho de folheta na mão, esbarrando nas esquinas e nas varizes das velhas da Sé.

Conta a lenda local que, certa tarde, tendo a mãe de José Fernando vindo à janela para coscuvilhar qualquer coisinha, deparou com uma cena que a embaraçou deveras: Zé Nando andava correndo na Rua de Mouzinho da Silveira, com o balde de folheta da mão, raspando-o nas carroçarias dos carros estacionados. Para cima e para baixo da rua, ratatat, ratatat, e desenhando mossas e arranhões irregulares nas pinturas dos automóveis. Consta que a mãe de Zé Nando, dona Ponciana, ao ver semelhante cena, gritou lá de cima da janela, para que toda a gente ouvisse:

- Fode o balde, Zé Nando! Fode o balde que eu dou-te outro!...

Foi tal o espalhafato que, desse dia em diante, Zé Nando passou a ser conhecido pela alcunha de Zé Balde, pelo menos até à época em que deixamos de o ver no bairro. Só voltamos a saber dele quando vimos Os Anéis de Saturno nas livrarias, muitos anos depois, e, mesmo aí, só o reconhecemos porque tinha envelhecido e era a cara chapada do Gomes da mercearia.

Quarta-feira, 3 de Março de 2010

Breve evocação



Esgotado o tocante momento em que recebo um abraço do Malangatana, com a inquestionável vantagem de a fotografia vos poupar à contemplação do meu focinho risonho, devo recordar ainda mais dois ou três momentos marcantes que ficarão para a (minha) posteridade enquanto indivíduo que, digamos, participou nas Correntes d’Escritas de 2010. A saber:

1.Conheci o Mário Zambujal. Ganhei coragem (não é fácil enfrentar a diferença de estatura moral que nos separa de um gigante) e dirigi-lhe a palavra para lhe dizer que alguém, uma senhora, andava à procura dele para lhe entregar o cartão multibanco que, pelos vistos, tinha perdido.

2.Imbuído do mesmo espírito aventureiro, aproveitei a presença de alguns conhecidos para, de modo totalmente abusivo, me sentar à mesma mesa do Héctor Abad Faciolince. O meu atrevimento foi totalmente recompensado quando, muito literariamente, o enorme escritor colombiano me pagou uma CR&F.

3.Conheci também a Mónica Marques, a qual, não podendo apreciar-me pelos dotes literários, terminou - quando confrontada presencialmente e de modo (talvez) violento com o meu inenarrável pé-de-dança - por mostrar um excessivo entusiasmo pelos meus dotes de bailarino.

4.O Luís Filipe Cristóvão, ou o homem que queria ser ele, ou que se faz passar por ele, nunca sei bem, é um cavalheiro irrepreensível, o qual, a despeito de um lamentável sportinguismo, manifesta grande interesse pela nobre arte do futebol. Creio que lhe fiquei a dever uma ou duas cervejas (há uma altura da noite em que, francamente, deixo de fazer contas), mas comprometo-me publicamente a ressarci-lo em grande estilo.

Segunda-feira, 1 de Março de 2010

Ajudante do ajudante de deus


Foto do blog do Pedro Teixeira das Neves


Gosto do pintor moçambicano Malangatana, das suas expressivas pinturas e das pessoas de olhos rasgados e melancólicos, de grandes pescoços e enormes dedos, que figuram nos quadros dele. Gosto também que Malangatana se assemelhe a um velho buda negro, lento e pachorrento como um deus, e imagino que isso possa ter justificado que, na semana passada, numa sessão das Correntes d’Escritas, o moderador, Ivo Machado, tenha designado o pintor como “um ajudante de deus”.

Instantes depois, enquanto inventava uma história que espantasse a audiência, Malangatana arranjou forma de fazer com que eu, “o miúdo”, acabasse por ler um dos seus poemas para um auditório repleto, ignorando a minha proverbial gaguez e o medo que tenho ao ridículo da exposição pública. Poucas vezes, na vida, tinha corrido o risco de ler um poema em voz alta, por muito pequena que fosse a plateia, mas, que diabo, era a primeira vez que podia fazer de ajudante do ajudante de deus. Li, pois, o melhor que pude, não tanto pela interposta categoria de auxiliar de divindades vagas, mas pelo prazer de auxiliar um artista como Malangatana. Coisa de miúdos.

Entusiasmei-me tanto com a nova tarefa que, daí a nada, quando o pintor foi instado a cantar a música islandesa que tinha acabado de inventar, me ofereci para acompanhá-lo batucando na mesa das Correntes, como se soubesse o que fazia e aquela não fosse uma das minhas mais ridículas prestações públicas. Batuquei, pois, enquanto Malangatana cantava sons guturais. Se a memória não me atraiçoar, esta há-de ser uma coisa para contar aos meus netos: o irrepetível momento em que ajudei um velho buda moçambicano a cantar para uma audiência de trezentas pessoas.

Oliveira Valença

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 26 de Janeiro de 20010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)




O meu amigo José Campos, comerciante reformado do portuense Bairro da Sé, trouxe-me há dias duas folhas A4 que resumem a incrível história de um homem: Artur de Oliveira Valença. O nome parece feito à medida da personagem de um romance e a vida contada naquelas duas páginas é tão grande que nem se percebe como pode ter cabido em tão pouco espaço. Se ainda fosse a tempo de ser alguma coisa, creio que gostava de ter sido Oliveira Valença. Ele foi quase tudo. E depois esqueceram-no (ou deram o nome dele a uma rua pela qual ninguém passa, o que é forma mais eficaz de apagar a memória de alguém).

Oliveira Valença foi jornalista, escritor, editor, costureiro e empresário. Mas foi, sobretudo, o homem que inventou coisas tão extraordinárias como as camisolas axadrezadas do Boavista, a Volta a Portugal em Bicicleta e a forma de driblar a PIDE. José Campos apresentou-mo como o grande responsável pela logística da oposição democrática no Porto, uma espécie de operacional optimista que não conhecia a palavra “impossível”. A PIDE rasgava os cartazes dos candidatos da oposição? Oliveira Valença mandava imprimi-los na mesma, colava-os em pedaços de cartão, pregava-os em tábuas e contratava o grupo de cegadas do Gamelas da Sé para desfilar com os cartazes pelo centro da cidade (até que a PIDE vinha e prendia toda a gente). O Governo Civil não autorizava manifestações? Oliveira Valença pedia autorização e alugava o Coliseu, espalhava cartazes anunciando o evento e, quando a PIDE aparecia, ele mostrava o pedido de autorização. As autoridades não apreciavam que se comemorasse a instauração da república? Oliveira Valença juntava os amigos e ia festejar, sabendo de antemão que a polícia havia de vir dispersar o ajuntamento, previsivelmente recorrendo à proverbial bastonada.

Enquanto editor, Oliveira Valença cometeu também várias imprudências, como publicar a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 1951, ou o manifesto Missão e Fins do Socialismo Democrático, ambos em folhas dobradas e presas com agrafes. O José Campos ofereceu-me um exemplar do manifesto, com as folhas amarelecidas e riscadas com sublinhados: “Os socialistas consideram-se solidários com todos os povos submetidos a ditaduras – quer sejam fascistas ou comunistas – e ligam-se ao seu esforço para reconquistar a liberdade”.

Obviamente, prenderam-no. Se fosse vivo, talvez ainda antipatizassem com ele por causa de uma frase que não está sublinhada (“O socialismo pretende abolir o regime capitalista substituindo-o por uma sociedade económica na qual o interesse colectivo substitua o interesse pelo lucro”...), mas que me saltou à vista. Ao contrário de quase todos, Oliveira Valença nunca desistiu de lutar pela possibilidade de ser livre e justo, mesmo quando perdeu negócios. Os que têm a minha idade, ou são mais novos, já só podem imaginar o que seja isto. Mas não apreciamos, em todo o caso, a ideia de estar presos. Isto devia ser suficiente para que lembrássemos Oliveira Valença.