quinta-feira, 30 de junho de 2011
É como dizem nos filmes de cowboys: mãos no ar, isto é (mais) um assalto
Porreiro, pá. O que me estava mesmo a fazer falta era mais um caralhinho que viesse meter-me a mão no bolso.
terça-feira, 28 de junho de 2011
Agora sim, um país de consultores
É desta que o país vai para a frente. Já se notam as diferenças, aliás. E os avanços. Mas que digo eu? Os verdadeiros saltos civilizacionais! Os vendedores de pacotes de telecomunicações, por exemplo: de um dia para o outro deixaram de ser aquilo que eram, uma espécie de varinas post-modernas que andavam de casa em casa apregoando serviços de TV Cabo+Internet+telefone, e adquiriram já um novo estatuto. Acabei mesmo de ser abordado por um "consultor de fibra óptica". Cum caneco!
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Mudemos de assunto*

Meti na cabeça que tinha que ler este ano o Ulisses de James Joyce, que andava pelas estantes lá de casa há cerca de uma década - e, afinal, consegui terminá-lo. Demorei nisto mais de dois meses, durante os quais me debati e resisti mesmo quando a minha filha me perguntava por que é que eu continuava a ler aquilo, se era assim tão difícil. A resposta: porque sendo denso e, por vezes, chato, insano, inóspito, disparatado e aborrecido, é também um livro delirante, interessante, caudaloso, rico e mirabolante, no qual a semiótica shakespeariana se cruza com as putas mais sórdidas de Dublin e com um verdadeiro manual de libertinagens e perversões.
Tinha já tentado ler o Ulisses uma vez, logo depois de tê-lo adquirido na afamada versão do brasileiro António Houaiss (a livraria que o vendeu já nem sequer existe). O romance, porém, repeliu-me muito amavelmente, sugerindo-me que talvez não fosse má ideia suspender a pretensão de entender uma obra que estava claramente acima das minhas possibilidades. Anos mais tarde, após um jantar bem bebido, acabei a declamar em voz alta as primeiras páginas do livro, esforçando-me por dar a entoação certa às tiradas de Buck Mullingan e Stephen Dedalus: “Vamos ter uma bebedeira maravilhosa de espantar os druidas druídicos”. Mas só mais de um ano depois recomecei a leitura a sério do Ulisses.
Desta vez cheguei ao romance de Joyce como se de uma decorrência natural se tratasse. Comecei o ano a ler Uma Viagem à Índia, do Gonçalo M. Tavares, cujo protagonista é uma ressurreição muito livre de Leopold Bloom, o personagem cujo dia 16 de Junho de 1904 o Ulisses acompanha. Logo a seguir saiu em Portugal a tradução de Dublinesca, o romance de Enrique Vila-Matas que é como uma visita ao imaginário de Bloom: um editor aposentado resolve ir a Dublin no dia em que, todos os anos, se festeja o Bloomsday, a fim de prestar uma última homenagem à literatura e à cultura impressa, numa época em que o digital se impõe como um novo paradigma civilizacional.
Ler o Ulisses pareceu-me, assim, a coisa mais normal do mundo, como percorrer um caminho sabendo qual é passo seguinte da viagem. Senti como imperioso conhecer na origem o senhor Bloom de Tavares, mas também o espectral personagem da gabardina mackintosh que aparece e desaparece no romance de Vila-Matas – e que, na versão de Houaiss, é só um misterioso homem de impermeável, chamado de Impermeato quase no final, antes de Molly iniciar aquele monólogo louco, longo e genial com que o livro se encerra.
Não pude, para além disso, deixar de notar que, mais ou menos a meio do livro, um dos personagens, John Wyse, se queixa de que a Irlanda iria, em breve, estar tão desmatada como Portugal. Cento e sete anos depois, estando a Irlanda e Portugal não só desmatados mas também muito irmanados nos desaires da economia, faz ainda mais sentido quando Bloom diz que “cada país, inclusive o nosso tão desgraçado, tem o governo que merece”. Sendo as coisas como são, será melhor, pois, seguir o conselho de Dedalus: “Não podemos mudar o país. Mudemos de assunto”.
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 14 de Junho de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
A noite em que Sancho Pança se borrou no meio do mato
Lido, D. Quixote de la Mancha é ainda melhor do que eu me lembro dos desenhos animados que vi quando era catraio. A dado passo do capítulo XX, e estando à beira de se borrar de medo por causa de uns barulhos enormes que se produziam entre o breu, Sancho Pança, o fiel escudeiro do cavaleiro da triste figura, sente que as tripas se lhe revolvem e não se prendeu com meias medidas: deixou cair as calças e, pondo a nu a "bunda cúspide, majestosa", "largou um estrépito". Sentindo o que lhe vinha pelo olfacto, pergunta-lhe D. Quixote:
— Parece-me, Sancho, que estás com muito medo!
— Ora se estou! Mas em que é que acha Vossa Mercê que estou com mais medo agora do que há pouco?
— É porque cheiras que tresandas e não é a rosas... (...) Tira-te lá para longe. Arreda-te três ou quatro passos de mim para fora. (...) A culpa bem sei onde está... Na confiança que te tenho dado, meu porcalhão!
Se isto não é grande literatura...
— Parece-me, Sancho, que estás com muito medo!
— Ora se estou! Mas em que é que acha Vossa Mercê que estou com mais medo agora do que há pouco?
— É porque cheiras que tresandas e não é a rosas... (...) Tira-te lá para longe. Arreda-te três ou quatro passos de mim para fora. (...) A culpa bem sei onde está... Na confiança que te tenho dado, meu porcalhão!
Se isto não é grande literatura...
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Haja quem cante*
Na semana passada, uma professora mexicana da pré-primária, Martha Rivera Alanis, foi condecorada por bravura pelo governador de Nuevo Leon. Segundo as notícias, ocorreu, no dia 27 de Maio, um tiroteio à porta da escola, mas Martha foi capaz de manter a tranquilidade entre os alunos: pediu-lhes que se deitassem no chão e que cantassem uma musiquinha infantil alusiva a uma chuva de doces. Enquanto, no exterior, os bandos de narcotraficantes de Monterrey produziam saraivadas de chumbo grosso e cinco vítimas mortais, na sala de aulas as crianças imaginavam que as gotas de chuva pudessem ser feitas de chocolate. “A minha única intenção foi que as crianças ignorassem um pouco o barulho das balas e, então, ocorreu-me cantar aquela canção”, explicou a educadora.
Para além de ter sido capaz de manter as crianças alheadas da brutalidade do mundo real, a professora teve ainda a presença de espírito para gravar tudo com a câmara do telemóvel. O vídeo produzido acabou naturalmente por ser divulgado no Youtube, transformando-se num sucesso viral. Martha é, pois, a heroína do momento e a sua história tem sido contada em jornais de todo o mundo - e também na edição online do PÚBLICO, onde foi lida por quase onze mil pessoas em 24 horas.
Percebe-se perfeitamente o interesse suscitado pelo caso de Martha Rivera Alanis (e dos seus pequenos pupilos). Estamos, nos tempos que correm, particularmente carecidos de boas notícias e de heróis de verdade, de carne e osso e que não tenham sido produto de alguma bravata eleitoral que os próximos dias se encarregarão de desmascarar. Sabemos que, de uma maneira ou de outra, os anos que temos por diante vão doer em várias partes do corpo. Agora que a campanha eleitoral (enfim) terminou, vamos muito provavelmente ser acordados à bruta e convocados, os do costume, a pagar o desgoverno de uns poucos.
A história de Martha, sendo encantadora, constitui também, e por isso, um pequeno e delicado raio de esperança para enfrentar as dificuldades que temos pela frente. Quando os preços subirem, os impostos aumentarem, o trabalho for uma miragem e os despedimentos tiverem sido facilitados; quando, enfim, a austeridade bater às portas todas e o futuro se assemelhar (ainda mais) a uma coisa escura e brumosa, vamos, então, precisar, quase todos, de um abrigo seguro como aquela escola de Monterrey. Dias virão, e nem é preciso ser adivinho para sabê-lo, em que teremos vontade de fechar os olhos e de ficar deitados no chão, encolhidos em posição fetal e à espera de que a borrasca abrande. Desejaremos, nessa altura, que uma voz carinhosa nos convença a cantar melodias doces e fantasiosas, que nos hipnotizem e sosseguem um pouco. Vamos, sim, precisar de alguém que, como Martha, nos embale e dê colo, que cante connosco e nos faça crer que, lá fora, as coisas não são tão más como parecem; que há pássaros cantando, cornucópias de mel, obras públicas, vida para além da dívida e delicadas gotas de chocolate jorrando de um céu infinitamente azul.
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 7 de Junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Há algo de muito errado com o novo Super-Homem
De acordo com uma notícia do Correio da Manhã de hoje, vários heróis da banda-desenhada foram, passe a redundância, redesenhados e vão ser relançados em Setembro com um novo visual. O Super-Homem, por exemplo, vai surgir com umas calças de ganga enroladas nos tornozelos e uma t-shirt sobre o dorso musculado, em vez da tradicional fatiota elástica com capa e cuecas. Há evidentemente alguma cousa que não bate certo. É difícil confiar num super-herói que se parece com os mânfios do gangue da Ribeira quando deixam a sala de musculação da cadeia de Custóias.
As melhores lésbicas
Depois desta notícia, só faltava mesmo isto para que ficasse evidente que as melhores lésbicas são, afinal, homens. E estão a sair do armário.
terça-feira, 14 de junho de 2011
E não se pode bombardear o país da carinha laroca?
A fazer fé nos jornais, se é que ainda se pode acreditar nas histórias que os jornais contam, vive-se na Síria uma situação muito semelhante à que se vivia na Líbia há algumas semanas atrás. Há revoltados, de um lado, e as forças armadas investindo com tudo o que tem contra quem quer que se lhe interponha. Ao contrário do que sucedeu no país de Kadhafi, a NATO não quer saber dos inocentes civis que morrem e estão em perigo, nem dos que fogem (talvez porque fujam para a Turquia).
Talvez o Ocidente esteja encolhendo os ombros porque da estabilidade Síria dependa também o sossego no triângulo Israel-Líbano-Palestina. Ou talvez se deva ter em conta o factor Asma Al-Assad, a bela esposa do presidente sanguinário, alvo da atenção das revistas de moda, requisitada nos jantares de gala da aristocracia europeia. Chamam-lhe “a rosa do deserto”, "a mais bela primeira-dama", e dizem que é elegante e sofisticada. E que talvez já esteja recolhida em Londres, longe do sangue e da carne apodrecendo nas ruas, à espera de que os selvagens acalmem.
Basta dar uma volta pelo Google e percebe-se perfeitamente: lá está Asma discursando perante os selectos sócios da Academie Diplomatique Internationale e lá estão os Al-Assad convivendo com a família real espanhola, com os Blair, com os Lula da Silva, com os Bruni-Sarkozy no Petit-Palais, com os Medvedev e sua majestade a rainha de Inglaterra, com os Pitt-Jolie, os Patil e os Singh, os Halonen, os Erdoghan, os Merkel e os Ban Ki-Moon (até com os Parvanov, com efeito). Kadhafi é um velho grotesco e apalhaçado, mas há-de ser mais difícil bombardear o país daqueles que costumam jantar na nossa sala de estar.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
O que não vemos*
Há dias, enquanto fumava e fazia horas para uma consulta médica, reparei num caminho pedonal estreito que nunca tinha visto. Liga uma rua de prédios bem cuidados, na parte abastada do Porto, a uma outra via bordejada de estrepitosas vivendas. Uma vez que a consulta só estava marcada para dali a vinte minutos, entrei na ruela e percorri-a até ao outro extremo. São quarenta passos, mais ou menos, mas tive a sensação, enquanto caminhava, de ter sido teletransportado para uma outra realidade.
As casas da viela são pobres, mas apenas iguais a tantas outras que profusamente existem pela cidade. Têm as paredes desbotadas e os telhados remendados com uma espécie de tela impermeável prateada. Ainda vi, de relance, uma velhota mancando um pouco enquanto percorria um carreiro lateral e escavacado a caminho de casa. Num dos muros, alguém tinha pintado, há muito tempo, a expressão “vende-se” com letras um pouco toscas, as quais se foram cobrindo da mesma patine que há nas pedras e agora já quase não se vêem – como as pessoas que ali moram.
Se é um pouco extraordinário que aquelas casas ali continuem, encravadas e cercadas como a aldeia do Astérix – provavelmente à espera de que os moradores acabem por morrer e o terreno fique livre para mais um ou dois palacetes –, não foi isso o que mais me impressionou. Surpreendeu-me, isso sim, o facto de nunca ter reparado naquele recanto da cidade, apesar de passar por ali com alguma frequência. E fiquei a pensar se foi a cidade que se organizou de modo a que aquelas casas passem despercebidas, escondendo-as, ou se não as vi porque não quis ver; se terei sido simplesmente adestrado para olhar para aquela parte do Porto como um sítio onde não é previsível deparar com histórias e vidas como as das pessoas que moram nas casas pobres do bairro rico (sobrevivendo, provavelmente, com reformas minúsculas entre vizinhos que se locomovem em automóveis escandalosos e um pouco exibicionistas).
A atenção que prestamos às coisas parece, pois, obedecer a mecanismos complexos. Em poucos dias da semana passada, reparei também mais detidamente no rapaz que canta e toca viola encostado a uma parede da Rua de Cedofeita, com a voz quase igual à do Kurt Cobain e um vago olhar esgazeado. Fui ainda ver os velhos vendedores de repolhos e frutas do Mercado do Bom Sucesso, que hoje(*) ali trabalharão pela última vez para que, depois, o (suposto) progresso transforme a velha praça em mais um centro comercial arrebicado entre centros comerciais arrebicados. Em vez de serem estimulados a qualificar o serviço que prestam, tornando-o mais moderno e atractivo –¬ como sucedeu, por exemplo, no Mercat St. Josep, a famosa Boqueria de Barcelona –, os comerciantes do Bom Sucesso serão extintos e definitivamente relegados à invisibilidade. E a culpa também é minha. Nunca, de todas as vezes que por ali passei, me dei ao trabalho de olhar para eles. O mercado do meu bairro fecha hoje e eu nem sequer lá fui comprar morangos.
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 31 de Maio de 2011
sábado, 11 de junho de 2011
O mal de Estrunfina

Um investigador da Universidade de Ciências Políticas de Paris, Antoine Buéno, publicou recentemente um livro no qual acusa a aldeia dos estrunfes, aqueles bonequinhos azuis da minha infância, de veicularem valores racistas e anti-semitas. Da análise resulta ainda a ideia de que o funcionamento político da comunidade liderada por um ancião de barba branca, com barrete e calças sintomaticamente vermelhos, segue um modelo ditatorial e colectivista, de cunho estalinista. Segundo li, Le Petit Livre Bleu: Analyse critique et politique de la société des Schtroumpfes sublinha que o estrunfes vivem num mundo onde a iniciativa privada não é valorizada, as refeições são tomadas em conjunto numa sala comunal e os habitantes raramente saem da aldeia (cujas casas são cogumelos).
O estudo recorda também a história, evidentemente racista, dos estrunfes pretos, que ficam incapazes de falar na sequência da doença que os atinge. Buéno descobriu ainda algumas tonalidades nazis na organização social dos bonecos e até um estrunfe parecido com Leon Trotsky, a ovelha negra da União Soviética estalinista.
Enquanto antigo consumidor das histórias criadas pelo belga Peyo e ex-proprietário de uma pequena comunidade daqueles anões de barrete branco, confesso que as conclusões de Buéno não causaram em mim aquele choque que, pelos vistos, motivou o vivo protesto de vários clubes de fãs dos estrunfes. Se, por outro lado, o criador dos gnomos azuis teve, alguma vez, a intenção de contaminar o mundo com ideias perversas, ocultando a perfídia atrás de bonequitos azuis de ar inocente e palerma, o objectivo há-de ter sido completamente frustrado. Não odeio judeus (desconfio, aliás, que sou um bom pedaço judeu), desprezo o conceito de raça e não me parece que o totalitarismo estalinista beneficie hoje de um prestígio internacional que deva provocar grandes sobressaltos ou preocupações entre os adeptos dos benfazejos mercados. Se bem me recordo, o estrunfes deram corpo, aliás, a uma das primeiras campanhas de marketing capitalista à escala internacional. Vendiam-se livros para colorir e pequenos bonecos de borracha, os quais, no Portugal da década de 1970, só tinham rival nos congéneres resultantes dos desenhos animados da Heidi (a abelha Maia nunca conseguiu a mesma eficácia no capítulo do merchandising).
Do pouco que recordo dos estrunfes, há apenas um aspecto que considero inquietante e passível de ter provocado graves malformações durante o desenvolvimento psicossocial dos jovens infantes que, então, éramos. Refiro-me concretamente ao facto de a aldeia de cogumelos ser habitada por uma única estrunfina. Tinha sensuais pestanas longas e reviradas, o cabelo louro e usava sapatos de salto alto e um vestidinho curto de alças. Penso nisto e não sei ainda até que ponto esse primeiro modelo feminino poderá ter influenciado perversamente o comportamento sentimental de toda uma geração de varões europeus, ou se não teremos, depois, ficado incapazes de lidar com o espanto maravilhoso da diversidade.
Ninguém estuda isto?
sexta-feira, 10 de junho de 2011
O cúmulo da hipocrisia
Depois de ter destruído a frota pesqueira a mando de Bruxelas e de, mais tarde, ter vindo dizer que Portugal deve apostar no mar, Cavaco Silva, o indivíduo que enquanto primeiro-ministro também aniquilou a agricultura, preconizou hoje, no discuso que assinalou o Dia de Portugal, o regresso dos portugueses ao interior e à agricultura. Haja falta de vergonha na cara.
O cúmulo do chavão
"Sócrates vai viver para Paris e estudar filosofia"
Primeira página do Expresso de hoje
Primeira página do Expresso de hoje
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Uma coisa que comove e outra boa notícia
A blogosfera (ainda se diz assim?) está cheia de homenagens a autores e de referências a títulos de livros, frases e poemas. Há oitos ano atrás, eu também usei um verso do Manuel António Pina para baptizar a minha primeira incursão pelos blogues. Chamei-lhe Apenas um pouco tarde. Descobri agora este blogue, cuja url remete para o título de um livro meu e que tem também por título (e subtítulo) uma das frases de O Amor é Para os Parvos. Comovi-me um pouco, evidentemente, quanto mais não seja porque se trata de uma novela com 11 anos e que já nem está disponível no mercado.
A outra boa notícia é que O Amor é Para os Parvos voltará a estar nas livrarias lá para o final de Outubro, no âmbito de um acordo com a Quetzal que prevê, para já, a reedição de três obras e a publicação de dois novos títulos. O primeiro sai em Setembro. Agora é só esperar.
A outra boa notícia é que O Amor é Para os Parvos voltará a estar nas livrarias lá para o final de Outubro, no âmbito de um acordo com a Quetzal que prevê, para já, a reedição de três obras e a publicação de dois novos títulos. O primeiro sai em Setembro. Agora é só esperar.
Franklin vai estudar*
Aconteceu, creio, há onze anos, num hotel de Santa Maria da Feira. No final de uma entrevista com Walter Salles, na qual o filme Central do Brasil (1998) veio naturalmente à baila, perguntei ao realizador brasileiro se tinha visto O Verão de Kikujiro, de Takeshi Kitano (1999). Salles pareceu-me um pouco constrangido quando respondeu: “São parecidos, né?”.
Eu vira O Verão de Kikujiro pouco tempo antes, num festival dedicado aos cruzamentos entre o cinema e a literatura, e notara as coincidências que há entre a história de Central do Brasil, protagonizada por Fernanda Montenegro, e aquela outra a que o próprio Kitano dá corpo e que é, afinal, tão radicalmente diferente do cinema mais habitual do realizador e actor japonês, cheio de gangsters e tiros à queima-roupa. Em ambos os filmes há uma criança perdida à procura de familiares distantes, e um adulto transformado em cúmplice involuntário dessa busca. Em ambos o convívio entre a criança e o adulto acaba transformado numa relação emotiva e intensa. São dois belos objectos cinematográficos e é provável que Takeshi Kitano e Walter Salles se tenham surpreendido, depois, com as semelhanças que entre eles existem, sem que em algum momento, enquanto trabalhavam nesses projectos, um no Japão, o outro no Brasil, tivessem podido imaginar que havia uma história parecida sendo cogitada do outro lado do mundo.
Lembrei-me dos filmes de Salles e de Kitano por causa da incrível história de Franklin Villca Huanaco, um catraio boliviano de dez anos. Fugiu de casa, em Oruro, onde um irmão mais velho o maltratava frequentemente, e escondeu-se num camião, dentro de uma caixa metálica, esperando chegar a Cochabamba, onde a mãe, Zenobia Huanaco, cumpria pena de prisão. Acabou, porém, por viajar mil quilómetros, sem comida e sem água, até Alto Hospicio, no Norte do Chile, onde foi encontrado a vaguear por uma mulher que ficou com a sua guarda temporária.
Na semana passada(*), após várias diligências das autoridades bolivianas e chilenas, Franklin pôde, enfim, abraçar a mãe – uma daquelas sólidas mulheres andinas, parda e de feições indígenas, com tranças negras, um lenço colorido pelas costas e um chapéu na cabeça, que parecem pertencer a um outro tempo e a um outro mundo. E, no entanto, Zenobia Huanaco foi afastada dos quatro filhos por ter sido condenada a três anos de prisão na penitenciária de Cachabamba, depois de ter sido detida na posse de produtos químicos usados no processamento da cocaína.
Quando Franklin fugiu de casa, Zenobia tinha já sido libertada e estava a trabalhar no campo, em regime aberto, à espera da conclusão da pena. Quando pôde, enfim, abraçar o filho, prometeu, comovida, olhar por ele e “pô-lo a estudar”. Espera, muito provavelmente, que Franklin consiga, deste modo, libertar-se da pobreza indigente que leva alguns camponeses bolivianos a traficar produtos químicos. Ainda que também na Bolívia possa estar para chegar o dia em que estudar não garanta coisa alguma, também ali não custa quase nada sonhar com finais felizes.
*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 24 de Maio de 2011
segunda-feira, 6 de junho de 2011
4.355.510 dos 5.554.002 votos ontem expressos
O dia, não há como contorná-lo, amanheceu fosco, nevoento. Tive um pouco de frio pela manhã, assim como um arrepio que percorreu as entranhas já naturalmente encolhidas e acabrunhadas da minha triste e macambúzia espinal medula. Não gosto disto. O país das PPP, das auto-estradas pagas infinitamente, dos submarinos, das negociatas e das empresas públicas e municipais reúne, afinal e por alto, 4.355.510 dos 5.554.002 votos ontem expressos. Não estou aqui a fazer absolutamente nada, a ponta de um corno. Vou antes ver os indivíduos que vêm mostrar o Maserati novo para a porta do restaurante da minha rua. Eles, ao menos, têm um ar fresco e saudável, e não há crise que lhes pegue. Adeus. Vou ali amuar um bocadinho e já volto.
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