terça-feira, 31 de agosto de 2010
Ah!, os iates ancorados nas marinas deste país, tão bonitos e brancos e, afinal, ninguém os vê
O Estado, segundo vem nos jornais, não consegue fazer contas sérias com as pessoas possuidoras de sinais exteriores de riqueza, as quais defraudam o fisco em, eu sei lá, centenas de milhões de euros. Supõe-se, por isso, que, ao contrário dos preguiçosos beneficiários do rendimento mínimo, chamados a demonstrar rendimentos perante a Segurança Social, os ditos proprietários sejam muito hábeis a ocultar das vistas dos funcionários os barcos, os aviões, as mansões e os carros de luxo. São coisas em que ninguém repara. E também devem ser pessoas muito difíceis de contactar ou de amedrontar com ofícios. O Paulo Portas, por exemplo, não deve conhecer nenhuma pessoa que manifeste sinais exteriores de riqueza. Nunca se lhe ouviu, pelo menos, uma palavrinha que fosse sobre este assunto.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Ler e escrever
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 10 de Agosto de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Haverá, estou certo, quem se encontre em posição de refutar o que vou escrever, mas cá vai: o cérebro é um admirável mistério. Poderia invocar vários exemplos prodigiosos, mas estou estranhamente fixado no caso de Howard Engel, um escritor canadiano: numa certa noite do ano 2000, Howard deitou-se e dormiu um sono perfeitamente descansado, mas, quando acordou, tinha-se tornado incapaz de ler, embora mantivesse intacta a capacidade para escrever (escreveu e publicou, de resto, vários romances de então para cá, e ainda, em 2007, o ensaio autobiográfico O homem que esqueceu como se lê).
Howard Engel é, tanto quanto consigo perceber, um caso raro de alexia (assim se chama a doença), na medida em que esta surge normalmente acompanhada pela agrafia, a incapacidade para escrever. A pesquisa sumária que fiz (que me perdoem os neurologistas e outros especialistas, mas este texto está a ser escrito por um cidadão com pouco mais do que a quarta classe) permitiu-me perceber que os doentes de alexia e agrafia mantêm, de um modo geral, a capacidade de entender a linguagem oral, aquilo que lhes é dito. Um dos casos mais famosos de alexia foi descrito pelo neurologista francês Joseph Dejerine, o qual, num exame post-mortem, descobriu uma lesão no cérebro de um homem que, enquanto vivo, conseguia dizer correctamente palavras e letras sem, contudo, ser capaz de lhes atribuir um significado concreto.
Fascina-me a complexidade de um órgão, o cérebro, cujo funcionamento depende de detalhes. Basta um pequeno desvio, uma mínima lesão, um neurónio destrambelhado, para que coisas tão simples como atribuir significado a uma letra, ou mover um dedo, deixem de ser exequíveis. É admirável que, de um dia para o outro e de modo totalmente involuntário, uma singela e inexplicável lesão seja capaz apagar uma competência que qualquer outro indivíduo não conseguiria erradicar de si por muito que se esforçasse.
No romance Bartleby & Companhia, o catalão Enrique Vila-Matas reflecte sobre os vários motivos que levaram autores como Rimbaud, Salinger ou Juan Rulfo a deixarem de escrever de um momento para o outro - o Nobel mexicano, por exemplo, alegava que tinha um tio, Celerino, que lhe contava as histórias que escrevia, e que ele entretanto morreu, privando-o da sua matéria-prima -, como se tivessem sido atacados por uma espécie voluntária de agrafia. Vila-Matas chama-lhes, de resto, escritores ágrafos, embora fossem perfeitamente capazes de escrever (se quisessem).
Já o argentino Jorge Luís Borges é um caso completamente diverso. O escritor ficou cego antes dos 60 anos, devido a uma doença degenerativa congénita, e deixou de escrever e de ler. Mas, paradoxalmente, continuou a ler e a escrever. Lia através dos olhos e das palavras daqueles que para ele liam em voz alta. E escrevia ditando as frases que se lhe formavam na cabeça, sem necessitar de associá-las aos símbolos gráficos que são as letras. Os seus olhos seriam aléxicos, e as suas mãos ágrafas. O cérebro dele, não.
Haverá, estou certo, quem se encontre em posição de refutar o que vou escrever, mas cá vai: o cérebro é um admirável mistério. Poderia invocar vários exemplos prodigiosos, mas estou estranhamente fixado no caso de Howard Engel, um escritor canadiano: numa certa noite do ano 2000, Howard deitou-se e dormiu um sono perfeitamente descansado, mas, quando acordou, tinha-se tornado incapaz de ler, embora mantivesse intacta a capacidade para escrever (escreveu e publicou, de resto, vários romances de então para cá, e ainda, em 2007, o ensaio autobiográfico O homem que esqueceu como se lê).
Howard Engel é, tanto quanto consigo perceber, um caso raro de alexia (assim se chama a doença), na medida em que esta surge normalmente acompanhada pela agrafia, a incapacidade para escrever. A pesquisa sumária que fiz (que me perdoem os neurologistas e outros especialistas, mas este texto está a ser escrito por um cidadão com pouco mais do que a quarta classe) permitiu-me perceber que os doentes de alexia e agrafia mantêm, de um modo geral, a capacidade de entender a linguagem oral, aquilo que lhes é dito. Um dos casos mais famosos de alexia foi descrito pelo neurologista francês Joseph Dejerine, o qual, num exame post-mortem, descobriu uma lesão no cérebro de um homem que, enquanto vivo, conseguia dizer correctamente palavras e letras sem, contudo, ser capaz de lhes atribuir um significado concreto.
Fascina-me a complexidade de um órgão, o cérebro, cujo funcionamento depende de detalhes. Basta um pequeno desvio, uma mínima lesão, um neurónio destrambelhado, para que coisas tão simples como atribuir significado a uma letra, ou mover um dedo, deixem de ser exequíveis. É admirável que, de um dia para o outro e de modo totalmente involuntário, uma singela e inexplicável lesão seja capaz apagar uma competência que qualquer outro indivíduo não conseguiria erradicar de si por muito que se esforçasse.
No romance Bartleby & Companhia, o catalão Enrique Vila-Matas reflecte sobre os vários motivos que levaram autores como Rimbaud, Salinger ou Juan Rulfo a deixarem de escrever de um momento para o outro - o Nobel mexicano, por exemplo, alegava que tinha um tio, Celerino, que lhe contava as histórias que escrevia, e que ele entretanto morreu, privando-o da sua matéria-prima -, como se tivessem sido atacados por uma espécie voluntária de agrafia. Vila-Matas chama-lhes, de resto, escritores ágrafos, embora fossem perfeitamente capazes de escrever (se quisessem).
Já o argentino Jorge Luís Borges é um caso completamente diverso. O escritor ficou cego antes dos 60 anos, devido a uma doença degenerativa congénita, e deixou de escrever e de ler. Mas, paradoxalmente, continuou a ler e a escrever. Lia através dos olhos e das palavras daqueles que para ele liam em voz alta. E escrevia ditando as frases que se lhe formavam na cabeça, sem necessitar de associá-las aos símbolos gráficos que são as letras. Os seus olhos seriam aléxicos, e as suas mãos ágrafas. O cérebro dele, não.
domingo, 29 de agosto de 2010
Seria um dia tão bom como qualquer outro para uma espécie de balanço, mas, pensando bem no assunto, é melhor deixar andar e esperar que passe
Tenho a cabeça cheias de imagens e indignações, certas certezas melancólicas, mas creio que não é conveniente transformar tudo isto em lixo blogosférico. Vou assimilando, com a idade, a lição segundo a qual a passagem do tempo se reveste de certas virtudes terapêuticas. Assim, as indignações tornar-se-ão menos urgentes e, ao fim de certo tempo, perdem importância e deixam de ser indignações dignas do nome, devolvidas, pois, à condição de pó, nada mais do que pó. Com os passeios de carro sucede mais ou menos o mesmo: trazemos os olhos carregados de mil e quatrocentos quilómetros de imagens, mas, ao fim do dia, quando se vai a ver, tudo aquilo que realmente temos em cima é uma camada de pó cobrindo a pele e o cabelo. Sai com o banho.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Pelo vale da Teja
Ao final da tarde, quando o sol já declina e o céu se encheu de nuvens, metemos por aquela estrada que desce do Vale da Teja até ao rio, àquela parte larga do rio em cuja margem acaba, lá ao fundo, de parar um comboio. É preciso encostar um pouco à berma até que acabe de passar o interminável e soberano rebanho das ovelhas lanzudas — bem vi que eram duas as ovelhas negras, e não apenas uma, o que há-de ter certa importância para o convívio de tanto gado —, mas depois a estrada seguiu serpenteando entre os vinhedos traçados por um geómetra caprichoso e chegou-se, um pouco atrasado, ao fim da estrada e ao comboio, que passou há pouco e, por isso, deixou no ar aquele estranho perfume das ferrovias antigas, misto de aço, madeira e memória. O comboio foi-se, já era, mas não importa, porque, àquela hora do entardecer, quando a luz do sol já não alcança o fundo do vale, o ar tem uma temperatura perfeita, há milhões de cigarras cantando e a casa do Vesúvio está mesmo ali adiante, como uma espécie de sonho, e o rio parece ter sido deixado ali para que o visse.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
O esquecimento
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 3 de Agosto de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Quando o escritor colombiano Héctor Abad Faciolince se aproximou do pai, morto às mãos dos paramilitares do seu país, descobriu-lhe no bolso das calças um poema desconhecido, atribuído a Jorge Luís Borges, cujo primeiro verso acabou por servir de título ao livro Somos o esquecimento que seremos. Não creio que possa esquecer-me do notável romance de Faciolince e do exemplo do seu pai (mais depressa, creio, deixarei de me lembrar da aguardente que bebi com o Héctor na Póvoa de Varzim). Contudo, querendo ou não, por muito que esperneemos e queiramos fazer-nos notados, somos quase todos, mais cedo ou mais tarde, matéria para o esquecimento futuro.
Lembrei-me do livro de Héctor Abad Faciolince por causa de uma outra história e de um outro escritor, o italiano Carlo Cristiano Delforno, falecido em 1995, com 52 anos. Publicou, nos anos 1980, cinco romances de algum sucesso, ganhou um importante prémio literário e os críticos chegaram a considerá-lo um dos escritores mais originais e inovadores da ficção italiana, uma grande promessa e, provavelmente, todos os demais lugares-comuns que costumam dedicar-se aos romancistas em início de carreira.
Casado com uma mulher franco-norueguesa e pai de dois filhos, Delforno foi viver para Los Angeles, onde se dedicou a escrever para a indústria cinematográfica e a ganhar muito dinheiro. De acordo com o escritor colombiano Santiago Gamboa, Carlo Cristiano Delforno conheceu o sucesso e, logo após, o álcool, o excesso e as belas mulheres que sempre parecem farejar a vertigem do êxito. Farta dessa vida, a esposa do escritor abandonou-o e levou os filhos. Delforno passou por uma fase depressiva e acabou por voltar a Itália para tentar recuperar a família. Comprou um terreno e construiu uma grande casa voltada para um vale semeado de oliveiras e carvalhos. Acabou por morrer ali, sozinho e, parece, destruído pela bebida.
Santiago Gamboa contou a história de Delforno num número mais ou menos recente do suplemento literário Babelia, do El País. Descobriu-a porque alugou aquela mesma casa e começou a perguntar a quem pudesse ter conhecido e lembrar-se de Delforno. Conseguiu reconstituir alguma coisa e até chegou a ler um dos romances do italiano, Transição – o caso de um homem que perde tudo. Se era uma ficção premonitória, dificilmente Carlo Cristiano Delforno terá adivinhado que a sua própria queda pudesse sobrevir tão depressa e tão tragicamente. Em menos de vinte anos, os seus livros desapareceram dos catálogos das editoras, ninguém o cita ou recorda e não aparece em nenhuma história da literatura italiana. Apagou-se e alcançou, talvez involuntariamente, o olvido a que alguns escritores aspiram, transformando-se, por isso, em eremitas agressivos e amargos – como J.D. Salinger, para citar só um exemplo. Trata-se evidentemente de uma perda de tempo. “A história de Delforno – escreveu Gamboa – é, no fim, a de todos os escritores: alcançar o esquecimento que, mais cedo ou mais tarde, todos merecemos”.
Quando o escritor colombiano Héctor Abad Faciolince se aproximou do pai, morto às mãos dos paramilitares do seu país, descobriu-lhe no bolso das calças um poema desconhecido, atribuído a Jorge Luís Borges, cujo primeiro verso acabou por servir de título ao livro Somos o esquecimento que seremos. Não creio que possa esquecer-me do notável romance de Faciolince e do exemplo do seu pai (mais depressa, creio, deixarei de me lembrar da aguardente que bebi com o Héctor na Póvoa de Varzim). Contudo, querendo ou não, por muito que esperneemos e queiramos fazer-nos notados, somos quase todos, mais cedo ou mais tarde, matéria para o esquecimento futuro.
Lembrei-me do livro de Héctor Abad Faciolince por causa de uma outra história e de um outro escritor, o italiano Carlo Cristiano Delforno, falecido em 1995, com 52 anos. Publicou, nos anos 1980, cinco romances de algum sucesso, ganhou um importante prémio literário e os críticos chegaram a considerá-lo um dos escritores mais originais e inovadores da ficção italiana, uma grande promessa e, provavelmente, todos os demais lugares-comuns que costumam dedicar-se aos romancistas em início de carreira.
Casado com uma mulher franco-norueguesa e pai de dois filhos, Delforno foi viver para Los Angeles, onde se dedicou a escrever para a indústria cinematográfica e a ganhar muito dinheiro. De acordo com o escritor colombiano Santiago Gamboa, Carlo Cristiano Delforno conheceu o sucesso e, logo após, o álcool, o excesso e as belas mulheres que sempre parecem farejar a vertigem do êxito. Farta dessa vida, a esposa do escritor abandonou-o e levou os filhos. Delforno passou por uma fase depressiva e acabou por voltar a Itália para tentar recuperar a família. Comprou um terreno e construiu uma grande casa voltada para um vale semeado de oliveiras e carvalhos. Acabou por morrer ali, sozinho e, parece, destruído pela bebida.
Santiago Gamboa contou a história de Delforno num número mais ou menos recente do suplemento literário Babelia, do El País. Descobriu-a porque alugou aquela mesma casa e começou a perguntar a quem pudesse ter conhecido e lembrar-se de Delforno. Conseguiu reconstituir alguma coisa e até chegou a ler um dos romances do italiano, Transição – o caso de um homem que perde tudo. Se era uma ficção premonitória, dificilmente Carlo Cristiano Delforno terá adivinhado que a sua própria queda pudesse sobrevir tão depressa e tão tragicamente. Em menos de vinte anos, os seus livros desapareceram dos catálogos das editoras, ninguém o cita ou recorda e não aparece em nenhuma história da literatura italiana. Apagou-se e alcançou, talvez involuntariamente, o olvido a que alguns escritores aspiram, transformando-se, por isso, em eremitas agressivos e amargos – como J.D. Salinger, para citar só um exemplo. Trata-se evidentemente de uma perda de tempo. “A história de Delforno – escreveu Gamboa – é, no fim, a de todos os escritores: alcançar o esquecimento que, mais cedo ou mais tarde, todos merecemos”.
domingo, 22 de agosto de 2010
Águas Agitadas
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
O Cadillac dourado
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 27 de Julho de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

A revista Sábado contava há dias que o antigo piloto de Fórmula 1 Eddie Ervine decidiu viver numa casa de madeira (sem televisão!) de uma ilha das Caraíbas. Perguntava-se a publicação, algo céptica, quanto tempo resistirá Eddie a tamanha privação. Há-de ser, de facto, um sacrifício enorme ter que viver numa ilha paradisíaca, pescando e vendo o tempo passar diante da praia de areia branca e do mar verde-esmeralda, privado até de um frigorífico para refrescar as cervejas. Como é que Eddie Ervine aguentará? Será possível viver sem as filas de trânsito, sem os discursos dos políticos na televisão, o mau feitio dos vizinhos, as telenovelas, os angariadores da Meo e o apocalíptico trombetear da crise? Como?
Confesso que também eu fiquei um pouco inquieto com os tristes dias que esperam Eddie Ervine na soturna ilha das Caraíbas. Só não me interessei mais solidariamente por este problema, oferecendo-me para fazer alguma companhia ao bom homem, porque, nesse mesmo dia, fui forçado a reorientar toda a filantropia que me corre nas veias para os indigentes empresários portugueses, impossibilitados (parece) de cumprirem o acordo social que prevê que o ordenado mínimo chegue aos 500 euros no próximo ano. Percebo perfeitamente o drama e o horror que ameaça estes homens e mulheres. São eles, afinal, quem impulsiona o desenvolvimento do país e provê a geral prosperidade das massas, vendo-se, porém, forçados por entidades maléficas e conspirativas a pagar autênticas fortunas aos mandriões dos trabalhadores, os quais, calhando, vão gastar esse dinheiro mal gasto, em comida, roupa, medicamentos ou assim.
Sacanas! Torna-se óbvio que os invejosos se mancomunaram para prejudicar os empresários e industriais portugueses, provavelmente com o pérfido fito de causar dano à prosperidade da indústria automóvel, nomeadamente ao segmento das viaturas de luxo, o qual tinha heroicamente escapado à crise e à depauperação geral, demonstrando um vigor extraordinário e que deve ser respeitado e protegido, a menos que se queira destruir uma das poucas coisas que funciona decentemente no país. Malvados!
Estava eu entregue a esta grave reflexão, ponderando mesmo colocar em marcha um peditório destinado a obter fundos para auxiliar o pobre empresariado nacional, quando pus os olhos num caso de polícia narrado no Diário de Notícias: tinha sido detido um homem responsável por vários roubos na região do Alto Minho. O indivíduo, segundo a notícia, assaltara várias pessoas e postos de abastecimento de combustíveis, conduzindo sempre um discretíssimo Cadillac dourado de matrícula espanhola. Perante estes factos, a polícia ponderou e concluiu, ao fim de algum tempo, que um Cadillac dourado de matrícula espanhola não é uma coisa assim tão habitual de encontrar e lá acabou por deitar a mão ao meliante.
Lendo esta notícia, pareceu-me que alguém roubando outras pessoas ao volante de um Cadillac dourado constitui uma bela caricatura do país que temos. Mas deve ser impressão minha.
A revista Sábado contava há dias que o antigo piloto de Fórmula 1 Eddie Ervine decidiu viver numa casa de madeira (sem televisão!) de uma ilha das Caraíbas. Perguntava-se a publicação, algo céptica, quanto tempo resistirá Eddie a tamanha privação. Há-de ser, de facto, um sacrifício enorme ter que viver numa ilha paradisíaca, pescando e vendo o tempo passar diante da praia de areia branca e do mar verde-esmeralda, privado até de um frigorífico para refrescar as cervejas. Como é que Eddie Ervine aguentará? Será possível viver sem as filas de trânsito, sem os discursos dos políticos na televisão, o mau feitio dos vizinhos, as telenovelas, os angariadores da Meo e o apocalíptico trombetear da crise? Como?
Confesso que também eu fiquei um pouco inquieto com os tristes dias que esperam Eddie Ervine na soturna ilha das Caraíbas. Só não me interessei mais solidariamente por este problema, oferecendo-me para fazer alguma companhia ao bom homem, porque, nesse mesmo dia, fui forçado a reorientar toda a filantropia que me corre nas veias para os indigentes empresários portugueses, impossibilitados (parece) de cumprirem o acordo social que prevê que o ordenado mínimo chegue aos 500 euros no próximo ano. Percebo perfeitamente o drama e o horror que ameaça estes homens e mulheres. São eles, afinal, quem impulsiona o desenvolvimento do país e provê a geral prosperidade das massas, vendo-se, porém, forçados por entidades maléficas e conspirativas a pagar autênticas fortunas aos mandriões dos trabalhadores, os quais, calhando, vão gastar esse dinheiro mal gasto, em comida, roupa, medicamentos ou assim.
Sacanas! Torna-se óbvio que os invejosos se mancomunaram para prejudicar os empresários e industriais portugueses, provavelmente com o pérfido fito de causar dano à prosperidade da indústria automóvel, nomeadamente ao segmento das viaturas de luxo, o qual tinha heroicamente escapado à crise e à depauperação geral, demonstrando um vigor extraordinário e que deve ser respeitado e protegido, a menos que se queira destruir uma das poucas coisas que funciona decentemente no país. Malvados!
Estava eu entregue a esta grave reflexão, ponderando mesmo colocar em marcha um peditório destinado a obter fundos para auxiliar o pobre empresariado nacional, quando pus os olhos num caso de polícia narrado no Diário de Notícias: tinha sido detido um homem responsável por vários roubos na região do Alto Minho. O indivíduo, segundo a notícia, assaltara várias pessoas e postos de abastecimento de combustíveis, conduzindo sempre um discretíssimo Cadillac dourado de matrícula espanhola. Perante estes factos, a polícia ponderou e concluiu, ao fim de algum tempo, que um Cadillac dourado de matrícula espanhola não é uma coisa assim tão habitual de encontrar e lá acabou por deitar a mão ao meliante.
Lendo esta notícia, pareceu-me que alguém roubando outras pessoas ao volante de um Cadillac dourado constitui uma bela caricatura do país que temos. Mas deve ser impressão minha.
sábado, 14 de agosto de 2010
A Teta Assustada
La Teta Asustada é provavelmente o filme mais triste do mundo e estas duas mulheres, mãe e filha, parecem carregar nelas uma dor tremenda, condensada logo na agonizante melopeia índia com que o filme abre. Aquela cidade de Lima é um mundo demasiado estranho, demasiado irreal, mas a história que lá se encena é absurdamente humana. Não há nada mais humano do que o mal e o medo.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Os que moram em barracas, coitados
(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)

Dentro de meia-dúzia de anos, se as minhas contas não me enganam, não haverá nenhum português, entre aqueles que presumem de viajar e correm a comprar pacotes de férias mal a Primavera de insinua no calendário, que não tenha já estado em Cabo Verde (ou algo que o valha). Seja para a ilha do Sal, destino turístico já com alguma antiguidade, seja para o mais recente chamariz da ilha da Boa Vista (ou Boavista, juro que ainda não atinei sobre qual das duas é a fórmula correcta), os tugas rumam religiosamente, e cada vez mais, ao arquipélago cabo-verdiano, o que é, obviamente, uma maneira de dizer, uma vez que a maior parte desta gente se limita a circular entre a gare do aeroporto, o hotel ou resort de luxo onde tem estadia paga com “tudo incluído” e a praia de águas tépidas e areia fina, derradeiro sonho de consumo do europeu ao qual as frias temperaturas do Atlântico amofinam muito severamente.
O Filinto Elísio já em tempos gracejou de forma suficiente com o paradoxo que é vender estadias em Cabo Verde “com tudo incluído”, sem que, todavia, se inclua no pacote o convívio com Cabo Verde propriamente dito e com os autóctones que aí vivem, os chamados cabo-verdianos, pelo que evitarei repetir o óbvio. A inescapável verdade é que a generalidade dos turistas, e dos turistas portugueses em particular, não estão minimamente interessados em conhecer Cabo Verde para além da linha do litoral e das animações hoteleiras que dão uma imagem estereotipada do país, não muito diferente, se se vir bem a coisa, das animações a que se pode assistir nos resorts congéneres de Salvador da Bahia, de Porto Seguro, de Porto de Galinhas ou, presumo, de qualquer dos outros locais vendidos às mãos cheias como paraísos turísticos inesquecíveis.
Ainda hoje assisti, depois de um canídeo me ter vindo conspurcar a tolha numa praia quase deserta do concelho de Matosinhos, à conversa de uma velha platinada com a vizinha, dona do nojento cachorro, no decurso da qual se tornou claro o que esta gente procura quando vai de férias para Cabo Verde. Tinha a idosa ido de férias para a Boavista, mas queixava-se de que nem valia a pena sair do hotel, pois aquilo era, nas palavras dela, tudo muito pobrezinho. A outra, acabadinha de chegar de Palma de Maiorca, acudiu logo e concordou. Cabo Verde deve ser parecido com a República Dominicana, onde, pelos vistos, ela tinha estado uma vez. Tirando o hotel e as praias, explicou, estes sítios não têm interesse nenhum. À volta só há barracas. “Por que eles vivem em barracas, não é…”.
Nem vale a pena, creio, explicar mais nada a gente assim. Abrigai-vos, pois, nas barracas, que esta gente anda aí.
Dentro de meia-dúzia de anos, se as minhas contas não me enganam, não haverá nenhum português, entre aqueles que presumem de viajar e correm a comprar pacotes de férias mal a Primavera de insinua no calendário, que não tenha já estado em Cabo Verde (ou algo que o valha). Seja para a ilha do Sal, destino turístico já com alguma antiguidade, seja para o mais recente chamariz da ilha da Boa Vista (ou Boavista, juro que ainda não atinei sobre qual das duas é a fórmula correcta), os tugas rumam religiosamente, e cada vez mais, ao arquipélago cabo-verdiano, o que é, obviamente, uma maneira de dizer, uma vez que a maior parte desta gente se limita a circular entre a gare do aeroporto, o hotel ou resort de luxo onde tem estadia paga com “tudo incluído” e a praia de águas tépidas e areia fina, derradeiro sonho de consumo do europeu ao qual as frias temperaturas do Atlântico amofinam muito severamente.
O Filinto Elísio já em tempos gracejou de forma suficiente com o paradoxo que é vender estadias em Cabo Verde “com tudo incluído”, sem que, todavia, se inclua no pacote o convívio com Cabo Verde propriamente dito e com os autóctones que aí vivem, os chamados cabo-verdianos, pelo que evitarei repetir o óbvio. A inescapável verdade é que a generalidade dos turistas, e dos turistas portugueses em particular, não estão minimamente interessados em conhecer Cabo Verde para além da linha do litoral e das animações hoteleiras que dão uma imagem estereotipada do país, não muito diferente, se se vir bem a coisa, das animações a que se pode assistir nos resorts congéneres de Salvador da Bahia, de Porto Seguro, de Porto de Galinhas ou, presumo, de qualquer dos outros locais vendidos às mãos cheias como paraísos turísticos inesquecíveis.
Ainda hoje assisti, depois de um canídeo me ter vindo conspurcar a tolha numa praia quase deserta do concelho de Matosinhos, à conversa de uma velha platinada com a vizinha, dona do nojento cachorro, no decurso da qual se tornou claro o que esta gente procura quando vai de férias para Cabo Verde. Tinha a idosa ido de férias para a Boavista, mas queixava-se de que nem valia a pena sair do hotel, pois aquilo era, nas palavras dela, tudo muito pobrezinho. A outra, acabadinha de chegar de Palma de Maiorca, acudiu logo e concordou. Cabo Verde deve ser parecido com a República Dominicana, onde, pelos vistos, ela tinha estado uma vez. Tirando o hotel e as praias, explicou, estes sítios não têm interesse nenhum. À volta só há barracas. “Por que eles vivem em barracas, não é…”.
Nem vale a pena, creio, explicar mais nada a gente assim. Abrigai-vos, pois, nas barracas, que esta gente anda aí.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Algum silêncio
Acabo de ler que morreu o Ruy Duarte de Carvalho. Uma coisa brutal. Não o conheci (parece-me que vou perdendo a oportunidade de conhecer quase todos aqueles que admirava muito), mas viajámos juntos - pelo deserto do Namibe, pelo bairro de Alvalade de Luanda, pelo Brasil do rio de S. Francisco, pelo Kwando. Perdi, pois, um companheiro de viagens. Faça-se silêncio — silêncio como suponho que haja à noite no deserto, entre Cahinde e Vinganjaganja.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Mamas e telemóveis
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 22 de Junho de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Quando detecta algum caso de exagero, a minha mãe comenta-o com uma frase bastante pitoresca: “O que é demais também é moléstia”. Já quase ninguém utiliza palavras como “moléstia” e mesmo a sabedoria da justa medida parece, às vezes, ser uma coisa um pouco fora de moda. Veja-se o caso da cidadã brasileira Sheyla Hershey, verdadeira responsável por me ter lembrado do dito materno.
Sheyla, 30 anos, tornou-se (relativamente) conhecida por ser possuidora dos maiores seios do mundo (as imagens impressionam, mas não são bonitas). Ao fim de mais de trinta cirurgias, chegou a ter três quilos e meio de silicone em cada mama. Como, entretanto, casara com um milionário dos chocolates e passou a residir em Houston, nos EUA, o generoso busto ficou fora-da-lei. A quantidade de matéria plástica no corpo da brasileira excedia já o limite legal que, por motivos de saúde, está fixado nos regulamentos texanos. Indómita, Sheyla regressou ao Brasil e mais uma vez se fez operar. Contraiu, porém, uma infecção por estafilococos e chegou a correr perigo de vida. Pode ainda vir a perder os seios.
Numa entrevista que concedeu ao Globo, Sheyla explicou que a moléstia lhe permitiu perceber o erro em que incorrera ao pensar que ter os seios cada vez maiores era a melhor coisa que lhe podia acontecer. A conclusão a que chegou faz justiça à sabedoria simples da minha mãe: “Estou com uma infecção gravíssima e tive que passar por ela para aprender que nada em excesso é bom”, disse.
Em alguma coisa a obsessão de Sheyla pelas cirurgias se assemelha ao apego que certas pessoas têm pelos telemóveis e pela necessidade de estarem permanentemente contactáveis. Falam em qualquer lado, a qualquer hora e, às vezes, num tom de voz que os leva a partilhar pedaços da vida íntima com os estranhos que viajem no mesmo autocarro ou que estejam no mesmo café, no mesmo supermercado, no mesmo restaurante e, agora, no mesmo avião.
As viagens aéreas foram, até há pouco tempo, uma espécie de oásis. Os tele-tagarelas falavam obsessivamente nas salas de embarque, continuavam a falar a caminho do avião e, muitas vezes, reservavam ainda um derradeiro e muito importante telefonema para o instante em que o avião já se movimentava na pista. Apenas se calavam à ordem para desligar todos os dispositivos electrónicos - para sossego dos demais, sobretudo daqueles não suficientemente importantes para justificarem conversas tão urgentes.
Esse tempo de paz electrónica chegou (infelizmente) ao fim. A Comissão Europeia já estabeleceu as regras que permitem o uso de telemóveis a mais de três mil metros de altitude e os países-membros começaram a aprovar legislação que autoriza mais este decisivo avanço civilizacional. Em breve a novidade será adoptada por companhias aéreas de todo o mundo e os céus, até aqui silenciosos e vastos, encher-se-ão do rumor de milhões de conversas. Será, decerto, barulho a mais para tão pouca coisa. Mais uma moléstia, enfim.
Quando detecta algum caso de exagero, a minha mãe comenta-o com uma frase bastante pitoresca: “O que é demais também é moléstia”. Já quase ninguém utiliza palavras como “moléstia” e mesmo a sabedoria da justa medida parece, às vezes, ser uma coisa um pouco fora de moda. Veja-se o caso da cidadã brasileira Sheyla Hershey, verdadeira responsável por me ter lembrado do dito materno.
Sheyla, 30 anos, tornou-se (relativamente) conhecida por ser possuidora dos maiores seios do mundo (as imagens impressionam, mas não são bonitas). Ao fim de mais de trinta cirurgias, chegou a ter três quilos e meio de silicone em cada mama. Como, entretanto, casara com um milionário dos chocolates e passou a residir em Houston, nos EUA, o generoso busto ficou fora-da-lei. A quantidade de matéria plástica no corpo da brasileira excedia já o limite legal que, por motivos de saúde, está fixado nos regulamentos texanos. Indómita, Sheyla regressou ao Brasil e mais uma vez se fez operar. Contraiu, porém, uma infecção por estafilococos e chegou a correr perigo de vida. Pode ainda vir a perder os seios.
Numa entrevista que concedeu ao Globo, Sheyla explicou que a moléstia lhe permitiu perceber o erro em que incorrera ao pensar que ter os seios cada vez maiores era a melhor coisa que lhe podia acontecer. A conclusão a que chegou faz justiça à sabedoria simples da minha mãe: “Estou com uma infecção gravíssima e tive que passar por ela para aprender que nada em excesso é bom”, disse.
Em alguma coisa a obsessão de Sheyla pelas cirurgias se assemelha ao apego que certas pessoas têm pelos telemóveis e pela necessidade de estarem permanentemente contactáveis. Falam em qualquer lado, a qualquer hora e, às vezes, num tom de voz que os leva a partilhar pedaços da vida íntima com os estranhos que viajem no mesmo autocarro ou que estejam no mesmo café, no mesmo supermercado, no mesmo restaurante e, agora, no mesmo avião.
As viagens aéreas foram, até há pouco tempo, uma espécie de oásis. Os tele-tagarelas falavam obsessivamente nas salas de embarque, continuavam a falar a caminho do avião e, muitas vezes, reservavam ainda um derradeiro e muito importante telefonema para o instante em que o avião já se movimentava na pista. Apenas se calavam à ordem para desligar todos os dispositivos electrónicos - para sossego dos demais, sobretudo daqueles não suficientemente importantes para justificarem conversas tão urgentes.
Esse tempo de paz electrónica chegou (infelizmente) ao fim. A Comissão Europeia já estabeleceu as regras que permitem o uso de telemóveis a mais de três mil metros de altitude e os países-membros começaram a aprovar legislação que autoriza mais este decisivo avanço civilizacional. Em breve a novidade será adoptada por companhias aéreas de todo o mundo e os céus, até aqui silenciosos e vastos, encher-se-ão do rumor de milhões de conversas. Será, decerto, barulho a mais para tão pouca coisa. Mais uma moléstia, enfim.
domingo, 8 de agosto de 2010
Mexer os pés conforme a música
— Então e tu não vais para lado nenhum?
Cansa-me um pouco, confesso, responder à mesma pergunta de sempre.
— Vais ficar só por aqui?
Sim, e daí. Será mesmo obrigatório fugir? De quê?
— Não vais sair do Porto?
Ontem, para desenfastiar, respondi que tinha passado a tarde fora, mais concretamente em Matosinhos - uma mítica tarde de praia num areal pouco frequentado, tão boa que até arrisquei o primeiro mergulho do ano (e nem sequer sou gajo para grandes intimidades com a água). As noites também têm estado deliciosamente mornas e animadas. Aborrecer-me-ia em qualquer parte do mundo, como me aborreço aqui nas horas mortas, mas dificilmente passaria, onde quer que estivesse, tão bem como passo aqui, com os meus livros, a minha cama, os meus ritmos novos, a minha praia, a Baixa cheia de gente, a possibilidade de dormir até ao meio dia sem que venham bater à porta para limpar o quarto e sem a culpa de estar a perder um passeio absolutamente imperdível igualzinho ao do guia da Lonely Planet. E há ainda o restaurante de nha Iva, onde sempre posso passar antes de acabar a noite para dançar um funana, um zouk, eu sei lá, da dança só sei que são precisos dois e é conveniente mexer os pés mais ou menos a compasso. Como na vida.
Cansa-me um pouco, confesso, responder à mesma pergunta de sempre.
— Vais ficar só por aqui?
Sim, e daí. Será mesmo obrigatório fugir? De quê?
— Não vais sair do Porto?
Ontem, para desenfastiar, respondi que tinha passado a tarde fora, mais concretamente em Matosinhos - uma mítica tarde de praia num areal pouco frequentado, tão boa que até arrisquei o primeiro mergulho do ano (e nem sequer sou gajo para grandes intimidades com a água). As noites também têm estado deliciosamente mornas e animadas. Aborrecer-me-ia em qualquer parte do mundo, como me aborreço aqui nas horas mortas, mas dificilmente passaria, onde quer que estivesse, tão bem como passo aqui, com os meus livros, a minha cama, os meus ritmos novos, a minha praia, a Baixa cheia de gente, a possibilidade de dormir até ao meio dia sem que venham bater à porta para limpar o quarto e sem a culpa de estar a perder um passeio absolutamente imperdível igualzinho ao do guia da Lonely Planet. E há ainda o restaurante de nha Iva, onde sempre posso passar antes de acabar a noite para dançar um funana, um zouk, eu sei lá, da dança só sei que são precisos dois e é conveniente mexer os pés mais ou menos a compasso. Como na vida.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Tanta gente sem praia e tanta praia sem gente
Devia, muito provavelmente, ter tirado uma fotografia para que acreditassem naquilo que digo, mas estive ontem à tarde numa praia completamente deserta e nem sequer tive que andar por aí em transbordos, salas de embarque e filas para a revista aos líquidos, aquela aflição em que eu fico sempre sem saber se devo mostrar-lhes a bexiga também. A praia, é como digo, estava completamente deserta para um lado e para o outro, tanto quanto a minha vista alcançava, e tinha dunas e montes de areia mesmo a pedir que se lhe rebolasse em cima, o sol ainda alto, mar azul e mais não sei o quê. Porém, e para mal de todos os meus pecados, que nem devem ser tão poucos quanto isso, a puta da praia estava assim deserta porque, exactamente na mesma altura, soprava do quadrante Norte, como o próprio nome indica, uma nortada que não se imagina, um vento de eriçar os pêlos todos e deixar enregelada até a alma, se fosse o caso de eu ter uma, claro está. Depois pensei, que se foda, vento é uma coisa que dá em praticamente qualquer lado e estar de férias em casa não é assim tão mau como isso. Afinal de contas, nunca encontro ninguém conhecido quando saio à rua e, por força disso, chego a sentir-me bestialmente estrangeiro na minha própria cidade. Vendo as coisas pelo lado positivo que sempre existe, isto é como estar de férias no estrangeiro sem ter gasto dinheiro nenhum em viagens e, se calhar, um dia destes vou a Serralves e faço de conta que estou na Tate Modern ou no MoMA e olho para os janelões do Siza como se fosse a primeira vez. É tudo uma questão, pois, de ver as coisas pelo lado menos mau. Por exemplo: podia perfeitamente estar a chover. E não está. Sendo assim, acho que vou dar um pulo ali ao Canidelo, pode ser que hoje se aguente estar ao vento.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
A amante de Cubillas
Gosto das coisas assim, dos livros que fazem pontes para outros livros, que abrem mundos e geram cumplicidades: como A Máquina de fazer espanhóis, do valter hugo mãe. Gostei, por exemplo, de ver os detectives do Francisco José Viegas, o Jaime Ramos e o Isaltino de Jesus, entrando no lar feliz idade para investigar o incêndio do andar de cima. E gostei ainda mais que tivessem encontrado o poster do Teofilo Cubillas emoldurado no quarto da dona leopoldina, a qual, pelos vistos, viveu uma inesquecível noite de amor com o futebolista do Peru, em tempos idos. Um tipo enternece-se. Mas como pode alguém não se enternecer e sorrir muito quando lê os velhotes o lar ameaçando, por pura paródia, comer a pombinha das velhas?
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Verão quente
De acordo com o Diário Económico de ontem, a maior parte do lucro gerado pela venda de uma parte da Vivo à Telefónica não vai pagar qualquer imposto. Só os pequenos accionistas da PT verão o Estado vir disputar-lhe as migalhas que receberão. Espírito-Santos, Berardos e outros cavalheiros honrados tinham, pois, excelentes razões para querer vender a participação portuguesa na Vivo. É tudo lucro, limpinho. O Estado aplaude o processo que permitiu trocar a Vivo pela Oi, fala de um excelente negócio e, endividado como está, virá por nós, os que pagam impostos sobre tudo, o ordenado, a casa, o pão, a água, a Coca-Cola e a Pepsi Cola, como diria o indivíduo que faz de conta que manda alguma coisa. Assim se comprova que é mais avisado não ler os jornais enquanto se está de férias. Um tipo tem demasiado tempo livre e pode, sei lá, lembrar-se de ir para a rua fazer maldades. Verão Quente, lembram-se? Por alguma coisa algumas pessoas chegaram a achar que fazia sentido.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Homens quase nus
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 13 de Julho de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)
O Mundial de futebol terminou e, após milhares de horas de televisão, nenhuma imagem me pareceu mais patusca do que aquela em que a rainha de Espanha aparecia num balneário masculino apertando a mão de um sujeito seminu, suado e com um ar algo selvagem, rodeada por outros homens transpirados. O indivíduo que mereceu a real atenção chama-se Carles Puyol e tinha acabado de marcar o golo que permitiu à Espanha continuar a sonhar e, no fim de contas, vir a sagrar-se campeã do mundo.
Carles Puyol é um indivíduo de aspecto rude, maciço e forte como um touro. Usa o cabelo comprido, com caracóis desgrenhados caídos sobre os olhos e sobre os ombros, como se não tivesse testa ou pescoço. Quando cumprimentou a rainha, tinha apenas uma toalha branca enrolada na cintura e parecia, inclusivamente, um pouco balofo (a minha filha acha-o tremendamente feio). O defesa-central do Barcelona é, em todo o caso, o exacto oposto do atleta apolíneo e belo, o mais distante possível do rigor clássico das olímpicas estátuas gregas. Olha-se para ele e é simplesmente mais fácil imaginá-lo como um sanguinário guerreiro medieval, distribuindo espadeiradas mortais e cortando cabeças a eito, com um brilho muito daninho nos olhos. É, contudo, um futebolista do século XXI, mesmo se também não parece, sequer, um futebolista. Não tem brincos de diamantes, nem tatuagens, nem penteados do último modelo. Não sei como se veste quando não está a jogar, mas suponho que as roupas da moda também não lhe caiam nada bem e que, por isso, pareça um moço humilde da província (supondo que ainda existem moços humildes na província).
Quando, no final do jogo das meias-finais, com a Alemanha, a rainha Sofia decidiu descer do camarote presidencial às catacumbas do estádio de Durban, levava a firme intenção de dedicar um momento especial ao tosco herói daquele combate. Tal como a chanceler alemã Angela Merckel quando festejou euforicamente cada um dos quatro golos que a mannschaft infligiu à Argentina, a cabeça coroada esqueceu-se dos protocolos e da rigorosa encenação que sempre precede as aparições públicas da monarquia. Se havia alguma coisa coreografada no seu gesto, a solenidade desfez-se no momento em que Sofia entrou no balneário e se viu diante de um grupo eufórico de homens de tronco nu, exaustos e sorridentes, que apenas mantinham uma compostura sumária.
Devia cheirar ali pelo menos tão mal como no meu autocarro esta manhã. Sem os perfumes franceses, os automóveis topo de gama e as namoradas de luxo, quase nus, os rapazes tinham voltado a ser apenas os plebeus humildes aos quais o gosto pela bola concedeu uma vida um pouco melhor do que aquela a que estavam condenados – gente campechana, normal, da rua, como disse o guarda-redes Casillas depois de ter beijado a namorada-jornalista em directo na televisão. Carles Puyol é apenas o mais plebeu de todos, o mais normal e parecido com um homem comum. O aperto de mão à rainha era só uma pequena parte da magia do pontapé na bola.
O Mundial de futebol terminou e, após milhares de horas de televisão, nenhuma imagem me pareceu mais patusca do que aquela em que a rainha de Espanha aparecia num balneário masculino apertando a mão de um sujeito seminu, suado e com um ar algo selvagem, rodeada por outros homens transpirados. O indivíduo que mereceu a real atenção chama-se Carles Puyol e tinha acabado de marcar o golo que permitiu à Espanha continuar a sonhar e, no fim de contas, vir a sagrar-se campeã do mundo.
Carles Puyol é um indivíduo de aspecto rude, maciço e forte como um touro. Usa o cabelo comprido, com caracóis desgrenhados caídos sobre os olhos e sobre os ombros, como se não tivesse testa ou pescoço. Quando cumprimentou a rainha, tinha apenas uma toalha branca enrolada na cintura e parecia, inclusivamente, um pouco balofo (a minha filha acha-o tremendamente feio). O defesa-central do Barcelona é, em todo o caso, o exacto oposto do atleta apolíneo e belo, o mais distante possível do rigor clássico das olímpicas estátuas gregas. Olha-se para ele e é simplesmente mais fácil imaginá-lo como um sanguinário guerreiro medieval, distribuindo espadeiradas mortais e cortando cabeças a eito, com um brilho muito daninho nos olhos. É, contudo, um futebolista do século XXI, mesmo se também não parece, sequer, um futebolista. Não tem brincos de diamantes, nem tatuagens, nem penteados do último modelo. Não sei como se veste quando não está a jogar, mas suponho que as roupas da moda também não lhe caiam nada bem e que, por isso, pareça um moço humilde da província (supondo que ainda existem moços humildes na província).
Quando, no final do jogo das meias-finais, com a Alemanha, a rainha Sofia decidiu descer do camarote presidencial às catacumbas do estádio de Durban, levava a firme intenção de dedicar um momento especial ao tosco herói daquele combate. Tal como a chanceler alemã Angela Merckel quando festejou euforicamente cada um dos quatro golos que a mannschaft infligiu à Argentina, a cabeça coroada esqueceu-se dos protocolos e da rigorosa encenação que sempre precede as aparições públicas da monarquia. Se havia alguma coisa coreografada no seu gesto, a solenidade desfez-se no momento em que Sofia entrou no balneário e se viu diante de um grupo eufórico de homens de tronco nu, exaustos e sorridentes, que apenas mantinham uma compostura sumária.
Devia cheirar ali pelo menos tão mal como no meu autocarro esta manhã. Sem os perfumes franceses, os automóveis topo de gama e as namoradas de luxo, quase nus, os rapazes tinham voltado a ser apenas os plebeus humildes aos quais o gosto pela bola concedeu uma vida um pouco melhor do que aquela a que estavam condenados – gente campechana, normal, da rua, como disse o guarda-redes Casillas depois de ter beijado a namorada-jornalista em directo na televisão. Carles Puyol é apenas o mais plebeu de todos, o mais normal e parecido com um homem comum. O aperto de mão à rainha era só uma pequena parte da magia do pontapé na bola.
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