Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

Consagração

Já sei que, muito provavelmente, vão dizer que o retrato me favorece muitíssimo e mais não sei o quê, mas, c'um raio, não é qualquer um que tem a subida honra de ser caricaturado pelo Pedro, também conhecido pelo cognome Irmão Lúcia, e descobre, no mesmo dia, que ele, o Pedro, para além do extremo bom gosto de ser portista, é realmente um gajo porreiro. E viu-me assim:

Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

Ilha Nua

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)



Muito de vez em quando, alguém me pergunta o significado de um dos endereços de e-mail que utilizo. Gosto de explicar que se trata de parte de um dos versos do hino nacional de Cabo Verde, precisamente aquele que fala do “pó da ilha nua”, frase que entendi ser uma alusão à ilha do Sal. Não tenho, obviamente, certeza disto. Simplesmente me pareceu que “ilha nua” é uma expressão que descreve com bastante exactidão, e de forma poética, a ilha desértica na qual apenas parecem florescer os hotéis (e na qual, a propósito, captei a fotografia que está na capa de Aonde o Vento me Levar, um dos meus fracassos literários).

Criei aquele endereço de e-mail quando, há alguns anos, alimentei a ideia insensata de iniciar uma publicação dedicada à actualidade cultural dos países de expressão oficial portuguesa. Como a tarefa é descomunal, e apenas contava com a minha insensatez e voluntarismo, ocorreu-me lançar um blogue experimental e limitado ao universo cultural de Cabo Verde. Entendi que me seria conveniente começar por um país pequeno e, depois, se as coisas corressem de feição e fosse conseguindo juntar a colaboração de outros loucos, poderia ir alargando o projecto a outros países, até atingir, quem sabe, o objectivo de criar uma revista de cultura lusófona.

O poético verso do hino de Cabo Verde acabou por dar nome ao blogue que, então, criei. O projecto faliu por si mesmo ao fim de alguns meses, como era inevitável que acontecesse, por me ter sido impossível mantê-lo sozinho (contei esporadicamente com a ajuda da Margarida Fontes). Mas mantive o endereço do e-mail e uso-o hoje para uma boa parte dos meus contactos. Orgulho-me dele, como me orgulho do meu CD da Mayra Andrade autografado, dos meus amigos crioulos, da minha pequena colecção de música cabo-verdiana, das fotografias que aí tirei, da faixa de pano de terra que comprei no Cento Cultural do Mindelo ou dos pedaços de lava negra que trouxe do sopé do vulcão de S. Vicente na primeira vez que aí estive.

Orgulho-me desta minha peculiar crioulidade. E orgulho-me também, por isso, desse hino que nunca escutei e do qual apenas conheço os versos. Gosto dele porque não tem heróis do mar, nem carne humana marchando contra canhões, nem guerras, nem sangue. No hino que também é um pouco meu há, isso sim, o pó da ilha nua e sentinelas de mar e vento. Coisas suaves e pacíficas de gente que não quer ser mais do que é e que inventa palavra como “desamparinho” e “cretcheu”. É também por isso que gosto (tanto) de Cabo Verde.

Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

Livros do Brasil

Dos três livros brasileiros que foram finalistas, em 2009, do Prémio Portugal Telecom de Literatura, o único que consegui ler com algum interesse foi o romance “A arte de produzir efeito sem causa”, de Lourenço Mutarelli, que a Quetzal publicará brevemente em Portugal. Tem, o livro, muitas pontas soltas, mas, ainda assim, é um romance bem bolado (como dizem no Brasil). O vencedor do PT, “Ó”, de Nuno Ramos, que sairá em Portugal pela Cotovia, é um exercício de virtuosismo linguístico, interessante ao seu modo, mas demasiado conceptual, mais próximo da filosofia do que da literatura e alheio à fruição romanesca. Não é a minha praia. Já “Acenos & Afagos”, de João Gilberto Noll, mantém o brilhantismo narrativo de, por exemplo, “Hotel Atlântico” e “Canoas e Marolas”, mas aqui orientado para o estranho culto daquilo a que me apetece designar recorrendo à expressão "escatologia paneleiróide". Aprecio bastante a técnica narrativa de Noll, mas o convívio com as perversões sexuais de um grupo de alemães fechados num submarino não é exactamente o meu ideal leitura e ocupação dos tempos livres.

Crónicas do autocarro#17

São evidentemente vizinhas do mesmo bairro social, as duas mulheres que conversam lá atrás. Uma delas, a mais loquaz, fala demasiado alto enquanto se queixa de alguém que tinha ido à câmara fazer uma reclamação qualquer. Relativiza o protesto dos vizinhos, incomodados com não sei o quê. Dei pouca atenção à conversa, cumprindo escrupulosamente o objectivo de não me transformar num mirone demasiado óbvio da vida dos outros. Escutei, ainda assim, uma frase que me ficou a retinir na memória: “A coisa mais linda é o desprezo”. Repito para mim próprio que a coisa mais linda é o desprezo, é o desprezo, é o desprezo, e concluo que aprendi também essa lição há algum tempo. Todos os dias me levanto da cama e tento manter a espinha direita enquanto caminho para o local de trabalho, para o convívio com a imbecilidade e a incompetência, o desrespeito, e sei perfeitamente que apenas posso olhar em frente, orgulhoso, porque também eu aprendi, como qualquer morador de um bairro social, que a única forma de lidar com a estupidez do quotidiano está condensada numa só frase, precisamente aquela que ensina que “a coisa mais linda é o desprezo”. Oito horas passam depressa e depois pode-se regressar a casa e dormir em paz.

Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

Chegar à Lua

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 19 de Janeiro de 20010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)




Uma empresa norte-americana, a Celestis, recebeu uma encomenda um pouco extravagante: levar até à Lua uma cápsula contendo 42 poemas escritos pelo poeta espanhol Miguel Hernández, nascido há cem anos. A ideia é da fundação que adoptou o nome do poeta e, segundo o seu director, Sánchez Balaguer, visa cumprir um desejo expresso por Hernández.

Nunca tinha ouvido falar de Miguel Hernández nem do livro Perito de Lunas, o tal que embarcará para a Lua, mas dez minutos de navegação na internet são suficientes para que um perfeito ignorante fique a saber meia dúzia de coisas que antes desconhecia completamente: que Hernández nasceu a 30 de Outubro de 1910 e morreu, com 31 anos, em Março de 1942. Republicano, como Lorca, tinha sido condenado à morte pelo regime de Franco e estava preso depois de ter conseguido escapar para Portugal no fim da guerra civil (e de ter sido devolvido à procedência por Salazar).

Perito de Lunas, aprendi ainda, foi publicado em 1933, está escrito num tipo de estrofe designado por “oitava real” e contém inúmeras referências simbólicas e influências do Gongorismo, corrente artística da qual Hernández é considerado um membro tardio. Na oitava XXXI, chamada Plenilunio, podem ler-se os seguintes versos: “Puesta en la mejor práctica estás, luna./Ay, sí. No hay que agregarle ya por pena/a tu suma de luz cifra ninguna,/mixta en todo de blanca y de morena”.

Ignoro se o poeta de Orihuela expressou efectivamente o desejo de que os poemas de Perito de Lunas chegassem, um dia, à Lua. Mas sabe-se como é o Homem. “Uma pessoa, aos 55 anos, tem um desejo enorme de acrescentar uma pitada de poesia à sua vida”, escreveu Tiziano Terzani no início de Disse-me Um Adivinho. E certos homens de 40 anos, ou com os 23 anos que tinha Hernández quando publicou Perito de Lunas, não são muito diferentes: põem-se sonhadores e poéticos, dados a devaneios. Suspiram e dizem coisas tolas.

A ideia de fazer transportar Perito de Lunas até à Lua é, em todo o caso, bonita, mesmo se Miguel Hernández morreu 27 anos antes de Neil Armstrong ter dado o passo inaugural da humanidade no pó lunar. Mas, tratando-se de alguém que foi simultaneamente poeta e republicano, suponho que Hernández tenha acalentado outros desejos e outros sonhos; que tenha acreditado na possibilidade de um mundo melhor e mais justo ou noutra utopia qualquer, na qual não houvesse lugar para os Haitis deste mundo, nem para os Sudões ou para os doentes mentais morrendo de frio num manicómio cubano, a proibição de minaretes ou as cidades espanholas jactando-se da redução do número de imigrantes.

Assim é, porém, o tempo em que vivemos. Miguel Hernández talvez tenha acreditado realmente na possibilidade de um mundo melhor e sonhado insensatamente em fazer os seus poemas chegar à Lua. Mas o devaneio, afinal, é mais fácil de concretizar do que a utopia.

Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

Extra! Extra!

Imagine-se que avistei esta manhã, ali pra os lados da Pasteleira, um cartaz de grandes dimensões, vulgo outdoor, em tons rosados, no qual a expressão "Câmara Municipal do Porto" convive de modo verdadeiramente espectacular com a palavra "cultura". Extraordinário!, meditei com os meus botões. Tinha a alma tão tremendamente esparvoada que só depois dei conta de que não tinha nenhum botão com o qual meditar em tão abracadabrante peça de mobiliário urbano (ou lá o que é), uma vez que vinha da minha sessão de atletismo dominical. Ainda pensei que a estranha visão se devesse a alguma espécie de alucinação provocada pela severa desidratação corporal e, por isso, belisquei-me o mais convictamente que pude e com as forças que me restavam. Debalde. O cartaz lá continuava, rosado, espantosamente rosado - e presumi que a cor do dito é totalmente tributável à nova vereadora responsável pelo pelouro, Guilhermina Rego, titular da pasta "do Conhecimento e Coesão Social", de uma deslumbrante cabeleira loira e de um processo judicial relacionado com facturas falsas ou algo assim. Dizei agora, cafajestes, que a nossa autarquia não se interessa pela cultura! Dizei! Pois se até espalha destas peças de arte surrealista pelas ruas da cidade...

Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010

Taxi Driver



Uma revista escrita num idioma estranho anunciou que Martin Scorsese e Lars Von Trier estarão a preparar um remake do filme Taxi Driver, o qual voltaria a ser protagonizado por Robert de Niro, agora com 66 anos de idade. Talvez funcione. O mundo está, afinal, cheio de sexagenários psicopatas, uma parte dos quais, inclusivamente, se dedica a conduzir táxis e a perseguir e cobiçar ninfetas em trajes reduzidos, lançando-lhes piropos soezes e olhares lúbricos pelo retrovisor. Parece bastante menos razoável que Jodie Foster, com 47 anos, ainda consiga encarnar Iris, a desmiolada e amoral adolescente. Mas há sempre a possibilidade de um taxista se interessar por balzaquianas com pulsões paranormais.

Jorge Marmelo, o outro

Não sendo especialmente grande coisa, excepto na bondosa opinião dos seus progenitores, dos seus filhos, da sua encantadora namorada e de mais três ou quatro amigos e/ou pessoas com pouco tino, o outro Jorge Marmelo (aquele que não é jornalista de gastronomia nem brasileiro) vai sendo convidado, ano após ano e contra toda a sensatez, a participar no Correntes D'Escritas, evento no âmbito do qual lhe permitem conviver com escritores a sério e outros gajos (e gajas) tremendamente bestiais e bem-sucedidos. Este ano também lhe pediram que escrevesse um texto (que atrevimento!). O texto está aqui e, se não tiver outra vantagem, está escrito de modo a que, na maior parte do tempo, não tenha que falar sobre mim na terceira pessoa (como o Mário Jardel).

Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

Vergonha

No domingo, ao final da tarde, desaguei na Avenida dos Aliados com dois brasileiros a quem tentava mostrar a cidade (quase fechada) e dei com a praça transformada, a pretexto do Carnaval, numa espécie de feira popular ultra-pindérica, com carrosseizinhos, carrinhos, barraquinhas de pipocas e farturas. A coisa acontecia com o beneplácito da câmara e da empresa municipal Porto Lazer e eu senti uma vergonha enorme por ter a sala de visitas da minha cidade transformada naquilo. Pedimos desculpa aos brasileiros (e que tentassem, por favor, abstrair-se do horror cincundante).

Como a verdade não é unívoca, percebi, conversando com a minha mãe, que uma parte dos cidadãos da minha cidade andavam comentando que a Baixa estava muito bonita para o Carnaval. Percebe-se: o Porto é, hoje, uma cidade paroquial e profundamente parola. As pessoas gostam de festarolas como já nem nas vilórias do interior se usa. Votam em quem votam. E a cidade definha alegremente.

Parolos, entendamo-nos, existem em toda a parte, até em Londres, Paris e Nova Iorque. A diferença entre as cidades que crescem, criam emprego, se desenvolvem e são dinâmicas, e as outras, há-de radicar apenas na percentagem de parolos que nelas residem. Quando os parolos são em número suficiente para ganhar eleições, é perfeitamente possível que se elejam políticos profundamente parolos, provincianos e populistas, que perseverarão em manter satisfeitos os seus eleitores parolos. É assim o Porto. E, no domingo, eu tive mais vergonha ainda.

Um Jorge Marmelo muito bom

“O Jorge Marmelo é muito bom”, assevera, numa entrevista, a Luciana Obniski, editora da revista Época Online, do Brasil. Dir-me-ão, bem sei, que a pergunta que antecede aquela frase alude a jornalismo gastronómico, e mais concretamente a jornalismo gastronómico brasileiro, e que Luciana se refere com toda a certeza a outro indivíduo qualquer que padece da desgraça de se chamar também Jorge Marmelo. Seja. Agrada-me, em todo o caso, que pelo menos um dos três Jorge Marmelos do mundo seja “muito bom”.

Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010

Enlaçados

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 5 de Janeiro de 20010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)




Serei um pouco mórbido, mas gosto de histórias de amor que terminam tão tragicamente que acabam sendo absolutamente perfeitas – como a de Romeu e Julieta, claro, e como a de Ilza e Renato, que imagino ter sido ainda mais doce e sem as dramáticas confusões em que a literatura costuma enredar as suas personagens. Ilza e Renato morreram apenas, sem intriga romanesca, com os corpos soterrados e enlaçados, como parece que também aconteceu sob a torrente de lava do Vesúvio, há quinze séculos.

Segundo vem relatado nos jornais, Ilza e Renato escolheram começar o ano de 2010 numa casa em Angra dos Reis, no Brasil. Não conheço o sítio, mas suponho que há-de ser paradisíaco: um local bom para viver e, bem vistas as coisas, ainda melhor para morrer, como sucedeu a este casal de brasileiros, duas das vítimas das chuvas torrenciais que caíram no estado do Rio de Janeiro. Foram soterrados por uma derrocada de lama e de pedras e, quando as equipas de socorro alcançaram os corpos, acharam-nos enlaçados num abraço afinal eterno, profundo e infinito como deveriam ser todos os abraços sinceros, apaixonados e doces.

Não conheço os pormenores, nem quero, e prefiro pensar que Ilza e Renato morreram felizes e enamorados sob a torrente de pedras e lama; que tinham acabado de fazer amor enquanto, na rádio, Lhasa de Sela, a cantora mexicana que também este fim-de-semana morreu, cantava aqueles três versos premonitórios: “Llegarás mañana/Para el fin del mundo/O el año nuevo”. Quase consigo vê-los, Renato estreitando Ilza junto ao peito e beijando-lhe o cabelo ainda húmido do banho, ela fechando docemente os olhos e pensando que tudo teria valido a pena e que morreria feliz se pudesse acontecer naquele instante, ali, com ele. Depois beijaram-se uma última vez e adormeceram enlaçados e leves, desejando que o tempo parasse, mas sem imaginar que o tempo pararia realmente, sem lhes dar tempo, sequer, para recordar Vinicius de Moraes e a inútil pergunta em verso, “Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores?”.

Gostava, por isso, que Lhasa de Sela tivesse morrido como Ilza e Renato, e não traída pela estúpida doença que, cedo demais, apagou a melodia mágica que se escuta em La Llorona e em The Living Road, os discos que conheci graças à amizade da escritora angolana Ana Paula Tavares. Posso, ainda assim, inventar um final diferente para Lhasa e imaginá-la junto à grande fogueira de ano novo que se acende na Carreira de Cima de Castelo de Vide; que Lhasa aí está com o seu homem no início da madrugada, sentados no banco de madeira que alguém colocou junto às brasas, aquecendo-se e olhando a lua cheia sobre a Serra de S. Mamede. Lhasa canta Pa llegar a tu lado uma última vez, com os olhos fechados. “Gracias a tu cuerpo doy/Por haberme esperado/Tuve que perderme pa’/llegar hasta tu lado//Gracias a tus brazos doy/Por haberme alcanzado/Tuve que alejarme pa’/llegar hasta tu lado”. Só então Lhasa morreria. Enlaçada e feliz.

Domingo, 14 de Fevereiro de 2010

D. Gonzalo



As modas são o que são, mesmo as literárias, e, por isso, os livros de Gonzalo Torrente Ballester não estão hoje na moda, nem nos lugares mais visíveis das livrarias (ou, sequer, nas estantes mais escondidas das livrarias). Torrente Ballester, porém, é um autor incontornável da literatura do século XX. Não li ainda, para meu pesar, Saga/Fuga de J.B., mas deliciei-me com outros livros seus, Filomeno, D. Juan, Eu Não Sou Eu, Evidentemente, Crónica do Rei Pasmado ou A Morte do Decano. A El País Semanal de hoje revela uma faceta desconhecida de D. Gonzalo: apesar de ser quase cego desde os 30 anos de idade, o autor, falecido há 11 anos, andava sempre com uma máquina fotográfica, que usava para captar detalhes e lugares que, depois, descrevia nos livros. O escritor quase cego fotografava tudo. As imagens a preto-e-branco eram uma espécie de bloco de notas, uma memória visual, graças à qual o escritor podia ver o mundo mais distintamente do que com os próprios olhos. Mas quase nunca fotografava pessoas - talvez, diz a sua filha Marisa, porque preferia imaginá-las. Num texto à parte, José Saramago conta que, um dia, em Lisboa, perguntou a D. Gonzalo se acreditava em deus. “E isso que lhe importa?”, respondeu-lhe o velho e genial escritor. Deus, em qualquer caso, não tira fotografias. Nem escreve livros.

Voar

Às vezes, mas de modo recorrente, tenho um sonho no qual sou capaz de voar. A coisa exige o domínio de uma certa técnica: tenho de lançar-me para o ar como se o meu corpo se libertasse do peso que tem e de acreditar que, uma vez separado do chão, sou perfeitamente capaz de pairar. Voltei a sonhar com isto na noite passada. Eu voava de um lado para o outro, com os braços junto ao corpo e contorcendo-me para mudar de direcção. Estava perfeitamente encantado com esta habilidade, mas perguntando-me, ao mesmo tempo, se aquilo não era apenas um sonho e se a capacidade para voar não desapareceria quando acordasse. Pareceu-me que não; que voar é uma coisa que eu sou capaz de fazer com certa naturalidade e que, na verdade, faço há já algum tempo, apesar dos longos interregnos (voar, no sonho, é um pouco como andar de bicicleta: ao fim de algum tempo apanha-se-lhe outra vez o jeito, como se nunca se tivesse deixado de praticar). Felizmente, quando acordei, não fui experimentar esta teoria lançando-me da varanda do segundo andar.

Sábado, 13 de Fevereiro de 2010

De manhã

Havia, esta manhã, um homem dormindo na porta do prédio. Supus, na verdade, que aquilo fosse um homem: um par de pernas dobradas, os pés calçados, saindo de uma caixa de cartão. Não fui ver. Aquilo que, pelo que se via e podia imaginar, devia ser um homem dentro de uma caixa (a qual mantinha os ângulos rectos e o seu aspecto de caixa – não estava amassada nem tinha sido transformada numa espécie de cobertor), não se mexeu quando saí do prédio. Tinha as pernas cuidadosamente dobradas de modo a não obstruir completamente a porta. Pude sair perfeitamente do edifício, incomodado apenas pela desagradável visão matinal de um homem dormindo dentro de uma caixa na porta de casa. A porta fez barulho a abrir-se e um estrondo ainda maior quando se fechou, mas o homem não se mexeu. Ocorre-me que possa ter morrido de frio, convenientemente empacotado. Mas não fui ver. Não quis acordá-lo.

Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

Bilan e o zepelim

(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)



Cruzei-me há dias com o Bilan numa esquina do Porto. Ele não me reconheceu, mas cumprimentei-o na mesma, quanto mais não fosse em nome da necessidade de festejar as belas coincidências: eu vinha a escutar a música da Cesária Évora e o Bilan é um músico do Mindelo que há alguns anos se fixou na minha cidade. Conheci-o através de outro sampadjudo que virou tripeiro, o meu amigo e actor Flávio Hamilton, cujo nome tive que invocar para que o Bilan não me tomasse por um excêntrico que anda pelas ruas saudando gente que não conhece de parte nenhuma.

O Bilan, se o não conhecem, é um músico jovem e promissor, que compõe canções contemporâneas nas quais a morna e a bossa nova se enleiam harmoniosamente. Canta em crioulo, o que é um risco considerável, tendo em conta que a sua música não é imediatamente identificável como um produto da world music, mas já o ouvi ser entrevistado no Planeta 3, um programa da Rádio Antena 3 que é uma referência para os apreciadores das sonoridades mais étnicas. Mário Lopes, um dos críticos musicais do jornal Público, chamou-lhe “um tradicionalista renovador”, dotado de uma sensibilidade musical que “prenuncia um futuro muito interessante”.

Mais do que a música, porém, interessam-me as belas coincidências. Depois de ter cumprimentado o Bilan na rua, ocorreu-me que não conhecia quase nada da música dele e, por isso, pus-me à procura com a ajuda do Google. Encontrei fotografias e sons, claro, sites e imagens de concertos, mas acabei por encontrar também uma reprodução da capa do primeiro CD do Bilan: uma espécie de colagem de fotos e recortes sobre uma fotografia antiga, na qual se vê um zepelim pairando sobre o Ilhéu dos Pássaros, no mar do Mindelo.

Conheço bem essa imagem: tenho-a no desktop do computador há mais de dois anos e usei-a como inspiração para um dos episódios ficcionais do romance As Sereias do Mindelo. Cheguei a propor que essa fotografia figurasse na capa do livro, de tal modo me sugestionou – não sei se As Sereias do Mindelo existiria sem a personagem de Irene recordando o passado na solêra di porta, mas tenho a certeza de que não teria inventado Irene sem essa fotografia.

Na próxima vez que encontrar o Bilan na esquina junto à casa onde ensaia as suas canções, talvez possamos cumprimentar-nos outra vez e conversar, agora, sobre a bela coincidência de gostarmos ambos desse zepelim pairando diante da Laginha.

Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2010

O candidato inchado

Agora já se percebe perfeitamente o espectacular discurso de Paulo Rangel, um dia destes, no Parlamento Europeu, bem como a evidente dificuldade para, então, manter o blazer abotoado. Indiferente ao interesse nacional, Rangel estava muito simplesmente a fazer o primeiro discurso na campanha para a liderança do PSD. E estava a fazê-lo no estrangeiro, coisa que, como se sabe, deixa qualquer português bastante inchado.

Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Grande feiticeiro branco

Os feiticeiros tradicionais que me perdoem, mas a dança da chuva é uma habilidade para meninos (e não vejo, sinceramente, que interesse possa haver em fazer chover). Digo-o na medida em que tenho vindo a desenvolver um poder muito mais útil, o qual consiste, precisamente, em fazer parar de chover: basta que, estando de chuva, eu saia de casa munido com o respectivo guarda-chuva. É absolutamente certo que as nuvens começam a dispersar de imediato, o tempo se põe seco e que eu andarei o resto do dia passeando (pateticamente) o guarda-chuva pelas ruas do Porto.

Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Zaratustra

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 29 de Dezembro de 2009. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, tem sido um dos títulos mais vendidos nas máquinas automáticas que existem em algumas estações do metro de S. Paulo, no Brasil. É uma informação um pouco surpreendente, mas talvez só tenha reparado neste pormenor de uma reportagem d’A Folha de S. Paulo por também ter comprado, num momento de optimismo, o livro do filósofo alemão falecido em 1900. Depois, como às vezes me acontece, arrumei Assim Falou Zaratustra numa daquelas estantes destinadas às obras que hei-de ler um dia, quando tiver tempo e disponibilidade mental, o que acontecerá se a futura idade da reforma não se tiver tornado incompatível com a sobrevivência do corpo humano.

Tive, porém, que sacudir o pó ao livro antes da chegada dos suaves dias do meu sossego. O meu filho mais novo, de 14 anos, pediu-mo emprestado e, aconselhado por um amigo, leu o Zaratustra até ao fim.

Fui apanhado de surpresa. Não estou suficientemente apetrechado, sequer, para uma conversa dialéctica que me permita perceber que leitura o moço fez do controverso livro de Nietzsche. Espero, em todo o caso, que tenha dado mais atenção aos aspectos niilistas da obra, à ideia de que Deus está morto e é um estorvo, e menos à possibilidade de criar um super-homem, a qual, isso eu sei, deu origem a interpretações bem funestas e perversas. Devo, porém, permanecer vigilante. O rapaz ouve punk rock, faz skate, veste-se de preto, toca guitarra e pediu-me agora emprestado O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, a perturbadora narração de uma viagem ao Congo que alegadamente inspirou o filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola. “Exterminai todas as bestas”.

Não creio, ainda assim, que o herdeiro ameace transformar-se num perigoso intelectual ou, um pouco pior do que isso, que esteja a planear uma invasão da Polónia durante as aulas de Físico-Química. Eu também escutei Ramones e Dead Kennedys, usei botas da tropa e li livros sobre a reforma agrária na União Soviética sem ter sofrido danos comportamentais demasiado graves. Agora que os meus filhos se vão tornando gente crescida, do meu tamanho já, tenho até motivos para estar razoavelmente optimista e orgulhoso. São miúdos extraordinários e bem-dispostos, normalíssimos, e que só correm o risco de serem melhores pessoas do que eu tenho sido.

Nunca podemos saber ao certo no que se vão transformar os nossos filhos quando crescem. Há dias, por exemplo, ouvi uma criança com menos de seis anos, numa emissão da Antena 1, dizer que admira Paulo Portas e que, se tivesse muito dinheiro, comprava uma metralhadora e uma shotgun e matava todas as pessoas de que não gosta (incluindo o primeiro-ministro José Sócrates). Foi um pouco inquietante escutá-lo. Sossega-me saber, por isso, que as minhas crias apostam nas relações públicas e nas artes. São, digamos assim, actividades relativamente honestas e pacíficas.

Para além disso, quando devolveu Assim Falou Zaratustra, o Afonso confidenciou-me que o seu livro preferido continua a ser Os Papéis de K., do Manuel António Pina. Fiquei descansado.

Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Crónicas do autocarro#16

Observar a vida dos outros pode transformar-se num vício. Quando, esta manhã, olhei (o mais dissimuladamente que pude) para a parte de trás do autocarro, as pessoas que lá estavam sentadas tinham quase todas o olhar parado, sem pestanejar, dirigido em diferentes direcções. Talvez fossem pensando na vida, no trabalho que tinham pela frente, nos filhos, nos netos, no cardápio para o jantar, nas prestações por pagar, mas, olhando-as, faziam apenas lembrar autómatos de carne e osso, macilentos, que tivessem sido desligados ou estivessem hibernando até ao momento em que lhes fosse necessário retomar as actividades quotidianas. Havia, ainda assim, uma mulher ruiva dormindo, cabeceando um pouco. Pareceu-me, a ruiva, a pessoa mais viva de todas as que iam na parte de trás do autocarro.

Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

Crónicas do autocarro#15

Estou um pouco farto de ir atento a tudo o que acontece no autocarro. Não sei o que há-de parecer aos outros passageiros, se percebem, ou não, que os vigio para depois vir contar, mas posso supor que o modo compenetrado como olho as coisas do autocarro pareça um pouco tresloucado e que, calhando, me temam mesmo sem saber que leio entre eles sobre coisas como a sodomização de Francine. Imagino os meus olhos esbugalhados, frementes, movendo-se de um lado para o outro para não perder pitada, e não me custa admitir que hei-de parecer um louco, um celerado, um qualquer tipo de destrambelhado. Com óculos de sol, ao menos, ninguém pode ver-me os olhos fixos e arregalados, mas, nestes dias de chuva, tenho que encontrar outra forma de iludir os utentes.

Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

Crónicas do autocarro#14

Em certos dias, creio que naqueles em que vejo o sol quando levanto a persiana, dá-me para certas extravagâncias (também trouxe calçadas umas sapatilhas velhas). Resolvi ler hoje mais duas ou três páginas de O Livro de Manuel, de Cortázar, no autocarro. Por coincidência, vim lendo sobre a manhã depois de Andrés ter sodomizado e violado Francine num hotel com vista para o cemitério. Ela, apesar de tudo, declara não se ter sentido aviltada e pergunta: “E tu, Andrés, e tu?”. Felizmente, creio, um homem lendo um livro num autocarro parece ser uma companhia desaconselhável e indesejada. Ninguém se sentou ao meu lado e, por isso, ninguém me surpreendeu lendo páginas onde se podiam ver as palavras “violação” e “sodomia”. Parecerei bizarro, mas os outros passageiros ainda não me olham com rancor ou nojo.

Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Crónicas do autocarro#13

Apesar da óbvia aversão dos utentes a toda e qualquer leitura que exceda a realidade resumida dos jornais gratuitos, a evidente melhoria da qualidade dos transportes públicos possibilitou o exercício de novas actividades a bordo dos autocarros. Esta manhã, por exemplo, seguia a bordo uma moça bonita e muito activa, a qual tinha transformado os dois lugares junto à porta numa espécie de escritório. Manuseava papéis, remexia na carteira e falava ao telemóvel com uma voz impecavelmente profissional e debitando frases como “a questão é...” e “...não conseguimos identificar...”. Não me espantarei, por isso, se, um dia destes, vir no autocarro um advogado a meio de uma sessão de aconselhamento jurídico ou uma psicóloga oficiando uma consulta de terapia familiar. Esta parece-me, aliás, uma actividade muito promissora. Uma das utentes habituais queixava-se hoje, falando com a irmã, de que já nem para companhia serve. Há ali, evidentemente, um drama pessoal em ebulição. E onde há um drama pessoal, já se sabe, faz falta uma licenciada em Psicologia. O povo dos transportes públicos precisa de conversar.

Aumentar o IVA

A actualidade tal como vem nos jornais e nos telejornais interessa-me cada vez menos, mas tenho, sim, sido acometido por algumas irritações. Procuro resistir e moderar as secreções menos benfazejas, mas, às vezes, os maus fígados que em mim persistem ainda levam a melhor sobre os bons sentimentos. Hoje, por exemplo, ouvi e li várias pessoas supostamente inteligentes defenderem o aumento do IVA. Sempre que ouço falar de aumento de impostos lembro-me dos toxicodependentes que assaltam pedestres ameaçando-os com uma seringa contaminada com VIH. Um tipo entrega-lhes o dinheiro, que remédio, e fica a desejar que, de algum modo, eles não o vão gastar mal gasto, quando é evidente que é exactamente isso o que eles vão fazer.

Um país assim



Segundo o Correio da Manhã, José Sócrates, o primeiro-ministro, terá aproveitado o lançamento da primeira pedra do novo Museu dos Coches para declarar que sempre teve a mania que sabia alguma coisa de arquitectura. “Tenho muitas opiniões sobre arquitectura”, disse. Ora Sócrates, que desenhou belas vivendas como a da foto anexa, tem também muitas opiniões sobre o país, o governo do país e a modernização do país. Será caso, pois, para temer o pior. Ou para nos prepararmos para um país assim.

A rapariga do semáforo

Num outro blogue, numa outra vida, escrevi, a 28 de Outubro de 2005, um post assim:

A rapariga de uma perna só que pede esmolas no semáforo tem agora uma cadeira de rodas. Já não se arrasta em cima das muletas, portanto. Ganhou velocidade de deslocação, modernizou-se, chega mais depressa aos automóveis e, por isso, pode abordar mais condutores no escasso tempo que dura o sinal vermelho. A cadeira de rodas da rapariga de uma perna só é velha e algo desconjuntada. Estaria numa imaginária sucata de cadeiras de rodas se não existissem pessoas como a rapariga de uma perna só. É, em todo o caso, um veículo, ou, pelo menos, assim parece quando a rapariga, driblando os carros, acelera o passo da cadeira. Os braços magros, débeis, ainda não estão afeitos à eficaz manobra das grandes rodas traseiras. É por isso que ela auxilia a locomoção pedalando no asfalto com o pé da única perna que tem.

Depois disso a rapariga que pedia no semáforo desapareceu e, com ela, os enormes olhos azuis que eram a única luz que restava no rosto encardido e gasto. Inquietei-me secretamente (naquele modo post-moderno de nos inquietarmos sem, de facto, chegarmos a fazer coisa nenhuma). Vi-a hoje de manhã quando saía do autocarro, bebendo um sumo à porta de um café, amparada pelas muletas. Estava mais limpa e ganhou algum peso. Pareceu-me saudável e olhei para trás, para vê-la outra vez. Fiquei feliz (naquele modo post-moderno de ficarmos felizes sem chegarmos a demonstrá-lo). A rapariga mantém os imensos olhos azuis que pediam moedas no semáforo e a única perna que tem continua bem fincada no chão – e na vida.

Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Alerta amarelo

(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 15 de Dezembro de 2009. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)



Os senhores ecologistas que me perdoem, mas, em dias assim, o arrefecimento local monopoliza completamente a minha distorcida atenção e não me sobra espaço quase nenhum para as transcendências do aquecimento global ou para discorrer sobre outros temas prementes da actualidade. Penso, sim, em Aminatu Aidar e na nobreza delicada da luta dela, na força tranquila das suas convicções, mas as minhas energias estão todas canalizadas para a necessidade de manter as mãos, os pés e as orelhas a uma temperatura minimamente aceitável. Lamento.

Esta manhã, para que tudo fosse ainda mais dramático, a bateria do meu carro sucumbiu às baixas temperaturas. Tinha vários litros do demoníaco combustível fóssil no depósito, mas o motor recusou-se a funcionar, o que me obrigou a andar um pedaço a pé, transido de frio, para encontrar quem pudesse vir em meu socorro e me vendesse uma bateria nova. Consequentemente, pus-me inquieto (e um pouco céptico) ante a perspectiva de, um dia, ficar completamente dependente da electricidade quando quiser sair de casa para trabalhar.

Devia, isso sim, ter ficado até mais tarde entre os lençóis de flanela, escutando as notícias que davam conta da agressão a Silvio Berlusconi com uma miniatura em gesso da catedral de Milão e ponderando na gravidade de tais acontecimentos. Como, porém, vim trabalhar, estive a ver as fotografias do ataque na imprensa internacional e constatei que o primeiro-ministro italiano parecia ontem menos “belo e bronzeado” do que é costume. Temo sinceramente pela integridade do sorriso dele, mas, estando o mundo intolerante como está, e havendo em Itália uma crescente aversão pelos estrangeiros, não deixa de ser irónico que Berlusconi tenha sido atacado por um italiano de gema empunhando um símbolo católico, e não por um stranieri immigrati armado com a miniatura de um minarete qualquer.

Por muito celerado que possa ser o agressor, ninguém me convence que Massimo Tartaglia se daria ao trabalho de levantar a mão contra Berlusconi numa noite cálida e primaveril. O Inverno indispõe as pessoas, torna-as agressivas, mesquinhas e egoístas, pouco sociáveis e desleixadas na depilação. Abstêm-se de sair de casa e de praticar saudáveis actividades ao ar livre, optando, em vez disso, por se concentrarem em centros comerciais onde trocam perigosos miasmas pandémicos e produzem toneladas de dióxido de carbono resultantes do aquecimento e das iluminações natalícias. Somos, por isso, insensíveis à catástrofe que a Conferência de Copenhaga tenta evitar e comportamo-nos como loucos correndo em direcção ao abismo (desde que o abismo seja um sítio quentinho).

O acordo na capital dinamarquesa está, parece, complicado e isto nem sequer espanta. Se quiserem aceitar um conselho, tratem de organizar a próxima cimeira dedicada ao ambiente num sítio quente, durante o Verão. Prometo, nessa altura, mobilizar-me e praticar um activismo frenético e efectivo, pelo menos durante aqueles períodos do dia em que não for conveniente estar na praia a apanhar sol.