Esta manhã não se ouvia uma mosca dentro do autocarro, tão sossegado estava o ambiente. O único zumbido que se escutava era o do motor e isto manteve-se assim até à Rotunda da Boavista. Aí entraram duas mulheres de cinquenta anos, que deviam ser irmãs ou assim, e se sentaram à minha frente, voltadas para mim e tão próximas que tive que encolher as pernas e ceder-lhes algum espaço. Elas traziam envelopes com exames médicos, mais concretamente, e isto ouvi-o de modo bastante claro, uma “ecografia ao nível da vagina”. Tendo dividido com elas o meu espaço no autocarro, dispensava perfeitamente que tivessem partilhado comigo este pedaço de intimidade delas.
Segunda-feira, 31 de Maio de 2010
Crónicas do autocarro#33
Esta manhã não se ouvia uma mosca dentro do autocarro, tão sossegado estava o ambiente. O único zumbido que se escutava era o do motor e isto manteve-se assim até à Rotunda da Boavista. Aí entraram duas mulheres de cinquenta anos, que deviam ser irmãs ou assim, e se sentaram à minha frente, voltadas para mim e tão próximas que tive que encolher as pernas e ceder-lhes algum espaço. Elas traziam envelopes com exames médicos, mais concretamente, e isto ouvi-o de modo bastante claro, uma “ecografia ao nível da vagina”. Tendo dividido com elas o meu espaço no autocarro, dispensava perfeitamente que tivessem partilhado comigo este pedaço de intimidade delas.
Vila-Matas, o jogo
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 13 de Abril de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

(fotografia: Daniel Mordzinsky)
Para os devidos efeitos declaro que fumo, bebo e sou viciado em Enrique Vilas-Matas, o escritor catalão. Sinto tremuras assim que tomo conhecimento da publicação de alguma coisa que ele tenha escrito. Tento resistir, mas acabo sempre por ir furtivamente até alguma livraria a fim de adquirir a minha dose. Perguntam-me se “é para oferta” e eu tenho vontade de responder o mais sinceramente que posso:
- Não senhor, é para consumir já.
Ler Enrique Vilas-Matas, os seus contos, romances, crónicas e divagações diarísticas, equivale a entrar numa espécie de jogo literário, divertido e culto, no qual a ficção e a realidade se fundem e confundem (“para alcançar a verdade”, diz ele). Enrique é um escritor notável e é também um leitor absolutamente genial e pantagruélico. Lê-se e tem-se vontade de partir imediatamente para a exploração de outros livros e para a fascinante descoberta dos universos que neles se guardam. Fica-se viciado naquele modo peculiar de associar ideias e vai-se dormir como quando se esteve muito tempo a jogar tetris e as peças do jogo continuam a cair e a necessitar que as relacionemos.
Em Diário Volúvel, o mais recente livro do catalão publicado em Portugal, há, logo na segunda página, mais uma pista para o delirante jogo metaliterário que é ler Vila-Matas. O escritor conta, numa nota de 2005, o seu desejo de abandonar a escrita e de transformar esse abandono numa obra de arte. Para tal, propõe-se contratar um escritor disposto a narrar essa renúncia ou, em alternativa, fazê-lo ele mesmo: “invento-me um escritor contratado que segue os meus passos depois do abandono e escreve por mim um diário, onde simula piedosamente que não deixei a escrita”.
Falsa obsessão ou plano sincero, o desaparecimento e o abandono da escrita (“o meu empenho em não ser ninguém”) são temas frequentes na obra de Vila-Matas. Encontrámo-los já em História abreviada da literatura portátil e em Bartleby e companhia, por exemplo, e até, de certo modo, em Viagem Vertical. Mas é sobretudo em Doutor Pasavento, o romance de 2006, que Enrique concretiza o projecto enunciado no diário. Pasavento é um discípulo do austríaco Robert Walser e empenha-se na tarefa de desaparecer do mundo, mas não se chega a saber se Vila-Matas é o escritor, o narrador ou o personagem dessa tão peculiar ficção.
Enrique gosta, aliás, de alimentar esta ambiguidade. Quando, em 2007, se apresentou nas Correntes d’Escritas da Póvoa de Varzim, declarou: “Sou o doutor Pasavento”. Em 2008, entrou numa sala de conferência em Matosinhos com óculos de sol e a gola do sobretudo levantada, como se encarnasse também algum dos seus estranhos personagens. Eu estava com ele nos bastidores e vi como sorriu antes de passar a porta, divertido com a excentricidade que ia praticar. Depois compôs um ar sério e entrou na sala com esse mesmo sobretudo “de bom corte, britânico”, que revejo agora em Diário Volúvel, involuntariamente roubado por Claudio Magris no bar de um hotel de Madrid, em Março de 2006.

(fotografia: Daniel Mordzinsky)
Para os devidos efeitos declaro que fumo, bebo e sou viciado em Enrique Vilas-Matas, o escritor catalão. Sinto tremuras assim que tomo conhecimento da publicação de alguma coisa que ele tenha escrito. Tento resistir, mas acabo sempre por ir furtivamente até alguma livraria a fim de adquirir a minha dose. Perguntam-me se “é para oferta” e eu tenho vontade de responder o mais sinceramente que posso:
- Não senhor, é para consumir já.
Ler Enrique Vilas-Matas, os seus contos, romances, crónicas e divagações diarísticas, equivale a entrar numa espécie de jogo literário, divertido e culto, no qual a ficção e a realidade se fundem e confundem (“para alcançar a verdade”, diz ele). Enrique é um escritor notável e é também um leitor absolutamente genial e pantagruélico. Lê-se e tem-se vontade de partir imediatamente para a exploração de outros livros e para a fascinante descoberta dos universos que neles se guardam. Fica-se viciado naquele modo peculiar de associar ideias e vai-se dormir como quando se esteve muito tempo a jogar tetris e as peças do jogo continuam a cair e a necessitar que as relacionemos.
Em Diário Volúvel, o mais recente livro do catalão publicado em Portugal, há, logo na segunda página, mais uma pista para o delirante jogo metaliterário que é ler Vila-Matas. O escritor conta, numa nota de 2005, o seu desejo de abandonar a escrita e de transformar esse abandono numa obra de arte. Para tal, propõe-se contratar um escritor disposto a narrar essa renúncia ou, em alternativa, fazê-lo ele mesmo: “invento-me um escritor contratado que segue os meus passos depois do abandono e escreve por mim um diário, onde simula piedosamente que não deixei a escrita”.
Falsa obsessão ou plano sincero, o desaparecimento e o abandono da escrita (“o meu empenho em não ser ninguém”) são temas frequentes na obra de Vila-Matas. Encontrámo-los já em História abreviada da literatura portátil e em Bartleby e companhia, por exemplo, e até, de certo modo, em Viagem Vertical. Mas é sobretudo em Doutor Pasavento, o romance de 2006, que Enrique concretiza o projecto enunciado no diário. Pasavento é um discípulo do austríaco Robert Walser e empenha-se na tarefa de desaparecer do mundo, mas não se chega a saber se Vila-Matas é o escritor, o narrador ou o personagem dessa tão peculiar ficção.
Enrique gosta, aliás, de alimentar esta ambiguidade. Quando, em 2007, se apresentou nas Correntes d’Escritas da Póvoa de Varzim, declarou: “Sou o doutor Pasavento”. Em 2008, entrou numa sala de conferência em Matosinhos com óculos de sol e a gola do sobretudo levantada, como se encarnasse também algum dos seus estranhos personagens. Eu estava com ele nos bastidores e vi como sorriu antes de passar a porta, divertido com a excentricidade que ia praticar. Depois compôs um ar sério e entrou na sala com esse mesmo sobretudo “de bom corte, britânico”, que revejo agora em Diário Volúvel, involuntariamente roubado por Claudio Magris no bar de um hotel de Madrid, em Março de 2006.
Quinta-feira, 27 de Maio de 2010
O que acontece no metro para o Estádio do Dragão fica no metro para o Estádio do Dragão
Ocorreu-me contar uma cena a que assisti no decurso de mais uma viagem nos transportes públicos, mas pareceu-me que esta seria uma excelente oportunidade para inaugurar uma espécie de adágio. Para além disso, isto assim fica muito mais enigmático e há sempre gente que gosta e se sente desafiada por um mistério — mesmo quando não existe mistério algum.
Quarta-feira, 26 de Maio de 2010
A tecnologia também tem sexo

O mundo é profundamente sexual e, constata-se, até a tecnologia é sensível à chamada «questão do género». A tecnologia que permite ver coisas a três dimensões em suportes bidimensionais, por exemplo, parece ser uma coisa mais calhada para servir o macho. Assim de repente, e a menos que me esteja a escapar algum desenvolvimento recente, a tecnologia 3-D já foi utilizada numa revista de gajas nuas (a GQ de Maio com a Sofia Ribeiro na capa) e vai também ser utilizada pela Playboy. No Festival de Cannes foram recentemente apresentados os primeiros filmes pornográficos em 3-D e, para que as necessidades masculinas ficassem totalmente satisfeitas, a TVI transmitiu o jogo de futebol entre Portugal-Cabo Verde com esta tecnologia. Há-de andar por aí muito morcão com as vistas a arder.
Crónicas do autocarro#32
Vim esta manhã à escuta da conversa das três mulheres que, pelos vistos, se dedicam ao negócio das limpezas de domicílios. Uma delas contava que tinha a seu cargo uma igreja da Baixa, que aspirava o templo todos os dias e que tinha limpo os santos todos, o que, dito assim, pode não ter muita graça, mas, se se pensar bem, chega a ser hilariante: uma mulher limpando os santos todos, passando o pano pelas pernas nuas acima das sandálias de couro, sacudindo as vestes, cofiando-lhes a barba e, quem sabe, despertando-os para a vida como acontecia naquele vídeoclipe blasfemo da Madonna, o santo abandonando o altar e mergulhando no decote da cantora. Vinha, pois, entretido, a escutar a conversa das mulheres e a imaginar coisas bastante hereges quando se sentou ao meu lado uma dessas velhas que cheiram muito a urina. É impressionante como os sentidos se baralham em situações assim: não me lembro de ter escutado mais nada depois disso; vim apenas concentrado em conter a respiração.
Segunda-feira, 24 de Maio de 2010
Crónicas do autocarro#31
Para pessoas com necessidades especiais (digamos assim), o autocarro há-de ser um sítio bastante aborrecido, a despeito dos episódios ocasionais que ali se podem presenciar. Esta manhã, por exemplo, um pós-adolescente retardado, viajando sozinho, levava um aparelho que emitia sons, ora musiquetas da moda, ora anedotas soezes do Fernando Rocha. Todos podíamos ouvir a anedota do bêbado que vai no autocarro e que anuncia que os passageiros da frente são todos filhos da puta e que os passageiros de trás são todos paneleiros, mas, mesmo assim, o rapaz fazia coro com o comediante e sublinhava o “filhos da puta” e o “paneleiros”, caprichando em reproduzir a pronúncia do Rocha, exagerando o ééééééi de “paneleiros”. Pela minha parte, como ia num dos lugares ao pé da porta de saída, a meio do veículo, fiquei sem saber qual era a minha metade do autocarro.
Ser ou não ser 12h30
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 4 de Maio de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

São 12h30 e ainda não comecei a escrever a crónica que, normalmente, está quase pronta a esta hora. Ponderei, aliás, esperar que fossem exactamente 12h30 para escrever aquela frase, de modo a que fosse um bocadinho mais verdadeira, mas decidi antecipar-me um pouco. É indiferente. Podem até ser já quatro da tarde e eu não passar de um grande mentiroso – como dizem que foi Paul Gauguin, o pintor francês.
De acordo com especialistas citados pelo jornal The Guardian, as famosas cenas taitianas pintadas por Gauguin, com langorosas raparigas seminuas, de tez morena, serão apenas uma falsificação da realidade. Na década de 1890, já devidamente evangelizadas por missionários europeus, as ilhas da Polinésia seriam bastante diferentes daquilo que Gauguin pintou. As mulheres usavam batas e iam à missa ao domingo. Se posavam nuas para Gauguin, ajudando-o a encenar essa espécie de éden naturalista, faziam-no subjugadas, critica Belinda Thompson, a curadora de uma grande exposição que o museu Tate Modern dedicará ao pintor.
Mas se o quotidiano taitiano no final do século XIX não correspondia à bela mentira criada por Paul Gauguin – sendo até, pelos vistos, bem menos interessante –, tendo a considerar que o defeito está na realidade e não na obra do pintor. Se a vida se abastarda, se se torna aborrecida e previsível, reinvente-se a vida.
Foi o que fizeram há dias, em Porto Rico, os familiares de David Morales Colón, um estafeta de 22 anos assassinado numa rixa de delinquentes. David adorava a sua moto, uma Honda CBR 600F4i, e, por isso, a funerária que tratou do enterro foi instada a embalsamar o motoqueiro, para que pudesse ser velado sentado na potente máquina. As imagens mostram-no inclinado sobre o depósito, o corpo tenso e o olhar posto na imaginária estrada, como se conduzisse a 200 km/h e tivesse pressa para se afastar do mundo e da realidade.
Ao contrário, o escritor catalão Enrique Vila-Matas conta, no Diário Volúvel, que foi a La Baule, na costa atlântica francesa, sobretudo para poder anotar uma frase que, para ser verdadeira, exigia essa deslocação. “A frase? É simples e autêntica: «Vim a La Baule para poder escrever que estou em La Baule»”. Se fosse Gauguin ou um motoqueiro porto-riquenho, Vilas-Matas poderia contornar a viagem e inventar na sua varanda uma La Baule falsa, mas eventualmente mais interessante, parecida com Barcelona e com vista para o Mediterrâneo (e onde, ainda por cima, residiria o escritor Enrique Vila-Matas, vantagem de que a verdadeira La Baule não se pode gabar).

São 12h30 e ainda não comecei a escrever a crónica que, normalmente, está quase pronta a esta hora. Ponderei, aliás, esperar que fossem exactamente 12h30 para escrever aquela frase, de modo a que fosse um bocadinho mais verdadeira, mas decidi antecipar-me um pouco. É indiferente. Podem até ser já quatro da tarde e eu não passar de um grande mentiroso – como dizem que foi Paul Gauguin, o pintor francês.
De acordo com especialistas citados pelo jornal The Guardian, as famosas cenas taitianas pintadas por Gauguin, com langorosas raparigas seminuas, de tez morena, serão apenas uma falsificação da realidade. Na década de 1890, já devidamente evangelizadas por missionários europeus, as ilhas da Polinésia seriam bastante diferentes daquilo que Gauguin pintou. As mulheres usavam batas e iam à missa ao domingo. Se posavam nuas para Gauguin, ajudando-o a encenar essa espécie de éden naturalista, faziam-no subjugadas, critica Belinda Thompson, a curadora de uma grande exposição que o museu Tate Modern dedicará ao pintor.
Mas se o quotidiano taitiano no final do século XIX não correspondia à bela mentira criada por Paul Gauguin – sendo até, pelos vistos, bem menos interessante –, tendo a considerar que o defeito está na realidade e não na obra do pintor. Se a vida se abastarda, se se torna aborrecida e previsível, reinvente-se a vida.
Foi o que fizeram há dias, em Porto Rico, os familiares de David Morales Colón, um estafeta de 22 anos assassinado numa rixa de delinquentes. David adorava a sua moto, uma Honda CBR 600F4i, e, por isso, a funerária que tratou do enterro foi instada a embalsamar o motoqueiro, para que pudesse ser velado sentado na potente máquina. As imagens mostram-no inclinado sobre o depósito, o corpo tenso e o olhar posto na imaginária estrada, como se conduzisse a 200 km/h e tivesse pressa para se afastar do mundo e da realidade.
Ao contrário, o escritor catalão Enrique Vila-Matas conta, no Diário Volúvel, que foi a La Baule, na costa atlântica francesa, sobretudo para poder anotar uma frase que, para ser verdadeira, exigia essa deslocação. “A frase? É simples e autêntica: «Vim a La Baule para poder escrever que estou em La Baule»”. Se fosse Gauguin ou um motoqueiro porto-riquenho, Vilas-Matas poderia contornar a viagem e inventar na sua varanda uma La Baule falsa, mas eventualmente mais interessante, parecida com Barcelona e com vista para o Mediterrâneo (e onde, ainda por cima, residiria o escritor Enrique Vila-Matas, vantagem de que a verdadeira La Baule não se pode gabar).
E se Vila-Matas nunca tiver posto os pés em La Baule? E se tiver anotado aquela frase exactamente nas mesmas circunstâncias em que eu escrevi que eram 12h30? Fará muita diferença? Provavelmente nenhuma. São agora, em todo o caso, 12h27, e como tenho, enquanto jornalista, um certo compromisso com a realidade, esperarei o tempo necessário para escrever que são 12h30 sem que possam desmentir-me. São 12h30 e, como de costume, tenho a crónica quase pronta.
Sexta-feira, 21 de Maio de 2010
Crónicas do autocarro#30
A transição do exterior muito iluminado pelo sol maravilhoso de Maio para o interior sombrio do autocarro provoca, pelos vistos, uma forma de cegueira momentânea, da qual nunca me tinha apercebido. Mas esta manhã a mulher loura entrou no autocarro e levantou imediatamente a voz para perguntar, lá para o fundo, se a irmã da Branca também estava a bordo, ao que a Branca e a irmã responderam num tom de voz suficientemente esclarecedor. Depois a mulher loura sentou-se com as outras e perguntou à irmã da Branca pelas bolachas de chocolate que ela prometera levar, mas a irmã da Branca não se lembrava de nada e levou um raspanete como deve ser, que não se faz a uma mulher trabalhadeira obrigá-la a andar assim a perder tempo a entrar e sair de autocarros para, afinal, não encontrar em ordem as bolachas de chocolate que, à tarde, deviam ser entregues noutro sítio qualquer que não percebi bem. O resto dos passageiros, como eu, ficaram em silêncio, dissimulando e fingindo olhar para outro lado e dar atenção a outras coisas, mas estávamos todos concentrados era na conversa das duas mulheres, o que nem sequer era difícil, pois escutava-se perfeitamente e até mesmo se não se quisesse. Elas, por outro lado, pareciam satisfeitas por serem escutadas, tanto que, quando a loura saiu do autocarro, a irmã da Branca ainda explicou a quem a quis ouvir que não trouxe as bolachas por causa do calor da manhã. Talvez traga as bolachas à hora de almoço. Pela fresquinha.
Quinta-feira, 20 de Maio de 2010
Wagon Master e Baptize

Ignoro, pelos motivos óbvios, qualquer pormenor relativo à vida sexual dos equídeos, mas suspeito que Wagon Master e Baptize (curiosos nomes) levem uma existência desgraçada. São dois cavalos instalados numa granja galega, de Baltar (Ourense), e, segundo o El País de ontem, terão um mês de Junho tremendamente animado: serão visitados por centenas de éguas da Península Ibérica cujos donos se dispõem a pagar mil a mil e quinhentos euros por um único encontro amoroso com os fogosos garanhões. No breve interlúdio, Wagon Master e Baptize depositarão os seus genes privilegiados nas fêmeas. Depois, eventualmente sem tempo sequer para fumarem um cigarrinho, para um whisky, serão apresentados a uma nova égua, pela qual deverão interessar-se independentemente dos seus atributos físicos e repetir a operação inseminatória. E assim, infatigavelmente, durante todo o mês de Junho. Fico cansado só de pensar no assunto
Quarta-feira, 19 de Maio de 2010
A vampirologia necessita de actualização urgente

Na Nova Guiné, cientistas descobriram, para além do canguru-anão e do rato-das-árvores, uma nova espécie de morcego, o qual bebe néctar. Trata-se, evidentemente, de uma variedade mais adequada às tendências macrobióticas actuais e, outrossim, uma imensa janela de oportunidade para a ficção, seja literária, cinematográfica ou televisiva. Consigo imaginar, por exemplo, uma saga com o título genérico Fruta Vermelha. Ou uma nova série dos Morangos com Açúcar em que os adolescentes se transformam em vampiros vegetarianos. Tudo com o patrocínio da Compal, evidentemente.
O casamento homossexual entre pessoas do mesmo sexo
Parecendo que não, aprecio bastante acordar às cinco da manhã para tomar notas mentais para os textos que vou escrever durante o dia. Esta frase, por exemplo, ocorreu-me assim, inteira e cristalina, por volta das 6h10. Houve outras, claro, mas, como depois adormeci um bocadinho (para poder desfrutar do horror de acordar com o José Sócrates a citar uns versos que, no contexto, me soaram bastante fascistas), não estou absolutamente certo de quase nada, nem sequer de ter estado acordado.
Absolutamente indiferente a toda a razoabilidade e mesmo ao facto de não fazer já muito sentido discutir este assunto, decidi, ainda assim, que escreveria esta manhã sobre o casamento homossexual entre pessoas do mesmo sexo, o qual deve ser distinguido, por amor à exactidão, do casamento heterossexual entre pessoas do mesmo sexo (quando, por exemplo, ela é muito homem e manda lá em casa, ou vice versa) e do casamento homossexual entre pessoas de sexos diferentes (presumo que percebam onde quero chegar).
No ponto em que estamos, com a lei assinada pelo presidente e tudo, a pouca discussão que resta está circunscrita basicamente a dois níveis, a semântica e os valores, ambos particularmente caros à Igreja e às pessoas de direita.
No que respeita aos valores e, nomeadamente, ao confronto entre o valor da liberdade individual e os chamados valores da família, considero bastante aborrecido ter que debater valores com pessoas ou grupos de cidadãos de algum modo relacionáveis com perseguições religiosas e étnicas, a escravatura e a queima de outros seres humanos em praça pública. Nunca se sabe que género de sevícias podem ter reservado para o século XXI.
Por outro lado, parece-me que a instituição familiar é claramente sobrevalorizada pelas pessoas religiosas e/ou de direita, na medida em que conheço vários casos de agregados familiares cujas pessoas conseguem ser muito desagradáveis umas com as outras. Em algumas famílias (heterossexuais e tudo) ignora-se também teimosamente aquela coisa do “ide e multiplicai-vos”, o que, para além de ser um pouco chato, as transforma em núcleos sociais praticamente gay.
Depois há a questão da linguagem, uma vez que as pessoas religiosas e/ou de direita não apreciam que se chame casamento à união contratual entre pessoas homossexuais, devendo o termo ser reservado à união contratual entre pessoas heterossexuais de sexos diferentes. Estão aquelas pessoas no seu direito legítimo, uma vez que cada qual pode ter as opiniões que quiser desde que não queira impô-las aos demais (coisa de que tendem a esquecer-se tais indivíduos crentes e/ou de direita).
Dito isto, considero que, se tais pessoas querem palavras de uso exclusivo, devem inventá-las, uma vez que “casamento” caiu no domínio público, dada a sua incontestável utilidade para a conversação comum. É que, parecendo que não, as pessoas quando vão assinar o contrato que as une têm a necessidade de descrever o acto que estão à beira de perpetrar e não dá jeito nenhum, por exemplo, comunicar aos colegas de trabalho que se vai participar na celebração da união civil entre duas pessoas do mesmo sexo.
Absolutamente indiferente a toda a razoabilidade e mesmo ao facto de não fazer já muito sentido discutir este assunto, decidi, ainda assim, que escreveria esta manhã sobre o casamento homossexual entre pessoas do mesmo sexo, o qual deve ser distinguido, por amor à exactidão, do casamento heterossexual entre pessoas do mesmo sexo (quando, por exemplo, ela é muito homem e manda lá em casa, ou vice versa) e do casamento homossexual entre pessoas de sexos diferentes (presumo que percebam onde quero chegar).
No ponto em que estamos, com a lei assinada pelo presidente e tudo, a pouca discussão que resta está circunscrita basicamente a dois níveis, a semântica e os valores, ambos particularmente caros à Igreja e às pessoas de direita.
No que respeita aos valores e, nomeadamente, ao confronto entre o valor da liberdade individual e os chamados valores da família, considero bastante aborrecido ter que debater valores com pessoas ou grupos de cidadãos de algum modo relacionáveis com perseguições religiosas e étnicas, a escravatura e a queima de outros seres humanos em praça pública. Nunca se sabe que género de sevícias podem ter reservado para o século XXI.
Por outro lado, parece-me que a instituição familiar é claramente sobrevalorizada pelas pessoas religiosas e/ou de direita, na medida em que conheço vários casos de agregados familiares cujas pessoas conseguem ser muito desagradáveis umas com as outras. Em algumas famílias (heterossexuais e tudo) ignora-se também teimosamente aquela coisa do “ide e multiplicai-vos”, o que, para além de ser um pouco chato, as transforma em núcleos sociais praticamente gay.
Depois há a questão da linguagem, uma vez que as pessoas religiosas e/ou de direita não apreciam que se chame casamento à união contratual entre pessoas homossexuais, devendo o termo ser reservado à união contratual entre pessoas heterossexuais de sexos diferentes. Estão aquelas pessoas no seu direito legítimo, uma vez que cada qual pode ter as opiniões que quiser desde que não queira impô-las aos demais (coisa de que tendem a esquecer-se tais indivíduos crentes e/ou de direita).
Dito isto, considero que, se tais pessoas querem palavras de uso exclusivo, devem inventá-las, uma vez que “casamento” caiu no domínio público, dada a sua incontestável utilidade para a conversação comum. É que, parecendo que não, as pessoas quando vão assinar o contrato que as une têm a necessidade de descrever o acto que estão à beira de perpetrar e não dá jeito nenhum, por exemplo, comunicar aos colegas de trabalho que se vai participar na celebração da união civil entre duas pessoas do mesmo sexo.
Terça-feira, 18 de Maio de 2010
As lições da Feira do Livro: irrelevância e falta de critério
Parecendo que não, o pequeno folhetim em torno da Feira do Livro do Porto (desenvolvimentos também aqui) é um bom resumo daquilo em que a minha cidade está transformada: tornou-se irrelevante e é gerida sem nenhum critério.
O Porto teve, durante décadas, uma Feira do Livro relativamente autónoma, a qual decorria mais ou menos em simultâneo com o certame de Lisboa e nas datas que se considerava serem as mais convenientes. Quando, porém, a Câmara do Porto decidiu transferir a feira do Pavilhão Rosa Mota (o qual ia entrar em obras que, entretanto, nunca mais começaram) para a Avenida dos Aliados, tomou uma decisão que a expôs à dependência quase absoluta: para poupar o dinheiro que custariam os novos pavilhões, aceitou que a feira aproveitasse as barraquinhas de Lisboa, que têm que ser desmontadas, transportadas e remontadas na Baixa.
A feira do Porto passou, assim, a começar apenas alguns dias depois do fim da feira de Lisboa e na dependência desta. Este ano, a organização decidiu prolongar o certame de Lisboa por mais uma semana, adiando, assim, o início da feira do Porto. E decidiu-o sem sequer dar conhecimento à Câmara do Porto e anunciando, ao mesmo tempo, que o certame se mudaria da Avenida dos Aliados para a Rotunda da Boavista.
Ultrapassada e desrespeitada, a Câmara do Porto já pouco podia fazer. Teve que engolir as novas datas impostas e apenas conseguiu fazer finca-pé quanto à realização da feira na Avenida dos Aliados, conforme está protocolado com a APEL. E fê-lo argumentando com o objectivo de “dinamizar” e “trazer pessoas para a Baixa”. Ora, não é preciso andar muito atento para perceber que a Baixa, hoje, é um sítio bem mais animado e com mais gente do que a Rotunda da Boavista, uma espécie de deserto arborizado situado diante da Casa da Música e que quase ninguém utiliza.
Não fosse a teimosia da câmara e o melindre entretanto criado e, bem vistas as coisas, esta teria sido uma excelente oportunidade para distribuir a animação pelas aldeias. Acresce que a Rotunda da Boavista tem árvores e sombra, coisa que, em Junho, seria de grande utilidade para quem tenha a ideia de visitar a Feira do Livro durante a tarde e para os funcionários que lá têm que penar. Só quem não os viu transpirar e enrubescer debaixo de temperaturas próximas dos quarenta graus é que pode sustentar que a Avenida dos Aliados é um bom sítio para instalar uma Feira do Livro.
O Porto teve, durante décadas, uma Feira do Livro relativamente autónoma, a qual decorria mais ou menos em simultâneo com o certame de Lisboa e nas datas que se considerava serem as mais convenientes. Quando, porém, a Câmara do Porto decidiu transferir a feira do Pavilhão Rosa Mota (o qual ia entrar em obras que, entretanto, nunca mais começaram) para a Avenida dos Aliados, tomou uma decisão que a expôs à dependência quase absoluta: para poupar o dinheiro que custariam os novos pavilhões, aceitou que a feira aproveitasse as barraquinhas de Lisboa, que têm que ser desmontadas, transportadas e remontadas na Baixa.
A feira do Porto passou, assim, a começar apenas alguns dias depois do fim da feira de Lisboa e na dependência desta. Este ano, a organização decidiu prolongar o certame de Lisboa por mais uma semana, adiando, assim, o início da feira do Porto. E decidiu-o sem sequer dar conhecimento à Câmara do Porto e anunciando, ao mesmo tempo, que o certame se mudaria da Avenida dos Aliados para a Rotunda da Boavista.
Ultrapassada e desrespeitada, a Câmara do Porto já pouco podia fazer. Teve que engolir as novas datas impostas e apenas conseguiu fazer finca-pé quanto à realização da feira na Avenida dos Aliados, conforme está protocolado com a APEL. E fê-lo argumentando com o objectivo de “dinamizar” e “trazer pessoas para a Baixa”. Ora, não é preciso andar muito atento para perceber que a Baixa, hoje, é um sítio bem mais animado e com mais gente do que a Rotunda da Boavista, uma espécie de deserto arborizado situado diante da Casa da Música e que quase ninguém utiliza.
Não fosse a teimosia da câmara e o melindre entretanto criado e, bem vistas as coisas, esta teria sido uma excelente oportunidade para distribuir a animação pelas aldeias. Acresce que a Rotunda da Boavista tem árvores e sombra, coisa que, em Junho, seria de grande utilidade para quem tenha a ideia de visitar a Feira do Livro durante a tarde e para os funcionários que lá têm que penar. Só quem não os viu transpirar e enrubescer debaixo de temperaturas próximas dos quarenta graus é que pode sustentar que a Avenida dos Aliados é um bom sítio para instalar uma Feira do Livro.
Crónicas do autocarro#29
Bem sei como é quando vêm à baila a Primavera e os seus festivos encantos. Os pássaros a chilrear, as árvores a verdejar, as flores a florescer e mais não sei o quê. Só ninguém fala daquela mulher gordita e de triste figura que ia ontem no autocarro ao final da tarde. Aproveitou os primeiros calores da época para vestir uns calções até ao joelho, desengraçaditos e às riscas, mas que, mesmo assim, deixavam ver duas meias pernas que seguramente não sabem o que é uma depilação desde o final da guerra do ultramar. De vez em quando o autocarro fazia uma curva e o sol poente entrava pela janela e reflectia-se nos cabelos das pernas dela - e isto, meus amigos, não tinha nada de bonito ou enternecedor.
Segunda-feira, 17 de Maio de 2010
Hoppipolla
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 27 de Abril de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Se o FBI não tiver feito questão de me estragar a crónica, geezer bandit, o ladrão velhote, continua à solta algures nos Estados Unidos, depois de ter assaltado sete bancos na área de San Diego, na Califórnia. O último roubo aconteceu há precisamente uma semana e os jornais estrangeiros estão cheios de fotografias do geriátrico meliante: tem o cabelo branco, o rosto enrugado, e usa boinas ou bonés e óculos muito graduados. Chega ao banco como se tivesse todo o tempo do mundo, pede para trocar duas notas de vinte dólares e, depois, mostra aos funcionários um revólver e uma nota explicando que aquilo é um assalto. Mete o dinheiro roubado entre as páginas de uma agenda e sai do banco com tanta descontracção que só lhe falta acenar para as câmaras de videovigilância.
As autoridades estimam que o intrépido idoso tenha cerca de 70 anos e o Village Voice escreveu mesmo que o ladrão velhote confere uma certa doçura ao roubo de bancos – como se os melancólicos vieux da célebre canção de Jacques Brel tivessem resolvido divertir-se e agora aproveitassem a reforma para imitar Bonnie & Clyde, a mítica dupla de assaltantes a bancos. Imagino, pois, a esposa do ladrão velhote esperando-o à porta dos bancos assaltados, mantendo o motor do Buick Super Eight de 1948 a trabalhar, arrancando lentamente quando o marido regressa ao carro e conduzindo depois muito devagar, com o nariz quase colado ao pára-brisas.
Penso no geezer bandit e imediatamente me ocorre o teledisco de Hoppipolla, uma das mais conhecidas canções dos islandeses Sigur Rós. Aí, dois grupos rivais de velhotes andam pelas ruas de uma cidade tocando às campainhas das casas, fazendo graffiti, rebentando bombas de Carnaval, namoriscando, saltando nas poças de água das últimas chuvas, fazendo guerras com espadas de madeira e roubando coisas das prateleiras dos supermercados.
É enternecedor ver como esses velhos levam à letra o lugar-comum segundo o qual a terceira idade é uma espécie de regresso à infância e à sua inocente malandragem. Não é difícil imaginar o ladrão velhote e a sua imaginária esposa entre esses idosos nórdicos, um pouco mais baixos e com um ar mais traquina, conspirando secretamente para levarem por diante a brincadeira um pouco mais séria e arriscada que é assaltar bancos para, depois, fugirem pachorrentamente com a merenda no banco de trás do Buick. Enquanto o Village Voice grita “foge, geezer bandit, foge!”, Bill & Thelma (nomes fictícios) estacionam junto de um parque público e fazem um piquenique demorado, sorrindo amenamente enquanto se debatem para conseguirem mastigar as sandes de carne assada com as dentaduras postiças.
Imagino-me, pois, no lugar do geezer bandit, piquenicando à beira da estrada e dando voltas ao miolo para encontrar uma forma de gastar o dinheiro roubado. Thelma deitaria a cabeça nevada no meu colo, indiferente ao padecimento das artroses, e sorriria de uma forma que evocaria o seu riso de há cinquenta anos. Creio que seríamos felizes – como os velhos de Hoppipolla.
Se o FBI não tiver feito questão de me estragar a crónica, geezer bandit, o ladrão velhote, continua à solta algures nos Estados Unidos, depois de ter assaltado sete bancos na área de San Diego, na Califórnia. O último roubo aconteceu há precisamente uma semana e os jornais estrangeiros estão cheios de fotografias do geriátrico meliante: tem o cabelo branco, o rosto enrugado, e usa boinas ou bonés e óculos muito graduados. Chega ao banco como se tivesse todo o tempo do mundo, pede para trocar duas notas de vinte dólares e, depois, mostra aos funcionários um revólver e uma nota explicando que aquilo é um assalto. Mete o dinheiro roubado entre as páginas de uma agenda e sai do banco com tanta descontracção que só lhe falta acenar para as câmaras de videovigilância.
As autoridades estimam que o intrépido idoso tenha cerca de 70 anos e o Village Voice escreveu mesmo que o ladrão velhote confere uma certa doçura ao roubo de bancos – como se os melancólicos vieux da célebre canção de Jacques Brel tivessem resolvido divertir-se e agora aproveitassem a reforma para imitar Bonnie & Clyde, a mítica dupla de assaltantes a bancos. Imagino, pois, a esposa do ladrão velhote esperando-o à porta dos bancos assaltados, mantendo o motor do Buick Super Eight de 1948 a trabalhar, arrancando lentamente quando o marido regressa ao carro e conduzindo depois muito devagar, com o nariz quase colado ao pára-brisas.
Penso no geezer bandit e imediatamente me ocorre o teledisco de Hoppipolla, uma das mais conhecidas canções dos islandeses Sigur Rós. Aí, dois grupos rivais de velhotes andam pelas ruas de uma cidade tocando às campainhas das casas, fazendo graffiti, rebentando bombas de Carnaval, namoriscando, saltando nas poças de água das últimas chuvas, fazendo guerras com espadas de madeira e roubando coisas das prateleiras dos supermercados.
É enternecedor ver como esses velhos levam à letra o lugar-comum segundo o qual a terceira idade é uma espécie de regresso à infância e à sua inocente malandragem. Não é difícil imaginar o ladrão velhote e a sua imaginária esposa entre esses idosos nórdicos, um pouco mais baixos e com um ar mais traquina, conspirando secretamente para levarem por diante a brincadeira um pouco mais séria e arriscada que é assaltar bancos para, depois, fugirem pachorrentamente com a merenda no banco de trás do Buick. Enquanto o Village Voice grita “foge, geezer bandit, foge!”, Bill & Thelma (nomes fictícios) estacionam junto de um parque público e fazem um piquenique demorado, sorrindo amenamente enquanto se debatem para conseguirem mastigar as sandes de carne assada com as dentaduras postiças.
Imagino-me, pois, no lugar do geezer bandit, piquenicando à beira da estrada e dando voltas ao miolo para encontrar uma forma de gastar o dinheiro roubado. Thelma deitaria a cabeça nevada no meu colo, indiferente ao padecimento das artroses, e sorriria de uma forma que evocaria o seu riso de há cinquenta anos. Creio que seríamos felizes – como os velhos de Hoppipolla.
Sexta-feira, 14 de Maio de 2010
Eu até tinha prometido a mim mesmo não voltar a escrever sobre aquele indivíduo de cabeça branca que fala português com um sotaque esquisito...
...mas isto é um pouco demais. Como se não bastasse a Câmara do Porto ter retirado de uma fachada da Avenida dos Aliados um pendão em que o FC Porto, num gesto de cortesia e fair-play, saudava a visita do papa, o cavalheiro Ratzinger apresentou-se para a missa na Baixa sem a habitual veste amarelo-dourada, envergando antes, à saída dos paços do concelho, um paramento vermelho e branco, num lamentável gesto de clara provocação. Onde é que estão os Super Dragões quando realmente fazem falta? Estou bestialmente indignado. Mas também é bem feito. Os indivíduos que mandam no meu clube podiam ter lido aquela parte do livro em que se lê "não adorarás os seus deuses, nem lhes prestarás culto, imitando seus costumes".
Quinta-feira, 13 de Maio de 2010
Repetição

Tendo em conta as circunstâncias, impõem-se que repita hoje aquilo que aqui escrevi em Fevereiro:
“Sempre que ouço falar de aumento de impostos lembro-me dos toxicodependentes que assaltam pedestres ameaçando-os com uma seringa contaminada com VIH. Um tipo entrega-lhes o dinheiro, que remédio, e fica a desejar que, de algum modo, eles não o vão gastar mal gasto, quando é evidente que é exactamente isso o que eles vão fazer”.
Quarta-feira, 12 de Maio de 2010
Canal Ecclesia

Escuto vagamente num rádio ao longe o anúncio publicitário de um qualquer produto financeiro protagonizado pelo Jorge a.m. e pelo Jorge p.m.. Penso nisso e concluo que posso ser eu aquele Jorge a.m./p.m., não por ter qualquer interesse no produto bancário em causa, que não tenho, mas porque frequentemente sou um Jorge durante a manhã e outro Jorge à tarde. Esperei, por isso, até ao meio-dia para ver se se atenuava o mau feitio que me acomete de cada vez que dou pela presença em solo português do rei zulu dos católicos, o qual, segundo várias jovens auscultadas pelas infindáveis transmissões televisivas e radiofónicas, “é muito querido” (assim como um ursinho de peluche ou o teletubie lilás). Malgrado alimente uma certa curiosidade mórbida e sociológica pela mecânica do ajuntamento, passei dez minutos em frente à televisão e fiquei farto de Ratzinger, congestionado, empanturrado, enjoado, mas o bom homem está em cinco ou seis canais ao mesmo tempo e, por isso, vi-me forçado a procurar alternativas em canais que, de outro modo, nem sequer veria. Encontrei no MTV Dance a solução ideal. A música é tenebrosa, mas os videoclipes, embora cretinos, são invariavelmente habitados por moças seminuas e bem constituídas, as quais rebolam em praias exóticas, se tacteiam debaixo do chuveiro, se enroscam em varões e se untam com óleo de lubrificação automóvel. O MTV Dance é, assim, o canal oficial da visita do papa na minha humilde e pouco católica habitação. À sua maneira, consegue também ser muito queridinho.
Segunda-feira, 10 de Maio de 2010
Literatura em Viagem
(*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 20 de Abril de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Escutei Guillermo Martinez, o escritor argentino, referir-se ironicamente ao mais pequeno dos seus romances, Acerca de Roderer, como “um suplício breve”. Sendo um apreciador do humor, e sobretudo do humor negro, reparei que ele o disse durante o encontro Literatura em Viagem, que hoje(*) termina em Matosinhos, e num momento em que quase todas as deslocações internacionais se transformaram em suplícios longos e exasperantes por causa da nuvem produzida pelo vulcão de Eyjafjallajokull e do encerramento do espaço aéreo europeu. Imagino, por isso, o tunisino Hubert Haddad, retido em Frankfurt quando vinha a caminho de Matosinhos, não tendo mais nada para ler do que o pequeno romance de Martinez e desejando que esse “suplício breve” fosse um pouco mais longo, o suficiente, ao menos, para entreter as horas de reclusão.
Supondo que Haddad não foi capaz de encontrar alojamento alternativo em Frankfurt, vejo-o mergulhando, com milhares de outros passageiros, nessa espécie de paradoxo kafkiano que consiste em estar num aeroporto sem, na verdade, voar para lado nenhum e sem, por outro lado, poder abandonar a sala de espera por não ter para onde ir. Ao contrário dos companheiros de infortúnio, Haddad sentar-se-ia numa cadeira e leria Acerca de Roderer uma vez, depois outra, esforçando-se por permanecer tranquilo e alheio ao exaspero dos outros passageiros. Estaria tão imóvel como os milhares de viajantes parados nas filas para os balcões de informações, mas deslocado pela literatura para essa povoação de Puente Viejo onde Roderer e o narrador do romance disputam uma partida de xadrez.
Ao fim de algumas horas, Haddad – que não é já o escritor tunisino a caminho de Matosinhos, mas apenas um qualquer inventado viajante imóvel – acabaria por conhecer completamente Puente Viejo e o labiríntico raciocínio de Roderer e, por isso, levantar-se-ia para desentorpecer as pernas. Circularia um pouco e encontraria o estabelecimento que, em todos os aeroportos, se dedica à venda de livros. Entusiasmado com a possibilidade de aproveitar a interrupção da viagem a Matosinhos para se deslocar para outras paragens, Haddad entraria na livraria, a qual, com alguma sorte, não se teria especializado na chamada “literatura de aeroporto” e disponibilizaria alguns títulos que pudessem realmente proporcionar algum tipo de deslocação.
No decurso dos vários dias que passaria no aeroporto, Haddad percorreria a Patagónia de Chatwin, o Quénia de Karen Blixen, a Amazónia de Milton Hatoum, o Moçambique de Mia Couto, a Índia de Alberto Moravia, o Rio de Janeiro de Rubem Fonseca e a Paris de Julio Cortázar. Passaria pela Rússia e pela China, atravessaria o Norte da América e conheceria também a peculiar gente independente descrita pelo islandês Halldór Laxness – e aí estaria já quase no sopé do vulcão de onde escapa a nuvem de cinza que paralisa a Europa e as viagens. Retido em Frankfurt, mas viajando sem sair do sítio, Haddad estaria grato ao vulcão que o levou para tão longe.
Escutei Guillermo Martinez, o escritor argentino, referir-se ironicamente ao mais pequeno dos seus romances, Acerca de Roderer, como “um suplício breve”. Sendo um apreciador do humor, e sobretudo do humor negro, reparei que ele o disse durante o encontro Literatura em Viagem, que hoje(*) termina em Matosinhos, e num momento em que quase todas as deslocações internacionais se transformaram em suplícios longos e exasperantes por causa da nuvem produzida pelo vulcão de Eyjafjallajokull e do encerramento do espaço aéreo europeu. Imagino, por isso, o tunisino Hubert Haddad, retido em Frankfurt quando vinha a caminho de Matosinhos, não tendo mais nada para ler do que o pequeno romance de Martinez e desejando que esse “suplício breve” fosse um pouco mais longo, o suficiente, ao menos, para entreter as horas de reclusão.
Supondo que Haddad não foi capaz de encontrar alojamento alternativo em Frankfurt, vejo-o mergulhando, com milhares de outros passageiros, nessa espécie de paradoxo kafkiano que consiste em estar num aeroporto sem, na verdade, voar para lado nenhum e sem, por outro lado, poder abandonar a sala de espera por não ter para onde ir. Ao contrário dos companheiros de infortúnio, Haddad sentar-se-ia numa cadeira e leria Acerca de Roderer uma vez, depois outra, esforçando-se por permanecer tranquilo e alheio ao exaspero dos outros passageiros. Estaria tão imóvel como os milhares de viajantes parados nas filas para os balcões de informações, mas deslocado pela literatura para essa povoação de Puente Viejo onde Roderer e o narrador do romance disputam uma partida de xadrez.
Ao fim de algumas horas, Haddad – que não é já o escritor tunisino a caminho de Matosinhos, mas apenas um qualquer inventado viajante imóvel – acabaria por conhecer completamente Puente Viejo e o labiríntico raciocínio de Roderer e, por isso, levantar-se-ia para desentorpecer as pernas. Circularia um pouco e encontraria o estabelecimento que, em todos os aeroportos, se dedica à venda de livros. Entusiasmado com a possibilidade de aproveitar a interrupção da viagem a Matosinhos para se deslocar para outras paragens, Haddad entraria na livraria, a qual, com alguma sorte, não se teria especializado na chamada “literatura de aeroporto” e disponibilizaria alguns títulos que pudessem realmente proporcionar algum tipo de deslocação.
No decurso dos vários dias que passaria no aeroporto, Haddad percorreria a Patagónia de Chatwin, o Quénia de Karen Blixen, a Amazónia de Milton Hatoum, o Moçambique de Mia Couto, a Índia de Alberto Moravia, o Rio de Janeiro de Rubem Fonseca e a Paris de Julio Cortázar. Passaria pela Rússia e pela China, atravessaria o Norte da América e conheceria também a peculiar gente independente descrita pelo islandês Halldór Laxness – e aí estaria já quase no sopé do vulcão de onde escapa a nuvem de cinza que paralisa a Europa e as viagens. Retido em Frankfurt, mas viajando sem sair do sítio, Haddad estaria grato ao vulcão que o levou para tão longe.
Domingo, 9 de Maio de 2010
Efemérides
Assinala-se neste dia o décimo sexto aniversário da tomada de posse de Nelson Mandela, primeiro presidente negro da África do Sul, o décimo sétimo aniversário da minha filha e o sétimo ano de bloguismo inconsciente por parte deste vosso criado. Obrigados.
Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
Fuminho branco

Não sei muito bem porquê, mas, se calhar, tem a ver com aquela história de se ser mau juiz em causa própria. O caso é que me irritam certas manifestações de incompetência, preguiça e falta de empenhamento. Considero execrável, por isso, a suposta tentativa de atentado que, na semana passada, ocorreu na Time Square de Nova Iorque. O indivíduo que lá abandonou um jipe artilhado com explosivos e botijas de gás, e que até posou para as câmaras de videovigilância enquanto tirava uma camisola, apenas conseguiu que o veículo gerasse uma fumarada tão suspeita que até um vendedor de t-shirts deu por ela a tempo de avisar as autoridades. Não satisfeito, o alegado terrorista declarou, quando foi preso, que tinha recebido treino (leia-se formação profissional) no Paquistão. Na minha humilde opinião, uma coisa destas aniquila completamente a imagem de um país. Não volto, por isso, a comprar mais nada que tenha sido vagamente produzido ou preparado no Paquistão e, para que não me suceda o mesmo que ao incompetente bombista, terei doravante muito cuidado de cada vez que for acometido pela súbita vontade de usar esta coisa do blogue para exercer e perpetrar algum tipo de humor. Creio, às vezes e muito sinceramente, que aquilo que aqui escrevo se limita a produzir um ténue fuminho branco.
Fazer as contas
O DN explica que o governo conta poupar 40 milhões no subsídio de desemprego. Pode parecer que não é grande coisa, mas, a fazer fé no Público, deve dar para pagar uma parte dos custos da visita do caralho do papa.
Quarta-feira, 5 de Maio de 2010
Ministério do Açúcar

Segundo leio na imprensa estrangeira (que a portuguesa, sem que se perceba bem porquê, tende a funcionar de modo intermitente em algumas matérias), Raul Castro, o ditador cubano, promoveu ontem uma pequena remodelação governamental, demitindo dois ministros. Entre os demitidos contava-se o titular do Ministério do Açúcar. Leio a notícia e, por um instante, enterneço-me. E imagino um mundo no qual todos os países possuem o seu próprio ministro do Açúcar, encarregado de administrar a doçura dos povos, e de assegurar que cada indivíduo tem igual direito à ternura, à poesia, ao amor, aos beijos longos, às tardes de calor, à fruta madura e a todas as demais coisas com sacarina. Fecho os olhos e escuto distintamente Louis Armstrong cantar Wonderfull World com um sorriso imenso. Oh, yeah...
Crónicas do autocarro#28
Constato, com inevitável modéstia, que não possuo talento suficiente para descrever os rostos mais emblemáticos dos utentes do autocarro. Olho para eles, analiso-os, mas possuem traços tão exagerados que, parece-me, qualquer tentativa para descrevê-los se transformaria numa caricatura grotesca. Pior: transformaria em caricaturas grotescas um conjunto de pessoas que, bem vistas as coisas, têm apenas vidas normais, regulares, comuns e anónimas, sem nada de grotesco nelas. Se, por exemplo, uma senhora tem umas bochechas demasiado redondas e pesadas, pendendo-lhe da cara, entristecendo-lhe o rosto ainda marcado por uma boca pequena e por um nariz afilado, nada me autoriza, na verdade, a utilizar expressões como “demasiado” ou “boca pequena”. Talvez, com efeito, a minha boca seja demasiado grande e carnuda, e as minhas bochechas sem graça nenhuma, inexpressivas, sejam um péssimo termo de comparação. Calhando, a mulher que eu descreveria naqueles termos é apenas mimosa e carismática. Não explicarei, por isso, como é o casal que, ao fim da tarde, invariavelmente regressa a casa no autocarro 502. Vão calados e quietos de um modo que me inquieta e diverte, pois olham para as pessoas que entram a saem do autocarro como se as estudassem para, depois, escreverem sobre elas, mas, ao mesmo tempo, têm um ar ausente e vago como o dos loucos. É a mulher que faz as despesas das raras conversas que mantêm e, quando fala, diz coisas bastante estranhas, como “ontem fui ao café e estavam lá uns pretos que estavam só a falar e não se calavam, que nojo que aquilo me estava a meter”. Hei-de, por isso, evitar outras distracções – um livro para ler, um raio de sol incidindo nas fachadas – e ficar mais atento ao que diz aquela mulher. Talvez seja um oráculo; um oráculo louco e racista.
Segunda-feira, 3 de Maio de 2010
Kate e Kiki
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 6 de Abril de 2010. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Depois de ter sido filmada e fotografada, de ter servido de modelo a pelo menos três esculturas de Marc Quinn (uma das quais esteve exposta no British Museum) e de ter sido pintada por Lucian Freud (entre outros), Kate Moss, a manequim, vai agora aparecer num pequeno papel d’A Tempestade de Shakespeare, no londrino teatro Old Vic, onde será dirigida por Sam Mendes. Acontece de vez em quando: uma mulher sem nenhuma beleza especial transforma-se, pela arte, num ícone do seu tempo. A Kate Moss da década de 1920, por exemplo, chamava-se Alice Ernestine Prin e ficou famosa como Kiki de Montparnasse (tão famosa que a alcunha se transformou no nome de uma cadeia internacional de produtos eróticos de luxo).
Kiki começou a posar nua para os artistas parisienses com catorze anos de idade e é considerada pelos seus biógrafos como a primeira mulher realmente livre – tão livre que, com 16 anos, já era viciada em cocaína. Foi amante de Man Ray e, talvez por isso, é ela a mulher fotografada em algumas das suas obras mais famosas, como Violon d’Ingrés e Noir et Blanche. Foi também pintora, cantora, actriz e bailarina, e, em 1929, com 28 anos, já tinha vivido o suficiente para publicar um livro de memórias, o qual contou com uma introdução escrita por Ernest Hemingway (e que foi proibido nos Estados Unidos).
Kiki serviu de modelo a dezenas de pintores, escultores e fotógrafos da fervilhante cena parisiense dos anos 1920 e há-de ser, por isso, um dos rostos mais abundantemente reproduzidos pela arte. Está em obras de, entre muitos outros, Francis Picabia, Jean Cocteau, Arno Breker, Alexander Calder, Pablo Gargallo, Fernand Léger e Brassaï, sendo, por isso, relativamente fácil encontrar uma imagem de Kiki quando se entra num grande museu.
Kiki não era uma mulher bonita. Tinha um nariz carismático (Alexander Calder inspirou-se nele para uma escultura de 1930), olhos escuros, uma boca pequena e as sobrancelhas muito depiladas, transformadas numa linha negra e excessivamente teatral. Usava o cabelo curto, às vezes com um penteado semelhante ao que celebrizou a actriz Beatriz Costa. Em 1920, fotografada por Julian Mandel, a “rainha de Montparnasse” ainda parecia uma ninfeta jovem e elegante, mas, aos 22 anos, as costas de Kiki no Violon d’Ingrés revelam o corpo de uma mulher precocemente madura. No Nu assis, de Kisling, e sobretudo no quadro Kiki Nude, de Per Krohg (1928), a beldade aparece já dotada de uma anca rotunda e flácida, enorme, semelhando uma matriarca impudica.
Se não é difícil imaginar o frémito que percorreria o olhar de pintores e escultores quando tinham Kiki nua diante deles, e que impulso os levava a venerar essa mulher de hábitos demasiado liberais para a época, a sua imagem, gorduchinha e algo macilenta, não poderia estar mais distante dos ideais de beleza actuais, construídos à custa de muitas dietas e de meses passados nos health clubs que surgem a cada esquina. Mas, daqui a noventa anos, é igualmente provável que ninguém perceba a graça que hoje encontramos numa moça tão escanzelada como Kate Moss.

Depois de ter sido filmada e fotografada, de ter servido de modelo a pelo menos três esculturas de Marc Quinn (uma das quais esteve exposta no British Museum) e de ter sido pintada por Lucian Freud (entre outros), Kate Moss, a manequim, vai agora aparecer num pequeno papel d’A Tempestade de Shakespeare, no londrino teatro Old Vic, onde será dirigida por Sam Mendes. Acontece de vez em quando: uma mulher sem nenhuma beleza especial transforma-se, pela arte, num ícone do seu tempo. A Kate Moss da década de 1920, por exemplo, chamava-se Alice Ernestine Prin e ficou famosa como Kiki de Montparnasse (tão famosa que a alcunha se transformou no nome de uma cadeia internacional de produtos eróticos de luxo).
Kiki começou a posar nua para os artistas parisienses com catorze anos de idade e é considerada pelos seus biógrafos como a primeira mulher realmente livre – tão livre que, com 16 anos, já era viciada em cocaína. Foi amante de Man Ray e, talvez por isso, é ela a mulher fotografada em algumas das suas obras mais famosas, como Violon d’Ingrés e Noir et Blanche. Foi também pintora, cantora, actriz e bailarina, e, em 1929, com 28 anos, já tinha vivido o suficiente para publicar um livro de memórias, o qual contou com uma introdução escrita por Ernest Hemingway (e que foi proibido nos Estados Unidos).
Kiki serviu de modelo a dezenas de pintores, escultores e fotógrafos da fervilhante cena parisiense dos anos 1920 e há-de ser, por isso, um dos rostos mais abundantemente reproduzidos pela arte. Está em obras de, entre muitos outros, Francis Picabia, Jean Cocteau, Arno Breker, Alexander Calder, Pablo Gargallo, Fernand Léger e Brassaï, sendo, por isso, relativamente fácil encontrar uma imagem de Kiki quando se entra num grande museu.
Kiki não era uma mulher bonita. Tinha um nariz carismático (Alexander Calder inspirou-se nele para uma escultura de 1930), olhos escuros, uma boca pequena e as sobrancelhas muito depiladas, transformadas numa linha negra e excessivamente teatral. Usava o cabelo curto, às vezes com um penteado semelhante ao que celebrizou a actriz Beatriz Costa. Em 1920, fotografada por Julian Mandel, a “rainha de Montparnasse” ainda parecia uma ninfeta jovem e elegante, mas, aos 22 anos, as costas de Kiki no Violon d’Ingrés revelam o corpo de uma mulher precocemente madura. No Nu assis, de Kisling, e sobretudo no quadro Kiki Nude, de Per Krohg (1928), a beldade aparece já dotada de uma anca rotunda e flácida, enorme, semelhando uma matriarca impudica.
Se não é difícil imaginar o frémito que percorreria o olhar de pintores e escultores quando tinham Kiki nua diante deles, e que impulso os levava a venerar essa mulher de hábitos demasiado liberais para a época, a sua imagem, gorduchinha e algo macilenta, não poderia estar mais distante dos ideais de beleza actuais, construídos à custa de muitas dietas e de meses passados nos health clubs que surgem a cada esquina. Mas, daqui a noventa anos, é igualmente provável que ninguém perceba a graça que hoje encontramos numa moça tão escanzelada como Kate Moss.
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