Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
Crónicas do autocarro#12
Não tenho visto quase ninguém a ler no autocarro, mas ainda não decidi se isto testemunha a falta de cultura e de hábitos de leitura das massas ou, outrossim, a eficácia dos transportes públicos. Eu mesmo, na verdade, me tenho abstido de ler, em parte porque gosto de me fundir na multidão, o que desaconselha uma tão vívida manifestação de bizarria como a prática da leitura entre quem não lê, mas também porque a viagem é tão rápida que quase nunca me permite acabar de ler um capítulo.
Mais perto de Cabo Verde
(crónica da coluna "Crioulizado" desta quinzena para o jornal A Nação, de Cabo Verde)
Estou, desde há dias, um pouco mais perto de Cabo Verde. O jornal em que trabalho mudou de instalações e, agora, passo o tempo entre o sítio onde fica o consulado, na Rua da Boavista, junto à casa da minha amiga Yasmin (uma mindelense que estuda Ciências do Mar no Instituto Abel Salazar), e a pequena rua perto da Praça dos Leões onde se esconde o Novo Ambiente, o restaurante de nha Iva aonde vou quando apertam as saudades e me apetece comer a catchupa guisod com ovo ou beber um grogue de Santo Antão.
Adquiri também, na mesma altura, um minúsculo ipod shuffle, no qual tenho guardadas, entre outras sonoridades de várias partes do mundo, algumas dezenas de músicas de Cabo Verde - de Ildo Lobo, Bau, Tito Paris, Cesária Évora, Orlando Pantera, Mayra Andrade... -, a maior parte das quais me chegaram num CD gravado na cidade da Praia (obrigado, Lágida). É, por isso, frequente que, no percurso a pé entre a Praça da República e a Praça Coronel Pacheco, venha escutando morninhas bem sab e cruzando-me com cabo-verdianos que por aqui andam na sua vida, indo e vindo por essa rua antiga e degradada, de passeios estreitos e prédios desfazendo-se.
Às vezes chove e a ruinosa melancolia deste sítio é ainda maior, mais aguda, mas, não sei porquê, a chuva não chega, nestes momentos, a incomodar-me demasiado. Caminho com o guarda-chuva aberto e os sons de Cabo Verde instalados na cabeça e talvez tenha presente no inconsciente a morna e benfazeja tchuba das ilhas, o quanto é desejado, aí, aquilo que aqui temos com tanta fartura. Não me incomodo, dizia, e chego ao jornal como se nada fosse, tamborilando com os dedos ao ritmo das mornas e dos batukus, dos funanas.
Penso nisto e, na verdade, julgo que devia, isso sim, encontrar, para os livros, algo que me permitisse vir assim pondo as leituras em dia, lendo os romances que se acumulam em pilhas inegociáveis. O caos do quotidiano ainda não me permitiu ler, por exemplo, mais do que uma pequeníssima parte do livro ainda inédito que o Abraão Vicente, nha irmon badiu, me enviou já em Abril do ano passado, pelo que está ainda em espera, também, esse arquivo em pdf que guarda mais um pedaço, creio, da escrita luminosa e depuradíssima do Filinto Elísio, agora no seu Agaton. Peço desculpa a ambos, evidentemente. Um dia chego lá.
Estou, desde há dias, um pouco mais perto de Cabo Verde. O jornal em que trabalho mudou de instalações e, agora, passo o tempo entre o sítio onde fica o consulado, na Rua da Boavista, junto à casa da minha amiga Yasmin (uma mindelense que estuda Ciências do Mar no Instituto Abel Salazar), e a pequena rua perto da Praça dos Leões onde se esconde o Novo Ambiente, o restaurante de nha Iva aonde vou quando apertam as saudades e me apetece comer a catchupa guisod com ovo ou beber um grogue de Santo Antão.
Adquiri também, na mesma altura, um minúsculo ipod shuffle, no qual tenho guardadas, entre outras sonoridades de várias partes do mundo, algumas dezenas de músicas de Cabo Verde - de Ildo Lobo, Bau, Tito Paris, Cesária Évora, Orlando Pantera, Mayra Andrade... -, a maior parte das quais me chegaram num CD gravado na cidade da Praia (obrigado, Lágida). É, por isso, frequente que, no percurso a pé entre a Praça da República e a Praça Coronel Pacheco, venha escutando morninhas bem sab e cruzando-me com cabo-verdianos que por aqui andam na sua vida, indo e vindo por essa rua antiga e degradada, de passeios estreitos e prédios desfazendo-se.
Às vezes chove e a ruinosa melancolia deste sítio é ainda maior, mais aguda, mas, não sei porquê, a chuva não chega, nestes momentos, a incomodar-me demasiado. Caminho com o guarda-chuva aberto e os sons de Cabo Verde instalados na cabeça e talvez tenha presente no inconsciente a morna e benfazeja tchuba das ilhas, o quanto é desejado, aí, aquilo que aqui temos com tanta fartura. Não me incomodo, dizia, e chego ao jornal como se nada fosse, tamborilando com os dedos ao ritmo das mornas e dos batukus, dos funanas.
Penso nisto e, na verdade, julgo que devia, isso sim, encontrar, para os livros, algo que me permitisse vir assim pondo as leituras em dia, lendo os romances que se acumulam em pilhas inegociáveis. O caos do quotidiano ainda não me permitiu ler, por exemplo, mais do que uma pequeníssima parte do livro ainda inédito que o Abraão Vicente, nha irmon badiu, me enviou já em Abril do ano passado, pelo que está ainda em espera, também, esse arquivo em pdf que guarda mais um pedaço, creio, da escrita luminosa e depuradíssima do Filinto Elísio, agora no seu Agaton. Peço desculpa a ambos, evidentemente. Um dia chego lá.
Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
Crónicas do autocarro#11
Uma das mais obnóxias medidas da empresa dos autocarros foi a admirável tentativa de, há alguns anos atrás, inverter a direcção em que se formavam as filas de espera nas paragens. Antes, as pessoas organizavam-se da direita para a esquerda, mas a firma entendeu que era melhor que se procedesse exactamente ao contrário, devendo quem chega encostar-se ao ombro direito de quem já lá está. Dito assim, parece o argumento de um sketch cómico, mas aconteceu de facto, inclusivamente com o refinamento de terem sido pintados pés nos passeios, para que o povo soubesse orientar-se. Os anos passaram e constato agora que não há exactamente filas nas paragens: as pessoas chegam a deixam-se estar sem nenhuma ordem aparente, o que também certifica a urbanidade das gentes, já que ainda não assisti a zaragatas relacionadas com a ordem de entrada dos utentes nos autocarros. A empresa, ainda assim, continua vigilante e evangelizadora: nos painéis electrónicos das viaturas, passa continuamente a mensagem “Como se forma a fila de espera? A fila de espera forma-se de frente para o autocarro”. A coisa produz algum efeito hipnótico, mas duvido que tenha resultados práticos. Afinal, quando um sujeito chega à paragem, não está lá nenhum autocarro para orientar os confusos cidadãos na formação ordenada da obediente fila.
Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
Crónicas do autocarro#10
O tempo é um cão raivoso. Quando era mais novo, corria destemidamente para os autocarros com o à-vontade e o orgulho inconsciente de um atleta olímpico. Esta manhã, tantos anos depois, voltei a correr para apanhar o autocarro e evitar, assim, passar dez ou quinze minutos a enregelar na paragem. E quanta diferença! Solicitados a frio, sem aviso prévio, os músculos acabaram por reagir, mas senti que ameaçavam romper-se a cada passada e que as articulações operavam no limite das suas capacidades, como engrenagens enferrujadas e um pouco decrépitas, bolorentas e cobertas de musgos e salitres. Mas estou bem, obrigado. E consegui chegar a tempo à paragem.
P.S.: antecipando-me a eventuais protestos e reprimendas, introduzi uma pequeníssima alteração no texto supra. Assim, onde se lia "Quando era novo" passou a ler-se "Quando era mais novo". Não é mais verdade, mas talvez seja mais correcto.
P.S.: antecipando-me a eventuais protestos e reprimendas, introduzi uma pequeníssima alteração no texto supra. Assim, onde se lia "Quando era novo" passou a ler-se "Quando era mais novo". Não é mais verdade, mas talvez seja mais correcto.
Crónicas do autocarro#9
Se o convívio com telas de Picasso não é segura para mulheres que frequentam cursos de arte e facilmente se vão abaixo das pernas quando tocadas pelo sublime, também o surf nos autocarros não é aconselhável a cidadãos seniores. Têm, os velhos, certa dificuldade no equilíbrio e, ainda esta manhã, bem vi como um homem que se arrastava um pouco se desequilibrou numa curva e foi cair em cima de outro velho que, sentado, levava a perna direita apoiada numa bengala. Alguns velhos tentaram amparar o tombo do que caía e foram igualmente arrastados pela força da gravidade (ou lá o que é), de forma que aquele canto do autocarro ficou habitado por uma molhada de velhos em poses algo descompostas, enquanto o velho da bengala, visivelmente indignado, berrava interjeições demasiado gentis, como “que raio!” e “caraças!”, o que me obrigou a olhar pela janela para ter a certeza de que ainda estava no Porto e não tinha sido abduzido para os transportes públicos de outra cidade qualquer, de uma realidade paralela ou, pelo menos, de um sítio onde não se profiram interjeições honestas e populares, como “caralho”, “foda-se” e “puta que pariu”.
Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010
Da arte

No Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque, uma mulher que assistia a uma aula de educação artística desequilibrou-se, caiu e, na queda, produziu um rasgão de quinze centímetros numa tela de Pablo Picasso, a qual, curiosamente, representa um acrobata. Isto ocorreu na sexta-feira. No sábado, em Londres, o Victoria and Albert Museum inaugurou uma exposição com uma centena de obras falsificadas, cerca de metade das quais produzidas por Shaun Greenhalgh, um homem sem nenhuma formação artística e que, durante 17 anos, produziu extraordinárias réplicas de obras de vários períodos históricos, tendo chegado a vender ao Museu de Bolton uma cabeça de uma princesa Amarna cuja autenticidade foi garantida pelo British Museum e pela leiloeira Christie’s. Se uma obra de arte não valesse essencialmente pela assinatura e o prestígio do autor, mas pela sua dimensão estética intrínseca, o lamentável incidente de Nova Iorque podia nem chegar a ser notícia. Shaun Greenhalgh, o falsário, podia, em vez de estar preso, estar produzindo uma réplica exacta do quadro de Picasso, tornando o mundo mais seguro e amigável para as mulheres gordas que frequentam cursos de arte e têm alguma dificuldade para se manterem de pé.
Um homem (muito) ébrio
O homem muito ébrio avançou, cambaleante, na direcção da Rua de São Filipe de Nery, que é um pouco empinada e dificilmente abordável por uma pessoa naquela condição. Deu um passo, dois, ameaçou desequilibrar-se, torceu o corpo e depois abriu a bocarra para dizer alguma coisa. Percebi que devia estar atento e, por isso, ouvi distintamente quando o homem muito ébrio anunciou que “o santo pecador foi ao cu à nossa senhora”. Assim mesmo: preclaro, canalha, blasfemo e gráfico. Gosto de homens ébrios.
Antenados
Confesso: sou um desses alienígenas a quem não parece mal abdicar de uma parte do ordenado de modo a que outros, que tiveram menos sorte, possam ter uma casa, algum dinheiro, educação, acesso à saúde. Mas faz-me um pouco de confusão, confesso, quando esses a quem solidariamente subsidio passam a parecer ter mais do que eu: esta manhã, no Bairro do Lagarteiro, onde 75% da população depende do Rendimento Social de Inserção, impressionou-me um pouco a quantidade de antenas parabólicas nas janelas.
Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
O homem, esse animal
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 8 de Dezembro de 2009. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Para que os visitantes se lembrassem de que o homem também é um animal, o jardim zoológico de Varsóvia instalou um casal de humanos numa jaula de macacos. A iniciativa durou apenas alguns dias e destinava-se, segundo a vice-directora do zoo, Ewa Zbornikowska, a motivar uma reflexão em torno do lugar que o Homem ocupa no universo.
De acordo com a descrição de alguns jornais, os hominídeos estavam vestidos com peles, desgrenhados, e passavam o tempo a catar-se, a vigiar o fogo e a observar quem passava. Cheia de pilhéria, Ewa Zbornikowska garantiu ainda que o casal de humanos era bastante calmo e dócil. Não mordiam e ficavam apenas um pouco ansiosos por verem tantos desconhecidos passarem diante das grades.
Deve ter sido um espectáculo engraçado, mas preferia ter podido observar o momento em que o expediente dos patuscos hominídeos chegava ao fim e o casal selvagem saía da jaula para regressar a casa, já penteado e vestido com roupas comuns, eventualmente a bordo de um transporte público apinhado de outros humanos; como preparavam a refeição, que podia ser exclusivamente vegetariana, como a dos macacos, ou incluir um naco daquela carne artificial de porco recentemente inventada por investigadores holandeses, tão sintética como a ração para o gado; como os humanos se sentavam diante da televisão, embasbacados, e, depois, iam deitar-se debaixo de um edredão. Talvez, então, acasalassem monotonamente, envergando um preservativo.
Se dependesse de mim, a verdadeira observação do animal contemporâneo que o homem é principiaria exactamente no instante em que os hominídeos deixavam de ser os selvagens do zoológico e passavam a ser cidadãos comuns. Na jaula de Varsóvia não estaria, pois, um casal voluntário de actores representando uma visão folclórica do passado, mas antes uma pequena comunidade representativa da espécie actual.
Não podiam faltar um banqueiro, um administrador de empresas, uma fêmea demasiado magra e estéril e uma mulher-a-dias, um desempregado, um juiz e um deputado; haveria ainda um laptop, um telemóvel, um automóvel e uma montra – pode, de algum modo, dizer-se que os humanos vivem e trabalham com o intuito único de poderem adquirir os objectos, bens e serviços que estão nas montras, destruindo, neste afã, o seu próprio habitat. Em vez de vigiarem o fogo, os hominídeos vigiar-se-iam uns aos outros, comparando os telemóveis, os automóveis, os sapatos, as carteiras, o diâmetro da cintura, o tom do cabelo e os destinos de férias. Às vezes, quando achassem que não estava ninguém a ver, o animal banqueiro, o animal deputado e o animal administrador traficariam pequenos favores e procederiam ao despedimento colectivo de algumas centenas de humanos-obreiros, aos quais lançariam, condescendentes, alguns trocos, correndo depois a gastar o que pouparam em ordenados num apartamento de sete assoalhadas com vista para o mar.
Mas, calhando, basta continuar a ver o Homem nos telejornais.

Para que os visitantes se lembrassem de que o homem também é um animal, o jardim zoológico de Varsóvia instalou um casal de humanos numa jaula de macacos. A iniciativa durou apenas alguns dias e destinava-se, segundo a vice-directora do zoo, Ewa Zbornikowska, a motivar uma reflexão em torno do lugar que o Homem ocupa no universo.
De acordo com a descrição de alguns jornais, os hominídeos estavam vestidos com peles, desgrenhados, e passavam o tempo a catar-se, a vigiar o fogo e a observar quem passava. Cheia de pilhéria, Ewa Zbornikowska garantiu ainda que o casal de humanos era bastante calmo e dócil. Não mordiam e ficavam apenas um pouco ansiosos por verem tantos desconhecidos passarem diante das grades.
Deve ter sido um espectáculo engraçado, mas preferia ter podido observar o momento em que o expediente dos patuscos hominídeos chegava ao fim e o casal selvagem saía da jaula para regressar a casa, já penteado e vestido com roupas comuns, eventualmente a bordo de um transporte público apinhado de outros humanos; como preparavam a refeição, que podia ser exclusivamente vegetariana, como a dos macacos, ou incluir um naco daquela carne artificial de porco recentemente inventada por investigadores holandeses, tão sintética como a ração para o gado; como os humanos se sentavam diante da televisão, embasbacados, e, depois, iam deitar-se debaixo de um edredão. Talvez, então, acasalassem monotonamente, envergando um preservativo.
Se dependesse de mim, a verdadeira observação do animal contemporâneo que o homem é principiaria exactamente no instante em que os hominídeos deixavam de ser os selvagens do zoológico e passavam a ser cidadãos comuns. Na jaula de Varsóvia não estaria, pois, um casal voluntário de actores representando uma visão folclórica do passado, mas antes uma pequena comunidade representativa da espécie actual.
Não podiam faltar um banqueiro, um administrador de empresas, uma fêmea demasiado magra e estéril e uma mulher-a-dias, um desempregado, um juiz e um deputado; haveria ainda um laptop, um telemóvel, um automóvel e uma montra – pode, de algum modo, dizer-se que os humanos vivem e trabalham com o intuito único de poderem adquirir os objectos, bens e serviços que estão nas montras, destruindo, neste afã, o seu próprio habitat. Em vez de vigiarem o fogo, os hominídeos vigiar-se-iam uns aos outros, comparando os telemóveis, os automóveis, os sapatos, as carteiras, o diâmetro da cintura, o tom do cabelo e os destinos de férias. Às vezes, quando achassem que não estava ninguém a ver, o animal banqueiro, o animal deputado e o animal administrador traficariam pequenos favores e procederiam ao despedimento colectivo de algumas centenas de humanos-obreiros, aos quais lançariam, condescendentes, alguns trocos, correndo depois a gastar o que pouparam em ordenados num apartamento de sete assoalhadas com vista para o mar.
Mas, calhando, basta continuar a ver o Homem nos telejornais.
Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010
Andrés e Francine

Andrés, a personagem de O Livro de Manuel, de Julio Cortázar, leva Francine para os sítios mais sórdidos de Paris. Juntos atravessam espectáculos decadentes de striptease e ruas onde há bêbados vomitando, num vórtice de aviltamento que não se percebe se é simples necessidade de humilhação de Francine, agora que Andrés pode transitar entre a livreira francesa e Ludmila, a polaquinha, ou se Andrés pretende, de facto, mostrar que aquelas pessoas que habitam o avesso da cidade podiam também ser eles, Andrés e Francine. Calhando, nem interessa nada e podem ser ambas as coisas. Ou nenhuma. O lado obscuro das cidades, do mundo, não é, em todo o caso, sítio no qual se deva mergulhar com Francine pela mão, a menos que, para além de Francine, haja já, também, Ludmila. E Paris tenha deixado de ser uma festa.
Crónicas do autocarro#8
Contra o que é meu costume, privei-me esta manhã daquela espécie de surf que praticam os utentes dos transportes públicos e ocupei um lugar sentado. Numa viagem que não chega a durar quinze minutos, sentaram-se três pessoas diferentes ao meu lado: um velho que podia ter ocupado outros lugares livres e duas mulheres. Fiquei a pensar no assunto e julguei ver nele uma metáfora qualquer sobre parceiros de alta rotatividade: eu, no autocarro, como uma prostituta muito frequentada ou como uma cama de motel barato.
Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
Acordo ortográfico (ou lá o que é)
Advertência:
A vasta comunidade de leitores do Teatro Anatómico sediada no Brasil deve ler "Crónicas do ônibus" onde estiver escrito "Crónicas do autocarro".
Obrigado
A vasta comunidade de leitores do Teatro Anatómico sediada no Brasil deve ler "Crónicas do ônibus" onde estiver escrito "Crónicas do autocarro".
Obrigado
Crónicas do autocarro#7
A placa central da Avenida da Boavista, junto ao Hospital Militar, tem plantada uma fila de laranjeiras e eu não sabia. Reparei esta manhã e constatei que as laranjeiras têm já frutos laranjeando entre o verde-escuro dos ramos – frutos escuros e enverdecidos por uma película musgosa, exactamente como nas laranjas da quelha da minha bisavó, em Avitoure (de Baixo), que eram amargas e honestas como devem ser as laranjas. Olhei as árvores e os frutos com vagar, enquanto o autocarro fazia a curva junto ao semáforo, e ninguém me podia multar, desta vez, por estar distraído e ter desrespeitado a passadeira para peões.
Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
Tarrafal
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 25 de Agosto de 2009. Amanhã, como todas as terças-feiras, há mais)

Quando recordo os minutos que passei na antiga colónia penal do Tarrafal de Santiago, em Cabo Verde, a memória mais viva que tenho é a do imenso silêncio que havia lá dentro – como se os muros altos da cadeia ainda a mantivessem isolada do mundo e dos seus ruídos. Rente ao chão de terra seca soprava um vento daninho e mudo que erguia o pó e o levava a contornar os pavilhões amarelados para se perder para lá do horizonte de arame farpado e das palavras de ordem sumindo-se das paredes. Felizmente não acredito em fantasmas ou em almas penadas, só naquilo que sou capaz de ver: vi claramente Gilson benzendo-se quando atravessámos o limiar do torreão central e entrámos no “campo da morte lenta”.
À porta da colónia penal, esperando os turistas, havia crianças muito bonitas e muito pobres, maltrapilhas e sujas. Aparentavam ser capazes de se fundirem na poeira ou na sombra da acácia sob a qual estacionam os autocarros dos visitantes. Geravam uma algazarra lenta e cansada e aceitavam qualquer coisa que se levasse, incluindo uma garrafa de água meio vazia. Ali, do lado de fora dos muros da prisão, ainda se escutavam as suas vozes pedindo isto e aquilo, o tumulto para se verem fotografadas nos monitores das máquinas digitais
(há um rosto do qual não me esqueço: uma menina crioula com uma mão na boca e outra apoiada na ilharga, com pequenas tranças distribuídas pela cabeça e uns olhos amarelos nos quais pareciam concentradas toda a beleza e toda a tristeza do mundo)
mas, uma vez lá dentro, havia apenas aquele silêncio denso que amortecia mesmo o ruídos dos passos e o eco das palavras de Gilson. O nome do tio do nosso guia não consta na lista dos trinta e dois mortos oficiais do campo de concentração do Tarrafal, mas ele benze-se e conta que cresceu escutando a história desse parente que ali entrou e desapareceu sem deixar rasto, desprovido mesmo da sinistra certidão de óbito de Tralheira, o médico que não tratava doentes e apenas atestava a sua morte.
Gilson segue cabisbaixo pelo arruamento central do campo, em direcção ao antigo posto médico, pintado de fresco, passa sob o arco imperfeito das velhas acácias rubras e leva-nos aos pavilhões desertos e escuros, aos recantos onde os presos rabiscaram desenhos toscos. E benze-se sempre, uma e outra vez, conjurando qualquer memória incómoda, algum espectro que pudesse esperar-nos na dobra dos edifícios ou atrás de cada porta. Falamos em voz baixa e não sabemos bem porquê, se por respeito ou para não perturbar o silêncio, aquele silêncio que nem o cão vadio que por ali vagueia se atreve a macular.
Esta memória, porém, está desde há dias preenchida pelo ritmo animado da canção Dodu (Doido), do cabo-verdiano Mário Lúcio de Sousa, cujo teledisco está cheio de belas imagens captadas no Tarrafal, nas celas, nos corredores e no deserto áspero que há em volta. Escuto os acordes da guitarra portuguesa de Dodu, misturados com a perversa recordação do passado colonial da pátria, e creio que sim, que estavam doidos os que acreditaram que bastava um muro de silêncio para impedir que a razão se fizesse clara.
Quando recordo os minutos que passei na antiga colónia penal do Tarrafal de Santiago, em Cabo Verde, a memória mais viva que tenho é a do imenso silêncio que havia lá dentro – como se os muros altos da cadeia ainda a mantivessem isolada do mundo e dos seus ruídos. Rente ao chão de terra seca soprava um vento daninho e mudo que erguia o pó e o levava a contornar os pavilhões amarelados para se perder para lá do horizonte de arame farpado e das palavras de ordem sumindo-se das paredes. Felizmente não acredito em fantasmas ou em almas penadas, só naquilo que sou capaz de ver: vi claramente Gilson benzendo-se quando atravessámos o limiar do torreão central e entrámos no “campo da morte lenta”.
À porta da colónia penal, esperando os turistas, havia crianças muito bonitas e muito pobres, maltrapilhas e sujas. Aparentavam ser capazes de se fundirem na poeira ou na sombra da acácia sob a qual estacionam os autocarros dos visitantes. Geravam uma algazarra lenta e cansada e aceitavam qualquer coisa que se levasse, incluindo uma garrafa de água meio vazia. Ali, do lado de fora dos muros da prisão, ainda se escutavam as suas vozes pedindo isto e aquilo, o tumulto para se verem fotografadas nos monitores das máquinas digitais
(há um rosto do qual não me esqueço: uma menina crioula com uma mão na boca e outra apoiada na ilharga, com pequenas tranças distribuídas pela cabeça e uns olhos amarelos nos quais pareciam concentradas toda a beleza e toda a tristeza do mundo)
mas, uma vez lá dentro, havia apenas aquele silêncio denso que amortecia mesmo o ruídos dos passos e o eco das palavras de Gilson. O nome do tio do nosso guia não consta na lista dos trinta e dois mortos oficiais do campo de concentração do Tarrafal, mas ele benze-se e conta que cresceu escutando a história desse parente que ali entrou e desapareceu sem deixar rasto, desprovido mesmo da sinistra certidão de óbito de Tralheira, o médico que não tratava doentes e apenas atestava a sua morte.
Gilson segue cabisbaixo pelo arruamento central do campo, em direcção ao antigo posto médico, pintado de fresco, passa sob o arco imperfeito das velhas acácias rubras e leva-nos aos pavilhões desertos e escuros, aos recantos onde os presos rabiscaram desenhos toscos. E benze-se sempre, uma e outra vez, conjurando qualquer memória incómoda, algum espectro que pudesse esperar-nos na dobra dos edifícios ou atrás de cada porta. Falamos em voz baixa e não sabemos bem porquê, se por respeito ou para não perturbar o silêncio, aquele silêncio que nem o cão vadio que por ali vagueia se atreve a macular.
Esta memória, porém, está desde há dias preenchida pelo ritmo animado da canção Dodu (Doido), do cabo-verdiano Mário Lúcio de Sousa, cujo teledisco está cheio de belas imagens captadas no Tarrafal, nas celas, nos corredores e no deserto áspero que há em volta. Escuto os acordes da guitarra portuguesa de Dodu, misturados com a perversa recordação do passado colonial da pátria, e creio que sim, que estavam doidos os que acreditaram que bastava um muro de silêncio para impedir que a razão se fizesse clara.
Sábado, 16 de Janeiro de 2010
Torrejón de Ardoz

Não conheço Torrejón de Ardoz. Não quero conhecer. É evidente que Torrejón de Ardoz cheira mal da boca, é obeso mórbido, tresanda dos pés e não toma banho. Eles podem, sim, não gostar de estrangeiros e gabar-se de terem conseguido reduzir o número de imigrantes na cidade. Mas nós podemos dizer que Torrejón de Ardoz é um sítio pútrido, doente, bafiento, impulcro. Passarei a usar o nome de Torrejón de Ardoz como a um insulto, uma palavra podre. Desejarei aos meus piores inimigos que se acabem em Torrejón de Ardoz, mandarei as pessoas a Torrejón de Ardoz em vez de mandá-las à merda. Não sei como é a merda, ou o inferno, mas Torrejón de Ardoz é muito pior.
Instruções para caçar o mirmecoleão (cont.)
Eu vi o mirmecoleão com estes dois olhos que aqui estão. Posso, por isso, asseverar que tudo o que se diz sobre esta espécie é uma mistificação patética, um novelo de mentiras, um enredo bruto. Tenho uma cabeça de mirmecoleão na parede da sala, por cima da lareira, e sei perfeitamente que se trata de um animal felpudo e extremamente dócil, inclusivamente domesticável, se lhe dedicarmos a atenção necessária.
O mirmecoleão cuja cabeça mandei empalhar para colocar sobre a chaminé foi, aliás, o meu animal de estimação durante duas ou três semanas. No início, revelou-se uma companhia muito vivaz e divertida, capaz de passar horas a dar cabriolas para chamar a minha atenção e a inventar jogos e folias para me entreter. Depois, ao fim de alguns dias, menos de uma semana, pôs-se muito melancólico, deixou de comer e acabou por morrer, creio que de tristeza, o que me levou a concluir que, embora seja um animal domesticável, o mirmecoleão não deve ser domesticado.
Doía vê-lo deitado junto à janela como um gato ocioso, mas suspirando profunda e dolorosamente. Tentei que fugisse, abrindo-lhe as portas e as janelas, mas ele não foi embora e ficou comigo até ao fim, lambendo as patinhas brancas e suspirando muito, mas vindo aninhar-se regularmente no meu colo como se, efectivamente, me tivesse ganho uma estima enorme. Este apego, creio, constitui um atavismo da espécie quando domesticada e constitui, na verdade, o principal argumento contra a sua transformação em animal de companhia. O mirmecoleão é absolutamente amoroso mesmo quando sofre de modo atroz.
(cont)
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O mirmecoleão cuja cabeça mandei empalhar para colocar sobre a chaminé foi, aliás, o meu animal de estimação durante duas ou três semanas. No início, revelou-se uma companhia muito vivaz e divertida, capaz de passar horas a dar cabriolas para chamar a minha atenção e a inventar jogos e folias para me entreter. Depois, ao fim de alguns dias, menos de uma semana, pôs-se muito melancólico, deixou de comer e acabou por morrer, creio que de tristeza, o que me levou a concluir que, embora seja um animal domesticável, o mirmecoleão não deve ser domesticado.
Doía vê-lo deitado junto à janela como um gato ocioso, mas suspirando profunda e dolorosamente. Tentei que fugisse, abrindo-lhe as portas e as janelas, mas ele não foi embora e ficou comigo até ao fim, lambendo as patinhas brancas e suspirando muito, mas vindo aninhar-se regularmente no meu colo como se, efectivamente, me tivesse ganho uma estima enorme. Este apego, creio, constitui um atavismo da espécie quando domesticada e constitui, na verdade, o principal argumento contra a sua transformação em animal de companhia. O mirmecoleão é absolutamente amoroso mesmo quando sofre de modo atroz.
(cont)
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Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
Crónicas do autocarro#6
Ignoro de que modo as coisas se organizam para que terminem manifestando-se desta forma tão peculiar, mas o shuffle do meu ipod arranja sempre maneira de instalar uma morna dentro da minha cabeça quando chego à Praça da República. Hoje foi uma modinha instrumental do Bau, creio, com uma rabeca incrível, mas, antes disso, vinha a Cesária Évora cantando (tinha acabado de sair uma mulher com um lenço da cabeça que podia perfeitamente ser uma parente da Cesária Évora). Traduzo a bem-disposta cançoneta para que seja mais fácil entender: “Lá na ilha da Madeira/assisti a um pé-de-boi/dois amigos engalfinhados/por causa de uma couve inteira”. Como bem sabemos, é perfeitamente possível que isto tenha ocorrido na ilha da Madeira. Isto e, na verdade, até coisas muito mais bizarras.
Crioulizado: uma explicação
Iniciei ontem uma colaboração quinzenal com o jornal A Nação, de Cabo Verde. A crónica da coluna "Crioulizado" será também publicada aqui no Teatro Anatómico

A primeira frase que aprendi a dizer na língua das ilhas foi “-n cre cumê”. Era um dia de Julho de 2005 e eu tinha acabado de chegar à vila do Tarrafal de Santiago. A barriga reclamava alimento depois da travessia da ilha, com paragem em S. Domingos, na Assomada e na antiga prisão, e a conversa entre o guia e o empregado do restaurante cativou-me a atenção ao ponto de ter sido capaz de reconhecer as palavras que me permitiram formar uma frase completa. “-N cre cumê”, respondi quando me perguntaram o que pretendia almoçar. E depois veio a catchupa, a sopa loron e as outras palavras todas que fui aprendendo.
-M cre cumê talvez seja a mais essencial das frases, quanto mais não seja pela faculdade de atravessar a fronteira entre a fome e a saciedade. Mas, vendo bem, um esfomeado pode sempre fazer rodar a mão diante do estômago para dizer sem palavras essa urgência de alimento. A mais útil de todas as frases que aprendi é, na verdade, aquela que quebra o gelo sempre que encontro um cabo-verdiano na minha cidade: Manera! Tud dret? Aprendi-a na ilha do Sal, no interior do antigo vulcão, e utilizo-a amiúde, sempre que posso, cimentando o processo de criolização em que me tenho empenhado.
Contactei com o conceito traduzido pela expressão “crioulizado” graças à jornalista Matilde Dias, num e-mail que ela me escreveu pouco depois de ter começado a amar as ilhas e a descobri-las. Nunca mais esqueci a palavra. Uso-a agora para dar nome a esta coluna, à qual acedo como mais um passo neste processo pessoal de conquista. Se correr bem, espero um dia poder namorar à janela de Cabo Verde, obter, mais tarde, autorização para entrar em casa e pegar-lhe na mão. Talvez cheguemos a juntar os trapinhos.
Às vezes, quando encontro pelo Porto gente das ilhas, pisco-lhes o olho com esse “manera, tud dret?” e, depois, notando a desorientação deles, pergunto-lhes “bo e de Cabo Verde, não?”. Ainda confusos, confirmam e, às vezes, perguntam-me “bo també?”. Tenho vontade de responder que sim. Mas sei que é mentira. Sou, para já, apenas crioulizado.

A primeira frase que aprendi a dizer na língua das ilhas foi “-n cre cumê”. Era um dia de Julho de 2005 e eu tinha acabado de chegar à vila do Tarrafal de Santiago. A barriga reclamava alimento depois da travessia da ilha, com paragem em S. Domingos, na Assomada e na antiga prisão, e a conversa entre o guia e o empregado do restaurante cativou-me a atenção ao ponto de ter sido capaz de reconhecer as palavras que me permitiram formar uma frase completa. “-N cre cumê”, respondi quando me perguntaram o que pretendia almoçar. E depois veio a catchupa, a sopa loron e as outras palavras todas que fui aprendendo.
-M cre cumê talvez seja a mais essencial das frases, quanto mais não seja pela faculdade de atravessar a fronteira entre a fome e a saciedade. Mas, vendo bem, um esfomeado pode sempre fazer rodar a mão diante do estômago para dizer sem palavras essa urgência de alimento. A mais útil de todas as frases que aprendi é, na verdade, aquela que quebra o gelo sempre que encontro um cabo-verdiano na minha cidade: Manera! Tud dret? Aprendi-a na ilha do Sal, no interior do antigo vulcão, e utilizo-a amiúde, sempre que posso, cimentando o processo de criolização em que me tenho empenhado.
Contactei com o conceito traduzido pela expressão “crioulizado” graças à jornalista Matilde Dias, num e-mail que ela me escreveu pouco depois de ter começado a amar as ilhas e a descobri-las. Nunca mais esqueci a palavra. Uso-a agora para dar nome a esta coluna, à qual acedo como mais um passo neste processo pessoal de conquista. Se correr bem, espero um dia poder namorar à janela de Cabo Verde, obter, mais tarde, autorização para entrar em casa e pegar-lhe na mão. Talvez cheguemos a juntar os trapinhos.
Às vezes, quando encontro pelo Porto gente das ilhas, pisco-lhes o olho com esse “manera, tud dret?” e, depois, notando a desorientação deles, pergunto-lhes “bo e de Cabo Verde, não?”. Ainda confusos, confirmam e, às vezes, perguntam-me “bo també?”. Tenho vontade de responder que sim. Mas sei que é mentira. Sou, para já, apenas crioulizado.
Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010
Instruções para caçar o mirmecoleão
O caçador do mirmecoleão deve, antes de qualquer outro preparativo, munir-se de fé e acreditar firmemente na existência do mirmecoleão.
Trata-se, na verdade, de um animal assaz esquivo e um pouco sátiro, que aprecia defraudar os seus caçadores. Semeia o terreno de falsas pistas e, depois, oculta-se entre a vegetação para apreciar o ar apatetado dos perseguidores confusos. A lenda garante que o mirmecoleão sorri com amplas gargalhadas e se diverte alarvemente com o desconcerto daqueles que o procuram em vão, mas ninguém foi, até à presente data, capaz de fotografar o riso do mirmecoleão ou, sequer, o mirmecoleão com o ar circunspecto do costume, o qual se assevera ser semelhante ao de um advogado inglês quando tem posta a cabeleira branca (certos investigadores defendem mesmo que o mirmecoleão é muito parecido com o actor John Cleese em várias das suas personagens, incluindo o advogado de Um Peixe Chamado Wanda).

Muitos afirmam, por outro lado, ter avistado o mirmecoleão e até pequenos bandos de mirmecoleões vagueando pelos campos inférteis do interior do país, mas as descrições feitas são totalmente desencontradas e não coincidem em quase nada. Há quem diga que tem quatro patas, quem afirme que são seis e mesmo quem afiance que caminha em pé, meneando excessivamente o pescoço como as garças africanas. Há quem afirme que é uma ave. Há quem garanta que é uma espécie de cruzamento de lagarto com certos mamíferos roedores de ar muito vivo. Há quem afiance que se trata de um anfíbio muito húmido que comunica através de secreções líquidas. Mas ninguém se entende quanto às particularidades distintivas do mirmecoleão.
[continua]
Trata-se, na verdade, de um animal assaz esquivo e um pouco sátiro, que aprecia defraudar os seus caçadores. Semeia o terreno de falsas pistas e, depois, oculta-se entre a vegetação para apreciar o ar apatetado dos perseguidores confusos. A lenda garante que o mirmecoleão sorri com amplas gargalhadas e se diverte alarvemente com o desconcerto daqueles que o procuram em vão, mas ninguém foi, até à presente data, capaz de fotografar o riso do mirmecoleão ou, sequer, o mirmecoleão com o ar circunspecto do costume, o qual se assevera ser semelhante ao de um advogado inglês quando tem posta a cabeleira branca (certos investigadores defendem mesmo que o mirmecoleão é muito parecido com o actor John Cleese em várias das suas personagens, incluindo o advogado de Um Peixe Chamado Wanda).

Muitos afirmam, por outro lado, ter avistado o mirmecoleão e até pequenos bandos de mirmecoleões vagueando pelos campos inférteis do interior do país, mas as descrições feitas são totalmente desencontradas e não coincidem em quase nada. Há quem diga que tem quatro patas, quem afirme que são seis e mesmo quem afiance que caminha em pé, meneando excessivamente o pescoço como as garças africanas. Há quem afirme que é uma ave. Há quem garanta que é uma espécie de cruzamento de lagarto com certos mamíferos roedores de ar muito vivo. Há quem afiance que se trata de um anfíbio muito húmido que comunica através de secreções líquidas. Mas ninguém se entende quanto às particularidades distintivas do mirmecoleão.
[continua]
Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
Crónicas do autocarro#5
Saio do autocarro e continua a chover. Se não fosse por causa de umas coisas que eu cá sei, odiaria violentamente o Inverno. Dentro da minha cabeça, Ildo Lobo canta em crioulo, uma vez e outra, o verso que evoca a vila de Porto Inglês. Chove no Porto, Ildo canta e, subitamente, tudo faz sentido. Porto inglês, claro. Porto inglês.
Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010
Sociedade Protectora do Menino Jesus
Há alguma coisa de profundamente sádico em certas práticas do catolicismo. Depois de terem sido deixados várias noite ao frio, quase completamente nus, os enternecedores meninos Jesus das janelas estavam esta manhã abandonados à chuva, encharcados e tristes. Creio que acabarão por apanhar uma pneumonia ou assim.
O dia da minha morte
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 1 de Dezembro de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há mais)

Graças a essa espantosa invenção que é o correio electrónico, já fui contemplado esta manhã, e ainda são onze horas, com dois prémios de não sei quê, um depósito num banco brasileiro no qual não tenho conta, uma herança italiana e a promessa de ficar a saber o dia em que vou morrer. Por incrível que pareça, ignorei as eventuais vantagens materiais das outras mensagens e fixei-me na possibilidade, várias vezes reiterada nos últimos tempos, de poder aceder ao conhecimento do dia em que, enfim, exalarei o derradeiro suspiro, eventualmente velho e doente ou já daqui a dez minutos, jovem e bonito ainda.
(ficam avisados: se este texto for interrompido de modo abrupto, é provável que eu tenha sido fulminado por uma coisa qualquer)
Também me interessaram bastante as mensagens que há dias me foram enviadas de locais distantes e exóticos – de uma moça russa muito necessitada de ajuda e do governador do Banco Central da Nigéria, esta relacionada com uma fraude demasiado complexa para poder mobilizar a atenção de um pelintra ao qual a repetição da palavra “fundos” consegue apenas aborrecer ou irritar –, mas o anúncio da minha morte obrigou-me a meditar num assunto que não costuma ocupar-me especialmente, sobretudo porque meditar é um actividade que pratico poucas vezes.
A despeito das teorias segundo as quais a principal distinção entre o homem e os outros animais reside no facto de só nós termos consciência de que vamos morrer – tratando, por isso, de assegurar algum tipo de imortalidade, seja pintando a Capela Sistina ou escrevendo, como Quim Barreiros, a letra d’A Cabritinha – a morte e a sobrevida não me incomodam quase nada. Há dias, aliás, recebi outro útil e-mail, o qual me permitia ir seleccionando o destino a dar às minhas futuras cinzas. Entre ser transformado num diamante ou outras possibilidades igualmente perenes, pareceu-me especialmente adequada a opção que prevê a utilização dos meus restos mortais numa caixa de lápis. Lido, pois, com o juízo final de modo bastante prático e ameno e, na verdade, a expressão “é assustadoramente exacto”, inscrita no anúncio do dia em que morrerei, não me assusta absolutamente nada.
Se não fosse por ter a certeza de que a dita mensagem há-de ser uma forma de me embrenhar numa trapalhada qualquer, teria mesmo acedido à aplicação informática que, “através da leitura da mão”, me anunciaria a data exacta da minha morte, permitindo-me, portanto, planear convenientemente os dias que me faltam viver. Dependendo do resultado, poderia, por exemplo, meter folga até ao final da semana, aproveitar os saldos de Janeiro para comprar roupa quente para o Inverno de 2011 ou tratar de deixar escritas crónicas em número suficiente para ocupar este espaço durante a minha prolongada ausência. Caso esteja para morrer no próximo mês, lamento apenas a possibilidade de ir desta para melhor (ou para pior; ou para coisa nenhuma) sem conhecer um cálculo exacto do valor do défice em 2009. Calhando, ainda nenhum governante se lembrou de mandar ler a palma da mão pela internet.

Graças a essa espantosa invenção que é o correio electrónico, já fui contemplado esta manhã, e ainda são onze horas, com dois prémios de não sei quê, um depósito num banco brasileiro no qual não tenho conta, uma herança italiana e a promessa de ficar a saber o dia em que vou morrer. Por incrível que pareça, ignorei as eventuais vantagens materiais das outras mensagens e fixei-me na possibilidade, várias vezes reiterada nos últimos tempos, de poder aceder ao conhecimento do dia em que, enfim, exalarei o derradeiro suspiro, eventualmente velho e doente ou já daqui a dez minutos, jovem e bonito ainda.
(ficam avisados: se este texto for interrompido de modo abrupto, é provável que eu tenha sido fulminado por uma coisa qualquer)
Também me interessaram bastante as mensagens que há dias me foram enviadas de locais distantes e exóticos – de uma moça russa muito necessitada de ajuda e do governador do Banco Central da Nigéria, esta relacionada com uma fraude demasiado complexa para poder mobilizar a atenção de um pelintra ao qual a repetição da palavra “fundos” consegue apenas aborrecer ou irritar –, mas o anúncio da minha morte obrigou-me a meditar num assunto que não costuma ocupar-me especialmente, sobretudo porque meditar é um actividade que pratico poucas vezes.
A despeito das teorias segundo as quais a principal distinção entre o homem e os outros animais reside no facto de só nós termos consciência de que vamos morrer – tratando, por isso, de assegurar algum tipo de imortalidade, seja pintando a Capela Sistina ou escrevendo, como Quim Barreiros, a letra d’A Cabritinha – a morte e a sobrevida não me incomodam quase nada. Há dias, aliás, recebi outro útil e-mail, o qual me permitia ir seleccionando o destino a dar às minhas futuras cinzas. Entre ser transformado num diamante ou outras possibilidades igualmente perenes, pareceu-me especialmente adequada a opção que prevê a utilização dos meus restos mortais numa caixa de lápis. Lido, pois, com o juízo final de modo bastante prático e ameno e, na verdade, a expressão “é assustadoramente exacto”, inscrita no anúncio do dia em que morrerei, não me assusta absolutamente nada.
Se não fosse por ter a certeza de que a dita mensagem há-de ser uma forma de me embrenhar numa trapalhada qualquer, teria mesmo acedido à aplicação informática que, “através da leitura da mão”, me anunciaria a data exacta da minha morte, permitindo-me, portanto, planear convenientemente os dias que me faltam viver. Dependendo do resultado, poderia, por exemplo, meter folga até ao final da semana, aproveitar os saldos de Janeiro para comprar roupa quente para o Inverno de 2011 ou tratar de deixar escritas crónicas em número suficiente para ocupar este espaço durante a minha prolongada ausência. Caso esteja para morrer no próximo mês, lamento apenas a possibilidade de ir desta para melhor (ou para pior; ou para coisa nenhuma) sem conhecer um cálculo exacto do valor do défice em 2009. Calhando, ainda nenhum governante se lembrou de mandar ler a palma da mão pela internet.
Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010
Yxaiio feromonas
Um grupo numeroso de pessoas sérias e graves da minha cidade insurgiu-se, provavelmente com as melhores intenções, contra o fim de uma corrida de aviões patrocinada por uma bebida produzida por uma empresa austríaca. Não quero ser má língua nem fazer insinuações torpes, mas talvez fosse mais útil e produtivo investigar os efeitos desta outra bebida austríaca, aquilatar das suas fesceninas propriedades e tratar da sua comercialização com carácter de urgência na cidade, a preços sociais. Creio que o Porto poderia ser uma cidade mais feliz ou, vá lá, uma cidade habitada por gente com enormes e saciados sorrisos.
(para aqueles que tenham renunciado definitivamente aos desportos colectivos ou às bebidas austríacas, parece que a Bolívia está também a preparar um refrigerante com algum interesse social)
(para aqueles que tenham renunciado definitivamente aos desportos colectivos ou às bebidas austríacas, parece que a Bolívia está também a preparar um refrigerante com algum interesse social)
Crónicas do autocarro#4
Viajar nos transportes escutando a música guardada no ipod é um pouco como viver privado de um dos sentidos. Experimentei esta manhã, mas senti falta dos ruídos do autocarro, transformados num murmúrio ligeiro vindo do lado de lá da bolha transparente em que eu seguia - como se uma parte da vida me tivesse sido subtraída. Agora que penso nisso, foi um pouco como se estivesse amblíope dos ouvidos.
Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
Crónicas do autocarro#3
No painel electrónico dos autocarros, os passageiros são aconselhados a evitarem cumprimentar-se com abraços, beijos e apertos de mão. O aviso parece excessivo. Os utentes dos transportes públicos são anónimos e solitários, viajam como encapsulados e apenas conversam quando tocam os telemóveis. Ontem, uma cega, lá à frente, perguntou qualquer coisa sobre a próxima paragem, voltando para trás o olhar estrábico e divagante. Ninguém lhe respondeu. Creio que devia tê-la abraçado.
Inseminação
Qualquer criança com a quarta classe já sabe que a língua pode ser muito traiçoeira e, um pouco depois, aprende que o jornalismo, às vezes, está igualmente carregado de armadilhas e alçapões. O diário I, por exemplo, foi na onda do casamento contra pessoas do mesmo sexo e descobriu que a lei apresentada pelo PS no Parlamento está “cheia de buracos” e, por isso, os casais de lésbicas “podem recorrer à inseminação”. Ora esta é precisamente uma das mais subtis vantagens da posse de buracos: é fácil emprenhar por eles. As lésbicas, as heterossexuais e todos os indivíduos dotados de buracos podem, na verdade, ser inseminados. Já podiam antes e continuam a poder agora (uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como dizia o outro). Até eu, se me apetecer, posso ser inseminado. Só que suspeito de que não gosto (disto e que se metam na minha vida) e de que inseminar-me seria uma actividade muito pouco profícua. Mas posso.
O mal e a sua (tão humana) natureza
Ardem sinagogas na Grécia e há imãs integristas expulsos de França. Em Itália, espancam-se negros. Na Bósnia, os judeus e os negros estão constitucionalmente proibidos de exercer os mais altos cargos na nação. Na Suriname, os descendentes dos escravos de outrora juntam-se para espancar e violar brasileiros (eventualmente descendentes de escravos). Na Suíça, proíbem-se os minaretes. Há, pois, demasiado ódio no ar. Tem razão o Luís: “o homo sapiens é uma desgraça evolutiva que não merece nenhuma consideração especial e deve ser tratado com as suas armas: a mentira, o disfarce, a traição, o engano, a bomba de napalm, o voto popular, o noticiário da televisão e a sodomia”.
O optimismo

Uma questão pode sempre ser olhada sob vários ângulos, do mais estúpido, normalmente associado à igreja católica, ao mais optimista ou comercial. É o caso do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Enquanto no parlamento se digladiam para legislar sobre a vida privada alheia, os organizadores da Exponoivos, segundo leio no DN, pensam já em novas possibilidades de negócio e prometem “novidades para casais gay”. Imagine-se, por exemplo, a espantosa revitalização comercial que pode advir da venda de dois vestidos de noiva ou dois fraques azeiteiros para um só casamento - e perceber-se-á que expressões como “lufada de ar fresco” e “mais-valia para o sector” não são completamente exageradas.
Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010
Crónicas do autocarro#2
São bastante exibicionistas os voos dos pombos que, às duas em ponto, transitam em bando pela Rua do Actor João Guedes. Passam em formação ordenada e com grande estrépito visual, mas não fazem quase barulho nenhum. Se não se olhar para cima, para a nesga de céu azul pela qual eles deslizam, tudo o que se escuta é um breve rumor, como um murmúrio que pudesse ser produzido pela cantaria dos prédios ou pelos graffiti das paredes dialogando em surdina. Reparei nisto e segui adiante, mas, agora que o recordo, creio que devia ter parado para beber um grógu no restaurante da dona Iva. O voo dos pássaros dá-me sempre alguma sede.
Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010
Joaquim
Todos os leitores são importantes e cada leitor é um caso só, uma unidade não aglutinável ou solúvel na massa anónima dos leitores. Gosto muito, por isso, de cada um dos meus leitores, dos que estão perto e dos que estão longe, dos que respondem aos textos e dos que parecem ignorá-los. Ser pouco lido tem ainda a vantagem de quase poder conhecer os meus leitores um por um, tratá-los por tu e abraçá-los se chega a ser caso disso. É, por exemplo, o caso do Joaquim. Conheço o Joaquim. É motorista da Câmara da Póvoa e conheci-o enquanto participava nas Correntes d’Escritas, já lá vão uns anos. Segundo acabo de saber, o Joaquim leu a crónica de ontem no P2 e deixou-se tocar. Andou a mostrá-la a outras pessoas. Sei como é: já fiz isso. Hei-de abraçar o Joaquim quando voltar à Póvoa de Varzim.
Terça-feira, 5 de Janeiro de 2010
Em busca do amoroso mirmecoleão

Um estudo científico britânico, hoje noticiado pelo DN, afirma que o chamado Ponto G não existe e é apenas fruto da imaginação das mulheres. Seja. Eu gosto de faunos e de sereias, de dragões, de famas e cronópios, de mulas sem cabeça, do saci pererê, do homem do saco, da moça d’água, do golem, de trolls e de todas as espécies tratadas por Borges n’O Livro dos Seres Imaginários. Simpatizo com tais bichos e, na verdade, apreciava bastante encontrar por aí o mirmecoleão; o mirmecoleão e o Ponto G, para ser absolutamente sincero.
Empertigações
Cruzo-me frequentemente com grupos de turistas que rondam a Casa das Artes do Porto (sim, temos uma) sem conseguirem entrar para visitar o edifício que Eduardo Souto de Moura desenhou, discretamente camuflado num bonito jardim entre a Boavista e o Campo Alegre. A casa que já foi cinema, sala de teatro e área de exposições está fechada há muito tempo, já nem sei quanto, a despeito das várias promessas e dos putativos projectos para a sua reabertura. Ninguém, todavia, parece incomodar-se com isso. O nobre, leal e parolo povo do Porto empertiga-se, isso sim, com as corridas de aviões e a falta que a multidão vai fazer. Move-se e ulula contra o imperdoável roubo lisboeta da fundamental tradição aérea da cidade. Na semana passada, vi um casal de franceses tocando à campainha de uma casa vizinha da Casa das Artes, por não terem conseguido, sequer, encontrar a porta do sítio. Foram embora como os outros (com cara de quem desistiu de procurar o Ponto G). Talvez tenham percebido a implícita lição que ali está: o Porto fechou a porta às artes (excepto àquelas que o horrível centralismo paga, na Casa da Música e em Serralves, no Teatro S. João e no CPF). E ninguém se importa, ninguém.
O sucateiro amável
(Crónica publicada no P2 do Público, no dia 23 de Novembro de 2009. Hoje, como todas as terças-feiras, há mais, em torno, entre outras coisas, da triste notícia da morte de Lhasa de Sela e de uma história de amor perfeita)
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Tem alguma graça constatar como certas profissões, habitualmente esquecidas e subterrâneas, adquirem uma notoriedade súbita e, por vezes, bem pouco agradável. Uma maçã podre, já se sabe, não deve manchar o pomar inteiro e, estou certo, há por aí muito sucateiro amável cuja honesta e útil actividade estará, por estes dias, à mercê de um escrutínio pouco cordial. Esta crónica é, pois, um gesto de desagravo aos sucateiros pulcros – que os há, decerto.
Na rua em que eu cresci existe, por exemplo, uma espécie de sucateiro-serralheiro que, para além de fazer portas em alumínio e portões de ferro (de grande préstimo, aliás), acumula práticos conhecimentos na área do contacto com o paranormal e, creio, com almas já transitadas para o além. Para os carenciados sem meios para recorrer à Psicologia, mas, ainda assim, necessitados de amparo espiritual, este homem tem sido um verdadeiro guia, incansável e próximo como um irmão mais velho.
Entre todos os profissionais dedicados aos resíduos ferrosos, aquele que mais aprecio é, ainda assim, Hank, o personagem do filme One From the Heart, de Coppola (1982), a que Frederic Forrest dá corpo. Hank é um sucateiro de Las Vegas e acumula, por isso, toda a espécie de lixo proveniente da hiperbólica decoração de néon dos famosos casinos, criando um cenário onírico no espaço caótico da sucata.
Acresce que Hank vive com Frannie (Terry Garr). Esta, cansada, como na canção de Tom Waits, de apanhar a porcaria que ele deixa pelo caminho, e saturada da triste vidinha atrás do balcão de uma agência de viagens, deixa-se encantar pelo aventureiro Ray (Raul Julia). E Hank – que, apesar dos créditos profissionais, não é de ferro – conhece Leila, a artista de circo à qual a então jovem e bela Nastassja Kinski dá corpo. Gosto deste filme que eu sei lá e, talvez por isso, lembro-me sempre da cena em que Hank leva a ágil Leila para a sucata. Aí, utilizando os detritos lá depositados sem recurso a concurso público, a artista executa algumas acrobacias graciosas, enquanto Hank, enlevado, invoca a subtil magia do cinema para acompanhar os gestos de Leila com uma orquestração de buzinas interpretada por um monte de carcaças de automóveis.
A imagem não me sai da cabeça: há como que uma parede de grelhas, carroçarias e faróis, os quais acendem e apagam a compasso, e, de costas, Hank empunha uma batuta e rege essa mágica orquestra enquanto Leila caminha no arame segurando uma sombrinha. Lembro-me desta cena muitas vezes, mas, nas últimas semanas, tenho-a recordado ainda mais. Temo (insensatamente, eu sei) o momento em que o plano muda e se vê o rosto do improvável maestro. Assusta-me descobrir que o homem que comanda a banda da sucata não é já o amável Hank, mas outro energúmeno qualquer. Mas depois ocorre-me que, no filme, fica tudo bem no final: Hank e Frannie reconciliam-se e Crystal Gayle canta aquela canção que sempre me faz chorar: “Leva-me para casa, meu tontinho, que o mundo sem ti não é redondo”.
Tem alguma graça constatar como certas profissões, habitualmente esquecidas e subterrâneas, adquirem uma notoriedade súbita e, por vezes, bem pouco agradável. Uma maçã podre, já se sabe, não deve manchar o pomar inteiro e, estou certo, há por aí muito sucateiro amável cuja honesta e útil actividade estará, por estes dias, à mercê de um escrutínio pouco cordial. Esta crónica é, pois, um gesto de desagravo aos sucateiros pulcros – que os há, decerto.
Na rua em que eu cresci existe, por exemplo, uma espécie de sucateiro-serralheiro que, para além de fazer portas em alumínio e portões de ferro (de grande préstimo, aliás), acumula práticos conhecimentos na área do contacto com o paranormal e, creio, com almas já transitadas para o além. Para os carenciados sem meios para recorrer à Psicologia, mas, ainda assim, necessitados de amparo espiritual, este homem tem sido um verdadeiro guia, incansável e próximo como um irmão mais velho.
Entre todos os profissionais dedicados aos resíduos ferrosos, aquele que mais aprecio é, ainda assim, Hank, o personagem do filme One From the Heart, de Coppola (1982), a que Frederic Forrest dá corpo. Hank é um sucateiro de Las Vegas e acumula, por isso, toda a espécie de lixo proveniente da hiperbólica decoração de néon dos famosos casinos, criando um cenário onírico no espaço caótico da sucata.
Acresce que Hank vive com Frannie (Terry Garr). Esta, cansada, como na canção de Tom Waits, de apanhar a porcaria que ele deixa pelo caminho, e saturada da triste vidinha atrás do balcão de uma agência de viagens, deixa-se encantar pelo aventureiro Ray (Raul Julia). E Hank – que, apesar dos créditos profissionais, não é de ferro – conhece Leila, a artista de circo à qual a então jovem e bela Nastassja Kinski dá corpo. Gosto deste filme que eu sei lá e, talvez por isso, lembro-me sempre da cena em que Hank leva a ágil Leila para a sucata. Aí, utilizando os detritos lá depositados sem recurso a concurso público, a artista executa algumas acrobacias graciosas, enquanto Hank, enlevado, invoca a subtil magia do cinema para acompanhar os gestos de Leila com uma orquestração de buzinas interpretada por um monte de carcaças de automóveis.
A imagem não me sai da cabeça: há como que uma parede de grelhas, carroçarias e faróis, os quais acendem e apagam a compasso, e, de costas, Hank empunha uma batuta e rege essa mágica orquestra enquanto Leila caminha no arame segurando uma sombrinha. Lembro-me desta cena muitas vezes, mas, nas últimas semanas, tenho-a recordado ainda mais. Temo (insensatamente, eu sei) o momento em que o plano muda e se vê o rosto do improvável maestro. Assusta-me descobrir que o homem que comanda a banda da sucata não é já o amável Hank, mas outro energúmeno qualquer. Mas depois ocorre-me que, no filme, fica tudo bem no final: Hank e Frannie reconciliam-se e Crystal Gayle canta aquela canção que sempre me faz chorar: “Leva-me para casa, meu tontinho, que o mundo sem ti não é redondo”.
Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010
Crónicas do autocarro#1
Regressei com certa nostalgia ao contacto diário com os transportes públicos, mas não esperava que, tão depressa, os transportes públicos me surpreendessem com os seus incríveis personagens. Em Cedofeita entra um homem velho encardido de longas e desgrenhadas barbas brancas. Reparo nele por causa do cheiro e só depois vejo as unhas - castanhas, compridas e grossas como garras de um animal extinto.
Domingo, 3 de Janeiro de 2010
Devaneio poético para o ano que começa
Lá fora o vento rugiu toda a noite, feroz como um animal que rondasse, louco, as paredes do quarto e sacudisse o edifício, querendo entrar e profanar tudo, virar-nos do avesso. Imaginei esse vento pressentido, escutado, igual ao dos vendavais dos países distantes vistos nos noticiários da televisão, arrasando casas e torres de alta tensão, obrigando as pessoas a agarrarem-se aos semáforos, aos postes de iluminação pública, aos sinais de trânsito. Imaginei-o e, por isso, agarrei-me muito a ti.
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