terça-feira, 29 de setembro de 2009

Frida Kahlo




Tenho, às vezes, a sensação de que ando a sair com a actriz Selma Hayek. Nessa espécie de confusa percepção, porém, a actriz Selma Hayek é muito parecida com a artista plástica mexicana Frida Kahlo. Ou seja: tem o corpo da Selma Hayek, o busto generoso e o cabelo negro como azeviche da actriz, mas uma enorme sobrancelha que vai de um lado ao outro da testa morena, porém já devidamente depilada e quase normalizada, como se Frida Kahlo se assemelhasse extraordinariamente com Selma Hayek. É confuso, bem sei. Devo vigiar mais atentamente os líquidos que me dão para beber.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vinte e três horas

Sou um aprendiz na arte de apagar o que escrevo. Creio, de resto, que alguém devia ter assumido a responsabilidade de me ensinar este lavor numa idade muito mais tenra. Agora, paciência, vejo-me obrigado a aprender sozinho as vantagens do arrependimento e, na medida do possível, a poupar à humanidade o convívio com algumas das minhas torpezas. O Teatro Anatómico é, aliás, um instrumento muito útil, na medida em que o formato electrónico torna muito fácil o exercício de corrigir e apagar textos. Corrijo e apago, pois. Ainda ontem, por exemplo, apaguei um texto que aí estava, relativo ao facto de, segundo o Google Analytics, ter havido alguém que, em Braga, estivera três horas e meia a olhar para este blogue. O caso pode, porém, ser muitíssimo grave, na medida em que os dados mais recentes indicam que alguém de Braga passou ontem mais de vinte e três horas ligado ao Teatro Anatómico. E hoje, ao fim de meio dia, já estão registadas doze horas, vinte e cinco minutos e cinquenta e cinco segundo de leitura do Teatro Anatómico a partir de um computador em Braga. Estou em pânico. Creio que alguém morreu e deixou o computador ligado. E temo que o malogrado indivíduo possa ter morrido por força de alguma coisa extremamente inconveniente e má que eu aqui tenha escrito. Isto é sério. Alertem, por favor, as autoridades competentes

Harz



Convém encarar o fracasso de frente com certa regularidade. Sentir-lhe o bafo azedo e ver como tem os olhos injectados de sangue e fel. Concretizado o exercício, devem voltar-se as costas ao fracasso, encolher os ombros, sorrir com certo desdém e deixar que o fracasso vá ensombrar outro desgraçado qualquer.

Sendo o fracasso, essencialmente, uma questão estratégica relacionada com a gestão de expectativas, é conveniente, pois, não alimentar expectativa nenhuma. Viver por viver. Não devo esquecer-me disto.

Se, por exemplo, Cindy se despe integralmente, e gloriosamente depilada, no palco do Teatro do Campo Alegre, entre um verso do José Luís Peixoto e um tango das Três Marias, devemos, isso sim, regalar-nos com o bom trabalho dos luminotécnicos e desfrutar amenamente da bonita visão do corpo de Cindy. Pode-se, claro, considerar, como o valter, que Cindy tem um pouco de barriga (discordo frontalmente da opinião do valter) ou achar que Cindy, enquanto pessoa semi-vestida, não dança particularmente bem (mas não vi mais ninguém incomodar-se com este detalhe, embora Franck Slade, o ex-militar cego que Al Pacino interpreta no Scent of a Woman, não deixasse de lhe notar o defeito quando tentasse fazer Cindy dançar um dos tangos das Três Marias), mas, outra vez, estamos no movediço campo das perspectivas e da gestão de expectativas.

Se me ponho a pensar no assunto, aliás, constato que não saberia bem o que fazer com Cindy se, por algum acaso, me fosse proporcionada a ocasião de conviver socialmente com a artista de strip-tease que, agora, actua também para as pessoas cultas que esgotam as Quintas de Leitura. É provável que me baralhasse. Baralho-me, aliás, com certa frequência. Balbucio. Não sei onde meter as mãos.

Ocorre-me, vaga, a possibilidade de mostrar a Cindy – nus ambos, ela gloriosamente depilada, as mamas pequenas agitando-se levemente – o trilho de dezoito quilómetros que atravessa o maciço rochoso de Harz, na Saxónia-Anhalt, Alemanha, onde se permite, li nos jornais, a utilização por nudistas que gostam de caminhar ao ar livre. Sei, porém, que volto a delirar e a ter expectativas loucas (como de todas aquelas vezes em que julguei que podia ser um escritor respeitado e convidado a ler frases de efeito no Teatro do Campo Alegre ou assim).

Não creio que Cindy seja capaz de atravessar o Harz em saltos-altos.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Tango




Por um feliz acaso, revi ontem a extraordinária sequência de Scent of a Woman em que o personagem cego de Al Pacino dança o tango Por una cabeza.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Bordalesa

Hoje vou fazer polvo à bordalesa para o jantar (já tenho o polvo a descongelar). Trata-se de um prato que preparo com alguma regularidade. Sucede, porém, que não tenho a mais pequena ideia de como se prepara o polvo à bordalesa. Faço exactamente como em tudo o resto na vida: improviso, invento, desenrasco e, no fim, chamo-lhe polvo à bordalesa.

Emília



Segundo os jornais, morreu a actriz Dirce Migliaccio, a primeira a interpretar a personagem da boneca de trapos Emília na série O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Lembram-se? Para mim é como se tivesse sido ontem: a Emília, o Visconde, o Saci Pererê, Narizinho... É sempre algo estranha a consciência de que Emília, ou a mulher dentro da boneca, chegou aos 76 anos de idade e morreu de pneumonia e infecção urinária na cama de um hospital. Em todo o caso, e que me perdoem os mais nostálgicos, a única e verdadeira Emília, inimitável no sorriso brilhante e trocista, nos gestos que faziam lembrar o movimento das marionetas, perturbadoramente sensual mesmo para um catraio com a idade que eu então tinha, foi Reny de Oliveira, que substituiu Dirce Migliaccio e chegou a fazer a capa da Playboy brasileira antes de se eclipsar em papéis secundários e sem qualquer brilhantismo. Tanto quanto se sabe, casou com um norte-americano, vive nos EUA, chama-se Reny Burrows e coordena um centro de shiatsu. É, digamos assim, uma bela forma de desaparecer, permanecendo apenas enquanto memória feliz. Não vejo melhor destino para uma boneca de pano.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Pegada ecológica



Uma das mais peculiares e moderninhas novidades da cobertura mediática da campanha eleitoral é a contabilização da pegada ecológica das caravanas partidárias, diariamente actualizada no Telejornal da RTP1. Ali são revelados os quilos de dióxido de carbono produzidos por cada um dos partidos. Elevando o disparate ao paroxismo, talvez fosse conveniente dizer quantas toneladas de papel são gastas em cartazes e folhetos, quantas toneladas de plástico, se as garrafas de água vão para os plasticões, se o vidro das garrafas de vinho dos almoços e jantares é reciclado, etc. E, já agora, a RTP também podia revelar qual a quantidade de dióxido de carbono produzida diariamente pela empresa para perseguir as campanhas, para fazer outro noticiário avulso e ainda, por exemplo, para locomover a caravana do Portugal no Coração até S. Brás de Alportel.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Morder a língua

Tinha escrito, outra vez, uma coisinha de feição política, mas resolvi seguir um conselho sábio:
“Numa época e num país no qual todos se pelam por proclamar opiniões ou juízos, o senhor Palomar ganhou o hábito de morder a língua três vezes antes de fazer qualquer afirmação. Se, à terceira dentada na língua, ainda está convencido daquilo que estava para dizer, di-lo; se não, fica calado. Com efeito, passa semanas e meses inteiros em silêncio”.
É, como pode ver-se, um procedimento bastante sensato. Mordo, pois, três vezes a língua (apenas metaforicamente, não se preocupem)- e calo-me.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Argumento desfeito



Pedro Almodovar é sempre Pedro Almodovar e Penelope Cruz enche sempre um ecrã. Abraços Desfeitos, o mais recente fruto da união deles, começa por parecer um Almodovar a sério, mas depois perde-se, fica como que mal cosido e cheio de pontas soltas. Tal como é dito na derradeira frase, parece ter sido terminado meio às cegas, apenas porque tinha que ser terminado - como se o argumento se tivesse estilhaçado.
Não deixa, ainda assim, de ser curioso notar que Tarantino e Almodovar parecem ter resolvido terminar Inglourious Basterds e Abraços Desfeitos com frases que, de algum modo, ajudam a ler os respectivos filmes: Tarantino fez uma obra-prima, Almodovar um filme terminado às cegas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Malhadinhas

O interior desertificado está deveras deserto: em Montalegre não se vê vivalma num sábado à noite de Setembro. Os cafés estão fechados, os bares também. Podia ser uma cidade morta e fantasma, não fosse a suculência da carne barrosã no D. João e a peculiar dinâmica linguística que (também) ali se nota. A um moço adolescente, por exemplo, escutei a expressão “demorasteis bué” – como se alguém tivesse enfiado um piercing no sobrolho do Malhadinhas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Osga




Enquanto observa a quotidiana actividade nocturna de uma osga, Palomar, o personagem de Italo Calvino, nota que o réptil aparenta ser um mecanismo sofisticado e bastante detalhado, causando-lhe impressão que, apesar disso, a osga execute um leque bastante limitado de acções – quase um desperdício de potencialidades. Feita a constatação, ocorre ao senhor Palomar que talvez seja essa a maior perfeição do animal e a melhor lição que tem para dar ao Homem: concentrar-se no ser e desprezar o fazer. Hei-de tentar seguir mais vezes o exemplo da osga.

Pós-graduação



Acontece-me, às vezes, descortinar excelentes oportunidades de formação profissional que me permitiriam aceder àquilo a que o Governo chama uma “nova oportunidade”. Por exemplo: a Universidade Católica do Porto vai, segundo leio no jornal, passar a oferecer, a partir de Outubro, uma “pós-graduação em Violência Contra as Mulheres no Seio da Família”. Eis uma área na qual sou absolutamente desprovido de competências. Lamento-o eu e, creio, lamentam-no todas aquelas que pudessem vir a beneficiar de um tratamento profissional e competente, cientificamente enquadrado, mas creio que dificilmente conseguirei reunir os requisitos básicos necessários para aceder a uma especialização universitária neste domínio.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

De saúde




A Associação Portuguesa de Seguradores (APS) considerou hoje que seria "altamente irresponsável" os seguros de saúde cobrirem as despesas relativas à gripe A, uma vez que isso poderia levar as seguradoras à falência. Para evitar tão desagradável situação, aliás, as apólices devem contar ab initio com um número suficiente de cláusulas em letra pequenina e capazes de dissuadir utilizações abusivas, mas, na verdade, nem devia ser preciso tanto: caso os clientes das seguradoras não tenham ainda reparado, o produto que subscreveram chama-se "seguro de saúde" e não "seguro de doença".

Pausa

Noto, com certo pesar, que tenho dedicado uma atenção excessiva às coisas da política, ou, o que é pior, à politiquice pura (acabo de apagar vários textos, escusam de procurá-los). Sendo verdade que circulam por aí, em tempo de campanhas eleitorais, personagens particularmente lamentáveis e irritantes, não é menos penoso constatar que me deixo arrastar para esse lodo e perco tempo, por pouco que seja, com tão tristes figurinhas. Tentarei, por isso, ter mão nisto. Vou respirar fundo (não muito, que o meu telefone acaba de ser desinfectado ao abrigo do plano de contingência da gripe) e tentar espreitar por cima do muro. Pode ser que haja, do outro lado, alguma coisa que valha a pena.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Musculação



É estranho que a obra não tenha sido anunciado na imparcial revista que a autarquia profusamente distribui pelas caixas de correio, mas há-de ter-se tratado de um ataque súbito de modéstia: a Câmara do Porto instalou um ginásio de fitness na Casa do Roseiral, nos jardins do Palácio de Cristal. Também estranhamente, ou talvez não, o equipamento não está aberto ao público e, segundo o chefe de gabinete de Rui Rio, servirá para "eventual utilização interna, ao abrigo de um regulamento que haverá de ser proposto". Mítico!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Pynchon com gralhas, demasiadas gralhas



Nutro simpatia, respeito e admiração pela editora Relógio d'Água, o que, creio, se justifica inteiramente, quando mais não fosse por causa de Walser, Clarice Lispector, Javier Marías ou Raduan Nassar. E entendo perfeitamente que não seja um sentimento mútuo. Mas, francamente, não precisavam de me agredir logo na primeira incursão a sério pela literatura de Thomas Pynchon (a qual, suspeito, se vai revelar menos interessante do que a lenda e o mistério que rodeiam Thomas Pynchon). "O Leilão do Lote 49", recentemente editado, está repleto de gralhas: "influência" em vez de "influencia", por exemplo, mas também, os "à" e os "às", que estão quase todos sem acento, e os "é", que idem, o que não se percebe por muito boa vontade que se queira ter, pois apenas demonstra que o único revisor que o texto teve foi automático. Enquanto gémeo de Thomas Pynchon, do qual fui tragicamente separado à nascença, e na defesa da sagrada honra familiar, deixo aqui, pois, o meu mais veemente protesto.

P.S.: segundo informa a Maria José Oliveira, as gralhas do livro são herdadas da primeira e única tradução de "O Leilão do Lote 49", feita para a editora Fragmentos há já alguns anos. Agradeço obviamente a dica, a qual, porém, não ilude o essencial - eu paguei um livro que mete nojo, tantas são as gralhas que tem. Em resumo: sinto-me vigarizado.