Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

A parábola da porca*



Terminei a crónica da semana passada com uma graçola que envolvia o presunto, mais concretamente o seu VII congresso mundial, mas não é por isso que agora aqui convoco o porco. Ou melhor: a porca. E não o faço, sequer, para recordar a peculiar personagem do romance Estranhos Perfumes, de Marie Darrieussecq, o qual, se bem me lembro, conta a história de uma mulher que se metamorfoseia em suína. A heroína desta crónica será, antes, uma prosaica reca de Terronhas, lugar da freguesia de Recarei, no concelho de Paredes, onde o acaso engendrou, parece-me, uma bonita parábola do tempo em que vivemos.

Se eu mandasse alguma coisa, o caso da porca de Terronhas havia de ter sido lido nas homilias de domingo. Como não mando, limito-me a imitar os apóstolos e a contar a história mais ou menos como a li, há dias, numa página do Jornal de Notícias. Era assim: um certo homem tinha comprado uma “porca caniça para sustento da casa”. Planeou, pois, a matança, da qual haveria de resultar uma boa quantidade de febras e rojões, carne para chouriças e pelos menos dois presuntos de lei. A fêmea, porém, tinha sido anteriormente emprenhada. Dela nasceram quinze porquinhos, acrescentando bastante à depauperada economia daquela família. O homem cogitou, entretanto, nova matança, mas os demais beneficiários do animal consideraram o caso e pareceu-lhes que talvez não fosse má ideia levar a porca ao porco, para ver se dali lhes vinha lucro ainda maior. E foi, pois, a suína posta ao porco varão, o qual, cumpridos os trâmites naturais, deixou a reca outra vez de esperanças. Nasceram-lhe, desta vez, vinte leitões. Como, porém, a porca dispõe apenas de catorze tetas, não era já capaz de amamentar todas as crias, as quais correm risco de vida.

Li a notícia e, influenciável como estou – com os nervos em franja e disponível para ir para a rua gritar –, pus-me a matutar no caso da porca. Pareceu-me, por exemplo, que a dita suína se assemelhava ao contribuinte-tipo lusitano, cuja existência, se formos a ver bem, se justifica pela necessidade de alimentar o seu legítimo proprietário, o Estado. Este descobre, por um golpe do acaso, que a porca pode render muito mais do que o inicialmente esperado, sendo capaz de se reproduzir e de, assim, gerar mais e mais receitas, e, consequentemente, sustentar mais e mais gastos, Mercedes para aqui e subvenção para ali, favorzinho deste lado e tachinho daquele, assim sucessivamente até ao ponto em que a porca-contribuinte já não é capaz de alimentar as crias, por manifesta falta de tetas para tanta boca esfomeada refocilando nos restos gastos da depauperada suína.

Sendo apenas uma notícia de jornal, e não um caso escrito no livro sagrado, o episódio da porca de Terronhas padece, porém, de um inconveniente desagradável. Ao contrário do que sucede nas parábolas da Bíblia, como em Lucas 13:11, não virá nenhum milagreiro pôr a mão sobre a fronte da economia desgraçada e doente, que anda curvada há muitos anos e não pode de modo algum endireitar-se. A porca já deu o que tinha para dar.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 25 de Outubro de 2011

Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

Um post muito vernacular (isto é uma advertência)

As tardes de sexta-feira parecem ser bastante animadas junto a uma pensão que existe na Rua de Fernandes Tomás. Ali tenho assistido invariavelmente, nas últimas vezes que por lá passei, a disputas envolvendo profissionais do sexo que exercem a sua actividade no local, invectivando-se ou insultando-se. Hoje, porém, a discussão também envolvia um homem, o qual ameaçava uma mulher que se preparava para subir para a motorizada de outro indivíduo. O caso, é como digo, não teria grande interesse se não fosse ilustrado por um português muitíssimo colorido e festivo, quase fogo-de-artifício verbal, pois o homem dizia à mulher alguma coisa como "da próxima vez que eu aqui passar e tu estiveres a meter piças, levas um par de estalos que te fodo, grande puta, vai-te lavar por baixo sua puta", tudo quase de um fôlego só, para grande gáudio os passantes que, como eu, se viram exemplarmente instruídos no mais coruscante vernáculo. Espero que o caso se tenha resolvido a bem, sem necessidade de estalos ou qualquer outra violência física. Pela parte que me toca, vou tentar lembrar-me do episódio de cada vez que o Relvas aparecer na televisão a defender que os trabalhadores recebam só doze salários, como na "Holanda, na Noruega e em Inglaterra". A menos que o indivíduo garanta imediatamente que os nossos salários vão ser equiparados aos holandeses, noruegueses e ingleses, parece-me que devemos mandá-lo meter aquela coisa e, já agora, lavar-se um bocadinho por baixo.

Reencaminhamento (na hipótese totalmente improvável de isto poder interessar a alguém)



Toda a informação sobre o coiso pode, a partir de agora, ser consultada num só sítio. Em actualização permanente.

Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

O caos postal transferido para Brasília



Um dos capítulos de Uma Mentira Mil Vezes Repetida é dedicado a uma história, ficcional como a generalidade das demais, na qual a cidade de Granada se vê a braços com um caos postal provocado por um carteiro baralhador, o qual impede que as cartas cheguem aos seus destinatários. Por uma dessas incríveis coincidências que conferem um cunho exótico a esta actividade, enviei em meados de Setembro um exemplar do romance para o Brasil, onde havia de chegar ao fim de uma semana para servir de presente a uma amiga na sua data de aniversário. O envelope, porém, ainda não chegou ao destino, aparentemente devido a uma greve dos correios brasileiros que se prolongou por cerca de um mês. Seria, convenhamos, uma espantosa ironia se a história do caos postal de Granada não pudesse ser lida pela Patrícia por se ter o livro extraviado no decurso do caos postal de Brasília.

Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Desabafo outonal (enquanto os trovões ribombam lá fora)

De vez em quando, mas já sem pudor nenhum, os eleitos declaram que ali estão para salvar o país e que é por isso que precisam de mais um impostozinho daqui e de mais uma contribuiçãozinha dali (ao que se juntará mais uma lei flexibilizadora e um ou outro arroubo liberal). Os homens providenciais, porém, irritam-me. Pior do que isso, tenho-lhe um certo receio. Fodem tudo, mas fazem-no sempre pelos motivos mais justos e em nome do superior interesse da pátria. Trata-se, na verdade, de uma velha cantiga. Os compêndios de História estão carregados de belíssimas intenções. Os romances também — como sucede com A festa do chibo, do Mario Vargas Llosa, no qual se narra como Trujillo salvou a República Dominicana.

No café, hoje de manhã, o dono já se queixava de que os empregados das Finanças e os polícias passaram a consumir com mais moderação. Imagina o homem que, apesar do aumento dos impostos, o Estado ainda vai conseguir arrecadar menos contribuições. É possível que não se engane muito, mas ninguém o ouvirá. Não é economista, não joga nos flippers da Bolsa de Valores, não tem casa na Foz, não é dono de um Porsche e, por isso, o que ele pense ou deixe de pensar interessa um boi aos que hão-de salvar a pátria, o euro e a união — e que vão recapitalizar a banca; é absolutamente fundamental que a banca se recapitalize.

Lá no estaminé, comunicaram hoje que vários departamentos vão ser descontinuados (inclusivamente o meu). É possível, por isso, que também alguns postos de trabalho acabem por ser descontinuados. Mas podemos estar descansados que ninguém será despedido antes do final do ano, pelo menos até que as leis laborais não se apresentem mais favoráveis ao franco desenvolvimento da economia nacional e, outrossim, à salvação da pátria. Será, então, muito mais barato, e francamente mais progressista, darem-nos um chuto no cu.

Vemo-nos em Ourique*


Ouvi Pedro Passos Coelho declarar que “vivemos momentos da maior gravidade” e já não fui capaz de me conter: acabei o copo de vinho de uma golada, atirei com o jantar para o chão, disse à Blendina que se escondesse com os garotos debaixo da mesa e até tinha posto o capacete da motorizada e agarrado na esfregona – em pose de padeira de Aljubarrota, para o que desse e viesse e nenhum alienígena por ali passasse sem levar ao menos uma bordoada –, quando percebi que, afinal, se tratava só da conversa do costume: predispor-nos para a necessidade de continuar a dar palha ao insaciável animal das praças financeiras.

Apesar da pose martirizada e do ar grave do senhor presidente do conselho de ministros, entendi, logo à segunda frase do discurso, que ali vinha mais uma longa dissertação versando o “estrangulamento financeiro da nossa economia” - e toma lá outra rodada de más notícias, que para isso temos nós as costas largas. Não fiquei particularmente aliviado, ainda assim, por saber que não tinha sido declarada a guerra dos mundos nem os marcianos estavam para aterrar na minha varanda carregados de pérfidas intenções. Houve um momento, aliás, em que desejei a chegada dos venusianos ou de outro bicho qualquer que nos livrasse, senhores, de todo o mal. E logo a seguir, mais racionalmente, ocorreu-me que não me parecia lá muito avisado usar a palavra “estrangulamento” num discurso assim. Um indivíduo ouve aquilo e põe-se logo com ideias ruins.

Já mais calmo, fui pousar a esfregona e, posto perante as desagradáveis novidades que o presidente do conselho anunciava, entendi tomar providências. Eu tinha lido, no dia anterior, a notícia sobre uma cápsula de fibra de vidro em amarelo berrante, inventada por uma empresa japonesa e destinada a proteger os cidadãos em caso de tsunami. Chamam-lhe, parece, Noé, numa alusão à arca do Velho Testamento, e tem espaço, no seu interior, para acomodar quatro pessoas e alguns víveres, com uma escotilha e dois orifícios para ventilação. Pensei, pois, que se a bolha japonesa aguenta a violência de um tsunami, há-de suportar também a gigantesca “onda de austeridade” que aí vem. Planeio, portanto, viver, agora sim, um pouco acima das minhas possibilidades e encomendar duas ou três cápsulas à Cosmo Power.

Se os meus cálculos estiverem certos, posso finalmente aproveitar a oferta de um banco que regularmente me telefona anunciando que disponho de crédito pré-aprovado. Poderei, assim, pagar a primeira prestação das cápsulas e meter-me lá dentro com a família toda, mais os gatos e uma cabra que temos na varanda (satisfeitíssima e sorridente), e aguardar calmamente que a crise passe. Já não espero grande coisa de 2012 e creio até que podemos bem passar sem os jogos do Europeu de Futebol. Mas, francamente, estamos muito empenhados, lá em casa, em chegarmos vivos a 2013, quando Ourique estiver engalanada para acolher o VII Congresso Mundial do Presunto. É essencial manter o optimismo: se o dinheiro não chegar para a gasolina, vamos de bolha.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 18 de Outubro de 2011

Domingo, 23 de Outubro de 2011

Crónicas do autocarro#92



O autocarro que sobe o Campo Alegre vindo do miolo do bairro operário pode até não ter as mais lindas garotas da cidade, mas tem, e isso é absolutamente certo, as mais desbocadas e desconcertantes. Um dia destes, ainda o Outono mostrava a sua feição mais amigável, vinham duas amigas, ambas adolescentes e escanzeladas, a conversar no banco de trás da viatura. Debatiam as moças, ao que consegui entender, o comportamento de um determinado concorrente de uma coisa em forma concurso que passa na televisão em horário nobre. O não sei quantos cujo nome não quero recordar é, pelos vistos, um indivíduo acometido pelo estigma da homossexualidade, coisa que fiquei a saber quando uma das raparigas afirmou peremptoriamente que o dito cujo é “guéie” (e não já “paneleiro”, como traumaticamente acontecia aos homossexuais de antigamente). Ora, explicou a moça, o tal “guéie” é evidentemente “guéie” pelo simples facto de, no referido programa, não se chegar nunca às "gaijas" e preferir a companhia dos "gaijos". Se para mais não servir, a eloquente análise da adolescente demonstra que, nos tempos que correm, um tipo já nem sequer pode estar sossegado numa tasca a beber finos, comer tremoços, discutir a bola e coçar as partes. Um gajo que é gajo, e que não queira passar imprudentemente por “guéie”, tem que se chegar às "gaijas" – nem que seja para aprender a pintar as unhas.

Criatura nativa dos transportes públicos, o coiso também viajou na rede da Estação das Artes da RTP Informação



Ver aqui.

Sábado, 22 de Outubro de 2011

Senhora!, pague-me uma sopa!

Não sei há quantos anos ouço e vejo essa mulher andrajosa, de ar tresloucado, que aborda na rua todos os que com ela se cruzam e berra aquele “senhora!, pague-me uma sopa, senhora! pague-me uma sopa”, olhando-nos com olhos celerados, febris, doentes, apontando-nos um dedo acusador, incriminador, como se fôssemos de algum modo responsáveis pelo estado a que ela chegou, desgrenhada, suja e muito magra, e por todas as sopas que ela não comeu.

Hoje ouvi-a apenas, muito sentado na minha cadeira do restaurante, diante do meu prato de rojões, do meu copo de vinho – ouvi a sua voz lá fora, na rua, repetindo aquele quase ameaçador “senhora!, pague-me uma sopa, senhora! pague-me uma sopa”, e creio que só agora me apercebi de que não sei nada sobre esta mulher que frequentemente encontro na rua, que nunca falei com ela e nem sequer sei como se chama. Só sei que pede sopas e que parece o mais lamentável dos seres humanos.

Creio que lhe tenho medo e não sei bem porquê. Evito-a. Mas não creio que evite apenas pagar-lhe a sopa. Pusilânime como sou, talvez adie o momento em que terei de olhá-la nos olhos, ver realmente visto o ser humano louco que pede sopas e reconhecer nela um mundo que não quero ver, de modo a poder continuar a viver naquele em que pacatamente me encerro, fecho e tranco, barricando-me contra toda a loucura e toda a pobreza que haja lá fora, procurando evitar que me contaminem.

Aquela mulher que pede sopas há-de ter uma história que a humanize e transforme num de nós. Ignorá-la é, pois, e sobretudo, uma forma de continuar a viver na ilusão de que ela é o outro, de um outro mundo do qual eu não faço parte - o que é só um engano, evidentemente, e uma ilusão provisória. Escutá-la sem ver a sua triste figura fez-me ter a certeza disto. Lá fora, pedindo sopa, qualquer um usaria as mesmas palavras que ela utiliza: Senhora!, pague-me uma sopa.

O coiso também no suplemento Q. do DN, sugerido pelo Valter Hugo Mãe

Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

O abracadabrante caso do imortal (e veloz) Jeremias Coelho*



Não é muito certo como este caso começou, mas há ainda quem dê fé de que Jeremias Coelho era, em moço, um rapaz que parecia infatigável. Nunca transpirava e raramente dormia que não fosse só um breve passar pelas brasas. Cinco ou dez minutos de sono bastavam-lhe para acordar como novo e parecia que só por desfastio se dava ao trabalho de fechar os olhos. No resto do tempo andava sempre correndo de uma tarefa para a outra, de tal modo que se ficava cansado só de estar parado a vê-lo passar para cá e para lá. Às vezes relinchava para imitar os cavalos, outras roncava como as motoretas. Diz-se também que o garoto não jogava com o baralho todo, por andar sempre naquelas corridas.

Um belo dia — e é verdadeiramente espantosa a quantidade de episódios esdrúxulos que sucedem em dias assim agradáveis —, Jeremias Coelho acordou do seu brevíssimo sono e, sem ter nada de especial para fazer, lembrou-se de começar a correr sem rumo. E nunca mais parou. Terá já dado várias voltas ao mundo e diz-se ainda que não existe estrada ou caminho por onde Jeremias não tenha passado por mais de uma vez. Da China ao Burkina Faso, da Índia às Américas, das estepes geladas do Norte às estepes estioladas do Sul, várias multidões o viram passar. Em alguns locais mais remotos, os xamãs predisseram que o mundo acabaria quando um homem branco por lá voltasse a passar correndo. Noutros, a passagem de Jeremias era recebida como um bom presságio, anunciando anos húmidos e colheitas fartas.

Como, porém, os anos transcorriam sem que Jeremias Coelho parasse em lado nenhum onde pudesse dedicar-se a envelhecer e a morrer como as outras pessoas, a própria Morte determinou a necessidade de lhe sair ao caminho para forçá-lo a deter-se e a vergar-se à ordem natural das coisas. O problema estava todo em apanhá-lo, porém. Duas ou três vezes a Morte se postou no meio da estrada, de foice na mão e fazendo sinal a Jeremias para que parasse, mas ele nem sabia já o que era estar com ambos os pés assentes no chão. Ela viu-o chegar, passar e afastar-se, consta que acenando com a ponta dos dedos.

Jeremias continua, pois, vivo e correndo, o que deveras contraria a Morte, mesmo se não tem remédio a dar à questão. Nunca se viu, em tempo algum, a Morte trotando em sapatilhas.

*conto publicado na The Printed Blog Portugal de Setembro

Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

Pois parece que o coiso até já foi a França



E vejam lá que o Nuno Casimiro, eventualmente influenciado pelos ares ásperos do Norte, comete a imprudência de lhe chamar magistral.

Isto do saudosismo também dá algumas voltas

Estou um pouco convencido de que os políticos que nos têm governado confiam demasiado no desabafo de alguns indivíduos que, em táxis e assim, declaram solenemente que “este país precisa é de outro Salazar”. Talvez até seja verdade que há uma percentagem de portugueses saudosistas dessa noite negra, mas relativamente sossegada, que foi o Estado Novo. Todavia, a quantidade de paulada que temos levado nas costas pode começar a alterar aquela perspectiva. Num tempo em que todas as conquistas sociais da democracia estão ameaçadas e em que já não sabemos para que servem os impostos que pagamos, escutei um homem que, num pequeno comício na paragem do autocarro, declarava para quem o quisesse ouvir que o único governante que fez alguma coisa de jeito foi o Vasco Gonçalves. O Vasco Gonçalves, tomem nota. Talvez seja por isso que, no sábado, não faltava gente na Baixa a gritar outra vez que "o povo unido jamais será vencido".

Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

Escrito nas estrelas*



É preciso acabar com esta pouca vergonha. Em menos de dois meses, as pessoas que se dedicam profissionalmente à tarefa de observar o universo anunciaram nos jornais a ocorrência de copiosas chuvas de estrelas. Todavia, nem a 13 de Agosto se viram as prometidas Perseidas que haviam de cruzar os céus num festivo fogo-de-artifício, nem no fim-de-semana passado as multidões insones que ficaram perscrutando o firmamento nocturno conseguiram vislumbrar o que quer que fosse dos rastos incandescentes do cometa Giacobini-Zinner. Havia de ser, também desta vez, um espantoso fenómeno visível a olho nu, uma chuva de fulgurantes dracónidas, mas, afinal, não se viu coisa nenhuma. Há indivíduos que reclamam ter visto traços de luz esporádicos no céu, mas deviam ser aviões. Ou pirilampos muito atrevidos e dados à paródia.

Após cada um dos desaires, os cientistas atribuíram o fracasso do espectáculo celeste ao brilho da lua cheia, fazendo lembrar bastante a atitude adoptada pelos benfiquistas de cada vez que perdem um campeonato (tenho quase a certeza de que os astrónomos crêem igualmente que a próxima chuva de estrelas correrá muito melhor do que esta). Por outro lado, estes farsantes também se parecem muito com os políticos: são mantidos pelo erário público, raramente se pode acreditar naquilo que prometem e não primam pela competência. Que crédito, afinal, deve ser tributado a alguém que diz ser capaz de prever uma chuva de estrelas mas não consegue perceber que está lua cheia? Não admira, assim, que os astrónomos sejam frequentemente confundidos com os astrólogos da bola de cristal; e que ninguém consiga levar muito a sério as descobertas que afirmam fazer.

Ainda há quinze dias, por exemplo, se anunciou que os neutrinos são capazes de viajar a 299.798 quilómetros por segundo, superando a velocidade da luz (299.792 quilómetros por segundo), que se acreditava ser a coisa mais rápida e a única constante de todo o universo. O que devemos fazer? Acreditamos nos astrónomos e mergulhamos na incerteza absoluta da relatividade, imaginando mesmo que o céu nos pode cair ainda hoje sobre a cabeça? Ou encolhemos os ombros o mais indiferentemente que formos capazes, assobiamos para o lado e pensamos alguma coisa como: “Lá estão os maluquinhos das chuvas de estrelas a ver se nos estragam um dia tão catita”?

Custa-me muito colocar assim em causa a dignidade de outros profissionais, mas é evidente que os astrónomos não servem para nada. Se, como escreveu Fernando Pessoa, “o sol doira sem literatura”, os astros parecem também perfeitamente capazes de se aguentarem lá em cima sem os cálculos complicados dos astrofísicos e de outros charlatães. A Bélgica, por exemplo, está há 483 dias sem governo e parece que as coisas nem sequer têm corrido mal. Ainda não abriram brechas no chão, nem começaram a chover gafanhotos. Agora que já há acordo para a formação de um executivo, anunciam, porém, que vão salvar um banco da falência – apesar de qualquer leigo ser capaz de ver que a lua está cheia.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 11 de Outubro de 2011

Domingo, 16 de Outubro de 2011

Crónicas do autocarro#91



O autocarro, às vezes, prolonga-se para lá do vidro que se há-de quebrar em caso de emergência — como se o quotidiano da viatura de transportes públicos estivesse necessitada do sopro fresco da vida lá de fora. No interior há uma senhora que gaba a excelência dos materiais de limpeza postos à disposição das serviçais da EDP, onde, parece, existem rolos de esfregão de aço grandes como bidões. Tiro as medidas pelo gesto circular que a mulher faz, largo, mas logo me prende a atenção a moça prenha de calças em padrão felino, a qual oferece à amiga uma imagem da ecografia do seu futuro moço, as imagens já cortadas e juntas na mão como os cromos para troca. A mãe da moça diz que paga uma ecografia 3D, ou algo assim, mas eis que, lá fora, passa uma moça conduzindo de saia curta, as pernas visíveis manobrando a embraiagem e o travão, endurecendo-se o músculo firme quando ela pisa o pedal do acelerador. Pele morena, manhã de sol. Logo, num carro parado no semáforo, uma mulher levanta o braço e cheira o sovaco, minuciosa, não vá o calor revelar alguma coisa do banho que se não tomou ou a falta do desodorizante. Nova paragem e é o próprio edil, Rui Rio, que passa no Mercedes com as cortininhas corridas para baixo para que o povo o não veja nem aborreça. O edil folheia o jornal, mas, na verdade, mais parece que está atirando ao ar as folhas em fúria, que tem vontade de as rasgar ou morder. O que terá irritado assim o senhor presidente? Não saberão que as más notícias fazem mal ao coração de um homem?

Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

A partir de hoje nas livrarias está também esta inocente velharia

Pois o coiso, saído da casca como tem andado, sai hoje também no ípsilon e colhe mais quatro estrelas (actualizado)



De acordo com as contas da Quetzal, são já doze estrelas. Espero que não paguem nenhum imposto.

As fotografias do ípsilon, bem como algumas imagens da sessão de lançamento do livro, estão disponíveis no Fotopress do grande Paulo Pimenta.

O coiso também teve direito a recensão no jornal Labor e o respectivo autor respondeu a três perguntas no site Novos Livros

Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

Crónicas do autocarro#90



Sentei-me esta manhã ao lado de um velho encantador e muito digno, com a pele curtida e morena semeada de manchas e crostas, as mãos ásperas e um fato de bombazina em castanho-escuro. Debaixo do banco, o homem trazia um balde preto e muito gasto, parecido com aqueles que se vêem nas obras a acartar areia e cimento. Dentro do balde viam-se vários sacos de plástico, mas suponho que lá houvesse mais alguma coisa, pois, quando o velhote saiu do autocarro, o balde pareceu-me pesado. As irmãs das limpezas e das tatuagens vinham muito divertidas com o artefacto, olhavam-no de soslaio, faziam risinhos e comentavam, como se o velho fosse mouco, que uma coisa daquelas “só filmada”. Eu, por acaso, até concordo. Um dia destes encho-me de coragem e tiro um retrato à irmã mais nova, que é a mais gorda e modernaça, e tem mais tatuagens, mas que nem me atrevo a descrever – ninguém acreditaria.

Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

Crónicas do autocarro#89



Nos últimos dias, e para promover o objecto de leitura a que carinhosamente designo por "coiso", estive duas vezes no autocarro acompanhado de câmaras de filmar. Foi uma tontice, na medida em que permiti que se invertesse a ordem natural das coisas. Em vez de observar e escutar, vi-me na posição dos fenómenos anormais dos circos de antigamente. Eu tentava explicar o que podia sobre o romance que também anda de autocarro, os utentes olhavam-me como que procurando avaliar o tamanho da minha estupidez e a dimensão da minha bizarria. É muito bem feito — para eu aprender a não ir ali armado aos cágados para, depois, vir contar o que vi e o que não vi, o que supus ou o que imaginei a partir do que tivesse visto. Não interessa. A presença dos cinegrafistas desmascarou-me enquanto corpo estranho à comunidade humilde do autocarro. Sou, de certo modo, um alienígena; um alienígena que observa e comete a indiscrição de contar. Ignoro, pois, se as coisas voltarão a ser como antes, se consigo recuperar a condição de utente discreto e sossegado, de cromo que não merece nenhuma atenção, mas, para que o castigo fosse ainda mais completo, voltei hoje ao autocarro e dispus-me a escutar a conversa das irmãs das limpezas e das tatuagens, a qual versava, isso ainda percebi, sobre telemóveis 3G, videochamadas e coisas assim. A gripe, porém, entupiu-me de tal maneira o nariz que tive que me concentrar em respirar. Para ser pior, só se as moças me derem, um dia destes, um enxerto de lenha para ajustarem contas comigo. E corpo para isso têm elas.

Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011

O coiso está hoje na Inculta TV



E hoje, enfim, chegou a vez de a televisão mais cool de ambos os hemisférios dar uma voltinha do famoso 502 da STCP. Ver aqui .

Todas as opiniões contam e o coiso gosta (em actualização)



A Calita escreveu sobre Uma Mentira Mil Vezes Repetida.

A Vanessa também diz de sua justiça aqui.

Churrasco cancelado*



Dotado, como sou, de um espírito empedernido e bruto, não fico indiferente, apesar de tudo, ao dramatismo lancinante de certas situações. Às vezes comovo-me muitíssimo e creio que chego a ser acometido da católica compaixão de que os curas falam nas homilias a favor dos pobrezinhos. Se até as pedras da calçada se arrepiam e choram com o drama do Governo Regional da Madeira, desbaratando notas de euro para resistir à malévola opressão do cont’nente, como poderia eu não verter uma lágrima, ao menos, pelo excruciante sofrimento dos senhores administradores da Galp Energia? Flagelado de cada vez que tenho que meter gasolina, posso bem imaginar o que hão-de padecer esses bons homens que, afinal, estão a sofrer muito mais do que nós, os consumidores, conforme assegurou, na semana passada, Manuel Ferreira de Oliveira, o presidente executivo da referida ordem penitente.

Os Ferreira de Oliveira hão-de ter os corpos cobertos de chagas e pústulas, e dores atrozes de cada vez que fazem variar (normalmente para cima) os preços dos combustíveis. Para se ter uma ideia do que sofrem, e de quão grande pode ser o seu martírio, basta ver que, em 2010, os lucros da empresa aumentaram 43% e chegaram aos 306 milhões de euros. Por isto se chicoteiam os senhores administradores, e se arrastam nus no chão frio de granito, de tal modo que só não se compadece deles quem não tenha coração. Chega a ser pura maldade, aliás, que cada vez mais portugueses prefiram poupar um vil punhado de cêntimos abastecendo-se em Espanha ou em circuitos alternativos, aparentemente indiferentes ao doloroso opróbrio dos Ferreira de Oliveira. Mas chega. Urge que nos reconciliemos com aqueles que sofrem muitíssimo para que o consumidor ingrato possa padecer um bocadinho menos.

Foi pensando nisto, e na injustiça de que tenho sido conivente, que me ocorreu seguir o exemplo do treinador José Mourinho, o qual, para fortalecer o espírito de grupo entre os jogadores do Real Madrid, promoveu recentemente uma providencial churrascada. Mourinho, afinal, tem aparecido por aí com uma pulseirinha de um banco mártir, anunciando o “orgulho em ser português” e convidando-nos subliminarmente a sofrer com ele e com os Ferreira de Oliveira da entidade bancária em apreço. Insensato, cogitei, pois, convocar também um grande barbecue nacional com transmissão televisiva e actuação de Tony Carreira, no qual se desagravariam todos os que têm padecido por nós. Desisti, porém, no exacto momento em que recordei o nosso bem-amado primeiro-ministro precatando-nos contra aqueles que, maléficos, pensam que “podem incendiar as ruas” e mergulhar o país no tumulto. Não há, com efeito, nada mais parecido com o incêndio das ruas do que um grande churrasco na via pública – e a última coisa que pretendo é dar azo a mal-entendidos ou facilitar a vida aos torpes, fornecendo-lhes de mão beijada as brasas do meu churrasco. Limitemo-nos, pois, a aprender com o exemplo de sacrifício dos nossos melhores gestores. Soframos com dignidade, e em silêncio, os sacrifícios que estão para vir.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 4 de Outubro de 2011

Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011

O coiso no Diário Câmara Clara da RTP 2



Uma Mentira Mil Vezes Repetida esteve ontem no Diário Câmara Clara. Ver aqui.

Em alternativa, pode ver-se no blogue da Quetzal.

Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011

Duas perguntinhas sem importância

Assim que me lembre, muito de repente, a Câmara do Porto de Rui Rio já privatizou a recolha do lixo, o Pavilhão Rosa Mota, o Mercado do Bom Sucesso e o Palácio do Freixo, e já tentou privatizar o Mercado do Bolhão e o Rivoli. A habitação social, a água e os esgotos, bem como a “animação da cidade”, também foram passadas para o controlo de empresas municipais. A reabilitação da Baixa e do centro histórico é igualmente competência de uma entidade externa. Agora vão ser privatizados os parquímetros. Mais do que saber se me esqueço de alguma coisa, ou se há ainda alguma actividade da autarquia que falte privatizar (a polícia municipal é capaz de interessar à “iniciativa privada”), creio que talvez devamos começar a perguntar-nos para que serve a Câmara do Porto. E para que servem exactamente os impostos que pagamos.

Dois gatos*



Uma destas manhãs, numa janela pela qual passei, reparei em dois gatos que estavam postos ao sol sobre o parapeito, do lado de cá das cortinas fechadas (e do lado de lá do vidro sobre o qual o sol incidia com a força das quase dez horas). Um dos bichanos, talvez por ser domingo ou assim, estava ainda enroscado sobre si mesmo e dormindo acintosamente de costas voltadas para os transeuntes num tufo de pêlos e riscas de duas cores, se são realmente cores aquilo que dá tom aos gatos. O outro, porém, já se achava desperto e sentado sobre as patas de trás, com a cabeça erguida e o olhar curioso e atento a tudo o que acontecia cá fora, fosse um pássaro bicando o chão em busca de sementes, um homem parvo passando, uma folha que caísse, uma nuvem transitória, o rumor das folhas ou apenas a intensa reverberação de algum raio de sol na vidraça da janela.

Fui pôr o motor do carro a trabalhar, como convém a quem quer ir do ponto A ao ponto B sem ter que fazer quase nenhum esforço, mas, algo insensatamente, dei por mim a pensar nos gatos da janela e, pior do que isso, a tentar ver neles como que a imagem ou a metáfora de algo que lhes não pode ser mais alheio: a espécie humana, ou lá que raio é isto de que, homens e mulheres, fazemos vagamente parte. Vi, ou quis ver, no gato acordado e atento o indivíduo empreendedor e vivaz, o que se move e, movendo-se, faz o mundo girar, atribuindo do mesmo passo ao felino que dormia as características intrínsecas de outro género de pessoas, mais concretamente aquelas que esperam que as coisas sucedam por elas mesmas e que sabem que o sol não carece da atenção dos terráqueos na hora de se pôr ou nascer; os sujeitos, enfim, que não vêem nenhum interesse no denodo ou no esforço e que, portanto, correspondem com um desdenhoso encolher de ombros aos entusiasmos sinceros daqueles que, tomando o primeiro raio de sol da manhã, percebem nisso uma bênção quotidianamente repetida e, nem por isso, menos espantosa ou digna de celebração.

Estava, pois, contemplando os dois gatos na janela - ou já nem isso, elucubrando apenas a partir da primeira imagem que deles tive e meditando sobre em qual dos gatos me seria mais conveniente rever-me, se no que já estava desperto, atento e empreendedor, se no que repousava ainda e não queria saber de afã ou excitação nenhuns, posto que a ração deles de cada dia haveria de estar regularmente posta para um e outro indiferentemente da hora de despertar ou da excitação que demonstrassem - quando, levantando outra vez os olhos para o parapeito em que eles estavam, notei que o gato vivaz tinha voltado, também ele, a enroscar-se ao sol e que, muito provavelmente, dormitava já tanto como o outro, sonhando, talvez, com bichanas de pêlo negro e olho azul, ou com insinuantes felinas angorá, e esforçando-se, isso sim, para que o barulho da porta do prédio não voltasse a arrebatá-lo ao perfeito mundo dos sonhos, aonde não há crises nem austeridade, nem mercado cambial ou agências de rating ensandecendo a república.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 30 de Agosto de 2011

Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

Imagine-se que há quem ainda se lembre de que o autor do coiso até ganhou, em tempos, o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco. Ninharias...



Uma Mentira Mil Vezes Repetida numa breve passagem pela Livraria Ideal da TVI 24. Ver aqui.

Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

O que somos*



A primeira vez que fui a Cabo Verde viajei na voz da Cesária Évora. Ela estava cantando descalça no palco do Coliseu do Porto e eu fiquei de pé, escutando-a num canto da sala, como embalado por aquela melodia suave e doce que é a morna. Não sabia, então, quase nada sobre Cabo Verde, e só muitos anos depois juntei o sussurro daquela música ao calor e às pessoas reais que compõem o arquipélago – aos sorrisos; aqueles sorrisos não se esquecem. Aconteceu-me com a terra da morna, portanto, uma espécie de amor à segunda vista: cruzámo-nos por acaso, pisquei-lhe o olho e talvez lhe tenha dito como me parecia bonita. Mas só quando nos revimos, anos depois, eu percebi completamente o significado do primeiro encontro e soube que Cabo Verde era um sítio onde (inexplicavelmente) estou em casa.

Quando fui a Cabo Verde em 2005, mais de dez anos depois de ter ouvido nha Cesária, o guia turístico que acompanhava os jornalistas apontou um edifício de três pisos numa avenida do Mindelo e disse-nos que aquela era a casa da “diva dos pés descalços”. Não era um prédio bonito, mas guardei uma imagem viva e nítida das paredes castanhas e do gradeamento da entrada. Três anos depois voltei ao Mindelo e fiquei alojado numa residencial com um pátio a partir do qual parecia possível ver quase tudo, o Monte Cara e a ilha de Santo Antão, a baía e o Porto Grande, e também, ali mais perto, a casa de Cesária. Convencido de que o lugar dos deuses é sempre no topo da montanha mais alta, dominando, majestoso, a paisagem e os homens, pareceu-me despropositado poder ver o Olimpo ali em baixo, em plano picado. Mas não dei importância ao assunto. Sou um pagão pouco dado a cultuar ídolos, mesmo se Cesária Évora, quando a vejo na televisão, me parece uma divindade saída de um molde antigo, milenar, movendo-se com vagar, falando lentamente e desenhando no ar misteriosos gestos com os dedos grossos carregados de anéis brilhantes.

Mais recentemente, enquanto corria à beira-mar, dei por mim a escutar nha Cesária cantando Zebra, uma morna em que interroga o estranho equídeo listrado e tenta compreender o que ele é – “Cuzé qui bo é /Qui ta matan nha pensar” –, repetindo no refrão, uma e outra vez, aquela palavra, zebra, de um modo que se tornou estranhamente hipnótico. Como andava, então, às voltas com a escrita de um romance no qual todas as histórias haviam de ser plausíveis, dei por mim a imaginar que a zebra não era um animal selvagem, mas antes um homem mestiço, crioulo, e que as cores das suas riscas eram como a memória óbvia e clara das duas raças, branca e negra, que tinham estado na sua origem. Inventei ali mesmo, enquanto corria, a história do homem-zebra, a qual abre o tal livro, que acaba de ser lançado.

No mesmo dia em que o romance chegou às livrarias, soube que Cesária Évora anunciou o fim da sua carreira e, menos de 24 horas depois, que tinha sido internada em Paris com um AVC. Nha Cesária ligada a uma máquina é uma coisa que faz pensar. Imaginei-a como um ser listrado de vida e de morte: uma zebra. É o que somos todos.

*Crónica publicada no P2 do Público, no dia 27 de Setembro de 2011

Sábado, 1 de Outubro de 2011

O coiso está hoje na Actual do Expresso e no LiV do i. Ena! (actualizado)



O texto do José Mário Silva já pode ser lido aqui.