Sou, bem sei, um pouco antigo. Estou também, não posso negá-lo, algo fora de moda. Ainda sou do tempo em que a realidade tinha um sentido mais ou menos unívoco e um peso vinculativo próximo da necessidade lógica.
Estando a chover, por exemplo, era necessário que um cidadão se abrigasse ou usasse um guarda-chuva se não quisesse acabar molhado. Que remédio...
Mas agora não.
Chovendo concreta e realmente, é sempre possível que o Governo argumente que isto não é exactamente chuva, antes uma precipitação passageira, ligeira, perfeitamente legítima, ponderada e da qual o país se pode e deve orgulhar, encharcando-se e constipando-se patriótica e ordeiramente. Talvez a chuva nem sequer molhe, argumentará um ministro, que não quererá ficar atrás de outros alienados mais radicais.
Nem necessitam, estes, de pôr o nariz fora da porta. Garantirão que, seja como for, a chuva é obra e invenção de extremistas esquerdalhos, drogados e sujos. Jurarão mesmo que a chuva não existe e que, havendo quem insista no contrário, será necessário e urgente que passem a cair picaretas.
Eis o mundo em que nos calhou viver.