quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Livrai-nos dos lacaios da IA

 Hoje, na mesma edição do El País em que se acumulam as reacções e as reflexões provocadas pela morte de Maricarmen (a quase nonagenária a quem um fundo de investimento vampírico aumentou de forma incomportável a renda da casa onde vivia há 71 anos, despejando-a depois de forma desumana, muito doente e, pelos vistos, à beira de morrer), ficava-se também a saber que a IA já começou a alugar seres humanos para desempenhar tarefas que não consegue realizar pelo simples facto de (ainda) não ter um corpo. De acordo com a notícia, a plataforma RentAHuman pagou 9 euros a alguém no Porto para caminhar em círculos diante da câmara municipal durante dez minutos e gravar um vídeo. 

Não tardará muito, por isso, para que a IA ao serviço dos fundos de investimento alugue humanos dispostos a apressar a morte das Maricarmens do mundo que estejam a atrapalhar a rentabilidade do património imobiliário, sufocando-as com uma almofada durante o sono ou empurrando-as pelas escadas abaixo (e evitando, assim, as notícias desagradáveis que os despejos coercivos tendem a gerar). Tratar-se-á, no fundo, de transportar para a vida quotidiana a mesma lógica que Israel impôs em Gaza, usando soldados reais e humanos para cumprir as ordens de execução sumária de inocentes ditadas pelo todo-poderoso algoritmo. 

Lembrei-me também, claro, da notícia segundo a qual o livreiro e editor Cruz Santos será em breve despejado do espaço ocupado pela portuense Livraria Modo de Ler, cujo acervo, para além de mais, poderá contribuir com várias raridades bibliográficas para a instrução da IA. Espero, ainda assim, que nenhum lacaio imbecil alugado por 9 euros procure apressar o despejo do alfarrabista. Embora ele não me conheça, aprecio bastante quando coincidimos no mesmo restaurante à hora de almoço e folgo ver, nessas ocasiões, o senhor Cruz Santos ainda disposto a aviar petingas fritas e outras minúcias gastronómicas.