quarta-feira, 29 de abril de 2026

T1 10 viagens, até ao fim

 Herdei há alguns meses, do meu filho (sei que é estranho), três romances do Virgílio Ferreira em razoável estado de conservação. Ontem, folheando o Até ao Fim, encontrei um antigo título T1 de 10 viagens, todas devidamente obliteradas nas máquinas que então existiam nos autocarros da STCP. Analisando as marcações do verso, percebi que o livro ou a senha hão-de ter pertencido a alguém que, entre os dias 12 e 17 de Abril de um ano qualquer anterior a 2002, gastou aquelas dez viagens deslocando-se maioritariamente nas antigas linhas 20 (Corujeira-Baixa) e 37 (Baixa-Campo Alegre), quase nunca antes do meio-dia, muitas vezes depois das 19 horas. Imaginei uma estudante de Letras lendo o romance a caminho (ou de regresso) da Faculdade, a cabeça encostada à vidraça panorâmica, mais próxima da capela à beira-mar - onde jaz, em câmara ardente, velado apenas pelo pai, o corpo de Miguel - do que das igrejas do Carmo ou dos Congregados. Uma outra (e outra e outra) história poderia, pois, começar a contar-se entre as folhas do velho livro, assim multiplicado para além do comum: inventar-se-ia, para além do rosto de Cláudio, de Flora, de Miguel e de Oriana, também a face da passageira leitora, os seus sonhos e os seus amores, talvez um nome que não fosse breve, o aflorar de um sorriso quando alguém lhe perguntasse se estava a gostar do romance - e todas as demais mentiras que a ficção engendra. Talvez, apesar de tudo, continue a fazê-lo, se calhar até ao fim ou até me sentir tão gasto e velho como uma senha T1 de 10 viagens da STCP. Não falta muito.