Terça-feira, 26 de Maio de 2009
O yeti
Há uma coisa que sempre me intriga bastante nas campanhas eleitorais: chamem-se os indivíduos Rangel ou Portas, Sócrates ou Leite, Mendes ou outra coisa qualquer, os representantes dos partidos do costume expressam sempre um enorme apreço por aqueles empresários que "produzem riqueza". Curiosamente, não se lhes houve nunca uma palavrinha que seja sobre empresários que distribuam riqueza. Suponho que ainda não tenham encontrado nenhum.
Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
Nas árvores
Sabeis perfeitamente como é: títulos de livros como O Barão Trepador, do Italo Calvino, têm sempre uma curiosa ressonância fescenina, eventualmente provocada pela exposição prolongada ao Português do Brasil. Vai daí que um tipo, mesmo sabendo que O Barão Trepador há-de ser um livro relativamente sério e metafórico, parábola da condição humana e tal, não resiste à sugestão dos saldos e das promoções e leva o livro para casa, deixa-o conquistar a primeira camada de pó sobre a estante, no monte provisório dos livros a ler, e ganhar, enfim, a dignidade blasé de uma biblioteca cuidadosamente desarrumada. Consumado o estágio, chega, enfim, a vez de O Barão Trepador passar para cima da mesa de jantar, para o porta-luvas do carro, para o sol da Praia dos Ingleses, para o lavatório da casa de banho e para as nódoas de gin-tónico e cerveja. O Barão Trepador é já um objecto utilitário, quotidiano, prático, flexível como um par de cuecas, coisa que nenhum kindler, nenhum readerxpto jamais alcançará, e aí está contando-nos a sua história, ou melhor, a história de um jovem aristocrata que, num acto de rebeldia adolescente, decide passar a viver em cima das árvores sem jamais pôr um pé no chão, orgulhoso como o raio; que vive uma existência paralela, selvagem, algo tola, em cima das árvores, um pouco à imagem de certos indivíduos que têm existências muito aborrecidas e desinteressantes e, ainda assim, vivem em cima dos ramos dos blogues como se o mundo ainda pudesse ser um sítio bestialmente divertido e vibrante. Nenhum de nós, porém, é tão valente como Cosimo, o rapazinho do romance: aqui vimos todos os dias fazer de conta que vivemos nas árvores e que alguém nos lê e se interessa, mas logo voltamos para o chão, para a terra firme da normalidade sem graça.
Segunda-feira, 18 de Maio de 2009
Apaneleirar-se
Quando recebeu um inquieto telefonema de Javier Marías, preocupado com o tom confessional e doméstico de duas crónicas recentes, o escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte reconheceu que Marías tinha razões para estar preocupado. “Vou tentar estar mais atento, estou a apaneleirar-me”, respondeu (gargalhando, parece).
A história vem contada num número recente do El País Semanal, narrada pelo também escritor espanhol Javier Marías, e li-a instantes depois de ter passado os olhos pelas primeiras linhas de um artigo da revista Pública dedicado ao atroz sofrimento que, pelos vistos, acomete polvos, lulas e crustáceos antes de nos aterrarem no prato. Se tal descoberta científica vier a ser confirmada, avisa a minha colega Clara Barata, a nossa ementa poderá sofrer alterações.
Cercado pelos diversos confortos e mimos da tecnologia, posso, é verdade, estar a apaneleirar-me um pouco em algumas coisas, mas não vejo, ainda assim, como pode a minha ementa mudar só porque passei a acumular a informação segundo a qual o meu polvo de escabeche teve um sobressalto doloroso antes de ser morto e congelado dentro de uma embalagem colorida. Suponho que isto faça de mim um ser miserável, bruto e insensível, mas já ouvi os lancinantes guinchos de um porco na matança e nem por isso me tenho abstido de apreciar bestialmente as mais diversas (e impuras) partes do animal – porque gosto e porque temo que, um dia destes, os cientistas descubram também que os vegetais em geral e o tofu em particular sofrem tremendamente enquanto são arrancados, lavados e cozinhados (e prefiro não ficar, nessa altura, confrontado com a inevitabilidade de ter que comer esterco, pelo menos enquanto alguém não se lembrar de demonstrar cientificamente que os quadrilhões de bactérias que há no excremento sofrem também atrozmente enquanto são deglutidos pelos humanos, esses predadores insaciáveis).
Preferia de bom grado não fazer aqui o papel do sujeito que abana a cabeça e sentencia que “o mundo está perdido”, mas a verdade é que, às vezes, parece mesmo que as coisas ameaçam escapar ao entendimento comum de um animal que sobreviveu e se fez dominante pela sua espantosa capacidade para se adaptar a condições extremas e comer aquilo que fosse preciso para obter uma quantidade razoável de proteínas.
Felizmente, basta uma descida regular ao mundo real para que fique claro que há sempre quem mantenha aceso o orgulhoso facho da espécie, mesmo em condições particularmente penosas. Lembro-me agora, assim de repente, de um cidadão de Miragaia que, há dias, recebendo em sua casa um político da oposição, mostrou, como de costume, as paredes enegrecidas pela humidade, os móveis desconjuntados e o soalho em mau estado. Quando o vereador se despedia e abandonava o tugúrio, o homem bateu-lhe nas costas e ilustrou de viva voz a pulsão que tem assegurado, desde o mais profundo negrume dos tempos, a preservação da espécie: “Se eu tivesse o seu lombo, engenheiro, ainda fazia um par de gémeos à minha mulher”. Haja esperança, portanto.
A história vem contada num número recente do El País Semanal, narrada pelo também escritor espanhol Javier Marías, e li-a instantes depois de ter passado os olhos pelas primeiras linhas de um artigo da revista Pública dedicado ao atroz sofrimento que, pelos vistos, acomete polvos, lulas e crustáceos antes de nos aterrarem no prato. Se tal descoberta científica vier a ser confirmada, avisa a minha colega Clara Barata, a nossa ementa poderá sofrer alterações.
Cercado pelos diversos confortos e mimos da tecnologia, posso, é verdade, estar a apaneleirar-me um pouco em algumas coisas, mas não vejo, ainda assim, como pode a minha ementa mudar só porque passei a acumular a informação segundo a qual o meu polvo de escabeche teve um sobressalto doloroso antes de ser morto e congelado dentro de uma embalagem colorida. Suponho que isto faça de mim um ser miserável, bruto e insensível, mas já ouvi os lancinantes guinchos de um porco na matança e nem por isso me tenho abstido de apreciar bestialmente as mais diversas (e impuras) partes do animal – porque gosto e porque temo que, um dia destes, os cientistas descubram também que os vegetais em geral e o tofu em particular sofrem tremendamente enquanto são arrancados, lavados e cozinhados (e prefiro não ficar, nessa altura, confrontado com a inevitabilidade de ter que comer esterco, pelo menos enquanto alguém não se lembrar de demonstrar cientificamente que os quadrilhões de bactérias que há no excremento sofrem também atrozmente enquanto são deglutidos pelos humanos, esses predadores insaciáveis).
Preferia de bom grado não fazer aqui o papel do sujeito que abana a cabeça e sentencia que “o mundo está perdido”, mas a verdade é que, às vezes, parece mesmo que as coisas ameaçam escapar ao entendimento comum de um animal que sobreviveu e se fez dominante pela sua espantosa capacidade para se adaptar a condições extremas e comer aquilo que fosse preciso para obter uma quantidade razoável de proteínas.
Felizmente, basta uma descida regular ao mundo real para que fique claro que há sempre quem mantenha aceso o orgulhoso facho da espécie, mesmo em condições particularmente penosas. Lembro-me agora, assim de repente, de um cidadão de Miragaia que, há dias, recebendo em sua casa um político da oposição, mostrou, como de costume, as paredes enegrecidas pela humidade, os móveis desconjuntados e o soalho em mau estado. Quando o vereador se despedia e abandonava o tugúrio, o homem bateu-lhe nas costas e ilustrou de viva voz a pulsão que tem assegurado, desde o mais profundo negrume dos tempos, a preservação da espécie: “Se eu tivesse o seu lombo, engenheiro, ainda fazia um par de gémeos à minha mulher”. Haja esperança, portanto.
Sexta-feira, 15 de Maio de 2009
Cindy
O Teatro Anatómico, sabei-lo bem, alimenta com denodo a sua função social. Não sei bem qual seja, mas suspeito que tenha alguma coisa a ver com essa teoria segundo a qual a escrita tem uma função terapêutica e previne, por isso, o opróbrio da loucura. Consequentemente, a simples existência e manutenção deste blogue adquire também uma dimensão económica: poupam-se uns trocos na conta da luz do serviço nacional de saúde por conta dos electrochoques adiados.
Ainda assim, o desígnio prioritário deste recanto virtual é, continua a ser, a sua profunda dimensão ética, estética e artística, assumindo-se o Teatro Anatómico como o ninho morno aonde as mais diversas manifestações culturais podem medrar e florescer. Vem tudo isto a propósito, evidentemente, do facto de ontem ter havido Quintas de Leitura no Teatro do Campo Alegre, tendo sido bestialmente agradável ouvir o Samuel Úria a cantar Paco Bandeira e Álvaro Domingues a ironizar sobre o bizarro país que cresceu nas margens da rua da estrada.
Se, em todo o caso, ainda não estão a ver aonde é que eu quero chegar com isto, importa referir, com a circunspecção possível, que a mais gloriosa literatura da noite foi a fulguração breve e a meia-luz do corpo de Cindy, a moça que passava diante da plateia anunciando os artistas num quadro com uma moldura de lâmpadas, compondo uma alegoria estética que combinava sabiamente o boxe em versão Las Vegas e o lupanar sofisticado. Pelo Teatro do Campo Alegre, não se duvide, têm passado muitos artistas extraordinários e grandes poetas, mas a silenciosa Cindy é, decerto, um dos melhores poemas que eu ali escutei.
Ainda assim, o desígnio prioritário deste recanto virtual é, continua a ser, a sua profunda dimensão ética, estética e artística, assumindo-se o Teatro Anatómico como o ninho morno aonde as mais diversas manifestações culturais podem medrar e florescer. Vem tudo isto a propósito, evidentemente, do facto de ontem ter havido Quintas de Leitura no Teatro do Campo Alegre, tendo sido bestialmente agradável ouvir o Samuel Úria a cantar Paco Bandeira e Álvaro Domingues a ironizar sobre o bizarro país que cresceu nas margens da rua da estrada.
Se, em todo o caso, ainda não estão a ver aonde é que eu quero chegar com isto, importa referir, com a circunspecção possível, que a mais gloriosa literatura da noite foi a fulguração breve e a meia-luz do corpo de Cindy, a moça que passava diante da plateia anunciando os artistas num quadro com uma moldura de lâmpadas, compondo uma alegoria estética que combinava sabiamente o boxe em versão Las Vegas e o lupanar sofisticado. Pelo Teatro do Campo Alegre, não se duvide, têm passado muitos artistas extraordinários e grandes poetas, mas a silenciosa Cindy é, decerto, um dos melhores poemas que eu ali escutei.
Quinta-feira, 14 de Maio de 2009
Ginecologia
A despeito da quase patológica atenção a tudo o que diga respeito à problemática sanitária e às questões conexas, o Teatro Anatómico, com o desassombro que lhe é característico, não vê nenhum mal no facto de um grupo de ginecologistas portugueses ter ido a um congresso à Malásia e de, ali, ter efectuado uma expedição a uma ilha paradisíaca e participado numa festarola em que os clínicos se disfarçaram de piratas. Conhecendo-se o terror patológico que algumas mulheres nutrem pela figura do ginecologista, parece que o uso de disfarces divertidos pode contribuir decisivamente para desdramatizar e aligeirar a sempre traumática relação médico-paciente, à imagem do que já vem sendo praticado por alguns pediatras e dentistas. Não tenhamos qualquer dúvida: um papa nicolau pode transformar-se, por exemplo, numa lúdica incursão à gruta do tesouro dos piratas das Caraíbas, desde que, evidentemente, haja da parte do ginecologista o bom senso de não aparecer disfarçado de Capitão Gancho.
Segunda-feira, 11 de Maio de 2009
Prémio "Ainda bem que avisas, que eu estava a pensar levar a hemorróide ao santuário"
“A peregrinação não é uma varinha mágica que soluciona todos os problemas”, avisa o bispo de Leiria-Fátima
Quinta-feira, 7 de Maio de 2009
Dinaura
Calmai-vos, cafajestes, que Dinaura não é o nome de nenhuma desnuda garota da Playboy. É a personagem (misteriosa, bela, esquiva, o olhar com a força do desejo) de Orfãos do Eldorado, o mais recente livro do brasileiro Milton Hatoum, em função da qual Arminto Cordovil consome a vida e a fortuna do pai. Para quem conheça os livros anteriores de Hatoum, Relato de um certo Oriente, Cinzas do Norte e Dois Irmãos, não será novidade a extrema elegância deste autor, que aqui narra como quem simplesmente recorda uma história à sombra de um jatobá. Para quem não conheça, fica o conselho amigo e grátis: nunca é tarde para começar.
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