Amigos preocupados com o teor do post "Sintomatologia", aí abaixo, contactaram-me já, ora desaconselhando o canídeo desvario, ora oferecendo-me um gato em vez de um cão. Conhecendo-me, deviam saber que sou um indivíduo exagerado e algo ficcional (pelo menos três quartos das minhas costelas são pura literatura - embora, bem sei, de fraca qualidade), mas, ainda assim, sobressaltam-se com as minhas declarações insensatas e sem ponta por onde se lhes pegue, o que, de certo modo, me comove um pouco. Estejam descansados. Já estou medicado e em tratamento. Vai ficar tudo bem.
(Em caso desesperado, posso sempre fazer festinhas à minha garrafa de uísque de malte, conversar com ela e levá-la a passear no bolso do casaco)
Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
Sintomatologia
Um tipo pode perfeitamente começar a desconfiar da sua própria saúde psíquica quando recebe um e-mail oferecendo exemplares de uma bela ninhada de golden retriever e, em vez de fazer o que sempre faz (ignorar olimpicamente), chega a ponderar na oportunidade de se fazer proprietário de um animal que terá de levar à rua duas ou três vezes por dia, chova ou faça sol, 365 dias por ano, e ainda que alimentar, lavar e limpar as respectivas porcarias, vacinar, educar, tratar e eu sei lá mais o quê. Espero que vendam alguma droga que ajude a ultrapassar esta crise.
Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009
Mariano Gadget
Há alguma informação essencial que só se encontra no Correio da Manhã. Onde mais nos poderia ser revelado que a casa do ministro Mariano Gago foi assaltada na segunda-feira e que os larápios se limitaram a roubar “um casaco valioso”?
O caso pode parecer trivial, mas não é. Apesar de as evidências o desmentirem, há quem assegure que Mariano Gago é mesmo ministro e que, para além disso, acumula as pastas do Ensino Superior e da Ciência. Eu creio que são apenas boatos: os cargos públicos que Mariano Gago finge ocupar, bem como o ar apatetado, o bigode e os óculos graduados, são apenas parte de um engenhoso disfarce. Mariano Gago é, na verdade, um super-herói; uma espécie de inspector Gadget, com um casaco dotado de vários recursos tecnológicos, efeitos especiais e artimanhas mirabolantes, mas possuidor, ainda por cima, dos super-poderes conferidos por um curso superior, um bacharelato e um doutoramento.
Agora que o valioso casaco de Mariano Gago caiu nas mãos das forças do mal, temo sinceramente pela pátria. O que vai ser de nós?
O caso pode parecer trivial, mas não é. Apesar de as evidências o desmentirem, há quem assegure que Mariano Gago é mesmo ministro e que, para além disso, acumula as pastas do Ensino Superior e da Ciência. Eu creio que são apenas boatos: os cargos públicos que Mariano Gago finge ocupar, bem como o ar apatetado, o bigode e os óculos graduados, são apenas parte de um engenhoso disfarce. Mariano Gago é, na verdade, um super-herói; uma espécie de inspector Gadget, com um casaco dotado de vários recursos tecnológicos, efeitos especiais e artimanhas mirabolantes, mas possuidor, ainda por cima, dos super-poderes conferidos por um curso superior, um bacharelato e um doutoramento.
Agora que o valioso casaco de Mariano Gago caiu nas mãos das forças do mal, temo sinceramente pela pátria. O que vai ser de nós?
Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009
A neve a que temos direito
Como se fôssemos crianças outra vez, e capazes do inocente deslumbramento diante das coisas simples e belas do mundo, fomos para a janela ver os minúsculos flocos de neve que a manhã trouxe. Eram como bolinhas de esferovite que derretiam assim que tocavam o chão, as árvores e os telhados, mas eram a neve a que temos direito. Fomos para as janelas e sorrimos patéticos - parolos.
Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009
A crise, outra vez
Tínhamos sido avisados: a crise, a recessão e a penúria estavam aí ao virar da esquina e, como costuma dizer-se, a procissão ainda vai no adro. As consequências de uma situação que, nas sábias palavras do senhor primeiro-ministro, “só se vive uma vez na vida”, são imprevisíveis e devastadoras. Nos EUA, depois da derrocada fragorosa da indústria automóvel, também a indústria da pornografia está em dificuldades. Larry Flint, o mítico Larry Flint, garante, segundo o Guardian, que a crise também atingiu a boca do estômago dos amantes deste género artístico e pede, por isso, um apoio de cinco mil milhões de dólares que permita salvar a indústria do entretenimento sexual. O Teatro Anatómico associa-se, claro, a esta causa humanitária: é absolutamente crucial que grandes artistas como Jenna Jameson, na imagem acima, possam continuar vivendo com dignidade e sem o estigma do desemprego e da exclusão social pairando sobre as respectivas cabeças.
Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009
Casa de mulheres
Uma base militar argentina na Antárctida, situada em plena barreira de gelo de Larsen, foi esta semana ocupada por uma guarnição exclusivamente feminina. As moças tiveram um treino rigoroso e vão agora enfrentar um quotidiano de isolamento, frio, neve e gelo. Ah!, bem sei que os cafajestes estarão já a ter ideias sobre como podem as valentes militares iludir o rigor climatérico de forma lúdica, mas o caso é sério. Em Buenos Aires, por exemplo, discute-se a brutal segregação que o original contingente consubstancia. Em nome de algum tipo de paridade representativa, conviria que ao menos um macho tivesse ido na comitiva, quanto mais não fosse para, sei lá, ajudar a derreter o gelo.
Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009
Zélia (e o youtube)
Os loucos vivem mais do que os outros? Não sei. Lembro-me apenas de que Zélia já não era uma mulher nova quando nos pedia cigarros à porta da escola e à porta dos bares de Ribeira. Mas não imagino que idade possa Zélia ter agora. Seja como for, lembrei-me hoje de Zélia outra vez, vinte anos depois, porque a minha filha, que anda agora na mesma escola em que eu andei, me falou de Zélia e parece que ela continua a pedir cigarros aos alunos. Há vinte anos, lembro-me de que Zélia dizia sempre a mesma frase, “dá-me um cigarro, filhinho", e que, às vezes, nos oferecia o pito em troca do tabaco — mas isto talvez o tenha inventado eu; talvez Zélia se limitasse, como parece que ainda faz, a aceitar levantar a saia encardida e a mostrar o pito feio e triste de mulher louca, que talvez seja o único pito a que têm direito os homens loucos que, como Zélia, vagueiam pela cidade pedindo cigarros e moedas. Sim. Talvez fosse só isso: Zélia levantava a saia e mostrava o pito se o quiséssemos ver. Mas não sei bem. O que então não fazíamos, mas parece que agora se faz, era filmar Zélia com o telemóvel para, depois, mostrar a sua destrambelhada imagem (e o seu encardido, feio e triste pito) na janela indiscreta do Youtube.
Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009
Ser velho
A. é um cidadão de 112 anos que, na semana passada, se tornou “o homem mais velho de Portugal”. Trata-se de um título pelo qual não lutou e que, eventualmente, nem sequer desejou. A conquista do lugar, por morte da antecessora, foi, porém, suficiente para que A. se tornasse uma estrela e os jornalistas fossem visitá-lo a casa e escrevessem pequenas pérolas surrealistas como aquela que vi transcrita num jornal diário cujo nome não me apetece agora reproduzir, segundo a qual A., limitado à existência que se pode ter com 112 anos vivendo numa cama, pediu à filha uma saia e disse que queria debulhar milho. Trata-se, obviamente, de uma pessoa senil e que, por isso, não tem condições de discernir que tem direito à sua privacidade e a não se ver transformado num cromo para comprazimento geral da nação em período que, por ser festivo, gera fraco caudal noticioso. Houvesse algum pudor – e não apenas essa pequena hipocrisia que determina que não se deve revelar os nomes e os rostos de menores de idade em reportagens – e ter-se-ia deixado o senhor A. em paz. Ter 112 anos e viver como ele vive já é suficiente mau.
Sábado, 3 de Janeiro de 2009
Valsa com Bashir
Assisto a A Valsa com Bashir, do israelita Ari Folman, enquanto as bombas caem sobre Gaza. Não posso dizer quantos mísseis e projecteis terão caído durante a hora e meia que dura o filme. Terão sido muitos. Algumas pessoas reais terão perdido a vida enquanto um desenho animado tenta recuperar a memória perdida do massacre de Sabra e Shatila.
Em 1982, a aliança de israelitas e milícias católicas permitiu a chacina de entre 328 e 3.500 pessoas (conforme as versões). Em Gaza, agora, terão já perdido a vida cerca de 400 pessoas, contando-se mais 1.450 feridos. E o exército ainda nem sequer disparou um tiro.
Os episódios são naturalmente incomparáveis, mas a experiência tem algo de estranho, de radicalmente violento (no sentido mais silencioso e subterrâneo da expressão). Quando o filme termina, com as imagens reais de mulheres árabes libanesas gritando os seus mortos, não tive vontade de me levantar e sair da sala. Ninguém se levantou, aliás, até que um funcionário do cinema tivesse vindo abrir a porta, empurrando a luz e a normalidade do quotidiano para dentro da sala - para dentro de nós.
Em 1982, a aliança de israelitas e milícias católicas permitiu a chacina de entre 328 e 3.500 pessoas (conforme as versões). Em Gaza, agora, terão já perdido a vida cerca de 400 pessoas, contando-se mais 1.450 feridos. E o exército ainda nem sequer disparou um tiro.
Os episódios são naturalmente incomparáveis, mas a experiência tem algo de estranho, de radicalmente violento (no sentido mais silencioso e subterrâneo da expressão). Quando o filme termina, com as imagens reais de mulheres árabes libanesas gritando os seus mortos, não tive vontade de me levantar e sair da sala. Ninguém se levantou, aliás, até que um funcionário do cinema tivesse vindo abrir a porta, empurrando a luz e a normalidade do quotidiano para dentro da sala - para dentro de nós.
Tratar do físico
Os resultados de uma pesquisa levada a cabo por investigadores da Universidade do Porto, publicados na revista científica Journal of Agricultural and Food Chemistry, demonstram que a quantidade de substâncias cancerígenas que diariamente ingerimos pode ser significativamente reduzida se a carne for posta a marinar em vinho ou cerveja antes de ser cozinhada. Palavra de honra: tenho, de modo totalmente empírico, aplicado o método à minha própria carne e gozo de uma saúde invejável.
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