A última fotografia do livro Dias Felizes, do fotógrafo Egídio Santos, mostra, na contracapa, alguns vultos humanos em contraluz e, ao fundo, uma frase que parece pintada, em cursivo, na parede branca de um lavatório: «Façam o mundo melhor, ouviram?».
Trata-se, como as restantes imagens do livro, de uma fotografia captada na Festa do Avante, que o Egídio visita desde 1988.
Fazer do mundo um sítio melhor devia ser um imperativo categórico (não necessariamente kantiano) de qualquer forma de vida racional e minimamente humana. Não parece sê-lo, porém, para a maioria dos espécimes, que ou não são humanos, ou não são racionais, ou já não sabem bem que coisa possam ser, talvez hologramas instagramáveis, talvez máquinas de morte, talvez caixas registadoras, se calhar simples filhos da puta (em alguns casos sem culpa das respetivas mães).
À pergunta (ouviram?), obviamente retórica, o mundo - sacudido por bombas, entorpecido pelo zumbido assassino dos drones - responde em silêncio e faz ouvidos moucos.