sexta-feira, 6 de março de 2026

A minha tanga

 Com muitíssima frequência, e de modo assaz inquietante, o espaço público vê-se atravancado de reformistas e de outros comentadores avulsos que são também adeptos convictos do reformismo, os quais exigem aquilo a que chamam "a reforma do Estado". Outros, com idênticas intenções, mas desconfiados da literacia político-económica dos portugueses, propõem apenas, e vagamente, "salvar Portugal". 

Une-os um objetivo comum: ascender à posição institucional que permite distribuir tachos e prebendas pelos amigos. Para ser rigoroso, une-os ainda o facto de raramente dizerem com clareza quais as medidas "reformistas" que pretendem adoptar, embora, no fundo, as "reformas" que querem ver concretizadas consistam, no essencial, em reduzir os direitos cívicos e laborais da generalidade dos cidadãos, destruir serviços públicos e dar ainda mais poder discricionário e mais dinheiro a quem já tem demasiado dinheiro e demasiado poder. 

Trata-se, com efeito, de um programa compreensivelmente impopular, caso fosse assumido com frontalidade e tivesse de ser sufragado pelos eleitores. A fim de o evitar, as "reformas" e a salvação de Portugal são utilizadas como as nuvens de fumo tóxico que a polícia de choque lança nas manifestações a fim de confundir e reduzir a visibilidade dos manifestantes. 

Por tudo isto, e para resumi-lo de algum modo, sempre que sou surpreendido pela intervenção pública de um reformista (ou de um salvador da pátria), corro, à cautela, a tirar a minha tanga da naftalina para a deixar a arejar na varanda. Já não deve tardar muito para que nos obriguem a usá-la outra vez.