Com seis consulados (de 190) ainda por apurar, registo que o candidato Ventura tem neste momento menos 111.237 votos do que o seu partido havia conquistado nas eleições legislativas do ano passado. Pode parecer quase nada, mas o facto de mais de cem mil eleitores terem aberto os olhos e deixado de votar num grupo neofascista constitui uma das poucas ocorrências positivas dos últimos anos da democracia portuguesa.
Constatado o óbvio, receio, também pelo motivo que já expliquei, que o candidato Ventura possa mesmo ser eleito presidente da república. Some-se àquela dinâmica a hipocrisia e a indefinição das direitas ditas democráticas, mas realmente incapazes de escolher entre um democrata e um fascista, e temos criadas as condições para que a elevada "taxa de rejeição" do chegano, tão da predilecção das empresas de sondagens e dos paineleiros das televisões, se esfume enquanto o diabo esfrega um olho.
Tinha decidido há alguns dias que só votaria na segunda volta caso se nos apresentasse a alternativa que agora se concretizou: não simpatizando especialmente com Seguro, votarei nele para tentar impedir o absurdo de ver este país regredir e amesquinhar-se de um modo que há alguns anos nos parecia inimaginável.
Votarei, pois, pelos meus filhos, pelo meu neto e pelos filhos e pelos netos de todos aqueles que considero e respeito. Fá-lo-ei também pelos filhos e pelos netos dos cheganos, pois nem eles merecem viver num país governado por pedófilos, ladrões de malas, toureiros, polícias torturadores, agressores domésticos, vigaristas, xenófobos, fascistas e consultores especializados em evasão fiscal. Entendam-no, por favor, como um raro gesto de compaixão de alguém que nem sequer vai à missa ao domingo.