Não é particularmente surpreendente que um jornal com a qualidade do inglês The Guardian tenha centrado o artigo sobre as eleições presidenciais portuguesas na candidatura de Manuel João Vieira e nas suas semelhanças com o Mussolini de Carnaval que dá pelo nome de Ventura (ou Cotrim, na sua versão Cascais e muito melhor vestida). Portugal, com efeito, transformou-se nos últimos anos, e de forma radical, numa sátira de si próprio, rendendo-se à lógica megafónica de um partido composto pelo pior que a sociedade nutriu: pedófilos, ladrões de malas, toureiros, polícias torturadores, agressores domésticos, vigaristas, xenófobos, fascistas e consultores especializados em evasão fiscal.
A responsabilidade pelo estado a que chegamos não é exclusiva, bem entendido, desta gente rasteira que se juntou no Chega à cata de um tacho vindouro (a maior parte desta gente estava antes no PSD e, aliás, com a mesmíssima ambição). As sucessivas governações do PS e do PSD criaram, sim, o ambiente propício para a erupção da raiva e do descontentamento, alimentando uma rede de interesses e conluios, daninha, corrupta e que acabou por minar as fundações do próprio regime democrático (o pior de todos, com a excepção de todos os outros).
Todavia, e mesmo procurando compreender aqueles que, por despeito e desespero, admitem votar no Ventura (ou no Vieira, ou no Cotrim), continua a não ser muito aceitável, do ponto de vista cívico, que um punhado de grunhos irritados prejudique a vida de todo o colectivo, lançando-nos para os braços da selvajaria e do ódio. Estando zangados, tais cavalheiros e damas podem muito simplesmente atirar-se para debaixo de um comboio em andamento, sem prejudicar quem nunca lhes fez mal nenhum e apenas aspira a viver num país decente.
Estamos, bem entendido, cada vez mais distantes desse objetivo. Ao contrário de todos os paineleiros encartados, não me parece demasiado extravagante a ideia de ver Ventura ou o Chega ganharem eleições. Estão cada vez mais perto disso e basta-lhes, vendo bem, juntar os votos daquele PSD e daquele PS que ainda resistem à barbárie, convencendo-os da real possibilidade de, subindo ao poder, ficarem em posição de distribuir os tachos que o PSD e o PS até agora não proporcionaram ou deixaram de proporcionar por força de cómicas cisões internas.
Um país governado pelo Ventura será, sim, uma espécie de piada infinita, necessariamente trágica e cómica. Mas, conforme escreveu Karl Marx (o diabo desta gente), "a História repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa". Já lá vamos.