segunda-feira, 12 de setembro de 2022

O Profeta do Metano e os outros cromos de "Arquibaldo", o novíssimo romance de Carlos Tê

 


Um dia destes, ao subir a Rua de Miguel Bombarda entre as suas galerias de arte e os inevitáveis restaurantes para turistas, escutei, vinda talvez de uma janela, a voz de um homem que excitadamente invocava o nome de deus e exclamava frases como "vem, senhor, e faz em mim a tua obra". Tendo em conta a localização do evento, não fui capaz de discernir se se tratava de um episódio de possessão, de um caso de exorcismo ou de parte de uma peça de arte contemporânea. Mas voltei a lembrar-me da arenga a propósito do Profeta do Metano, uma das impagáveis personagens de Arquibaldo, o recente romance de Carlos Tê.

Célebre sobretudo enquanto brilhante letrista de canções, Carlos Tê compõe em Arquibaldo um romance onde se misturam a agudeza da observação, a riqueza vocabular, a ironia e o humor, a inteligência, a cultura, o apego pelos pequenos nadas que compõem a identidade de uma cidade e uma espécie de non-sense que faz lembrar os diálogos do cineasta João César Monteiro, um pouco como se João de Deus tivesse saltado do manicómio para a função de assistente social em Campanhã.

Arquibaldo, explique-se, é uma espécie de alter-ego de Francisco Frade, o assistente social a braços com "brechas da realidade" e que talvez seja vagamente inspirado (ou não) no comendador José António Pinto, comummente conhecido pela alcunha de Chalana (Arquibaldo, aliás, é a declinação lusa do nome de um outro futebolista, o escocês Steve Archibald). O alter-ego intromete-se amiúde na narrativa, sendo da sua lavra várias reflexões filosóficas que em nada desmerecem os divertidos diálogos do romance, que se assemelham frequentemente a inspiradas trocas de epigramas.

Não faltam ao (por vezes críptico) enredo, entre outros, um proxeneta, um polícia clarinetista, um engraxador vesgo que declama poemas, autarcas a braços com um observatório, um padre tatuado, bebedores de vinho Castelões, um psicólogo, um artista de graffiti e várias mulheres (incluindo uma ceramista, uma prostituta em processo de reintegração social, uma jornalista-arrivista e uma polícia alquebrada acusada de violência doméstica). Também há memórias de pogroms, perseguições e teimosias da História.

Um dos cromos da galeria, Emídio, um escritor, justifica-se a dado passo dizendo que polui as livrarias com mais um romance porque se fode pouco nas nossas letras. Com igual acerto se poderá dizer que há pouco Porto na literatura portuguesa, lamentável lapso que, com Arquibaldo, Carlos Tê procura amenizar . Bem haja. 


PS: por falar em literatura, não posso deixar de lamentar a morte de Javier Marías, um dos mais notáveis escritores da actualidade e um mortal cujos livros são absolutamente inesquecíveis.