quarta-feira, 15 de junho de 2022

Contingências aéreas


Seja porque os atacam enquanto ainda são pequenos, porque caiam dos ninhos, porque se suicidem ou porque o calor os fulmine em pleno voo, tenho visto vários pássaros mortos nas calçadas da vila. Só na minha rua encontrei já quatro, quase todos de tenríssima idade, no espaço de poucas horas — e nem os gatos lhes pegam, sequer aquele vadiola que sempre se refugia no matagal de uma ruína. Penso nesses pássaros, nas suas mortes, e comparo-os com as revoadas chilreantes das andorinhas cruzando o ar da vila em várias direcções, ou com a algazarra das cegonhas percutindo os bicos enquanto estão nos ninhos. Parecem animais de diferentes espécies, mas sei que a diversidade decorre apenas do facto de uns estarem vivos e os outros terem sido abandonados pelo sopro, pelo ânimo que a vida lhes dava.