terça-feira, 8 de março de 2022

As lágrimas amargas de um soldado ucraniano









É possível que um jornalista nunca deixe de o ser Todas as semanas dos últimos 9 anos, desde que uma parte da minha vida me foi subtraída, há sempre pelo menos uma noite em que sonho que ainda sou jornalista e estou a trabalhar na redacção em que passei 23 anos, tomando notas e procurando a melhor forma de escrever as minhas reportagens e os meus textos, empenhado em não me esquecer de nenhuma informação essencial.  É provavelmente por isso que não sou ainda capaz de me alhear das notícias do mundo, das suas grandezas e misérias, do resíduo de realidade que nelas há.

Mas sou, acima de tudo, um cidadão e um pai. Foi talvez por isso que me emocionei ao ver, hoje, as imagens de um pai ucraniano que se despedia do filho para poder continuar a lutar pelo país em que acredita, pela vida em que acredita e que deseja para si e para os seus. A criança chorava e batia no rosto do pai. Agredia-o no capacete como qualquer menino mimado que não quer apartar-se. O pai procurava acalmá-lo, fingindo uma força que provavelmente lhe faltava: aconchegava-o na farda e talvez murmurasse palavras doces e de esperança, o pai vai ali e já vem, o pai tem de ir trabalhar e já volta, vai ficar tudo bem.

Vi as imagens e senti nelas as minhas próprias angústias. Vi quando o soldado chorou; quando o soldado armado com uma bazuca a tiracolo foi simplesmente humano e frágil. Vi e tive a certeza de que aquele homem fardado, pronto para a guerra e para a morte, adquiriu, enquanto se despedia, mais uma razão para lutar e viver: poder abraçar o seu filho num país e numa realidade finalmente em paz.