terça-feira, 21 de setembro de 2021

Van Gogh: a luz fulminante das estrelas*
















Vincent Van Gogh viveu os últimos meses num turbilhão — criativo e não só. O rasto deste profícuo período artístico é testemunhado pela sua obra e pelas centenas de cartas que escreveu a partir de Arles, Saint-Rémy-de-Provence e Auvers-sur-Oise, tendo como principal destinatário o irmão Theo. 


 Não sigo nenhum sistema conhecido. Golpeio a tela com pinceladas irregulares, que deixo como estão (...). Estou tentado a pensar que os resultados são tão perturbadores justamente para não agradar às pessoas com ideias preconcebidas sobre a técnica. 

Vincent Van Gogh começou a desenhar e a pintar desde muito cedo, estimulado pela mãe e, mais tarde, pelo irmão Theo, que o incentivou a dedicar-se profissionalmente à pintura e que também o sustentava. Mas tardou a afirmar-se artisticamente. O ponto de viragem aconteceu no início de 1888, quando o pintor se mudou para Arles, no sul de França. Van Gogh passou a trabalhar de modo frenético, de manhã à noite. Abandonou os cânones da pintura da época e dedicou-se a criar um estilo próprio, absolutamente original, propondo-se refundar a arte moderna em parceria com Paul Gauguin, de quem se tornara amigo e que o retratou enquanto pintava os famosos girassóis. Datam deste período alguns dos trabalhos mais conhecidos e disruptivos de Vincent, dos sombrios auto-retratos às luminosas e alucinantes noites estreladas, passando pelo célebre Campo de Trigo Com Corvos, a Casa Amarela, o Quarto em Arles ou Memória do Jardim de Etten. Nas centenas de cartas que escreveu a Theo, Vincent incluía esboços dos quadros em que estava a trabalhar, muitas vezes a pedido do irmão: desenhava-os de forma simples e escrevia os nomes das cores que pretendia utilizar. Também refletia sobre os mecanismos do mercado da arte, que tanto o penalizaram e terão contribuído para agravar a depressão e os problemas mentais que o afetavam. Estes distúrbios terão estado também na origem de um dos mais conhecidos aspectos da biografia de Van Gogh. 

Meu querido Theo, Para te tranquilizar completamente e de viva voz, estou a escrever-te estas poucas palavras no escritório do doutor Rey, que já conheces. Pretendo ficar aqui no hospital por mais alguns dias — depois atrevo-me a planear regressar a casa com muita calma. Peço-te apenas uma coisa, que não te inquietes, pois isso deixar-me-ia demasiado preocupado. 

Dez dias depois de ter cortado a orelha esquerda, na noite de 23 de dezembro de 1888, em Arles, Van Gogh escreveu ao irmão a partir do hospital daquela cidade. A carta faz referência a uma discussão que tivera com Paul Gauguin e que, de acordo com alguns investigadores, terá tido uma influência decisiva no agravamento do estado psíquico de Vincent e na decisão de se automutilar. O outro facto que terá precipitado aquele gesto será a carta que o pintor recebeu de Theo, na qual o irmão anunciava o seu casamento com Johanna Bonger. Nascido em 1853, Vincent revelou distúrbios de personalidade desde a juventude, associados à doença bipolar de que padecia. Estes problemas foram agudizados pelo alcoolismo (bebia grandes quantidades de absinto) e pelo fracasso da sua carreira como pintor. 

 A uma crise como aquela que agora tive seguem-se sempre três ou quatro meses de tranquilidade absoluta (...). Preciso de ar. Sinto-me mortificado pelo aborrecimento e pela mágoa. 

Após a mutilação da orelha esquerda, Vincent Van Gogh foi internado num hospício em Saint-Rémy-de-Provence, onde ficou até 13 de maio de 1890. Manteve uma intensa atividade criativa (pintou, por exemplo, o célebre De Sterrennacht, que concluiria em junho), mas foram-lhe diagnosticados ataques de epilepsia. Impossibilitado de beber e com uma dieta controlada, manifesta, numa carta a Theo datada de 4 de maio, o desejo de sair da clínica e ir a Paris. Um estudo de investigadores do Hospital Universitário de Groningen, apresentado em 2021, concluiu que as restrições impostas pelo tratamento poderão ter acelerado o fim do pintor. Vincent continuava a fumar muito e a dormir muito pouco, o que, juntamente com a abstinência do álcool e a má nutrição resultantes do acompanhamento médico, terá estado na origem de surtos psicóticos e de delirium tremens, agravando substancialmente o seu estado psicológico e conduzindo-o à depressão que motivou o trágico final da sua vida, a 29 de junho. 

Estou a aplicar-me às minhas telas com toda a minha atenção, procurando fazer como alguns pintores de que gosto e admiro profundamente. 

Seis dias antes, a 23 de julho de 1890, com 37 anos, Vincent escreveu a Theo uma carta que este considerou “incompreensível”. O pintor vivia então em Auvers-sur-Oise, em França, sendo acompanhado de perto por um médico, o doutor Gachet. Numa missiva que enviou à esposa, Theo diz que a carta do irmão incluía um par de esboços de que havia gostado. “Se ao menos ele conseguisse encontrar alguém que lhe comprasse um ou dois quadros. Mas temo que isto vá demorar muito tempo”. Hoje, os quadros de Van Gogh estão entre os mais valorizados pelo mercado da arte e Vincent é reconhecido como um dos maiores pintores de todos os tempos.


*Por não ser suficientemente "leve e divertido", este texto, previamente encomendado, não foi publicado numa revista cujo nome não referirei. A sua redacção também não foi considerada para pagamento. Publica-se aqui para que tenha ao menos algum uso e possa aproveitar ao ocasional leitor que por cá passe.